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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Lágrimas de homem abalam o machismo no futebol. E o racismo? Voa impávido em céu de brigadeiro

por Cidinha da Silva*

As lágrimas dos jogadores brasileiros pressionados pelo terror de serem eliminados da Copa das Copas ainda nas oitavas de final incomodaram muita gente. A fragilidade dos homens, quando exposta de formas convencionadas como algo característico das mulheres, neste caso, o choro copioso em situação de tensão e desespero, mexe com as estruturas enrijecidas de muita gente. Para o bem e para o mal.

Há os que se sentem incomodados porque, em síntese, acreditam que homens são machos e não devem chorar, dentre outros motivos, porque o choro denota fraqueza e os jogadores (de futebol) estão em campo como soldados para guerrear. Outros (bem poucos) defendem o choro como expressão válida de sentimentos, como válvula de escape legítima ao alcance dos canais lacrimais de todo ser humano, inclusive dos homens, humanos também. Afinal, ninguém quer passar à História com as marcas da derrota e do fracasso.

A mídia esportiva, os atletas e o espírito de novo-rico da maioria, amadurecerão muito se mergulharem profundamente na potencialidade curativa do choro. Lágrima é palavra abafada que escapa quando a maré dos olhos vaza e derrama pela face proteínas, sais minerais e gordura que lubrificam e limpam os olhos, retiram véus, diminuem a acidez e, na situação desses homens-atletas, resgata a humanidade do filme da vida vivida antes de chegar à riqueza e à fama, que pesa sobre os ombros.

O choro da Seleção Canarinho balança os pilares do machismo mais evidente, tal qual o canto do pássaro pode tocar os corações mais duros. Entretanto, a dor, a humilhação e a angústia deflagrados nas pessoas-alvo do racismo estão longe de comover os corações daqueles brasileiros que se consideram macacos, transbordantes de orgulho e “amor” nos versos cantados na arquibancada.

O capitão da Colômbia foi vaiado ostensivamente depois de ler discurso da FIFA instando todos os fãs de futebol a combaterem a discriminação racial nos campos e fora deles. Em meio aos emissores da vaia não há número significativo de negros e quando a elite branca predominante no estádio é adjetivada, a elite branca de fora (da mídia hegemônica, da indústria das celebridades e do entretenimento, das rodas intelectuais, dos blogues descolados) sente-se incomodada e vai a campo em defesa própria. Não, não somos racistas! Racismo é coisa dos Estados Unidos que os colonizados negros brasileiros querem importar. Quanto às crianças brancas que entram de mãos dadas aos jogadores em todos os jogos da Copa das Copas, é lógico que não temos culpa de serem todas brancas. Aliás, não vemos problema nisso, como não existe problema também de serem brancos os torcedores que enchem os estádios desde a Copa das Confederações.

Por outro lado, a crescente presença de jogadores negros nas seleções da França, Bélgica e Holanda, fortalece a velha máxima de que “o negro é bom de bola” e por isso está quase superando os brancos em seleções tradicionais europeias. Do lado de cá, atentamos para os nomes e sobrenomes desses jogadores, nascidos nas colônias em África e Caribe ou filhos de migrantes africanos e caribenhos e, por contingência, devido a essa contingência gerados nos países brancos. Pobres, majoritariamente, que, como os outros negros diaspóricos e africanos têm no futebol, ao qual dedicam a vida desde crianças, rara possibilidade de ascensão social. Assim se manifesta e se perpetua a versão mais palatável do racismo.

A versão mais dura, tão cotidiana quanto a primeira, manifestou-se após a agressão de Juan Camilo Zúñiga, lateral-direito da Colômbia, ao brasileiro Neymar, levando-o a fraturar uma vértebra. Atitude totalmente condenável e passível de grave punição por prática antidesportiva, num jogo em que o Brasil também bateu muito e o árbitro foi conivente com as agressões que correram a solto pelos dois lados. Em sua defesa, Zúñiga argumentou que o lance infeliz não passou de uma jogada normal e sem intencionalidade de machucar. Sim, “normal” no escopo da violência reinante no jogo, mas não na prática do futebol.

A crítica, a ira e a revolta dos torcedores tupiniquins foram deslocadas da violência praticada por Zúñiga para sua condição de homem negro. Insultos racistas e ameaças de morte foram dirigidos a ele e à mãe nas redes sociais. Xingamentos de ordem sexual foram impingidos à mãe e à filha de dois ou três anos, ameaçada também de estupro. Um show de horror racista, feminicida e pedófilo.

De todo o episódio salvam-se as atitudes exemplares de David Luíz. Alguém disse que ele é bom atleta e bom samaritano. É verdade. Ele está na contramão do evangelho do marketing pessoal. Pratica valores como a humildade, a integridade, o respeito, a compaixão, do modo ensinado pela tradição africana, a pedagogia do exemplo. Em um contexto de negação de aproximações com África, David Luíz reafirma a origem da cabeleira crespa de um homem socialmente branco. Em entrevista à TV colombiana, junto com James Rodriguez, adversário derrotado e amparado por ele, o menino dos cachinhos crespos de ouro, em bom portunhol, explicou que a garotada tem como modelo o cabelo dos jogadores famosos, mas isso não deve bastar aos musos que, por sua vez, devem também procurar se mostrar como homens grandiosos para inspirar os garotos pelos bons exemplos e firmeza de caráter.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

As últimas batalhas da Copa

por Pedro Mox*

Passadas algumas semanas do início da Copa do Mundo, o mundo já sabe quais são as quatro melhores seleções da atualidade. Restam agora duas partidas para Brasil, Argentina, Alemanha e Holanda tentarem mostrar/provar quem manda. Toda a pompa de Copa das Copas justificou-se com inúmeros bons jogos, lances exuberantes, estádios cheios e nem de perto o caos anunciado por alguns às vésperas do evento.

A despeito das boas surpresas e revelações de 2014, às semifinais chegam quatro gigantes do futebol: dentre eles apenas a Holanda não sabe o que é erguer um mundial –fato que pode ser abrandado se levarmos em conta a revolução nos gramados por eles praticada em 1974. A laranja mecânica é atual vice-campeã (sofreu 1-0 da Espanha na prorrogação em 2010) e ocupa 15a posição no ranking da Fifa. Dos onze que iniciaram a partida contra a Costa Rica, o quarteto Kuyt, Sneijder, Robben e Van Persie estiveram na África do Sul. De 1990 para cá os holandeses só não jogaram o mundial de 2002; nessas edições só chegaram à semifinais (além do vice-campeonato de quatro anos atrás) em 1998, quando perderam a decisão do 3o lugar para Croácia por 3-1. Autora de 12 gols, quase metade marcados contra a Espanha (1-5), foi vazada em quatro oportunidades. Só não marcou no 0-0 diante da Costa Rica. Será o quinto embate entre as equipes em mundiais: duas vitórias européias, uma sul-americana e um empate. No jogo mais importante, porém, melhor para os latinos: vitória por 3-1 na decisão de 78.

Seu adversário na semi teve vida mais fácil nas quartas de final. Enquanto Robben e Cia jogaram 120 minutos, mais a tensão das penalidades, a Argentina eliminou a Bélgica com um gol de Higuaín no tempo regulamentar. Mais da metade dos titulares na última partida estavam no mundial de 2010, quando os hermanos foram eliminados nas quartas pela Alemanha com sonoros 4-0. Terão grande desfalque com a lesão de Angel Di Maria, além da provável ausência de Kun Agüero. Entretanto, Messi chegou ao Brasil disposto a mudar a imagem deixada nas outras Copas – e todos sabem do que o atacante criado nas canteras Barcelona é capaz. Atual 7a colocada no ranking da Fifa, somam oito tentos na competição, sofreram três e passaram pelos dois mata-matas com vitórias simples. Na última vez que alcançaram a semifinal, em 1990, ficaram com o vice campeonato – a Alemanha venceu por 1-0. Na última vez que ergueram o caneco, em 1986, Messi tinha um ano de idade, e não deve lembrar dos feitos heróicos de Don Diego. O primeiro veio quando jogaram em casa, 1978, no qual o Brasil foi embora invicto após o fatídico 6-0 dos argentinos contra o Peru.

Algozes dos argentinos na Itália, a Alemanha tem uma boa mescla de juventude e experiência. Dos onze titulares contra a França, apenas dois não estiveram na última Copa do mundo, Hummels e Höwedes. Chegou ao país atrás apenas da Espanha no ranking de seleções. Também protagonizou uma goleada histórica na primeira fase, 4-0 ante Portugal. Marcou 10 gols e sofreu três em solo brasileiro. Klose, com 15 gols, pode ultrapassar Ronaldo e se isolar como maior artilheiro em mundiais. Em 17 participações, carimbaram vaga na semi final 12 vezes – é a equipe que mais jogou esta fase. Nos títulos conquistados, bateu a poderosa Hungria em 54 e a incrível Holanda em 74, além de 90. Nas últimas três edições, perdeu a final para o Brasil na Coréia/Japão em 2002, e foi 3a em 2006 e 2010 – jogando em casa há oito anos, derrotou Portugal por 3-1, com grande festa da torcida.

Sede do mundial, 4o colocado no ranking da Fifa, o Brasil chega à semi com uma campanha irregular. Titubeou em alguns momentos, passou por uma disputa de pênaltis e fez um jogo satisfatório contra a Colômbia. Com uma seleção que majoritariamente brilha em grandes times, campeões por vários clubes europeus, em Copas a experiência é pequena – apenas seis dos 23 convocados sabem o que é disputar uma. Única seleção presente em todas os mundiais realizados, mais vezes campeã, tem a bênção e o fardo de conquistar o hexa em casa. Dos quatro semifinalistas, é o que levantou a taça Fifa a menos tempo: bateu a Alemanha por 2-0 na Copa do Oriente. Sob a batuta do mesmo Felipão, à época com bigodes menos esbranquiçados; que apostou num esquema com três zagueiros, em Ronaldo e Rivaldo vindo de lesão, e bancou a ausência de Romário. Este, inclusive, foi o único encontro entre as duas nações acostumadas a jogarem o mundial. Nossa campanha tem 10 gols marcados e quatro sofridos; uma sofrida disputa de penalidades contra o Chile e um 2-1 contra a Colômbia nas quartas. Para enfrentar a Alemanha, nem estrela do time, nem o capitão: Neymar está fora após sofrer dura falta de Zuñiga e Tiago Silva recebeu o segundo amarelo. Entretanto, o esquete canarinho tem bons suplentes, e um treinador que costuma tirar o melhor de seus homens em situações adversas. Se ainda não convenceu, é uma equipe que tem toda condição de chegar ao Maracanã dia 13.

Com todo respeito às demais seleções, que os deuses do futebol conspirem em nosso favor e, depois de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, que 2014 possa ser o ano em que costuraremos mais uma estrela no peito.

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*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Menos é mais


por Júnia Puglia       ilustração Fernando Vianna*

Ter uma Copa do Mundo no nosso quintal significa, entre muitas outras coisas, que durante a sua realização o tempo de trabalho diminui um bocado. Tirando os dias de feriado, dedicados a ver o Brasil jogar, e aqueles com expediente reduzido, nas cidades onde ocorrem os jogos, as pessoas que gostam de futebol dão um jeito de acompanhar o que está rolando nos estádios, mesmo durante as horas de trabalho. Acho justo, pois a Copa só acontece a cada quatro anos e, vamos combinar, assistir os jogos – qualquer um deles – é muito divertido. Eu mesma não pensei que fosse tanto, mas me confesso contaminada pelo vírus desse esporte emocionante e sedutor. Poderia ser mais, se não tivessem alongado tanto os calções dos jogadores, que viraram bermudas, praticamente emendadas com os meiões, mas pelo menos alguns times estão jogando com camisetas bem agarradinhas.

É de se notar que ainda não tenha aparecido nenhum economista, financista ou administrador com cara de fuinha para calcular quanto o país perde nas horas gastas na frente da televisão. Talvez porque se sintam compensados com os muitos dólares ou euros que a turistada vai deixando por onde passa.

Em outros tempos, e honrando minha ascendência protestante puritana, eu ficava impressionada com essas contas dos feriados, mais ainda dos feriadões, que sempre pioravam bastante o notório mau humor dessa turma. A sexta-feira emendada vai custar ao país milhões de dinheiros pelas horas de folga não planejadas. A segunda-feira enforcada significou uma perda de muitos milhares de dinheiros para a produção. No mês passado, tivemos apenas quinze dias úteis. Até o dia que me veio a pergunta: por que não trabalhar é sempre visto como prejuízo? O ócio é sempre maligno? Descansar, fazer nada, afeta negativamente a tal produtividade? Assim acreditam os formuladores das teorias sobre como encher mais rápido o bolso alheio, ou como transformar a vida dos seus empregados ou subalternos num inferno de pressão e metas desumanas. O mundo do trabalho está enredado na armadilha do fazer muito e exigir ainda mais, para alimentar as engrenagens que inventamos, de moer gente.

Pois eu acredito que estamos precisando trabalhar menos e gastar mais tempo com o que der na telha, inclusive nada. Aposto que a tal produtividade ganharia, e muito, com pessoas mais relaxadas, mais conectadas com as coisas que lhes dão prazer e lhes desafiam a mente de maneira positiva, e não com essa doideira de matar um leão por dia, muitas vezes de forma mecânica, enfadonha e profundamente opressiva. O risco seria a gente querer trabalhar sempre menos. Será?

A melhor chefe que tive na vida era a primeira a sair do escritório no fim da tarde e insistir para que todos saíssemos com ela. Aliás, ela guardava na sua sala um equipamento completo para dormir depois do almoço: colchonete, lençol, máscara para os olhos e travesseiro. E ficava muito contrariada quando era acordada antes de terminar a sua sesta. Éramos uma equipe enxuta, mas muito respeitada, pela capacidade de responder a desafios consideráveis, sempre de cara boa e zero preocupação com os detalhes da matriz de resultados.

Inesquecível é também a história que li, nas memórias de Jorge Amado, sobre o cara que fabricava móveis artesanais em algum lugarejo por aí. Alguém chegou e perguntou quanto custava determinada cadeira. Ele deu o preço e a pessoa então quis saber quanto ele cobraria para fabricar oito cadeiras iguais. Ele deu uma quantia que era bem maior que a soma dos valores unitários. A pessoa argumentou, indignada: mas isto é mais do que o preço das oito somadas, quando deveria ser menos. Ao que ele retrucou: menos? De jeito nenhum. Fazer oito iguais é aborrecido bem muito.

Em tempo: essa Copa do Mundo está boa demais. Podia ter todo ano, né?

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Ele eminhocado

1964 + 50 
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

 (Episódio 12)


por Fernanda Pompeu  ilustração Fernando Carvall

Março de 2010
A matéria soava fácil por conta dos fatos inequívocos, registrados por celulares e câmeras de TV. O governador paulista, José Serra, não impediu que a tropa de choque baixasse a borracha numa manifestação de professores. Educadores apanhando, em frente à sede do governo, era notícia quente e grave. Mas Ele, o redator, titubeava. Não conseguia escrever direito. Culpar um governador? Ele suava. No dia seguinte, sua matéria saiu em espaço nobre da publicação. Mas veio com frases mornas num texto molengamente burocrático.

Dezembro de 1976
O acaso o colocou na Rua Pio XI, no paulistano bairro da Lapa. Recém-admitido em um grande jornal, Ele nunca passava por essa rua para chegar no emprego. Mas nesse dia, optou por variar a paisagem. Estava curtindo a quietude das 7 horas da manhã, quando seu cérebro deu uma parada ao ouvir o berro de fuzis.

Então Ele vê a casa de número 767 sendo atacada. Porta, janelas, basculantes e até pedaços do reboco do teto tremem sob o impacto da fuzilaria. Há grande quantidade de militares e policiais. Seu cérebro volta a trabalhar, Ele se protege atrás de um carro e espera que o matraquear cesse. A coisa toda dura mais de vinte minutos.

Depois vem o silêncio. Parecido com o pesado silêncio que desce nos minutos seguintes às cerimônias dos enterros e cremações. Aquela espécie de nada a dizer, nada a acrescentar. Agora, em frente à casa atacada se forma uma confusão de policiais à paisana, militares a rigor, vizinhos e curiosos. O tal instinto de repórter aparece nele. Furtivo e corajoso ao mesmo tempo, Ele consegue entrar na casa. Vê dois corpos mutilados pelos balaços. Também vê uma mulher ferida.

Hora depois, já na redação do jornal, Ele fica sabendo que os mortos eram os dirigentes do PCdoB Ângelo Arroyo e Pedro Pomar. A mulher feriada era a militante Maria Trindade, encarregada das tarefas domésticas da casa. Essa informação chegou em uma nota oficial emitida pelo II Exército, assinada pelo general Dilermando Gomes Monteiro. O texto afirmava que os policiais, ao darem voz de prisão, foram recebidos à bala.

Ele correu ao editor para contestar a versão oficial. Pois havia visto o ataque e os corpos sem nenhuma arma em volta. Sabia que Arroyo e Pomar morreram sem chance alguma de reação. O editor o proibiu de escrever qualquer matéria a respeito. Desmentir os militares seria loucura. Saiu-se com um provérbio de efeito: "Molhar o leão é fácil, enxugá-lo é que são elas."

Julho de 2014
Ele está em casa assistindo aos jogos da Copa do Mundo. Não tem pressa alguma em fazer nada. Faz tempo que deixou de ser um jornalista de papel. Hoje é colaborador em um portal digital de notícias. Escreve sobre qualquer assunto, excetuando Política e História. Da primeira, quer distância amazônica. Da segunda, mantém um difuso sentimento de culpa. Naquela manhã de 1976, na Lapa, ele testemunhou a verdade e não pôde escrever sobre ela.

É claro que depois da Ditadura, outros escreveram. Mas ter perdido aquele furo, matou o repórter que havia nele.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

terça-feira, 1 de julho de 2014

A ideologia do fracasso

por Celso Vicenzi

Manchete da Folha de São Paulo de domingo, dia 29 de junho, após a vitória brasileira nos pênaltis contra o Chile: “Júlio César e trave salvam Brasil de vexame em casa”.

Há muito tempo – mas cada vez mais – os maiores veículos de comunicação do país têm feito escolhas editoriais que procuram menosprezar os avanços sociais e criar um sentimento de derrota, em todas as áreas. Tentaram de tudo para transformar a Copa do Mundo num pesadelo nacional e não pouparam más notícias. Algumas catastróficas (caos aéreo, imobilidade urbana, violência etc).

A Copa não foi um primor de organização, mas está longe de comprometer o espetáculo. Pelo contrário: os estádios estão cheios, os turistas e torcedores – exceções à parte – só têm elogios para o clima de alegria e fraternidade. Os imprevistos são aqueles comuns a qualquer grande evento em qualquer lugar do mundo. Os gastos com estádios, que pareciam fora da realidade, revelaram-se bem menos exorbitantes do que a imprensa tentou incutir entre os brasileiros. Segundo a própria Folha, o equivalente a uma semana do que se investe em educação no país. E parte do dinheiro investido é empréstimo e retornará aos cofres públicos. Quase nenhuma reportagem abordou as vantagens de sediar a Copa, os empregos gerados, os investimentos realizados na infraestrutura, que irão permanecer. E mais do que tudo: quanto vale uma imagem positiva do país, como esta que parece que os turistas e as seleções que aqui estiveram estão levando a seus países? Quanto vale ser o centro da atenção do mundo por 30 dias? Quanto vale mexer com a autoestima de um país? E, aqui, não me refiro ao desempenho da seleção, mas à alegria de receber elogios à nossa hospitalidade, às belezas do país, às virtudes de nosso povo.

Vale muito. E é por isso que a Folha – aqui apenas como exemplo, pois representa o pensamento de boa parte da nossa mídia – exagera e tenta criar na população brasileira, em contraponto à autoestima que vive neste momento, um clima de menosprezo ao seu país. Perder um jogo, ainda mais em Copa do Mundo, desde que não seja por um placar elástico, nunca foi nem nunca será um vexame. Temos a mania de achar que, sobretudo no futebol, qualquer adversário é fácil de ser batido. Mais do que isso: não basta vencer, é preciso dar show, é preciso dar olé. Nas derrotas, dificilmente o brasileiro reconhece as qualidades do time adversário, preferindo encontrar culpados: o treinador, o goleiro, um ou mais jogadores. Nesta Copa, o último campeão – a Espanha – não passou da primeira fase e foi fragorosamente derrotado por 5 a 1 na estreia. Depois de vencer a Copa de 1998, no mundial seguinte, a França também não passou da primeira fase, perdendo dois jogos e empatando um. Saiu do mundial sem ter feito um único gol. Imaginem se fosse o Brasil!

A seleção brasileira não tem a obrigação de vencer a Copa porque joga em casa. É apenas um dos favoritos. Das 19 Copas já realizadas, em apenas seis o campeão foi o país sede: Uruguai em 1930, Itália em 1934, Inglaterra em 1966, Alemanha Ocidental em 1974, Argentina em 1978 e França em 1998. Ou seja, ganhar em casa é exceção. A disseminação do espírito “vira-lata”, como bem o definiu o escritor Nelson Rodrigues, do país que nunca faz nada certo, o exagerado endeusamento de outros países, resquícios de uma nação que foi colonizada, tudo isso ganha amplitude em boa parte da mídia brasileira. A crítica é fundamental, mas a manipulação de fatos com interesses políticos e econômicos torna-se evidente, em milhares de exemplos no cotidiano de boa parte de nossas emissoras de rádio e TV, revistas e jornais – agora também em portais mantidos pelos principais veículos de comunicação.

Temos grandes problemas a resolver no país, entre eles a necessidade de democratizar os meios de comunicação – o que tendenciosamente a mídia traduz por censura, omitindo que vários países democráticos impedem tamanha concentração da propriedade dos meios de comunicação e impõem regras que levam em consideração muito mais o interesse da população do que o dos donos desses veículos.

A ideologia do fracasso, do “vira-latismo” – já quase uma ciência! – gera na população a falsa ideia de que tudo de pior que acontece no mundo ocorre com mais intensidade no Brasil. No entanto, não somos o país mais corrupto, embora sejamos um dos mais desiguais. Segundo a ONG Transparência Internacional, o Brasil ocupa a 72ª posição entre 177 países. Apesar de ser a sétima economia do planeta, é o 12º com maior desigualdade – o quarto na América Latina. E quando se instituem programas como o Bolsa Família, elogiado pela ONU como exemplo no combate à miséria, a desinformação e a omissão da mídia levam boa parte da população a considerá-lo apenas um programa eleitoreiro ou um gasto desnecessário e sem resultado.

Embora não se diga, setores poderosos da economia e da política brasileira, da nossa elite, têm muito a ganhar com a corrupção. A honestidade tem um custo que nem todos estão dispostos a pagar. Gostamos de alardear a meritocracia num país que se notabiliza pelo apadrinhamento das relações, já amplamente estudado por vários sociólogos e intelectuais.

Por vias tortas, o Brasil vive um momento peculiar da sua história, marcada até aqui principalmente por um passado colonialista, escravocrata e ditatorial. Vivemos o mais longo período democrático e estamos aprendendo a enxergar o que de fato impede a criação de um país mais justo e com melhor qualidade de vida. Durante séculos, tentaram culpar o povo – miscigenado, analfabeto, ignorante, malandro – pelo “atraso”. Hoje, está mais claro que nos falta uma elite disposta a empoderar o povo, libertá-lo da opressão e da exclusão em que vive, derrubar privilégios entre os mais ricos e dividir a riqueza para que alcancemos o desejado patamar de um país com mais justiça social, melhores serviços públicos, mais qualidade de vida e menos violência (sem esquecer que a desigualdade social é a maior de todas as violências). Contra a ideologia do fracasso, das frases feitas do tipo “aqui nada dá certo”, “o Brasil é assim mesmo”, “o governo não faz nada”, “o brasileiro não trabalha”, “o povo não sabe votar” e outros chavões, há que se disseminar um sentimento de construção, de valorização do que temos de melhor, de crítica ao que precisamos mudar, mas, sobretudo, de responsabilidade pelo país que somos.

Sem ufanismo, mas também sem catastrofismo. Para isso, ajuda muito um bom jornalismo.

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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.
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