.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Os 10 mandamentos do produtor

Dia desses recebi um e-mail sobre a vida de quem trabalha no ramo musical. O texto é perfeito e decidi fazer uma edição comentada e ampliada.


1º - Não terás vida social, familiar ou sentimental.

Verdade, e não só é verdade como aprendi que a melhor maneira de ter os amigos por perto é convidando-os para ir ao show. Domingão, dia de assistir Faustão com a família? Esqueça. Aniversário da irmã caçula? Esqueça. Torça pra sua mãe levar um pedaço de bolo para você. Casamento do irmão? E quando se trata do seu próprio casamento? Sim, conheço produtor que casou de manhã no civil e de tarde estava trabalhando. Que situação, não?

2º - Não verás teus filhos crescerem.
E perderá o aniversário de um ano, de dois anos, com sorte ele o chamará de pai ou mãe.

3º - Não terás feriado, fins de semana ou qualquer outro tipo de folga.
Até porque grande parte dos shows acontece exatamente nos feriados. Então, quando todo mundo pensa em viajar para tirar aquele descanso, você está fazendo as malas para viajar a trabalho. Com sorte, você fará shows na mesma cidade que a sua e poderá curtir alguma parte do feriado com a sua família.

4º - Terás gastrite, se tiveres sorte. Se for como a maioria, terá úlcera
Minha primeira crise de gastrite aconteceu em 2007. Parecia ter levado um soco na boca do estomago. Daí pra frente, você tem duas formas de conviver com a gastrite: prevenção (não ter uma vida estressante) ou ter sempre o Cloridrato de Ranitidina na bolsa. Optei pela segunda!

5º - A pressa será teu único amigo e as suas refeições principais serão os lanches.
A famosa comida de camarim. Você se acostuma com mini pão de queijo, croissants, lanche de metro, refrigerante, água. Isso quando o camarim é bacana. Têm momentos em que tudo o que você vai encontrar são meras bolachinhas e um lanchinho tão seco que sem água não desce!

6º - Tua sanidade mental será posta em cheque antes que completes 5 anos de trabalho.
Isso é o que mais acontece, de fato. A gente tem falta de memória, troca nomes, troca datas, porque a gente pode esquecer que qualquer outra coisa que não seja nenhuma informação relativa ao evento, ao show, ao congresso, blá, blá, blá.

7º - Dormir será considerado período de folga. Terás sonhos com planilhas, cotas e relatórios e, não raro, resolverás problemas de trabalho neste período de sono.
Obviamente que não. Vai pensar na passagem área que terá que emitir logo pela manhã, na reserva do hotel. Torcerá para que nenhum vôo atrase e acordará no exato momento em que salvará sua planilha de orçamentos.

8º- Não poderá adoecer.
Poder, até pode, só não vale demonstrar ou deixar que isso te abale ao ponto de “faltar” no trabalho. H1N1 não existe na nossa profissão, ou melhor, existe, mas você deverá trabalhar mesmo com o balão de soro pendurado ao seu lado. E se o ticket já estiver emitido em seu nome, nem cogite a possibilidade de dispensa.

9º - Será um artista na arte de recepcionar bem (mesmo não tendo mais saco), atender bem (mesmo caindo de cansado), engolir sapos (mesmo querendo vomitar) e vai dizer ao artista (e aos que pensam que são) que está tudo bem, que tudo está resolvido, mesmo quando o mundo está caindo do outro lado da cortinha do palco.
Sim, isso vale até tentativa de agressão. Explicar ao público que o show foi cancelado e torcer para não receber garrafada no rosto. Explicar ao jornalista que o músico não está num dia bom e que pediu para adiar a entrevista. Querer chorar de cansaço, querer gritar “Eu quero a minha mãe” e saber que ainda faltam horas para o evento acabar.

Parabéns aos profissionais do show business, que são seres humanos como qualquer outro, e que essa idéia de “status e projeção social” seja muito pequena perto do último e maior mandamento dos produtores:

10 º Ser um profissional que possui a incrível habilidade de lidar com artistas e respeitar todo e qualquer ser humano.


Fabiana Cardoso é jornalista e produtora e mantém a coluna Penetra Oficial neste Nota de Rodapé.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Em nome do índice de atraso do busão

Perdoem-me por manter o tom “pau na imprensa”, mas é que os motivos são muitos. “Eles dão muita brecha”, expressaria o bom português-brasileiro. Tento, alguns minutos por dia, ouvir a Rádio CBN. Digo “tento” porque não está fácil. Não é só a aproximação da campanha eleitoral que deixa os conservadores colunistas ouriçados, mas também alguns episódios que atiçam a ira dos chefões de redação.
Como mencionei na coluna anterior, alguns chefes acham que algumas pautas são importantes porque nunca andaram de ônibus e nem a pé. A dos aeroportos é uma delas. Basta cair uma gota que lá se vai um repórter para Congonhas para mais um episódio de “Como sofre essa classe média”. Pode haver um atrasinho de nada, mas não será difícil encontrar algum candidato ao choro em rede nacional porque faz três horas que tenta embarcar para férias em Miami, Madrid ou Bahrein.
A CBN está preocupada com essa gente. E resolveu dedicar sua “Charge do dia”, espaço de texto editorializado e quase sempre de tom político, para contar os problemas de quem passa pelo aeroporto. Na visão da rádio do Grupo Globo, os aeroportos, como agora há mais gente viajando, “mais se parecem com terminais rodoviários”. A emissora carioca entende que terminais rodoviários têm banheiros sujos, pátios lotados, atrasos – isso está expresso no texto, bem como a fala do presidente Lula ressaltando que mais pobres estão viajando de avião. Aeroportos não podem ser assim. Há gente passando horas na fila na tentativa de embarcar, veja que drama. É muito, mesmo se comparado a quem passa anos na fila de transplante ou na espera das mais diversas cirurgias. Como sofre essa gente.
Ao fazer a comparação entre aeroportos e rodoviárias, o texto, lido por Heródoto Barbeiro na terça-feira (6), conclui com o famoso “Nada contra”. Não sei a que o “Nada contra” remete ao leitor. A mim, lembra uma pessoa que conta uma piada racista, machista ou homofóbica e, ao concluir, manda o tradicional “Nada contra, cada um com seus problemas”. Claro, afinal ser mulher, negro ou homossexual é um problema, todos sabemos desde sempre, e falamos esse “Nada contra” como forma de expressar que não temos absolutamente nenhum preconceito, imagina só.
Ao ouvir a charge da CBN, lembrei-me imediatamente de um texto da edição 42 da Revista Piauí, de fevereiro último. Não acompanho a boa revista desde o começo, mas tenho certeza de que se trata dos mais infelizes relatos da história da publicação. “Safári sonoro em Congonhas” narra as “aventuras” de uma típica representante da classe alta que está incomodada com o aumento do número de pobres nos aeroportos. Ao reclamar da poluição sonora em Congonhas, a autora sai-se com a seguinte afirmação: “São brasileiros das classes C e D que estrearam no turismo aéreo. É para eles que a Gol mantém a frequência das três chamadas, sem contar os incontáveis apelos individuais aos retardatários perdidos pelo saguão. A empresa não tem dúvida de que esse segmento ainda precisa de colo e não se aborrece com a barulheira”.
Essa preocupação toda com os aeroportos, como disse antes, reflete a falta de preocupação com quem está no ônibus. Trabalhei em uma infeliz rádio que dava à exaustão o índice de atrasos nos vôos em tudo quanto é canto. Oras, não seria mais útil dar o índice de atraso no terminal Santo Amaro, por onde passam dezenas de milhares, talvez mais de um milhão de pessoas por dia?
“Aqui no Terminal Santo Amaro, 30 das 90 saídas previstas para ocorrer entre dez e onze da manhã sofreram atrasos superiores a 15 minutos. A pior situação foi registrada na linha Y, que faz o trajeto entre A e B. Uma alternativa é pegar a linha Z, que vai até C, e depois fazer a baldeação, utilizando o ônibus W”.
A quem pode interessar essa informação? A milhares de pessoas. Mas são essas pessoas que, na visão da CBN e dos demais meios de massa, estão sujando os terminais aéreos da classe A. Perdão, senhores, não vai se repetir. Aí vem o PSDB e estamos todos prontos para voltar à senzala. Desculpem pelos transtornos causados nos anos de alforria.

João Peres é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

terça-feira, 6 de abril de 2010

Guerra sem sentido: um lançador de foguetes, na verdade, uma teleobjetiva

É estarrecedor. Me faltam palavras para compreender o sentido desses dois vídeos. Por quê? Civis metralhados no Iraque em 2007 como se fossem personagens de video-game. Deboche dos soldados estadunidenses. "Nice" com a vida dos outros. Crianças e jornalistas entre as vítimas. Qual o sentido desta merda toda? Socorro negado. É a tal Guerra ao Terror isso aí? Que terror? Divulgue-se, é preciso!
Procurei o vídeo com o amigo Caio Amaral na redação após ler no Estadão no pé de página A12 que soldados americanos disparam contra um grupo de homens desarmados em uma rua de Bagdá. "É autêntico confirmou ontem um oficial de alto escalão do Exército dos EUA", diz notícia. "O oficial disse que o vídeo postado pela ONG Wikileaks é de 12 de julho de 2007. Entre os mortos no ataque está o fotógrafo da Reuters Namir Noor-Eldeen, de 22 anos, e o motorista dele, Saeed Chmagh, de 40 anos. O vídeo é uma rara e perturbadora mostra da situação em Bagdá quando a violência atingiu seu auge no Iraque e o número de mortos entre os soldados americanos estava cada vez mais elevado. Nesse incidente em particular, soldados em helicópteros de ataque são chamados para respaldar tropas em terra. De acordo com oficiais americanos, os pilotos chegaram quando um homem levava o que parecia ser um lançador de foguetes, mas que, na verdade, era uma teleobjetiva, segundo investigação militar."

Parte 1



Parte 2



Thiago Domenici, jornalista

Que tal escutar Carlos Vives numa praia do Caribe e dançar com a miss colombiana?

Como preservar a história em um lugar onde praticamente ninguém sabe ler e escrever? No século 19, na região do Caribe colombiano, os vaqueiros encontraram na música uma maneira de manter viva suas memórias.
Acordeón, caja (instrumento de percussão) e guacharaca (um espécie de chocalho) foram os instrumentos usados para a criação do vallenato, um ritmo folclórico que serviu para animar os bailes e contar as novidades (os músicos iam de cidade em cidade reportando os fatos importantes e informando a população).
O vallenato ficou restrito à parte da costa da Colômbia até os anos 90, quando chegou com força à capital e outras cidade mais centrais (como Medellín) graças, sobretudo, a uma novela que resgatou a história de Rafael Escalona, um dos grandes do vallenato. Quem interpretou o papel do músico foi Carlos Vives, até então um apagado artista que dividia a carreira entre a música e a dramaturgia.
Gota Fria, primeiro sucesso de Vives (música de Escalona, cantada por ele na trilha sonora da novela):



A novela fez um sucesso estrondoso, o vallenato se popularizou, e o cabeludo com pinta de cantor de rock começou a fazer sucesso. Vives deu uma cara mais moderna ao ritmo, fundindo com outros sons, e carregou as músicas de temas amorosos.

Como tu



Se as notícias fossem como tu
Se as cidades fossem como tu
Se as ruas fossem como tu
Se meu chefe fosse como tu
Se minha vida fosse como tu
Não haveria problemas, todos como tu
La tierra del olvido



Você tem a chave do meu coração, eu te quero
Mais que a minha vida porque sem teu amor eu morro
Mas também resgatou canções antigas gravando clássicos populares (com músicos do vallenato tradicional) e cantou temas exaltando a cultura colombiana.

El amor de mi tierra



Vives é de Santa Marta (linda praia do Caribe colombiano), um dos berços do vallenato, mas saiu de lá aos 14 anos, quando a família foi tentar a vida em Bogotá. Na capital começou a vida cantando rock e pop, mas foi com a mistura de ritmos com o vallenato que se tornou conhecido.
Hoje, o músico divide seu tempo entre a terra natal, Bogotá e os Estados Unidos. Encontrá-lo em Santa Marta não é tão difícil, Vives tem um restaurante ou uma pousada na praia. Com um pouco mais de sorte, ele pode tocar pra você escutar e então, quem sabe, você tira a esposa dele, uma ex-miss Colômbia, para bailar um vallenato com o pôr do sol do Caribe ao fundo.

Dejame entrar em tu mirada




A esposa dele é Claudia Elena Vásquez, essa loira que aparece no começo do clip (eles se conheceram durante a rodagem). Mais em www.carlosvives.com

Ricardo Viel é jornalista e mantém a coluna Conexsom Latina neste Nota de Rodapé

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Contribuição à salvação do planeta: desligue a TV. Ou mude de canal

Vi por aí que há dois finais de semana ocorreu uma mobilização que propunha apagar as luzes durante uma hora. Não me atrai muito esse tipo de movimentação, a bem da verdade. Parece-me coisa de uma classe média que acha que com todo esse sacrifício – meu deus! Uma hora sem luz – vai salvar o mundo. No dia seguinte, na água-de-coco no Ibirapuera ou na orla de Copacabana, comemora-se a carta branca para poluir durante os 364 e 23 horas restantes + aquelas horas de ajuste que formam os anos bissextos, é bom não esquecer.
Preferi criar uma política permanente de economia no consumo. Entre oito e nove da noite, nada de TV ligada. Assim, ao mesmo tempo em que dou uma igualmente mísera contribuição para a salvação do planeta, ponho-me a salvo daquele lindo casal que tem a benemérita função de informar ao povo brasileiro. De quebra, uma hora de leitura é infinitamente mais útil que qualquer edição do Jornal Nacional.
Na última vez em que me arrisquei a ver dito noticioso, depois de algum tempo de não-comparecimento, deparei-me com a informação de que os “Irmãos Castro”, esta terrível dupla que comanda a milionária quadrilha que há 50 anos nega os benefícios de uma parceria com os Estados Unidos, estavam descendo o sarrafo em manifestantes. A real intenção da notícia, revelada na sutileza da chamada das imagens, era promover a estreita ligação entre Lula e os maldosos.
Quanta pelotudês. Só mesmo nos altos escritórios da Globo, onde ninguém anda de ônibus e muito menos a pé – a não ser na orla de Copacabana, claro –, alguém poderia pensar que um tema de política externa terá algum efeito sobre a popularidade de Lula e, por assim dizer, nas eleições.
Isso só seria possível se:
a) não tivéssemos ainda uma massa que todos os dias precisa lutar por um prato de comida;
b) não tivéssemos outras dezenas de problemas internos a resolver;
c) estivéssemos envolvidos em uma guerra e, portanto, a política externa seria importante por demandar jovens que servissem à causa.
Com tudo isso, estimada Globo, política externa não é o tema que vai eleger o presidente de vocês. Que, a propósito, andou descendo o sarrafo em professores da rede pública paulista. Bem gostaria de saber qual foi o tratamento dado pela emissora ao caso, mas o corpo fala e o estômago não permite ao cérebro a ousadia de dar uma espiada na telinha.
Imagino, no entanto, que tenha sido o mesmo tratamento dispensado por Folha e Estado, que atribuem a greve a um movimento do PT e afirmam que os professores começaram o “conflito”. Aliás, essa é outra contribuição que darei ao planeta. Em ano de eleições, é mais que prudente deixar de ler os jornalões, poupando dezenas de árvores que se salvarão de virar papel.
Enquanto matutava sobre este texto, ouvi na Rádio CBN, da Globo, que há “bolchevistas de terceiro mundo” rodeando Lula – iluminado Arnaldo Jabor, obrigado por mais este esclarecimento. Na sequência, ouço uma série de reportagens falando sobre as Escolas Técnicas Federais, que, na concepção da emissora, são uma “das bandeiras do governo Lula”, mas sofrem com muitos problemas – melhor nem enumerar.
Bem, não esperava que o grosso da imprensa deixasse, da noite para o dia, de ter hábitos escabrosos, recheados de péssimas intenções, mas imaginava que ao longo de oito anos tivessem desenvolvido técnicas mais elaboradas de manipulação que não aquela de 1989, com edição “malandrinha” do debate.
Por outro lado, se Lula e Dilma Rousseff perderem as eleições, terão ao menos parcela de culpa. (Parêntese necessário: antes de dar sequência, esclareço que não sou nem nunca fui lulista e lembro que a política brasileira não se resume a uma dicotomia PT-PSDB, havendo, pelo caminho e além dele, muitas variações. No entanto, não sou ingênuo de não reconhecer avanços logrados pelo atual governo).
Encerrado o parêntese, pontuo que, se Lula tivesse dado real atenção à ruptura de paradigmas impostos nas comunicações e na educação, não correria o mais pálido risco de perder as eleições. Venceria Dilma ou alguém ainda mais à frente, mas não um tucano.
Se há algo que os “Irmãos Castro” entenderam rapidamente – e por isso são temidos pela Globo – é a importância de um povo bem informado e com capacidade de refletir sobre as informações que recebe. Mas Lula, no afã de conciliar todos os interesses, preferiu ter Hélio Costa, cria da Globo, dentro de seu governo. Dá nisso que vemos, lemos e ouvimos.

João Peres é jornalista e mantém a coluna Extremo Ocidente neste Nota de Rodapé.
Web Analytics