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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Duas mulheres alucinadas

A história não é minha, é de um amigo que, por ser casado, teme que pode ter problemas conjugais se eu citar seu nome. Por tanto, trago o relato fidedigno, como me foi exposto, sem, no entanto, citar o nome do meliante (me deves mais uma, Marião).

Duas mulheres alucinadas

A semana tinha sido terrível e naquela sexta-feira tudo o que eu queria era chegar em casa e tomar um uísque com duas pedras de gelo. Por isso atendi com tanta má vontade o telefonema da minha mulher. Eu sabia que ela queria que eu passasse em algum lugar para comprar comida. Ela sempre vence.
Entrei na padaria e, para piorar, havia uma fila considerável.
A situação começou a mudar quando tirei o celular do bolso para atender a ligação da “dona encrenca” – ela ganhou esse apelido carinhoso dos meus amigos -, que queria saber se eu demoraria, porque ela tinha fome. Foi quando percebi um respeitável par de pernas atrás de mim. Disfarçadamente, me virei e vi que não era uma, mais sim duas interessantes mulheres. Uma, a das pernas à mostra, era oriental e aparentava ter pouco mais de 30 anos. Um vestido florido, um sapato vermelho e os cabelos longos e lisos. Era uma mulher bonita, com postura, cara de quem sabe o que quer. A outra, loira, tinha um ar mais tímido, mas era ainda mais bela. Já deveria estar próxima dos 40 anos, mas tinha um corpo admirável (vestia uma calça dessas de ginástica) e os braços torneados – tinha pinta de viver na academia. Disfarcei, como pude, meu diálogo ao telefone. Não queria que percebessem que eu sou casado. No final, troquei o “um beijo” pelo “tchau”, e em um gesto rápido, tirei a aliança e a guardei no bolso da calça, ao mesmo tempo em que devolvia o telefone.
A fila andava em câmera lenta graças a uma senhora que decidiu comprar meia padaria e a um senhor que brigava por que havia pedido 100 gramas de mortadela e recebido 103 gramas. Mas a demora já não me importava. Minha diversão era tentar adivinhar quem eram aquelas mulheres.
De repente, escuto uma perguntar a outra em tom bem baixo, quase num cochicho. “E se a gente fizesse uma loucura hoje?”.Meu coração acelerou. Duas mulheres decididas, maduras, em busca de uma aventura. O que poderia ser? Primeiro pensei que elas poderiam ser um casal de lésbicas e estarem a procura de um homem para satisfazê-las. Eu só precisaria ligar para minha mulher, dizer que meu chefe acabara de me telefonar dizendo que o relatório fora rejeitado e eu teria que voltar para o escritório. Eu havia passado a semana fazendo aquilo. Era a desculpa perfeita.
Minha discrição foi para o espaço e me virei para encarar as duas perversas. Foi quando reparei que ambas tinham alianças na mão. O que poderia ser a tal loucura, então? Pensei que poderiam frequentar casas de swing ou fazer troca de casais entre si. A conversa prosseguiu. “Ah, amiga! A gente merece, não é verdade. Faz tanto tempo que não fazemos.”
Dois casais em um motel, enchendo a cara, se drogando. Se bobear, contratam prostituas e prostitutos e fazem uma verdadeira orgia, imaginei. Foi impossível não pensar na minha mulher em casa esperando pela baguete de catupiry que ela tanto ama. O diálogo entre elas era cada vez mais excitante. ”Dane-se o mundo, as convenções! A gente tem o direito de sentir prazer.”
Eu também estava a ponto de mandar para o espaço as regras sociais e perguntar a elas que loucura planejavam cometer, mas fui importunado pelo atendente: “Pois não, senhor. O que vai levar?”. Pedi a tal baguete de catupiry e fiquei ao lado das mulheres com a desculpa de usar o celular. Eu não poderia sair dali sem saber o que aquelas taradas iriam fazer no sábado à noite enquanto eu e minha mulher , sentados em frente à tv, assistíamos ao Globo Repórter.
Veio, então, a revelação que me trouxe de volta à realidade e me fez amar, novamente, minha mulher. A loira tomou fôlego, olhou decidida para o rapaz atrás do balcão, e falou, sem gaguejar: “Me dá uma torta daquela ali de morango com chantilly.” Vi, nos olhos da morena, o início de um orgasmo.

Henrique de Melo Sabines, mineiro, 30 anos, trabalha na ECT e se dedica à astronomia nos fins de semana. Fã de Drummond, começou a escrever por recomendações médicas. É um dos autores do espaço Cronetas no NR.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A culpa é do gandula de 1950

O “se” não joga, costumam dizer os entendidos em futebol nas mesas redondas de domingo. Pode até ser verdade, mas para mim é impossível não pensar nas possibilidades que, a todo momento, são descartadas no jogo da vida quando tomamos uma decisão.
Escolhi ir trabalhar de carro e não de ônibus, e todas as circunstâncias que acarretaria minha viagem coletiva passam a não existir. Posso ter evitado ser vítima de um assaltado ou de um atropelamento na rua; ou eu não teria batido o carro, e o pobre sujeito em quem bati não teria perdido o avião (e talvez um negócio ou um encontro).
O que mais me fascina quando começo a pensar nisso é que muitas vezes as decisões que alteram nossas vidas não estão em nossas mãos. Exemplifico:
Pedro e Ana são meus amigos. Eles se conheceram na faculdade, se apaixonaram, se casaram e Maria está a caminho. Simples, né? Não. Se o pai de Pedro não tivesse sido mandado embora do emprego e decidido mudar de cidade (há 30 anos), aquela história de amor jamais existiria. E se o pai de Ana não tivesse esquecido o RG no dia do concurso público, ele teria passado (porque estudou muito) e toda a família ido embora da capital. Mais uma vez, o encontro de Ana e Pedro – e o consequente nascimento de Maria – seriam apenas mais uma daquelas infinitas possibilidades que nunca se concretizaram. Tem mais.
Pedro só entrou na faculdade na segunda chamada. Se duas pessoas não tivessem desistido, ele teria feito mais um ano de cursinho. Talvez tivesse conhecido a Flávia e agora quem estaria a caminho seria o Lucas. A Ana só escolheu fazer medicina por imposição do pai. O negócio dela é arte, queria ter feito arquitetura. Se ela tivesse enfrentado a família, a Maria não estaria hoje chutando sua barriga. Talvez ela tivesse hoje casada com o sujeito em quem eu bati o carro (arquiteto Jorge Rabelo, diz o cartão dele).
Viram a complexidade da coisa?
Caros leitores, não quero deixa-los preocupados, mas nosso destino é um mero acaso. Um segundo a mais ou um a menos e tudo seria diferente, inclusive este texto.
Se o gandula da final da Copa de 1950 tivesse retardado um pouco mais (ou acelerado) a reposição da bola, aquela redonda de couro não teria chegado aos pés de Ghiggia daquela maneira. Ele não teria acertado aquele chute rente à trave do pobre Barbosa e o Brasil seria campeão mundial em cima do Uruguai (imagina a festa que não seria neste país). Consequentemente, meu avô não teria brigado no bar naquela noite, levado uma garrafada na cabeça e nunca teria conhecido minha avó, enfermeira que o atendeu no hospital. Provavelmente ele teria se casado com a avó da Ana (a futura mãe da Maria), que sempre ficava olhando para ele no portão (e era correspondida, segundo consta). Se assim fosse, minha mãe não teria nascido, eu não existiria e, por consequência, este texto nunca teria sido escrito.
Agora, imagina o que o ato desse desconhecido gandula não gerou lá no Uruguai? Talvez um funcionário dos Correios metido a escritor esteja agora rascunhando um texto que conta como seus avós se conheceram nos festejos do título Mundial de 1950, em Montevidéu. Deve estar louvando os pés de Ghiggia, sem saber que o responsável pelo Maracanazo e pelo consequente casamento dos seus avós (e dos meus também) é um anônimo apanhador de bolas.

Henrique de Melo Sabines, mineiro, 30 anos, trabalha na ECT e se dedica à astronomia nos fins de semana. Fã de Drummond, começou a escrever por recomendações médicas. É um dos autores do espaço Cronetas no NR.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Uma mulher em pernas de pau

E eis que eu, uma vez, me apaixonei por uma argentina. Faz muito tempo e eu já nem me lembro seu nome. Daquelas poucas horas em que passamos juntos, tenho claros apenas dois momentos. O primeiro deles foi quando lhe entreguei meu passaporte – ela havia duvidado da minha idade ou da minha nacionalidade. Estava escuro, e ela precisou se contorcer um pouco em busca de luz para ver o que estava escrito. Em seguida, me entregou de volta o documento e, resignada, me deu um beijo (só posso imaginar que se tratava de uma aposta e ela perdeu). A segunda lembrança é de quando ela me disse que andava em pernas de pau e perguntou se eu sabia do que se tratava. Eu disse que sim, mas não acreditava que fosse verdade. Ela então sumiu e voltou alguns minutos depois caminhando por sobre as pessoas. De lá de cima, me olhou e sorriu com deboche, e a mim só me restou admirá-la desde minha limitação terrena, e me apaixonar.
Antes de ir embora, ela me disse que nos encontraríamos outra vez, em algum lugar, porque “o mundo é pequeno como um lenço” – um ditado espanhol. Já faz muito tempo e nós nunca mais nos vimos. Eu guardo essa história dentro de mim, adormecida, e às vezes essa lembrança vem à tona. É sempre o mesmo sonho. Ela flutua por entre a multidão até chegar a mim e me entregar uma rosa. Eu tento segui-la, mas minhas pernas são demasiado pequenas e ela some sem sequer olhar para trás. Na minha mão esquerda, diante dos meus olhos, a flor se transforma em um vaga-lume, que sai voando e brilhando.
É sempre assim. Então eu acordo um pouco assustado, apaixonado, e decidido a comprar um par de pernas de pau.

Henrique de Melo Sabines, mineiro, 30 anos, trabalha na ECT e se dedica à astronomia nos fins de semana. Fã de Drummond, começou a escrever por recomendações médicas. É um dos autores do espaço Cronetas no NR.

terça-feira, 15 de março de 2011

Por fim, o amor ideal

Já faz algum tempo. Acordei com uma sensação estranha, um bem-estar aparentemente sem motivos, e fiquei o dia todo com aquela imagem e som dando voltas na minha cabeça. Passados três dias, a obsessão continuava - eu a procurava nos lugares mais improváveis, precisava revê-la, nada mais importava. Então tive que admitir: eu estava amando.
Não sei explicar como foi que me apaixonei. Nem mesmo me lembro quando a vi pela primeira vez. Fato é que não havia chamado minha atenção até aquele dia em que a descobri esplendida, destacada entre as demais, em um monótono artigo de revista. A partir dali, aquelas três silabadas, seis letras (duas vogais e quatro consoantes), mudaram minha vida. A palavra Candura me havia enfeitiçado e dado início a uma nova fase na minha vida. Por fim, o amor ideal.
Fomos felizes e nos amamos de verdade, sem cobranças, sem fazer planos, só aproveitando cada momento juntos. Com o tempo a nossa relação acabou se desgastando. Por sorte, não sofri. Um novo amor apareceu na minha vida nem bem eu havia me despedido da Candura. A palavra Sofisticado era a nova dona do meu coração. Entrei novamente de cabeça e vivi, com igual intensidade, como se fosse a primeira vez, uma paixão literária. Foi uma relação totalmente carnal. Amei a Candura por seu significado, sua representação, sua simbologia. Com Sofisticado a atração era puramente estética. Visual e sonora. Foi extremamente prazeroso.
E vieram muitas outras. Cada uma com sua particularidade, seu jeito único. Um circunflexo, a perninha da cedilha, a ondulação do til, a graça do s com som de z...
Aos poucos fui percebendo as vantagens de se encantar por uma palavra e não por uma pessoa. Não existe nenhuma chance de rejeição e há a liberdade plena para que você reparta seu amor com outras. Pode acontecer de amar duas, três ao mesmo tempo, e elas não se incomodam. Agora mesmo estou namorando Recordo e flertando com Elegia. Miudinha, tímida, quase passa despercebida. Mas tem um charme e um ar de mistério que me encantam. Além disso, seu sotaque em castelhano é irresistível. Aliás, essa é a única modificação que permito. Não aceito inclinações ou variações. Sofisticação, por exemplo, me parece de um mal-gosto tremendo. Cândido me dá até enjôo. Não as quero com retoques ou adereços. As amo virgens, nuas e sem retoques.
Fica, então, a minha dica. Se você só se apaixona por pessoas, sugiro que reveja seu modo de pensar o amor. Já tive casos com músicas, livros, lugares e, agora, palavras. Vale muito a pena.
É importante, no entanto, fazer uma advertência. Assim como acontece na relação entre seres humanos, não se sai por aí buscando uma palavra para querer. Não adianta abrir agora o dicionário e tentar se apaixonar por Medíocre ou Burocracia. Os acasos da vida se encarregam de coloca-las no seu caminho. Faça sua parte. Esteja aberto e receptivo para ser seduzido por uma. O resto vai acontecer naturalmente.
Olha aí, Naturalmente. Na-tu-ral-men-te. Bem interessante, não acha? Não é assim uma Candura, uma Elegia, mas tem lá a sua graça.

Henrique de Melo Sabines, mineiro, 30 anos, trabalha na ECT e se dedica à astronomia nos fins de semana. Fã de Drummond, começou a escrever por recomendações médicas. É um dos autores do espaço Cronetas no NR. Ilustração de Caco Bressane.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Treinando para ser Chuck Norris

Voltei para casa cansado e vencido. Procurei, em vão, qualquer coisa para comer e fui obrigado a sair novamente em busca de alimento. No caminho até a padaria pensei que merecia uma cerveja pela dedicação, mas fui violentamente chacoalhado pela realidade. Bem diante dos meus olhos, uma manada de pessoas saudáveis e lépidas, vestidas de quimono, corriam em busca de algo. Estavam felizes. Era um sinal. Eu precisava ser como eles - pensei no ato. Joguei fora o cigarro que queimava entre meus dedos e entrei no sobrado branco onde eles haviam se metido.Uma secretária séria, mas atenciosa, me explicou que ali era uma academia de Krav Maga e que o cooper fazia parte do aquecimento.

- Gravi maga?
- É uma técnica de defesa pessoal desenvolvida em Israel e que foi adaptada para nos proteger da violência urbana.
- Hum... E você faz? – perguntei para tentar manter a conversa.
- Faço há seis meses.
- E aí?
- Olha, não precisei usar ainda, mas me sinto muito mais segura hoje em dia, para tudo.

Ela, que parecia uma pessoa equilibrada e confiante, me convidou para fazer uma aula experimental. Voltei para casa animado. Eles me prometiam condicionamento físico, bem-estar psicológico e segurança por apenas 150 reais mensais. Era dizer adeus a minha vida medíocre e me tornar um vencedor!
No dia seguinte, vesti minha calça de moleton cheirando guardado e rumei para minha primeira aula de Krav Maga. Éramos uns 40, todos tão (ou quase) inexperientes quanto eu na arte de espantar bandidos. Fomos recebidos pelo instrutor, um israelita de uns 40 anos, que nos mandou correr pelo tatame para aquecer. Crianças, executivos fora de forma, mulheres que pareciam não terem participado das aulas de educação física no colégio e eu. Todos em busca do mesmo ideal.
Abdominais, alongamentos, agachamentos, flexões. Aos poucos o cansaço ia tomando conta do ambiente. Meu colega de lado começou a ficar vermelho e parecia enfartar. Um pouco à frente, uma moça tentava, sem sucesso, tocar o dedo do pé com a mão.
Sentados no tatame, pai e filho se olhavam na busca de dar e receber apoio, até que o patriarca soltou todo o peso do corpo contra o solo e cochichou para a pequena criatura: “Morri”.
Após o duro aquecimento, o professor passou a nos explicar que nós não tínhamos apenas o direito, mas o dever de nos defender de um ataque. A fala dele tinha um tom de autoajuda e um ar de sabedoria. As frases eram de efeito:

- Aqui, nós aprenderemos a superar obstáculos físicos e mentais
- Nós estamos expostos à violência diariamente no trabalho, na escola, na rua, e precisamos aprender a nos defender.

O tema da aula naquele dia era como resistir a um ataque de um marginal (desarmado). Esquiva e uma sessão de golpes, de baixo para cima, no queixo. Repetimos os movimentos, que deveriam ser executados de forma rápida e precisa, em 20 repetições. Meu colega do lado, com quem pratiquei os golpes (apenas uma simulação, que fique claro), tentava me motivar. Dizia que no começo era complicado, mas que aos poucos aprenderíamos.
Eu tentava me imaginar golpeando os inimigos, mas não me convencia de que eles chegariam tão perto e seriam tão benevolentes quantos meus colegas de prática. A aula prosseguiu nesse ritmo – de semitortura, diria - até quase seu término. Foi quando aquele pai, recuperado da experiência de quase morte, questionou o instrutor.

- Os praticantes do Krav Maga podem utilizar armas, como paus e pedras, para se defender?

Nosso guia foi pego desprevenido, mas o silêncio foi apenas para organizar as ideias da melhor forma. Em seguida, com sua voz segura e pausada, discursou:

- Veja. Tudo é válido para você defender a sua vida. Você só tem que ter segurança e estar preparado para reagir àquele ataque e usar as melhores ferramentas. Um exemplo, você está no restaurante com sua namorada. Colocou uma roupa bonita, está bem vestido, em clima de amor, quando de repente começa uma briga. Se você não quer amassar a camisa, pode pegar o garfo e....

Um movimento rápido e o braço do nosso mestre cortou o ar. Impressionante! Ele atingiu, impiedosamente, a mão do virtual agressor com um garfo imaginário. Silêncio na sala.

- Tudo é válido para você proteger a sua vida. Até um garfo pode ser usado dependendo da circunstância.

Não. A garfada não me acertou. Eu, que já me questionava sobre a utilidade de tudo, comecei a me sentir um idiota no meio de pessoas treinando para ser Chuck Norris. Pensei que se eu fosse um bandido seria tão fácil dar um tiro no professor como numa senhora de 70 anos. Mas meus colegas de sofrimento pareciam, de fato, interessados em ser super-heróis. Um deles perguntou para o professor quanto tempo levaria para aprender a se defender de um ataque com armas.
A resposta inicial não foi nada animadora. Nosso mentor disse que, em média, era preciso de uns três anos de aulas para estar apto a se esquivar de tacos de baseball e tiros de revólver – ou seja, só quando pudéssemos correr ao redor do quarteirão de quimono. Veio então a solução milagrosa, que fez brilhar os olhos dos aprendizes. O que vocês podem fazer é participar das oficinas. No mês passado mesmo fizemos uma. Sábado e domingo, o dia todo, e você sai de lá com toda a técnica. Vêm instrutores de Israel e qualquer um pode participar.
Não tive curiosidade de saber o valor do curso. Seguramente seria mais caro do que ser assaltado por um trombadinha. Deixei a sala em silêncio, assim que acabou a aula, e nunca mais voltei. Mas uma dúvida ainda ronda minha cabeça: como o professor se safaria daquele ataque se o restaurante fosse japonês?

Henrique de Melo Sabines, mineiro, 30 anos, trabalha na ECT e se dedica à astronomia nos fins de semana. Fã de Drummond, começou a escrever por recomendações médicas. É um dos autores do espaço Cronetas no NR.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Como lidar com a simpatia suspeita (e o caso do Miguel do sebo)

O termo não é meu. Foi cunhado por um amigo ou ele roubou de alguém. Fato é que posso me considerar o responsável por desenvolver a teoria sobre essa curiosa espécie: os simpáticos suspeitos. Grosso modo, são aquelas pessoas – normalmente totais desconhecidas – que, sem motivo aparente, demonstram, já no primeiro contato, uma amabilidade e carinho desproporcional para a situação posta.
Após meses de análises e estudos de caso, identifiquei duas espécies clássicas de simpáticos suspeitos, com igual nível de periculosidade social. Desenvolvi, com base na pesquisa realizada, um protocolo de atuação em caso de abordagem.

Classe de simpáticos suspeitos

1) Simpáticos por profissão

Por pura necessidade - diria até, sobrevivência -, algumas pessoas desenvolvem esse tipo de simpatia. Justamente por ser imposta, ela é falsa e condicionada a uma possível retribuição. Exemplo clássico dos simpáticos por profissão são os vendedores.

Modus operandi: São ágeis e perspicazes. Aguardam um primeiro contato visual para a abordagem, e têm um tom amável, mas firme. Costumam falar no plural – muitas vezes aplicam o gerúndio (e de modo equivocado) - além de demonstrar interesse exagerado seja qual for sua resposta.

Como agir: Ao perceber sua presença, mantenha o passo firme, decidido e jamais estabeleça contato visual. Utilize todas as armas a seu alcance: comece a falar no celular, leia o que estiver à mão ou faça uma cara de dor - é permitido simular um problema estomacal e andar mais rápido).

Alerta: Essa espécie não consegue esconder a reação quando contrariada e pode demonstrar certa agressividade quando não atingem o objetivo. Esteja preparado.

2) Simpáticos por vocação (ou carência)

A simpatia, nesse caso, não se trata de algo desenvolvido, aprendido, mas um dom. Até por isso, é mais difícil de identificar, no primeiro momento, a presença dessa espécie. Podem tomar formas variadas, como a de uma sorridente senhora, um alinhado executivo ou até mesmo uma inofensiva enfermeira.

Modus operandi: Costumam iniciar uma conversa banal, muitas vezes em uma situação em que você e ela não estão sozinhos. Agem em filas de banco, viagens longas (de trem, ônibus ou avião) ou qualquer outra situação em que haja espera.

Como agir: Jamais responda ao contato, que pode ser um simples: “Que fila demorada, não?”; “Será que o ar condicionado está quebrado”, ou qualquer coisa do gênero. Alguns utilizam-se do contato físico, como uma cutucada nos ombros. No último dos casos, faça-se de estrangeiro ou surdo-mudo para não dar andamento à conversa.

Alerta: Não tenha piedade. Uma simples resposta, inocente e monossilábica que seja, pode significar horas e horas de conversa, que na maioria dos casos se converte em monólogo, já que essa espécie não está acostumada a ouvir, mas a falar.

O caso do Miguel do sebo

Se você estiver cansado das abordagens dos simpáticos suspeitos, sugiro uma ida ao Sebo do Miguel, em Perdizes, São Paulo. Não se assuste com a centena de livros aparentemente espalhados de qualquer maneira e prestes a caírem das prateleiras. Há uma ordem, e ela se chama caos. Miguel fingirá que não notou a sua presença. Após 20 minutos de procura de um livro, você se dará conta de que não encontrará nada sem o auxílio do Miguel. Pule a parte do protocolo de iniciação da conversa (“bom dia” ou “boa tarde”) e vá direto ao ponto. Não pergunte se tem um livro de tal autor. Pergunte se tem tal livro. Ele dirá que sim. Se você não pedir para ele te mostrar ou dizer onde está, a conversa vai terminar por aí. Se for um livro mais trabalhoso de achar, Miguel vai perguntar: “Você vai comprar?”. Só diga que sim se realmente for comprar. Se o primeiro contato foi bem-sucedido e Miguel tiver ido com a sua cara (ele deixa isso claro já no primeiro momento), peça a ela para, um dia, quem sabe, lhe mostrar os vinis. A resposta será: “Tudo bem, venha um dia com tempo e dinheiro”. Mesmo que você estiver com tempo e dinheiro naquele dia, não insista, porque ele não terá tempo – mesmo que aparentemente (e provavelmente) não esteja fazendo nada naquele momento.
Com o tempo e as constantes idas ao sebo, você vai se dar conta de que Miguel só trata dessa forma quem ele realmente gosta. Vai perceber que entrarão outras pessoas no local e que ele dirá que não tem um livro que tem, ou que está fechando (mesmo sendo três horas da tarde).
Se Miguel tiver gostado muito de você, um dia vai sugerir livros e até brincar com a sua namorada – que você levou pela primeira vez para conhecer a figura e o local. Frases do tipo “o que uma mulher tão bonita e educada como você está fazendo com um rapaz como ele?” são prêmios que poucos que frequentam o sebo podem se vangloriar de ter recebido. Se acontecer contigo, comemore: você fará parte do seleto grupo de pessoas que Miguel gosta de receber.

Henrique de Melo Sabines, mineiro, 30 anos, trabalha na ECT e se dedica à astronomia nos fins de semana. Fã de Drummond, começou a escrever por recomendações médicas. É um dos autores do espaço Cronetas no NR.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O amor mora no 202?

Queridaaaaa, cheguei!

“Amooor, seguei”. É uma frase simples, inócua, mas que consegue estragar o pouco de humor que me resta no final do dia. Ela é dita pelo vizinho do lado, diariamente, quando o dito cujo chega do trabalho, entre seis e meia e sete e meia da noite. Eu disse: todos os dias. A parede fina do apartamento me permite (talvez me obrigue) ouvir a saudação do rapaz a sua amada com toda a desnecessária sonoridade.
Vivo neste cubículo há seis meses, mas o fantasma da alegria alheia me persegue há menos. O casal se mudou para o 202 há uns três meses.
Nunca conversei com eles e os vi algumas poucas vezes no elevador ou no corredor no prédio. Parecem pessoas normais. Até gente boa, eu diria. Mais ou menos da minha idade. Em tese, poderiam perfeitamente fazer parte do meu ciclo de amizades. Mas eu trocaria meus vizinhos por um aprendiz de violoncelo, uma evangélica fervorosa ou um casal ninfomaníaco.
Nada contra o amor. Fico contente que ainda haja no mundo pessoas que consigam dividir o mesmo espaço - nesse caso, mínimo, escasso - e serem felizes. Meu ódio é contra a mesmice, a monotonia, e, principalmente, a imbecilidade de se dizer diariamente um “amor, cheguei”.
Sempre que ouço o Romeu chegando, penso: como alguém pode sentir qualquer tipo de carinho pelo companheiro que faz, diariamente, com aquela entonação idiota que algumas pessoas usam para falar com as crianças ou os cachorros, a mesma declaração (batida) de amor? E como pode alguém manter intacto o carinho e respeito conquistados ao fazer, todos os dias, com a mesma voz de babaca, a mesma declaração (batida) de amor?
Quando a chave roda na porta do 202 me sobe um frio na espinha e o tempo se congela. Os dois ou três segundos de silêncio entre o ranger da madeira e a frase dita são uma eternidade, a calmaria antes do tsunami.
Confesso que da primeira vez foi engraçado. Fui pego de surpresa e um sorriso espontâneo brotou na minha face quando escutei a manifestação amorosa. A partir do terceiro comecei a fazer cara de namorado idiota e dublar a frase. Ainda era um pouco divertido.
Na segunda semana já passou a ser insuportável e comecei a me planejar para não estar em casa nesse horário. Saía para andar com o cachorro, tomava banho, colocava o som mais alto. Qualquer coisa para não duvidar de que duas pessoas com as perfeitas faculdades mentais podem se amar dessa forma. Era inócuo. Difícil prever com exatidão o momento da chegada da hecatombe que carrega meu resto de humor para a lua.
Já cogitei muitas hipóteses – algumas de extrema maldade - para que a paz volte a reinar em minha casa. Primeiro (e bondoso) pensamento: quem sabe a Julieta engravida e eles cheguem a conclusão de que o espaço é pequeno demais para três? Demoraria, no mínimo, nove meses. Até lá já terei enlouquecido.
Pequenos atentados, foi a segunda alternativa. Riscar o carro do casal e murchar os pneus; colocar por baixo da porta insultos e ameaças; propagar a teoria de que no apartamento do lado houve um brutal crime em que o homem matou a mulher e deixou o corpo guardado na geladeira por anos; contratar um profissional para descobrir a amante dele ou o amante dela (e se não existir, criar um) e enviar por correio um dossiê detalhado sobre a traição. Hipóteses, pelo perigo que trazem e pela maldade em si, inviáveis. Tão inviável quanto os dois mil e trezentos reais que o rapaz quer me cobrar para tornar meu apartamento cem por cento vedado a ruídos externos. “Pode pagar em três vezes, parceiro”. Como se em três vezes o valor caísse de dois mil para dois reais!
Já tenho o plano. Chamarei o dono do meu apartamento para um café e vou propor um ruptura do contrato amigável, sem multa. Motivo? Permitir que eu, um rapaz de trinta e poucos anos e que vem de relações afetivas frustradas, não perca o pouco de esperança que tenho no amor.
Faz quatro dias que não escuto o “amor, seguei”. Ouço ele entrar no apartamento no horário de sempre. Mas entra calado. Não sei se ela viajou ou se eles estão em crise. Hoje vi o elevador com a proteção que se coloca quando alguém no prédio está de mudança. O amor se mudou do 202?

Henrique de Melo Sabines, mineiro, 30 anos, trabalha na ECT e se dedica à astronomia nos fins de semana. Fã de Drummond, começou a escrever por recomendações médicas. É um dos autores do espaço Cronetas no NR.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O inflar moderado das bochechas e a amizade

As viagens de elevador sempre me causaram desconforto. Não se trata de pavor por estar enclausurado em uma caixa de aço ou mal-estar pelas subidas e descidas. Minha questão está relacionada ao estranho-conhecido com quem sou obrigado a dividir dois metros quadrados. Demasiada intimidade.
O que fazer/dizer nos poucos segundos em que você e a outra pessoa compartilham aquele pequeno espaço? A saída mais óbvia e confortável é apoiar-se nos clássicos chavões (‘esfriou, né’; ‘será que chove?’) para solucionar a questão. Comigo a tática não funciona. Acabo me sentindo um completo estúpido e me envergonha da pequenez humana.
Ao mesmo tempo, sei que é absolutamente impossível tentar iniciar uma conversa que tenha um mínimo de profundidade. São segundos que teremos para discutir os problemas vitais. Inviável.
Ultimamente minhas viagens de elevador têm sido bem mais agradáveis. Há meses tenho um companheiro. Um senhor de seus sessenta anos que pouco antes das sete da manhã, inclusive nos finais de semana e feriados, encara a viagem dentro daquela caixa de aço para poder fumar seu cigarro no estacionamento do prédio. Há entre nós uma compaixão silenciosa.
Ao olhá-lo, penso: “Pobre homem. Trabalhou a vida toda, conseguiu juntar algum trocado para comprar sua morada, e hoje precisa abandona-la em plena madrugada para fumar em paz o primeiro cigarro do dia para não ser torturado mental (e quiçá fisicamente) pela esposa, que um dia foi companheira, mas hoje é inimiga”.
Arrisco dizer que quando meu amigo me fita de canto de olho, vem a sua mente algo do gênero: “Pobre rapaz. Sempre com essa cara abatida, derrotado. Tão cedo tem que levantar para se dirigir a um trabalho que não deve fazer com gosto e que não tem coragem de largar porque lhe paga o suficiente para o aluguel. Tomara não termine a vida ao lado de uma mulher que nem lhe permita fumar um cigarro quando acorde”.
Os primeiros encontros no elevador foram tensos. Com o cérebro ainda operando no modo de segurança (apenas as operações vitais em funcionamento) o único possível é balbuciar uma palavra. Da primeira vez tentei um “opa”, mas ele, mais formal, já havia ensaiado um “bom dia”, que saiu ao mesmo tempo do que meu cumprimento. O descompasso nos deixou bastante constrangidos. Na saída do elevador, me escapou um “falou”, que ele respondeu com um “bom dia”. No dia seguinte, adotei a tática do “bom dia”, mas ele, ainda sonolento, disse, um instante antes, um “boa noite”. Quando a porta se abriu, me saiu um “tchau tchau” e ele rebateu com um “falou”. Ambos soaram falsos, e cheguei a conclusão de que nunca seriamos amigos nesses tristes madrugadas se não alcançássemos essa afinidade.
Foi no terceiro dia que nos entendemos e demos início a essa linda amizade que agora existe. Naquele início de manhã eu estava especialmente destruído e, ao entrar no elevador, não tive forças sequer para abrir a boca. Meu gesto foi espontâneo e em momento algum tive a mínima noção de sua grandeza. Simplesmente movimentei moderadamente a cabeça para baixo e para cima e inflei, com parcimônia, minhas bochechas. Só depois fui me dar conta de que aquela saudação era um tratado sobre o sofrimento humano, as mazelas da vida e a tristeza de se encarar o universo totalmente desarmado. A reação de meu amigo foi imediata, sincronizada e perfeita. Repetiu o gesto com a mesma altivez e sabedoria.
Ali estava nossa chave. Sem palavras, nos entendíamos. Demos força um ao outro. Sofremos juntos nossas penas e, ainda em silêncio, transmitimos ânimo para aquele início de labuta que prometia ser penosa. Na saída do elevador, o adeus veio em forma de uma mão – a direita – erguida levemente. Não era um aceno, nos vos confundais. Era apenas um levantar de braço com a palma da mão aberta. Gesto simples, mas muito mais forte do que um abraço.
Desde aquele dia nossas manhãs começam menos triste. Embora não tenha conversado com ele sobre esse assunto – nem sobre nenhum outro, jamais – sinto que minha presença no elevador lhe passa serenidade e lhe dá o combustível necessário para tragar com força seu cigarro matinal e voltar à casa disposto a suportar a tragédia humana. De minha parte a sensação é a mesma. Tenho um companheiro que me entende e está a meu lado sem nenhum interesse. Somos amigos graças a nossas bochechas e nossa mão direita.
Amizade de elevador é coisa rara e deve ser cultivada. Até então eu só havia conquistado um amigo nessas circunstâncias. Um senhor austero, digno, mas completamente torpe na arte da convivência na caixa de aço de dois metros quadrados que nos sobe e baixa. Sempre se apressava em cumprimentar-me e, invariavelmente, dizia frases óbvias e dispensáveis. Por quere-lo, passei a entrar no elevador com celular em mãos. Assim que respondia seu “bom dia”, eu agarrava o celular e apertava a primeira tecla que meu polegar encontrasse. Era a senha: estou ocupado, respeite. Assim, viajávamos os quatro andares em paz e terminávamos o recorrido com a saudação de praxe. Um dia cometi o equivoco que deu início a nossa relação de cumplicidade. Ao ingressar no elevador, vi que ele trazia compras e passei a analisa-las (com muita discrição). Ao levantar a cabeça, minha mirada e a sua se cruzaram de forma que ele se sentiu obrigado em dizer algo. E foi quando, sem argumento e preso na angústia de dialogar, o senhor da cobertura me disse: “É isso”. Um pouco espantado, entendi que aquela era a senha da cumplicidade absoluta. A mensagem era clara, cristalina. O que eu dissesse ele estava de acordo. Éramos amigos. Uma pena, meses depois me mudei e duvido que ele tenha encontrado alguém capaz de entender a profundidade de seu “é isso”.
Em breve estarei de férias. Sentirei a falta de meu companheiro fumante. Talvez eu volte a meu antigo prédio apenas para tentar encontrar o senhor da cobertura. Quando ele me disser seu sábio “é isso” responderei com um moderado movimento de cabeça, para baixo e para cima, com a simultânea inflada parcimoniosa de minhas bochechas. Tenho certeza que ele vai entender toda a profundidade desse singelo gesto.

Henrique de Melo Sabines, mineiro, 30 anos, trabalha na ECT e se dedica à astronomia nos fins de semana. Fã de Drummond, começou a escrever por recomendações médicas. É um dos autores do espaço Cronetas no NR.
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