Raul, um homem com ambição e vontades, sempre cumpre suas obrigações no trabalho: é porteiro do luxuoso condomínio Águas de março.
Raul mora sozinho numa pensão na região central de São Paulo há dois anos. Veio do Maranhão em busca de oportunidade.
Raul nasceu em São Vicente Ferrer, cidade de 20 mil habitantes e com o menor PIB per capita do Brasil. Ele não sabe o que é PIB e nem per capita, mas trabalha desde os nove anos.
Raul, que sonha em ter casa própria, mulher e filhos é torcedor do Moto Club e fã da seleção brasileira de 1982.
Raul nunca leu Machado de Assis e Monteiro Lobato na escola e nunca escreveu uma redação de como foram “suas férias”. Ele nunca frequentou a escola. E nunca teve férias.
Raul tem dificuldades de se enturmar na metrópole. Tem um colega no trabalho e uma tevê de 21 polegadas para suas novelas e filmes de ação.
Raul, terminado o seu expediente, toma banho, se perfuma, coloca roupa social e segue um ritual diário: visitar uma grande rede de supermercado.
Raul sempre enche o carrinho com o que mais deseja: queijo brie e camembert, vinhos chilenos, pães italianos, geléia de framboesa, cervejas importadas, salgados, doces e outras coisas gostosas.
E o que faz Raul com tudo isso? Não faz nada. Encosta o carrinho e sai. É uma forma de “ter” o que não pode. É um “quase” que lhe dá algum prazer e faz matar o tempo.
Thiago Domenici, jornalista
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Brincando de Deus
Se me disserem que é absurdo falar assim de quem nunca
existiu, respondo que também não tenho provas de que
Lisboa tenha alguma vez existido, ou eu que escrevo,
ou qualquer coisa onde quer que seja.
Fernando Pessoa
Em 1944, Eva Duarte, a Evita, foi apresentada ao general Juan Domingo Péron, então vice-presidente da Argentina, em um evento beneficente. Encantada por aquele homem, ela lhe apertou a mão e lhe disse: “General, gracias por existir.”
A frase é perfeita porque, além de linda, representa muito bem a história do país. É tão perfeita que anos depois os peronistas a usaram em passeatas, pintada em cartazes. Ela também passou a figurar em um museu sobre a história do general argentino. Foi quando Tomás Eloy Martinez decidiu lhes contar que a frase nunca tinha sido dita.
Ou melhor, fora dita por sua Eva Duarte no livro escrito por ele (A novela de Perón), mas era uma criação. A resposta vinda do museu foi demolidora: “E o senhor quem crê que é para tentar negar a veracidade de tamanho feito histórico?”
Gabriel Garcia Márquez também “recontou” a história de seu país. O “Massacre dos Bananeros”, ocorrida em 1928, em Ciénaga, na Colômbia, está magistralmente narrado em Cem Anos de Solidão.
Quando escrevia o livro, Gabo (que vivia no México) mandou uma carta ao irmão Jaime pedindo que ele fosse atrás de dados e lhe fizesse um relato de como foi o levante dos trabalhadores e a violenta repressão das Forças Armadas. O irmão enviou o informe e destacou que em relação ao número de vítimas o mais provável é que foram algumas dezenas.
A veracidade do relato de Gabo do massacre é tão irrefutável que hoje ninguém duvida que os mortos foram mais de três mil (inclusive os livros de história trazem essa cifra).
Escritores como Gabo e Eloy Martinez têm a capacidade de criar realidades e seres humanos muitos mais críveis do que a chamada vida real.
Quem em sã consciência duvida da existência de Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro? É mais provável que Fernando Pessoa não tenha existido do que algum desses seus heterônimos.
E Blimunda, aquela incrível mulher que José Saramago nos apresentou em Memorial do Convento; alguém duvida de que é absolutamente real?
“Essa senhora se fez a si mesma. Surgiu com uma força tal que a partir de certo momento eu me limitei a acompanha-la”, contou certa vez Saramago, que seguramente acabou se apaixonando por ela.
Ricardo Viel, jornalista, colunista do Purgatório e do NR, escreve às segundas, direto de Salamanca, Espanha.
existiu, respondo que também não tenho provas de que
Lisboa tenha alguma vez existido, ou eu que escrevo,
ou qualquer coisa onde quer que seja.
Fernando Pessoa
Em 1944, Eva Duarte, a Evita, foi apresentada ao general Juan Domingo Péron, então vice-presidente da Argentina, em um evento beneficente. Encantada por aquele homem, ela lhe apertou a mão e lhe disse: “General, gracias por existir.”
A frase é perfeita porque, além de linda, representa muito bem a história do país. É tão perfeita que anos depois os peronistas a usaram em passeatas, pintada em cartazes. Ela também passou a figurar em um museu sobre a história do general argentino. Foi quando Tomás Eloy Martinez decidiu lhes contar que a frase nunca tinha sido dita.
Ou melhor, fora dita por sua Eva Duarte no livro escrito por ele (A novela de Perón), mas era uma criação. A resposta vinda do museu foi demolidora: “E o senhor quem crê que é para tentar negar a veracidade de tamanho feito histórico?”
Gabriel Garcia Márquez também “recontou” a história de seu país. O “Massacre dos Bananeros”, ocorrida em 1928, em Ciénaga, na Colômbia, está magistralmente narrado em Cem Anos de Solidão.
Quando escrevia o livro, Gabo (que vivia no México) mandou uma carta ao irmão Jaime pedindo que ele fosse atrás de dados e lhe fizesse um relato de como foi o levante dos trabalhadores e a violenta repressão das Forças Armadas. O irmão enviou o informe e destacou que em relação ao número de vítimas o mais provável é que foram algumas dezenas.
A veracidade do relato de Gabo do massacre é tão irrefutável que hoje ninguém duvida que os mortos foram mais de três mil (inclusive os livros de história trazem essa cifra).
Escritores como Gabo e Eloy Martinez têm a capacidade de criar realidades e seres humanos muitos mais críveis do que a chamada vida real.
Quem em sã consciência duvida da existência de Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro? É mais provável que Fernando Pessoa não tenha existido do que algum desses seus heterônimos.
E Blimunda, aquela incrível mulher que José Saramago nos apresentou em Memorial do Convento; alguém duvida de que é absolutamente real?
“Essa senhora se fez a si mesma. Surgiu com uma força tal que a partir de certo momento eu me limitei a acompanha-la”, contou certa vez Saramago, que seguramente acabou se apaixonando por ela.
Ricardo Viel, jornalista, colunista do Purgatório e do NR, escreve às segundas, direto de Salamanca, Espanha.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Café com leite
![]() |
| Calamarata, fetuccine, Rigatoni, Farfalle, Cavatelli, Capunti, Penne rigate, Canneloni, Bucatini, Scialatielli, Pipe rigate e Paccheri. |
Também gosto muito de cozinhar, não só de comer. Comecei aos treze anos, por necessidade. Logo percebi que fazer comida também era muito bom, tanto quanto degustá-la. E é bom não só pelo resultado, mas pelo processo.
Pensar em algo que quero fazer, comprar os ingredientes, preparar, cortar, limpar, separar, ir pro fogão, e dali a pouco ter uma comida pronta é uma delícia.
É bem verdade que não cozinho todo dia, então, como tudo que a gente não faz todo dia, tem o seu encanto.
Gosto muito de ir pra cozinha aos domingos, por exemplo, sozinha (não faço nenhuma questão de ter ajuda), por uma música pra tocar e começar o processo de manusear os ingredientes.
Se eu estiver meio mal humorada, triste, chateada, preparar uma comida me relaxa. Não que opere a mágica de devolver o bom humor, mas que dilui o nó, dilui mesmo.
Enquanto corto legumes, pico cebola e alho, a cabeça vai funcionando em rotação mais baixa, repassando o que me incomoda e limando as asperezas do momento.
E tem aqueles alimentos que, definitivamente, não são para o corpo. São para a mente, ou a alma, se preferir. Você já reparou como café com leite cura quase tudo?
Principalmente neurônios embaralhados, todas as benditas manhãs da minha vida. Se tiver também um pão com ovo frito, então, a inteligência fica tinindo.
Aquele mexido, sempre delicioso, que a gente faz à noite com as sobras do almoço, não é comida, é um abraço. E sopa de frango com macarrão (sempre ele) é um cobertor de uso interno, dá uma paz incrível.
Pra mim, não existe combinação de sabores mais perfeita do que azeite de oliva, alho, tomate e manjericão. A gente pensa que é comida, mas é arte, que não vai se desfazer no estômago. Vai direto pra cabeça, abrindo nossos olhos para a beleza.
E se o frio for de rachar e não tiver nada disso por perto, uma dose de conhaque vai trazer de volta o conforto de casa, nem que seja só por alguns minutos. Vai por mim.
Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Bem vindo a Adegesto
– Dosolinaaaaaaa?
– Diga Margarete, vizinha querida, tudo bem?
– Vamos levando. Cê tá sentido esse cheiro?
– Tô sim. É merda?
– É merda humana, Dosolina, e tá na porta da sua casa!
A vizinhança de Adegesto, cidade no interior de Pataca, é uma calmaria só. Ali, os dias passam modorrentos, o que deixa os poucos visitantes dos centros urbanos como São Zauvino com crises de ansiedade quando passam por lá, mas é costume do cidadão adegestino desfrutar da monotonia com bom humor.
Mãe e dona de casa, a viúva Dosolina é muito querida na cidade. Cuida do lar com dedicação e excelência: lava, passa, cozinha. Depois dos afazeres dedica-se ao deleite crepuscular: novela, guloseimas e filminho. Nada sai de sua rotina; leva a vida com satisfação.
É um hábito esticar as pernas na poltrona que ganhou do filho único e usar o coçador de madeira – uma espécie de “mãozinha” que alcança lugares difíceis nas costas. Além disso, é do seu perfil conversar alto sobre cotidianidades enquanto gesticula muito.
Tudo ia bem em sua vida até o alerta de Margarete. Acreditaram ter sido uma cagada eventual, de alguém apertado e sem banheiro por perto, “um sem educação, um sem modos qualquer”, mas não foi: o inexplicável passou a assolar a porta (e a vida) de Dosolina todos os dias.
– A coisa parece que brota do chão – disse um vizinho encafifado com o mistério.
– Acho que é coisa do sobrenatural – comentou outro.
De um tudo fizeram e nada revelava o autor das cagadas: câmeras, vigília dos amigos, armadilhas e orações. Podiam estar todos atentos e num piscar de olhos o monte disforme exalando seu perfume aparecia soberano. Até recompensa foi oferecida pelo prefeito. Em vão.
Tal qual o cheiro, o assunto infestou a cidade de pouco mais de 4 mil habitantes. O polícia prendia suspeitos, mas a merda sempre aparecia inocentando os acusados. Todo um mercado paralelo foi criado e as apostas no bolão “De quem é a merda?” criou muita expectativa no município.
A visitação pública das fezes, a essa altura, atraia hordas de moradores das cidades vizinhas o que levantou a economia local. Sorveteiros, pipoqueiros e ambulantes gerais acharam um nicho. E, por tabela, vendiam muitos odorizadores, perfumes e afins.
O tradicional carnaval da cidade ganhou a letra “Que merda é essa?” que virou sucesso nacional, interpretada por Chineló, sensação daquele verão. O prefeito, percebendo a situação política favorável, discursou propondo um plebiscito popular para mudar o nome da cidade para Cheirosa.
“Cópias da merda” não original pipocavam em outras portas no intuito de atrair os holofotes. Mas o cheiro e consistência eram específicos, fortes e repugnantes. E estava na porta da cidadã mais ilustre da cidade.
As pencas, repórteres visitavam Adegesto: a merda foi vista nas televisões, falada nas rádios e descrita nos jornais. Dosolina ficou conhecida em todo o país. Supreendeu-se com a notícia da criação por fieis da “Igreja da Merda” cujo padroeiro era “São Merda”.
Um grupo passava o troço no corpo e comercializava a “Merda real” dizendo que era medicinal e curava. Curiosos cientistas estudavam o excremento em laboratório em busca de alguma explicação. Camisetas com o slogan “A merda é nossa” vendiam ao borbotões. Tudo isso foi chateando a boa dona de casa que só queria sua vida pacata de volta.
Seu imóvel, apelidado de “Casa da Merda”, foi tombado pelo patrimônio histórico municipal, fotografado pelo google e ganhou milhares de likes no Facebook e seguidores no Twitter. Um time de futebol, Merda F.C, foi criado com patrocínio de uma empresa de papel higiênico.
Os anos se passaram e a bostança jorrava mais e mais, como uma nascente de rio. E Dosolina? Não se tem mais notícias. Dizem que morreu ou que se mudou. De certo, não aguentou mais ver sua vida esmerdiada. Reza a lenda que em sua última aparição pública, teria dito a um turista que comparou a história a do livro que virou filme O cheiro do ralo.
– Não é do ralo, porra, é do mundo!
Thiago Domenici, jornalista
– Diga Margarete, vizinha querida, tudo bem?
– Vamos levando. Cê tá sentido esse cheiro?
– Tô sim. É merda?
– É merda humana, Dosolina, e tá na porta da sua casa!
A vizinhança de Adegesto, cidade no interior de Pataca, é uma calmaria só. Ali, os dias passam modorrentos, o que deixa os poucos visitantes dos centros urbanos como São Zauvino com crises de ansiedade quando passam por lá, mas é costume do cidadão adegestino desfrutar da monotonia com bom humor.
Mãe e dona de casa, a viúva Dosolina é muito querida na cidade. Cuida do lar com dedicação e excelência: lava, passa, cozinha. Depois dos afazeres dedica-se ao deleite crepuscular: novela, guloseimas e filminho. Nada sai de sua rotina; leva a vida com satisfação.
É um hábito esticar as pernas na poltrona que ganhou do filho único e usar o coçador de madeira – uma espécie de “mãozinha” que alcança lugares difíceis nas costas. Além disso, é do seu perfil conversar alto sobre cotidianidades enquanto gesticula muito.
Tudo ia bem em sua vida até o alerta de Margarete. Acreditaram ter sido uma cagada eventual, de alguém apertado e sem banheiro por perto, “um sem educação, um sem modos qualquer”, mas não foi: o inexplicável passou a assolar a porta (e a vida) de Dosolina todos os dias.
– A coisa parece que brota do chão – disse um vizinho encafifado com o mistério.
– Acho que é coisa do sobrenatural – comentou outro.
De um tudo fizeram e nada revelava o autor das cagadas: câmeras, vigília dos amigos, armadilhas e orações. Podiam estar todos atentos e num piscar de olhos o monte disforme exalando seu perfume aparecia soberano. Até recompensa foi oferecida pelo prefeito. Em vão.
Tal qual o cheiro, o assunto infestou a cidade de pouco mais de 4 mil habitantes. O polícia prendia suspeitos, mas a merda sempre aparecia inocentando os acusados. Todo um mercado paralelo foi criado e as apostas no bolão “De quem é a merda?” criou muita expectativa no município.
A visitação pública das fezes, a essa altura, atraia hordas de moradores das cidades vizinhas o que levantou a economia local. Sorveteiros, pipoqueiros e ambulantes gerais acharam um nicho. E, por tabela, vendiam muitos odorizadores, perfumes e afins.
O tradicional carnaval da cidade ganhou a letra “Que merda é essa?” que virou sucesso nacional, interpretada por Chineló, sensação daquele verão. O prefeito, percebendo a situação política favorável, discursou propondo um plebiscito popular para mudar o nome da cidade para Cheirosa.
“Cópias da merda” não original pipocavam em outras portas no intuito de atrair os holofotes. Mas o cheiro e consistência eram específicos, fortes e repugnantes. E estava na porta da cidadã mais ilustre da cidade.
As pencas, repórteres visitavam Adegesto: a merda foi vista nas televisões, falada nas rádios e descrita nos jornais. Dosolina ficou conhecida em todo o país. Supreendeu-se com a notícia da criação por fieis da “Igreja da Merda” cujo padroeiro era “São Merda”.
Um grupo passava o troço no corpo e comercializava a “Merda real” dizendo que era medicinal e curava. Curiosos cientistas estudavam o excremento em laboratório em busca de alguma explicação. Camisetas com o slogan “A merda é nossa” vendiam ao borbotões. Tudo isso foi chateando a boa dona de casa que só queria sua vida pacata de volta.
Seu imóvel, apelidado de “Casa da Merda”, foi tombado pelo patrimônio histórico municipal, fotografado pelo google e ganhou milhares de likes no Facebook e seguidores no Twitter. Um time de futebol, Merda F.C, foi criado com patrocínio de uma empresa de papel higiênico.
Os anos se passaram e a bostança jorrava mais e mais, como uma nascente de rio. E Dosolina? Não se tem mais notícias. Dizem que morreu ou que se mudou. De certo, não aguentou mais ver sua vida esmerdiada. Reza a lenda que em sua última aparição pública, teria dito a um turista que comparou a história a do livro que virou filme O cheiro do ralo.
– Não é do ralo, porra, é do mundo!
Thiago Domenici, jornalista
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Da imposição da folia
Fernando Carvall é ilustrador e caricaturista, professor do Senac há quase 20 anos e mantém o Estúdio Saci. É colaborador do Nota de Rodapé desde 2010.
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