A evolução do homem não está associada, necessariamente, aos seus feitos de inovação tecnológica ou de ordem industrial. Muito menos com a produção do capital. Esses são uma consequência da nossa capacidade de usar a linguagem articulada, observar, pensar, entender e criar - para o bem ou para o mal.
Na tecnologia, por exemplo, temos um leque de produtos que facilitam tarefas cotidianas e que encurtam o tempo de espera e execução. A comunicação interpessoal é das mais emblemáticas dessas evoluções ao longo das décadas passadas.
O telefone celular, surgido nos anos de 1970 nos EUA, é um apêndice dessa comunicação e ganhou tamanha importância nas sociedades que virou parte integrante do corpo humano; uma extensão, algo como um terceiro braço, um terceiro olho. Esquecer esse “membro” ou não ter um é sinônimo de preocupação para quem usa ou atraso tecnológico para quem não o tem.
É como se naquele exato dia em que ele está inutilizado na prateleira alguém vai te ligar ou mandar o SMS, MMS, BBM, e-mail que mudará o rumo dos acontecimentos. E não é assim, sabemos bem. Existe um apego exagerado, como em tantas outras engenhocas materiais.
A dificuldade, eu diria, é justamente ver a vida além dessas bugigangas. E os celulares - e num futuro muito breve os tablets - são um exército de bilhões. São tantos quanto a população mundial. Para ser mais específico, neste ano, projeções indicam 7 bilhões de pessoas no mundo ante 5,1 bilhões de aparelhos celulares. Tivessem vida inteligente, dominariam o mundo como na trilogia Matrix - em que as regras são ditadas por máquinas.
A pergunta diante dessa população de aparelhos que habitam nossos bolsos, bolsas, mãos e orelhas é: por conta deles é que não olhamos mais para o céu? Não só, é claro. Da autocrítica que cabe a tantos outros como eu - sem tirar o fato de que a verticalização das cidades nos tirou o horizonte - o celular é mais um vilão que nos inibe de olhar em outra direção que não a da tela do aparelho.
O vilão maior, por falta de outro adjetivo mais adequado, somos nós. Nós que andamos enferrujados e atrofiados cada vez mais com o uso excessivo dessas tecnologias. À essa causa - cidadãos hiperconectados - o efeito é tempo menor de descanso, mais trabalho e pouca interação real. O andar cabisbaixo sempre vidrado na telinha de algumas polegadas e a imagem do cidadão teclando furiosamente no alfabeto de siglas é o puro desperdício do olhar.
Nos espaços públicos repare (caso não esteja com o mobile em ação) no movimento de massa conectado. É cada vez mais comum pessoas interagindo com o celular em vez de conversar com o amigo, esposa ou filho que o acompanha. Ali, bem na sua frente, e você, alucinando em algum buraco virtual. Goethe escreveu certa vez. “Se o olho não fosse ensolarado, não poderia avistar o sol”.
A beleza de olhar a que se refere o escritor alemão, de reparar os detalhes, expressões, hábitos e costumes é mesmo saboroso e fundamental. Não perder a capacidade de observar é um desafio que se impõe. Nossos ancestrais mais próximos na evolução, os macacos, praticam a observação com vigor e dedicação. Como eles, como sugestão, vamos equilibrar nosso pescoço em outras direções?
O amigo Caco Bressane, ilustrador desse texto combinado sob a ótica da minha pseudorreflexão desconexa sintetiza o propósito. Afinal de contas, o mesmo Goethe observou que “para compreender que o céu é azul por toda a parte não é preciso dar a volta ao mundo.”
Thiago Domenici é jornalista e um cidadão hiperconectado. Caco Bressane é arquiteto e ilustrador.
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
segunda-feira, 6 de junho de 2011
domingo, 5 de junho de 2011
SlutWalk SP: um grito diversificado contra o machismo
Cartazes com frases como: “Respeito é sexy, machismo brocha” e “Sou mulher, não sex toy” eram carregados entre a cantoria e a batucada. Muita gente fotografando, filmando, registrando. Por onde passava a marcha, era possível notar olhares curiosos de pedestres, comerciantes e moradores da região.
Jovens, velh@s, homens, mulheres. Homem vestido de mulher, mulher com adesivo “periguete”, mulheres com roupas “provocantes”, mulheres com roupas mais “discretas” e protegidas do frio, ou até mesmo quase sem roupa andavam junt@s.
| Mulher diz não é "pedaço de carne" |
A Marcha, que tinha como principal objetivo questionar a ideia de que vítimas de violência sexual tem culpa por serem violentadas, começou na av. Paulista e desceu a rua Augusta até a porta do clube de comédia dos CQCs Rafinha Bastos e Danilo Gentili.
“Machismo mata,
estupro não é piada”
| Rumo ao Comedians, na rua Augusta. |
“A nossa luta é todo dia, somos mulheres e não mercadoria”, “Preste atenção, o corpo é meu, a minha roupa não é problema seu”, cantavam @s manifestantes, que, ao chegarem na porta do Comedians, emendaram “Me processa, Tas”, em referência à ameaça de processo que o apresentador Marcelo Tas fez a blogueira feminista Lola.
| Ponto final: cartazes em protesto |
Um dos policiais que fazia a escolta ficou curioso como os comentários e cartazes que criticavam Rafinha Bastos e perguntou “qual deles é o Rafinha”. Depois quis saber qual tinha sido a piada. Quando contei, fez uma cara de indignação e afirmou com firmeza “Vocês têm razão”.
Já começaram a ser organizadas mais Marchas em outras cidades, como Brasília e Belo Horizonte.
Natalia Mendes é jornalista
(Imagens/Vídeo de Thiago Domenici/Natalia Mendes)
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Será que sou uma vadia?
Com toda essa história da SlutWalk, surgiram muitos questionamentos. Eu gostei da ideia de cara, nem tinha passado pela minha cabeça que não era um baita movimento legal. Mas, claro, não foi assim com todo mundo.
Li textos com dúvidas importantes e outros que tiveram uma boa repercussão, mas que discordo de alguns pontos. E li por aí mulheres dizendo que não sabiam se queriam ir na marcha porque “não são vadias”.
Isso tudo me levou a uma pergunta: mas, afinal, o que é ser uma vadia? Quem determina isso? Se uma mulher dá pra um número X de caras em X tempo, ok. Mas se ela dá pra um número Y em Y tempo, ah, é vadia, certeza! Se ela usa uma saia três dedos acima do joelho, ok, mas cinco dedos acima do joelho, imperdoável, "sua promíscua!". Essa ideia de vadia é muito subjetiva. Quem decide qual o limite para ser uma mulher “livre” ou uma “vagabunda”? Claro que quando alguém fala em alguma situação específica “aquela puta” entendo o que a pessoa quer dizer. Talvez não concorde, não ache “aquela mina uma puta”. Aí é que está a questão.
Imagino que tenha gente que me ache vadia por não ser mais virgem há um bom tempo sem nunca ter sido casada. Não vou sofrer com isso, por mais que adore passar uma “boa impressão”.
Vim de uma família que valoriza a mulher, que segue princípios feministas e tem atitudes feministas. Mas sempre fui ensinada a “não ser uma vadia”, a “me valorizar”, pois se usasse um determinado tipo de roupa não iriam me respeitar, se me relacionasse com determinado tipo de homem, não me levariam a sério e nunca conseguiria um parceiro/namorado “legal”.
| Amanhã, 14h, avenida Paulista, a “Marcha das Vadias” |
Mas e se eu quiser dar (porque vadia não transa, nem faz amor, só dá por aí) pra um número Y de caras? Eu vou ser uma pessoa pior por isso? Isso significa que eu não tenho o direito de dizer não prum cara? Tenho que aceitar qualquer um que queira me comer?
A marcha é pela direito de escolha. Pelo controle do seu próprio corpo. Pelo direito de ser “vadia”, de ser “santa”, de ser humano, sem violência. E essa é uma causa de mulheres e de homens.
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A pirâmide do capitalismo
Na tradução, a partir do topo da pirâmide: 1- Lucro / 2- Nós governamos você / 3- Nós fazemos você de bobo/ 4- Nós matamos você / 5- Nós comemos por você / 6- Nós trabalhamos para todos e nós alimentamos todos. Eis a pirâmide do capitalismo: você concorda?
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Projeto Biblioteca de Ritmos (em risco de extinção)
Assim como animais, plantas e grupos étnicos, as manifestações culturais também correm o risco de extinguir-se. Foi pensando nisso que o músico Daniel Gonzaga (com a ajuda do produtor Rodrigo Rezende e do técnico de som Thiago Frazão) idealizou a Biblioteca de Ritmos, projeto que objetiva rodar o Brasil para catalogar ritmos musicais ameaçados de sumirem.
“A ideia é estudar essas células rítmicas e fusões até chegar ao ritmo que conhecemos hoje. O objetivo é catalogar esses ritmos que correm o risco de desaparecer com a morte de seus mestres”, explica o músico.
- Leia entrevista com Daniel Gonzaga "Não sou o cover do meu pai".
A Cana Verde, a Xiba, o Lundú Marajoara, o Samba, o Fandango e O Ponteio de Viola são alguns desses ritmos que serão registrados (e preservados) pelo projeto. Em breve o site da Biblioteca de Ritmos estará no ar. Por ora, é possível ter uma ideia do trabalho nesses vídeos postados no Youtube.
SAMBA
FANDANGO
JONGO
A Biblioteca de Ritmos tem patrocínio da Eletrobrás/Furnas por meio da Lei Rounet.
Ricardo Viel é jornalista, colunista do Nota de Rodapé
- Leia entrevista com Daniel Gonzaga "Não sou o cover do meu pai".
A Cana Verde, a Xiba, o Lundú Marajoara, o Samba, o Fandango e O Ponteio de Viola são alguns desses ritmos que serão registrados (e preservados) pelo projeto. Em breve o site da Biblioteca de Ritmos estará no ar. Por ora, é possível ter uma ideia do trabalho nesses vídeos postados no Youtube.
SAMBA
FANDANGO
JONGO
A Biblioteca de Ritmos tem patrocínio da Eletrobrás/Furnas por meio da Lei Rounet.
Ricardo Viel é jornalista, colunista do Nota de Rodapé
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