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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Caçula


por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Custo a acreditar, mas é isso mesmo. Meu irmão caçula está fazendo cinquenta anos.

Fui ao hospital conhecê-lo, com a minha irmã menor, nós duas em roupas de domingo, levadas pela nossa avó. Era grande a expectativa, pois eu havia desejado muito que o novo irmão fosse um menino. Entrei no quarto com o coração aos pulos. Minha mãe pareceu feliz de nos ver, o meu pai também estava lá, tudo bem esquisito. Ao lado da cama, um pequeno berço com um embrulho dentro.

Cheguei perto e olhei. Lá dentro, dormia uma criatura muito miúda, vermelha, enrugada e enrolada em muitos panos. Nada a ver com a minha fantasia do bebê rosado e sorridente como os que eu via pelo bairro, e que completei com os cabelos louros e olhos azuis das fotos das revistas. O impacto foi tremendo. Por mim, ele teria ficado no hospital. Como ninguém me perguntou nada, ele foi levado pra casa no dia seguinte. Eu, muito ressabiada, fui me aproximando aos poucos, enquanto ele se transformava no bebê encantador. Ficamos amigos. E agora se dá o desfrute de chegar aos cinquenta anos, minguando minhas últimas reservas de juventude. A do calendário, convém esclarecer. Pelos documentos, hoje sou, definitivamente, uma senhora de respeito. Ou um caso perdido.

Nesse meio-tempo, as décadas se empilharam, com pacotes completos, incluindo meus próprios bebês. No momento, o destaque é a multiplicação de recém-nascidos à minha volta, pelo menos seis, fora uma encomenda de gêmeos. Deve ser por conta de algum hormônio novo na carne de frango, oposto àquele que produz gays. Essa criançada multicolorida está chegando num momento muito louco, em que a internet joga uma pá de cal sobre o nosso jeito de conhecer e digerir o mundo.

Não há nada mais natural do que gente nascendo, morrendo, envelhecendo, indo pra escola, trabalhando, enfim, reciclando a vida. A novidade é uma revalorização do parto normal, que agora leva o sobrenome “humanizado”. Havia quase desaparecido na nossa classe média dos planos de saúde, por causa de um desses desvios muito estranhos que ocupam o lugar dos processos aperfeiçoados pela natureza ao longo de dezenas de milênios. Menos mal que o método de fazer filhos ainda não tenha sido substituído. Os meios programados e assépticos são exceções complementares, aliás, muito bem-vindas. Mas já pensou se viram regra? “Querido casal, a doutora fulana está de férias na Turquia; portanto, o fazimento de crianças de pele morena e olhos azuis está suspenso e será retomado em três semanas.” Valhamedeus.

Tudo conversa fiada. Mas o irmão caçula completar cinquenta anos é demais, né não?

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

terça-feira, 19 de março de 2013

Ótimo dia para nascer



por Ricardo Sangiovanni*

Chovia, mas chovia muito, no dia em que cheguei a este mundo. Chovia tanto que chega derrubou o muro de pedra do Hospital Português, onde nasci. Chovia e era apenas 17 de março, nenhum dia importante, digno de se escrever por extenso. Não era bem o que se pode chamar um Bom Dia Para Nascer, como disse de seu Primeiro de Maio o aniversariante Otto Lara Resende numa crônica de 1991.

Mas pronto, me enxergo, não sou ninguém para interessar a vocês contando do dia em que nasci. Sou pago para escrever a crônica e basta; portanto lá vai.

Começo pelo domingo passado, quando recebemos a visita de meus pais aqui em casa. Em troca de um bom pedaço de pão caseiro, deixaram-me sobre a mesa uma pequena relíquia, que me faria companhia durante essa semana que passou: uma dezena ou pouco mais de páginas em encadernação caseira intituladas “Encontro com D. Annina – Memórias do ano 1982”.

Trata-se da transcrição de um brevíssimo diário redigido à mão por minha tia Annina Sarno, irmã de meu avô Franceschino, italianos os dois. Falar de tia Annina na data de hoje é aliás oportuno, por ter sido ela afinal personagem determinante no concurso de fatos que redundaria nessa minha modesta existência: conta-se que foi ela a grande responsável por convencer meu avô a mudar-se da Itália para o Brasil, no início dos anos 50 – fato ao qual devo a vida, e vocês, a infelicidade de estar em frente à tela lendo este bolodório.

Recordo-me pouco de tia Annina – ela faleceu quando eu tinha coisa de seis anos – , mas há em minha memória um registro esparso de seu feitio alegre e sereno, fazendo-me sorrir n’algum quarto amerelo-penumbroso de piso amadeirado onde terá vivido ou se hospedado.

Bem melhor que minha memória é o tal diário, que registra idas e vindas, passeios, viagens, nascimentos, doenças, enterros e uma série de acontecimentos cotidianamente triviais que se passaram entre janeiro e maio de 1982 – quando ela já se aproximava dos 80 anos de idade e ainda faltavam dois anos para eu nascer.

A transcrição literal deixa entrever na grafia das palavras seja a raiz italiana jamais abandonada, seja o grato enraizamento na brasilidade. Anota que um “entregou a alma ao Creador”; que outros “vieram de avión”; e que houve também uma divertidíssima “reunião alegre no Plegram [play-ground, suponho]”. “Oje”, “tradizional”, “notizias”, “fesdanza” e mais muitas são palavrinhas que revelam dois idiomas imbricados, duas culturas docemente amalgamadas numa forma gentil de pessoa.

Boa italiana, tia Annina estava sempre atenta à comida: merendas e almoços e lanches e jantares estão sempre entre as marcas do dia, registrados geralmente antes de dormir no diário. “Fizemos ravioli”, “a pizza feita por Lina” e “os salgadinhos de Aurora” povoam sempre seus breves relatórios.

Boa brasileira, tia Annina adorava “prosar” e “lorotar”. “Lá encontramos minha gente de Poções stava Peixoto e Dolores prosamos lembrando os nossos tempos”. “E com Du e Noia lorotamos bastante.” E, claro, não perdia uma novelinha. “As novelas também enchem o tempo”; “À noite a novela e a reza do meu terzo.”

Boa serva do Senhor, tia Annina fazia de um tudo para não perder a missa, desfrutando sempre do passeio até as igrejas. Rezava muito o terzo. E em época de semana santa então, não tinha negociação: “Pietro comprou um sítio perto de Lea, todos me chamaram para ir passar a S. Santa, mas não me convem, tenho que ficar aqui pois é tempo de rezar por todos eles que vão para fora (certo?)”

Certo, tia. Tia Annina não raro encerrava o registro do dia com uma interrogação graciosa, como dialogasse consigo mesma, ou com “Deos”, ou com o “meo querido Corinto”, seu marido, então já falecido – jamais saberemos. “Reclamei a Marilene que está sempre imposível quebra minhas cosias de estimação, oje arrancou o dourado do bibelô que Noemia comprou em Manaos, isto me enerva, mas tudo passa. Certo?” Te cuida, Marilene.

Encanta no diário de tia Annina o olhar prosaico cheio de resignada delicadeza, de fino bom humor fino e certo sentido divino para um cotidiano aparentemente repetitivo, sem maior finalidade. Mesmo nas situações mais aviltantes do dia-a-dia, havia uma reflexão de fundo, um agradecimento, um aprendizado. “Depois da missa fui até o I.N.P.S. da Vitória para conseguir a mudanza de pagamento para o banco aqui no C. Grande Economico para não ir a rua Chile receber uma ninharia, mas não deo certo, tinha que fazer um depósito de 10 mil cr. Agradeço pois não tinha juro nenhum era só abrir a conta para a transferência, tá bom?” Uma prova viva de que não há tédio nem falta sentido na vida vivida no registro do sagrado – seja ele (aí já sou eu quem digo) religioso ou não.

Mas o que me chamou mesmo a atenção foi o quanto ela era atenta ao tempo que fazia do lado de fora da janela. Conectada com o tempo da natureza, não deixava passar despercebido se fazia sol ou, principalmente, chuva – ou melhor, “chiuva”. “Amanheceo chovendo”; “o tempo continua chuvoso”; “Chiuva durante a missa”…. há chuva por todo lado.

Dia 19 de abril, enquanto as chuvas não davam trégua à Cidade da Bahia, ela refletiu: “As chuvas continuam, foi obrigada a sospender a missa, o pior e que os pobres com as casinhas de barro e até minhas casas que não são de barro mas a chiuva foi continuando e entrou nas casas com prejuizo e muito susto, e alguma morte, o que acontece que nunca ficamos preparados para a chiuva e para a morte, sempre quasi nos pega de emproviso.”

Porém toda tragédia, bem sabia tia Annina, não era culpa da chuva de Deus, senão das casas e muros dos homens. “A chiuva foi implacavel na chegada no predio me molhei toda. Azar, pois a chiuva é óttima.”

É, tia, pensando bem, aquele dia comum e chuvoso foi um ótimo dia para nascer.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador. 

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