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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

ConexSom Latina # 1

Eric Nepomuceno, escritor e tradutor de nomes como Eduardo Galeano e Gabriel García Márquez, já perdeu a conta de quantas vezes em palestras ou entrevistas teve que responder sobre sua “ligação com a América Latina”. Como se ele fosse húngaro e não brasileiro.
Ainda que mal feita, a pergunta serve para que nos questionemos por que nós, brasileiros, ignoramos nossos vizinhos. Paradoxalmente, somos conhecidos como um povo hospitaleiro, cativante e aberto a misturas (cultural, racial etc). É fato: somos adorados e venerados pelos colegas de continente.
 Porque então o rechaço a nossos vizinhos? Creio que a situação é ainda pior quando o assunto é cultura, e em especial música.
Excetuando alguns Manás e Shaquiras da vida, o conhecimento de música latina no Brasil é nenhum. Alguns dirão que a produção nacional é de ótima qualidade e isso nos faz olhar menos para os outros. Mas, se assim fosse, as rádios brasileiras não nos entupiriam de enlatados.
 A “culpa” desse autismo pode ser, em boa parte, creditada a quem promove música no país – gravadoras, rádios e, em menor medida, redes de televisão. No entanto, em tempos em que tudo está ao alcance da mão (ou do mouse), é necessário reconhecer que há falta de interesse sobre o que se ouve passando a fronteira.
A ideia de participar do Nota de Rodapé é usar esse espaço para trocar informação sobre música, em especial latino-americana. Essa coluna, que pretende ser semanal, servirá de incentivo para que eu continue pesquisando sobre o tema. Espero que sirva, também, para atrair os interessados no assunto para que se estabeleça um dialogo. Oxalá assim seja. ConexSom Latina começa agora.

Kevin Johansen tem algo de Manu Chao
Tinha pensando em um medalhão da música latino-americana para começar a batucar nesse espaço. Mas preferi deixar para a semana que vem (o tema é um pouco pesado) e começar o ano – e minha participação aqui - com um som mais alegre e diferente.
Rótulos são sempre perigosos e superficiais, mas dizer que Kevin Johansen tem algo de Manu Chao talvez sirva para começar o papo. Para refrescar a memória, Manu Chao é um figura meio espanhol e meio francês que surgiu no final dos anos 90 cantando em português, espanhol, catalão, inglês e em manochauês. Uma música sem fronteiras, com ginga e bom humor.

Corte, cena dois

Filho de uma argentina com um norte-americano nascido no Alasca, aos 12 anos Kevin Johansen mudou para Buenos Aires, onde começou a tocar em bandas de rock. Rodou o mundo, morou em outras cidades e em 2000 fixou novamente residência na capital portenha.
Difícil definir o som que ele faz. Canta em inglês, espanhol e, vez ou outra, arrisca um português no meio das músicas. Aliás, é incrível a influência que a bossa-nova exerce sobre nossos hermanos – diria que em especial em argentinos e uruguaios.
Às toadas de bossa-nova se somam com a cumbia, rock, folk e outros ritmos. Um quilombo bem armado.
Vale a pena prestar atenção nas letras, repletas de ironias e reflexões. Chamo atenção para a música McGuevara´s o CheDonald´s, que diz:


todos usam a barba como ele, mas não são como ele;
todos compram a camisa dele, sem saber quem foi; 

seu nome e cara não param de vender
A influência brasileira se sente na pegada de violão (e até cavaquinho em algumas músicas) e em algumas homenagens ao país. Em uma das faixas do álbum City Zen, Johansen manda um alô a Tom Zé (com a canção Tom Zen).
No último disco (Logo), a cidade de Porto Alegre (com a Luna sobre Porto Alegre) ganha um tributo.
Para quem tiver interesse em conhecer melhor a Kevin:
- Site oficial - My Space

Como aperitivo, dois vídeos de suas músicas. A primeira, chamada Logo, é indefinível. Há que ouvir. A segunda, Ni Idea, mostra a influência da música brasileira. Buen provecho y hasta la próxima semana.





Ricardo Viel é jornalista e estreia sua coluna no Nota de Rodapé.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Filosofia de bar sobre Copenhague



(Para ler de um gole só)



A degradação do meio ambiente é filha legítima do progresso, e o progresso é uma construção ideológica. Os seres humanos tendemos a pensar no progresso apenas como o progresso de nossas capacidades técnicas, talvez porque a ciência tenha sido a área em que mais progredimos ao longo da história. Mas o progresso não se resume a vacinas, aviões, usinas e tecnologias de ponta. Esta são apenas algumas de suas múltiplas facetas. Há muitos outros tipos de progresso, porque, uma vez representante da ideia de evolução, ele se espalha pelas demais searas do conhecimento humano. O erro das modernas sociedades ocidentais é acreditar que o progresso em apenas uma área do saber significa automaticamente o progresso de toda a humanidade. O nazismo é o grande exemplo. O regime de Adolf Hitler combinou um vigoroso progresso tecnológico, econômico e industrial com a maior expressão de degradação moral que o ser humano já viu sobre a face da Terra. Na Alemanha nacional-socialista, a racionalidade foi utilizada para azeitar o aparato militar do expansionismo hitlerista e exterminar judeus, negros, ciganos e homossexuais em massa. Os campos de concentração tinham a eficiente logística das mais exitosas empresas do capitalismo industrial. Depois, na esteira da segunda guerra, veio a bomba atômica, outra expressão de como o progresso da ciência foi utilizado para fins no mínimo duvidosos. Assim a história humana foi avançando. Os cientistas, com cada vez mais domínio sobre as pesquisas e a técnica, não param jamais de aperfeiçoar os avanços do conhecimento. Inventaram também máquinas de matar com precisão cirúrgica, inteligentes, que reduzem a zero o risco de vida dos matadores ao mesmo tempo em que aumentam a exatidão dos ataques. A ciência também serviu à manutenção da vida, claro. Se hoje vivemos 70 anos em média é porque a medicina consegue combater doenças que antes matavam todo mundo em idades bem menos avançadas. Desenvolveram até medicamentos para o combate à Aids, que mais parecia o demônio encarnado nos anos 80 e 90. Só que os laboratórios se recusaram a vendê-los a preços acessíveis às pessoas que mais sofrem com a doença: os africanos. O dinheiro fala mais alto, sempre. E o progresso parece reduzido às limitações morais das contas bancárias. O altruísmo só vale a pena quando é lucrativo. Os culpados nem são os laboratórios, porque o que fazem é somente seguir as regras do jogo. Se não lucram, não sobrevivem. Se são bonzinhos demais e distribuem os medicamentos, não terão dinheiro para pagar equipamentos e pesquisadores capazes de desenvolver remédios cada vez melhores. Estão apenas trabalhando, assim como todas as indústrias que emitiram e continuam a emitir bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera. Estão seguindo as regras do capitalismo. E o capitalismo diz: maximize os lucros – e faça isso antes de seu concorrente, senão... Por isso, o que conhecemos como crescimento econômico, na verdade, é o crescimento da exploração. Cresce uma economia que acumula mais. Para acumular, é necessário lucrar. O lucro se torna realidade quando um empresário – o dono dos meios de produção – fatura mais do que gasta. Quanto maior o faturamento e menor os gastos, mais lucrativo será o negócio. Mão-de-obra, equipamentos e matéria-prima são as principais despesas da atividade econômica. Se o patrão puder gastar menos com elas, ganhará mais no fim do mês. Essa economia se traduz em baixos salários e matérias-primas baratas. As matérias-primas normalmente se originam dos países pobres ou em desenvolvimento. Para obtê-las, a não ser que as reservas se encontrem em regiões desérticas, é necessário degradar o meio ambiente e desmatar. Voltando para a indústria em si, a redução de emissões depende de um investimento massivo em tecnologias limpas. Isso custa e, portanto, reduz o lucro dos patrões. O protocolo de Kyoto tentou fazer com que a redução de emissões se transformasse num negócio lucrativo e inventou o mercado internacional de carbono, uma espécie de bolsa de valores ecológica. Nela, quem deixa de poluir a atmosfera pode vender “direitos de contaminação” a quem ainda não conseguiu cumprir as metas de redução de emissões. O mecanismo só funciona porque, a cada ano que passa, esses direitos ficam mais e mais caros. A ideia é que a compra da licença para poluir um dia fique mais cara que o investimento em novas tecnologias não poluentes. Assim, através das leis do mercado, as indústrias deixariam de emitir gases causadores do efeito estufa. Não é uma questão de salvar o ambiente, mas de causar menos prejuízo financeiro. De qualquer forma, os Estados Unidos não assinaram o protocolo. Agora, com o fiasco de Copenhague, o preço do carbono no mercado internacional despencou. Isso quer dizer que ficou mais barato poluir, porque, como o capitalismo financeiro vive de expectativas, e as expectativas sobre um acordo salvador do clima foram para o bebeléu, os direitos de contaminação ficaram mais baratos. As licenças para emissão na União Europeia caíram 8,7% porque já não parece haver estímulos para investimentos nesse negócio de salvar o clima. Portanto, quem deixou de emporcalhar a atmosfera vai ganhar menos com isso, e quem continua mandando ver no CO2 vai perder menos, porque vai pagar menos por cada tonelada emitida para além da meta. O protocolo de Kyoto em si já é uma abstração financeira imensa elaborada para viabilizar dentro do capitalismo uma obviedade ambiental tão evidente quanto evitar o aquecimento global, o desaparecimento de ilhas, ecossistemas, culturas e meios tradicionais de vida. E, mesmo prevendo lucros consideráveis para quem entrar na onda da preservação, não colou como deveria colar. É, até hoje, o único sistema cujo objetivo é reduzir as emissões de carbono. Se nada for inventado para substitui-lo nos próximos dois anos, quando perde a validade, o mundo simplesmente ficará sem nenhuma meta de redução. Era para Copenhague ter elaborado outro mecanismo, mas isso não aconteceu porque ninguém está a fim de perder dinheiro. Uma política de cortes na emissão de CO2 dentro do capitalismo implica necessariamente em diminuição de lucro. Até nas prateleiras dos supermercados dá para perceber que é assim. Os produtos orgânicos, ecologicamente corretos, que não utilizam agrotóxicos nem organismos geneticamente modificados, que são produzidos com o mínimo impacto possível sobre o meio ambiente e que aplacam o sofrimento animal custam bem mais caro. Por quê? Ora, porque a produção é obrigatoriamente baixa para manter os padrões ecológicos. Se a atividade se massifica, vai acontecer igual acontece agora com os alimentos tradicionais: quanto maior a produção, mais barato o produto; quanto mais hormônio e mais veneno, maior a produção, maiores as vendas, porque os compradores priorizam matérias-primas mais baratas para baratear seus próprios produtos e vender mais e... bom, a gente já sabe como funciona. Copenhague fracassou basicamente porque há um desnível social e econômico entre os países desenvolvidos e emergentes. O pessoal do primeiro mundo não quer perder o padrão de vida, e a galera do terceiro mundo quer melhorar seu padrão de vida. O desenvolvimento é uma necessidade para as nações que estão no sul do mundo. Afinal, as coisas não podem continuar como estão: situações alarmantes aqui, fome e analfabetismo, e conforto lá. Temos que melhorar as condições de vida de nossas populações, de maneira que, pelo menos, as necessidades básicas de todos sejam atendidas. E não se trata de carros importados e casas na praia, mas de saúde, educação, alimentação, moradia, trabalho, ócio, liberdade. Aí vem outro problema. Nossa visão de mundo ocidental acredita piamente que desenvolvimento social é uma consequência do crescimento econômico, como se sem este não houvesse aquele. Então voltamos ao começo da conversa: crescimento é acumulação, e acumulação se viabiliza pelo progresso das forças produtivas. Nossa ideia de progresso está viciada. A evolução da humanidade vai muito além da evolução do PIB. Foi buscando desesperadamente taxas cada vez mais altas de crescimento do PIB que acabamos esquecendo de perseguir metas de desenvolvimento humano. Olha o Brasil: está entre as dez maiores economias do mundo, mas ocupa apenas a 75a posição quando o assunto é o bem-estar de seus cidadãos. Não podemos dizer que o país não cresce, mas para onde esse crescimento tem nos levado? O crescimento, em si, é um mito, assim como a ideia de que o progresso é a salvação do ser humano porque é infinito e um dia nos levará à perfeição. Como podemos acreditar na conversa de que nossas economias continuarão crescendo e crescendo ad eternum se os recursos naturais são finitos? Existe uma grande incoerência aqui, e todos os negociadores que estavam sentados nas mesas de Copenhague a conhecem perfeitamente. Não há mundo capaz de aguentar um ritmo de crescimento de dois dígitos ou a promessa de que, um dia, todos irão viver como na Europa e nos Estados Unidos. Ou começamos de uma vez por todas a conquista espacial e pilhamos os recursos naturais dos outros planetas para alimentar nossa loucura progressista ou mudamos de ideia de uma vez por todas. Hoje a riqueza é sinônimo de degradação ambiental, porque é explorando a natureza que o homem transforma matérias-primas em produtos industrializados e ganha dinheiro no processo. Quanto mais matéria-prima, mais transformação e mais dinheiro. Explorar a natureza – extrair petróleo, minérios, madeira, construir pastos e plantar soja – gera riqueza porque foi assim que decidimos fazer girar a economia quando, um belo dia, nos apartamos do meio ambiente e resolvemos declarar guerra ao ecossistema. Acabamos por dominar seus ciclos e conhecê-lo quase tão profundamente que hoje podemos dizer que vencemos. Somos os donos do mundo, dominamos cada rincão da Terra e temos nas mãos o poder de acabar com tudo, ainda que o fim de tudo seja também o nosso fim, porque, por mais que neguemos, somos parte da natureza e não vivemos sem ela. Eis a prova de que a ideologia que sustenta o progresso e o modelo econômico é uma grande falácia. Nós não somos sem o todo, mas o todo sim pode ser sem a gente. Somos o último elo da cadeia e o mundo não vai se abalar caso desapareçamos de repente. Pelo contrário, a natureza agoniza com a nossa presença. Copenhague não colheu nenhum fruto maduro porque está atolada em interesses mesquinhos que dizem respeito a metas de crescimento do PIB, atividade industrial e dominação militar. Mas estes são valores do velho mundo. O novo mundo deve ser erigido sobre novas plataformas, a mudança deve demolir os alicerces das sociedades atuais e muita gente que hoje se dá bem pode se dar mal. As noções de conforto e bem-estar deve ser redefinidas, mas o xis da questão está no conceito de riqueza. Somos ricos enquanto destruímos hectares de floresta, poluímos fontes de água límpida e extinguimos espécies animais e vegetais para extrair toneladas de ouro e guardá-lo nos cofres do Banco Central? Isso já não faz o menor sentido. A verdadeira riqueza está em viver num mundo em que não haja miséria, e só não haverá miséria quando não houver degradação. A exploração da natureza é o pontapé inicial de toda a desigualdade, e se engana quem pensa que justiça social é possível sem justiça ambiental, porque o homem construiu todo seu aparato de dominação submetendo o meio ambiente – e, consequentemente, os outros homens – a seus desígnios. Nenhum chefe-de-estado quer tocar nestas feridas abertas, porque são nelas que se escondem os nervos expostos da nova ordem mundial.



Tadeu Breda é jornalista, colunista do Nota de Rodapé e vive em Latitude Sul

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A paz não é uma mercadoria

A pergunta que fica é: quantos comerciais feitos pelo mesmo criativo (muito badalado por sinal) ou pelas agências em que trabalhou e montou (e aqui ironizados) já foram feitos para vender o sucesso, o consumo desbragado, a bebida, o cigarro, a mentira, a hipocrisia e por aí afora? Parece tudo muito politicamente correto, mas o criador não perde o vício, porque PAZ não se vende ou se compra. O criador se trai com a própria criação. A PAZ não é uma mercadoria como mostra a propaganda de Olivetto.



Quem são os inimigos da PAZ? da América? O depoimento do soldado norte-americano Mike Prysner, que atuou no Iraque, em toda sua indignação e sinceridade pode dar uma pista. Um contraponto ao bonito e agradável branco da PAZ do vídeo acima.



Izaías Almada é escritor e dramaturgo e colunista do Nota de Rodapé

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A internet como prozac virtual

Em novembro passado, como parte das pesquisas e entrevistas para a reportagem “O alerta da Ciberdependência”, publicada na Revista do Brasil (leia na íntegra), conversei com o Coordenador do Projeto Dependentes da Internet do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (AMITI) do Instituto de Psiquiatria da USP, em São Paulo, Dr. Cristiano Nabuco de Abreu. O tema do vício em web e computador ainda é pouco conhecido do grande público e a entrevista abaixo esclarece alguns pontos relevantes sobre a questão.

Que tipo de dependência é essa de computador e internet?
A dependência de internet é considerada ainda um diagnóstico experimental. Surge pela primeira vez em 1996 com uma americana, Kimberly Young, que analisou o que acontecia com os jovens e adolescentes. Da amostra de 2.500 jovens ela constatou que quase 85% deles tinha tido impactos negativos na vida social e familiar por conta do uso abusivo. Depois de dois anos, ela pega esse critério e adapta critérios do uso de álcool e drogas, mais ou menos para tentar criar um paralelo, depois abandona e migra para outra classificação, similar a do jogo patológico. Vale ressaltar que o jogo patológico é uma classificação que deriva do uso de álcool e drogas, então a dependência de internet deriva de uma terceira instância dessa mesma família. Por isso que a gente chama de dependência comportamental. E quais são os critérios? São oito. Entre eles, o indivíduo que se torna monotemático e só fala de internet (MSN, Facebook, Twitter, Orkut, bate-papos etc); indivíduos que, embora percebam que estão fazendo uso abusivo dessa internet, não conseguem diminuir, ou seja, cada vez mais precisariam de tempo de exposição para ter o mesmo prazer e a mesma satisfação que tinham com menores quantidades, semelhante, por exemplo, ao álcool e as drogas ou o jogo; terceiro, questionados sobre o uso excessivo, tendem a mentir. Quando dou entrevista a pessoa pergunta se o número de horas que a pessoa passa na frente do computador conta. Não conta. Você, por exemplo, é repórter, deve passar 6 ou 7 horas por dia. Eu, no intervalo das minhas consultas, checando meus artigos e minhas pesquisas algumas horas. O que diferenciaria de uma maneira mais genérica um indivíduo dependente do não dependente é que o segundo vai pra internet, faz o que tem que fazer e volta. O dependente não, fica nela. Ele começa cronicamente precisar deste recurso para poder ter as experiências de vida. O que quer dizer? Quando o computador se torna muito atraente, a vida do indivíduo prefere realizar suas atividades através da vida virtual em vez da real. Passa a arranjar relacionamentos, lazer, muitas vezes a ganhar dinheiro através da internet, ou seja, o nível de disposição sai do mundo real para o virtual. Vale lembrar que o nosso cérebro não consegue diferenciar se você está vivendo uma situação ou se você está imaginando. Na verdade você passa, literalmente, a viver uma vida paralela. Existe todo tipo de comportamento, indivíduos que se viciam em comunicadores instantâneos, e-mail, aquele caso clássico do indivíduo que clica 20 vezes na sequencia para ver se não entra nenhum na sua caixa de entrada; sites de relacionamento etc.

Com o aumento das redes sociais teremos mais dependentes?
Com certeza é um fato. Aqui no Ocidente a gente não tem isso ainda como um problema de saúde pública, mas na Coréia, por exemplo, já é saúde pública. Lá eles aceitam a dependência de internet como válida e desenvolveram uma subdivisão, que chamam de Cyber Café Adquicion (Dependência de Cyber Café). Lá é proibido a abertura de novas lanhouses e as que existem são extremamente controladas. Na Coréia, se não me engano, são 200 milhões de usuários de internet. Aqui no Brasil são mais de 45 milhões. Como a internet surgiu lá há mais tempo é o prenuncio do que a gente vai viver aqui.

Como chegam esses casos para o senhor?
Não tenho o levantamento de quem vem espontaneamente ou é levado. O que a gente tem na verdade dentro da psiquiatria como um todo é que aquelas pessoas que estão num estado de mais gravidade são sempre levadas por alguém. Individuo quando não está tão comprometido tem a autoconsciência. Levando em conta que esses indivíduos na maior parte das vezes estão conectados a internet, uma das grandes janelas que essas pessoas têm como a gente é a através do nosso site que tem uma média de 10 a 15 pedidos de socorro.

Qual o teor desses pedidos de “socorro” que chegam?
O que mais me chama a atenção é de um menino de 8 anos que escreve. “Eu não consigo mais sair do computador. Cada vez que me distancio minha mão começa a tremer, tenho ânsia de vômito.” Termina da seguinte maneira o e-mail “Socorro. Socorro. Socorro”. Na grande parte das vezes quando a gente fala de jogo, uso abusivo de substâncias temos muito da nossa experiência, seja pessoal ou de próximos, efeitos dessa exposição. Na internet nós não temos, somos também “baby bomers” da internet. Ainda não temos o controle do que é saudável. Estamos todos reféns de uma ignorância muito grande. A gente está aprendendo a medida que o negócio cresce. Isso quer dizer o que: pega o computador e joga pela janela? Claro que não. É evidente que o problema não é o computador. É o mesmo que falar que todo barmam seria alcoólatra, não é isso.

Qual o padrão de pessoa que vai até você?
A experiência que a gente tem no ambulatório é que vão pessoas de 10 a 70 anos. Não tem faixa etária, nível socioeconômico, cultural, gênero, é geral. E o grande problema qual é? O Brasil hoje é o país líder no mundo de tempo em conexão doméstica. O brasileiro é o que mais navega. Ninguém ainda se deu conta da onda que está armando no mar. E a hora que ela estourar vai levar muita gente. São poucos ainda os centros de pesquisa, as pessoas não sabem muito. É tudo muito embrionário, então recebo e-mail do Pará, Manaus, Recife e você não tem o que fazer. Recebi um de Recife, “olha, meu filho está com 30 anos e há 15 é um dependente ativo. Nós não sabemos o que fazer, pelo amor de Deus.” Indico psicólogos na região. Eles vão tratar, mas essa experiência que a gente tem de conhecer um pouco mais a fundo te dá outro traquejo.

E o tratamento?
O tratamento é difícil porque a internet virou parte da vida das pessoas. Grande parte das instituições pedem coisas pela internet. A telefonia está migrando para internet. Estamos nos tornando “onliners”, pessoas que não se desconectam mais. Outro dia vi no restaurante duas meninas e o pai ali no celular e não interagiu com as filhas o almoço todo. Um outro aniversário de um amigo, lá pelas tantas, um cara descobre que tinha rede sem fio. A maioria das pessoas sacou seu celular e se conectou.

Onde o senhor acha que isso pode chegar?
Ainda é muito rudimentar o nosso conhecimento. O que dá pra gente sacar é que o problema é grave. Tem o fato histórico do impacto na vida pós-moderna com a internet. Ela mudou tudo. Muda não somente o aspecto da saúde, mas os usos e costumes. Por exemplo, dificilmente você vê um adolescente de 17 anos na frente de uma sala de aula comentando sua primeira relação sexual. Ninguém faz isso, se expor para tanta gente. Mas o mesmo adolescente escreve sobre o tema num blogue para quem quiser ler. O conceito de intimidade está se modificando. A forma de você existir está criando um outro contexto; é também uma revolução cultural. Acho que a vida virtual passou a ser uma nova frente de convivência, por isso existe um impacto sócio-comportamental muito interessante.

Como foi o seu primeiro caso?
Não lembro, mas vou contar um superdramático. Uma mãe chega para mim e fala: “Meu filho tem 16 anos, está há dois sem sair de casa, abandonou a escola e ele se recusa a sair de casa.” Acho que foi o terceiro ou quarto caso que peguei. A mãe explicou que era separada do marido. Pergunto quantas horas o filho fica no computador. “Uma média de 45 horas”. E nos horários que ele não está, pergunto. “O senhor não entendeu. Eu falei 45 horas.” “Eu compreendi, mas como ele se alimenta?” “O senhor não entendeu, ele se alimenta na frente do computador.” Eram 45 horas sem parar. Ele virava. Insisti. “Ele não se alimenta, mas como ele vai ao banheiro?”. “Ele fica 45 horas sem levantar. Faz tudo nas calcas, inclusive evacuar.” Ele tirava a cueca suja de fezes e arremessava pela janela. Ela ainda explicou que foi notificada várias vezes pelo condomínio por conta das cuecas que caiam no capô dos carros.

E o desfecho?
Como é que se reverte um negócio que está assim há dois anos? Que é altamente prazeroso para a pessoa. Esse rapaz teve que ser internado, porque tinha transtorno bipolar associado. Depois de uma semana o pai exigiu que ele fosse liberado. Não sei o que aconteceu depois... Na verdade tem de tudo, não acho que a questão de horas seja tão alarmante assim, o problema é que você pode se tornar dependente com 10 horas, com 20h, com 1h, depende qual é o propósito que está por traz dessa conexão. Se você usa a internet como uma forma de se refugiar do mundo você já é um dependente com 1h hora de uso.

Como o cidadão pode perceber esse vício se o tiver e tentar se desvencilhar?
Vamos diferenciar que existe o usuário comum, o abusivo e o dependente. A dica que a gente costuma dar é a seguinte. Fique de olho quando você não consegue fazer qualquer atividade prazerosa em que ela não esteja conectada a internet. Ou seja, quando não tem o que fazer vai pra internet, quando está entediado vai pra internet, deprimido etc. Usa a internet como maneira de regular seu humor. Um paciente nosso descrevia “A internet é meu prozac virtual. Quando eu entro me sinto bem.”

A maioria dos casos graves migra para a coisa física?
Não diria que a maioria, vou dizer que existem muitos casos com essa descrição da síndrome de abstinência.

Como funciona o ambulatório?
Acontece uma vez por semana, às quartas-feiras de manhã. Esses pacientes chegam, são triados pelo médico e fazem a avaliação médica e depois eles vão para a psicoterapia em grupo. Em torno de uns 80 pacientes já passaram pelo ambulatório.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

De volta à baila

Saravá 2010. De volta o Nota de Rodapé continua a toada de melhorar e ampliar este espaço. Algumas estreias previstas e uma possibilidade grande de mudança do jeitão de blogue para jeitão de site - mantendo tudo que existe e sonhando com mais ferramentas de interação e informação no dia a dia do Rodapé. Não vou filosofar muito pois estou estruturando o projeto. As promoções vão continuar e dizer essas ideias aqui me dão mais força de vontade de fazer acontecer. Abraços, saúde e paz!

"Eu queria conjurar o demônio e escrever sobre tudo o que as pessoas escondem. Todos querem ser agradáveis, cultos e precavidamente sensatos. Isso não me interessa. De forma que a primeira providência era me afastar desse tipo de gente. O aprendizado é solitário. Eu não tinha de perguntar nada. O escritor perfeito é um fantasma invisível. Ninguém pode vê-lo, mas ele escuta e vê tudo. O que há de mais íntimo e secreto em cada pessoa. Atravessa paredes e se enfia no cérebro e na alma dos outros. E depois escreve sem medo. Tem de arriscar. Quem não se atreve a chegar ao limite não tem o direito de escrever. É preciso empurrar todos os personagens até o limite. É preciso aprender a fazê-lo. Mas ninguém pode ensinar como se faz isso." - Pedro Juan Gutiérrez, pg. 80, O Ninho da Serpente, Cia. das Letras.
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