Tenho um sonho, bobo, talvez um pouco utópico, mas é um sonho.
Daqui a umas quantas décadas, em uma cidade milhares de quilômetros distante da minha, alguém se reunirá com seus filhos e amigos e lhes contará que sente falta de um amigo que lhe ensinou que há uma palavra linda em português, palavra que não tem tradução ao espanhol.
Esse alguém, que pode ser homem ou mulher, vai lhes contar que certa vez conheceu a esse brasileiro e que se fizeram amigos e que desta amizade restaram boas recordações e um pouquinho de dor – não só pela falta do outro, mas pela impossibilidade de se voltar àquele tempo.
Essa pena, explicará, é a saudade.
E todos os presentes a repetirão, já com uma pontada no coração, e pensarão (ou dirão em voz baixa): “Que palavra tão bonita”.
E essas pessoas, tempo depois, reunidas um dia com seus seres queridos, lhes contarão que há uma palavra em português, tão linda, que exprime uma sensação de dor, de ausência e de fortuna pelas lembranças. Uma palavra intraduzível: saudade.
E assim ela se propagará e será dita por pessoas que nunca conheceram aquele brasileiro, que talvez nem saibam nenhuma outra palavra em português, só a mais bonita de todas elas: saudade.
Se isso se realizar, esse será o meu legado. Humilde, pequeno, mas será meu, o meu legado.
Ricardo Viel, jornalista e colunista do NR e do Purgatório
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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
domingo, 6 de novembro de 2011
sábado, 5 de novembro de 2011
"Conduta descontrolada”
A colunista do NR, Andrea Dip, fez em maio de 2010 um reportagem ótima para a revista Retrato do Brasil sobre os crimes de maio de 2006, quando a políciade São Paulo pesou a mão contra civis inocentes após os ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital).
Relembro essa história porque, na sexta-feira, o governo de São Paulo foi condenado a pagar R$ 165,5 mil à mãe de José da Silva Santos morto a tiros durante operações de repressão policial.
O Tribunal de Justiça de São Paulo qualificou como "Conduta descontrolada” a atuação policial. Segundo o portal UOL: “A 7ª Câmara de Direito Público entendeu que a reação das forças policiais foi 'atabalhoada' e que provocou a morte de civis inocentes”.
Para o desembargador Magalhães Coelho, relator do processo, a reação do Estado foi “desconexa, violenta e indiscriminada” e vitimou, sobretudo, “os pobres e desvalidos”. A decisão é inédita. E, enfim, reconhece os excessos do Estado no período, um dos mais sangrentos da história recente do país.
Além da reportagem da Andrea, disponível no site dela em PDF, também a ONG Justiça Global, que trata de casos de direitos humanos, fez relatório a respeito, intitulado “São Paulo Sob Achaque: Corrupção, Crime Organizado e Violência Institucional em Maio de 2006”.
Relembro essa história porque, na sexta-feira, o governo de São Paulo foi condenado a pagar R$ 165,5 mil à mãe de José da Silva Santos morto a tiros durante operações de repressão policial.
O Tribunal de Justiça de São Paulo qualificou como "Conduta descontrolada” a atuação policial. Segundo o portal UOL: “A 7ª Câmara de Direito Público entendeu que a reação das forças policiais foi 'atabalhoada' e que provocou a morte de civis inocentes”.
Para o desembargador Magalhães Coelho, relator do processo, a reação do Estado foi “desconexa, violenta e indiscriminada” e vitimou, sobretudo, “os pobres e desvalidos”. A decisão é inédita. E, enfim, reconhece os excessos do Estado no período, um dos mais sangrentos da história recente do país.
Além da reportagem da Andrea, disponível no site dela em PDF, também a ONG Justiça Global, que trata de casos de direitos humanos, fez relatório a respeito, intitulado “São Paulo Sob Achaque: Corrupção, Crime Organizado e Violência Institucional em Maio de 2006”.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
A história por traz do objeto é o que vale para você?
Paul Bloom, professor de psicologia da universidade de Yale, nos EUA, fez uma palestra no TED – que volta e meia o NR indica – sobre as origens do prazer.
Segundo sua tese, “nós não reagimos às coisas ao vê-las, sentí-las ou ouví-las”. Ao contrário, “nossas reações estão condicionadas as nossas crenças. O que são? De onde vieram? Do que são feitas e quem fez?”.
Algo que ele chama de humanos “essencialistas naturais”. Por que nós gostamos mais de uma pintura original do que de uma falsificação? Em suma, a palestra foca em algo comum o dia a dia: a história de um objeto muda a nossa experiência com ele?
Joshua Bell, um famoso violinista tocou por 45 minutos num metrô de Nova York e ganhou poucos trocados, foi, segundo consta, praticamente ignorado. A questão é que disfarçado, ninguém que passou por ele sabia quem ele era. Mas sua famosa música estava ali, sendo tocada num violino Stradivarius de 1713 avaliado em 3,5 milhões de dólares. Se soubessem, mudaria algo?
Se o vinho é caro é melhor? Aos olhos de uma criança, se uma cenoura fosse vendida no McDonals poderia ser mais gostosa? Um chiclete comum mascado por Britney Spears ou um taco de golfe usado por um ex-presidente americado vale milhares de dólares pela experiência agregada? Sim, diz Blomm. E isso vale para o prazer e também para a dor.
Segundo sua tese, “nós não reagimos às coisas ao vê-las, sentí-las ou ouví-las”. Ao contrário, “nossas reações estão condicionadas as nossas crenças. O que são? De onde vieram? Do que são feitas e quem fez?”.
Algo que ele chama de humanos “essencialistas naturais”. Por que nós gostamos mais de uma pintura original do que de uma falsificação? Em suma, a palestra foca em algo comum o dia a dia: a história de um objeto muda a nossa experiência com ele?
Joshua Bell, um famoso violinista tocou por 45 minutos num metrô de Nova York e ganhou poucos trocados, foi, segundo consta, praticamente ignorado. A questão é que disfarçado, ninguém que passou por ele sabia quem ele era. Mas sua famosa música estava ali, sendo tocada num violino Stradivarius de 1713 avaliado em 3,5 milhões de dólares. Se soubessem, mudaria algo?
Se o vinho é caro é melhor? Aos olhos de uma criança, se uma cenoura fosse vendida no McDonals poderia ser mais gostosa? Um chiclete comum mascado por Britney Spears ou um taco de golfe usado por um ex-presidente americado vale milhares de dólares pela experiência agregada? Sim, diz Blomm. E isso vale para o prazer e também para a dor.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Cruz Credo!
No mar quase infinito de imagens, algumas de tão vistas viram marcas nas nossas mentes. Uma espécie de segunda pele. O sorriso da Monalisa, o bigodinho de Hitler, o cogumelo de Hiroshima, os aviões atravessando as Torres Gêmeas, o gol do uruguaio Alcides Ghiggia na final da Copa de 1950. Mesmo os que estavam longe de encarnar, já viram o pé, o chute; a bola estufando a rede, o goleiro Barbosa curvando-se. Ouviram o Maracanã silenciar incrédulo e chorar crédulo. Em Sampa, o imperdível Museu do Futebol tem uma sala exclusiva para passar o filme dessa derrota. Assustador. A sala parece uma morgue.
Como o Brasil precisava apenas empatar, a euforia era tremenda. Governo, imprensa, população embarcaram na canoinha furada de cantar a vitória antes dela mesma. O roteiro do jogo é conhecido: o brasileiro Friaça abriu o placar. Schiaffino empatou para a Celeste. Aos 34 minutos do segundo tempo, Ghiggia liquidou o riso. Uruguai 2 x Brasil 1.
O Maracanã, erguido especialmente para Copa de 50, sendo na época o maior do mundo, tremeu. Não de alegria. Tremelicou de decepção. Meu pai, então com 20 anos, estava lá. Tornou-se, junto com mais de 190 mil pessoas, testemunha ocular e sonora do pior desastre futebolístico do país.
Naturalmente, os uruguaios deliraram. Apelidaram o acontecido de Maracanazo e jamais esqueceram o 16 de julho em que, contra todos os prognósticos, se tornaram bicampeões do mundo. Pouco importa que depois não tenham repetido o feito. No país vizinho, a história dessa vitória é repetida de pais para filhos. Toda vez que as duas seleções duelam, a palavra Maracanazo é evocada como um mantra.
Mas tudo isso é passado, água rolada, ponte derrubada, fósforo queimado. O que significa dizer, aquilo que não é possível mudar. Aquilo que só pode ser contado e contado. Melhor é focar no futuro. O novo, o bem-feito, o brilhante. Futuro que só pode ser imaginado e imaginado.
No caso do futebol, o futuro é a Copa de 2014. Até lá, o Brasil tem uma caprichosa lição de casa: construir os novos estádios, melhorar a infra dos aeroportos e estradas, resolver a equação do trânsito, aparelhar a rede hoteleira, ficar de olho na segurança, concluir a reforma do Maracanã. Este mais uma vez será a arena da grande final.
Porém não é o bastante. Precisa muito além de cimento, argamassa, ferro. Precisa de uma seleção que nos faça sonhar. Para disputar a Final, ela terá que melhorar muitíssimo seu presente. Pois até agora o que vimos é um time sem jogadas, sem ímpeto, sem inspiração. E, principalmente, sem gols!
Já a Celeste traz a memória fresca do quarto lugar na última Copa do Mundo, a taça da Copa América 2011, e anda liderando as eliminatórias sul-americanas. Tremam corações ao imaginar o Uruguai levantando o caneco no mesmo Maracanã, com o detalhe de 64 anos depois.
Segurem-se corações ao imaginar os netos, bisnetos e até tataranetos, daqueles que choraram em 1950, chorando novamente. Ao imaginar os netos, bisnetos e até tataranetos, dos que festejaram em 1950, refestejando um Maracanazo 2.
Fernanda Pompeu, escritora e redatora freelancer,colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto.
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