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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
quinta-feira, 15 de março de 2012
lições
Imagine o Rio de Janeiro em 1965. Isso mesmo, quarenta e sete anos atrás. Vamos lá: tinha a bossa nova com seus barquinhos e bolinhas de sabão. Tinha o povo em pé e feliz na Geral do Maracanã. Tinha a barca cantareira fazendo-se de ponte entre o Rio e Niterói. Tinha o vendedor de mate gelado nas areias escaldantes de Copacabana.
Tinha, e ainda tem, o jogo do bicho. Sempre popular, com toda gente fazendo a sua fezinha. Lembro da Alzira, empregada doméstica, que a vida inteira apostou num bicho só, o jacaré. Entrava ano, saía ano. E numa véspera de Carnaval o jacaré deu uma bolada para ela. Lembro dos dentes da Alzira rindo de felicidade.
Para mim, então uma garotinha, o mundo soava suave e promissor. O mar era o céu. A floresta da Tijuca, uma Amazônia inteira. É claro, havia sofrimento: o governo militar, a igreja conservadora, o machismo ainda enaltecido, o racismo debaixo dos panos, a pobreza nos subúrbios, a miséria nas favelas.
Porém para a maioria das crianças, a parte ruim mesmo era a Escola. Autoritária e burra. Já sei, não posso e não devo generalizar. No entanto a minha escola, o Grupo Escolar Soares Pereira, era um matadouro de iniciativas. O prédio era até bonito. Um casarão tijucano, no estilo neocolonial luso-brasileiro. Em frente dele tinha uma praça, a Xavier de Brito.
Essa praça foi importante, pois da janela da minha sala de aula eu a namorava com uma paixão tremenda. Tudo nela - as árvores, os pássaros nos galhos, o imponente chafariz de bronze, a gangorra - era o avesso da minha escola. Antípoda dos corredores proibidos, da fila dos alunos na merenda, do mau humor das professoras, do meu dissabor de aprender pela decoreba.
Filha de pais ateus, eu era obrigada a assistir às aulas de religião. Era Jesus Cristo para cá, Judas Iscariotes para lá e no meio uma tal de Madalena Arrependida. Histórias confusas em aulas mais incompreensíveis do que se fossem de javanês. E vinha a ameaça da catequista: "Quem não crê em Deus está à beira de um abismo". Batata! Eu ia e voltava da escola, temendo que de repente a rua se abrisse me matando.
Também teve a vez da grande humilhação. A professora pegou meu caderno com letras garranchadas e páginas amassadas. Na sequência, ela o comparou com o caderno do Ernani, desgraçadamente com letras perfeitas e páginas impecáveis. Na frente de toda a turma, exclamou: "Uma menina com um caderno mais porco do que o de um menino"!?!
Deixei a Soares Pereira em prantos. Eu era mais porca do que um menino! Pior, mais porca do que o antipático Ernani! Lembro que corri para a Xavier de Brito esperando que as árvores, os pássaros nos galhos, o imponente chafariz de bronze, a gangorra me dessem consolo. Não deram.
Mas a espantosa lição, aquela que calou mais profundo na minha consciência de nove anos, estava por vir. Antes tenho que contar da merenda servida na Soares Pereira. Invariável em dois: ou uma caneca de mingau, ou uma caneca de sagu. Gosmentos. Naquela época, as crianças mais pobres eram as que sempre estavam na fila da merenda. Eu quase nunca.
Pois numa manhã qualquer, a bedel dona Iracema, de quem nunca vi um sorriso, entrou na sala de aula com um bloquinho em punho. Perguntou quem merendaria naquele dia. Estranhei. Nunca ninguém havia feito essa pergunta. Aliás, excetuando a tabuada e o bê-a-bá, ninguém perguntava nada para a gente. Me bateu uma dúvida se levantava o dedo ou não. Mas ao lembrar do mingau e do sagu fiquei quieta.
No recreio, assisti à cena: a merenda dessa manhã tinha cachorro quente! Saborosa salsicha com saboroso molho no saboroso pão! Mas só para aqueles que tinham dito sim ao mingau e ao sagu de todo dia. Entendi na hora: não havia para todo mundo.
Também compreendi que omitir informações, enganar, manipular eram estratégias para a vitória de um objetivo. Elas não estavam nas cartilhas escolares. Mas estavam, pujantes, na vida.
fernanda pompeu, escritora e redatora freelancer, colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas a coluna Observatório da Esquina. Ilustração de Carvall, especial para o texto.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Prosa de corredor
É que outro dia, encompridando pelos corredores da Redação aqui do NR a conversa com minha colega Fernanda Pompeu sobre seu texto Bye, Bye, há duas semanas, ocorreu que ela me referisse - acrescendo à Kodak, marca recém-extinta que lhe recordava a juventude - Grapette, um refrigerante de uva que também já desapareceu, e que a faz lembrar da infância.
Fiquei com isso de lembrar da infância na cabeça e, de noite - artimanha do inconsciente - sentei-me cheio de decisão para ver aquele documentário sobre Ayrton Senna de que o pessoal anda falando. Aí me lembrei da conversa com Fernanda, porque para mim Senna (feito Grapette para ela) também retraz a infância.
Eu era um menino de dez anos quando “Senna bateu forte”, como disse Galvão Bueno para que minha memória jamais pudesse esquecer. Não era fã em especial de Formula 1, o esporte, mas acordava todas as manhãs de domingo para me juntar a meu pai e meu tio André, que então morava conosco, e “ver a largada”.
Meu pai e meu tio, um, Flamengo, o outro, Vasco, viviam por isso às turras, e estendiam a rivalidade esportiva dos gramados para as pistas - meu pai torcia (pasmem!) para Prost, e meu tio, para Senna. Menino, dividia-me entre o amor de um, paterno, e o do outro, paternal; de modo que eu, desde cedo cultor do bom senso e da conciliação, virei Flamengo e Senna.
Mas o caso é que, voltando ao assunto, chorei novamente a morte de Ayrton Senna ao ver o filme. Por transportado de volta à infância, chorei não a perda de um herói nacional, senão a do meu próprio. Chorei de certa adrenalina, vinda não da velocidade dos carros, senão da catarse de ter-me revisto menino - por semanas desenhando (visto de cima) ou montando de Lego protótipos de carrinhos de F1, após o desastre da Tamburello.
Sentir ser de novo menino emociona acho que porque o tempo da infância é o que de mais parecido existe na experiência da gente com o tempo do mito, que é um tempo assim sempiterno, só de presente e mais nada. Tempo que nunca passa - e que, de tão bom, também nunca chega.
Acho que é por isso que a gente, daqui e dali, fica sempre flertando com voltar para ele, Fernanda. Por isso que a gente marca o caminho que faz no percurso da vida com Grapettes e Ayrtons Sennas, feito Joãozinho (irmão de Maria) marcou uma trilha na mata com migalhinhas de pão. Aí a gente, besta, acha que só consegue voltar lá para onde fica nossa casa porque enxerga as migalhas no chão. E só quando a gente não as vê mais, porque comidas pelos corvos (pelo tempo) é que a gente descobre que nunca dependeu delas - porque, no fundo, sempre soube o caminho de cor.
Talvez porque nunca tenha havido sequer nem caminho, e a gente tenha estado mesmo sempre sempre lá em nosso velho lugar de cada um.
Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta, com um texto mensal toda primeira quarta-feira do mês corrente. Escreve de Salvador.
Fiquei com isso de lembrar da infância na cabeça e, de noite - artimanha do inconsciente - sentei-me cheio de decisão para ver aquele documentário sobre Ayrton Senna de que o pessoal anda falando. Aí me lembrei da conversa com Fernanda, porque para mim Senna (feito Grapette para ela) também retraz a infância.
Eu era um menino de dez anos quando “Senna bateu forte”, como disse Galvão Bueno para que minha memória jamais pudesse esquecer. Não era fã em especial de Formula 1, o esporte, mas acordava todas as manhãs de domingo para me juntar a meu pai e meu tio André, que então morava conosco, e “ver a largada”.
Meu pai e meu tio, um, Flamengo, o outro, Vasco, viviam por isso às turras, e estendiam a rivalidade esportiva dos gramados para as pistas - meu pai torcia (pasmem!) para Prost, e meu tio, para Senna. Menino, dividia-me entre o amor de um, paterno, e o do outro, paternal; de modo que eu, desde cedo cultor do bom senso e da conciliação, virei Flamengo e Senna.
Mas o caso é que, voltando ao assunto, chorei novamente a morte de Ayrton Senna ao ver o filme. Por transportado de volta à infância, chorei não a perda de um herói nacional, senão a do meu próprio. Chorei de certa adrenalina, vinda não da velocidade dos carros, senão da catarse de ter-me revisto menino - por semanas desenhando (visto de cima) ou montando de Lego protótipos de carrinhos de F1, após o desastre da Tamburello.
Sentir ser de novo menino emociona acho que porque o tempo da infância é o que de mais parecido existe na experiência da gente com o tempo do mito, que é um tempo assim sempiterno, só de presente e mais nada. Tempo que nunca passa - e que, de tão bom, também nunca chega.
Acho que é por isso que a gente, daqui e dali, fica sempre flertando com voltar para ele, Fernanda. Por isso que a gente marca o caminho que faz no percurso da vida com Grapettes e Ayrtons Sennas, feito Joãozinho (irmão de Maria) marcou uma trilha na mata com migalhinhas de pão. Aí a gente, besta, acha que só consegue voltar lá para onde fica nossa casa porque enxerga as migalhas no chão. E só quando a gente não as vê mais, porque comidas pelos corvos (pelo tempo) é que a gente descobre que nunca dependeu delas - porque, no fundo, sempre soube o caminho de cor.
Talvez porque nunca tenha havido sequer nem caminho, e a gente tenha estado mesmo sempre sempre lá em nosso velho lugar de cada um.
Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta, com um texto mensal toda primeira quarta-feira do mês corrente. Escreve de Salvador.
segunda-feira, 12 de março de 2012
“Toda Carta de Amor…”
À Organização do Concurso Literário “Toda Carta de Amor…”
Prezados,
Segue meu trabalho.
Atenciosamente,
H.M.S
Maía,
Sensato seria escrever apenas: Feliz aniversário, te desejo o melhor. E te enviar essa mensagem insossa, como se eu tivesse me lembrado de você hoje meio sem querer e, por gentileza, me dei ao trabalho de te mandar uma linha de parabéns.
Não. Sensato, mesmo, seria não te mandar nada. Fingir que consegui o que há tanto tempo busco: não pensar em você por um dia. Vinte e quatro horas sem que uma palavra, uma música, um cheiro, um lugar, a fruta que você sempre tinha na bolsa, o poeta que você tanto gostava… digo, sem que nenhum desse (e de muitos outros) fantasmas, nem em sonho, me assediem.
Você acha que é pedir muito?
Em realidade, muito mais sensato, mais correto, seria que eu ou você não estivéssemos naquela noite – ou que aquela noite simplesmente não tivesse existido. E que se tivesse existido, eu não tivesse te procurado. E que se eu tivesse te procurado, você nunca tivesse me respondido. E que eu nunca tivesse colocado a mão no teu ombro, e ainda que eu tivesse feito isso você nunca, jamais, tomasse a minha mão.
Lembra aquele acidente em que dois aviões se chocaram em pleno ar, na Amazônia? Foi isso que aconteceu com a gente. Soma de um erro enorme e muito azar. Alguns metros mais ou menos e cada um seguiria seu caminho sem um arranhão. Mas aconteceu. Você passou por ali, eu cruzei o teu caminho (talvez tenha sido o contrário) e veio a colisão. Mas você, como aquele avião menor, seguiu seu rumo, sem talvez saber muito bem o estrago que fez, sem saber que derrubou o outro (que segue no chão).
Se pelo menos hoje fosse sábado eu sairia com meus amigos, encheria a cara, falaria de amenidades e por alguns instantes esqueceria essa história. Mas não, ainda é terça-feira, e hoje a desculpa para pensar em você é que é seu aniversário. Mas amanha não haverá aniversário, não haverá desculpas e os fantasmas seguirão me torturando.
Como tantas outras, esta carta ficará em cima da mesa e nunca verá um envelope. Porque a única mensagem que eu queria mesmo te mandar era uma que dissesse: “conheci uma mulher incrível, linda, doce, inteligente e que me ama”. Tenho medo de que essa carta, como todas as outras, nunca chegue a ser enviada.
Se pelo menos esta carta servisse pra alguma coisa, talvez pra ganhar um concurso literário. Mas não, não vai servir, porque nela há tanta verdade que parece ficção.
Kike
Ricardo Viel, jornalista, colunista do Purgatório e do NR, escreve às segundas, direto de Salamanca, Espanha.
Prezados,
Segue meu trabalho.
Atenciosamente,
H.M.S
Maía,
Sensato seria escrever apenas: Feliz aniversário, te desejo o melhor. E te enviar essa mensagem insossa, como se eu tivesse me lembrado de você hoje meio sem querer e, por gentileza, me dei ao trabalho de te mandar uma linha de parabéns.
Não. Sensato, mesmo, seria não te mandar nada. Fingir que consegui o que há tanto tempo busco: não pensar em você por um dia. Vinte e quatro horas sem que uma palavra, uma música, um cheiro, um lugar, a fruta que você sempre tinha na bolsa, o poeta que você tanto gostava… digo, sem que nenhum desse (e de muitos outros) fantasmas, nem em sonho, me assediem.
Você acha que é pedir muito?
Em realidade, muito mais sensato, mais correto, seria que eu ou você não estivéssemos naquela noite – ou que aquela noite simplesmente não tivesse existido. E que se tivesse existido, eu não tivesse te procurado. E que se eu tivesse te procurado, você nunca tivesse me respondido. E que eu nunca tivesse colocado a mão no teu ombro, e ainda que eu tivesse feito isso você nunca, jamais, tomasse a minha mão.
Lembra aquele acidente em que dois aviões se chocaram em pleno ar, na Amazônia? Foi isso que aconteceu com a gente. Soma de um erro enorme e muito azar. Alguns metros mais ou menos e cada um seguiria seu caminho sem um arranhão. Mas aconteceu. Você passou por ali, eu cruzei o teu caminho (talvez tenha sido o contrário) e veio a colisão. Mas você, como aquele avião menor, seguiu seu rumo, sem talvez saber muito bem o estrago que fez, sem saber que derrubou o outro (que segue no chão).
Se pelo menos hoje fosse sábado eu sairia com meus amigos, encheria a cara, falaria de amenidades e por alguns instantes esqueceria essa história. Mas não, ainda é terça-feira, e hoje a desculpa para pensar em você é que é seu aniversário. Mas amanha não haverá aniversário, não haverá desculpas e os fantasmas seguirão me torturando.
Como tantas outras, esta carta ficará em cima da mesa e nunca verá um envelope. Porque a única mensagem que eu queria mesmo te mandar era uma que dissesse: “conheci uma mulher incrível, linda, doce, inteligente e que me ama”. Tenho medo de que essa carta, como todas as outras, nunca chegue a ser enviada.
Se pelo menos esta carta servisse pra alguma coisa, talvez pra ganhar um concurso literário. Mas não, não vai servir, porque nela há tanta verdade que parece ficção.
Kike
Ricardo Viel, jornalista, colunista do Purgatório e do NR, escreve às segundas, direto de Salamanca, Espanha.
sexta-feira, 9 de março de 2012
Em silêncio
Tomando o café da manhã num hotel, durante um evento de trabalho, compartilhei a mesa com uma ex-jogadora da seleção brasileira feminina de basquete. Enquanto rolava uma conversa de praxe entre pessoas que não se conhecem, ela fez um comentário que me incomodou muito.
Disse que na noite anterior, enquanto jantava num restaurante, observou um casal de uma mesa próxima, que “era um daqueles casais cujo casamento já acabou há muito tempo”. Esperaram a comida calados, comeram em silêncio.
Não foi a primeira vez que ouvi um comentário desses sobre situações semelhantes. Às vezes, acontece mesmo de vermos por aí casais ou famílias inteiras comendo juntas sem que se observe qualquer conversa ou outra expressão de que alguém está curtindo o momento.
É bom que se diga que os restaurantes não são necessariamente lugares de intensa conversa ou troca afetiva. No entanto, é muito comum e normal que sejam usados pra isto.
Mas o que me chamou a atenção no comentário foi concluir que se tratava de uma relação acabada, um caso perdido, porque as pessoas não conversavam. Talvez esta pessoa não saiba que, em relações muito antigas, conversar já não seja tão necessário, pois estar junto pode ser suficientemente bom, confortável e prazeroso.
Ter que conversar sempre pode ser tão chato e forçado quanto qualquer outra coisa que se faça apenas para preencher o silêncio, que pode ser um vazio insuportável pra muita gente.
Trocar ideias, comentários, impressões, fofocas, opiniões, confidências, contrariedades, sentimentos também deve ser um exercício prazeroso e, sobretudo, espontâneo.
Não conversar, de maneira nenhuma significa que tudo acabou.
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR.
Disse que na noite anterior, enquanto jantava num restaurante, observou um casal de uma mesa próxima, que “era um daqueles casais cujo casamento já acabou há muito tempo”. Esperaram a comida calados, comeram em silêncio.
Não foi a primeira vez que ouvi um comentário desses sobre situações semelhantes. Às vezes, acontece mesmo de vermos por aí casais ou famílias inteiras comendo juntas sem que se observe qualquer conversa ou outra expressão de que alguém está curtindo o momento.
É bom que se diga que os restaurantes não são necessariamente lugares de intensa conversa ou troca afetiva. No entanto, é muito comum e normal que sejam usados pra isto.
Mas o que me chamou a atenção no comentário foi concluir que se tratava de uma relação acabada, um caso perdido, porque as pessoas não conversavam. Talvez esta pessoa não saiba que, em relações muito antigas, conversar já não seja tão necessário, pois estar junto pode ser suficientemente bom, confortável e prazeroso.
Ter que conversar sempre pode ser tão chato e forçado quanto qualquer outra coisa que se faça apenas para preencher o silêncio, que pode ser um vazio insuportável pra muita gente.
Trocar ideias, comentários, impressões, fofocas, opiniões, confidências, contrariedades, sentimentos também deve ser um exercício prazeroso e, sobretudo, espontâneo.
Não conversar, de maneira nenhuma significa que tudo acabou.
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR.
quinta-feira, 8 de março de 2012
vermelhos
Tenho para mim que a filha de um pastor evangélico, por mais ateia que se torne, nunca se sentirá confortável na profissão de stripper. Da mesma forma a filha de uma cozinheira, por mais apressada que esteja, nunca engolirá o slogan dos alimentos de caixinha: "Aqueça e Pronto". A filha de um pedreiro jamais dormirá segura dentro de uma barraca de camping.
É claro, quando adultos, vamos nos desprendendo dessas heranças fundamentais. Muitas vezes até nos insurgimos. Um caso é o do político Carlos Lacerda (1914-1977). Filho de um entusiasta do socialismo, seu nome é Carlos em homenagem ao Karl Marx e Frederico em homenagem ao Friedrich Engels. O Carlos Frederico Lacerda acabou entrando para a eternidade como um feroz anticomunista.
Cito o Lacerda por conta de uma lembrança anedótica da minha infância carioca. O ano era o fatídico 1964. Numa rádio, Lacerda fazia um discurso lambisgoio e laudatório ao golpe militar. Meu tio, sindicalista da cabeça aos pés, ouvia raivoso. Eu sempre gostei do nome Carlos e também para desafiar o tio Walter, gritei: "Viva o Carlos Lacerda!"
Então meu tio correu atrás de mim com um chinelão em punho. O alvo era o meu traseiro. Eu me safei daquela. Neta de tenentista, filha e sobrinha de comunistas, o que eu esperava? Ainda tem gente que pergunta se eu sou comunista. Respondo: só de família. Passadas tantas ideologias debaixo do meu nariz, o único ista de que não abro mão é o de flamenguista. Por enquanto.
Mas tal como a filha do pastor, a filha da cozinheira e a do pedreiro, sempre serei filha de um comunista. Sempre desconfiarei dos bancos e dos patrões. Agora se me perguntassem qual o sistema ideal, eu não titubearia: capitalismo para todos! Sonho que cada habitante da Terra, além de moradia, saúde, educação e de quatro refeições por dia, tenha direito a um iPad.
Ser filha de um comunista me trouxe muitas vantagens. Por exemplo, ter lido na adolescência os melhores escribas do século XIX. A brilhante literatura de Dostoiévski, Tolstói, Gogól, Tchecov. Tudo pela casualidade deles serem russos. Soviéticos, segundo meu pai. E desvantagens: só fui ler Borges e Nelson Rodrigues nos anos da faculdade. Meu pai e meu tio os vetavam por reacionários.
Na Escola de Comunicações e Artes da Usp, em 1977, me tornei ativista da Liberdade e Luta – tendência estudantil monitorada por uma organização trotskista. Entre as tendências, a Liberdade e Luta, Libelu, era a mais aguerrida e determinada no combate à camarilha militar. Porém, o mesmo ódio que dedicava à ditadura, dedicava aos militantes do Partidão – apelido histórico do Partido Comunista Brasileiro.
O PCB, através do meu pai e do meu tio, havia sido na minha casa tão reverenciado quanto é o Papa nas famílias católicas. Nunca me esqueço do dia que meu pai, com uma imensa mágoa, me mostrou um panfleto assinado pela Liberdade e Luta descendo o cassete nos velhos comunistas, acusando todos eles de stalinistas e traidores da classe operária.
Eu até que aguentei firme o embate entre a tradição familiar e a minha descoberta de juventude. Acho que o que eu queria, e ainda quero, era pensar livremente. Não demorei para perceber o sectarismo e autoritarismo dos dirigentes da Liberdade e Luta. Um belo dia, a direção decretou que marihuaneros e delirantes seriam expulsos da tendência estudantil.
Quem me salvou, naquela altura, foi o feminismo. Na época, deliciosamente libertário. Feminismo desprezado tanto pelo Partidão quanto pela Libelu, que insistiam que as reivindicações das mulheres eram blablablá burguês. A filósofa e ativista do movimento negro Sueli Carneiro uma vez me disse uma frase inesquecível: "Entre a esquerda e a direita, eu sou negra".
Daí parafraseei: Entre Josef Stalin e Leon Trotsky, eu sou mulher.
Hoje admiro as vidas de lutas do meu pai e do meu tio, ambos fiéis ao socialismo. Também trago boas lembranças da minha juventude libelu que, ao menos, me fez gostar de rock and roll e de certa irreverência.
fernanda pompeu, escritora e redatora freelancer, colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas a coluna Observatório da Esquina. Ilustração de Carvall, especial para o texto.
É claro, quando adultos, vamos nos desprendendo dessas heranças fundamentais. Muitas vezes até nos insurgimos. Um caso é o do político Carlos Lacerda (1914-1977). Filho de um entusiasta do socialismo, seu nome é Carlos em homenagem ao Karl Marx e Frederico em homenagem ao Friedrich Engels. O Carlos Frederico Lacerda acabou entrando para a eternidade como um feroz anticomunista.
Cito o Lacerda por conta de uma lembrança anedótica da minha infância carioca. O ano era o fatídico 1964. Numa rádio, Lacerda fazia um discurso lambisgoio e laudatório ao golpe militar. Meu tio, sindicalista da cabeça aos pés, ouvia raivoso. Eu sempre gostei do nome Carlos e também para desafiar o tio Walter, gritei: "Viva o Carlos Lacerda!"
Então meu tio correu atrás de mim com um chinelão em punho. O alvo era o meu traseiro. Eu me safei daquela. Neta de tenentista, filha e sobrinha de comunistas, o que eu esperava? Ainda tem gente que pergunta se eu sou comunista. Respondo: só de família. Passadas tantas ideologias debaixo do meu nariz, o único ista de que não abro mão é o de flamenguista. Por enquanto.
Mas tal como a filha do pastor, a filha da cozinheira e a do pedreiro, sempre serei filha de um comunista. Sempre desconfiarei dos bancos e dos patrões. Agora se me perguntassem qual o sistema ideal, eu não titubearia: capitalismo para todos! Sonho que cada habitante da Terra, além de moradia, saúde, educação e de quatro refeições por dia, tenha direito a um iPad.
Ser filha de um comunista me trouxe muitas vantagens. Por exemplo, ter lido na adolescência os melhores escribas do século XIX. A brilhante literatura de Dostoiévski, Tolstói, Gogól, Tchecov. Tudo pela casualidade deles serem russos. Soviéticos, segundo meu pai. E desvantagens: só fui ler Borges e Nelson Rodrigues nos anos da faculdade. Meu pai e meu tio os vetavam por reacionários.
Na Escola de Comunicações e Artes da Usp, em 1977, me tornei ativista da Liberdade e Luta – tendência estudantil monitorada por uma organização trotskista. Entre as tendências, a Liberdade e Luta, Libelu, era a mais aguerrida e determinada no combate à camarilha militar. Porém, o mesmo ódio que dedicava à ditadura, dedicava aos militantes do Partidão – apelido histórico do Partido Comunista Brasileiro.
O PCB, através do meu pai e do meu tio, havia sido na minha casa tão reverenciado quanto é o Papa nas famílias católicas. Nunca me esqueço do dia que meu pai, com uma imensa mágoa, me mostrou um panfleto assinado pela Liberdade e Luta descendo o cassete nos velhos comunistas, acusando todos eles de stalinistas e traidores da classe operária.
Eu até que aguentei firme o embate entre a tradição familiar e a minha descoberta de juventude. Acho que o que eu queria, e ainda quero, era pensar livremente. Não demorei para perceber o sectarismo e autoritarismo dos dirigentes da Liberdade e Luta. Um belo dia, a direção decretou que marihuaneros e delirantes seriam expulsos da tendência estudantil.
Quem me salvou, naquela altura, foi o feminismo. Na época, deliciosamente libertário. Feminismo desprezado tanto pelo Partidão quanto pela Libelu, que insistiam que as reivindicações das mulheres eram blablablá burguês. A filósofa e ativista do movimento negro Sueli Carneiro uma vez me disse uma frase inesquecível: "Entre a esquerda e a direita, eu sou negra".
Daí parafraseei: Entre Josef Stalin e Leon Trotsky, eu sou mulher.
Hoje admiro as vidas de lutas do meu pai e do meu tio, ambos fiéis ao socialismo. Também trago boas lembranças da minha juventude libelu que, ao menos, me fez gostar de rock and roll e de certa irreverência.
fernanda pompeu, escritora e redatora freelancer, colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas a coluna Observatório da Esquina. Ilustração de Carvall, especial para o texto.
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