.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Antes do e-mail

Houve um tempo em que se escreviam cartas. Eu mesmo o fiz. As minhas eram, sobretudo, dirigidas à minha avó. E sentar-se para escrever, revisar, colocar a mensagem em um envelope, levá-la aos correios, e esperar durante semanas a resposta, era um ritual que me agradava.

Digo isso porque recentemente li uma carta enviada por Jorge Amado a Zélia Gattai (publicada pela revista Bravo). Era 1948, ele exilado em Paris e ela no Brasil. É uma missiva cheia de carinho, doçura e bom-humor (com uma pitada de ironia). O escritor baiano conta um pouco de sua vida na Europa, das pessoas com quem convive, dos projetos e tenta acalmar os ciúmes da esposa, a ponto de escrever: “a senhora esta não me interessa em absoluto. Nem outra senhora qualquer. Interessa-me tu, meu bicharoco lindo e louco”. E também se declara: “Minhas saudades são cada vez maiores e não consigo gostar inteiramente das coisas porque não estás a meu lado.”

Fico a pensar em Jorge Amado escrevendo a Zélia. Todo o processo que era postar uma carta, todo o cuidado e angústia que significava, e toda a expectativa que gerava o envio de uma mensagem dessas.

Isso hoje já não existe. E não digo que o conforto dos e-mails seja ruim. Se posso escrever uma mensagem instantânea e gratuita, por que enviaria uma carta? Mas há, claro que há, uma diferença. Um e-mail é fugaz. Escrevê-lo demora uns quantos minutos. Muitas vezes nem sequer se revisa a mensagem. E se sabe que chegará, e chegará ao instante. E se desejar, consegue-se inclusive saber se a pessoa o leu (e quando). Enfim, o tempo é outro.

Eu, o que tento fazer, é aplicar essa lógica do tempo de antes a alguns e-mails meus. Os que considero muito importantes, os guardo. E vez ou outra os (re)leio. Talvez para tentar entender quem era eu quando os escrevi. E há, também, e-mails que redigi e jamais enviei. Agora mesmo tenho um ali, na caixa de “rascunhos” à espera de algo.

Como uma carta de antigamente em que se duvida em enviar. E gosto de lê-lo, e gosto da ideia de que posso enviá-lo quando quiser. E gosto, mais que nada, de pensar que um dia talvez ele se torne inútil, desnecessário, e então poderei apagá-lo para sempre, como quem rasga e depois queima uma carta.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas essa coluna semanal, enviada da Espanha por e-mail, não por cartas.

sábado, 8 de setembro de 2012

Como uma diva

A primeira vez da gente é mesmo marcante. Durante 29 anos fui fiel aos homens. Somente eles colocavam as mãos. Foram poucos, quatro no máximo. Um tinha bigode, outro era quase anão, sempre mais velhos, conversadores, com histórias que me entretiam num ambiente amigável. O típico local em que me sentia parte do todo, satisfeito mesmo. Me tratavam bem e faziam o serviço por poucos trocados. Sempre foi assim. Era um estilo.

Me afeiçoei ao último, um nordestino das terras próximas do Crato, no Ceará. Seu João, baixo, calado, calça social preta batida e camisa entreaberta que não dava para chamar de branca. Um machão respeitável, pai de oito filhos. Nos encontrávamos de dois em dois meses no mesmo pardieiro em São Paulo.

Nos cumprimentávamos enquanto a abatida televisão de 21 polegadas estava sempre sintonizada no mesmo canal. Às vezes, eu esperava enquanto folheava revistas velhas, jornais de bairro antigos. No fim, amenidades eram ditas e 10 mangos a menos ia eu feliz pra casa. Pensava: “Agora, só daqui a dois meses.” Foi então, sem mais, como num corte seco de um filme de ação, que mudei. E eu estava tenso com aquela história de mudar radicalmente.

Era um sábado bem de tardezinha quando cheguei no lugar no qual até a Camila Pitanga, a atriz Global, vai quando está em terras paulistas. O tema aqui, caro leitor, é o corte de cabelo mais caro da minha vida, num salão respeitável, pasmem, muito próximo ao do Seu João. Aquela sensação do novo me aborrecia, estava eu a trair a causa? Mas vejam, era um presente, e eu não podia recusar. Se você leitor me perguntar o motivo da mudança, logo adianto, o amor quebra mesmo preconceitos (e orçamentos).

O primeiro impacto foi o do luxo. Tinha manobrista, o design da casa era arrojado, decoração modernete pacas, cadeiras bem confortáveis, sofás caprichosos e coloridos com direito a café, água e, dependendo da ocasião, champagne. “O que eu tô fazendo aqui?”, lamentei logo ao entrar e ver os olhares curiosos de mulheres postas em cadeiras com outras segurando seus pés, mãos e cabelos. O som, nem de longe, lembrava o barulho da tevê meio sem sintonia dos buracos onde sempre me enfiei. Era música de balada, dessas que te deixam ligadão, com vontade de pular sem motivo aparente.

No entanto, não havia caos, e sim um burburinho desconhecido para, julgo eu, a maioria dos homens. O que será que pensavam de mim? Ruborizado (meio aterrorizado, vai!) caí nas mãos – ó, infiel – de uma moça de estatura baixa e igualmente descolada. Em suas mãos uma perigosa navalha. “Mas onde raios foi parar a tesourinha véia de guerra?”, imaginei. A moça (especialista também – atentem ao nome – em design de sobrancelhas) veio logo mexer no meu cabelo, mandou a assistente lavar com esse e aquele produto megahipercool.

Explicou-me a assistente que cabelo liso se corta com navalha. Foram uns três ou quatro tipos de cremes antes da toalha e do secador. Já estava cansado, quando, finalmente, fui para a cadeirinha, como um bom menino envergonhado, esperar a minha vez enquanto observava. “Nooossaaaa, como você está linda com esse cabelo…”, disse uma. “Esse esmalte fica bom em mim?”, perguntou outra. Eram muitas manicures com suas munições coloridas de marcas variadas. E ninguém para falar, sei lá, de futebol comigo? De novela, quiçá?

Desperto da lamentação com a pergunta. “Como você quer o corte?”. Fico em silêncio. Nem eu sei. A minha vaidade capilar sempre foi dizer aos homens da barbearia: “tira o excesso e corta um pouco a franja” ou “Passa a máquina três do lado e encurta”. Direto e reto, sem rodeios. Mas ali era território desconhecido. Disse a ela “invente um corte”. Entre mil sugestões a cena se desenrolou sem eu saber o que acatei. Minuciosamente, concentradíssima, a navalha fazia sua parte e os pedaços de cabelo iam embora.

“Você vai ficar careca”, ela comentou despretensiosamente. "Como pode me dizer algo tão duro sem nem me conhecer direito?", pensei e sorri amarelo – emputecido, é claro. O espelhinho ao fim do corte – aquele que colocam atrás de você – salvou minha recordação do Seu João. Ele não dizia nada e eu só acenava que sim, pagava e ia embora. Na minha primeira vez, tive de esperar a esposa, responsável por toda essa incursão radical na capilocultora. Seu João, me perdoe, mas hoje, como uma diva, meu luxo bimestral é não precisar mais pentear o cabelo que ainda me resta quando acordo. Artimanhas da navalha.

Thiago Domenici
, jornalista, escreveu este texto originalmente para o blog TodasNós em 2011. Como seu colega rodapédiano, Tomas Chiaverini, que escreveu sobre o tema recentemente  - Emancipação Capilar - resolveu também compartilhar, sem pseudônimo, o texto em questão.

quadrinhos_13


Fernando Carvall
, ilustrador e caricaturista. Mantém o Estúdio Saci.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Pororoca

Começou assim, como quem não quer nada. Num domingo de sol e céu impecáveis, eu caminhava sozinha por Nova York, em direção a um desses museus da hora, quando percebi que me escorriam discretas lágrimas pelo rosto. Não entendi muito bem, porque não achei nenhum motivo pra elas. Atribuí ao frio que ignorava os agasalhos e não me deixava esquecer que moro num país tropical.

Estava lá para um grande evento, que era a culminância de um esforço meu de muitos anos. Fui reconhecida e paparicada, mas não conseguia achar muita graça em nada. Inclusive, bateu um desespero de voltar pra minha casa dois dias antes do planejado, e voltei mesmo.

Na semana seguinte, fui a um concerto vinculado a uma campanha cívica, compromisso de trabalho. Não sei dizer o que aconteceu ali, nem qual era o programa musical, só me lembro que havia um ótimo pianista português. Isso porque as únicas coisas que eu conseguia perceber bem eram um aperto no peito e insistentes lágrimas.

Dali pra frente, eu, que valorizo cada uma das minhas lágrimas, porque sei quanto me custam, entrei numa de chorar por qualquer coisa. Não estava me reconhecendo. Para completar, era um período muito difícil no trabalho, com problemas por todo lado, conflitos, demandas intermináveis, muita pressão, e eu comecei a me sentir muito cansada de tudo aquilo. Uns dias depois, além do cansaço, eu tinha vontade de sumir.

Dei pra achar que estava no lugar errado, que não tinha competência pra tanta responsabilidade, que não dava conta de tanta demanda, e que tinha que ter uma conversa séria com minha chefe, e que ela deveria começar a buscar outra pessoa pra assumir o meu lugar já, agora, imediatamente.

Aí veio a pororoca. Com a angústia em franca escala ascendente, comecei a ter dificuldade pra respirar. Isto num fim de semana absolutamente corriqueiro, em casa, sem nenhuma demanda especial. Incapaz de conter o choro, eu vagava pela casa como um zumbi. No domingo à noite, sentia que ia morrer, com o coração aos pulos e falta de ar – um horror.

Salvou-me minha santa ginecologista de muitos anos, a quem telefonei em desespero, acusando a oscilação hormonal da menopausa. O vilão era outro: um remédio pra dormir que havia sido receitado por um supergeriatra, com quem eu estava começando a tratar preventivamente o envelhecimento, e que decidira tentar me aliviar a persistente insônia. Diagnóstico: depressão química, com fortes sintomas de síndrome de pânico.

Tudo isso pra dizer que conheci a depressão por dentro. Vivi quase dois meses na sombra, no escuro. Queria sumir, morrer, dormir e não acordar. Achava que minhas falhas e dificuldades eram terríveis e insuperáveis, não adiantava insistir, viver não valia a pena. Em cada célula do meu corpo. Depois passou, mas sei de muita gente que convive com ela durante anos e anos, numa luta que conta com a minha maior admiração e solidariedade.

“Ser feliz” é uma exigência do nosso tempo, seja lá o que for essa tal felicidade. Muitas vezes, a vida pode não ser nada como a gente queria, mesmo porque quase sempre queremos coisas que, se pararmos pra pensar, são muito estranhas, inventadas pra não dar certo. Como ter alguém, uma única pessoa, que nos satisfaça todas as necessidades afetivas, sexuais e emocionais, pra que a gente possa viver sem dor e sem esforço. Não consigo pensar em nada mais irrealista e egocêntrico.

Mas ela é boa, como quando a gente descasca uma mexerica e aquele cheiro invade tudo, ou lê um livro que não consegue largar, ou vê “Tudo sobre minha mãe”.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

DKW

Apesar de concordar que a internet é uma revolução cognitiva irreversível, sou do tipo - até por vício de geração - que adora frequentar bancas de jornal. Não passo por uma sem me deter. Meus olhos sempre rastreiam um título novo, ou se comovem com as publicações sobreviventes.

Na semana passada parando na banca do Fernando, na rua Macunis, Vila Madalena, dei de cara com um livreto cuja capa fez meu coração congelar. Nela estavam as três letras D K W e uma foto do carro. Pirin, pirin, soou o telefone da memória.

Comprei na hora. Dezenove reais e noventa centavos. Nem pensem que sou fixada em chassis, suspensões, motores. Nada disso me ganha. O que me arrebatou foi subitamente voltar quase cinco décadas, e aterrissar na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Mais precisamente no bairro da Tijuca. Mais particularmente na rua Professor Pinheiro Guimarães, número 12. Mais exatamente dentro do carro do meu avô Júlio. Adivinhem? Um DKW da cor azul de um céu de anil.

Às vezes, o carro e ele me levavam ao Grupo Escolar. Eu amava me exibir para os colegas. Pois, acreditem, nessa época havia poucos carros. Eles eram complicados e, principalmente, caros. Mas o meu avô postiço, judeu, checo, comerciante, comunista, leitor, tocador de violino, de palavras duras tinha um automóvel.

Pelas janelas do DKW, conheci o Alto da Boa Vista - inigualável em magia e beleza. Conheci a Barra da Tijuca, quando ela não tinha prédios. Quando era uma praia cheia de dunas. Aliás foi na Barra que a minha memória entrou no mar pela primeira vez. E me apaixonei por essa imensidão de água e sal.

Todas essas emoções ponho no crédito do DKW. Carro que chegou no país pelo porto de Santos em 1950, e morreu em 1966. Nesses dezesseis anos, ele testemunhou o suicídio de um presidente da República, a criação de Brasília, o golpe da ditadura.

É curioso perceber que toda memória pessoal é uma memória social. Os anos da minha infância não são só meus. Eles estão aparafusados na prancha de uma época. No ano em que nasci, Juscelino Kubitschek se tornou presidente do Brasil.

Então imaginem que o slogan 50 anos em 5 se mistura à minha mamadeira, aos meus primeiros passos, à minha alfabetização. Eu sei, podemos escapar de muitas coisas. De um trauma de amor, de um mau negócio, de uma carreira equivocada. Mas da história, ninguém escapa.

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas a coluna Observatório da Esquina. Ilustração de Carvall, feita especialmente para o texto
Web Analytics