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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Estrelas do IgNobel

Desde 1991 esperada com a mesma ansiedade do Nobel
Passei a noite da quinta-feira assistindo ao vivo pelo YouTube, diretamente do auditório da universidade de Harvard, à cerimônia de gala do prêmio IgNobel. Temi um pouco por minha sanidade mental ao constatar que apenas 480 pessoas no planeta estavam ligadas no YouTube no momento do grande evento, mas não me arrependi.

A festa é a culminação dos trabalhos da organização Pesquisa Improvável, com sede em Harvard, que passa o ano analisando mais de 20 mil revistas científicas para escolher os mais bizarros e, aparentemente, inúteis papers acadêmicos até culminar na escolha dos dez laureados da cerimônia.

A organização diz que são escolhidos trabalhos que primeiro fazem rir e depois pensar. Desde 1991, quando foi feita a primeira premiação, a lista é aguardada por cientistas de todo mundo com a mesma ansiedade do prêmio Nobel sueco. E os premiados de 2012 não decepcionaram.

Emmanuel Ben-Soussan e Michel Antonietti (França), premiados na categoria Medicina, detalharam num trabalho publicado os procedimentos preventivos de uma colonoscopia, para evitar os riscos de explosões de gases durante o exame, quando se usam eletrodos ou laser de cauterização nas entranhas intestinais, que podem estar empestiadas de hidrogênio e metano altamente inflamáveis, especialmente se as dobras do órgão contiverem matéria fecal bloqueando a vazão.

Em Neurociência o prêmio foi para Craig Bennett e equipe (EUA) por um detalhado trabalho de ressonância nuclear magnética mostrando como detectar atividade cerebral num salmão morto.

O prêmio de literatura foi para Controladoria Geral do Governo dos EUA que publicou um inacreditável relatório acerca de relatórios sobre relatórios que recomenda a preparação de um relatório sobre o relatório acerca de relatórios sobre relatórios. Esse foi o único premiado que não achou a menor graça e não mandou o burocrata responsável para a cerimônia e nem respondeu aos pedidos de comentários por parte da imprensa.
 O rabo de cavalo de Raymond Goldstein (Reuters)

A Física, a rainha das ciências de Newton e Einstein, foi para Joseph Keller (EUA), Raymond Goldstein (Inglaterra) e equipe, pelos complicados cálculos de equilíbrios de forças que atuam dinamicamente num rabo-de-cavalo, numa equação que tem até um coeficiente batizado de Número de Rapunzel, mostrando que eles balançam como um pêndulo harmonicamente na lateral, e não para cima e para baixo como esperaria o senso comum.

Em anatomia o troféu foi para Frans de Waal e Jennifer Pokorny (EUA), que descobriram e provaram que os chimpanzés são capazes reconhecer uns aos outros, sem olharem suas caras, por meio de fotografias dos seus traseiros.

A cerimônia, evidentemente, foi hilária. Para contrastar, nada menos que sete prêmios Nobel de verdade compareceram ao palco e participaram da entrega dos troféus, que nesse ano foi uma ampulheta de areia que simbolizava os grãos do Universo.

Também foi apresentada uma ópera sobre o design inteligente do cosmo, uma sátira ao criacionismo. Só que o design no caso era um estilista de vestido que tentava satisfazer uma cliente fútil em busca da roupa universal. A dupla consulta astrofísicos cantantes para obter e receita.

O palco era um caos: varredores que recebiam elogios pela atuação nos bastidores e que tinham muito trabalho limpando a chuva de aviões de papel disparados pela platéia. A iluminação era provida por lanterninhas de roupa prateada que substituíam os holofotes, num estilo meio punk e vanguardista.

Tendo gargalhado bastante ao longo de quase duas horas, ao final, como exorta a organização, comecei a pensar. Lembrei que cientistas, aparentemente pessoas sérias, se dedicam a paródias mais frequentemente do que imaginam as pessoas leigas.

Fiz uma resenha sobre a mais clássica delas, retratada no livro Fausto em Copenhague (quem se interessar está em http://flaviodecarvalho.multiply.com/reviews/item/21).

Fausto em Copenhague gira em torno de uma troça. Em 1932, todo mundo na Alemanha promovia comemorações do centenário de nascimento de Wolfgang Goethe, e os estudantes resolveram fazer também sua paródia de Fausto, a obra máxima do gênio alemão.

Era apenas uma peça estudantil que foi encenada ao fim dos trabalhos, para relaxar, na mansão em Copenhague que abrigava o instituto de física teórica no térreo e a residência familiar de Bohr no segundo piso.

Gino Segrè, o autor do livro, inspirou-se no script original da peça, traduzida e guardada pelo russo George Gamow (a quem o livro é dedicado). Caricaturista com certo talento, Gamow rabiscou as charges que ilustram a peça, reproduzidas na obra de Segrè.

O bondoso Deus da peça era um estudante mascarado com traços caricaturais do patriarca da mecânica quântica, Niels Bohr, que assistiu à chacota na primeira fila, no auge do seu prestígio aos 47 anos. Mefistófeles, o demônio, era encarnado pelo terrível Wolfgang Pauli.

Albert Einstein aparecia como um personagem que não existe na obra de Goethe: o rei das pulgas, que atormentava toda a corte científica com suas tentativas de unificar a física com uma teoria geral de campos (que nunca deu certo) e as insistentes críticas à mecânica quântica. O futuro Nobel Paul Dirac, uma pessoa introvertida, era o pianista do fundo musical.

Portanto, que cientistas sérios se entreguem a presepadas desse tipo não é muito surpreendente. Mas o que pensei mesmo depois de rir muito foi que a premiação está mudando seu caráter. Nos primeiros anos a maioria dos escolhidos ficava constrangida e poucos se arriscavam a comparecer ao auditório em Harvard. Mas com o passar dos anos os concorrentes foram perdendo a vergonha e até passam a cobiçar a láurea.

Especialmente depois que um dos premiados pelo IgNobel também ganhar o Nobel de verdade em 2010. Esse feito é do holandês Andre Geim que ganhou o Ignobel por fazer levitar sapos usando magnetos supercondutores e que o Nobel pela invenção do grafeno.

 "Spotlight Humano" lança uma luz sobre o orador Kirshner
O fato do IgNobel agora ser também cobiçado, levanta a suspeita de esteja ocorrendo trapaças e fraudes na disputa desse prestigioso prêmio. Um dos sintomas disso foi a presença de vários ignóbeis dos anos anteriores marcando presença agora todo ano no palco, como a russa inventora de um sutiã que se transforma em máscara respiratória e a do médico que ganhou no ano passado com o trabalho sobre cócegas no esfíncter para curar soluços.

O ganhador do prêmio de Neurociência de 2012 confessou que estava cometendo uma espécie de fraude “bem intencionada” pois sabia que salmão morto não tem atividade cerebral significativa. Diz ele que fez isso para denunciar a inundação de trabalhos com neuroimagens que não provam nada. Foi premeditado, portanto. Isso não desvirtuaria o sentido original da premiação? Talvez não.

Em 1996, o físico Alan Sokal submeteu um texto à revista Social Text, a principal publicação da área de estudos sociais pós-modernistas dos EUA. Tratava-se de um amontoado de coisas sem sentido, mas com uma linguagem esotérica e impenetrável, com o título “Transgredindo limites: em direção a uma hermenêutica da gravidade quântica”.

O artigo, como explicou o próprio Sokal, era “um pastiche de gírias esquerdistas, referências bajuladoras, citações grandiosas e referências nonsense estruturadas ao redor de frases tolas de acadêmicos pós-modernos” – aqueles acadêmicos que acham que tudo na vida são construções culturais.

Por causa do escândalo, quando o trote foi revelado, a revista Social Text, desmoralizada, foi fechada. O pensamento final, depois de rir muito, é, portanto, que a galhofa tem seu lugar importante na ciência e é aceita com alegria e bom humor. Infelizmente o mesmo não acontece com outra instituição que ao longo de milênios se julga ter o monopólio das revelações e do conhecimento, a religião. Para eles simples ironias e brincadeiras com seus ídolos ainda continua sendo punida com a morte e a violência troglodita.

 

Flávio de Carvalho Serpa, jornalista, especial para o Nota de Rodapé

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

“Não se admite”: policial não é executor

Em outubro de 2011, o NR contou a história de Márcio Lourenço, morto pela Guarda Municipal de Atibaia em mais um caso de violência policial. A prefeitura da cidade, à época, havia sido condenada por violação de direitos humanos. No texto de hoje, quatro anos após a execução do rapaz, a administração municipal sofre nova derrota na Justiça, numa decisão salutar da desembargadora/relatora do Tribunal de Justiça de São Paulo, Luciana Bresciani.

Márcio, 22 anos, 3 anos antes de sua execução
Naquela manhã de domingo, no último 19 de agosto, Olinda Rodrigues Lourenço lembra com tristeza os quatro anos da morte de Márcio Rodrigues Lourenço, seu filho. Diarista, moradora de Atibaia, no interior de São Paulo, a 60 quilômetros da capital, ela pode, contudo, comemorar decisão judicial que fará alguma justiça numa situação que foi ignorada por prefeitura, Ministério Público e mídia local. Márcio morreu aos 25 anos, na tarde de 19 de agosto de 2008, executado por tiros da Guarda Municipal (GM) subordinada à Secretaria de Segurança Pública – relembre a matéria deste Nota de Rodapé sobre o episódio.

Confirmando decisões da Comarca de Atibaia e do próprio Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), a desembargadora/relatora do TJ-SP, Luciana Bresciani, impôs nova derrota à prefeitura da cidade no dia 3 de agosto deste ano, quando foi publicada sentença que negou dois recursos da administração, um extraordinário e outro especial, impedindo-os, com sua decisão, de recorrer ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) em Brasília.

Para tanto, Luciana salienta a falta de fundamento na defesa dos guardas e destaca o incontestável excesso de força dos agentes. “Inconteste o nexo causal entre a ação dos guardas municipais e a morte do filho da autora. O excesso é manifesto, quer considerando a atuação da Guarda Municipal, ultrapassando os limites da prevenção de crimes, quer porque, de qualquer forma, não se admite transformar policial em executor”, ressalta.

Além disso, a relatora aponta provas definitivas de que Márcio não reagiu à agressão. Apesar das testemunhas da ré terem afirmado que a vítima estava armada, não há nos autos do processo qualquer prova nesse sentido. A arma a que fazem referência os guardas nem sequer foi encontrada. “Se existente, poderia ter sido utilizada pela vítima, o que também não restou claro nos autos”, indica Luciana. Outro aspecto é que não houve qualquer menção ao porte de armas no inquérito policial e nenhum trabalho pericial foi elaborado para verificar a presença de resíduos de pólvora nas mãos da vítima, cujo resultado evidenciaria presença ou ausência de arma nas mãos do rapaz.

Todas as testemunhas – com exceção dos guardas municipais e funcionários da Secretaria de Segurança Pública – declararam que o rapaz estava correndo, o que contraria o discurso do município.

Também um laudo mostra que a trajetória do projétil dá a ideia de que a vítima não estava em posição de confronto, já que a bala atingiu Márcio quando estava de lado para os guardas e não de frente.

No final da sentença, Luciana Bresciani enfatiza a responsabilidade da prefeitura e confirma a indenização por dano moral à mãe da vítima, no valor de cem salários mínimos mais correção, juros legais desde a citação e custas judiciais. “Nada justifica a conduta dos guardas em face da fuga do filho da autora. O nexo causal entre o dano e o fato está devidamente evidenciado, razão pela qual a reparação do dano moral é devida”.

Em 2011, o Tribunal de Justiça já havia discordado da versão dos guardas municipais, que alegaram legítima defesa para efetuar os disparos, e manteve sentença da Comarca de Atibaia, de 2010, contra o Poder Executivo, por violação de direitos humanos. A decisão confirmava a execução e apontava que o boletim de ocorrência foi forjado, pois o processo judicial desmente que o rapaz teria sido morto após trocar tiros com os agentes.

A luta segue

Olinda conta o motivo de pedir indenização. “O Márcio tinha defeitos. Não digo que não furtou as torneiras, mas ele nunca andou armado, não era o criminoso que disseram”, desabafa. “Estava esperando essa decisão. Finalmente saiu”, completa. Com a decisão na esfera cível, é possível, com atraso de quatro anos, a instauração de ação administrativa regressiva para que a Prefeitura apure internamente a responsabilidade dos agentes e exija deles o pagamento da indenização.

Cabe ao prefeito Dr. Denig (PV) a atitude de cobrar os autores do crime e tirar o peso dos cofres públicos. Em 2008, quando da ocorrência da morte de Márcio, o prefeito era o atual deputado estadual Beto Trícoli, também do PV. Na gestão dele, a apuração não progrediu.

Além disso, a reabertura do processo criminal foi solicitada pela organização não governamental Centro Nacional de Denúncias (CND-BR), ao Ministério Público, que arquivou o inquérito justificando não haver provas que constatassem infração por parte da Guarda Municipal. A nova decisão do TJ-SP pode fortalecer o pedido da entidade e forçar o MP a tomar providências.

Marcos Rodrigues Lourenço, irmão de Márcio, avalia que a sentença, independentemente do valor da indenização, motiva a continuação da luta para punir os responsáveis. “Nós, da família, nem estamos preocupados com o valor. Essa decisão nos fortalece para pedir justiça, para que os responsáveis tenham a culpa investigada pela prefeitura e para que respondam criminalmente. Tenho os jornais da época pintando meu irmão como um bandido perigoso, que atirava em guardas, matérias que expuseram a imagem dele sem a nossa autorização. O Márcio não era nada do que disseram. Tinha uma dependência, estava falando em se internar, mas não deu tempo”, afirma.

Moriti Neto, jornalista, mantém a coluna mensal Escarafunchar no Nota de Rodapé.

Ali vai minha avó

Para a dona Laura
 
No sábado, encontrei com minha avó na rua. Fazia mais de um ano que não a via.

Eu ia distraído e só percebi sua presença quando já estava a um metro de mim. Vi sua boquinha pequena se abrir e fechar, e rapidamente tirei o fone de ouvido. "Como?" E ela chegou um pouquinho mais perto e, fazendo um gesto com a mãozinha cheia de rugas, repetiu: queria um “trocadinho” para que tomar um “cafezinho”.

Fiquei confuso, pedi desculpas por não ter nada - ao mesmo tempo que batia no bolso da bermuda e as moedas me delatavam - e segui meu caminho. Olhei para trás e vi como ela continuou o seu, com aquele andar vagaroso característico. Ali vai minha avó e nunca mais voltarei a vê-la, pensei.

Pois bem, não era minha avó, porque minha avó morreu há três semanas. Morreu no Brasil, e eu não estive no enterro. Saber que alguém se foi é diferente de dizer adeus a esse alguém que se foi.

E quando cruzei com essa outra senhorinha aqui em Lisboa e lhe neguei um trocado, foi como se por fim tivesse me dado conta que minha avó já não existe. Que quando eu voltar ela não estará, e que morrer é não estar mais, nunca mais, a não ser nas lembranças.

E agora, quando chego a casa e decido por escrever este texto, percebo que perdi a oportunidade de me despedir da minha avó. Tinha que ter convidado aquela senhora para tomar um café, escutá-la, contar um pouco da minha vida, e no final despedir-me com um abraço e um beijo. Talvez assim tivesse também me despedido da dona Laura, que por enquanto só sei que está morta porque me disseram, e só saberei realmente que é verdade quando eu voltar a sua casa e ela não estiver. Nunca mais.

Ricardo Viel escreve às segundas, de Lisboa, Portugal

domingo, 23 de setembro de 2012

Coisa Íntima # Ana Mendes

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
Participe, saiba + 

“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”. 
[clique na imagem para ampliar]

Título: Tendência
Descrição: ANA consultou três especialistas em moda e descobriu os modelos ideais para você usar no dia a dia, no trabalho, na balada, em uma festa chique e até para parecer mais magra.
Autor: Ana Mendes
Data: 2011

sábado, 22 de setembro de 2012

Sobre répteis e guevaras

Esta é uma fábula contemporânea, escrita em tempos que alguns animais aprenderam, de fato, a falar. Na natureza, a diferença que separa ou distingue os répteis de um ser humano, como Ernesto “Che” Guevara, por exemplo, é preenchida pela existência de vários outros seres, alguns deles até próximos a seres humanos como o “Che”, por exemplo, ou a ele comparáveis.

Simone, Sartre e Guevara, em Cuba
A reflexão esdrúxula, alegórica e à primeira vista desprovida de algum sentido lógico, eu a faço por não ter conseguido entender até agora o significado da candidatura do cidadão José Serra à prefeitura da cidade de São Paulo. Continua sem sentido? Já me explico. O fato tem lá suas tintas surrealistas, o que me libera também para um comentário de igual teor.

Sei que muitos de nós, por esse ou aquele motivo, nos perguntamos o que viemos fazer nesse mundo, procuramos encontrar um sentido para as nossas vidas, de onde viemos e para onde vamos e coisas do gênero, consoante nossas crenças, nossos valores culturais, nossas reflexões mais íntimas e mesmo as nossas inseguranças. Afinal, sou um homem ou sou um rato? Alguém no passado já se questionou a respeito... Confesso que não padeço dessa angústia, não por virtude – não me entendam mal – mas pelo fato primordial de ser ateu. Não sofro diante dos mistérios insondáveis da vida, das grandes questões metafísicas.

O cidadão José Serra, contudo, formado politicamente nos quadros da Ação Popular, organização católica de esquerda bastante ativa nos anos 60, ocasião – inclusive – em que chegou à presidência da UNE, talvez tenha introjetado a noção de que tinha uma missão a cumprir enquanto vivesse. Um relevante papel político a desempenhar em nome da sua gente, quem sabe? Todos nós temos o direito aos sonhos, quaisquer que sejam eles... E aqui, rendo-me ao lugar comum já tantas vezes por mim ouvido, o de que muitos cidadãos sonham em um dia se tornarem presidentes da república em seus países. Sonho carregado de responsabilidades e que, quanto a mim, se aproxima mais de um Guevara, de um Ghandi ou de um Mandela, na minha modesta e ingênua maneira de encarar o mundo. Muito mais do que se aproximaria de um réptil, é claro. Confesso, aliás, que ainda não li nada a respeito sobre o sonho dos répteis...

E pelos vistos, o cidadão José Serra levou esse desejo ao pé da letra e, diga-se de passagem, com denodado estoicismo. Deve ter encontrado à sua volta e dentro de si motivos para isso, e com certeza nobres. Mas como há um ritual a seguir nessa difícil trajetória, pois poucos são aqueles que conseguem chegar à presidência de uma nação sem um mínimo de experiência política, o nosso cidadão percorreu aos solavancos tal ritual e, na caminhada, parece ter descoberto que, muito além das responsabilidades inerentes ao cargo almejado e antes mesmo de atingi-lo, poderia desfrutar de inúmeras benesses que a sua não tão vã filosofia havia imaginado.

Foi deputado, senador, ministro de estado, prefeito, governador e, curiosamente, não deixou nenhuma marca, nenhum registro ou realização digna de menção para a coletividade em nenhum dos cargos ocupados, por mais que ele próprio, seus apaniguados, o partido a que pertence e a imprensa que o prestigia e o sustenta politicamente façam grandes esforços para encontrar alguma coisa do gênero. Alguma idéia, algum pensamento original. E olha que não faltou oportunidade para tal. Mas a sua grande missão, o alvo final (a não ser que sua melagonomania não tenha ainda sido devidamente avaliada e/ou analisada) seria mesmo a presidência da república. Aliás, “o mais preparado” para o cargo, como gosta de dizer aos quatro ventos...

Segundo os autores das antigas tragédias gregas (Édipo Rei, de Sófocles, continua sendo uma obra prima há mais de 2500 anos), a obsessão de um personagem na perseguição de um objetivo leva-o àquilo a que se chama sua “falha trágica”, um ato que o condena a algum tipo de punição. O cidadão José Serra, embora não seja nenhum herói trágico grego (e muito menos brasileiro), na sua caminhada obsessiva rumo ao palácio do Planalto já cometeu não uma, mas várias falhas trágicas. A maior delas, além daquela – segundo o livro “A Privataria Tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro Jr. – de amealhar pelos mais variados “artifícios legais” milhões de dólares do patrimônio público brasileiro, a maior delas, repito, foi prometer que cumpriria o seu mandato de prefeito em São Paulo (até com um “papelzinho qualquer” assinado, segundo ele mesmo) e não cumprir com a própria palavra. Ou não chegar também ao final do mandato como governador do estado.

O cidadão José Serra foi queimando etapas e até agora colhendo derrotas no seu principal objetivo. De repente, pelos mais variados motivos e meios o Brasil, e mais particularmente o Estado de São Paulo e sua capital, começaram a ter notícias e a perceberem quem é de fato o cidadão José Serra. Um homem despreparado, obcecado e sem idéias próprias. Arrogante, destemperado, vingativo. Apresenta, inclusive, certo ar de autismo, pois sua obsessão não deixa que ouça os que estão ao seu lado e muito menos, é lógico, os que lhe criticam sem ou mesmo com razão.

Impôs-se candidato de última hora dentro do seu partido, quando as prévias já estavam marcadas e alguns pretendentes à prefeitura de São Paulo também já haviam se manifestado. Atropelou a todos em três semanas, e o partido engoliu, como tem sempre engolido, o seu jeito incivilizado de fazer política. Qual seria o segredo desse cidadão? Fragilidade ideológica de outros membros do PSDB? Chantagem? Telhados de vidro à sua volta? “Fadiga de material”, segundo as palavras do sociólogo de textos ininteligíveis? Perfil ditatorial que tanto interessa à oligarquia nacional no seu atual momento de desalento político e sustentado por interesses antinacionais de um capitalismo neoliberal esgotado, mas necessitado de porta vozes com algum potencial eleitoral, mesmo que em total declínio? Ou tudo isso junto? Por isso, a cada dia que passa, entendo menos a candidatura do cidadão José Serra à prefeitura de São Paulo.

Há já alguns anos, ainda adolescente, em Belo Horizonte, minha cidade natal, tive a oportunidade e a sorte de descobrir, com outros jovens estudantes e colegas, que o casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, de passagem pela capital mineira, iriam jantar num tradicional restaurante de carnes exóticas, o Tavares, e para lá muitos de nós nos dirigimos. Era o ano de 1961. As teses existencialistas fascinavam boa parte da minha geração e repercutiam principalmente nos mais jovens. Levei comigo um livro escrito por ele, da sua trilogia ‘Os Caminhos da Liberdade’ e consegui o meu autógrafo, que durante anos pude exibir com orgulho. Os jornais, que deram grande destaque à visita, publicaram entrevistas e opiniões do casal francês mais famoso do pós-guerra.

Numa dessas entrevistas, e repetindo o que já havia dito a jornais em outras partes do mundo, Sartre afirmava depois de uma visita a Cuba, cuja revolução socialista triunfara dois anos antes, que Ernesto Guevara era, provavelmente, o homem mais íntegro e digno que conhecera até então. Para aqueles que conhecem a biografia do “Che”, eram justas e apropriadas as palavras do filósofo francês. Ou também as palavras de Nelson Mandela: “Guevara é uma inspiração para todos aqueles que amam a liberdade no mundo!”

Penso que boa parte dessa dignidade se devia ao fato de que Guevara não tinha a obsessão pelo poder. Ao contrário, após ser ministro do governo cubano quando da vitória da revolução, o “Che” apresentou-se várias vezes para outros combates pelo mundo, dando sua vida por uma causa que considerava justa, sendo assassinado nas selvas da Bolívia. Nenhum sentido de heroísmo, é bom salientar, mas o destemor sincero em lutar pelos mais pobres e desvalidos.

Outro filósofo, esse brasileiro, e em tempos bem mais recentes, o professor Paulo Arantes, fez sobre o cidadão José Serra a seguinte pergunta: “O que será que pensa esse rapaz?”

Já decidido a encerrar o artigo por aqui, dei-me conta de que um leitor mais atento poderia indagar: mas e os répteis? De fato, eu não poderia terminar a fábula sem, pelo menos enaltecer, algumas qualidades dos répteis, como a peçonha das serpentes que serve de matéria prima para o próprio antídoto contra as suas picadas. Ou a incrível qualidade de transformação de um camaleão diante das adversidades enfrentadas na natureza, ou ainda – mesmo com toda campanha pela preservação das espécies – poder admirar as bolsas e sapatos conseguidos de crocodilos e jacarés desavisados.

Peço, então, licença ao professor Paulo Arantes e pergunto aqui sobre os répteis: o que será que eles pensam?

Izaías Almada, escritor e dramaturgo, mantém a coluna mensal Pensando Alto.
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