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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Fim das contas

por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Para que tanto investimento na prolongação da vida, se ninguém quer ficar velho? É só uma provocação... Graças aos avanços na ciência e no conhecimento sobre como funcionam nossos corpos e mentes, estamos vivendo um momento de grande virada na perspectiva de tempo que nos cabe viver. E me parece justo querermos ser velhinhos saudáveis, lúcidos e lépidos, capazes de aproveitar tudo que a vida pode oferecer até o momento final – porque este vai chegar mesmo, não tem jeito. A questão é que envelhecer tem um preço, frequentemente alto, como tenho observado, pois continua sendo impossível determinar o futuro, em qualquer etapa da vida.

Bem, mas no ponto em que me encontro, da maturidade, ou da meia-idade, como já quase nem se diz, posso olhar pra trás com uma distância que me coloca a infância e a juventude em perspectiva. À parte o espelho, que, como sabemos, insiste em refletir o que ele mesmo decide sobre a nossa aparência e os nossos corpos, esse distanciamento me conta coisas muito interessantes. A primeira e mais importante delas, que me parece um consenso entre cinquentões, é que eu teria me poupado muita ansiedade e energia emocional se, aos vinte e cinco anos, tivesse podido desfrutar da serenidade e da ironia de agora. Ficamos todos querendo, né, inclusive porque a outra coisa que vem com o tempo é a constatação de que cada momento vivido teve a sua função naquilo que somos hoje.

As contas que fazíamos são outro dado importante. Lembra quando gastávamos horas de sono calculando quantos centímetros de afeto havíamos recebido em troca dos metros oferecidos? Ou quando tínhamos a expectativa de receber quarenta quilos de atenção da família e só entregavam quinze? Ou nos sentíamos em falta com alguém por não suportar mais do que dez minutos ouvindo sua conversa, quando a pessoa havia nos aturado horas a fio contando as peripécias das férias? Ou quando esperávamos afagos e reverências em troca do investimento material e afetivo em alguém? Ou quando contávamos as horas de espera por um encontro amoroso, para depois mandar a fatura? E como nos achávamos maravilhosos quando as contas eram positivas a nosso favor? E como doía cada vez que constatávamos prejuízo na contabilidade?

Quanto a mim, acabou, já deu. Zerei a planilha da contabilidade afetiva, por desistência de lidar com esses cálculos chatos, difíceis, sofridos e inúteis, que não dependem só de mim e me consumiam uma energia preciosa. Tudo o que entra passa a ser lucro. E não porque eu seja uma flor de pessoa, mas porque quero me poupar aborrecimentos. Quem sabe assim, se eu chegar a ficar velhinha – saudável, lúcida e lépida, por favor! –, possa rir demais e lamentar de menos.

* * * * * *

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

4 comentários:

Anônimo disse...

GENTE MADURA PENSA ASSIM MESMO.Parabéns pela clareza e discernimento com que apresentou o problema da velhice, fase da vida para a qual inventaram o horrível adjetivo de "terceira idade". Que horror !!!! Será que não há forma mais carihnosa de se "apelidar" os pós-sessenta ?
Apesar de já ter passado pela terceira, quarta e acho que quinta idades , com a lucidez com que o Senhor tem me conservado, posso sentir, eu mesma o efeito do passar do tempo. Se me fosse dado o privilégio de voltar
no tempo, ah!!!!!!! como seria bom ter cinquenta anos com a experiência de hoje.!!!!
Aceita um conselho ? Não fique velho(a). Continue curtindo os dias com a garra possível, enfrentando as chatices da idade..
Beijos da
Mummy Dircim


Anônimo disse...

Que abordagem leve, divertida, animadora, atė, dessa coisa braba que ė a velhice. Taí, enquanto lia seu texto, me esqueci dela. Bjs Terê

Anônimo disse...

Uma delicia!
Liane

leila disse...

como sempre amei mais este texto que só consegui ler hoje, domingo!

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