Eu já estava acostumado a ser feriado no dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra, em São Paulo. Mas Brasília, assim como a maioria das cidades e/ ou unidades da federação, ainda não transformou esse dia em feriado. Sinto falta não só porque é um feriado, eba, piscina, mas também porque vi que, pelo menos, as pessoas param para saber do que se trata.
Tenho percebido e valorizado a importância da sensibilização, ou seja, das pessoas pelo menos saberem que aquilo se trata de uma pauta. Muitas vezes, os setores especializados, por exemplo, em Direitos Humanos, têm debates super qualificados e avançados. Mas aquilo não é uma pauta da sociedade, não ganhou corpo. Daí a importância da sensibilização, daquilo que o terceiro setor, com sua mania de produzir um jargão próprio, chama de awareness.
Eu percebia, em São Paulo, que seja pela piada (aê, feriado, viva os negão), seja pela curiosidade, haver um evento chamado de Consciência Negra, isso, de alguma forma, ainda insipiente, ainda inicial demais, chegava na cabeça das pessoas. Aqui, não teve feriado, foi só mais um dia. Em Brasília, capital federal, o dia da Consciência Negra, com o perdão do trocadilho, passou em branco.
Sô negão
Pensei nisso hoje. O presidente Lula falou do dia da Consciência Negra hoje, no seu programa semanal, dizendo que a desigualdade ainda está longe de acabar no Brasil etc. Publiquei uma matéria sobre isso (sou editor de política de um jornal diário, gratuito, distribuído majoritariamente para as classes C, D e E), com uma foto da Agência Brasil, de uma moça negra com um cartaz. Na mesma página, eu havia colocado uma matéria sobre o Senado. O diagramador, que é negro e tem o apelido nada original de “Negão”, colocou a foto do Senado como sendo a da matéria do Lula.
Pauta secundária
Isso me fez pensar, também, como há pautas que são consideradas “secundárias”, da extrema esquerda à extrema direita. A questão das mulheres e de gênero, a questão racial, a questão da infância e adolescência, a dos direitos humanos – são todas secundarizadas em detrimento do “que importa mesmo”, ou seja, a produção, o dinheiro, o poder. Vã inocência. Quem perceber que isso tudo está ligado ganha um prêmio.
Atraso
Mesmo dentro da esquerda, muitas vezes, há dificuldade em pautar essas coisas. Certas correntes de pensamento ainda, até hoje, acham que essas pautas “menores” distraem os militantes de esquerda da “real” luta, que é pelo poder.
Atraso ainda maior
Na chamada direita, então, nem se fala. Muitas vezes esse é o setor da sociedade mais atrelado a ideologias antigas, que, na minha modestíssima opinião, precisam ser desconstruídas, pois ainda fazem parte, muito fortemente, do senso comum, médio, da população.
Exemplos
Imediatamente me vêm à mente o juiz, suspenso recentemente pelo Conselho Nacional de Justiça, que não deu seguimento a um processo com base na Lei Maria da Penha por justificativas religiosas, dizendo que o mundo é masculino, que essa é a ordem divina, como está escrito na Bíblia, e que essa lei era demoníaca. Ou do deputado federal do Rio de Janeiro, reeleito mais uma vez pela orgulhosa família militar fluminense, que falou, em canal público, que está tudo bem bater em filho que está ficando “meio gay”, e que um monte de gente, hoje, agradece aos pais por terem tomando uns safanões.
Os outros e nós
Voltando à foto da moça negra que eu usei na matéria de hoje, sinto que há uma percepção generalizada, que tem a ver com tudo isso que eu escrevi da “secundarização” de determinados assuntos, de que esses temas, justamente, são secundarizados não só por quem está envolvido na política, mas pelo público em geral. O fato de, só porque a matéria falava do Lula, se colocar uma foto do Senado, porque é “dessas coisas de política”, e não da moça negra, mostra isso para mim. O que uma moça negra estaria fazendo em meio a um monte de gente “séria”, homens sisudos, de bigode, terno e gravata?
Ideologia média
Claro que, em nenhum momento, condenei o diagramador. Ele não tem obrigação nenhuma de ler a matéria, e eu que deveria ter indicado, com mais clareza, qual foto ia aonde. O erro foi meu. Só usei-o como exemplo, pois foi isso que me fez parar para pensar. Sem nenhuma intenção de expôr ninguém.
Rodrigo Mendes de Almeida, jornalista, colunista do NR é editor do Jornal da Comunidade em BSB.
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Jornalismo Investigativo dos bons nos EUA
Um texto da Revista Piauí (Caro, trabalhoso e chato) que indico a leitura, sobre o jornalismo investigativo nos EUA. O texto de Branca Vianna fala que o jornalismo investigativo luta para sobreviver naquele país. Fantástico, no entanto, a história do Pro Publica, que faz jornalismo dos melhores sem visar o lucro, só com feras (que ganham bem, trabalham numa pauta anos, se for preciso, e podem não publicar se o resultado não for satisfatório. Chegam a investir 300 mil dólares numa única pauta, tudo bancado por uma fundação que parece estar afim de gastar com coisas relevantes). Taí o meu sonho de consumo na profissão. O legal é que os caras trabalham em parcerias com outras publicações, como New Yorker, New York Times e afins que se interessam, óbvio, em publicar o material. Além do Pro Publica, tem o http://www.publicintegrity.org/ que também faz jornalismo investigativo. Dou um doce para quem topar traduzir as matérias, todas em inglês. (Thiago Domenici)
Brasília é o futuro do Brasil
Talvez seja pela cidade ser um microcosmo do Brasil. Brasília tem apenas 50 anos, e se compõe, basicamente, de gente vinda de outros estados. Hoje, já há gerações de adultos (mais de 20 anos) cujos pais são brasilienses, mas eles ainda são raros. A cidade é meio que um simulacro do Brasil.
A verdade é que Brasília antecipa tendências, comportamentos e etc., que ainda vão acontecer de maneira ampliada. Reparei isso nas eleições presidenciais. Todas as oscilações entre Dilma, Serra, Marina e Plínio puderam ser percebidas, via de regra, poucas semanas antes na capital federal.
Isso, de maneira nenhuma, quer dizer que a cidade é mais “avançada” do que a média do país. Não se pode dizer isso de uma unidade da federação que levou para o segundo turno dona Weslian Roriz, a mulher-laranja que se tornou candidata a nove dias do primeiro turno por “amor” ao marido que estava sendo “humilhado”.
Além disso, no Distrito Federal a primeira colocada foi Marina Silva. Dilma ficou em segundo e Serra, em terceiro. No segundo turno, muito mais movidos pelo desejo, analistas estomacais afirmaram que, com essa característica de Brasília, provavelmente Serra ganharia no segundo turno. Quebraram a cara – os analistas e o Serra. Dilma ganhou aqui, no Brasil e foi eleita.
De fato, equipes de campanha que queiram fazer a sintonia fina de suas táticas, verificando os reflexos de suas peças publicitárias e o tom dos discursos dos candidatos, devem usar o DF como tubo de ensaio. Quem sabe daqui a quatro anos?
GDF
Em total sintonia com seus pares e lideranças nacionais, o PT, com Agnelo Queiroz, encabeçou a chapa que se elegeu para o governo do DF, derrotando pela primeira vez o rorizismo, tendo como vice um cacique do PMDB, Tadeu Filippelli.
Mudança
Agnelo, assim como Dilma, era de outro partido (Agnelo do PCdoB, Dilma do PDT), mas migraram para alçar voos mais altos em termos eleitorais.
PMDB
Os dois vices, Temer e Filippelli, são tidos como extremamente habilidosos, astuciosos e mestres da articulação política. Temer é presidente nacional do partido. Filippelli é presidente do PMDB-DF.
Hábitos semelhantes
Agnelo e Filippelli mostravam sintonia desde o começo da campanha. Os dois usam o mesmo modelo de celular e têm o mesmo protetor e fundo de tela no computador!
Política local
Estranhamente, não consigo encaixar o rorizismo na tese de que Brasília antecipa tendências. A força de Joaquim Roriz, hoje no nanico PSC – depois de perder batalha interna justamente para Tadeu Filippelli –, é impressionante. A origem disso está em uma geração de pessoas, muito pobres e sem recursos materiais, que ganhou lotes de terra de Roriz. Ele criou uma cultura e um vício. Hoje, ganha eleição quem disser que vai dar lote.
Curral
Roriz tem um eleitorado cativo, de aproximadamente um terço da população, que só vai se reduzir à medida em que as pessoas envelhecerem, morrerem e outras gerações forem se formando, sem a cultura clientelista e patronalista da doação do lote. Roriz nunca, nem em pesquisas nem em eleição nenhuma, teve menos de 30% dos votos.

Fim de uma era
Weslian, a senhorinha católica que virou candidata arrojada, conseguiu herdar todos os votos do marido. E não teve NADA além dos votos do marido. No primeiro turno, teve um terço dos votos válidos, ou 440 mil votos. No segundo turno, depois de um mês de campanha violenta, virulenta, que botou a baixaria entre Serra e Dilma no chinelo, ela teve 449 mil votos. Um crescimento insignificante. É o fim de uma era.
Rodrigo Mendes de Almeida, jornalista, colunista do NR é editor do Jornal da Comunidade em BSB.
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| O casal Roriz |
Isso, de maneira nenhuma, quer dizer que a cidade é mais “avançada” do que a média do país. Não se pode dizer isso de uma unidade da federação que levou para o segundo turno dona Weslian Roriz, a mulher-laranja que se tornou candidata a nove dias do primeiro turno por “amor” ao marido que estava sendo “humilhado”.
Além disso, no Distrito Federal a primeira colocada foi Marina Silva. Dilma ficou em segundo e Serra, em terceiro. No segundo turno, muito mais movidos pelo desejo, analistas estomacais afirmaram que, com essa característica de Brasília, provavelmente Serra ganharia no segundo turno. Quebraram a cara – os analistas e o Serra. Dilma ganhou aqui, no Brasil e foi eleita.
De fato, equipes de campanha que queiram fazer a sintonia fina de suas táticas, verificando os reflexos de suas peças publicitárias e o tom dos discursos dos candidatos, devem usar o DF como tubo de ensaio. Quem sabe daqui a quatro anos?
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| Agnelo e Filippelli. |
Em total sintonia com seus pares e lideranças nacionais, o PT, com Agnelo Queiroz, encabeçou a chapa que se elegeu para o governo do DF, derrotando pela primeira vez o rorizismo, tendo como vice um cacique do PMDB, Tadeu Filippelli.
Mudança
Agnelo, assim como Dilma, era de outro partido (Agnelo do PCdoB, Dilma do PDT), mas migraram para alçar voos mais altos em termos eleitorais.
PMDB
Os dois vices, Temer e Filippelli, são tidos como extremamente habilidosos, astuciosos e mestres da articulação política. Temer é presidente nacional do partido. Filippelli é presidente do PMDB-DF.
Hábitos semelhantes
Agnelo e Filippelli mostravam sintonia desde o começo da campanha. Os dois usam o mesmo modelo de celular e têm o mesmo protetor e fundo de tela no computador!
Política local
Estranhamente, não consigo encaixar o rorizismo na tese de que Brasília antecipa tendências. A força de Joaquim Roriz, hoje no nanico PSC – depois de perder batalha interna justamente para Tadeu Filippelli –, é impressionante. A origem disso está em uma geração de pessoas, muito pobres e sem recursos materiais, que ganhou lotes de terra de Roriz. Ele criou uma cultura e um vício. Hoje, ganha eleição quem disser que vai dar lote.
Curral
Roriz tem um eleitorado cativo, de aproximadamente um terço da população, que só vai se reduzir à medida em que as pessoas envelhecerem, morrerem e outras gerações forem se formando, sem a cultura clientelista e patronalista da doação do lote. Roriz nunca, nem em pesquisas nem em eleição nenhuma, teve menos de 30% dos votos.

Fim de uma era
Weslian, a senhorinha católica que virou candidata arrojada, conseguiu herdar todos os votos do marido. E não teve NADA além dos votos do marido. No primeiro turno, teve um terço dos votos válidos, ou 440 mil votos. No segundo turno, depois de um mês de campanha violenta, virulenta, que botou a baixaria entre Serra e Dilma no chinelo, ela teve 449 mil votos. Um crescimento insignificante. É o fim de uma era.
Rodrigo Mendes de Almeida, jornalista, colunista do NR é editor do Jornal da Comunidade em BSB.
A cada um a sua democracia
Não é curioso, amigo leitor, que ao terminar a primeira década do século XXI, a velha imprensa brasileira (aqui no sentido de antiga mesmo e carcomida) insista em não querer aceitar a vitória da presidente Dilma Roussef? Ou melhor: insista em “investigar” o passado da candidata eleita, substituindo a polícia da ditadura civil/militar que infelicitou o país nos anos 60?
Porque não é outra a atitude do jornal Folha de São Paulo ao se regozijar com a abertura dos arquivos de posse do Superior Tribunal Militar, pomposamente recebida como uma “vitória da sociedade brasileira”, para bisbilhotar sobre o passado de uma ex-presa política.
Vitória da sociedade brasileira? A quem quer enganar mais uma vez a FSP? O que quer o jornal do Sr. Otávio Frias Filho? Dependurar a presidente Dilma Roussef no pau de arara novamente em nome da sua democracia? Já não basta o sofrimento do passado? Quer o jornal, na sua arrogância e ignomínia, mostrar aos milhões de brasileiros que votaram no futuro e repudiaram o passado, que a candidata que escolheram não era a melhor opção para o Brasil pós-Lula?
Querem limpar a barra com a ficha falsa que publicaram e nunca desmentiram? Bobagem, não deveriam perder tempo com isso. À exceção daqueles que ainda não perceberam que tipo de democracia a Folha defende, o jornal perde a cada dia que passa a credibilidade daqueles que ainda a lêem. Seria bom que os seus anunciantes começassem a pensar seriamente nisto.
O Brasil da Folha de São Paulo (e de outros órgãos de imprensa muito bem identificados) insistem na tática da desinformação, da meia verdade ou da meia mentira, o que vem dar no mesmo, usando aquilo a que chamam de liberdade de imprensa, da sua liberdade de imprensa, bem entendido, como uma espécie de chantagem moral (aqui sim) sobre toda a sociedade brasileira. Uma chantagem que ainda conta com o beneplácito de muitos de seus incautos leitores ou do apoio daqueles que insistem em querer dividir o país através do preconceito, do ódio, da intolerância.
Não foi por acaso que o jornal defendeu até onde pôde a candidatura de José Serra, político supostamente de passado esquerdista e a quem coube destampar o caldeirão do fascismo adormecido em mentes e corações que não suportam ainda a possibilidade de milhões de brasileiros ascenderem socialmente, ainda que essa ascensão seja modesta, não só àquilo que merece qualquer ser humano, mas em relação ao padrão de vida que levam tais intolerantes e antidemocratas.
A Folha insiste em caminhar na contramão da História. Na mesma semana em que as Forças Armadas bolivianas se declaram socialistas, nacionalistas e antiimperialistas, num país que carregou durante anos e anos o anátema de ter o maior índice de golpes de estado na América Latina, o jornal paulista alegra-se em conseguir abrir parcialmente alguns arquivos da ditadura e com isso, julga, poder mostrar o “passado negro” da nova presidente da República.
Triste jornalismo esse, feito de frustração, raiva, incompetência, tentativa de manipulação, desrespeito aos próprios leitores e – sobretudo – desprezo aos valores democráticos que, cinicamente, transfere aos seus adversários.
Não sei, e penso que poucos saberão, o que fará o jornal com aquilo que encontrar nos tais arquivos. Se ainda restar um pouco de dignidade ao seu conselho editorial, honrando a memória de alguns grandes e sérios jornalistas que por lá passaram, como Cláudio Abramo, por exemplo, deixarão de lado prováveis ressentimentos pessoais com o presidente Lula e com a presidente eleita e talvez reconheçam que um processo montado com “verdades’ e confissões sob tortura não é necessariamente uma peça íntegra e confiável de testemunho histórico. Afirmo-o com a convicção de quem passou pela mesma situação e, após dois anos de prisão, foi absolvido pela Justiça Militar.
Caso contrário, o jornal mostrará em definitivo qual é a democracia que defende e de qual liberdade de imprensa se utiliza, humilhando mais uma vez toda uma geração que lutou por liberdade, respeito e igualdade entre seus semelhantes. Com isso, mostrará também às novas gerações que o uso de seus veículos para conduzir presos naqueles anos de chumbo foi mais do que uma ajuda interesseira e circunstancial, concedendo-lhes nós o benefício da dúvida.
Será essa “a grande vitória da sociedade brasileira”? Ou será aquela configurada nas urnas no último 31 de outubro?
Izaías Almada é escritor e dramaturgo, colunista do Nota de Rodapé e do site Escrivinhador.
Porque não é outra a atitude do jornal Folha de São Paulo ao se regozijar com a abertura dos arquivos de posse do Superior Tribunal Militar, pomposamente recebida como uma “vitória da sociedade brasileira”, para bisbilhotar sobre o passado de uma ex-presa política.
Vitória da sociedade brasileira? A quem quer enganar mais uma vez a FSP? O que quer o jornal do Sr. Otávio Frias Filho? Dependurar a presidente Dilma Roussef no pau de arara novamente em nome da sua democracia? Já não basta o sofrimento do passado? Quer o jornal, na sua arrogância e ignomínia, mostrar aos milhões de brasileiros que votaram no futuro e repudiaram o passado, que a candidata que escolheram não era a melhor opção para o Brasil pós-Lula?
Querem limpar a barra com a ficha falsa que publicaram e nunca desmentiram? Bobagem, não deveriam perder tempo com isso. À exceção daqueles que ainda não perceberam que tipo de democracia a Folha defende, o jornal perde a cada dia que passa a credibilidade daqueles que ainda a lêem. Seria bom que os seus anunciantes começassem a pensar seriamente nisto.
O Brasil da Folha de São Paulo (e de outros órgãos de imprensa muito bem identificados) insistem na tática da desinformação, da meia verdade ou da meia mentira, o que vem dar no mesmo, usando aquilo a que chamam de liberdade de imprensa, da sua liberdade de imprensa, bem entendido, como uma espécie de chantagem moral (aqui sim) sobre toda a sociedade brasileira. Uma chantagem que ainda conta com o beneplácito de muitos de seus incautos leitores ou do apoio daqueles que insistem em querer dividir o país através do preconceito, do ódio, da intolerância.
Não foi por acaso que o jornal defendeu até onde pôde a candidatura de José Serra, político supostamente de passado esquerdista e a quem coube destampar o caldeirão do fascismo adormecido em mentes e corações que não suportam ainda a possibilidade de milhões de brasileiros ascenderem socialmente, ainda que essa ascensão seja modesta, não só àquilo que merece qualquer ser humano, mas em relação ao padrão de vida que levam tais intolerantes e antidemocratas.
A Folha insiste em caminhar na contramão da História. Na mesma semana em que as Forças Armadas bolivianas se declaram socialistas, nacionalistas e antiimperialistas, num país que carregou durante anos e anos o anátema de ter o maior índice de golpes de estado na América Latina, o jornal paulista alegra-se em conseguir abrir parcialmente alguns arquivos da ditadura e com isso, julga, poder mostrar o “passado negro” da nova presidente da República.
Triste jornalismo esse, feito de frustração, raiva, incompetência, tentativa de manipulação, desrespeito aos próprios leitores e – sobretudo – desprezo aos valores democráticos que, cinicamente, transfere aos seus adversários.
Não sei, e penso que poucos saberão, o que fará o jornal com aquilo que encontrar nos tais arquivos. Se ainda restar um pouco de dignidade ao seu conselho editorial, honrando a memória de alguns grandes e sérios jornalistas que por lá passaram, como Cláudio Abramo, por exemplo, deixarão de lado prováveis ressentimentos pessoais com o presidente Lula e com a presidente eleita e talvez reconheçam que um processo montado com “verdades’ e confissões sob tortura não é necessariamente uma peça íntegra e confiável de testemunho histórico. Afirmo-o com a convicção de quem passou pela mesma situação e, após dois anos de prisão, foi absolvido pela Justiça Militar.
Caso contrário, o jornal mostrará em definitivo qual é a democracia que defende e de qual liberdade de imprensa se utiliza, humilhando mais uma vez toda uma geração que lutou por liberdade, respeito e igualdade entre seus semelhantes. Com isso, mostrará também às novas gerações que o uso de seus veículos para conduzir presos naqueles anos de chumbo foi mais do que uma ajuda interesseira e circunstancial, concedendo-lhes nós o benefício da dúvida.
Será essa “a grande vitória da sociedade brasileira”? Ou será aquela configurada nas urnas no último 31 de outubro?
Izaías Almada é escritor e dramaturgo, colunista do Nota de Rodapé e do site Escrivinhador.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
DataNR: Educação deve ser prioridade no primeiro ano
No DataNR da semana passada perguntamos o que a presidente eleita Dilma Rousseff (PT) deveria priorizar no seu primeiro ano de mandato. Do total de 32 votos computados, a maioria optou pela Educação, 40%. Saúde vem logo em seguida com 25%. Economia, 18%, Cultura, 9% e Segurança Pública, 2%, fecharam a enquete.
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