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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Dr. Rino e as receitas da Vovó (parte 2)

Dando continuidade a edição passada, segue a segunda metade das “Receitas da Vovó”, com mais três segredos medicinais do povo brasileiro. Só, por favor, não repitam em casa!

Abacaxi é melhor
Domingão, 23 30h, o tempo se arrasta no pronto-socorro. Parece que nunca chega a tal da segunda-feira. O que chega mesmo são pacientes, um atrás do outro. E nessa de “um atrás do outro”, chega seu Sebastião, 44 anos, cabisbaixo ao entrar no consultório:
- Boa noite Dr. Tô com um problema, sabe...
- Boa noite... Que problema, seu Sebastião?
- É Dr... é meio chato de contar, mas... Tem que resolver, né?!
- Por isso o sr. veio, não foi?! Vamos lá, o que acontece?
- Então Dr. Tava com uma prisão de ventre danada, faz uns dias... E eu sou motorista... de caminhão de feira.
- Não entendi. Como assim?
- Então Dr., meu colega, carregador do caminhão, me falou que abobrinha era bom prá curar isso.
- E?
- E aí que eu peguei e usei!
- E que problema tem nisso, seu Sebastião?
Nesse momento, com o olhar no chão, voz trêmula e a testa brilhando de suor, seu Sebastião revela a tão buscada cura para a constipação intestinal:
- É que coloquei uma lá... lá embaixo. Por trás. E não saiu até hoje, faz 03 dias.
Bela desculpa! Bela!

A ceia do papai
A Otorrinolaringologia, “ciência dos buracos de cima”, a qual exerço com todo o orgulho e dedicação possíveis, é fonte de momentos escatológicos interessantíssimos em meu dia-a-dia. Dentre uma dezena que me recordo, o mais marcante envolveu Roberto, 30 anos, o papai de primeira viagem; e Lucas, 1 aninho e meio, o primogênito. Eis que entram em meu consultório:
- Olá seu Roberto, como vai? O que acontece com o Lucas?
- Ah Dr., esse menino só vive com o nariz entupido, cheio de catarro! À noite então, é uma roncadeira danada! Ele quase não respira!
Mais algumas informações menos relevantes e vou examinar o pequeno Lucas. A queixa do pai procedia: o menino com o nariz bastante congestionado, com um catarro esverdeado espesso em ambas as narinas, certamente impedindo uma respiração adequada. Antes de finalizar o exame físico, Roberto completa:
- E Dr., sabe o que eu faço? Quando ele tá muito entupido à noite, sem dormir direito, eu pego e chupo o nariz dele!
- Como é que é???
- Chupo Dr., com a minha boca mesmo. Fica limpinho, aí ele dorme melhor! Tem algum problema em fazer isso?
Talvez prá quem goste de ostras deva ser uma delícia!
Leia também: Dr. Rino e as receitas da vovó (parte 1) 
O fim da espinhela caída
Em visita aos pacientes internados na enfermaria do hospital-escola, conheço seu José. Homem simples, agricultor desde o berço, internado agora aos seus 66 anos por complicação de um enfisema pulmonar, fruto de seu hábito de fumar cigarros de palha durante décadas. Em meio à detalhada história clínica típica de estudante de Medicina, seu José revela:
- Tava tomando uns remedinho da roça dotô! Bem melhor que aqueles comprimido que o outro médico passô! Aqueles eu parei! Só que peguei aquela friage do final de semana e, aí, deu nisso!
- Que remédio da roça, seu José?
- Meio copo de óleo, com um pouquinho de azeite virge, dois dedinho só! É prá me curar dessa espinhela caída! É bão dimais. Chega engraxa o peito do cabocro!
Pois é Hipócrates, você não sabia de nada MESMO!

Dr. Rino não é contra fitoterapia ou medicinas alternativas, até pelo fato de grande parte das medicações serem fabricadas a partir de extratos naturais (como o anticoagulante Ancrod®, derivado de veneno de víboras da Malásia e que diariamente salva a vida de milhares de pessoas do derrame cerebral; ou a própria Aspirina®, analgésico e antitérmico, extraída da casca do salgueiro). Entretanto, absurdos como os acima, além de não possuírem nenhum efeito benéfico cientificamente comprovado, podem trazer conseqüências piores que a própria doença, mesmo quando não tratada.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Dr. Rino e as receitas da Vovó (parte 1)

Que o Brasil é um país cheio de tradições, lendas e crendices populares, todos já sabem. Da existência de sacis-pererês ao azar trazido por passar embaixo de escadas, essa riqueza cultural invade os hábitos de vida do brasileiro e, inexoravelmente, os consultórios médicos, como você poderá conferir nessa e na próxima edição do Dr. Rino.

Quem disse que 
umbigo não serve 
prá nada?

Entra a mamãe com o bebê de colo, 40 dias de vida, com um quadro intenso de conjuntivite:

- Dr., meu menino tá com esse pus nos olhos faz umas duas semanas.
- E a sra. não o trouxe antes por que?
- Ah Dr... tava tratando em casa com “água de umbigo”!
- “Água de umbigo”?
- Tá aqui o pote, Dr.!

Eis que a mamãe saca da bolsa um pode de azeitona com uma água amarelada e um pedaço de algo indecifrável boiando:

- Então Dr., é essa aqui! É o cordão umbilical dele que a gente deixa na água prá curtir desde que ele nasceu por uns 10 dias, e depois pinga essa água nos olhos de manhã e de noite... Mas pelo jeito não tá funcionando, né?! Por que será?

Óleozinho morno 
esquentado com um 
dente de alho

Como médico otorrinolaringologista, trato diariamente de muitos pacientes que vêm ao consultório com dor de ouvido, de crianças a idosos. E ainda não vi um sintoma que é mais tratado de forma caseira do que esse que vou contar. O tradicional “óleozinho morno esquentado com um dente de alho” que as titias e vovós fazem e pingam há décadas em nossos ouvidos ganhou adaptações e incrementos, sendo esse o mais inusitado que já ouvi:

- Dr., o Gabrielzinho tá de novo com dor de ouvido e febre, já é a quarta vez em 3 meses...
Foi a deixa para que eu já perguntasse automaticamente:
- E a senhora pingou algo nos ouvidos dele?
- Sim Dr., coloquei um azeitezinho morno, em que fritei os tatuzinhos.
- O que???
- Aqueles tatuzinhos Dr... sabe tatuzinho de tijolo? Que se enrolam quando a gente encosta neles?
- Tatu- bola?
- Isso! Mas o melhor mesmo é ninho de beija-flor! Esquenta no azeite e pinga! Uma benção!
Sim dona Maria... uma benção.

Bife à rolê 
(não leia se você 
enjoa fácil)

Esse caso não se refere a um tratamento caseiro, mas como crendice popular é dos mais curiosos e nojentos que presenciei. Dona Fátima, 33 anos, vem ao consultório com um andar esquisito, as pernas meio abertas e aparentando dificuldades para caminhar. Um odor muito ruim a acompanhou ao entrar na sala.

- Dr., tô com um “escorrimento” muito fedido “lá embaixo”!
- Desde quando?
- Uns dias, não me lembro. E tá doendo o pé da barriga também... Tive até febre ontem.
- Vamos ver.

Posicionada na mesa ginecológica, tive a visão de algo bem estranho. Uma massa protruindo da vagina, de aspecto carnoso, com uma secreção amarelo-esverdeada de odor intensamente putrefato. Seria um tumor? Ao palpá-la, vi que se movia facilmente e consegui tracioná-la, saindo em minha mão algo como um pedaço de carne podre amarrado com barbantes. Pergunto, obviamente:

- Dona Fátima, como isso veio parar aqui?
Envergonhada, responde:
- Aiii Dr., tinha me esquecido, foi da “amarração do amor” que fiz... Era prá atrair um marido prá mim...
- Desenrolo o que parecia ser um bife e, dentro, um papelzinho em que, apesar de borrado, se conseguia ler: “Claudemir Ribeiro”.
Pois é seu Claudemir, me deve uma, hein?!

Dr. Rino não é contra fitoterapia ou medicinas alternativas, até pelo fato de grande parte das medicações sintéticas serem fabricadas a partir de extratos naturais (como o anticoagulante Ancrod®, derivado de veneno de víboras da Malásia e que diariamente salva a vida de milhares de pessoas do derrame cerebral; ou a própria Aspirina®, analgésico e antitérmico, extraída da casca do salgueiro). Entretanto, absurdos como os acima, além de não possuírem nenhum efeito benéfico cientificamente comprovado, podem trazer consequências piores que a própria doença, mesmo quando não tratada.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Humor em pílulas # 5

Um olhar diferente. Foi assim que pensei em abrir minha coluna em 2010. Quem sabe, o olhar do paciente?! Será que nós, médicos e profissionais da saúde, também não damos umas “bolas fora” de vez em quando? Minha resposta é não, pois é de vez em sempre.

Tal Mãe, Tal Filha
Terça-Feira, 10 da manhã, rotina de sempre: consultas de pacientes agendados e, quando o tempo permitia, atendia alguns pacientes de encaixe, que não haviam marcado hora e procuravam o hospital em caráter de urgência. E foi entre as dezenas de consultas que chamo Sílvia. “Ah, Sílvia... se eu soubesse, teria ido tomar um café em vez de te atender.”

- Olá, bom dia Sílvia, em que posso ajudá-la?

[Sílvia, 19 anos, entrou acompanhada por senhora lá com seus 42 anos, sua mãe... obviamente]

- Bom dia Dr.! Vim aqui porque estou com tosse, um pouco de peito cheio e sensação de falta de ar, não sei bem...

- E há quantos dias está assim? Teve febre?

- Não Dr., febre não. Mas tô assim faz uns três dias, começou tipo uma gripe.

Nesse momento, dirigi-me à mãe de Sílvia:

- Sra., me diga uma coisa: sua filha, na infância, teve muitos problemas pulmonares, como crises de asma ou...

Antes que eu pudesse concluir, Sílvia rispidamente me interrompeu, para dizer a última frase que pensaria em ouvir naquela situação:

- Dr., ela não é minha mãe... É minha esposa.

É no sentido figurado, pô!

Pronto-Socorro Municipal, sala de emergência. A materialização do caos, muito distante do que Dr. John Carter e sua equipe no seriado E.R nos dão a impressão de ser. Macas, soros e sangue entrecortados por jalecos brancos que vão e vem tentando fazer o possível. Logo entra novamente a equipe de resgate do SAMU, com mais um paciente grave para ser internado. Feito o atendimento inicial, a conduta foi dada à enfermagem:

- Meninas, por favor, paciente hemodinamicamente instável! Rápido: quero um acesso venoso e um sorão de 1000 no pau!!! Agora!!!

Feito o pedido, viro-me para assinar a papelada do SAMU e, em um minuto, volto ao paciente, para prosseguir com o atendimento. E a cena que se segue é quase indescritível: o paciente está sim, com o acesso venoso solicitado, em braço direito. E está sim, com o soro de 1000ml. Porém, o soro não está na veia, mas sim, no pênis! A auxiliar de enfermagem, inexperiente (e, digamos, maliciosa) entendeu que o “sorão de 1000 no pau” era no “pau” mesmo, e não “rapidamente”, como eu quis dizer. É no sentido figurado, pô!

Dr. Rino é médico e, há meses, considera toda senhora que acompanha uma moça em consulta uma Cássia Eller em potencial e, sem dúvida, tem evitado o uso de gírias desnecessárias no ambiente de trabalho.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Humor em pílulas # 4


Vai Entender...


Sábado de plantão, 16h, hospital lotado. De repente chega ao meu consultório duas fichas de pacientes, unidas por um clipe, o que significa que são pacientes que vieram e querem ser atendidos juntos, o que é muito comum entre casais, irmãos, amigos e, por que não, amantes. Da porta do consultório, chamo os dois pacientes, juntos:

- Sr. Amâncio e Sra. Rute!

Entra o casal. Amâncio, 55 anos. Rute, 52 anos. Cumprimento os dois, apresento-me e peço-lhes que se sentem. Começo, como de costume, pela mulher:

- E aí dona Rute, o que a senhora sente?

Foi um blá-blá-blá de 5 minutos. E o tal do Amâncio só ouvindo, curiosamente sem fazer nenhum dos comentários típicos de esposo de longa data: “- É Dr., ela também abusa, deita toda noite de cabelo molhado! Só pode é ficar doente!”, ou “- Tá vendo, eu falo, eu falo! Mas só acredita se o médico fala!”. Colhida a história clinica sem interrupções, examino a paciente. Diagnóstico fácil, sinusite aguda. Preencho a ficha, a receita e oriento a paciente. Amâncio mudo. Finalizo:

- Alguma dúvida dona Rute?

- Não Dr., nenhuma. Obrigada.

- Então vamos agora pro Sr. Amâncio. O que o...

Fui interrompido com a paciente se levantando e saindo da sala, sem se despedir de mim e, mais estranhamente, do Amâncio. Este somente observa Rute saindo, calmamente, sem esboçar qualquer reação. Após a paciente fechar a porta, questiono:

- Ué, Sr. Amâncio?! Porque sua esposa não quis esperar que eu terminasse sua consulta? Algo de errado???

- Não Dr. Eu nem sequer conheço essa mulher...

Dr. Rino é médico, e tem a convicção de que, mesmo atendendo centenas de pacientes por mês, e operando outras centenas por ano, jamais entenderá o que se passa na cabeça do ser humano.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Humor em pílulas # 3


Top 10


A Medicina é, certamente, a área que mais proporciona o contato direto entre o profissional e o cliente. Nessa relação interpessoal tão estreita, diariamente, testemunhamos momentos que vão do trágico ao cômico, que às vezes me fazem parar e pensar o porquê dos livros de Medicina não conterem um capítulo entitulado “Os Absurdos na Prática Médica”.  Afinal de contas, onde está o tal do Dr. House quando mais precisamos dele?

Caso 10 – O Romântico


- Dr, tô com muita dor “na costa”!

- E começou há quantas horas essa dor?

- Olha Dr, foi logo depois que eu USEI a esposa!

Caso 9 – Caso Raro

- Dr, não consigo assoar o nariz e, quando consigo, VOMITO!

Caso 8 – Arquivo X

- Bom dia senhora. Qual a sua queixa?

- Dr, quando pego o celular na mão tenho uma sensação estranha... o Dr sabe né?! Celular é um BICHINHO VENENOSO...


Caso 7 – Torcicolo

- A senhora já teve torcicolo alguma vez?

- Já Dr, no JOEIO!


Caso 6 – Alergia

- Dr, tenho alergia daquele negócio das “pranta”...

- Do que? Do pólen?

- Não Dr, da FOTOSSÍNTESE!


Caso 5 – Gente Que Faz

- O senhor é diabético?

- Não Dr, sou OPERADOR DE MÁQUINAS!

Caso 4 – Parece Piada

- Dr, estou rouco desde semana passada.

- Mas foi após algum tipo de abuso vocal? Após gritar ou falar muito?

- Não Dr...

- E a senhor trabalha com a voz?

- Não Dr, MEUS AVÓS JÁ MORRERAM!

Caso 3 – Pós-Operatório

- Pela cicatriz, a senhora já operou o abdome. Qual o motivo?

- Dr, tive um CISCO NO ORVALHO e ESPERMA DE GALINHA!

(Tradução: “cisco no orvalho” = cisto no ovário; “esperma de galinha” = esplenomegalia)


Caso 2 – Malditos Genéricos

- A senhora tem alguma doença?

- Sim Dr, tenho pressão alta e diabete.

- E a senhora se trata, toma medicações de controle?

- Sim Dr! Tomo CABRITO FRIO, MOCOTÓ DA TIA ZILDA e DE BEM COM A VIDA...

(Tradução: ”cabrito frio” = captopril; “mocotó da tia Zilda” = hidroclorotiazida; “de bem com a vida” = glibenclamida)


E, orgulhosamente, o Caso 1 – Lactobacilos Vivos

- E aí Jovanete, como ficou do tratamento da Candidíase? Melhorou? Usou o creme vaginal?

- Sim Dr, tratei direitinho, o “escorrimento” parou já faz uns 10 dias! Até o “comichão na perseguida” melhorou!

- Que maravilha, fico feliz!

- Ah Dr, mas meu marido não gostou muito não...

- Nossa, mas porque???

- É Dr... agora ele tá reclamando que eu parei de dar MEU LEITINHO prá ele...


Dr Rino é médico e colunista do Blog Rodapé; se caga de rir quando pacientes com queixas absurdas fecham a porta após saírem da consulta.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Humor em pílulas # 2


Catarrinho na garganta


É muito comum no dia-a-dia médico as chamadas “consultas múltiplas”. São famílias impulsionadas por um único ente querido doente que resolve passar em consulta médica mesmo saudáveis.
-Ah, Dr.! Já aproveitamos que o Pedrinho está doente e resolvemos passar também!
Acham isso o máximo: uma consulta médica sem queixas às 23h de um domingo, no pronto-socorro! A mais pura falta de bom-senso, reprovada ferrenhamente por nós, médicos.
O paciente tem todo o direito a quantas consultas médicas preventivas quiser, desde que num ambiente adequado, com consulta agendada, e não em um pronto-socorro; o próprio nome já define os propósitos do atendimento médico nesses locais: urgências e emergências, não consultinhas de rotina. Prá não citar o famoso check-up, exemplos:
- Então Dr., viemos eu, minha esposa e meus três filhos fazer um check-up antes de ir prá praia. Estamos com as malas no carro, vamos descer agora. Vai que ficamos doentes bem no meio do feriadão, né?! Sabe como é...
- Sei... igual revisão de carro antes de pegar a estrada, né?!
E eles acham graça...
As tais consultas múltiplas variam desde um acompanhante saudável até quantos imaginarmos. Já atendi seis em uma tacada só! Vieram pai, mãe, filho, filha, avó, cunhado e vizinha. Só faltou o mascote da casa. Até perguntei por ele, se chamava Dolly, uma cadelinha vira-latas de 2 anos, a qual não pôde comparecer à consulta, uma pena... Porém, as mais comuns são as duplas, ou de irmãos, ou casais.
Certa madrugada de plantão, 4h da manhã, uma consulta tripla me acorda (sim, pasmem: médico também dorme!). Duas irmãs gêmeas e a avó. Como, do nada, no meio da madrugada, duas irmãs gêmeas e a avó ficam doentes ao mesmo tempo, necessitando de pronto atendimento médico? Nem gripe A, nem varíola, nem ebola tem uma transmissibilidade tão alta!!!
Ao levantar, sonolento, me arrastar até o elevador que me levaria ao consultório tinha uma certeza: ou descobriria uma nova doença ou perderia completamente minha paciência.
Chamo as três “doentes”, que na verdade são quatro, a mãe das gêmeas acompanhava o trio. As gêmeas vestidas cafonamente com a mesma roupa. A primeira, Gaby, 6 anos. A mãe inicia o relato dramático dos sintomas da criança:
- Ameaça de febre, Dr.!
- Ameaça de febre, senhora? O que é uma ameaça de febre?
- Então, ela parece que está com frio...
- Senhora, são 4h da manhã, está uns 10°C aí fora, eu também estaria com frio.
Examino. Obviamente normal. Receito dipirona caso a ameaça se torne realidade. A segunda do trio, Paty, 6 anos.
- E a outra, o que sente, senhora?
- Então Dr... por elas serem gêmas, tudo que faço prá uma, tenho que fazer prá outra igual, senão ficam tristes... Então como a Gaby ia passar aqui, resolvi trazer a Paty.
- Quer dizer então que a senhora acordou e trouxe sua filha ao hospital à essa hora para que não fique triste de não ter passado no médico também?
- Isso mesmo.
Minha paciência havia ficado no 3° andar, embaixo do meu travesseiro. Levanto da minha cadeira puto, muito puto, e examino a segunda mimada da prole.
- Ela está normal senhora, mas se quiser gastar dinheiro posso lhe fazer uma receita.
- Não Dr., melhor não...
É a vez da avó:
- E a senhora, dona Idalina? Veio também porque ia ficar triste se as netas passassem e a senhora não?
- Não Dr., meu caso é outro. Tenho um catarrinho na garganta que não desgruda nunca.
- Há quanto tempo?
- Uns cinco anos...
- Então a senhora tem um “catarrinho na garganta há cinco anos” e decidiu, no meio da madrugada e no pronto-socorro, resolvê-lo?
A velha notou minha impaciência e ficou muda. Apontei a cadeira de exames.
- Tudo normal senhora, como esperado. Vai fazer alguns exames em horário comercial e, com os resultados, agendará uma consulta, fora do pronto-socorro.
Rabisco a papelada e a mãe recomeça:
- Dr., qual a diferença entre Novalgina e Tylenol?
Xingá-la era o caso, mas não fiz, as frações de segundo me recordaram os sacrifícios para obter meu CRM; jogá-lo pela janela em uma situação ridícula como essa seria imperdoável. Respirei fundo.
- Senhora, Novalgina é dipirona, Tylenol é paracetamol.
- Mas e o efeito deles, são...
Sobressaltei da cadeira, interrompi a lorota e abri a porta. Entreguei os pedidos e disse rispidamente:
- São semelhantes. Boa noite.
Levantaram das cadeiras simultaneamente, as crianças zonzas de sono, sem entender, assim como eu, o que foram fazer lá. A avó desorientada e a mãe resmungando, após uma consulta médica proporcional às queixas do pacientes.

Dr. Rino é medico e colunista do Blog Rodapé; fica puto com paciente sem noção que acha que pronto-socorro é passeio no shopping.

domingo, 12 de julho de 2009

Humor em pílulas # 1

De graça, até toque retal

Na minha (ainda) curta vivência em Medicina, dentro da realidade brasileira, por diversas vezes me perguntei: o povo é doente ou é ignorante? Falta mais saúde ou educação? Não sei.
Há alguns anos, durante meu 4° ano da faculdade, o chefe da disciplina de Urologia convidou alguns alunos a participar de uma tal de “Campanha da Próstata”.
A campanha seria direcionada exclusivamente para pacientes encaminhados da rede de unidades básicas de saúde da cidade, os quais já teriam passado por uma triagem prévia se houvesse suspeita clínica de doença prostática. E o que faríamos na campanha, basicamente, seria o temido “toque retal” em todos os pacientes.
Manhã ensolarada de sábado e a recepção do hospital lotada de senhores entre 50 e 80 anos, com seus resultados de exames e senhas em mãos. Dividimo-nos em 4 ou 5 consultórios, cada um acompanhado de um médico supervisor, para iniciarmos as consultas. Conversa rápida, exame minucioso e boas notícias para a maioria dos pacientes. Eram dezenas e só tínhamos uma manhã.
Nesse entra e sai frenético de pacientes (e dedos), entra no consultório um senhor com seus 55 anos, andar caipira, óculos fundo de garrafa, roupas simples e uma fisionomia de anos sob o sol da lavoura. A consulta prosseguiu normalmente:

- Bom dia... porque o senhor veio à campanha?
- O médico do postinho que me mandou aqui dotô. Veio um exame de sangue com pobrema, me falou prá passar com vocês.
- E o senhor sente alguma coisa?
- Ahhh dotô... as vista tão fraca, tenho uma éli de disco e fiz até uma sorolância magnética no ano passado e...
- Não, senhor. A campanha aqui é da próstata... esses outros problemas de saúde o senhor acompanhará com seu médico do postinho, ok?!
- Tudo bem, dotô.
- O senhor quer fazer o exame?
- Sim, vambora!
- Então se deite na maca de barriga pra cima e abaixe as calças e a cueca até os joelhos.

Procedimento padrão: luva, vaselina no dedo indicador e introdução do mesmo no ânus do paciente, em busca de se caracterizar alterações nos contornos, consistência e volume da próstata.

- Vamos lá, vou fazer o exame, relaxe que não dói e dura 30 segundos.

Ao introduzir o dedo, o susto:

- Aaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh!!! Aaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh!!!

Uma combinação de gritos de desespero com uma chave de pernas em meu antebraço que daria inveja em qualquer lutador de vale-tudo; sem contar a sensação de meu dedo sendo esmagado por aquele anel muscular poderosíssimo.

- Calma senhor!!! Calma!!! Largue meu braço!!! Calma!!! Deixe eu tirar o dedo!!!

- Aaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh... aaahhh... ah dotô... ah...

- Mas o que aconteceu??? Doeu? Mal comecei o exame!!! O senhor acabou de me dizer que queria fazer o exame!

E com lágrimas nos olhos e ar de derrota, pausadamente, o paciente disse:

- Ahhh dotô... mas eu não sabia... Eu não sabia que era “assim”...

Dr. Rino é médico (usa aqui pseudônimo)
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