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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Futebol, política e cachaça em 15 de julho
Causos e ditados do Brasil sobre a “marvada” e sua influência na política e no futebol. Com Mouzar Benedito e o amigo Anselmo Massad, na quinta-feira que vem, 15 de julho, às 19h na Biblioteca de São Paulo, no Parque da Juventude, avenida Cruzeiro do Sul, 2630 em Santana. Segundo o próprio Anselmo “a ideia é um bate-bapo sobre as relações entre a cachaça, o ludopédio e o universo da política. Das trágicas como a do garrincha, às recentes, de jogadores que são cachaças sem tomar cachaça.”
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Sala de Cinema entrevista Silvio Tendler
Amanhã, 8/07, às 22h, Miguel de Almeida entrevista Silvio Tendler, cineasta documentarista autor de registros dos principais acontecimentos da história política do Brasil em filmes como "Os Anos JK - Uma Trajetória Política" (1980); "Jango" (1984) e "Utopia e Barbárie" (2005), entre outros. A exibição faz parte da série Sala de Cinema, do SESCTV e esse que vos escreve participou como entrevistador. A entrevista foi no ano passado - novembro, se não me engano - quando Tendler tinha lançado seu último filme, Utopia e Barbárie. Eu ainda estava na Revista do Brasil quando fui convidado a participar da entrevista. O vídeo abaixo explica a dinâmica do programa. Fica a dica!
ATENÇÃO PARA AS REPRISES:
09/07/2010 : 02h00 : sexta-feira
10/07/2010 : 20h00 : sábado
11/07/2010 : 04h00 : domingo
11/07/2010 : 17h00 : domingo
12/07/2010 : 00h00 : segunda-feira
PARA SINTONIZAR O SESCTV
Canal 3, da Sky.
Nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro
Canal 137, da NET Digital
Em outras cidades consulte: www.sesctv.org.br
Thiago Domenici, jornalista
ATENÇÃO PARA AS REPRISES:
09/07/2010 : 02h00 : sexta-feira
10/07/2010 : 20h00 : sábado
11/07/2010 : 04h00 : domingo
11/07/2010 : 17h00 : domingo
12/07/2010 : 00h00 : segunda-feira
PARA SINTONIZAR O SESCTV
Canal 3, da Sky.
Nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro
Canal 137, da NET Digital
Em outras cidades consulte: www.sesctv.org.br
Thiago Domenici, jornalista
6.700 cabeças de gado do candidato Roriz
Roriz é candidato
Até agora, o medo do Ficha Limpa não se mostrou fundamentado. Quem tem amigos tem tudo, e Roriz é candidato com tudo, inclusive nove partidos que confiaram que o ex-governador não terá sua candidatura impugnada pela justiça eleitoral. Alguns partidos tiveram medo de se juntar a uma campanha que ficaria pendurada em idas e vindas da justiça, como o PSDB, o DEM e o PR. Mas algo, no meio do caminho, deu um sopro de motivação e confiança, fazendo com que esses partidos apostassem todas as suas fichas na velha Raposa da Política do Cerrado.
Lavô tá novo
O efeito Gilmar Mendes pode ser um dos fatores para essa confiança extra. Parece que o ministro entende por Ficha Limpa uma versão mais branda, chamada Ficha Lavô Tá Novo. Ele deu autorização para amigos seus, que se enquadram perfeitamente nos critérios de inelegibilidade previstos pela lei, concorrerem nessas eleições. Simples assim
Quem tem amigos...
… como Gilmar Mendes sabe que ele é um para se guardar do lado esquerdo do peito. Amigão de verdade. Daniel Dantas que o diga.
Patrimônio Menor
Na eleição passada, quando concorreu e ganhou uma vaga ao Senado, Roriz declarou patrimônio de cerca de cinco milhões de reais. Os mais desconfiados estranharam, pois o fazendeiro tem uma fortuna enorme, acumulada ao longo de décadas. E qual não foi a surpresa quando, esse ano, a declaração de Roriz chegou em cerca de um milhão de reais. Agnelo Queiroz, modesto ex-ministro e ex-PCdoB, declarou valor 38 mil reais maior que Roriz. No dia 7, os advogados de Roriz enviaram uma retificação, dizendo que a Justiça Eleitoral havia deixado de contabilizar cerca de 6.700 cabelas de gado. Com a boiada, o patrimônio de Roriz fica pouco acima de cinco milhões de reais. Até o Ministério Público estava desconfiado.
Rodrigo Mendes de Almeida é jornalista e mantém no NR a coluna Estação Brasília
Até agora, o medo do Ficha Limpa não se mostrou fundamentado. Quem tem amigos tem tudo, e Roriz é candidato com tudo, inclusive nove partidos que confiaram que o ex-governador não terá sua candidatura impugnada pela justiça eleitoral. Alguns partidos tiveram medo de se juntar a uma campanha que ficaria pendurada em idas e vindas da justiça, como o PSDB, o DEM e o PR. Mas algo, no meio do caminho, deu um sopro de motivação e confiança, fazendo com que esses partidos apostassem todas as suas fichas na velha Raposa da Política do Cerrado.
Lavô tá novo
O efeito Gilmar Mendes pode ser um dos fatores para essa confiança extra. Parece que o ministro entende por Ficha Limpa uma versão mais branda, chamada Ficha Lavô Tá Novo. Ele deu autorização para amigos seus, que se enquadram perfeitamente nos critérios de inelegibilidade previstos pela lei, concorrerem nessas eleições. Simples assim
Quem tem amigos...
… como Gilmar Mendes sabe que ele é um para se guardar do lado esquerdo do peito. Amigão de verdade. Daniel Dantas que o diga.
Patrimônio Menor
Na eleição passada, quando concorreu e ganhou uma vaga ao Senado, Roriz declarou patrimônio de cerca de cinco milhões de reais. Os mais desconfiados estranharam, pois o fazendeiro tem uma fortuna enorme, acumulada ao longo de décadas. E qual não foi a surpresa quando, esse ano, a declaração de Roriz chegou em cerca de um milhão de reais. Agnelo Queiroz, modesto ex-ministro e ex-PCdoB, declarou valor 38 mil reais maior que Roriz. No dia 7, os advogados de Roriz enviaram uma retificação, dizendo que a Justiça Eleitoral havia deixado de contabilizar cerca de 6.700 cabelas de gado. Com a boiada, o patrimônio de Roriz fica pouco acima de cinco milhões de reais. Até o Ministério Público estava desconfiado.
Rodrigo Mendes de Almeida é jornalista e mantém no NR a coluna Estação Brasília
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No Nepal, quase presa, fumando o haxixe do Sadam
“- De onde você conhece esses dois?” – me perguntou, em inglês o comandante. Eu de pé, com a latinha de cerveja Everest na mão, olhei para os dois meninos sentados na escada e respondi: “- De um vilarejo, quando cheguei à Kathmandu, dois dias atrás.” Eu estava mentindo. Conheci Sadam num tour por um vilarejo pouco distante da capital do Nepal, chamado Bhaktapur. Conversamos muito quando eu lhe disse que era brasileira. Apaixonado por futebol e um curioso pelo Brasil, fez diversas perguntas sobre modo de vida, clima, praias. Falamos sobre minha viagem, falei que no dia seguinte iria embora e contei sobre minha experiência com o Bhang na Índia. Prontamente, ele me ofereceu o haxixe nepali. Apesar de proibido, no vilarejo de agricultores onde mora Sadam eles cultivam e fumam e a polícia nunca vai lá.
Anotei meus contatos e combinamos de sair naquela noite pra experimentar a iguaria local. Apesar de me sentir segura em relação à Sadam, por precaução, deixei passaporte e dinheiro no hotel. Levei somente o cartão de identificação do seguro e a chave do quarto. Quando ele chegou, me apresentou um amigo e rapidamente decidimos aonde ir. Avisei a recepcionista que ia sair e deixei com ela o número do meu quarto. Pegamos um táxi na porta do hotel, avisei que estava sem dinheiro e eles se ofereceram para pagar. Descemos numa praça, alguns templos e muitas pessoas. A lua cheia brilhava e algumas vacas passeavam pelo calçadão.
Subimos o templo e, sentados na escada, fumamos dois cigarros do mais puro haxixe do Nepal. Ele me perguntou se eu queria mais, eu disse que não e ele avisou que estava na bolsa, pra quando eu quisesse. O outro rapaz desceu para comprar umas cervejas, voltou com três latinhas e algumas salsichas.
Estávamos ali há poucos minutos e eu sentia o efeito do haxixe bater enquanto conseguia a proeza de contar uma piada em inglês, quando avistei um sujeito fardado vindo em nossa direção. Percebi que os meninos ficaram tensos, o guarda chegou falando com eles em nepali, pegou uma das latinhas, confirmou que era cerveja, olhou pra mim, de pé, estática, com cerveja e cigarro na mão, e ficou puto. Eles começaram a discutir, Sadam do meu lado tentava me tranquilizar.
Qual era a bronca?
Eu estava nervosa, não entendia qual era a bronca. Tentei argumentar com o policial e comecei a conversa perguntando se ele falava inglês. A resposta veio num inglês perfeito: “I don’t speak english”. Na hora, só consegui pensar que ele me entenderia se eu falasse e comecei a argumentar.
Disse que era turista, brasileira, estava com um grupo num hotel cinco estrelas de Kathmandu. Expliquei que aquela era minha última noite na cidade, estaria encerrando minha viagem e nós só queríamos comemorar. No ar do haxixe, devo ter dito que a lua estava linda, e o oficial me cortou num inglês que ele disse que não falava, dizendo que eu não tinha culpa porque eu era turista e não sabia, mas tomar cerveja no templo não era permitido. Os meninos sabiam disso e por isso estavam encrencados.
No fundo, eu sentia que o policial queria dinheiro. Ele me tratava, além de eu ser turista, achava que eu tinha alguma coisa. Em algum momento perguntou se eu tinha dinheiro para um táxi. Disse que não. Fomos escoltados templo abaixo até o meio da praça, onde uma concentração de policiais já tinha se formado. Sadam ao meu lado ia traduzindo parte da conversa. Quando me virei para falar com Sadam, ouvi um estalo. Olhei para o nosso amigo e ele estava no meio de cinco policiais com a mão na cabeça. O oficial que havia conversado comigo, crescia com uma mão para cima enquanto a outra segurava o cacetete atrás das costas.
Me mandaram subir na van
Sem pensar duas vezes, pedi que parasse, aquilo não resolveria nada. Sugeri que fôssemos ao meu hotel pegar meu passaporte, tomar as providências necessárias, mas não adiantou. Ele falou suavemente que eu voltaria para o meu hotel sem problemas, mas que os meninos o acompanhariam até seu escritório. Quando a viatura chegou, tomei um susto. Era uma van preta, com o inscrito da Polícia do Nepal na frente, em branco. As janelas, insufilmadas e gradeadas. Certamente, blindada, o mesmo tipo de veículo utilizado para fazer transporte de presos. Achei que me colocariam num táxi e dali eu voltaria para o hotel. Me mandaram subir na van. Confusa, confirmei. Mandaram de novo. Lá dentro, uma única policial feminina já me aguardava com um lugar reservado ao seu lado. Sentei, ainda a latinha na mão. Subimos por uma rua, viramos outra, paramos no farol. Me virei para a policial e perguntei: “O que acontece agora?”. Ela se virou, sorriu e respondeu em inglês: “Vamos cumprir a lei.”. Eu gelei.
Respirei fundo e me mantive respirando para enfrentar o que quer que viesse a acontecer. Entramos numa pequena rua à esquerda e dobramos a direita. Paramos, nos mandaram descer. Quinze policiais em volta, olhei e me vi num beco. Os meninos estavam sentados na pequena escada do último prédio da ruazinha sem saída quase sem luz.
Por um momento entrei em pânico. Fiquei ali por uns segundos tentando racionalizar o que fazer e decidi tentar abrir a boca. O que saiu, foi um simpático inglês engasgado para o guarda do meu lado: “Posso voltar pro meu hotel?”. Ele olhou calmamente pra mim, quase deu um sorriso e disse: “I don’t understand what you said.”. Senti o sadismo e mantive o olhar nele.
Ele continuou me olhando e finalmente perguntou de onde eu era. Respondi que era brasileira e ele me disse que não podia me autorizar a ir embora. Tive que falar com o comandante, que naquele momento dava bronca nos meninos. Quando me aproximei, pedi licença e fiz a mesma pergunta que havia feito para o guarda. Depois de me perguntar de onde eu conhecia os meninos, me olhou em silêncio por alguns segundos e me respondeu: “A Sra. está no Nepal e este é um país livre. A senhora pode ir embora quando quiser.” Perguntei se eu podia pegar minha bolsa que estava com Sadam e ele consentiu.
Acordei com o som do telefone
O outro rapaz me deu praticamente todo o dinheiro que ele tinha para que eu pegasse um táxi de volta para o hotel. Saí dali, desci a rua e virei à esquerda. Dei de frente com a van preta que havia nos deixado ali. Do lado de fora, a policial que me escoltou na viagem me deu boa noite. Não respondi, desci direto e entrei no primeiro táxi que encontrei. Já de volta ao meu quarto no hotel, tomada pela badtrip de não saber o que ia acontecer com eles, abri a bolsa de Sadam. Me lembrava que ele tinha dito que o resto do haxixe estava lá dentro, não podia deixar a bolsa com ele. Achei também uns recibos de pagamento de uma associação de artesãos. Foi dele que comprei uma flauta em madeira de Sândalo, naquela mesma tarde. Decidi esperar um pouco. Conforme as horas passavam, eu ficava mais nervosa e, apesar de ter sono, não conseguia dormir. Escrevi um bilhete para Sadam, com meus contatos no Brasil, desejando-lhe boa sorte e anexando 10 dólares, quantia equivalente ao que eles haviam me emprestado. Na pior das hipóteses, deixaria na recepção do hotel na manhã seguinte quando fosse embora. Lá pelas tantas da madrugada, fumei o último haxixe e dormi.
Acordei às 6h20 com o som do telefone, que imediatamente atendi. A recepcionista me avisava que um dos meus amigos estava lá embaixo. Avisei que desceria em 5 minutos, me vesti e peguei a bolsa. No hall, encontrei o amigo de Sadam, o abracei e fomos para fora fumar um cigarro. Ele me contou que apanharam um pouco e que Sadam ficaria preso até notificarem a família dele. Avisei-lhe dos 10 dólares, pedi que entregasse o bilhete e subi para me arrumar para o vôo que teria em breve. Chateada e ainda pensando que a noite terminara bem mal, quase meia hora depois, ouço novamente o telefone. A voz de Sadam do outro lado da linha me pedia para descer, estava no hall.
Desci, fumamos, conversamos, ele me deu um pingente de boa sorte e nos despedimos. Ganhei um amigo que, por mais que eu nunca mais veja, vai ficar na minha memória. Durante o vôo de volta pra Delhi, depois de ver o Himalaia da minha janela, a ressaca do haxixe me ajudou a dormir. E o único registro que ficou dessa história foi a foto que tirei com Sadam quando o conheci.
Cylene Dworzak, jornalista, esteve no Nepal em novembro de 2009, especialmente para o Nota de Rodapé
Anotei meus contatos e combinamos de sair naquela noite pra experimentar a iguaria local. Apesar de me sentir segura em relação à Sadam, por precaução, deixei passaporte e dinheiro no hotel. Levei somente o cartão de identificação do seguro e a chave do quarto. Quando ele chegou, me apresentou um amigo e rapidamente decidimos aonde ir. Avisei a recepcionista que ia sair e deixei com ela o número do meu quarto. Pegamos um táxi na porta do hotel, avisei que estava sem dinheiro e eles se ofereceram para pagar. Descemos numa praça, alguns templos e muitas pessoas. A lua cheia brilhava e algumas vacas passeavam pelo calçadão.
Subimos o templo e, sentados na escada, fumamos dois cigarros do mais puro haxixe do Nepal. Ele me perguntou se eu queria mais, eu disse que não e ele avisou que estava na bolsa, pra quando eu quisesse. O outro rapaz desceu para comprar umas cervejas, voltou com três latinhas e algumas salsichas.
Estávamos ali há poucos minutos e eu sentia o efeito do haxixe bater enquanto conseguia a proeza de contar uma piada em inglês, quando avistei um sujeito fardado vindo em nossa direção. Percebi que os meninos ficaram tensos, o guarda chegou falando com eles em nepali, pegou uma das latinhas, confirmou que era cerveja, olhou pra mim, de pé, estática, com cerveja e cigarro na mão, e ficou puto. Eles começaram a discutir, Sadam do meu lado tentava me tranquilizar.
Qual era a bronca?
Eu estava nervosa, não entendia qual era a bronca. Tentei argumentar com o policial e comecei a conversa perguntando se ele falava inglês. A resposta veio num inglês perfeito: “I don’t speak english”. Na hora, só consegui pensar que ele me entenderia se eu falasse e comecei a argumentar.
Disse que era turista, brasileira, estava com um grupo num hotel cinco estrelas de Kathmandu. Expliquei que aquela era minha última noite na cidade, estaria encerrando minha viagem e nós só queríamos comemorar. No ar do haxixe, devo ter dito que a lua estava linda, e o oficial me cortou num inglês que ele disse que não falava, dizendo que eu não tinha culpa porque eu era turista e não sabia, mas tomar cerveja no templo não era permitido. Os meninos sabiam disso e por isso estavam encrencados.
No fundo, eu sentia que o policial queria dinheiro. Ele me tratava, além de eu ser turista, achava que eu tinha alguma coisa. Em algum momento perguntou se eu tinha dinheiro para um táxi. Disse que não. Fomos escoltados templo abaixo até o meio da praça, onde uma concentração de policiais já tinha se formado. Sadam ao meu lado ia traduzindo parte da conversa. Quando me virei para falar com Sadam, ouvi um estalo. Olhei para o nosso amigo e ele estava no meio de cinco policiais com a mão na cabeça. O oficial que havia conversado comigo, crescia com uma mão para cima enquanto a outra segurava o cacetete atrás das costas.
Me mandaram subir na van
Sem pensar duas vezes, pedi que parasse, aquilo não resolveria nada. Sugeri que fôssemos ao meu hotel pegar meu passaporte, tomar as providências necessárias, mas não adiantou. Ele falou suavemente que eu voltaria para o meu hotel sem problemas, mas que os meninos o acompanhariam até seu escritório. Quando a viatura chegou, tomei um susto. Era uma van preta, com o inscrito da Polícia do Nepal na frente, em branco. As janelas, insufilmadas e gradeadas. Certamente, blindada, o mesmo tipo de veículo utilizado para fazer transporte de presos. Achei que me colocariam num táxi e dali eu voltaria para o hotel. Me mandaram subir na van. Confusa, confirmei. Mandaram de novo. Lá dentro, uma única policial feminina já me aguardava com um lugar reservado ao seu lado. Sentei, ainda a latinha na mão. Subimos por uma rua, viramos outra, paramos no farol. Me virei para a policial e perguntei: “O que acontece agora?”. Ela se virou, sorriu e respondeu em inglês: “Vamos cumprir a lei.”. Eu gelei.
Respirei fundo e me mantive respirando para enfrentar o que quer que viesse a acontecer. Entramos numa pequena rua à esquerda e dobramos a direita. Paramos, nos mandaram descer. Quinze policiais em volta, olhei e me vi num beco. Os meninos estavam sentados na pequena escada do último prédio da ruazinha sem saída quase sem luz.
Por um momento entrei em pânico. Fiquei ali por uns segundos tentando racionalizar o que fazer e decidi tentar abrir a boca. O que saiu, foi um simpático inglês engasgado para o guarda do meu lado: “Posso voltar pro meu hotel?”. Ele olhou calmamente pra mim, quase deu um sorriso e disse: “I don’t understand what you said.”. Senti o sadismo e mantive o olhar nele.
Ele continuou me olhando e finalmente perguntou de onde eu era. Respondi que era brasileira e ele me disse que não podia me autorizar a ir embora. Tive que falar com o comandante, que naquele momento dava bronca nos meninos. Quando me aproximei, pedi licença e fiz a mesma pergunta que havia feito para o guarda. Depois de me perguntar de onde eu conhecia os meninos, me olhou em silêncio por alguns segundos e me respondeu: “A Sra. está no Nepal e este é um país livre. A senhora pode ir embora quando quiser.” Perguntei se eu podia pegar minha bolsa que estava com Sadam e ele consentiu.
Acordei com o som do telefone
O outro rapaz me deu praticamente todo o dinheiro que ele tinha para que eu pegasse um táxi de volta para o hotel. Saí dali, desci a rua e virei à esquerda. Dei de frente com a van preta que havia nos deixado ali. Do lado de fora, a policial que me escoltou na viagem me deu boa noite. Não respondi, desci direto e entrei no primeiro táxi que encontrei. Já de volta ao meu quarto no hotel, tomada pela badtrip de não saber o que ia acontecer com eles, abri a bolsa de Sadam. Me lembrava que ele tinha dito que o resto do haxixe estava lá dentro, não podia deixar a bolsa com ele. Achei também uns recibos de pagamento de uma associação de artesãos. Foi dele que comprei uma flauta em madeira de Sândalo, naquela mesma tarde. Decidi esperar um pouco. Conforme as horas passavam, eu ficava mais nervosa e, apesar de ter sono, não conseguia dormir. Escrevi um bilhete para Sadam, com meus contatos no Brasil, desejando-lhe boa sorte e anexando 10 dólares, quantia equivalente ao que eles haviam me emprestado. Na pior das hipóteses, deixaria na recepção do hotel na manhã seguinte quando fosse embora. Lá pelas tantas da madrugada, fumei o último haxixe e dormi.
Acordei às 6h20 com o som do telefone, que imediatamente atendi. A recepcionista me avisava que um dos meus amigos estava lá embaixo. Avisei que desceria em 5 minutos, me vesti e peguei a bolsa. No hall, encontrei o amigo de Sadam, o abracei e fomos para fora fumar um cigarro. Ele me contou que apanharam um pouco e que Sadam ficaria preso até notificarem a família dele. Avisei-lhe dos 10 dólares, pedi que entregasse o bilhete e subi para me arrumar para o vôo que teria em breve. Chateada e ainda pensando que a noite terminara bem mal, quase meia hora depois, ouço novamente o telefone. A voz de Sadam do outro lado da linha me pedia para descer, estava no hall.
Desci, fumamos, conversamos, ele me deu um pingente de boa sorte e nos despedimos. Ganhei um amigo que, por mais que eu nunca mais veja, vai ficar na minha memória. Durante o vôo de volta pra Delhi, depois de ver o Himalaia da minha janela, a ressaca do haxixe me ajudou a dormir. E o único registro que ficou dessa história foi a foto que tirei com Sadam quando o conheci.
Cylene Dworzak, jornalista, esteve no Nepal em novembro de 2009, especialmente para o Nota de Rodapé
terça-feira, 6 de julho de 2010
Mãe em surto na dinâmica escolar...
Gente faz tempo, né? Mãe em surto é assim, sempre surtada com o trabalho, os frilas, as pontas e os bicos para fechar o orçamento. Como se não bastassem os outros infortúnios da vida... Mas enfim, não vou ficar aqui chorando as mágoas. É só uma justificativa para o sumiço e um pedido de perdão aos nobres leitores do NR!
Há duas semanas fui a ultima reunião escolar do pequeno antes das férias. Aquela de fechamento de semestre em que a professora nos enche de pastas, trabalhos, lições, pinturas diversas, tudo em cartolinas enormes, para facilitar a nossa vida na hora de guardar. Essa, aliás, foi uma enquete que fiz com outras mães em surto: "Onde vocês guardam tantos trabalhos e lições, semestre após semestre, ano após ano?" A resposta unânime foi "atrás do armário". Lá onde a moça da limpeza não mexe nunca.
Sempre sonhei com as reuniões escolares. Eu chegaria linda e poderosa, atrasada e maquilada, direto do meu emprego incrível para confraternizar com outros pais e ouvir como meu filho é inteligente e especial. Bom. Chego atrasada porque vou de busão, descabelada, desmaquilada, de tênis, jeans e camiseta e não necessariamente de uma jornada de trabalho incrível. Graças ao bom Deus pelo menos a parte do filho é verdade.
Para melhorar minha moral, as tatuagens não ajudam na confraternização com os outros pais. E as cadeirinhas que as tias colocam para a gente sentar em roda? Minha bunda não cabe! Sempre passo vergonha, mas faço a hippie: “prefiro sentar no chão”. Nas outras cadeirinhas, mais ou menos constrangidos, estão os outros pais ou mães solteiros. A professora nos passa relatórios individuais e coletivos e os outros pais sempre têm mais perguntas e considerações do que eu. Fico pensando em uma pergunta inteligente e preocupada para fazer, mas sempre desisto e invisto nos sinais afirmativos com a cabeça.
A última reunião foi muito triste. A professora pediu uma dinâmica. Já queria me jogar da janela. Mas tinha grades. Ela distribuiu pedaços de papel e giz de cera e pediu que desenhássemos um aquário. Eu desenhei o vidro, as pedrinhas coloridas, uma plantinha e estava empenhada pintando o primeiro peixinho quando ela pediu de volta. Aí colou na lousa os nossos papéis e disse “Olhem como os peixinhos são diferentes. Um desenhou uma família de peixes. Outra desenhou apenas um peixe colorido” e me olhou com aquele ar de “você é um peixe sozinho no aquário”. Fiquei arrasada e desmoralizada na dinâmica escolar. E eu ia desenhar mais peixes, poxa, mas ela nem deu tempo! Peguei as cartolinas e voltei pra casa sozinha no meu aqua...taxi.
Andrea Dip é jornalista, colunista do NR e mãe em surto
Há duas semanas fui a ultima reunião escolar do pequeno antes das férias. Aquela de fechamento de semestre em que a professora nos enche de pastas, trabalhos, lições, pinturas diversas, tudo em cartolinas enormes, para facilitar a nossa vida na hora de guardar. Essa, aliás, foi uma enquete que fiz com outras mães em surto: "Onde vocês guardam tantos trabalhos e lições, semestre após semestre, ano após ano?" A resposta unânime foi "atrás do armário". Lá onde a moça da limpeza não mexe nunca.
Sempre sonhei com as reuniões escolares. Eu chegaria linda e poderosa, atrasada e maquilada, direto do meu emprego incrível para confraternizar com outros pais e ouvir como meu filho é inteligente e especial. Bom. Chego atrasada porque vou de busão, descabelada, desmaquilada, de tênis, jeans e camiseta e não necessariamente de uma jornada de trabalho incrível. Graças ao bom Deus pelo menos a parte do filho é verdade.
Para melhorar minha moral, as tatuagens não ajudam na confraternização com os outros pais. E as cadeirinhas que as tias colocam para a gente sentar em roda? Minha bunda não cabe! Sempre passo vergonha, mas faço a hippie: “prefiro sentar no chão”. Nas outras cadeirinhas, mais ou menos constrangidos, estão os outros pais ou mães solteiros. A professora nos passa relatórios individuais e coletivos e os outros pais sempre têm mais perguntas e considerações do que eu. Fico pensando em uma pergunta inteligente e preocupada para fazer, mas sempre desisto e invisto nos sinais afirmativos com a cabeça.
A última reunião foi muito triste. A professora pediu uma dinâmica. Já queria me jogar da janela. Mas tinha grades. Ela distribuiu pedaços de papel e giz de cera e pediu que desenhássemos um aquário. Eu desenhei o vidro, as pedrinhas coloridas, uma plantinha e estava empenhada pintando o primeiro peixinho quando ela pediu de volta. Aí colou na lousa os nossos papéis e disse “Olhem como os peixinhos são diferentes. Um desenhou uma família de peixes. Outra desenhou apenas um peixe colorido” e me olhou com aquele ar de “você é um peixe sozinho no aquário”. Fiquei arrasada e desmoralizada na dinâmica escolar. E eu ia desenhar mais peixes, poxa, mas ela nem deu tempo! Peguei as cartolinas e voltei pra casa sozinha no meu aqua...taxi.
Andrea Dip é jornalista, colunista do NR e mãe em surto
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