Paul Bloom, professor de psicologia da universidade de Yale, nos EUA, fez uma palestra no TED – que volta e meia o NR indica – sobre as origens do prazer.
Segundo sua tese, “nós não reagimos às coisas ao vê-las, sentí-las ou ouví-las”. Ao contrário, “nossas reações estão condicionadas as nossas crenças. O que são? De onde vieram? Do que são feitas e quem fez?”.
Algo que ele chama de humanos “essencialistas naturais”. Por que nós gostamos mais de uma pintura original do que de uma falsificação? Em suma, a palestra foca em algo comum o dia a dia: a história de um objeto muda a nossa experiência com ele?
Joshua Bell, um famoso violinista tocou por 45 minutos num metrô de Nova York e ganhou poucos trocados, foi, segundo consta, praticamente ignorado. A questão é que disfarçado, ninguém que passou por ele sabia quem ele era. Mas sua famosa música estava ali, sendo tocada num violino Stradivarius de 1713 avaliado em 3,5 milhões de dólares. Se soubessem, mudaria algo?
Se o vinho é caro é melhor? Aos olhos de uma criança, se uma cenoura fosse vendida no McDonals poderia ser mais gostosa? Um chiclete comum mascado por Britney Spears ou um taco de golfe usado por um ex-presidente americado vale milhares de dólares pela experiência agregada? Sim, diz Blomm. E isso vale para o prazer e também para a dor.
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 4 de novembro de 2011
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Cansa e dói, mas é bom
A parte mais chata de uma viagem é você caminhar à procura do hotel ou da estação de trem com uma mochila nas costas, um mapa numa das mãos e na outra uma sacola de roupas e sapatos que não couberam onde deveriam caber. É chato quando você coloca, sem saber, o mapa de ponta a cabeça e cai na rua errada, no desvio errado, no fim do mundo errado.
É chato entrar no trem e ir esbarrando com a mochila na cara dos nativos em pânico e ouvir aquele rosnar tipicamente italiano. É chato sair da estação à procura de um ônibus que não está lá e, quando está, descobrir que ele não vai para o hotel que você fez a reserva. É chato quando você, viajante, auto-intitulado experiente, é obrigado a se render a um taxista, que acha que todo o turista é igual e que serve para, no fim das contas e da corrida, ser explorado.
Mas tem a parte boa também, claro. E a parte boa da viagem é chegar ao destino desejado e perceber que o lugar é cercado de verde, de árvore, de campo. Um lugar com muitas livrarias e poucos postos de gasolina, com muitas praças e poucos estacionamentos, com muitas sorveterias e poucas academias de ginástica. É preciso prestar atenção num lugar em que existem mais ônibus do que carros e mais bicicletas do que motos.
Viajar é se surpreender.
A parte boa é perceber que no seu destino, naquela cidade que você escolheu, as mulheres não usam batom rosa, as crianças não têm celular, as atendentes não te chamam de querido com aquele sorriso forçado de orelha a orelha e, mais importante de tudo, os restaurantes não têm televisão. Nessa cidade, de muitas casas e poucos prédios, os homens tiram os chapéus de aba larga para cumprimentar as senhoras que passam.
Viajar, às vezes, é voltar no tempo.
É bom chegar ao hotel e descobrir que ele parece uma casa – e realmente é – e que na casa tem um labrador no quintal, de focinho branco, desajeitado e brincalhão, e que a dona desse hotel-casa é uma senhora atenciosa e simpática, como uma tia Siciliana, como aquela que se vê nos filmes. A parte boa é que o quarto é amplo, com duas grandes janelas para um campo de verde infinito, que o banheiro é maior do que todos os que você já viu na Europa e que a cama é confortável, daquelas que uma noite vale por uma dezena.
Viajar é ver o que nunca se viu antes.
O interessante da viagem é tomar um banho, descansar e sair pedalando pela cidade, parar num restaurante típico e pedir um prato típico e ficar tipicamente boquiaberto com o sabor, com aquela dorzinha no lado da boca, a dorzinha de quem não acredita no que experimenta, de tão bom. Aqui, em Ferrara, cidade a três horas de trem de Roma, você pode ir ao Il Mandolino, na avenida Carlo Mayer (homenagem a Karl May, autor de Winnetou?) e experimentar o antipasto chamado pinzini com salumi nostrani e verdure sott’olio. Em seguida, você pode pedir como primeiro prato um cappellaci di zucca con ragu. O segundo prato, típico da cidade, é salama do sugo com purê que, como nos explicou a garçonete, é a comida servida no natal na cidade... “há mais de mil anos”. A sobremesa, talvez servida há menos tempo, mas igualmente tradicional e inesquecível, é a torta teberina al cioccolato. Se você é daqueles que gosta de comparar, poderia dizer que essa é uma torta parecida com nega-maluca, só que mil anos mais gostosa.
Então, depois disso, você volta para o hotel, escreve um texto contando as suas impressões para nunca mais esquecer. E aí, escrevendo e revivendo, percebe que chegou no lugar certo e que, apesar do cansaço e das costas doídas, viajar ainda é a melhor coisa que existe.
Fernando Evangelista é jornalista, co-diretor do recém lançado documentário Impasse, sobre o transporte coletivo em Florianópolis.
É chato entrar no trem e ir esbarrando com a mochila na cara dos nativos em pânico e ouvir aquele rosnar tipicamente italiano. É chato sair da estação à procura de um ônibus que não está lá e, quando está, descobrir que ele não vai para o hotel que você fez a reserva. É chato quando você, viajante, auto-intitulado experiente, é obrigado a se render a um taxista, que acha que todo o turista é igual e que serve para, no fim das contas e da corrida, ser explorado.
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| Itália: Ferrara, há 3 horas de Roma |
Viajar é se surpreender.
A parte boa é perceber que no seu destino, naquela cidade que você escolheu, as mulheres não usam batom rosa, as crianças não têm celular, as atendentes não te chamam de querido com aquele sorriso forçado de orelha a orelha e, mais importante de tudo, os restaurantes não têm televisão. Nessa cidade, de muitas casas e poucos prédios, os homens tiram os chapéus de aba larga para cumprimentar as senhoras que passam.
Viajar, às vezes, é voltar no tempo.
É bom chegar ao hotel e descobrir que ele parece uma casa – e realmente é – e que na casa tem um labrador no quintal, de focinho branco, desajeitado e brincalhão, e que a dona desse hotel-casa é uma senhora atenciosa e simpática, como uma tia Siciliana, como aquela que se vê nos filmes. A parte boa é que o quarto é amplo, com duas grandes janelas para um campo de verde infinito, que o banheiro é maior do que todos os que você já viu na Europa e que a cama é confortável, daquelas que uma noite vale por uma dezena.
Viajar é ver o que nunca se viu antes.
O interessante da viagem é tomar um banho, descansar e sair pedalando pela cidade, parar num restaurante típico e pedir um prato típico e ficar tipicamente boquiaberto com o sabor, com aquela dorzinha no lado da boca, a dorzinha de quem não acredita no que experimenta, de tão bom. Aqui, em Ferrara, cidade a três horas de trem de Roma, você pode ir ao Il Mandolino, na avenida Carlo Mayer (homenagem a Karl May, autor de Winnetou?) e experimentar o antipasto chamado pinzini com salumi nostrani e verdure sott’olio. Em seguida, você pode pedir como primeiro prato um cappellaci di zucca con ragu. O segundo prato, típico da cidade, é salama do sugo com purê que, como nos explicou a garçonete, é a comida servida no natal na cidade... “há mais de mil anos”. A sobremesa, talvez servida há menos tempo, mas igualmente tradicional e inesquecível, é a torta teberina al cioccolato. Se você é daqueles que gosta de comparar, poderia dizer que essa é uma torta parecida com nega-maluca, só que mil anos mais gostosa.
Então, depois disso, você volta para o hotel, escreve um texto contando as suas impressões para nunca mais esquecer. E aí, escrevendo e revivendo, percebe que chegou no lugar certo e que, apesar do cansaço e das costas doídas, viajar ainda é a melhor coisa que existe.
Fernando Evangelista é jornalista, co-diretor do recém lançado documentário Impasse, sobre o transporte coletivo em Florianópolis.
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