por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*
Vô, o que é prostituta? Era a minha irmã, uma lourinha espevitada de uns oito anos, atormentando nosso avô puritano na sagrada soneca da sesta. Azar dele, que sempre cochilava na poltrona da sala, com o Estadão caído sobre a cara. Desprevenido, ele arregalou os olhos, gaguejou qualquer coisa desconexa e voltou a se refugiar no sono, enquanto eu disfarçava o meu interesse na questão inesperada e só observava, bem caladinha. A perguntadeira fez aquela cara de “cadê a minha resposta?” por alguns segundos, mas logo uma tia a distraiu com outra coisa, e ficou por isso mesmo.
São muitas as explicações, justificativas, análises, condenações, julgamentos e punições que se podem dar à prostituição e às prostitutas. Dependem do contexto, das condições socioeconômicas, da localização geográfica, da estação do ano, das condicionantes religiosas, culturais e políticas. Dependem, ainda, das conveniências e do grau de hipocrisia, falsidade e veneno. O que dificilmente varia é a convicção de que as putas são escória, mercadoria, sujeira, vivem num submundo mais ou menos invisível, encoberto pela noite em suas muitas manifestações, convenientemente ignoradas e esquecidas, exceto quando se solicitam seus serviços. Espera-se que se conformem com a sua condição de vítimas exploradas, ou que só mostrem suas garras dentro dos limites de seus cafofos bregas.
Mas no caminho havia Gabriela Leite. Começou a dizer que escolhera ser puta – com todas as quatro letras – que esta era sua profissão, não aceitava o rótulo de pobre coitada vítima, ignorante e marginalizada. Para enorme espanto de padres, deputados, clientes, donas de casa, feministas, pesquisadoras, governantes e companhias ilimitadas, inclusive putas, levantou as bandeiras mais improváveis, com determinação e desenvoltura. Reivindicava visibilidade e direitos para... putas, veja você. Causou turbulências e comprou brigas a torto e a direito, até com as peruas paulistanas da Daslu, com uma provocação deliciosa, que as tontas vestiram como luvas de pelica zebrada, desperdiçando a oportunidade de viajar de carona na genialidade da Daspu.
Gabriela morreu há poucos dias, privando-nos da sua inteligência, sua garra, sua leveza e sua irresistível ironia, sempre prontas a detonar a discriminação e a mediocridade. Deixou-nos uma cauda de cometa. Espero que os rasgos abertos por ela na blindagem da vidinha pequenininha de quase todos nós sejam irreversíveis. “O que é prostituta?”, uma pergunta complexa, por mais fácil que pareça, hoje pode receber respostas em palavras justas e ao mesmo tempo prenhas de direitos, dignidade, transparência e honestidade intelectual, graças às poucas como ela. Meus profundos respeitos, Gabriela.
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