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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O professor

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 14)

por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Não havia nenhuma chance de um mal-entendido quanto ao local e horário. No 31 de outubro de 1975, toda São Paulo estava sabendo que na Catedral da Sé, o católico Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor James Wrigth celebrariam uma missa em memória do jornalista Vladimir Herzog. Na verdade, o ato era bem mais. Estar na Praça da Sé naquele cair de tarde significava afrontar a ditadura militar.

A garota, com exatos 20 anos, sabia de tudo isso. E também esperava que ele, o professor, também soubesse. Na verdade eles estavam tendo um namorico. Se nos dias de Facebook fosse, diríamos que eles ficavam. Mas na década de 1970 ninguém falava assim. Ele era professor de História, dos melhores. Ela andava mais interessada na História do que nele, mas isso ela concluiu tempos depois, ao cavoucar as cinzas da memória.

Dentro da Catedral, ouvia-se um desagravo em nome de Herzog. Menos de uma semana antes, o jornalista da TV Cultura foi morto sob tortura no Doi-Codi da rua Tutoia - uma seção do inferno no bairro do Paraíso. Seus algozes tentaram vender a versão de que o preso havia se suicidado dentro da cela. Só que ninguém acreditou.

Onze anos depois dos militares terem roubado o poder em nome de um Brasil mais seguro, ordeiro, ovelha, muita gente já estava de saco cheio. Pelas promessas não cumpridas e pela violência contra os opositores. Violência tão desproporcional quando é - hoje, 2014 - a do exército de Israel contra os civis da Faixa de Gaza.

Antes de Vladimir Herzog, vários haviam sido torturados. Entre eles se somavam os mortos e desparecidos. Em razão disso, perto de oito mil pessoas se concentravam na Catedral e na Praça da Sé. No meio deles, ela. Com um olho na História e outro no relógio.

A aluna marcara o encontro com o professor em torno do Marco Zero - bem no centro da praça. Ele garantiu que compareceria, pois o país não podia seguir do jeito que estava. Mesmo quando a missa terminou, quando as pessoas começaram a ir embora, ela ainda esperou. Mas ele não apareceu.

No dia seguinte se encontraram na sala de aula. Lá estava o professor falando da Revolução Russa, entusiasmado com os bolcheviques e suas ações. Ele sorriu várias vezes para ela. Ela retribuiu com um olhar triste. Estava decepcionada. De alguma forma, a garota pressentia que o namorico dos dois tinha terminado.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Não se pode deixar de ver

por Celso Vicenzi*

As imagens que chegam da Faixa de Gaza, bombardeada por Israel, com muitas vítimas entre crianças, mulheres e idosos, circulam como um grito impotente pelas redes sociais. Impossível manter-se impassível diante do uso desproporcional da força por parte do governo israelense. Tenho feito circular artigos e reportagens que falam dos abusos que ali são cometidos. Evito publicar imagens, mas compartilhei uma delas, recentemente, com várias crianças palestinas mortas, amontoadas, porque são o retrato cruel de como o terrorismo de estado pouco se diferencia do terrorismo de grupos que usam a população civil como alvo. Sob o pretexto de buscar alvos militares, contam-se às centenas os “efeitos colaterais” que vitimam pessoas inocentes.

Tão logo publiquei a foto, surgiu um debate sobre o que é ou não “sensacionalismo”. A cena é forte, sim, mas há situações que não podemos deixar de ver. Mais que isso: temos a obrigação de olhar, com muita dor e indignação. Afinal, quantos civis ainda precisam ser mortos – e já são mais de mil, além de milhares de feridos – para configurar um massacre? Os álibis do governo israelense e de seus apoiadores são insustentáveis, embora a mídia de vários países ocidentais – o Brasil não é exceção – não cansa de tentar legitimar.

O jornalismo deve poupar o cidadão – regra geral – de cenas violentas e desnecessárias. Mas há exceções, porque a instantaneidade de uma imagem é fundamental para traduzir algumas tragédias humanas. O bombardeio dos Estados Unidos na Guerra do Iraque, a primeira que assistimos ao vivo, com cenas aéreas das cortinas de fogo que se levantavam ao céu, sobretudo à noite, mais parecia um videogame high tech. A brutalidade, a essa distância, sem a visão de mutilações e mortes, tem menos chance de emocionar a opinião pública. Houve um enorme esforço das forças norte-americanas para impedir ao máximo o acesso dos jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas ao campo de batalha. Até a linguagem tornou-se asséptica. Falava-se em “ataques cirúrgicos”.

O massacre que vem sendo perpetrado pela máquina de guerra de Israel contra a população civil palestina tem gerado muitas imagens brutais. Num mundo povoado por câmeras e quase anestesiado diante de tantos horrores de guerras, essas imagens ainda impactam as consciências de quem se nega a ser apenas testemunha de mais uma atrocidade.

Os Estados Unidos começaram a perder a Guerra do Vietnã quando pacatos cidadãos estadunidenses tomaram conhecimento do que seus concidadãos faziam em terras distantes. A chacina só começou a ter fim depois que, durante os telejornais, o sangue espirrou nas mesas de refeições de milhões de cidadãos em todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos.

Não sou voyeur da crueldade humana, nem tampouco cego para a dor dos que imploram por socorro ou dos que morrem à míngua por injustiças em algum lugar do planeta. Foram as fotos de Don McCulinn, o primeiro fotógrafo a registrar a fome em Biafra, em 1969, que acordaram o mundo para uma catástrofe que precisava do apoio de outras nações. Não há como esquecer a imagem da menina Kim Phuc, correndo nua, gritando de dor com o corpo queimado pelas bombas de napalm, numa estrada perto de Trang Bang, no sul do Vietnã. Ou a execução, a sangue frio, com um tiro na cabeça, em plena rua de Saigon, de um vietcong – registro feito pelo fotógrafo Eddie Adams, em 1968.

Não há por que confundir. Sensacionalismo é a “exploração de notícias com o objetivo de causar sensação ou escândalo”. Ao exibir algumas cenas dantescas (como as valas com corpos de judeus mortos em campos de concentração nazista), o objetivo não é causar sensação. Primeiramente, é certo que causa indignação. Mas é também registro que permanece para que se possa tentar compreender, de alguma forma, o que e por que aconteceu. É também o testemunho para pôr no banco dos réus os responsáveis. São imagens que precisam fazer parte do “currículo” da espécie humana. Servem para lembrar-nos do quanto podemos ser ferozes e – paradoxalmente – inumanos em certas circunstâncias.

O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado testemunhou, com sua câmera, muito sofrimento, ódio e violência. E aos críticos, que não veem sentido em registrar a desgraça humana, respondeu: “Este é o nosso mundo, precisamos assumi-lo. Não são os fotógrafos que criam as catástrofes, elas são os sintomas da disfunção do mundo do qual todos participamos. Os fotógrafos existem para servir de espelho, como os jornalistas. E não venham me falar de voyeurismo! Voyeurs foram os políticos que deixaram as coisas acontecerem e os militares que facilitaram a repressão.” O comentário era sobre Ruanda, palco de um genocídio em 1994, mas vale para qualquer situação. O relato está no livro Sebastião Salgado – da minha terra à Terra, (entrevista à amiga Isabelle Francq, editora Paralela), no qual ele também afirma: “Ninguém tem o direito de se proteger das tragédias de seu tempo, porque somos todos responsáveis, de certo modo, pelo que acontece na sociedade em que escolhemos viver.” No caso presente dos ataques de Israel, é evidente a brutalidade e a insensatez de uma ideologia política e religiosa sustentada, principalmente, pelos Estados Unidos, uma das nações que mais se envolve em ações violentas por todo o planeta.

Infelizmente, pela lógica do capital e da guerra (as duas coisas costumam andar juntas), seres humanos de determinadas etnias ou nações são atacados e exterminados em nome de vários interesses. O Estado de Israel tem incorporado e ocupado territórios palestinos pela força e mantido a população sob permanente estado de terror. A qualquer momento sente-se legitimado a usar a força de maneira desproporcional. E controla quase tudo que pode ou não se pode fazer.

Não estivesse sob a proteção dos Estados Unidos e das principais nações do Ocidente, seus líderes já estariam sentados em um tribunal para responder por crimes de guerra. A certeza da impunidade, no entanto, só amplia os abusos contra os Direitos Humanos.

O Estado de Israel tem o direito de se defender, mas não o de perpetrar massacres. Tem o direito de lutar contra inimigos que tentam golpeá-lo, mas não pode atacar alvos civis e matar mulheres, crianças e idosos. Palestinos têm o direito a ter de volta suas terras ocupadas por Israel. Palestinos têm direito a ter um Estado, conforme a Resolução 181 da ONU, que data de 1947 e jamais foi cumprida – em boa parte, pela intransigência israelita.

O século 20 presenciou, além de duas guerras mundiais, vários crimes de guerra em acertos de contas regionais que escandalizaram o mundo. Prova de que somos animais de uma ferocidade jamais vista anteriormente sobre a face da Terra e, por isso mesmo, a única espécie capaz de destruir milhares de outras espécies e de ameaçar a sua própria existência.

Diante da brutalidade que se verifica em Gaza, golpeada por milhares de mísseis a estraçalhar corpos humanos inocentes, não é justo que o horror se esconda por trás de uma linguagem diplomática, utilizada diariamente pela mídia para encobrir crimes de guerra. Não é justo pedir que tenhamos bons modos diante do terror. A violência cega. Por isso, mais do que nunca, é preciso ter olhos para ver. E dizer não à barbárie.

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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Porque sim!

por Júnia Puglia*

Essa minha impaciência, às vezes nem eu mesma a suporto, mas que remédio, né? De tanto ouvir e responder a certas perguntas, tenho vontade de dar respostas diretas e malcriadas, mas, bem, já sou grandinha e preciso ser mais tolerante com as pessoas, dizem as regras de convivência. Sempre, interminavelmente. Afinal, o mundo é assim, bla bla blááá.

Por que precisamos de mais mulheres na política e nos espaços de poder? Porque sim! Por que devemos promover oportunidades iguais para todos os grupos populacionais como política de Estado? Porque sim! Porque não há nenhuma razão para não ser assim. Basta de explicar, argumentar, comprovar e tentar convencer as pessoas sobre o óbvio. A atividade política precisa de todas e todos que se sintam encorajados a meter a mão na massa pantanosa dos mecanismos de participação, arrombar os baús dos partidos, estar nas mesas de negociação, assim mesmo como elas são hoje, mover as engrenagens das decisões que afetam a vida de todo mundo, desde as câmaras municipais até os níveis mais elevados. A participação plena de todas as pessoas é uma das bases da democracia. E, por mais imperfeita e incompleta que seja, ainda não inventaram nada melhor que ela, clichê dos clichês.

A política é um lodaçal? Estamos fartos do conversê de candidatos e campanhas? Da guerra de informação, que nos impede de saber qual a versão mais confiável? Lamento informar que vai continuar sendo assim. Que só vai mudar quando formos capazes de entender o verdadeiro sentido da política, o que só será possível alcançar fazendo política. Não há outro caminho, e não há milagre.

Por que mulheres? Porque sim. Por que negras, índios, pessoas com deficiência, gays, lésbicas e todas as letrinhas? Porque sim. Cada um com suas propostas, suas reivindicações, levando para a arena política toda essa enorme diversidade que nos compõe. É justo, não? Como azeitar as engrenagens da vida em sociedade senão conhecendo-as, destrinchando-as, revirando-as de dentro pra fora e de fora pra dentro?

Por que homens? Jovens, velhas, conservadores, avançadas, caretas, moderninhos, nerds, com quem concordamos, de quem discordamos, bonitos, feias, inteligentes, cultas, rudes? Porque sim. Porque sim.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Vou perder esse trem

por Maria Shirts   ilustração Ligia Morresi

Não sei se você já notou, mas é comum, ao menos no metrô de São Paulo, que algumas pessoas não entrem no trem quando ele chega.

Não precisa ser no horário de pico. Esses dias mesmo peguei o metrô às 10 da manhã, pouco movimentado. Partindo da Estação Vila Madalena, entrei apressada no trem, como sempre faço, atrasada ou não. Sentei defronte à plataforma e pude observar um senhorzinho, meia idade, camisa social branca com o terceiro botão estirado, sentado naquele banquinho verde-água de plástico.

Quem são? O que fazem? O que comem?, me pus a pensar, do lado de dentro, que já fechava as portas para dali adiante berrar o simpático “next station”, tradução feita para os além mar que vieram ver a Copa do Mundo aqui.

Não cheguei a nenhuma conclusão, mas formulei algumas hipóteses.

A primeira é a do livro bom. Já deve ter acontecido com você de perder um ponto ou uma estação por se distrair com uma boa narrativa. Os que podem matar um tempo, suponho, nem entram no trem. O que me soa um pouco estranho porque aquela luz fluorescente, as paredes de cimento frio, o subterrâneo… Não é exatamente o lugar mais agradável da cidade. Mas a oriental que lia avidamente o último do John Green não parecia se importar.

A segunda hipótese é a do sono. Sim, porque vejo várias dessas pessoas dormindo nas desconfortáveis cadeirinhas de plástico em letargia profunda. A maioria jovens, que me parecem estudantes matando aula do cursinho.

Minha terceira suposição é a do TOC. Pode parecer bobagem, mas o transtorno obsessivo compulsivo é mais frequente do que parece. Vai saber se o sujeito não entra num vagão que comece com a letra H. (Ok, confesso que só pensei nisso depois de ver um senhorzinho muito excêntrico no purgatório das cadeirinhas de plástico fazendo movimentos repetitivos com os dedos, como os de quem escuta uma mesma batida de música – com o detalhe de que ele não estava ouvindo música).

Não consigo pensar em quaisquer outros motivos para um não entrar no maldito trem. Até tentei esboçar um mapeamento etnográfico desse público, mas sem sucesso.

Sei que toda a minha angústia se resolveria ao primeiro ímpeto de coragem de me dirigir a quaisquer dessas pessoas para perguntar: “oi, sou enxerida e tenho ânsia de saber: o que você faz aqui, sentado, em lugar de entrar no trem?”. Mas tenho algum receio da resposta…

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Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana. Ilustração de Ligia Morresi, especial para o texto

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Mário Pereira, o Quixote das Letras


por Fernando Evangelista*

Mário Pereira, grande contador de histórias, solitário Quixote das letras, inimigo da insensatez e da ignorância, escritor lírico e indignado, professor dos professores, amigo de São Francisco de Assis e de Ernest Hemingway, amante do Central Park e dos jardins de Florianópolis, conhecedor das coisas simples e das almas complicadas, faleceu.

Faleceu hoje pela manhã, 21 de julho, dia em que completou 73 anos, vítima de edema pulmonar. Dono de um estilo sóbrio e elegante, que não admitia gorduras, grossuras ou excessos, buscava sempre a palavra correta, a frase certeira. Como professor, Mário influenciou gerações de jornalistas. Mas isso foi depois, quando já havia caminhado pelas redações do Rio de Janeiro e do sul do país, de repórter de polícia a editor chefe.

Ele nasceu nos pampas, embora não gostasse de ser chamado de gaúcho – dizia ser porto-alegrense. Foi lá que começou no jornalismo, “quase por acaso”, naqueles anos escuros da ditadura militar. Havia concluído a faculdade de Direito, mas aquela coisa burocrática – terno, gravata e datas-vênias – não lhe dizia nada.

Foi então que encontrou, num balcão de cafezinho, Paulo Amorim, diretor do jornal Zero Hora. O convite veio em tom de intimidação: “Mário, vamos trabalhar juntos”. O jovem recém-formado tentou desconversar, tomou outro café, espiou as horas, quis ir embora, mas não houve jeito e se rendeu. Pouco depois já era o editor-chefe do jornal. Tinha 26 anos.

E nesse interim – ele que me perdoe, mas contarei um segredo – foi também autor de uma famosa coluna social no Rio Grande do Sul, com pseudônimo, naturalmente. Veio para Florianópolis em 1986 com a equipe que iniciou o Diário Catarinense, do grupo RBS, o primeiro jornal informatizado do Brasil. Depois foi editor-chefe de O Estado, também na capital, e lá fez história em coberturas memoráveis, ao lado de amigos que ficaram para a vida toda.

Como um bom filho pródigo, voltou ao DC, onde, por quase duas décadas, foi editor de opinião. Vivia do jornalismo, mas sua grande paixão, ao lado dos seus inseparáveis cães e gatos, eram os livros. Sua primeira obra é de 1993, Fazendo a CabeçaJornalismo de Ideias e Críticas (Editora Paralelo 27). No ano seguinte, escreve Pequena História de Florianópolis (Editora Terceiro Milênio), relançada anos depois, e com grande sucesso de vendas, pela editora Cuca Fresca, com novo título: Histórias de Florianópolis para ler e contar.

Em 1995, publica Certas Certezas (Editora Terceiro Milênio) e recebe o Prêmio Othon Gama D’Eça, conferido pela Academia Catarinense de Letras ao melhor livro do ano. Nesses ensaios, como de costume, Mário não foge à polêmica e tem a coragem de criticar o multiculturalismo, “esse traiçoeiro rio”, e a síndrome do politicamente correto, “um dos seus mais poluídos afluentes”, além de detonar, sem piedade, o pagode, a lâmpada fosforescente e o atual jornalismo brasileiro.

“Os jornais de hoje”, dizia ele, “são imbatíveis para embrulhar peixe no mercado, forrar a gaiola do canário e a casinha do cachorro”. Cada vez mais descrente do “quarto poder”, faz seu primeiro mergulho na ficção com o conto Nem todas as Kombis são Brancas, incluído na antologia Círculo de Mistério, lançado pela Editora Garapuvu em 2000.

Dois anos depois, pela mesma editora, Mário homenageia os escritores do Estado com o delicioso Ao Pé da Letra – Escritores Catarinenses Contemporâneos e Outros textos. Em 2004, lança o primeiro livro de ficção, 12 Histórias, e conquista, outra vez, o Prêmio Othon Gama D’Eça.

Mário foi eleito para a Academia Catarinense de Letras em 2009. Em 2011, pela Insular, lança Saudade do Futuro, com crônicas sobres seus temas mais caros: os bichos, o cinema, os amigos... Sua última obra, Roteiro Histórico e Sentimental pelas ruas de Florianópolis, foi lançada pela Unisul em 2013.

Como jornalista, escritor e queridíssimo amigo, Mário tinha a capacidade de perceber o invisível, de captar o não dito, de fotografar o perfume. Apesar de ser um crítico de grande rigor, era extremamente generoso. Tinha sempre a mão estendida e com ela uma frase qualquer, dita de improviso, que fazia o interlocutor rir do mundo e de si mesmo. E seguir em frente com mais coragem.

Mário fará muita falta. Mas ainda bem que sua obra está aí, cada vez mais atual, mais necessária e sempre deliciosa. O exemplo de sua honestidade, elegância, dignidade, o exemplo de sua indignação ética e de suas inesquecíveis aulas também vão ficar. Portanto, sem choro, porque ele não gostava disso.

Obrigado, mestre. Obrigado por tudo.

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Fernando Evangelista é jornalista e documentarista. Crédito foto: Glaicon Covre (Diário Catarinense)

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Areia e vento


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

Voltando da escola a pé, eu observava alguns itens específicos. Onde havia frutas maduras que pudessem ser apanhadas sem problemas, goiabas, mangas, mixiricas, e se havia algum monte de areia novo, disponível para ser atacado nas minguadas horas de folga entre aulas e deveres de casa. Eles surgiam e desapareciam ao ritmo das construções e reformas das casas do bairro. Muitas obras eram largadas pelo meio e a areia ficava ali, na calçada, ao deus-dará. Mesmo assim, acontecia de o pessoal da casa ficar de olho para que ninguém tocasse nela, muito menos crianças em busca de diversão, sempre vistas com má vontade.

Às vezes dava certo. Era com enorme prazer que eu subia na areia e começava a cavoucá-la com as mãos. Pegar um bom tanto e soltá-lo entre os dedos era uma prévia indispensável para as tentativas de construir toscos cones com uns buracos como portas e janelas, os meus castelos. Depois de pronto o cone, respingar água por cima, para não despencar tudo em seguida, o que sempre acontecia. Refazer também era parte do jogo. E se repetia a mágica da areia que podia virar qualquer coisa e depois se desfazia, e eu refazia.

São muitos e surrados os simbolismos associados à areia, velhíssima cúmplice na representação do tempo e da vida. Nos últimos dias, estou tentando acomodar aqui dentro a morte de uma pessoa querida, que vivia bem longe daqui. Era dessas com brilho nos olhos, que traziam luz, alegria e um bom solavanco de generosidade e sabedoria a quem tivesse a sorte de conhecê-la e pudesse deixar a indiferença de lado. Uma doença terrível plantou nela a semente mortífera, que, apesar das muitas tentativas de eliminação, decidiu resistir e ganhou o jogo. Seu corpo, embalagem já obsoleta, foi, a seu pedido, doado a uma universidade para servir como instrumento de pesquisa na busca por mais vida para outros humanos. Na forma mais direta e simples, bem como ela viveu e agiu.

Vejo-a tentando conter o punhado de areia com as mãos bem fechadas, sabendo que ela vai acabar escapando e se espalhando por todo lado. Não um saibro grosso de construção, mas aquela fina areia colorida de beira de rio, com que se montam paisagens em garrafas e quadros vendidos nos mercados populares. Vital e cheia de energia. O vento fará o seu trabalho.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Coisinhas que nos fazem

1964 + 50 
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 13)


por Fernanda Pompeu  ilustração Fernando Carvall

Em 11 de junho de 2006, os restos mortais de Iara Iavelberg foram retirados do setor dos suicidas do Cemitério Israelita do Butantã, em São Paulo. Vitória da família e dos amigos que nunca acreditaram na versão - dada pelos órgãos de segurança - de que Iara teria se matado ao perceber o cerco policial no apartamento onde morava, no bairro de Pituba, Salvador. Sua morte ocorreu em 20 de agosto de 1971.

Além do oficial, há outros relatos, inclusive de um sargento envolvido diretamente na operação, que indicam que Iara Iavelberg foi na verdade baleada sem nenhuma chance de defesa. Considerando o modus operandi da repressão da época, provavelmente a moça, então com 27 anos, foi mesmo assassinada. Quero dizer, os caras entraram fuzilando. Matar e depois perguntar.

A biografia política de Iara é bastante conhecida. Ele foi militante da Polop (Política Operária); VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária - Palmares); VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e, finalmente, integrou o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro). Também viveu um romance com Carlos Lamarca, assassinado três meses depois do cerco ao apartamento em Pituba.

Todas essas informações podem ser consultadas no vigoroso Dossiê Ditadura: Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil (1964 - 1985). O livro foi organizado pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e pelo IEVE - Instituto de Estudos sobre a Violência do Estado. A primeira página vem assinada por Aloysio Nunes, participante da luta armada e vice atual do candidato a presidente Aécio Neves.

Mas, pela natureza do trabalho do Dossiê, os perfis são um tanto secos. Por conta disso, fiquei surpresa e feliz ao ler a entrevista da professora e pesquisadora Ecléa Bosi - dada a Mariluce Moura, revista Pesquisa Fapesp de abril de 2014. Ecléa é autora de vários importantes livros, entre eles, o delicioso Memória e Sociedade - Lembranças de velhos.

Pois na entrevista, parágrafos tantos, ela rememora a presença de Iara Iavelberg na Faculdade de Psicologia da USP: "Fui colega de classe da Iara, o que me marcou muito. Lembro-me da colega como uma moça muito bonita, muito inteligente e que cantava muito bem. Gostava de Ponteio, de Edu Lobo, também de Disparada, de Vandré. Era muito boa em estatística (...) e íamos à casa dela estudar. A Iara histórica todos lembram, mas foi a perda da colega que acompanhei e vi o quanto nossa turma sofreu com isso."

Ao ler essa passagem, minha cabeça fez plim! Pensei que talvez seja isso que falte - os detalhes, as preferências musicais, a maneira de sorrir - aos biografados mortos e desaparecidos sob a ditadura militar. Saber das pequenas coisas revela a humanidade dos personagens. Trazem eles para mais perto de nós. A ditadura não matou só ideias, matou principalmente pessoas. Então a jovem morta em Pituba gostava da canção Ponteio, letra de José Carlos Capinan, e vencedora do mítico Festival de Música da Record em 1967.

"Parado no meio do mundo / Senti chegar meu momento / Olhei pro mundo e nem via / Nem sombra, nem sol / Nem vento. Quem me dera agora / Eu tivesse a viola / Prá cantar. Jogaram a viola no mundo / Mas fui lá no fundo buscar / Se eu tomo a viola / Ponteio / Meu canto não posso parar /. Talvez, nesta manhã invernosa de 2014, Iara Iavelberg esteja cantando esses versos em alguma nuvem.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A outra pátria em chuteiras


por Mariana Camaroti, de Buenos Aires

Engana-se piamente o cidadão que crê que o Brasil é a única nação em que o futebol é a comida de um povo e onde a Copa do Mundo é vivida de maneira transcendental, como os dias de momo. Piamente. O futebol está para a Argentina como a praia está para o carioca; mas existe ali algo mais. E eu diria que é o tango – este lamento típico dos hermanos – que faz com que eles saibam sofrer remoendo amores – neste caso, ídolos – do passado. E aceitar o sofrimento como parte do amor. Para mim, isso explica por que futebol e argentino nasceram um para o outro. O país que pariu Ernesto Che Guevara, San Martín e Evita Perón e que tem como maior ídolo – ou melhor, deus – Diego Armando Maradona não pode ser subestimado quando de chuteiras se fala.

Era o meu terceiro Mundial no país vizinho desde que para lá me mudei, casei, comprei casa, descobri livros e tive filhos; mas este ano, quando pendurei as bandeiras alvo e celeste e a verde e amarela na minha janela, foi diferente. Sem que eu me desse conta, havia crescido dentro de mim um sentimento de pertencimento que jamais sentira. E isso não tem só a ver com meu marido argentino, mas também com a minha história com o portenho, com o saber e poder viver – bem – ali mantendo as minhas raízes.

Já no primeiro jogo, aceitei com naturalidade torcer com quase a mesma intensidade do que torcia para a canarinha. E olhe que eu odeio Maradona e não sou fã de tango. Mas a admiração deles pelo Brasil e como almejam ser como os brasileiros me toca sempre.

Mas bem, a bola começou a rolar e, em dia de partidas da Argentina, eu vestia celeste e branco, afirmava a torto e a direito que torcia por eles, como um invasor que tenta ganhar confiança do colono. Mas não, eu havia me tornado uma verdadeira torcedora de Messi, Mascherano, Higuaín e Lavezzi. E, mais tarde, de Romero. Aprendi os nomes como no campeonato de 1994, sabia quase de cór. Nem ideia de esquema tático e muito menos quem estava no grupo da Argentina. Mas a paixão me movia. E eu sei por quê. A Copa era no Brasil, o meu país, e torcer pelas duas seleções era confirmar a minha paixão pelas minhas duas casas. Como se isso reduzisse a distância.

Era lindo ver as crianças vestindo acessórios para ir ao colégio do início ao final da Copa, bandeirinhas nos carros, bandeiras desbotadas nos balcões e uma infinidade de propagandas que reafirmavam o amor pela pátria e sua independência em momentos de alta inflação e possibilidade de novo calote da dívida. Quando vi David Luiz soluçar dizendo que o povo sofrido brasileiro merecia o título, meu compadecimento se estendeu aos argentinos. Também mereciam. Vê-los cantar aquele hino sem graça como um grito de guerra, sem letra, só com urros, me tocava.

Além de mexer com a fantasia que o argentino cultiva do que vem a ser o paraíso, ter o Brasil como sede do Mundial despertou pelo menos dois sentimentos: 1. É logo ali, vamos ocupar o território tupiniquim; 2. Inveja de não sermos nós os anfitriões. Para os hermanos, o Brasil é a nação em que tudo deu certo e que, quando não dá, se sabe levar com a alegria. Invejam essa – para eles – qualidade nobre do povo brasileiro.

A torcida argentina foi invadindo o país sede à medida que sua seleção avançava. E veio o terceiro e mais forte sentimento, aquele de humilhar o Brasil na sua própria casa. A rivalidade, que se restringe apenas ao futebol, claro está, incomodava cada vez que os argentinos cantarolavam sem vergonha perguntando ao Brasil o que se sente; e cada vez que os brasileiros torciam pelo rival da seleção alvo e celeste, até mesmo quando este foi o Irã. E tudo foi potencializado pela imprensa e pelas redes sociais.

As duas seleções progrediram. Perdemos de 7x1 e ficamos em quarto com um país se sentindo humilhado; eles chegaram a segundo e, ainda que feridos, tiveram sua paixão pelo futebol enaltecida, renovada. E eu nunca entendi de onde vem essa rivalidade. Será a minha compaixão, sentimento de pertencimento ou será o meu marido. Mas desconfio que é o meu espírito de atleta que ainda me faz admirar quem joga com raça e paixão.

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Mariana Camaroti, jornalista, mudou-se pra Buenos Aires depois de se apaixonar por um argentino; mãe de dois argentinos, torcedores do Boca Juniors como o pai, e amante das livrarias portenhas. Texto escrito especialmente para o Nota de Rodapé

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Maratona étnica

por Carlos Conte*

Ainda estou tentando entender o que aconteceu na semifinal contra a Alemanha. De vez em quando tenho um pesadelo. Sonho com gols adversários. São como fantasmas. Como o garotinho do filme “Sexto sentido”, eu digo “Vejo gols da Alemanha...”. “Com que frequência, Carlos?”. “Todos os dias!”. Para driblar o trauma, tento esquecer. Vim para a Chapada Diamantina, na Bahia, de onde escrevo esta crônica. Para mim, a Copa do Mundo acabou depois dos 7 X1. Para alguns, ela nem deveria ter começado.

Apesar da goleada humilhante, vou falar da Copa pela última vez.

Primeira fase. Meu espírito ainda dividido: #nãovaitercopa X #vaitercopa. Tinha que ter escrito dois textos durante a semana, mas não deu: fiquei vidrado na TV vendo e revendo lances dos primeiros jogos.

Bateu o desespero! Cheio de trabalho, mais apertado que saco de cantor sertanejo, mas nem um pouco a fim de trabalhar. Ainda mais quando o Gongom me ligou perguntando se eu queria assistir ao jogo da Itália no Bexiga e, na sequência, ver o Japão na Liberdade. Lógico! Copa do mundo: maratona étnica em São Paulo! Bem melhor que Fun Fest da FIFA no Anhangabaú.

Quando desci do carro na 13 de maio, um menino veio perguntar se eu era italiano: como ia ver a Itália no Bexiga, pus minha velha boina do Pezzutti, uma camisa da Azzurra e um lenço vermelho no pescoço (será que italiano usa lenço vermelho?...); sei lá, resolvi me fantasiar. Até então só tinha acompanhado a Copa pela TV. E a TV mostrava uma Copa carnavalesca. Torcedores/foliões indo ao estádio fantasiados: mexicanos de sombrero, ingleses de cavaleiros templários, alemães à la Oktoberfest... Um desfile de estereótipos ao qual eu aderi ingenuamente, achando que no Bexiga eu encontraria meus pares. 13 de maio vazia... Portas fechadas, janelas fechadas. Um ou outro boteco aberto, mas tudo vazio. Respondi pro menino cantando a Tarantela e saí andando, me sentindo o Peppino di Capri.

Claro que não havia nenhum italiano no Bexiga! O Bexiga, hoje, vive da fama, nada mais. É o que dá grana pras cantinas da Dom Orione. Anos atrás, durante uma rifa na festa italiana de N. Sra. Achiropita, o mestre de cerimônias começou a fazer aquelas piadas sem graça para ocupar o tempo: “Quem aqui é italiano?”. Ninguém levantou a mão. “Quem é filho de italiano?”. Um ou outro levantou a mão. “Neto?...”. Vários. “Bisnetos?...”. Muitos levantaram a mão, inclusive eu. “Tataranetos?...”. Grande maioria. “E agora levanta a mão quem é descendente de japonês... Vocês vieram na festa errada!”. Gargalhada geral. Achei a piada besta, mas dei risada.

Na rua Santo Antônio, fomos ao Bar do Amigo Giannotti, a melhor fogazza de São Paulo! Portas fechadas. O Giannotti é genial mas imprevisível. O bar funciona de acordo com o estado de espírito do dono. Às vezes abre de segunda. Às vezes antes das 20h. Às vezes simplesmente nem abre. E não tem conversa. Uma amiga que morava no Bexiga, a Ciça, quis fazer uma festa de aniversário no Giannotti e ligou para fazer as reservas: o Amigo, pouco amigo, respondeu que não gosta de festas – muita gente, muito barulho... “Que medo de ganhar dinheiro, Giannotti!”, a Ciça bateu o telefone.

Em busca de alguma coisa italiana, entramos numa cantina, fugindo do glamour caríssimo da 13 de maio, e vimos Itália X Inglaterra tomando vinho nacional a 50 reais e comendo azeitonas pretas e uma gororoba sem gosto que atendia pelo nome de antepasto de berinjela, bem diferente do antepasto que o finado Giovanni servia num casarão na Brigadeiro Luis Antônio onde hoje funciona mais um estacionamento. Pra fazer jus à fama do bairro, decorações em verde, vermelho e branco, quadros de praias da Sicilia e um cardápio bilíngue. Tinha uma família animada perto da gente que torcia gritando “Que cazzo! Porca miséria! Avanti, Itália!”, pelo menos alguma coisa para alegrar o ambiente, que estava bem desanimado. A Itália ganhou, mas saímos frustrados.

Segunda parada: Liberdade. Talvez estivéssemos mal informados, porque custou a achar algum movimento. O jogo começaria às 22h, Japão X Costa do Marfim, duelo pouco atrativo, mas o futebol era apenas um pretexto para encontrar japoneses animados e salvar a nossa peregrinação étnica pela cidade. Nada de novo no Largo da Pólvora. A velha Liberdade com suas lâmpadas japonesas, fachadas japonesas, ideogramas, gatinhos com a pata levantada e budas de louça, mas nenhum japonês na rua pra contar a história. Na rua da Galvão Bueno, o karaokê estava lotado, fila para entrar, segurança na porta exigindo comandas, e ninguém com cara de quem ia assistir ao jogo. Fomos ao restaurante Samurai na rua da Glória, mas se fôssemos ver o jogo lá, só de cerveja teríamos que deixar as calças. Fiquei tomando uma latinha na porta e conversando com o manobrista. Ele me contou com orgulho que é amigo do brasileiro que venceu o maior concurso televisivo de karaokê do Japão. Isso deu notícia no Brasil: um brasileiro, mulato, fazendo sucesso na terra do sol nascente. Perguntou se eu queria ver uma foto deles juntos, querendo provar que estava falando a verdade. “Tudo bem”, eu disse. Mas demorou tanto pra encontrar a tal foto no celular que acabei desistindo. “Fica pra uma próxima!...”.

Pra não perder o começo do jogo, paramos num boteco qualquer, desses botecos pasteurizados que vêm dominando a cena em São Paulo, substituindo os velhos balcões de madeira. No fundo do bar, a TV mostrava as duas seleções perfiladas, enquanto tocava o hino nacional do Japão. Havia dois homens conversando no balcão, além do dono do bar, distraído com um bolo de notas fiscais. Na mesa ao lado, dois japoneses! Tínhamos ido à Liberdade por causa deles. Mas aqueles dois não queriam nada com a Copa. Clubbers, provavelmente sanseis, de costas para a TV, faziam o esquenta para a baladinha da noite, tomando vodca com energético. Conversavam em português. Riam como japoneses.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

domingo, 13 de julho de 2014

Ainda bem que tivemos “los ticos”!


por Aleksander Aguilar*

Ah, Costa Rica! O que teria sido de nós, brasileiros, nesta Copa sem ti. Pensar na tua história neste Mundial, especialmente depois do trauma do Brasil na semifinal “Mineiraço”, é um alento e uma inusitada forma de olhar a toda nuestra América. Exemplo, sim, que futebol mistura-se com política, que só aumentou o imprevisto, mas merecido, reconhecimento da tua seleção por parte desta “impávida” nação sul-americana – e por extensão do teu país, e por ampliação de toda a região da América Central.

Para mim, filho de salvadorenho, a Costa Rica era, sim, a América Central no Mundial! Admito que cada vez que eu ouvia a massa gritar em coro, meu orgulho centro-americano silenciosamente se manifestava: "¡oé-oé-oé-oé, ticos, ticoooos!". Eram os anfitriões, nas ruas durante as partidas costarriquenhas, entoando o nome, com tanta empolgação e carinho quanto com sotaque brasileiro, que para eles é o apelido da seleção costarriquenha – a equipe de um país da América Central! Mas não, não, compatriotas. Ticos é um gentilício coloquial para todo o povo da Costa Rica, algo que ocorre com vários países centro-americanos. Os hondurenhos são os Catrachos, os salvadorenhos são os Guanacos, os guatemaltecos são os Chapines, e cada um desses apelidos possui uma explicação sociohistórica.

Quem no Brasil, além de um grupo muito específico como aqueles que estudamos esta região quase invisível do mapa-mundi, saberia disso ou se importaria? No Brasil, nação onde a paixão por futebol não é apenas um simples cliché, a seleção desse país centro-americano tornou-se um xodó nesta Copa, pelo incontestável brilhantismo do seu desempenho, deixando o campeonato de forma invicta após enfrentar, e vencer a maioria, grandes potências do esporte mais popular do planeta. Ao derrotar Uruguai e Itália, empatar com Inglaterra, eliminar a Grécia e levar a Holanda para a decisão nos pênaltis numa quarta-de-final, a imprensa mundial aborrecidamente insistiu que ninguém imaginava que a seleção deste pequeno e “exótico” país iria tão longe num campeonato de grandes potências esportivas. E para a maioria da mídia aqui no Brasil, o importante era justamente esse feito. E só. Ao ponto de para muitos a Costa Rica ser uma seleção “caribenha” (afinal, América Central e Caribe é tudo igual, tudo perto por ali no mapa...)

Ocorre que o significado da participação da Costa Rica neste Mundial nunca fez tão evidente a oposição ao adágio popular de que política e futebol não se discutem. Na América Latina discutem-se, inclusive e de preferência, conjuntamente. Importa mesmo é constatar que importantes meios de comunicação no Brasil destacam de repente a história e os índices de desenvolvimento deste país da América Central. Surpresa mesmo, e satisfação, é ver os brasileiros pela primeira vez curiosos com fatos como a Costa Rica não ter exército (mais de 60 anos de sua extinção) mas ter um ganhador do Prêmio Nobel. O Brasil, via futebol, desenvolveu quase sem querer um sentimento de latino-americanidade, expresso neste caso precisamente pela invisibilizada região centro-americana, e demonstra ter mais interesse em saber quem são esses países do istmo.

Muito futebol, muita política

E por isso o atual futebol da Costa Rica fez-se uma dupla metáfora nessa fronteira futebol/política: enfeixa por um lado o paralelo das relações geopolíticas centro-periferia no mundo com o das disputas dos grandes atores globais do futebol no contexto – quadrado – dos meganegócios desse esporte na globalização hipercapitalista; e por outro o paralelo dos imbricados debates entre nacionalismos e identidade nacional com a questão da integração regional centro-americana e a projeção internacional dessa região.

A Costa Rica é um país da América Central. E enquanto através desse momentum no esporte demarcou para si mesmo uma janela de visibilidade e presença nas cartografias geopolíticas desse mundo cada vez mais multipolar – em que a articulação entre países do chamado Sul Global torna-se uma via para um sistema internacional mais igualitário – trouxe a reboque para uma pequena, mas importante, vitrine toda a região deste istmo socialmente convulsionado. Aos poucos, os centro-americanos passaram a ver o país Tico, que deixava mais e mais potências esportivas boquiabertas, como um representante de todos, permitindo o mundo ver que nem só de terremotos e guerras civis vive uma região. Devagar, porque, claro, internamente na América Central há rivalidades, ranços, já que historicamente as relações no istmo viram-se em altos e baixos, com divisões por conflitos políticos e limítrofes.

Entende-se. Em nome de uma suposta identidade regional, um gaúcho colorado torceria para o Grêmio durante uma Libertadores, e vice-versa? Um pernambucano torcedor do Sport apoiaria o Náutico num campeonato brasileiro, e vice –versa? De sociologia do futebol deixa-se para os especialistas, mas não se pode negar a força desse esporte em todo o continente como fator de unidade. No caso da Costa Rica, o país verdadeiramente possui diferenças enquanto Estado democrático de direito bem marcadas de vizinhos como os do chamado grupo CA-4. El Salvador, Nicarágua, Guatemala e Honduras, o que coloca o próprio debate sobre centro-americanidade e integração regional do istmo como questão.

A América Central hoje

Designada por uma espécie de destino geográfico, uma das especificidades da América Central no contexto latino-americano é justamente a de uma região de trânsito entre os dois oceanos, posição que marcou sua história sociopolítica no passado e lhe influencia no presente, dando-lhe peso geopolítico e características identitárias que a colocam em condições particulares para converter-se em um âmbito que merece análise especifico. Mesmo na América Latina, contudo, esse istmo é frequentemente abordado de forma marginal ou omissa, tangencial ou superficialmente, deixando-se de tratar, precisamente, seus singulares problemas e especificidade sociopolítica no continente. É a situação que levou o crítico literário guatelmateco Arturo Arias a caracterizá-la como “una región marginal dentro de la marginalidad”.

A chamada América Central, a que o poeta Pablo Neruda denominou “la dulce cintura de América” tem pouco mais de 500 mil km² (o Brasil sozinho tem mais de oito milhões de km²) abrigam sete Estados – (Belize, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá) com uma população de quase 50 milhões de habitantes. Atualmente, cerca de 47% dos centro-americanos vivem em condição de pobreza e 18.6% em pobreza extrema. Mais de quatro milhões de centro-americanos e descendentes moram fora do istmo, especialmente nos Estados Unidos. Ditos emigrantes enviam anualmente cerca de US$ 13 bilhões aos seus familiares nos países de origem, o que no caso de El Salvador, por exemplo, chega representar 17% do total do PIB do país.

Ao longo da história centro-americana, e depois da declaração de independência em 1821, o tema da integração regional – primeiro em suas manifestações unionistas e mais tarde nos esquemas comerciais, econômicos, políticos e institucionais – tem sido uma constante. No entanto, nas últimas décadas, especialmente depois do estabelecimento do Sistema de la Integración Centroamericana (SICA), em 1991, o interesse pelo processo integracionista aumentou e tem chamado a atenção de um número crescente de setores sociopolíticos e econômicos no istmo. Hoje a violência e as migrações, conforme entende o acadêmico da Guatemala radicado na Costa Rica, Rafael Cueva Molina, são grandes e poderosos traços que caracterizam a região e que tem como uma de suas causas primordiais as guerras civis dos anos 1980, embora certamente não a única. As guerras civis centro-americanas conformam uma fase arrebatadora da história sociopolítica do istmo cujas consequências constituíram-se como o principal marco contemporâneo para os sentidos de centro-americanidade.

Essas diversidades de sentidos expressam-se nessa diferença da Costa Rica do seu entorno. Os ticos queixam-se das deficiências dos seus serviços sociais básicos, como saúde e educação, das má-condições das suas estradas, persistência da desigualdade e da pobreza e, mais recentemente, igualmente a outros países centro-americanos, da crescente força do narcotráfico internacional no seu território. Ainda assim, a Costa Rica é um país chamado de renda média, como o Brasil, e tem alguns melhores índices econômicos e sociais do istmo e de todo o continente, com uma expectativa de vida alta de 79,4 anos (a do Brasil é de 74,6) e uma média de homicídios baixa de 8,9 por 100.000 habitantes (a de Honduras é dez vezes maior). O país atrai pela sua estabilidade política, tendo recebido diversos exilados políticos das ditaduras anos 70 e 80, tanto da América do Sul como dos vizinhos da América Central que efervesciam em guerras. Foi classificado em 2011 como o de maior liberdade de imprensa da América Latina, ocupando a posição 19 em nível mundial, de acordo com o ranking da Organização Repórteres Sem Fronteiras, e impressiona até hoje aqueles que ainda desconhecem que aboliu o seu exército em 1948, em nome de uma proposta, fruto de anos de trabalho, de aumentar a participação cidadã e evitar golpes militares de estado.

Contudo, a Costa Rica ainda não conseguiu articular respostas para alterar a tendência dos últimos anos de lentos e incertos progressos em desenvolvimento humano. Como lembra, entretanto, a acadêmica e analista política salvadorenha, Carmen Elena Villacorta, chama a atenção sobre o atual contexto político centro-americano que os partidos das chamadas esquerdas em vários países da região, como El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, algumas antes guerrilhas e agora no poder pela via eleitoral, movam-se cada vez mais ao centro ao verem-se confrontadas por sociedades civis cada vez mais plurais e diversas, mais politizadas e exigentes, e menos leais em termos ideológicos, conscientes do poder político do voto.

No momento, por cima das limitações, sua seleção de futebol, “os filhos prediletos da nação”, como foram chamados no país, mantem ainda mais por cima a autoestima dos ticos, e de toda a América Central. Porém, acima ainda do futebol, a Costa Rica, e todo o istmo, veem-se hoje num lugar em que, como assevera o jornalista e acadêmico costarriquenho Andrés Mora Ramirez, nunca, desde a sua independência da Espanha, a região teve que enfrentar uma necessidade tão marcada de seguir por entre diferentes padrões de crescimento e de desenvolvimento para buscar sua inserção internacional.

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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

sábado, 12 de julho de 2014

O imponderável na Copa das Copas


por Pedro Mox*

O brasileiro sentiu o golpe. Contudo, mesmo que aos poucos, felizmente a ferida vai se fechando, as lágrimas secam, explicações (mesmo que nem um pouco convincentes) aparecem, e a Copa do mundo encaminha-se para seu clímax. A despeito da campanha brasileira, é importante ressalvar grande evento aqui realizado: tivemos belíssimos jogos, boa organização, seleções bem acolhidas. A média de gols até agora, 2,7, já é a melhor desde 1994, pode ultrapassar os 2,8 de 1982. Tem a segunda maior média de público da história, atrás apenas dos Estados Unidos. E terá a decisão no estádio quiçá mais famoso do mundo, o Maracanã. Não acho exagero dizer que, até este ano, realizamos a copa das copas.

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Não há explicações para o inexplicável. Pode-se, na verdade devemos, procurar a razão pela qual o onze canarinho não decolou em 2014. Achei a escalação equivocada, precisávamos de maior ocupação no meio de campo. As características são deveras distintas, mas o substituto mais adequado para Neymar era Willian ou Paulinho, dificultando a vida de Kroos e Cia. Talvez, ou provavelmente, não ganharia, mas evitaria o maior vexame da história da seleção brasileira de futebol. Entretanto, o desastre da última terça teve grande participação de um elemento sempre presente – e que contribui muito para a graça do futebol –, o imponderável. Da mesma forma que o Brasil entrou mal escalado e não se encontrou em campo, quatro gols em seis minutos não é e nunca será uma coisa normal. Aconteceu, e provavelmente nunca mais ocorrerá na história das copas.

Nossa atual geração não é ruim, pelo contrário – esse time é, na minha opinião, inclusive, superior ao de 2010. Foi mal preparado, e em nenhuma partida realmente convenceu, mas boa parte destes jogadores pode estar na Rússia em 2018 – tem talento, é a seleção mais comprometida que vi nos últimos anos, estarão mais experientes e quererão como ninguém reparar o fiasco aqui sofrido. Este ficará para sempre na história, o título porventura vindouro também. Considero um equívoco queimar esses jogadores, apesar do elástico escore.

Outro ponto muito comentado, por razões óbvias, e a comparação com 1950. Comparação, na minha opinião, inoportuna. No ano do maracanazo o Brasil tinha equipe bem engrenada, que vinha de duas goleadas – naquele não houve partida final, mas sim um quadrangular – 7-1 sobre a Suécia e 6-1 sobre a Espanha. Entrou no Maracanã (construído para esta copa) com, diz-se, mais de 200.000 pessoas, precisando apenas de um empate. Praticamente com as duas mãos na taça, poucos lembravam que havia um adversário a ser enfrentado. Cenário completamente distinto do atual, quando: tínhamos um time que não convencia desde o primeiro prélio; enfrentamos uma seleção tida por todos como a melhor da competição. Nada que justifique o apagão apresentado, mas um contexto bem diferente de outrora.

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Não será aqui que o seleto grupo de campeões ganhará um novo membro. Domingo Alemanha e Argentina partirão para o tira-teima de decisões, são protagonistas inclusive da primeira vez que dois países reprisaram uma final. Em 1986, no México, os hermanos abriram dois gols de diferença e cederam o empate. Entretanto, ao contrário de 1954 e 1974, os alemães não viraram; com passe de Maradona, Burruchaga marcou o tento que deu o bicampeonato à albiceleste. Quatro anos depois, ambos vinham de semifinais vencidas nas penalidades. A revanche germânica deu-se em Roma: com um gol de pênalti convertido por Brehme aos 40 do segundo tempo, os comandados de Beckenbauer eram os melhores do planeta pela terceira vez.

São seis partidas em Copas do Mundo, com três vitórias e 11 gols marcados pelos alemães, uma vitória e cinco gols para os argentinos, além de dois empates. O último embate foi na África do Sul, pelas quartas de final. As equipes mantiveram boa base em relação àquele torneio: oito atletas pela Alemanha e seis pela Argentina (considerando Di Maria) se reencontrarão. Joachim Löw já comandava o time alemão, enquanto na argentina Maradona vivia sua primeira experiência como treinador. O resultado, um sonoro 4-0, com dois gols de Klose e um de Müeller. Se o ataque alemão continua fulminante, o time comandado por Alejandro Sabella melhorou e muito sua defesa, além do poderoso trio de frente com Messi. Jogo mais que digno de uma final.

Na disputa pelo terceiro lugar, hoje em Brasília, outro confronto das quartas de 2010. Se lá fomos eliminados com a fatídica trombada de Julio César e Felipe Melo, agora é a chance de uma despedida ao menos digna. Do outro lado, os craques Robben, Van Persie e Sneijder despedem-se de copas do mundo. Quatro partidas em mundiais, perdemos duas, empatamos uma e ganhamos outra. Destaco esta vitória, um suado 3-2 em 1994, com gol da vitória numa falta cobrada por Branco e um desvio de corpo milimétrico do baixinho Romário. Que nossos atletas tirem daí inspiração para os últimos 90 minutos neste mundial, levantem a cabeça e vislumbremos um futuro mais promissor.

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*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Na fila


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Fila de supermercado é um ótimo lugar para, como se diz, tomar a temperatura dos sentimentos coletivos. Logo antes do jogo danado da última terça-feira, fui comprar uns acepipes para a comilança que faz parte do ato de torcer na frente da televisão. Mercado lotado, naquele clima de fim de mundo dos lugares onde se vendem comes e bebes em pré-jogo do Brasil. A fila do caixa era grandinha e, bem atrás de mim, duas mulheres engrenaram um papo animado, como velhas conhecidas que acabavam de se conhecer.

Começaram falando das nêsperas, caríssimas, que “quando eu era criança, lá na roça, a gente chamava de ameixa” (aliás, digo eu, como a tilápia, hoje cultivada em fazendas industriais, rebatizada de “Saint Peter” e cobrada em libras). Na frase seguinte, já estavam excomungando o governo e vaticinando um quebra-quebra de proporções apocalípticas em caso de derrota no jogo contra a Alemanha. Uma delas decretou que “já estamos quebrados, somos uma Venezuela, só não vê quem não quer” e por aí foi uma longa enfiada de asneiras no mesmo tom. Várias pessoas assentiram. Eu calada, olhando para o nada, detesto entrar nesse tipo de conversa.

Que chegou à Argentina. Aí mais gente se animou a expressar seu desejo profundo de que nossos vizinhos fossem derrotados pela Holanda, pois ninguém aqui vai torcer pra eles, né? E eu com cara de paisagem. Hummmm, eu vou sim torcer pra Argentina, inclusive porque não tenho nenhuma razão para fazer o contrário. Minha torcida funcionou, pelo menos neste caso.

Então, senhoras e senhores. Não vou sair por aí defendendo ou atacando o atual governo. Vejo nele virtudes e pecados, que são para conversas em casa ou com amigos. É o meu jeito. Mas dizer que já somos uma Venezuela, me dá vontade de rir. O que sei sobre o vizinho bolivariano do norte é o que nos chega através da imprensa, que sempre deve ser tomado com cautela, mas me parece que passa beeem longe da nossa realidade, atual ou futura.

Já a situação da Argentina, sinto no coração. Enquanto seus craques avançam na Copa, com uma torcida tão apaixonada quanto a nossa, os hermanos tentam com unhas e dentes renegociar partes da dívida contraída com os tais fundos “abutres”, que, como diz o lindo nome, não estão aí para fazer graça, mas para se fartar da carniça de países encalacrados. Se não conseguirem, vai ser uma quebradeira de verdade. Sem entrar nos detalhes, alheios à minha competência, constato, mais uma vez, que os mecanismos de empréstimos internacionais, especialmente os de origem nos fundos privados, são feitos para destruir seus credores, jamais para construir.

Como os agiotas que atuam nas periferias das grandes cidades. Cada grupo de oito ou dez famílias tem o seu, geralmente o dono ou dona do lote onde moram, que lhes empresta folhas de cheque ou o cartão de crédito para compras de roupas, eletrodomésticos, ou algum outro gasto maior, e cobra juros indecentes de vizinhos que vivem na corda bamba. Qualquer semelhança com os fundos abutres é mais do que mera coincidência.

Aguentei firme a cara de paisagem. Felizmente, chegou a minha vez, passei as compras e me livrei das matracas que já vivem na Venezuela lá delas.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O futebol e seus mistérios

por Celso Vicenzi*

Sim, há muitas explicações. Nenhuma delas suficiente, tampouco convincente. Darão boa ou má literatura, inesgotável assunto para mesas de bar e mesas-redondas de futebol na TV. Páginas e páginas serão escritas, milhões de comentários nas redes sociais. Os mais exaltados xingarão o técnico, os jogadores, o país onde vivem. Haverá oportunistas, como sempre. E também mal-educados. Não faltarão os que sempre irão se curvar diante da “superioridade europeia”, resquícios de um passado de nação colonizada que, gradativamente, parece perder sua força. Mas é possível identificar também muitos brasileiros sensatos, que amam seu país, capazes de separar vida e jogo, política e esporte, virtudes e defeitos de uma nação.

Nelson Rodrigues, o escritor que melhor traduziu o que pode acontecer dentro de um campo de futebol, criou o personagem Sobrenatural de Almeida, um fantasma que seria responsável por gols improváveis, normalmente contra o seu adorado Fluminense. É dele também a crítica aos “idiotas da objetividade”, aqueles que tentam explicar pela razão o que pertence ao imponderável.

Os gregos sabiam que há no mundo lugar para a tragédia. Haveria algo que estaria acima da vontade dos seres humanos, porque dependeria dos humores dos deuses. Nelson Rodrigues, não por acaso um dramaturgo, expressou muito bem: “O que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a compaixão. A bola é um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe.”

Há os que se agarram às explicações esportivas. Se o treinador fosse outro, se o esquema tático fosse diferente, se houvesse mais treinos, se a escalação fosse mais prudente, se outros jogadores estivessem entre os convocados, se o Neymar e o Thiago Silva pudessem jogar, se houvesse menos oba-oba, se, se, se...

Há outros que preferem adentrar searas mais “científicas”, uma espécie de “sociologia do futebol”. Perdemos porque não somos um país decente, porque há corrupção, porque somos desorganizados, porque preferimos a improvisação e a malandragem ao estudo, à disciplina, à qualificação, porque falta educação, falta saúde, falta um país...

Tudo simples. Mas não explicam como, sendo tudo isso que nós somos – e queremos ser melhores! –, somos os maiores vencedores, com cinco títulos mundiais em 20 disputados ao longo de 84 anos.

Não explicam por que a toda poderosa Alemanha, que ganhou de fáceis 7 a 1 do pentacampeão Brasil, havia empatado com Gana e penado para ganhar da Argélia na prorrogação.

Sim, nosso time atual parece não ser dos melhores, ou não teve a sorte que bafeja os campeões. Mas o que dizer, então, de potências como Itália, Espanha, Portugal e Inglaterra, que saíram logo na primeira fase? A Bélgica iria ser a sensação dessa Copa. Não foi. Houve candidatos que surpreenderam, mas ficaram todos pelo caminho. Já fomos campeões do mundo com um time apenas razoável, em 1994. Já perdemos Copas com timaços, em 1950 e 1982.

Talvez, seja justamente isso que faz do futebol um esporte fascinante, uma paixão. Porque não cabe nos manuais. Nem esportivos, muito menos “sociológicos”. Ou a organizada Alemanha teria mais títulos do que o Brasil. E campeões mundiais como França e Espanha não passariam pelo vexame de cair fora já na primeira fase, logo depois de conquistarem a primeira Copa, como aconteceu em 2002 e 2014, respectivamente. Há pequenas e grandes tragédias esportivas, para todos os gostos. O mundo, apesar dos esforços de cientistas, filósofos e teólogos, é cheio de mistérios. O futebol, às vezes, é só mais um deles.

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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A derrota na capa dos jornais impressos

Discoteca de músico: Gabriel Sader Basile


por Marcos Grinspum Ferraz    Ilustração de Victor Zalma*

Os três primeiros entrevistados desta Discoteca de Músico foram artistas acostumados a estar à frente nos palcos. Mais expostos, vocalistas naturalmente costumam chamar a atenção. O convidado desta vez, de outro modo, é um instrumentista que está quase sempre no fundo da cena, mas que de modo algum é menos importante. Aliás, se dizem que o baterista é a alma de uma banda, o Gabriel Sader Basile – ou Biel – é a alma logo de três: Memórias de Um Caramujo, Grand Bazaar e Noite Torta. Isso, além de ser percussionista do Charlie e Os Marretas e de acompanhar atualmente o compositor Maurício Pereira.

crédito: Amanda Amaral de Oliveira
Com apenas 25 anos, o Biel já tem um bom tempo de estrada, e apesar de eu já ter tido alguns contatos anteriores, só conheci melhor seus trabalhos de uns dois anos para cá. Impressiona (para além do carisma, diga-se de passagem) a capacidade com que ele transita de modo tão natural pelos mais variados gêneros musicais – do samba ao rock, do funk à música cigana –, sempre dando seus toques pessoais. E está claro, vendo o alto nível dos discos lançados pelas bandas das quais participa, que essa trajetória está apenas começando.

Pois bem. Depois de Tim Bernardes, Rashid e Bruna Caram, o Biel é o quarto entrevistado da série “Discoteca de Músico”, que mensalmente traz um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir.

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical  

O “Clube da Esquina”, de 1972, com certeza é um deles. É um clássico! As músicas, os músicos, arranjos, timbres, histórias… tudo é lindo. E eu descobri esse disco de um jeito meio coletivo. Foi uma época em que entrei na onda da "mineirice" junto com um grupo de amigos músicos muito queridos. Sempre alguém vinha e mostrava alguma coisa nova que tinha descoberto no disco ou alguma música que tinha tirado. Ouvimos muita música juntos, que é uma coisa que acho preciosa e que cada vez fazemos menos.

Um disco gringo que marcou sua formação
O “With a Little Help From My Friends”, do Joe Cocker. Gosto demais desse disco! É uma mistura de rock com soul que me pega no coração. Acho que são minhas duas maiores influências gringas. É um desses discos que se começa a tocar não dá pra prestar a atenção em outra coisa. Eu entro na onda na hora. A voz do cara é absurda e a banda é fantástica! Tem o Jimmy Page e o Steve Winwood, que é um cara que também curto a beça. Além disso tudo, a gravação tem uma cara de “ao vivo” que gosto muito. Parece que a galera entrou no estúdio, fez um take de cada música, e no fim do dia o disco tava pronto. Dá a sensação que estava tudo entalado na garganta dele há uma eternidade, ele chegou e vomitou tudo no microfone. Fora que nesse disco tem a melhor versão de uma música dos Beatles. Não é pouca coisa…

Um disco lançado nos últimos anos que te marcou profundamente
Pô, tenho ouvido muita coisa boa ser produzida hoje em dia, tanto no Brasil quanto na gringa. Acho que estamos em um momento bem fértil musicalmente. Já faz uns anos, mas em 2010 foi lançada a “Caixa Preta” com a obra completa do Itamar Assumpção. Nessa caixa vieram dois discos com composições inéditas que foram produzidas e arranjadas para a ocasião. Um deles, o Pretobrás II, foi muito importante pra mim nesses últimos anos. Não preciso falar sobre as composições nem sobre o compositor, porque isso todo mundo já sabe que são fora de série e não são dessa década… Mas esse álbum me abriu a porta para começar a entender o que é a produção de um disco. Me chamou muito a atenção como praticamente só com timbres e ostinatos colocados nos lugares certos, os arranjos – feitos em cima de algumas gravações de voz deixadas pelo Itamar – se sustentam cheios de interesse. Também tem muita coisa de produção de música eletrônica feita com MPC, que é um caminho que tenho gostado cada vez mais e tem se tornado mais frequente em sons que tenho ouvido. Gol do Beto Villares, que produziu o disco.

Um videoclipe que marcou sua formação
O clipe “Drop”, do The Pharcyde. Nem faz tanto tempo que vi esse clipe pela primeira vez, mas me marcou bastante. Acho genial como o Spike Jonze, que dirigiu o clipe, conseguiu pegar a ideia musical da base em reverse que o J Dilla fez e usar no vídeo. Rola uma sintonia forte entre música e clipe, um fortalece o outro.



Um videoclipe lançado nos últimos anos que te marcou profundamente
Curti muito o Happy”, do Pharrell. É um clipe que conseguiu usar a internet de um jeito muito criativo. É totalmente pensado para estar nela. São 24 horas ininterruptas de pessoas dançando a música da forma que bem entendem. A música começa, a música termina, aparece uma nova pessoa, a música começa outra vez e o dia vai passando… Dá pra ficar meia hora vendo o clipe, fácil! E se quiser ver de novo no outro dia dificilmente vai ver as mesmas cenas. O clipe se auto recicla, é muito bem bolado.
http://24hoursofhappy.com/

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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Lágrimas de homem abalam o machismo no futebol. E o racismo? Voa impávido em céu de brigadeiro

por Cidinha da Silva*

As lágrimas dos jogadores brasileiros pressionados pelo terror de serem eliminados da Copa das Copas ainda nas oitavas de final incomodaram muita gente. A fragilidade dos homens, quando exposta de formas convencionadas como algo característico das mulheres, neste caso, o choro copioso em situação de tensão e desespero, mexe com as estruturas enrijecidas de muita gente. Para o bem e para o mal.

Há os que se sentem incomodados porque, em síntese, acreditam que homens são machos e não devem chorar, dentre outros motivos, porque o choro denota fraqueza e os jogadores (de futebol) estão em campo como soldados para guerrear. Outros (bem poucos) defendem o choro como expressão válida de sentimentos, como válvula de escape legítima ao alcance dos canais lacrimais de todo ser humano, inclusive dos homens, humanos também. Afinal, ninguém quer passar à História com as marcas da derrota e do fracasso.

A mídia esportiva, os atletas e o espírito de novo-rico da maioria, amadurecerão muito se mergulharem profundamente na potencialidade curativa do choro. Lágrima é palavra abafada que escapa quando a maré dos olhos vaza e derrama pela face proteínas, sais minerais e gordura que lubrificam e limpam os olhos, retiram véus, diminuem a acidez e, na situação desses homens-atletas, resgata a humanidade do filme da vida vivida antes de chegar à riqueza e à fama, que pesa sobre os ombros.

O choro da Seleção Canarinho balança os pilares do machismo mais evidente, tal qual o canto do pássaro pode tocar os corações mais duros. Entretanto, a dor, a humilhação e a angústia deflagrados nas pessoas-alvo do racismo estão longe de comover os corações daqueles brasileiros que se consideram macacos, transbordantes de orgulho e “amor” nos versos cantados na arquibancada.

O capitão da Colômbia foi vaiado ostensivamente depois de ler discurso da FIFA instando todos os fãs de futebol a combaterem a discriminação racial nos campos e fora deles. Em meio aos emissores da vaia não há número significativo de negros e quando a elite branca predominante no estádio é adjetivada, a elite branca de fora (da mídia hegemônica, da indústria das celebridades e do entretenimento, das rodas intelectuais, dos blogues descolados) sente-se incomodada e vai a campo em defesa própria. Não, não somos racistas! Racismo é coisa dos Estados Unidos que os colonizados negros brasileiros querem importar. Quanto às crianças brancas que entram de mãos dadas aos jogadores em todos os jogos da Copa das Copas, é lógico que não temos culpa de serem todas brancas. Aliás, não vemos problema nisso, como não existe problema também de serem brancos os torcedores que enchem os estádios desde a Copa das Confederações.

Por outro lado, a crescente presença de jogadores negros nas seleções da França, Bélgica e Holanda, fortalece a velha máxima de que “o negro é bom de bola” e por isso está quase superando os brancos em seleções tradicionais europeias. Do lado de cá, atentamos para os nomes e sobrenomes desses jogadores, nascidos nas colônias em África e Caribe ou filhos de migrantes africanos e caribenhos e, por contingência, devido a essa contingência gerados nos países brancos. Pobres, majoritariamente, que, como os outros negros diaspóricos e africanos têm no futebol, ao qual dedicam a vida desde crianças, rara possibilidade de ascensão social. Assim se manifesta e se perpetua a versão mais palatável do racismo.

A versão mais dura, tão cotidiana quanto a primeira, manifestou-se após a agressão de Juan Camilo Zúñiga, lateral-direito da Colômbia, ao brasileiro Neymar, levando-o a fraturar uma vértebra. Atitude totalmente condenável e passível de grave punição por prática antidesportiva, num jogo em que o Brasil também bateu muito e o árbitro foi conivente com as agressões que correram a solto pelos dois lados. Em sua defesa, Zúñiga argumentou que o lance infeliz não passou de uma jogada normal e sem intencionalidade de machucar. Sim, “normal” no escopo da violência reinante no jogo, mas não na prática do futebol.

A crítica, a ira e a revolta dos torcedores tupiniquins foram deslocadas da violência praticada por Zúñiga para sua condição de homem negro. Insultos racistas e ameaças de morte foram dirigidos a ele e à mãe nas redes sociais. Xingamentos de ordem sexual foram impingidos à mãe e à filha de dois ou três anos, ameaçada também de estupro. Um show de horror racista, feminicida e pedófilo.

De todo o episódio salvam-se as atitudes exemplares de David Luíz. Alguém disse que ele é bom atleta e bom samaritano. É verdade. Ele está na contramão do evangelho do marketing pessoal. Pratica valores como a humildade, a integridade, o respeito, a compaixão, do modo ensinado pela tradição africana, a pedagogia do exemplo. Em um contexto de negação de aproximações com África, David Luíz reafirma a origem da cabeleira crespa de um homem socialmente branco. Em entrevista à TV colombiana, junto com James Rodriguez, adversário derrotado e amparado por ele, o menino dos cachinhos crespos de ouro, em bom portunhol, explicou que a garotada tem como modelo o cabelo dos jogadores famosos, mas isso não deve bastar aos musos que, por sua vez, devem também procurar se mostrar como homens grandiosos para inspirar os garotos pelos bons exemplos e firmeza de caráter.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

As últimas batalhas da Copa

por Pedro Mox*

Passadas algumas semanas do início da Copa do Mundo, o mundo já sabe quais são as quatro melhores seleções da atualidade. Restam agora duas partidas para Brasil, Argentina, Alemanha e Holanda tentarem mostrar/provar quem manda. Toda a pompa de Copa das Copas justificou-se com inúmeros bons jogos, lances exuberantes, estádios cheios e nem de perto o caos anunciado por alguns às vésperas do evento.

A despeito das boas surpresas e revelações de 2014, às semifinais chegam quatro gigantes do futebol: dentre eles apenas a Holanda não sabe o que é erguer um mundial –fato que pode ser abrandado se levarmos em conta a revolução nos gramados por eles praticada em 1974. A laranja mecânica é atual vice-campeã (sofreu 1-0 da Espanha na prorrogação em 2010) e ocupa 15a posição no ranking da Fifa. Dos onze que iniciaram a partida contra a Costa Rica, o quarteto Kuyt, Sneijder, Robben e Van Persie estiveram na África do Sul. De 1990 para cá os holandeses só não jogaram o mundial de 2002; nessas edições só chegaram à semifinais (além do vice-campeonato de quatro anos atrás) em 1998, quando perderam a decisão do 3o lugar para Croácia por 3-1. Autora de 12 gols, quase metade marcados contra a Espanha (1-5), foi vazada em quatro oportunidades. Só não marcou no 0-0 diante da Costa Rica. Será o quinto embate entre as equipes em mundiais: duas vitórias européias, uma sul-americana e um empate. No jogo mais importante, porém, melhor para os latinos: vitória por 3-1 na decisão de 78.

Seu adversário na semi teve vida mais fácil nas quartas de final. Enquanto Robben e Cia jogaram 120 minutos, mais a tensão das penalidades, a Argentina eliminou a Bélgica com um gol de Higuaín no tempo regulamentar. Mais da metade dos titulares na última partida estavam no mundial de 2010, quando os hermanos foram eliminados nas quartas pela Alemanha com sonoros 4-0. Terão grande desfalque com a lesão de Angel Di Maria, além da provável ausência de Kun Agüero. Entretanto, Messi chegou ao Brasil disposto a mudar a imagem deixada nas outras Copas – e todos sabem do que o atacante criado nas canteras Barcelona é capaz. Atual 7a colocada no ranking da Fifa, somam oito tentos na competição, sofreram três e passaram pelos dois mata-matas com vitórias simples. Na última vez que alcançaram a semifinal, em 1990, ficaram com o vice campeonato – a Alemanha venceu por 1-0. Na última vez que ergueram o caneco, em 1986, Messi tinha um ano de idade, e não deve lembrar dos feitos heróicos de Don Diego. O primeiro veio quando jogaram em casa, 1978, no qual o Brasil foi embora invicto após o fatídico 6-0 dos argentinos contra o Peru.

Algozes dos argentinos na Itália, a Alemanha tem uma boa mescla de juventude e experiência. Dos onze titulares contra a França, apenas dois não estiveram na última Copa do mundo, Hummels e Höwedes. Chegou ao país atrás apenas da Espanha no ranking de seleções. Também protagonizou uma goleada histórica na primeira fase, 4-0 ante Portugal. Marcou 10 gols e sofreu três em solo brasileiro. Klose, com 15 gols, pode ultrapassar Ronaldo e se isolar como maior artilheiro em mundiais. Em 17 participações, carimbaram vaga na semi final 12 vezes – é a equipe que mais jogou esta fase. Nos títulos conquistados, bateu a poderosa Hungria em 54 e a incrível Holanda em 74, além de 90. Nas últimas três edições, perdeu a final para o Brasil na Coréia/Japão em 2002, e foi 3a em 2006 e 2010 – jogando em casa há oito anos, derrotou Portugal por 3-1, com grande festa da torcida.

Sede do mundial, 4o colocado no ranking da Fifa, o Brasil chega à semi com uma campanha irregular. Titubeou em alguns momentos, passou por uma disputa de pênaltis e fez um jogo satisfatório contra a Colômbia. Com uma seleção que majoritariamente brilha em grandes times, campeões por vários clubes europeus, em Copas a experiência é pequena – apenas seis dos 23 convocados sabem o que é disputar uma. Única seleção presente em todas os mundiais realizados, mais vezes campeã, tem a bênção e o fardo de conquistar o hexa em casa. Dos quatro semifinalistas, é o que levantou a taça Fifa a menos tempo: bateu a Alemanha por 2-0 na Copa do Oriente. Sob a batuta do mesmo Felipão, à época com bigodes menos esbranquiçados; que apostou num esquema com três zagueiros, em Ronaldo e Rivaldo vindo de lesão, e bancou a ausência de Romário. Este, inclusive, foi o único encontro entre as duas nações acostumadas a jogarem o mundial. Nossa campanha tem 10 gols marcados e quatro sofridos; uma sofrida disputa de penalidades contra o Chile e um 2-1 contra a Colômbia nas quartas. Para enfrentar a Alemanha, nem estrela do time, nem o capitão: Neymar está fora após sofrer dura falta de Zuñiga e Tiago Silva recebeu o segundo amarelo. Entretanto, o esquete canarinho tem bons suplentes, e um treinador que costuma tirar o melhor de seus homens em situações adversas. Se ainda não convenceu, é uma equipe que tem toda condição de chegar ao Maracanã dia 13.

Com todo respeito às demais seleções, que os deuses do futebol conspirem em nosso favor e, depois de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, que 2014 possa ser o ano em que costuraremos mais uma estrela no peito.

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*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Menos é mais


por Júnia Puglia       ilustração Fernando Vianna*

Ter uma Copa do Mundo no nosso quintal significa, entre muitas outras coisas, que durante a sua realização o tempo de trabalho diminui um bocado. Tirando os dias de feriado, dedicados a ver o Brasil jogar, e aqueles com expediente reduzido, nas cidades onde ocorrem os jogos, as pessoas que gostam de futebol dão um jeito de acompanhar o que está rolando nos estádios, mesmo durante as horas de trabalho. Acho justo, pois a Copa só acontece a cada quatro anos e, vamos combinar, assistir os jogos – qualquer um deles – é muito divertido. Eu mesma não pensei que fosse tanto, mas me confesso contaminada pelo vírus desse esporte emocionante e sedutor. Poderia ser mais, se não tivessem alongado tanto os calções dos jogadores, que viraram bermudas, praticamente emendadas com os meiões, mas pelo menos alguns times estão jogando com camisetas bem agarradinhas.

É de se notar que ainda não tenha aparecido nenhum economista, financista ou administrador com cara de fuinha para calcular quanto o país perde nas horas gastas na frente da televisão. Talvez porque se sintam compensados com os muitos dólares ou euros que a turistada vai deixando por onde passa.

Em outros tempos, e honrando minha ascendência protestante puritana, eu ficava impressionada com essas contas dos feriados, mais ainda dos feriadões, que sempre pioravam bastante o notório mau humor dessa turma. A sexta-feira emendada vai custar ao país milhões de dinheiros pelas horas de folga não planejadas. A segunda-feira enforcada significou uma perda de muitos milhares de dinheiros para a produção. No mês passado, tivemos apenas quinze dias úteis. Até o dia que me veio a pergunta: por que não trabalhar é sempre visto como prejuízo? O ócio é sempre maligno? Descansar, fazer nada, afeta negativamente a tal produtividade? Assim acreditam os formuladores das teorias sobre como encher mais rápido o bolso alheio, ou como transformar a vida dos seus empregados ou subalternos num inferno de pressão e metas desumanas. O mundo do trabalho está enredado na armadilha do fazer muito e exigir ainda mais, para alimentar as engrenagens que inventamos, de moer gente.

Pois eu acredito que estamos precisando trabalhar menos e gastar mais tempo com o que der na telha, inclusive nada. Aposto que a tal produtividade ganharia, e muito, com pessoas mais relaxadas, mais conectadas com as coisas que lhes dão prazer e lhes desafiam a mente de maneira positiva, e não com essa doideira de matar um leão por dia, muitas vezes de forma mecânica, enfadonha e profundamente opressiva. O risco seria a gente querer trabalhar sempre menos. Será?

A melhor chefe que tive na vida era a primeira a sair do escritório no fim da tarde e insistir para que todos saíssemos com ela. Aliás, ela guardava na sua sala um equipamento completo para dormir depois do almoço: colchonete, lençol, máscara para os olhos e travesseiro. E ficava muito contrariada quando era acordada antes de terminar a sua sesta. Éramos uma equipe enxuta, mas muito respeitada, pela capacidade de responder a desafios consideráveis, sempre de cara boa e zero preocupação com os detalhes da matriz de resultados.

Inesquecível é também a história que li, nas memórias de Jorge Amado, sobre o cara que fabricava móveis artesanais em algum lugarejo por aí. Alguém chegou e perguntou quanto custava determinada cadeira. Ele deu o preço e a pessoa então quis saber quanto ele cobraria para fabricar oito cadeiras iguais. Ele deu uma quantia que era bem maior que a soma dos valores unitários. A pessoa argumentou, indignada: mas isto é mais do que o preço das oito somadas, quando deveria ser menos. Ao que ele retrucou: menos? De jeito nenhum. Fazer oito iguais é aborrecido bem muito.

Em tempo: essa Copa do Mundo está boa demais. Podia ter todo ano, né?

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Ele eminhocado

1964 + 50 
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

 (Episódio 12)


por Fernanda Pompeu  ilustração Fernando Carvall

Março de 2010
A matéria soava fácil por conta dos fatos inequívocos, registrados por celulares e câmeras de TV. O governador paulista, José Serra, não impediu que a tropa de choque baixasse a borracha numa manifestação de professores. Educadores apanhando, em frente à sede do governo, era notícia quente e grave. Mas Ele, o redator, titubeava. Não conseguia escrever direito. Culpar um governador? Ele suava. No dia seguinte, sua matéria saiu em espaço nobre da publicação. Mas veio com frases mornas num texto molengamente burocrático.

Dezembro de 1976
O acaso o colocou na Rua Pio XI, no paulistano bairro da Lapa. Recém-admitido em um grande jornal, Ele nunca passava por essa rua para chegar no emprego. Mas nesse dia, optou por variar a paisagem. Estava curtindo a quietude das 7 horas da manhã, quando seu cérebro deu uma parada ao ouvir o berro de fuzis.

Então Ele vê a casa de número 767 sendo atacada. Porta, janelas, basculantes e até pedaços do reboco do teto tremem sob o impacto da fuzilaria. Há grande quantidade de militares e policiais. Seu cérebro volta a trabalhar, Ele se protege atrás de um carro e espera que o matraquear cesse. A coisa toda dura mais de vinte minutos.

Depois vem o silêncio. Parecido com o pesado silêncio que desce nos minutos seguintes às cerimônias dos enterros e cremações. Aquela espécie de nada a dizer, nada a acrescentar. Agora, em frente à casa atacada se forma uma confusão de policiais à paisana, militares a rigor, vizinhos e curiosos. O tal instinto de repórter aparece nele. Furtivo e corajoso ao mesmo tempo, Ele consegue entrar na casa. Vê dois corpos mutilados pelos balaços. Também vê uma mulher ferida.

Hora depois, já na redação do jornal, Ele fica sabendo que os mortos eram os dirigentes do PCdoB Ângelo Arroyo e Pedro Pomar. A mulher feriada era a militante Maria Trindade, encarregada das tarefas domésticas da casa. Essa informação chegou em uma nota oficial emitida pelo II Exército, assinada pelo general Dilermando Gomes Monteiro. O texto afirmava que os policiais, ao darem voz de prisão, foram recebidos à bala.

Ele correu ao editor para contestar a versão oficial. Pois havia visto o ataque e os corpos sem nenhuma arma em volta. Sabia que Arroyo e Pomar morreram sem chance alguma de reação. O editor o proibiu de escrever qualquer matéria a respeito. Desmentir os militares seria loucura. Saiu-se com um provérbio de efeito: "Molhar o leão é fácil, enxugá-lo é que são elas."

Julho de 2014
Ele está em casa assistindo aos jogos da Copa do Mundo. Não tem pressa alguma em fazer nada. Faz tempo que deixou de ser um jornalista de papel. Hoje é colaborador em um portal digital de notícias. Escreve sobre qualquer assunto, excetuando Política e História. Da primeira, quer distância amazônica. Da segunda, mantém um difuso sentimento de culpa. Naquela manhã de 1976, na Lapa, ele testemunhou a verdade e não pôde escrever sobre ela.

É claro que depois da Ditadura, outros escreveram. Mas ter perdido aquele furo, matou o repórter que havia nele.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

terça-feira, 1 de julho de 2014

A ideologia do fracasso

por Celso Vicenzi

Manchete da Folha de São Paulo de domingo, dia 29 de junho, após a vitória brasileira nos pênaltis contra o Chile: “Júlio César e trave salvam Brasil de vexame em casa”.

Há muito tempo – mas cada vez mais – os maiores veículos de comunicação do país têm feito escolhas editoriais que procuram menosprezar os avanços sociais e criar um sentimento de derrota, em todas as áreas. Tentaram de tudo para transformar a Copa do Mundo num pesadelo nacional e não pouparam más notícias. Algumas catastróficas (caos aéreo, imobilidade urbana, violência etc).

A Copa não foi um primor de organização, mas está longe de comprometer o espetáculo. Pelo contrário: os estádios estão cheios, os turistas e torcedores – exceções à parte – só têm elogios para o clima de alegria e fraternidade. Os imprevistos são aqueles comuns a qualquer grande evento em qualquer lugar do mundo. Os gastos com estádios, que pareciam fora da realidade, revelaram-se bem menos exorbitantes do que a imprensa tentou incutir entre os brasileiros. Segundo a própria Folha, o equivalente a uma semana do que se investe em educação no país. E parte do dinheiro investido é empréstimo e retornará aos cofres públicos. Quase nenhuma reportagem abordou as vantagens de sediar a Copa, os empregos gerados, os investimentos realizados na infraestrutura, que irão permanecer. E mais do que tudo: quanto vale uma imagem positiva do país, como esta que parece que os turistas e as seleções que aqui estiveram estão levando a seus países? Quanto vale ser o centro da atenção do mundo por 30 dias? Quanto vale mexer com a autoestima de um país? E, aqui, não me refiro ao desempenho da seleção, mas à alegria de receber elogios à nossa hospitalidade, às belezas do país, às virtudes de nosso povo.

Vale muito. E é por isso que a Folha – aqui apenas como exemplo, pois representa o pensamento de boa parte da nossa mídia – exagera e tenta criar na população brasileira, em contraponto à autoestima que vive neste momento, um clima de menosprezo ao seu país. Perder um jogo, ainda mais em Copa do Mundo, desde que não seja por um placar elástico, nunca foi nem nunca será um vexame. Temos a mania de achar que, sobretudo no futebol, qualquer adversário é fácil de ser batido. Mais do que isso: não basta vencer, é preciso dar show, é preciso dar olé. Nas derrotas, dificilmente o brasileiro reconhece as qualidades do time adversário, preferindo encontrar culpados: o treinador, o goleiro, um ou mais jogadores. Nesta Copa, o último campeão – a Espanha – não passou da primeira fase e foi fragorosamente derrotado por 5 a 1 na estreia. Depois de vencer a Copa de 1998, no mundial seguinte, a França também não passou da primeira fase, perdendo dois jogos e empatando um. Saiu do mundial sem ter feito um único gol. Imaginem se fosse o Brasil!

A seleção brasileira não tem a obrigação de vencer a Copa porque joga em casa. É apenas um dos favoritos. Das 19 Copas já realizadas, em apenas seis o campeão foi o país sede: Uruguai em 1930, Itália em 1934, Inglaterra em 1966, Alemanha Ocidental em 1974, Argentina em 1978 e França em 1998. Ou seja, ganhar em casa é exceção. A disseminação do espírito “vira-lata”, como bem o definiu o escritor Nelson Rodrigues, do país que nunca faz nada certo, o exagerado endeusamento de outros países, resquícios de uma nação que foi colonizada, tudo isso ganha amplitude em boa parte da mídia brasileira. A crítica é fundamental, mas a manipulação de fatos com interesses políticos e econômicos torna-se evidente, em milhares de exemplos no cotidiano de boa parte de nossas emissoras de rádio e TV, revistas e jornais – agora também em portais mantidos pelos principais veículos de comunicação.

Temos grandes problemas a resolver no país, entre eles a necessidade de democratizar os meios de comunicação – o que tendenciosamente a mídia traduz por censura, omitindo que vários países democráticos impedem tamanha concentração da propriedade dos meios de comunicação e impõem regras que levam em consideração muito mais o interesse da população do que o dos donos desses veículos.

A ideologia do fracasso, do “vira-latismo” – já quase uma ciência! – gera na população a falsa ideia de que tudo de pior que acontece no mundo ocorre com mais intensidade no Brasil. No entanto, não somos o país mais corrupto, embora sejamos um dos mais desiguais. Segundo a ONG Transparência Internacional, o Brasil ocupa a 72ª posição entre 177 países. Apesar de ser a sétima economia do planeta, é o 12º com maior desigualdade – o quarto na América Latina. E quando se instituem programas como o Bolsa Família, elogiado pela ONU como exemplo no combate à miséria, a desinformação e a omissão da mídia levam boa parte da população a considerá-lo apenas um programa eleitoreiro ou um gasto desnecessário e sem resultado.

Embora não se diga, setores poderosos da economia e da política brasileira, da nossa elite, têm muito a ganhar com a corrupção. A honestidade tem um custo que nem todos estão dispostos a pagar. Gostamos de alardear a meritocracia num país que se notabiliza pelo apadrinhamento das relações, já amplamente estudado por vários sociólogos e intelectuais.

Por vias tortas, o Brasil vive um momento peculiar da sua história, marcada até aqui principalmente por um passado colonialista, escravocrata e ditatorial. Vivemos o mais longo período democrático e estamos aprendendo a enxergar o que de fato impede a criação de um país mais justo e com melhor qualidade de vida. Durante séculos, tentaram culpar o povo – miscigenado, analfabeto, ignorante, malandro – pelo “atraso”. Hoje, está mais claro que nos falta uma elite disposta a empoderar o povo, libertá-lo da opressão e da exclusão em que vive, derrubar privilégios entre os mais ricos e dividir a riqueza para que alcancemos o desejado patamar de um país com mais justiça social, melhores serviços públicos, mais qualidade de vida e menos violência (sem esquecer que a desigualdade social é a maior de todas as violências). Contra a ideologia do fracasso, das frases feitas do tipo “aqui nada dá certo”, “o Brasil é assim mesmo”, “o governo não faz nada”, “o brasileiro não trabalha”, “o povo não sabe votar” e outros chavões, há que se disseminar um sentimento de construção, de valorização do que temos de melhor, de crítica ao que precisamos mudar, mas, sobretudo, de responsabilidade pelo país que somos.

Sem ufanismo, mas também sem catastrofismo. Para isso, ajuda muito um bom jornalismo.

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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.
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