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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sábado, 15 de setembro de 2012

quadrinhos_14


Fernando Carvall, ilustrador e caricaturista. Mantém o Estúdio Saci.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Sangria

Em frente à minha casa, havia um açougue feio e infestado de moscas, como todos os outros, naqueles já distantes anos sessenta. Tempo em que criança brincava na rua, e a gente via o caminhão entregar os quartos de boi, que ficavam pendurados, em fila, em ganchos colocados contra a parede, atrás do balcão.

O açougueiro, então, colocava sobre a tosca mesa feita de um tronco de árvore uma daquelas enormes peças de carne, ossos, nervos e gordura, de onde ainda escorria um líquido sanguinolento, e a destrinchava, cortava, limpava e separava em pedaços menores, que depois eram vendidos à freguesia do bairro, embrulhadas em jornal.

Décadas mais tarde, empurrada pela impossibilidade de suportar e conter a dor, fui fazer psicanálise.

Nos primeiros meses, e por uns dois anos, o quarto de boi sobre a mesa do açougue era como eu me sentia, enquanto jorrava de mim uma sangria que me parecia eterna. Carne viva. Mesmo duvidando todos os dias de que algum conforto seria possível, insisti, nem sei bem porque. Talvez por ter tido a sorte de ser acolhida por uns braços cálidos e incondicionais.

Entra ano, sai ano, um dia me dei conta de que uma tampa havia sido colocada. Alguns filetes ainda escorriam, obstinados, mas aí eu mesma tapei as frestas com os dedos. E dá-lhe conversa.

Num outro dia, não muito tempo depois, comecei a sentir algo novo, uma largueza, uma soltura, como se o espartilho de arame, igual ao daquelas pobres princesas condenadas tacitamente, tivesse sido removido e eu pudesse respirar sem esforço.

A fonte do sangue que verti durante tanto tempo, não sei que fim levou. Enquanto faço os curativos, observo que a carne vai-se fechando e as feridas vão virando cicatrizes, que talvez não desapareçam, mas serão apenas isto. Marcas de uma viagem, a mais difícil de todas, que não permite evitar escalas nem ligar o piloto automático, mas durante a qual terei contado com a melhor de todas as companhias.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

princesinha da história

Para muita gente ela é uma cidade dentro de outra. Para os mais fanáticos, um planeta. De fato é um dos lugares mais famosos do Brasil. Mesmo quem nunca a viu, sabe de sua existência. Com vocês: Copacabana!

Você escolhe: cara ou coroa. A face mais conhecida do bairro, sem trocadilho, é a solar. Copacabana da praia, da areia macia, da bossa nova, da água de coco, da calçada com desenho de ondas. Copacabana celebrada por tantas feras da canção popular.

A outra, noturna. Copacabana do sexo rápido e pago, dos cafetões, dos inferninhos, do éter, lança-perfume, cocaína. Dos larápios mirins e marmanjões, da bala perdida. Copacabana das ressacas dos bêbados e do mar.

É o bairro com o maior número de fãs por metro quadrado. Meu pai, hoje mesmo, me contou uma história deliciosa. A de uma bancária que morava no Copacabana Palace. Ela consumia todo o salário mais uma renda extra para morar no cartão-postal.

Não vou alugar seu tempo. Cinema, rádio, tv, jornais, revistas, livros, internet não se cansam de contar Copacabana. Quase todo mundo tem uma historieta com ela. Mesmo que seja ter passado um único réveillon em suas areias.

Vou falar da Copacabana quando todavia não existia Brasília. Quando o Rio de Janeiro, capital federal, era o centro da intriga e da movimentação política. Quando a vizinha Ipanema era praticamente uma aldeia.

Pois anote: 5 de agosto de 1954. Na rua Toneleros, 180, em frente ao prédio em que morava, Carlos Lacerda sofreu um atentado. Saiu ileso, mas o seu segurança major Rubens Vaz levou dois tiros. Morreu na hora.

A sequência do episódio todo mundo conhece. Lacerda acusou o presidente Getúlio Vargas de conivência com os atiradores. Crise total. Dezenove dias depois do atentado da Toneleros, Getúlio saiu da vida para entrar num caixão. Ops! Para entrar na história.

Além de Lacerda, moraram em Copacabana: Benedito Valadares, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Café Filho, Carlos Luz, Tancredo Neves, Magalhães Pinto, Nereu Ramos, Armando Falcão, general Lott – o da espadinha.

O jornalista Claudio Bojunga, na sua magnífica biografia "JK - o artista do impossível", escreve o seguinte: "Nos anos 1950, todas as luzes se voltavam para o palácio do Catete, mas os scripts eram escritos em Copacabana".

Diga-se a verdade, scripts de golpes e contragolpes. Mas ainda bem que o lugar escreveu outras páginas. Ruben Braga fez o seu "Ai de ti, Copacabana!". Nelson Rodrigues pôs o bairro em muitas de suas crônicas. Todas magníficas.

Termino citando o poeta que virou estátua na orla de Copa. O mineiro Carlos Drummond de Andrade. Aquele que pôs a cidade natal – Itabira – pendurada na parede. Aquele que escolheu Copacabana para se inspirar e, generosamente, nos encantar.

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Imobilidade Urbana

Na multidão, cada um sua pressa, sua precisão.

Faz favor pra mim, joga o Chalita aqui no trenzão, com todo mundo apertado onde não cabe nem o braço.

A escada rolante trava, um homem grita que nojo - vai pegar um taxi viado! grita o povo.

Todos seguram o menino, a muchila ficou presa na porta do outro vagão, o texto sendo escrito aqui dentro nesse aperto, que porra de vírgula num tá vendo que num da tempo.

Me contenho, vontade de agredir, mas a culpa num é de ninguém que tá aqui, aquele ali não seria o Serra? Era, já desceu correndo, num deu pra ver direito.

Faz assim, me põe ao lado do Kassab, quem sabe a multidão troca a pressa, a necessidade de chegar por alguns tapas na cara, e outro trem vem e outro vai e todo mundo grudado, suado, aquela menina parece a Soninha, mas tá sem rumo nem bicicleta, num é ela, tá perto de um rapaz digitando no celular, moço onde é o trem pro Grajaú? Acabou de sair moça num entra nem mais uma mosca.

Ferréz, romancista, contista e poeta, é autor dos livros Deus foi Almoçar, Capão Pecado, Manual Prático do Ódio, vai escrever para o Nota de Rodapé textos inéditos, curtos, escritos na rua.

Minicraques da política #3 (Russomanno-Serra-Haddad)



Caco Bressane
, arquiteto e ilustrador, colunista do NR, atualmente mantém a série A Fábrica de Brinquedos Pau-brasil
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