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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Os óculos Oakley, o náufrago de García Márquez e o heróico salvamento dos chilenos

Em 1955, um repórter chamado Gabriel García Márquez foi escalado pelo editor do diário colombiano El Espectador para contar a incrível história de Luis Alejandro Velasco, que sobreviveu dez dias em alto mar, sem comer nem beber, depois de cair do navio em que trabalhava – outros sete marinheiros caíram no mar, mas morreram. García Márquez foi incumbido de narrar uma história que, à época, fora explorada à exaustão pelos meios colombianos. O náufrago, depois de declarado oficialmente morto (as buscas se encerraram após o quarto dia), virou herói nacional, foi beijado pela “rainha da beleza”, ficou rico com comerciais e, por fim, esquecido para sempre.
Havia algo na fantástica história que faltava ser contado: os motivos pelos quais Velasco caiu no mar. A embarcação vinha dos Estados Unidos sobrecarregada de muamba e, ao encontrar uma tempestade, acabou por entornar. Parte da carga e alguns marinheiros caíram no mar. García Márquez, depois que a história esfriara, conseguiu descobrir o real motivo do naufrágio. O Relato de um Náufrago saiu em fascículos semanais no diário e depois virou livro. Além da qualidade da narrativa, Gabo teve o mérito de expor mazelas escondidas ao recontar a história.
Nesta semana, o mundo (não é exagero dizer) se comoveu com o resgate de 33 mineiros que ficaram, por 70 dias, enterrados a quase 700 metros de profundidade em uma mina nos Andes. Com a facilidade de informação em tempo real, fomos bombardeados com a história de vida dos chilenos, que, assim como Velasco, viraram heróis. Eles também terão encontros com rainhas da beleza, farão comerciais, ganharão dinheiro e serão esquecidos.

33 óculos e 40 milhões de dólares
No entanto, há, ainda, muito a ser contado sobre o ocorrido no Deserto do Atacama. Fatos como a “doação” de 33 óculos de sol que a Oakley fez aos mineiros. Calcula-se que a exposição gratuita que a marca teve com as imagens dos trabalhadores usando seu produto ultrapasse os 40 milhões de dólares – o custo do resgate dos 33 chilenos foi estimado em 20 milhões de dólares. O que há por trás disso?
Segundo o jornal El Mundo, da Espanha, durante os trabalhos de escavação para a retirada dos mineiros foi encontrada uma grande quantidade de ouro e cobre na mina. O Chile é hoje o 15º produtor mundial de minério e pretende, até 2015, alcançar a sétima posição. Quem ficará com essa riqueza descoberta? A mina será reaberta?
Quantas minas como a San José existem no Chile e na América do Sul? Quantos mineiros vivem em situação de risco como os resgatados? É exagero imaginar que muitos trabalhadores de minas trocariam 70 dias de liberdade, a 700 metros embaixo da terra, para ganhar uma casa, 20 mil dólares, fazer propaganda, ganhar ingresso vitalício para assistir seu clube de coração, ser convidado pelo Real Madrid para ver um jogo no Santiago Bernabéu e, principalmente, nunca mais precisar viver como tatu?
O que aconteceu com aquele mineiro, desconhecido, que perdeu uma perna no dia em que os outros 33 ficaram soterrados? Vai ganhar um abraço do presidente do Chile? Vai ganhar óculos de sol da marca gringa? Vai precisar se enfiar embaixo da terra com uma perna só para sustentar a família?
Espero, e torço para, que um novo Gabriel García Márquez seja escalado para contar a história por trás dessa história dentro de alguns meses, quando tudo isso pareça só o roteiro de um filme. Por falar em filme, um canal de TV espanhol, em associação com um colombiano, já está filmando a história dos 33 mineiros.

Ricardo Viel é jornalista e colunista do NR

Lula ministro de Dilma na Casa Civil?

Editorial do jornal Brasil Atual, assinado pelo amigo e jornalista João de Barros, o Jotabê, terá 1 milhão de exemplares a sair antes do segundo turno. Ele provoca com uma ideia que deixo para vocês comentarem, a de que Dilma deveria anunciar Lula como seu ministro da Casa Civil.

Editorial – Jornal Brasil Atual
"O povo brasileiro tem muito a comemorar. Os últimos oito anos foram extraordinários para o país. Pagamos a dívida externa, o risco-país despencou, a inflação também, encontramos um monte de petróleo, o salário mínimo subiu bastante e equivale hoje a 300 dólares, tivemos mais empregos, construímos casas, demos luz para o povo, a educação e a saúde melhoraram, enfim, a lista é extensa é obra de muita gente, mas em particular de duas pessoas: Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef.
O país está resolvido? Não. Há muito a fazer. A corrupção continua sendo o nosso pior mal. Mas quem foi apanhado com a mão na cumbuca presta contas à Justiça. Outra coisa: a candidata Dilma Roussef deveria anunciar logo o presidente Lula como seu futuro ministro da Casa Civil. Ele teria o mesmo papel no governo dela que ela teve no governo dele. Essa via de mão dupla acabaria de vez com a boataria que se fez em torno da sucessão.
Além do mais, o povo aplaudiria demais essa decisão. Seria uma bela forma de manter em campo um time que está ganhando – e de goleada – há oito anos, não é mesmo? Ou você quer que o Brasil entregue o jogo?
Então, nosso próximo passo é esse: dia 31 de outubro, é Dilma, 13, presidente!"

“Subo no palanque com o capeta se for preciso”

Dilma acena com a possibilidade de uma carta na qual se compromete em não apoiar o casamento gay. Serra, esperto, diz que é a favor do casamento civil entre homossexuais. Dizem duas coisas diferentes, mas na olhada rápida de notícias, pareciam falar sobre a mesma coisa. A primeira falava sobre o casamento religioso, enquanto o segundo se referia aos direitos civis – coisa que já existe. Há questão de 3 dias atrás, o rumo do país dependia da descriminalização ou não do aborto.
A que pontos chegamos. Essa pequenez de propostas reflete não só o que sobrou para escolhermos, como o que pensam estes pequenos a respeito da sociedade brasileira. Essa agenda settting ética e moral religiosa (ambas as questões, o aborto e a união homossexual são dessa ordem) ora é proposta pelos candidatos, ora é enlatada e distribuída em massa. Tudo isso porque dizem que Dilma não ganhou de prima por conta dos religiosos.
E Deus volta com tudo neste 2º turno que, ironicamente, deixou a única evangélica declarada de fora. Aliás, justo ela, que se mostrou a menos fervorosa e mais disposta à construção de um estado laico.
Dispostos a tudo agora em nome de Deus, ambos possam de santo para levar a eleição. Na realpolitik, ideologia é coisa de moleque comunista. Não importa o que se acredita, importa o que faz pensarem de você. É isso que elege. Subirão no palanque até com o capeta se for preciso. Perdo-ai-vos senhor, não sabem o que dizem.

Diogo Ruic, jornalista e editor assistente do NR, gosta de Deus, mas não usa de sua fé em vão.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Voltam as chiliquentas das eleições

As chiliquentas têm se tornado figuras frequentes nas eleições brasileiras. Não preciso enumerá-las. Gostaria apenas de falar da última aparição dessa espécie de “formador de opinião”.
Fui deprimentemente apresentado ao vídeo (abaixo) da participação do comediante Marcelo Madureira, de Casseta&Planeta, no Manhattan Conection, do canal GNT. Durante alguns segundos, o também integrante do Instituto Millenium destila desaforos ao presidente. Chama Lula de “vagabundo” e “picareta”.
Madureira, de uns anos pra cá sabemos, integra o Clube dos 4%. São aqueles 4% que acham o governo Lula ruim ou péssimo – único ponto aparente de consenso entre as pesquisas Ibope, Datafolha, Vox Populi e Sensus. Mas nenhum deles consegue apresentar um motivo. Unzinho.
“O pior destes oito anos de governo Lula foi transformar a política definitivamente numa coisa de chacota” é tudo o que consegue falar o comediante. Madureira, demorou oito anos para você conseguir elaborar uma frase de efeito, uma “crítica” ao governo Lula?
O Clube dos 4% não consegue entender que um metalúrgico tenha governado melhor o país do que eles fizeram ao longo de 502 anos (talvez 504). O comediante está entre os 4% que acreditam que Lula quer cercear a liberdade de imprensa. Madureira, você acredita honestamente que um presidente que aguentou ser chamado de mula (que trocadalho, hein?) durante oito anos quer censurar alguma coisa?
As piadas do Casseta&Planeta, que se confundem com os “argumentos” desta gente, foram sempre as mesmas. Lula teve as seguintes opções: burro e vagabundo (preconceito de classe), incapaz de falar o português das elites (novamente, preconceito de classe), piada com a perda do dedo mindinho (preconceito físico, outrora chamado de fascismo), bêbado (como definir uma dessas?). Passaram-se oito anos, Madureira, e vocês não conseguiram renovar o estoque de piadas. Será que é o presidente que tem preguiça?



João Peres é jornalista e colunista do NR

O que não foi dito sobre o SWU

Que o SWU foi divertidíssimo me parece ser um consenso entre os participantes, mas o que incomoda é quando a organização do evento, jornalistas e alguns músicos querem dar um ar de “engajamento” à iniciativa. Como justificativa, cita-se como exemplo o fórum que ocorreu durante os três dias – do meio dia às 15h – em uma das tendas do festival. Lá os convidados não enfrentavam fila para entrar, como ocorria com o público pagante, e ganhavam chocolates, bolachas e águas da Nestlé, uma das patrocinadoras do evento. A água vinha em pequenas garrafinhas de 300 ml, o que forçava um maior consumo e acumulava grande quantidade de lixo. A plateia era formada, em sua maioria, por estudantes universitários que trouxeram, muitas vezes, esses questionamentos à tona na parte final do fórum destinada às perguntas. Questionaram a grande concentração de lixo gerada pela estrutura organizacional do evento, não se podia beber a cerveja na latinha, então o conteúdo era transferido para um copo plástico descartável, não havia bebedouros, não era permitido levar comida, mesmo quem ficasse por três dias no camping, e quem era pego com comida na revista tinha que jogar no lixo.
A comida vendida no festival era cara e ruim – salvo a do restaurante vegetariano. Um hambúrguer, pão e carne, custava dez reais, e uma pizza brotinho – que diminuíra consideravelmente de tamanho no segundo dia – era vendida a oito reais. Tomar banho também era complicado, sete minutos no chuveiro e cerca de uma hora na fila. O chuveiro ligava e desligava sozinho, não podendo ser desligado caso o banho durasse menos do que o tempo determinado. O tempo do banho gerou um mercado paralelo e alguns campistas vendiam sua cota diária a outros que queriam um banho mais demorado. No camping Premium, que custava 500 reais, funcionava da mesma forma, não havendo favorecimento a quem pagara mais, como sucedeu em outras situações no SWU.

Vale a intenção?
O primeiro a desfechar sua crítica aos privilégios concedidos no festival foi Zack de La Rocha, do RATM, por meio do blog da banda. Durante o show do Rage a pista Premium foi ocupada e o som dos microfones acabou sendo cortado diversas vezes. Aliás, o corte de microfones foi prática comum no evento. No último dia do fórum o Sr. Fisher, publicitário e empresário idealizador do SWU, foi vaiado pelos presentes após a exibição de um vídeo de conscientização feito pela modelo-manequim Ellen Jabour e outros colegas de profissão. Após o vídeo, o animo se exaltou e foi quando a apresentadora abriu para perguntas. Um estudante perguntou ao Sr. Fisher se ele achava o evento sustentável e citou alguns pontos observados durante o festival, dentre eles, se era sustentável um trabalhador receber 40 reais pelo dia de trabalho no SWU, momento no qual o microfone foi cortado e seguiu-se um coro de vaias. A apresentadora tomou as dores do Sr. Fisher e disse que não existiam bonzinhos e malvados, mas que o que importava era a intenção – o que fez feliz o pobre diabo. A sequente resposta do publicitário foi previsível, a promessa que no próximo ano o festival seria construído de forma democrática acalmou os ânimos e o Sr. Fisher saiu aplaudido. Lamentei por minha impressão inicial não estar errada, as palmas eram mais por instinto do que por convicção.
Hoje, nada disso parece ter importância, a mídia já divulgou o sucesso do evento, o Sr. Fisher está pensando nos próximos sete festivais já acertados. Mas preocupa pensar que qualquer iniciativa sob o manto da defesa ambiental e da sustentabilidade vende como água no deserto, criando um novo nicho de mercado, que cresce na medida em que o chamado marketing verde é introduzido nas grandes corporações – incluindo a mídia – vindo de brinde ao produto final a chamada “consciência do consumidor”.
O que se coloca como alternativa para salvar o planeta é a mudança no consumo, de forma individual – start with you – não a produção, e nunca o modo de produção. Inverte-se causa e consequência, sendo impossível, sobre essas bases, pensar em uma conscientização efetiva.

Juliana Sassi é jornalista, especial para o NR
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