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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Efervescência aeroplânica

No mesmo ano em que comemora os dez anos de sua principal banda, o Cérebro Eletrônico, o cantor e compositor Tatá Aeroplano decidiu dar seu primeiro grande voo solo.

Não que ele já não tivesse feito muitos shows sozinho, participado de dezenas de projetos independentemente de suas bandas (entre elas, Jumbo Elektro e Zeroum) e distribuído algumas de suas composições para que outras vozes as interpretassem. Mas esse ano Tatá entrou em estúdio para gravar seu primeiro disco solo, “Tatá Aeroplano”, e o resultado, mais uma vez, é marcante.

Escrevo aqui sobre Tatá não só pelo disco, mas porque sempre admirei sua mente em ebulição e sua efervescência aeroplânica – uma criatividade que mostra (junto a diversos outros artistas, claro) como é besteira esse papo de que música boa era a que se fazia antigamente.

Esses dias perguntei para o Tatá quantas dezenas de músicas ele já compôs. A resposta: cerca de 1.500. Boa parte delas estão gravadas nas pilhas de fitas cassete guardadas em sua casa.

Desse modo, para quem acompanha a cena musical independente no Brasil, parece até estranho que o compositor ainda não tivesse lançado um álbum só seu, dada sua presença tão marcante no nosso meio. Tatá já compôs, gravou ou tocou junto com Tulipa Ruiz, Bárbara Eugênia, Leo Cavalcanti, Vanguart, com a Trupe Chá de Boldo (da qual faço parte), entre vários outros. No caso da Trupe, ajudou a abrir portas, mostrou sua grande generosidade (sem aquele clima de competição que às vezes se vê no meio musical) e pulou ao nosso lado alguns bons carnavais.

No mês passado fez no Sesc Vila Mariana o show de lançamento do novo disco. Levou ao palco a sonoridade um tanto setentista da gravação (digo “um tanto” porque não é algo datado), misturada à uma poesia narrativa, urbana, por vezes íntima e amorosa, por outras violenta e escancarada. Para acompanha-lo no projeto, reuniu um time já entrosado de músicos: Junior Boca e Dustan Gallas (produtores do álbum), Bruno Buarque e Clayton Martin – além das participações de Bárbara Eugênia e Leo Cavalcanti.

Me recordo que pouco tempo atrás a jornalista Lorena Calabria escreveu em seu blog um texto muito interessante sobre o disco da Trupe Chá de Boldo. Disse, sobre a faixa Na Garrafa: “ela fala de desejo usando metáforas. Drogas que se fumam e que se bebem. Sexo implícito. E também escancarado. Nada de mixaria, tem que ser tudo. Todo. Gostoso. Na Garrafa é o contraponto da pureza e recato dos novos compositores.”

Bom, então que também se tire Tatá Aeroplano dessa lista de “novos compositores”! Nas letras: orgia, porrada, absinto, pó, personagens freaks e loucos, nights purpurina. Sem abandonar uma delicadeza e fluidez que sempre marcaram a poesia e a voz de Tatá.

Li em alguns lugares críticas negativas ao CD, dando a classificação “regular” a ele. Me pus a pensar. Primeiro, não vejo porque definir um disco com número de estrelas; algo taxativo e, em geral, burro. Uma resenha deveria ser capaz de falar do disco sem definir, prepotentemente, quantas estrelinhas a obra merece.

Mas não é esse o ponto. Tentei “entender” o que há de “regular” no ótimo disco de Tatá. Talvez o que incomode esses críticos seja justamente o CD ser um “contraponto à pureza e ao recato” da música que predomina, como disse a Lorena Calabria. Talvez o que incomode seja, por exemplo, uma faixa de dez minutos chamada “Par de Tapas que Doeu em Mim”, que não se enquadra no padrão das rádios, nem da “música fofa”, mas que traz uma narrativa intensa com sexo e porrada.

Bem, a mim não incomoda, mas inspira. E muito.

Um dos textos diz que “os dotes vocais de Tatá não ajudam”. Engraçado, a voz de Tatá sempre me intrigou e encantou pela sua peculiaridade e beleza. Mas, claro, há quem não goste de peculiaridade, e prefira o que é padronizado. Imagino que o crítico que escreveu isso também não deva gostar muito das vozes de Bob Dylan ou Jimi Hendrix...

Pra terminar, coloco aqui a letra de uma música que o Gustavo Galo (da Trupe) escreveu para o Tatá, que chegamos a tocar mas ainda não gravamos. Fala um pouco sobre o que é voar nesse aeroplano. O disco está pra download gratuito em www.tataaeroplano.com







hoje
quero a rua cheia
sem mania de passado
hoje
eu quero a alegria
fora de qualquer nostalgia
me atirar
na orgia
no céu azul
lá em cima
em cima
de você
e muito mais
quero voar
de aeroplano
sem plano
amor
de
aterrissar

Ouça o disco online aqui no NR


Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música.(Imagens de Maíra Acayaba)

Assim caminha a especulação

[clique para ver em tamanho grande]

Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colunista do NR, atualmente mantém a série A Fábrica de Brinquedos Pau-brasil

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Fabricando bárbaros

Peço-lhes licença para deixar a crônica que faria neste mês para o outro, e tratar aqui de um assunto que me enche não tanto de indignação quanto de verdadeira preguiça.

É que um meu amigo, que é designer e trabalha numa agência de publicidade em São Paulo, escreveu-me outro dia dando notícia de que, por lá, anda circulando entre as agências de publicidade uma pitoresca promoção que promete premiar os profissionais que ganham os menores salários nessas empresas com uma viagem inteiramente grátis a Buenos Aires, com direito a tudo pago por lá.

Na campanha, cada agência publicitária concorre enviando um vídeo em que o “curico” [é como diz o neolinguajar noveleiro] mais curioso que houver em cuja empresa deve aparecer ocupando a função de presidente e expondo douta argumentação para aprovar ou não as propostas de propagandas a ele submetidas por “diretores de arte” e “redatores” da dita cuja.

O prêmio se chama “El ojo 2012” e seu lema (ou slogan, não sei, ajudem-me os que de publicidade entenderem) é “Eu vejo tudo, eu sei de tudo”. Vossas mercês podem, agora mesmo ou depois de lerem esse bolodório, clicar aqui [http://www.euvejotudo.com.br/] e ver com vossos próprios ojos.

a quem queremos pintar como bárbaros, se somos
todos farinha do mesmo saco, caras-pálidas?
Por profissionais com os menores salários entenda-se porteiros, copeiras, serventes e ajudantes de serviços gerais em geral. Profissionais que, na propaganda promocional da campanha (oh, odiosa terminologia!), aparecem (ou são representados) ridiculamente, como se fossem “sócios-fundadores” da agência, figuras onipresentes que de tudo sabem e de tudo vêem, mas que de nada entendem - porque (e isto sou eu quem digo tão expressamente quanto diz o tal vídeo nas entrelinhas) são burros feito jumentos.

“Esse aqui é o melhor porque não entendi porra nenhuma”, diz no vídeo uma senhora apresentada como “Solidá”, copeira da agência África, como julgasse um trabalho - para não me deixar mentir demais. No layout do site, letras cursivas enoveladas, ornadas por uma profusão de recortes amontoados, mimetizam extremas cafonice e mau gosto. No fundo musical, um xotezinho com sanfona e triângulo, sobre o qual um cantor anasala a voz, mimetiza o que seria um sotaque supostamente “nordestino”.

O assunto do e-mail do meu amigo era assim: “Publicitário, esse bicho preconceituoso”. No corpo da mensagem, dizia: “E a campanha é basicamente chamar de idiota as pessoas que têm os salários mais baixos na agência e botar uma trilha "nordestina" - porque (né?) copeira é tudo nordestina mesmo.
Escroto. Eu odeio o sentido de "mascote" que as pessoas dão a esses profissionais. Tem muito disso em empresa, e eu acho escroto: pega o faxineiro, a copeira, e trata como um macaquinho engraçado e querido, que distribui cafés e fala engraçado. Não é como um igual, é um bichinho simpático. E essa ‘campanha’ aí perpetua isso sem a menor vergonha, achando totalmente natural.”

Ora: notem vossas mercês que estamos diante de uma combinação molotoviana de ingredientes como “idotice”, “cafonice”, “mascote”, “copeira/faxineiro/porteiro”, “macaquinho engraçado” e… “nordestino”.

***

Poupo-lhes do teorema - o corolário é: “nordestino”.

Do que me pergunto: quem, nascido e criado nos estados que formam a região nordeste do Brasil, se sente “nordestino”? Profundamente “nordestino”, quero dizer. Pois tendo a crer que os naturais de Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia sentem-se apenas maranhenses, piauienses, cearenses, potiguares, paraibanos, pernambucanos, alagoanos, sergipanos e (como eu) baianos - porque cada um desses, afinal, é, mais que mero gentílico, que mero designativo, um conceito afetivo.

Tendo a crer nisso tanto quanto duvido que qualquer um deles (de nós) se reconheça como “nordestino”. Simplesmente porque o “nordestino” não existe: é um conceito forjado no centro-sul do país para designar todos esses “mascotes exógenos” importados deste “outro mundo” chamado “Nordeste”. Conceito que, talvez por ter o condão de manter-se politicamente correto (afinal, Bahia é ou não é Nordeste, Ricardo, seu chato do c$%&*?) sem deixar de carregar um conjunto enorme de preconceitos (haja vista os acima listados), tem ganhado um perigoso status de lugar-comum. Perigoso porque, pescando pela memória, lembro de já tê-lo ouvido impregnado até mesmo na fala de “sudestinos” e “sulistas” da maior valia, donos de minha sempiterna estima.

Será que exagero na reflexão, amigos? Pois rogo-lhes que façam esse teste os nascidos em São Paulo, no Rio, no Rio Grande do Sul etc, para que por favor não me deixem passar por demasiado precipitado ou tolo: você, nascido em São Paulo, se reconhece “sudestino”? E você, do Rio? Amigo de Porto Alegre: você se sente “sulista”? Apostaria que não, que vocês se sabem tão paulistas, cariocas ou gaúchos quanto eu me sei baiano.

Já vou concluindo, meritíssimo. Data venia, essa história toda me faz lembrar que, na Itália (e só na Itália, ao que parece), forjou-se nos últimos anos o termo “extracomunitario” para designar toda aquela escória preta, vermelha, amarela (e branca até) que não nasceu na União Européia. Um romeno é tão extracomunitario quanto um marroquino. Um boliviano o é tanto quanto um chinês. Um coreano, tanto quanto um sudanês. “Extracomunitari” são todos os “de fora” - enquanto não incomodam, porque quando incomodam, ganham sobrenome: “extracomunitari di merda”.

Ignorância por ignorância, até entendo a dos italianos: reconforto-me imaginando que, coitados, jamais aceitaram a derrocada de Roma e, hoje, vivem das aparências, gabando-se de gabanas e armando-se de armanis para expulsar, quixotescamente, as invasoras hordas bárbaras.

Já a nossa, perdoem-me, mas não entendo: a quem queremos pintar como bárbaros, se somos todos farinha do mesmo saco, caras-pálidas?

***

Em tempo: talvez a única chave de leitura que salve um pouco o bendito do prêmio seja a que leva à conclusão de que a genialidade de um chairman de agência publicitária é tão genial quanto a de um especialista em servir cafezinho.

Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta, com um texto mensal. Escreve de Salvador.

Sozinho e bem acompanhado

Há certas coisas contra as quais não vale a pena se insurgir. A atitude melancólica diante da vida é uma dessas. Invejo os que não a tem – porque é uma condenação -, mas já não luto contra.

Passei a aceitar que, nos momentos em que supostamente eu deveria, não sentirei a euforia que vejo nos outros. Falo mais especificamente de festas, celebrações e reuniões familiares. Nesses encontros, invariavelmente chega um momento em que me sinto só e que me pergunto por que não estou me divertindo como os demais.

Demorou, mas aos poucos me acostumei com a ideia de que não devo me sentir culpado. E duas admiráveis companhias me ajudaram a entender isso.

Gabriel García Márquez, apaixonado pela música e bom bebedor, escreveu certa vez:

“Sou um dos seres mais solitários que conheço, e dos mais tristes, ainda que pareça incrível... As pessoas do Caribe são muito assim, ainda que tenham fama de todo o contrário, de gregários, de eufóricos, de festeiros, mas você os vê em plena festa e estão com uns olhos de melancolia”.

José Saramago, que com fama de festeiro e boêmio, também era avesso a celebrações. Em seus Cadernos de Lanzarote fez uma linda declaração de amor a Pilar, mas o que me chama atenção nela é justamente sua introdução:

“As festas, em geral, põe-me melancólico. Mas no regresso dei por mim a dizer a Pilar: Se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de te conhecer, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora.”

Caetano, Saramago e Jorge Amado na casa do
cantor, 1996. (Fundação Casa de Jorge Amado)
E Pilar, a mulher que fez Saramago rejuvenescer, contou que poucas vezes o viu desfrutar de uma festividade. Uma delas foi quando visitaram Salvador e, na casa dos Veloso, se reuniram com figuras como Jorge Amado e Zélia, Gil, Caetano e Dona Canô:

“Até José, pouco dado a reuniões grandes, que em situações como estas mais parece um cão perdido, esteve à vontade, descontraído, deixando correr o tempo, sem experimentar a terrível sensação de perda irreparável que tantas vezes, em ocasiões assim, se apodera dele.”

Enfim, isso de me sentir sozinho tendo ao lado tanta gente, muitas vezes pessoas que quero muito e que gosto de ter por perto, não é coisa só minha. Há gente muito mais sábia que eu que nunca pôde resolver esse mistério.

Não há remédio, é preciso conviver em paz com isso.

Portanto, se um dia estivermos em uma festa e eu pedir licença para ir ao banheiro ou para encher meu copo, e você me vir minutos depois vagando perdido, não se preocupe: não é a festa, tampouco é você, a questão é comigo.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas de Salamanca, Espanha

sábado, 1 de setembro de 2012

quadrinhos_12


Fernando Carvall, ilustrador e caricaturista. Mantém o Estúdio Saci.
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