por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
Quem já passou dos cinquenta sabe como era. A partir dos doze, treze anos, a gente começava a sonhar com o dia de completar dezoito. A idade da libertação, da autonomia, da decisão sobre a própria vida. Para alguns – principalmente algumas – significava a possibilidade de se casar sem depender da autorização dos pais e ter a própria casa. Mesmo que não fosse por uma grande paixão, ou que às vezes o casamento se revelasse uma bela roubada, mas era, para a grande maioria das moças, a única maneira de sair de casa, muito aguardada.
Havia também a turma que ansiava por aquele momento pela possibilidade de estudar em outra cidade, longe da família, quando a condição familiar permitia, ou de arranjar um emprego e se tornar independente, palavra mágica para muita gente da minha geração, inclusive eu. O importante era buscar um caminho de saída do controle dos pais, que sempre resistiam. Às vezes demorava muito, ou nem acontecia, causando muita frustração e amargura.
Saí aos vinte e um, para morar e trabalhar em outra cidade. Grana apertada, trabalho novo, o “conjugado” dividido com uma amiga, depois com outra, e tome desafios, sustos, tarefas inadiáveis para virar gente grande. A maturidade não acontece de graça. Dói e cansa muito. Quando olho para trás, os percalços, que não foram poucos, estão lá, guardados na memória, e junto com eles a incrível sensação de tê-los vivido, de maneira que hoje possam ser olhados com lentes meio desfocadas, generosas. Não os troco por nada.
Não são mais assim as famílias, nem os filhos, nem o mundo adulto. Parece que os pais embarcaram numa viagem alucinada de compensar suas crias pela dureza da vida. Como se fosse possível. Hoje temos mais dinheiro e muito mais recursos que facilitam as coisas, e mesmo assim as pessoas acreditam que têm o dever de entregar tudo esmiuçado aos filhos, negando-lhes a oportunidade única de tomar decisões cruciais, arriscar e encarar as consequências. Está-se apagando o sentido de construir uma trajetória, conquistar um lugar pra chamar de seu. Este tem que estar pronto e muito bem equipado.
Aceitar empregos menores, começar por baixo, nem pensar. Morar apertado, sem empregada, tendo que montar a própria casa aos poucos, andar de ônibus, tudo isto soa como uma humilhação e uma maldade com os mauricinhos e patricinhas cultivados a smartphone e conexão internet de alta velocidade, entre muitos outros mimos. Mesmo nas famílias com menos recursos, noto uma tendência generalizada de poupar os jovens, tratá-los como coitados ou como bibelôs, sustentá-los indefinidamente, sem colocar um limite para que busquem a autonomia e entrem para a vida adulta.
Que o afeto, o acolhimento e o apoio dos pais são essenciais, disto não tenho um segundo de dúvida, mas poupar os jovens de lidar com a ralação da vida não me parece um bom caminho. Acho injusto com eles mesmos. Porque, se não for por outra razão, é bom não esquecer que pais e mães não duram para sempre.
* * * * *
*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.
