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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A casa da varanda

“Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar.”

Edgar Allan Poe, ‘O Gato Preto’


Há cerca de um ano, apareceu na casa amarela que avisto do meu quintal uma placa de “aluga-se”. Simpática, a casinha é bem iluminada pelo sol e tem uma grande varanda na frente. Por curiosidade, e uma certa mania que tenho de ver imóveis em geral (reflexo de quem mora e já morou em muitas casas alugadas?), peguei a chave no bar da esquina e fui ver a casa.

O terreno é íngreme: a casa é incrustada num morro. Uma escada comprida e estreita leva à entrada. Passados os degraus um tanto incômodos, à direita está o acesso à casa, feito pela porta da cozinha – uma marca registrada desse tipo de construção tão comum em São Paulo: casas geminadas, quase sem terreno, encarapitadas umas nas outras, construídas por um unico dono (e talvez em algum momento de sua origem sendo apenas uma única casa) e depois alugadas continuamente, passando por dezenas de locatários e suas histórias ao longo dos anos. À esquerda desse primeiro cômodo, o tradicional “banheiro na cozinha”; à direita uma sala mínuscula, um quarto pequeno e outro grande, dando para a gostosa varanda.

Se, ao invés de acessar a parte interior da casa ao término da incômoda escada inicial, o visitante seguir pelo corredor lateral, chegará a um pequenino quintal cimentado; acima dele, ainda nos limites do terreno da casa, uma parte de terra com uma única árvore: uma mangueira, não muito grande, não sei se nova ainda ou se pequena pela falta de espaço para crescer.

Depois o muro e atrás dele o resto de morro com o matagal maltratado que se estende até o muro da próxima casa, que já dá frente para a rua de cima. Uma casa simples, mas gostosa. Uma casa que eu moraria quando era mais nova, pensei.

Passado pouco tempo, a casa foi alugada. Do meu quintal tive as primeiras visões dos habitantes e visitantes da casa: meninos e meninas jovens, uma rede na varanda. Gostava de observá-los conversando, um deitado na rede com um laptop ou livro no colo, outro sentado no muro fumando com longas e despreocupadas baforadas.

Às vezes havia festas: acendiam velas pela varanda e daqui eu podia ouvir a música, de boa qualidade e em volume razoavelmente aceitável para os vizinhos. No outro dia, ao levantar cedo com minha bebê, via a varanda com cara de ressaca, os restos da festa iluminados pelo sol. Os ocupantes da casa dormiam lá dentro, talvez muitos em uma só cama, talvez com amigos sem rumo dormindo no sofá da sala – se é que existia um.

Aos poucos identifiquei pelo menos uma moradora fixa da casa da varanda: uma menina, cabelos escuros e longos. Se nos finais de semana a varanda servia para as festas, durante a semana eu a via estendendo roupa lavada com calma e esmero. Sentia uma certa identificação com ela – era como se visse a mim mesma há algum tempo atrás, ou a uma amiga próxima.

O tempo passou e a casa ao lado da casinha da varanda começou a ser aumentada no tradicional estilo puxadinho. O corredor lateral, antes aberto e iluminado, foi sufocado por um grande muro – a recém-erguida parede da casa ao lado. Pensei com tristeza que as janelas da casa da varanda, todas laterais, deviam ter sido praticamente tapadas pela parede vizinha, ainda sem acabamento. Era uma casa simples mas agradável; tornou-se uma casa simples e escura. Mas a varanda, simpática e iluminada, permaneceu.

Só que a alegria da varanda sumiu. Ainda via a rede pendurada, mas agora sempre vazia. Eventualmente via algumas roupas no varal, mas nunca mais pude observar sua jovem e esmerada lavadeira estendendo as peças. Nunca mais festas, velas ou música. A varanda silenciara. Pensei que talvez a menina dos cabelos escuros e longos tivesse se mudado.

Na minha casa não tem gato nem cachorro. E, apesar de bem acessível para os que andam pelos telhados da vizinhança, nunca tive visitantes de quatro patas e bigode. Faz no máximo um mês que comecei a receber a visita insistente de um gatinho branco e cinza.

Miador e nada arisco, ele passou a viver na minha lavanderia; entra aqui fugindo de um enorme e assustador gatão branco e – folgado – já apareceu até mesmo dentro da minha sala (e fugiu, assustado com o meu susto). Tomei uma certa simpatia pelo bichinho e certa vez lhe ofereci pedaços de presunto, que ele retribuiu se esfregando à maneira dos gatos. Esta semana ele apareceu demais por aqui, a ponto de eu ter considerado a possibilidade de efetivamente adotá-lo como morador da casa.

Quarta-feira à tarde juntou gente na rua. Um rapaz, bermuda e camiseta, chorava muito e falava incessantemente ao telefone. Polícia, bombeiros, a vizinhança em volta. A menina dos cabelos escuros e longos se matou.

Enforcou-se na mangueira, e não se sabe quando. Foi vista pela última vez na segunda-feira. Tinha vinte e cinco anos; deixou a rede pendurada e algumas roupas no varal. Os outros habitantes da casa haviam se mudado e ela vinha morando sozinha há algum tempo. Não tinha família na cidade. O amigo de bermuda e celular permaneceu ao redor da casa durante todo o dia, até o carro dos bombeiros sair, já de noite. Não o vi entrar na casa novamente.

O gatinho branco e cinza esteve aqui em casa desde cedo. Uma senhora veio ao meu portão e disse: esse é o gato da moça que se enforcou.

A luz da varanda está acesa desde então. Ninguém parece ter tocado na rede ou nas roupas do varal. Ontem à noite o gatinho miou forte aqui no quintal. Não o vi, mas sei que é ele.

Acendi uma vela para a moça dos cabelos escuros e longos e levei minha filha para dormir comigo.

Sofia Amaral, produtora e roteirista, especial para o Nota de Rodapé. Com ilustração de Caco Bressane

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Uma vergonha que nos une

Mona Lisa sem seu encatador sorriso e com o olho roxo no
cartaz de um concurso europeu sobre violência contra a
mulher. O autor é Luis Silva, de Portugal.
Há pouco mais de dois meses moro em Salamanca, uma cidade universitária espanhola de cerca de 150 mil habitantes onde a violência é coisa rara. “Mais tranquila que o pátio de um convento de freiras”, definiu um amigo colombiano.

Para quem vem de Bogotá (como ele) ou de São Paulo (como eu), viver aqui é um agradável exercício diário de desconstruir algumas paranoias. Entre elas, a do perigo das madrugadas. Em qualquer dia da semana é comum garotas caminharem sozinhas, saídas das discotecas rumo a suas casas.

A possibilidade de acontecer algum tipo de violência com elas é quase a mesma de que caia um meteoro em suas cabeças.

Mas na semana passada, nem bem o relógio marcava nove da noite, a calma da cidade foi interrompida por um homem de 66 anos, que “armado” de um machado, atacou sua companheira (dois anos mais velha que ele) a poucos metros da praça central.

Dizem as testemunhas que a senhora só não foi morta no ato porque um herói anônimo (que acabou ferido) conseguiu dominar o agressor que não tinha passagem pela polícia. Ela está na UTI.

A Espanha, em geral, é um país que não padece da violência que nós, os latino-americanos, sofremos diariamente. A maior causa de morte no país é o câncer e não traumas causados por balas ou acidentes de carro. Ver alguém armado, ler sobre ataques a bancos ou assaltos a casas não é algo corriqueiro nem mesmo nas cidades grandes – ainda que esse tipo de violência venha crescendo nos últimos tempos.

Recordo uma pequena discussão que aconteceu na Colômbia durante uma oficina de jornalismo que participei. Uma colombiana, um pouco brava com os comentários duros do professor, um espanhol, o acusou (e citou a Espanha toda) de ser grosso, mal-educado.

há algo que (infelizmente) une espanhóis e latino-americanos: as agressões contra as mulheres.

A resposta dele, meio em tom de brincadeira e algo de sarcasmo, foi de que ela tinha razão, que os espanhóis se desentendiam por tudo, falavam alto, mas não eram como esse gente “amável” que se mata nas ruas depois do segundo copo de bebida. Fazia referência à banalização da solução pela bala que impera em muitos países do nosso continente.

No entanto, há algo que (infelizmente) une espanhóis e latino-americanos: as agressões contra as mulheres.

Na sexta-feira foi celebrado o dia contra a violência de gênero. O jornal El País compilou todas os homicídios que noticiou neste 2011 relacionados ao assunto. São 54 relatos que têm muito pouco em comum além da covardia praticada por homens contra suas companheiras (ou ex).

O perfil das vítimas e dos assassinos é variado, democraticamente dividido entre classe social, idade – a mais jovem das mortas tinha 18 anos e a mais velha passava dos 70 – e nacionalidade.

Espanholas, brasileiras, chinesas, suecas, italianas, colombianas, bolivianas, peruanas que sucumbiram após serem atacadas a golpes de facas, canivetes ou qualquer objeto capaz de ferir (o uso de armas de fogo é raro).

Em muitos dos casos não “bastava” aos agressores matar, queriam desfigurar suas vítimas, botar fogo em seus corpos, destruí-las.

Diferentemente da maioria dos países da América Latina a Espanha tem um sistema jurídico e uma polícia que funcionam bastante bem. Tem leis que protegem a mulher (como a Maria da Penha, no Brasil), canais efetivos de denúncias e muitas campanhas contra a violência de gênero.

Ainda assim, as agressões e ameaças persistem.

Chama a atenção nos relatos do El País que a grande maioria dos agressores foram presos minutos depois do ato praticado. Muitos deles inclusive ligaram para a polícia avisando que haviam cometido um crime e/ou esperaram pacientemente a chegada das autoridades.

A fama de “macho latino-americano”, a violência epidêmica e a certeza da impunidade poderiam explicar, em parte, porque essa prática primata de se agredir a uma mulher ainda persiste em muitos países da América Latina.

Mas como justificar que em lugares onde nenhum desses fatores acima citados se aplicam ainda existam tantos casos de homens que, por não aceitar que o amor acaba, agridem e matam?

Ricardo Viel, jornalista, colunista do Nota de Rodapé e do Purgatório

sábado, 26 de novembro de 2011

Centenário das muitas artes de Mário Lago

Mário Lago completaria 100 anos hoje. Boêmio e comunista assumido, Lago se destacou como poeta, escritor, dramaturgo, ator e torcedor do Fluminense. 

Mas o que que muita gente não sabe é que Lago, para além desse ecletismo, tinha uma inquietude social, desaguada na sua vertende de ativista político, o que o levou a se filiar ao Partido Comunista Brasileiro. Foi detido sete vezes ao longo da vida, a primeira vez, em 1932.

Muito há que se escrever sobre ele. No entanto, pego carona no projeto de seu centenário, “Homem do Século XX”, organizado por sua família. Em www.mariolago.com.br estão previstos documentário, exposição, um selo pelos Correios, uma estátua na praça Mario Lago, no Centro do Rio, e mais dois CDs – um de canções inéditas e poemas musicados por compositores como, por exemplo, Caetano Veloso, Lenine, Jards Macalé e Arnaldo Antunes.

O site também permite baixar o livro “O povo escreve a história nas paredes”, escrito por ele em 1948, que é curtinho, 31 páginas, o qual li e destaco A BANHA DOS OPORTUNISTAS – paródia de “Ai que saudades da Amélia", outra canção famosa, um tanto polêmica, acusada de ser machista. 

Nunca vi fazer tanta promessa
como em véspera de eleição.
Até a banha que é escassa anda à bessa
em troca de votos pra reação.

Palavras mil gasta a imprensa sadia
pra o povo nos demagogos ter fé.
Falando muito em democracia
que é coisa que ela não sabe o que é

Mas hoje o povo não é mais Amélia
que achava bonito não ter que comer.
Sabe o valor do seu voto e já sabe
quem seus problemas irá resolver.
É inútil a banha dos oportunistas.
O voto do povo é dos comunistas.

Para fechar, num especial sobre músicas carnavalescas, apresentado na década de 90 na TV Cultura, por outro notável, Paulinho da Viola, Lago fala da camaradagem entre os compositores e, no fim, entre um trago de cigarro e outro, dá uma palhinha de uma de suas marchinhas mais famosas, parceria com Roberto Roberti, “Aurora” (“Se você fosse sincera/ veja só que bom que era”) que estourou no carnaval de 1941.

Mario Lago faleceu em casa em 2002 aos 90 anos. Leia a cronologia resumida de sua vida e o ótimo especial multimídia do Estadão. 



Thiago Domenici

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Nem com uma flor

Hoje, 25 de novembro
#FimDaViolênciaContraMulher
Pátria, Minerva e Maria Tereza Mirabal eram as líderes do movimento de libertação política na República Dominicana chamado Las Mariposas.

Elas foram assassinadas numa emboscada, em 1960, durante a ditadura de Rafael Leonidas Trujillo, assassinado no ano seguinte, pondo fim ao período repressor.

Por conta do brutal assassinato das Mirabal a ONU, em 1999, declarou o dia 25 de novembro como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher.

Cinco anos da Lei
Maria da Penha

“Acordei de repente com um forte estampido dentro do quarto. Abri os olhos, não vi ninguém. Tentei me mexer, mas não consegui. Imediatamente fechei os olhos e só um pensamento me ocorreu: ‘Meu Deus, o Marco me matou com um tiro’”, relembrou no vídeo abaixo a bioquímica Maria da Penha Maia Fernandes, que deu nome à Lei nº 11.340, sancionada em 7 de agosto de 2006, há cinco anos em vigor.



Por aqui, a progressista Lei responsabiliza família, Estado e sociedade pela garantia dos direitos da mulher, prevendo ainda a elaboração de políticas públicas para resguardá-los. Com ela, o Código Penal foi alterado e permite que agressores sejam presos em flagrante ou tenham prisão preventiva decretada.
“Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, deixando o país em 12º lugar no ranking mundial de homicídios de mulheres.”  
Outras medidas para proteger a mulher, como por exemplo, a saída do agressor de casa, a proteção dos filhos e o encaminhamento das vítimas e seus filhos para uma casa abrigo foram incorporadas.

A questão, no entanto, continua grave apesar de cada vez mais mulheres denunciarem seus agressores. A lei foi um passo fundamental, mas ainda não funciona em todos os casos – a maior parte das mulheres assassinadas por companheiros ou ex-companheiros já havia registrado queixa contra o agressor.

E inúmeros casos de violência e feminicídios acontecem todos os dias. Segundo o Mapa da Violência 2010, do Instituto Sangari, “Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, deixando o país em 12º lugar no ranking mundial de homicídios de mulheres.”

O machismo quando chega ao ponto da covarde agressão em suas variadas formas é uma excrescência dessa cultura perpetuada no seio do conservadorismo e que deve ser combatida diariamente, principalmente na educação das novas gerações.

Quando nos deparamos com dados que dizem que a maioria das vítimas – 40 % delas têm entre 18 e 30 anos – é morta por parentes, maridos, namorados, ex-companheiros ou homens que foram rejeitados por elas, revela-se a magnitude do desafio a se enfrentar.

Alguns dados, segundo a ONU:
◯ cerca de 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência;
◯ a forma mais comum de violência experimentada pelas mulheres em todo o mundo é a violência física praticada por um parceiro íntimo;
◯ uma em cada cinco mulheres se tornará uma vítima de estupro ou tentativa de estupro no decorrer da vida;
◯ 80% das pessoas que são traficadas anualmente em situações de prostituição, escravidão ou servidão, são mulheres.

Para saber mais, recomendamos:
◯ Em caso de violência ligue para 180 para receber orientação.
◯ Campanha da ONU: Una-se pelo fim da violência contra as mulheres
◯ Boletim do CFEMEA: Mulheres pelo fim da violência contra mulheres negras
◯ Geledés – Instituto da Mulher Negra
◯ Portal Quebre o Ciclo.
◯ Entenda o que é feminicídio.

O texto é uma parceria de Natalia Mendes do TodasNós e Thiago Domenici do Nota de Rodapé e faz parte da Blogagem Coletiva proposta pelas Blogueiras Feministas.

Estadão, boo!

Estadão, que reescreve diariamente a história do Brasil, assusta-se com revisão da história argentina

Não deveria causar espanto a notícia de que a presidenta da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, criou um instituto para revisar a história do país. Primeiro porque não é novidade. Segundo porque é necessário para dar a genocidas o lugar que lhes reserva a história: o de genocidas, e nada mais.

A notícia incomodou o jornal aristocrata O Estado de S. Paulo, a ponto de ao Instituto de Revisionismo Histórico Argentino e Iberoamericano dedicar uma reportagem e um editorial acusando a presidenta de querer “reescrever a história argentina”.

Os comandantes do diário paulista podem sofrer de inúmeros defeitos, mas sabem bastante bem a diferença entre “reescrever” e “revisar”. Reescrever ganha o contorno de manipular, mentir, distorcer, escrever sem rigor científico. Revisar, o verbo que figura oficialmente como motivo da nova entidade, é passar a limpo.

É digno de estranhamento que um jornal que se dedica diariamente a reescrever a história do Brasil se espante com a iniciativa argentina. Notório o caso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem o Estadão tenta constantemente acirrar com Dilma Rousseff, ignorando as seguidas declarações desta em favor daquele.

Exercício
constante

Passar a limpo deveria ser um exercício constante de uma sociedade, como a brasileira, que ora tenta passar a limpo o ocorrido durante a ditadura (1964-85).

Diz o decreto assinado esta semana por Cristina que a instituição terá o papel de “estudiar, investigar y difundir la vida y la obra de personalidades y circunstancias destacadas de nuestra historia que no han recibido el reconocimiento adecuado en un ámbito institucional de carácter académico, acorde con las rigurosas exigencias del saber científico”.

Evidente que não se coloca a mão no fogo por ninguém na política, menos ainda na política argentina. Não seria sensato atribuir à presidenta uma atitude desprovida de interesses, guiada unicamente pelo conhecimento da verdade e pelo resgate da memória.

O Instituto de Revisionismo Histórico não tem, claramente, a intenção de ser o reduto da neutralidade, simplesmente porque não se dá à ingenuidade de supor que possa haver tal elemento na historiografia ou em qualquer atividade humana, sempre guiada por um conjunto de valores intrínsecos que, por si, eliminam a possibilidade de uma visão neutra da realidade.

O decreto, novamente, não deixa dúvidas de que a finalidade da instituição “será el estudio, la ponderación y la enseñanza de la vida y obra de las personalidades de nuestra historia y de la Historia Iberoamericana, que obligan a revisar el lugar y el sentido que les fuera adjudicado por la historia oficial, escrita por los vencedores de las guerras civiles del siglo XIX”.

A presidenta enumera quais personalidades acredita estarem incluídas neste grupo, como Evita Perón e Juan Domingo Perón, José de San Martín e Hipólito Yrigoyen.

Mais que enaltecer o trabalho desta ou daquela figura, o instituto terá utilidade se contribuir para que se revisem os livros de história apresentados em colégios argentinos, ainda capazes de atribuir a Julio Argentino Roca, general e presidente da virada dos séculos XIX e XX, um papel positivo na chamada “conquista da Patagônia”. Q

ue a nota mais valiosa de um país – no caso, a de cem pesos – seja estampada por um genocida que matou 1.300 indígenas e fez 12 mil prisioneiros é algo que diz muito, que fala por si, e que precisa dar lugar a uma nova história.

É bem verdade que é preciso se preocupar com as falsificações da versão oficial. Foi a ladainha repetida ao longo de décadas que permitiu que o litígio com a Inglaterra no caso das Malvinas ocupasse uma reserva de luxo na política externa argentina.

Ao menor sinal de dificuldade, o governo de turno poderia apelar ao conflito com os ingleses ciente de que uma população adestrada durante meio século sobre o assunto lhes apoiaria, e foi isso que levou os militares, em 1982, a empreenderem um combate ensandecido que resultou na morte de argentinos e que lhes deu o tempo necessário para a pilhagem final do Estado.

Bem antes disso, representações cartográficas tendenciosas colocadas em livros escolares foram o mote para um acirramento das posições argentinas e chilenas em torno dos territórios ao Sul, que só não resultaram em guerras de grande gravidade para o continente por conta de negociações pontuais.

Estanislao Zeballos, por três vezes chanceler argentino entre os séculos XIX e XX, valeu-se de mapas fajutos na tentativa de levar ao conflito bélico – o ministro xenófobo e racista também tinha intenção de ocupar militarmente o Brasil, é bom que se lembre.

É destes vencedores que Cristina fala em seu decreto. O Estadão, barão do café, ruralista e aristocrata, vencedor desde o século XIX, tem muito a se arrepiar com a revisão da história. Caso o fizéssemos no Brasil, seria reservado ao jornal o lugar que lhe é de direito.

João Peres, jornalista, colunista do Nota de Rodapé e repórter da Rede Brasil Atual

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Pena de aluguel

Nunca passou pelo meu coração, quando jovem, escrever por encomenda. Como 90% dos aspirantes a escritores, eu imaginava que editores, críticos e leitores se curvariam à excelência da minha prosa. Eu poderia até ter alguns originais recusados. Mas o tempo, acreditava, cuidaria de reparar flagrante injustiça.

Todo aspirante a autor tem suas predileções. Modelos a reverenciar. Jamais pensei em ser um Honoré de Balzac – o das Ilusões Perdidas – a criar por encomenda embaixo de suor e pressão. Queria mais era ser um Gustave Flaubert – o da Madame Bovary – a procurar a palavra perfeita para a frase perfeita dentro do perfeito parágrafo.

Levei tão a sério a influência, que passei dez anos escrevendo um romance bordado. Acordava às cinco da matina, engolia um café e dois cigarros, e dedos no teclado. Primeiro dedos em uma olivetti letterra 22. Depois em um PC com tela de fósforo verde. Nessa época eu acreditava que a forma seguia a forma.

Paralelo à escrita do grande romance, eu era roteirista de vídeo e televisão. Roteiros encomendados que pagavam as minhas contas. Só que eu desprezava o ofício. Não queria escrever o que os clientes queriam que eu escrevesse. Para piorar, roteiros depois de filmados vão para a lata de lixo. Insuportável.

Mas nada como o desenrolar da vida para retificar as distorções da mocidade. Concluído o romance, de escrita barroca e dificílima, colecionei um portfólio de negativas editoriais. Além dos sorrisos constrangidos dos amigos que tentaram ler, mas desistiram nas primeiras páginas. Para não ser injusta, quatro deles chegaram ao final. Minha estreia literária foi uma não estreia. Resumindo em duas palavras: um fracasso.

Tentei novamente com um livro de microcontos, o 64. Ele não tem nada de barroco. É uma escrita direta e curta. Foi publicado primeiro pela Am3artes e depois pela Brasiliense. Novamente não aconteceu nada. O livro ficou invisível. Ao todo, recebi cento e oitenta reais de direitos autorais. Menos do que pago mensalmente pela conta do celular. Também não funcionou como cartão de visita. Ninguém me convidou para escrever em veículo algum por ter lido o 64.

No entanto vocação é teimosia. Não abri mão das palavras, me atirei na redação por encomenda. Deixei que o dono da flauta escolhesse a melodia. Descobri a diferença entre escritora e redatora. A primeira escreve o que quer, a segunda o que o cliente deseja. Que assim fosse.

Fiz de tudo: roteiros, reportagens, perfis, matérias, textos institucional, publicitário, panfletário. Fiz frases para cartões de aniversário, casamento, dia das mães e dos namorados. Redigi o menu de uma doceira que me pagou com uma torta de nozes. Levei calote de alguns clientes. Também senti orgulho de muitos trabalhos.

O fato é que não entrei no seleto clube dos autores literários profissionais. Entrei sim na divertida oficina dos escribas. Esses loucos pela escrita. Não importa se a encomenda é redigir bula de remédio, revista de supermercado, site de autoescola. Importa que você está escrevendo.

Foi então que apareceram os blogs. Esses espaços maravilhosos que permitem que a gente escreva o que a gente é. Permite que a gente experimente com liberdade e gosto. Fora a delícia de soltar a escrita para o grande mundo. Imaginar, como no universo da velha literatura, que há um leitor em Belford Roxo e uma leitora em Rabat.

Tal satisfação não tem preço. Mas também não paga nenhuma conta. Nem a da água. Neste momento em que escrevo aqui para o Nota de Rodapé, me ocorre que a verdadeira paga é ter leitores. Bons leitores que reescrevem em suas mentes o que escrevinho na tela. Leitores que me fazem esquecer que existem contas a vencer.

fernanda pompeu, escritora e redatora freelancer, colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto.

Freddie Mercury, 20 anos

Há exatos 20 anos o líder do grupo Queen, o tanzaniano Freddie Mercury, morria aos 45 anos em consequência das complicações do vírus da Aids. No último 5 de setembro ele faria 65 anos. E foram muitas as homenagens como essa do Google, a seguir.



Eu, que infelizmente não estive lá, mas indico sempre que possível, lembro da aprensentação da banda no Rock in Rio de 1985.

Eles tocaram a linda música  Love of My Life (no vídeo abaixo) que foi escrita por Mercury - bissexual assumido - em homenagem a Mary Austin, com quem teve um longo relacionamento no início dos anos 70.



Thiago Domenici

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Afinal, o que é o índio para a sociedade brasileira?

Denúncia de execução de cacique e desaparecimentos colocam em risco existência da comunidade guarani kaiowá em Mato Grosso do Sul; estudantes indígenas publicam protesto.


Eram 6h30 de sexta-feira passada, 18 de novembro, no acampamento Tekoha Guaiviry, entre os municípios de Amambai e Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, a menos de cem quilômetros da fronteira com o Paraguai.

Ali uma comunidade kaiowá guarani foi atacada por um grupo de aproximadamente 40 pistoleiros munidos com armas de grosso calibre.
Nísio: desaparecido desde sexta-feira, 18 de novembro

As descrições do bando apontam um grupo mascarado e com jaquetas escuras que entrou em fila no acampamento e ordenou que os índios deitassem no chão.

Segundo relatos da comunidade o objetivo central do ataque era o assassinato do cacique Nísio Gomes.

Ele foi morto com tiros de calibre 12 – na cabeça, no peito, nos braços e nas pernas – e o corpo levado pelos pistoleiros, algo comum em massacres cometidos contra os kaiowá guarani no estado.

A comunidade conta que o filho de Nísio tentou impedir o assassinato e se atirou sobre um dos pistoleiros. Apanhou muito, mas seguiu tentando salvar o cacique. Os assassinos somente conseguiram contê-lo com um tiro de bala de borracha no peito. E executaram o pai diante de seus olhos.

Existem denúncias de que mais três jovens teriam sido sequestrados e que também uma mulher e uma criança teriam sido mortas. A informação vem de um grupo de 12 mulheres que conseguiu escapar e chegar até a cidade de Amambaí.

Elas contaram que, durante a fuga, viram três jovens serem baleados e caírem ao chão. Não conseguiram afirmar se morreram. Os jovens seriam Jonatas Velásquez, de 14 anos, Mauro Martins, de 15 anos e Jailson Brites, de 16 anos.

Os pistoleiros tinham uma dezena de caminhonetes – marcas Hilux e S-10, nas cores preta, vermelha e verde. De acordo com as testemunhas, foi na caçamba de uma delas que levaram o corpo do líder indígena e dos outros sequestrados.

Depois do ataque, dez indígenas permaneceram no acampamento. O restante fugiu para o mato. A comunidade tem aproximadamente 60 membros.

Semanalmente ameaçada por pistoleiros que trabalham para grandes proprietários de terra da região, não é a primeira vez que a comunidade sofre agressões.  

Foi instaurado inquérito pela Polícia Federal e o Ministério Público Federal também está acompanhando de perto as investigações, mas, até o momento, não há nenhuma informação sobre o corpo de Nísio Gomes ou dos índios desaparecidos.

Burocracia e precariedade:
combinação para o genocídio


Aguardando por regularização fundiária, a comunidade, que antes vivia em uma rodovia estadual, está acampada em área de litígio desde o último dia 1 de novembro, ocupando um pedaço de terra entre as fazendas Chimarrão, Querência Nativa e Ouro Verde, localizado em uma pequena parte de ocupação tradicional kaiowá. O lugar pertence ao conjunto de terras indígenas que devem ser demarcadas no estado.

Com um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) do Ministério Público Federal (MPF), em execução – referente ao processo de demarcação da terra indígena – o processo de identificação das áreas começou em 2007 e é repetidamente interrompido por conflitos.

Somando a precariedade e o descaso estatal, Marcos Homero Ferreira Lima, antropólogo do MPF de Dourados, em colaboração com estudo da Survival International – organização mundial de apoio aos povos indígenas – sobre um acampamento de beira de estrada localizado às margens da BR 163, na cidade de Dourados, diz que não é exagero classificar como genocídio o que ocorre aos kaiowá.

“Não se trata de hipérbole quando se fala em genocídio, pois, a série de eventos e ações perpetradas contra o grupo, como se objetivou demonstrar, desde o final da década de 1990, tem contribuído para submeter seus membros a condições tolhedoras da existência física, cultural e espiritual. Crianças, jovens, adultos e velhos se encontram submetidos a experiências degradantes que ferem diretamente a dignidade da pessoa humana. O modo de vida imposto àqueles kaiowá é revelador de como os brancos veem os índios.

O preconceito, o descaso, o descuido, a não consideração dos direitos à terra, à vida, à dignidade são patentes. A situação por eles vivenciada é análoga àquela de um campo de refugiados. É como se fossem estrangeiros no seu próprio país. É como se os 'brancos' estivessem em guerra com os índios e a estes últimos só restasse a fina faixa de terra que separa a cerca de uma fazenda e a beira de uma rodovia”, argumenta.

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em estudo sobre a violência praticada contra os povos indígenas do estado nos últimos oito anos, aponta que a maior quantidade de acampamentos indígenas do Brasil está no Mato Grosso do Sul.

São 31, com mais de 1200 famílias vivendo à beira de rodovias ou isoladas em pequenas porções de terra de fazendas. Com a precariedade, além da constante violência, as comunidades estão expostas a vários tipos de doenças.
Leia também
reportagem da Agência Brasil, especial DUAS REALIDADES SOBRE O MESMO CHÃO. Nísio disse a reportagem.
“Já me bateram na beira da rodovia quando eu vinha à noite. Tenho medo, mas não paro [a luta pela terra], porque, se eu morrer, misturo com a terra de novo”.
Segue, sem edição, carta de protesto dos estudantes guarani e kaiowá dos cursos de ciências sociais e história da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. As informações contidas na carta foram recebidas por pessoas que estavam no acampamento na hora do massacre:
Por volta das seis horas chegaram os pistoleiros. Os homens entraram em fila já chamando pelo Nísio. Eles falavam segura o Nísio, segura o Nísio. Quando Nísio é visto recebe o primeiro tiro na garganta e com isso seu corpo começou tremer. Em seguida levou mais um tiro no peito e na perna.
O neto pequeno de Nísio viu o avô no chão e correu para agarrar o avô. Com isso um pistoleiro veio e começou a bater no rosto de Nísio com a arma. Mais duas pessoas foram assassinadas. Alguns outros receberam tiros, mas sobreviveram. Atiraram com balas de borracha também. As pessoas gritavam e corriam de um lado para o outro tentando fugir e se esconder no mato.
As pessoas se jogavam de um barranco que tem no acampamento. Um rapaz que foi atingido por um tiro de borracha se jogou no barranco e quebrou a perna. Ele não conseguiu fugir junto com os outros então tiveram que esconder ele embaixo de galhos de árvore para que ele não fosse morto.
Outro rapaz se escondeu em cima de uma árvore e foi ele eu me ligou para me contar o que tinha acontecido. Ele contou logo em seguida. Ele ligou chorando muito. Ele contou que chutaram o corpo de Nísio para ver se ele estava morto e ainda deram mais um tiro para garantir que a liderança estava morta. Ergueram o corpo dele e jogaram na caçamba da caminhonete levando o corpo dele embora.
Nós estamos aqui reunidos para pedir união e justiça neste momento.
Afinal, o que é o índio para a sociedade brasileira?

Vemos hoje os direitos humanos, a defesa do meio ambiente, dos animais. Mas e as populações indígenas, como vem sendo tratadas?

As pessoas que fizeram isso conhecem as leis, sabem de direitos, sabem como deve ser feita a demarcação da terra indígena, sabem que isso é feito na justiça. Então porque eles fazem isso? Eles estão acima da lei?

O estado do Mato Grosso do Sul é um dos últimos estados do Brasil mas é o primeiro em violência contra os povos indígenas. É o estado que mais mata a população indígena.
Parece que o nazismo está presente aqui. Parece que o Mato Grosso do Sul se tornou um campo de fuzilamento dos povos indígenas. Prova disso é a execução do Nísio. Quando não matam assim matam por atropelamento.
Nós podemos dizer que o estado, os políticos e a sociedade são cúmplices dessa violência quando eles não falam nada, quando não fazem nada para isso mudar. Os índios se tornaram os novos judeus.

E onde estão nossos direitos, os direitos humanos, a própria constituição? E nós estamos aí sujeito a essa violência. Os índios vivem com medo, medo de morrer.

Mas isso não aquieta aluta pela demarcação das terras indígenas. Porque Ñandejara está do lado do bom e com certeza quem faz a justiça final é ele. Se a justiça da terra não funcionar a justiça de deus vai funcionar.

Estudantes Guarani e Kaiowá dos cursos de ciências sociais e história e moradores da aldeia de Amambaí
Moriti Neto, jornalista,colunista do Nota de Rodapé.
(texto publicado originalmente na revista Fórum)

Abdelmassih continua foragido. Estará no Líbano?

Condenado há um ano: o médico está foragido da justiça
Há 1 ano, completado hoje, o médico especializado em reprodução in vitro, Roger Abdelmassih, acusado de abusar sexualmente de 37 mulheres, era condenado a 278 anos de prisão.

Desde janeiro, no entanto, ele está foragido. Os crimes ocorreram entre 1995 e 2008 e todas as vítimas eram pacientes ou funcionárias de sua clínica de reprodução. O médico teve o registro profissional (CRM) cassado.

A história pitoresca do médico assusta. Além dos abusos sexuais, segundo a revista Época, "parte dos cerca de 8.000 bebês gerados na clínica de Abdelmassih não são filhos biológicos de seus país".

Em matéria da Folha de S. Paulo a Polícia disse que suspeita que "o foragido embarcou para o Líbano usando um passaporte falso conseguido no Uruguai."

Mesmo se lá estiver, o País não possui um tratado de extradição firmado o que dificultaria bastante traze-lo de volta.

Segundo o site Consultor Jurídico, a prisão do médico havia sido decretada em 17 de agosto de 2009 pelo juiz Bruno Paes Stranforini, da 16ª Vara Criminal paulista.

"No mesmo ano, em 24 de dezembro, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, concedeu Habeas Corpus para revogar a prisão preventiva. Em fevereiro deste ano, a 2ª Turma do STF suspendeu a liminar dada por Gilmar Mendes, por 3 votos a 2.

A prisão do médico já tinha sido decretada novamente no final de 2010, pela juíza Kenarik Boujikian Felippe, da 16ª Vara Criminal paulista."

Nesse meio tempo, entre o Habeas Corpus de Gilmar e sua condenação, o médico casou com  a procuradora Larissa Maria Sacco, 32, que o acompanha na fuga e está grávida de gêmeos, também segundo informações da Folha de S. Paulo.

Thiago Domenici

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Dia do músico

Hoje, 22 de novembro, se comemora o dia do músico. Ilustração de Caco Bressane, colaborador do NR, apesar não ter sido feita especialmente para a data, cai bem ao motivo da homenagem.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O primeiro ataque às Torres Gêmeas

Tinha as Torres Gêmeas, em Nova Iorque, como alvo.

Atacá-las, colocá-las a seus pés, era um sonho que virou obsessão e que consumiu seis anos de sua vida.

Com a ajuda de alguns fanáticos que o ajudavam, Phillippe Petit alcançou seu objetivo no dia 7 de agosto de 1974. O equilibrista francês cruzou os 60 metros que separavam a Torre Norte da Torre Sul em um cabo de aço, a 450 metros do chão e sem qualquer equipamento de proteção.

Esteve 45 minutos suspenso no ar, desafiando a lógica, sorridente, bailando no topo do mundo.

Deitou-se no cabo, saudou o público (que da rua não via mais do que um ponto negro), fez pouco caso da polícia e por fim voltou a pisar terreno firme.

Seu ataque ao WTC não causou nenhum estrago, não feriu ninguém e deixou a todos boquiabertos.

Essa história está contada no documentário Man on Wire, de 2008, que relata de maneira magistral a façanha deste artista francês.

Décadas depois outros estrangeiros, também obcecados pelas gigantes torres, voltaram a atacá-las.

Dessa vez não houve poesia nem final feliz.



Ricardo Viel, jornalista, colunista do NR e do Purgatório. Escreve às segundas.

sábado, 19 de novembro de 2011

Os órfãos de Ratão

No mês passado, Fernando Evangelista, publicou a crônica “Os mosqueteiros” sobre um morador de rua de Florianópolis e seus companheiros caninos. Uma história que quando li, pensei: “gostaria de ter feito sobre o Ratão”.
Ratão e dois de seus companheiros no ponto onde passava
a maior parte do seu dia a dia.  (Foto: NR)


Explico: Ratão é o nome do morador de rua – senhor – que habitava até a semana passada a rua da casa de minha mãe em São Paulo, no bairro da Lapa de Baixo, na zona oeste. Já faz muitos anos que virou personagem do local, conhecido de todos e que, de uns tempos para cá, vivia acompanhado dos seus quatro cachorros.

“Dona Ziiiilda, tô com fomeeee!” gritava para minha mãe quase todos os dias quando ela saia para fazer alguma tarefa fora de casa. Sempre recebia um prato de comida, um dinheiro para a pinga que, diante do seu corpo maltratado e da falta de perspectiva, era sua companhia constante.

Do que se sabe – que é quase nada – Ratão teria sido tecelão antes de perder o emprego, família e se instalar nas ruas. É mais uma história triste de quem vive sem rumo, como relata o meu amigo Tomás Chiaverini, no seu livro Cama de Cimento – uma reportagem sobre o povo das ruas.

Não sei seu nome. Não sei sua idade. Nos cumprimentávamos de um jeito sem palavras, só um gesto de levantar o braço. Não faz muito tempo também, pouco antes de eu mudar da Lapa para Perdizes, fotografei da janela Ratão no que era o comum de seu dia a dia: ficar sentado na calçada tomando “conta” dos carros.

Se tinha comida, dividia com o bichos. Um deles, incrivelmente, andava igual seu dono, maltrapilho e arrastando uma das patas. Franzino, Ratão caminhava com dificuldades há tempos. A bengala improvisada, o ajudava a se equilibrar. Suas coisas pessoais, guardava num carrinho de supermercado.

Latiram o
dia todo

Soube, infelizmente, que Ratão morreu. Foi assassinado a pauladas. A primeira informação é que teria sido por traficantes. A segunda, que teria sido por Skinheads. Nada disso, no entanto, foi confirmado.

O rapaz que o socorreu e que ligou para o SAMU – que teria chegado horas depois – e outro morador que foi espancado com Ratão relatou que dois homens “queriam roubar o rádio novo” que ele tinha ganhado dias antes. Tentaram intimidá-lo, Ratão reagiu como pôde.

Não se sabe se os agressores também são moradores de rua. É fato que, muitos dos que rodeavam Ratão no dia a dia, eram pequenos traficantes e consumidores de drogas. Eu mesmo já presenciei o uso de crack na porta de casa.

Na mesma rua, aliás, foi o local do crime. Ratão, provavelmente, foi enterrado como indigente. As circunstâncias reais da sua morte talvez não sejam esclarecidas pela polícia. É o tipo de morte que não sai nos jornais e não gera comoção da opinião pública.

Não vou entrar neste texto nos méritos das desigualdades sociais e da merda que é tentar sobreviver sem ajuda do poder público. O fato aqui relatado, em si, se presta a uma homenagem ao homem sem identidade. Mais um.

Seus cachorros, pelo que soube, estão sofrendo e perdidos nas ruas. Latiram muito no dia seguinte a sua morte. Ficaram horas na esquina à espera do dono que não voltaria mais. Ganharam carinho e comida dos moradores antigos que tentam algum lugar que queria adotá-los.

Morrer a pauladas, sem socorro, por conta de um rádio, seria digno de um conto policial ficcional não fosse a realidade de mais um morador de rua assassinado.

Thiago Domenici, jornalista

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Tent City: um ensaio fotográfico

Há cerca de um mês centenas de jovens ocuparam Wall Street, Nova York, em protesto contra a situação econômica no planeta. Após, várias outras cidades ao redor do globo tomaram a mesma iniciativa, e Londres não poderia ser diferente.

Aqui o local escolhido foi o entorno da St. Pauls Cathedral – na verdade não exatamente ali, a ideia inicial era uma espécie de praça ao lado, Paternoster Square, onde fica a bolsa de valores. Todavia, apesar de aberto, o local é privado, portanto não passível de ser ocupado.

A solução encontrada foi, então, acampar na Catedral – a autoridade eclesiástica responsável não viu problemas, desde que os novos inquilinos não obstruíssem as portas da igreja nem fizessem barulho no momento das missas.

Imbróglio resolvido, lá estão desde então, em barracas coloridas que formam a Tent City. Em torno de 150 pessoas fizeram do EC4M 8AD seu novo postcode, entre os que precisam sair para trabalhar, os que passam apenas uma noite ou que batem ponto regularmente.

De fato, é quase uma “vila”. Banheiros públicos foram instalados, a cozinha coletiva serve refeições para qualquer um que precise comer: acampados, sem teto ou apenas passantes – não raro vejo fotógrafos filando um misto-frio.

Doações abastecem a dispensa, e há muita comida. Seja massa, molho de tomate ou apenas uma fatia de torta como volta e meia presencio algumas senhoras entregando.

Neste caso, o alimento é imediatamente aberto e posto na mesa à disposição de quem tenha fome. Diariamente acontecem oficinas sobre economia, política, discussões sobre a situação na qual nos encontramos. Há também a tenda do chá e café, normalmente com alguém tocando violão; tenda do piano, massagem, biblioteca, templo...


Muitos usam máscaras de Guy Fawkes, tal qual V, personagem que ficou famoso após a película “V de Vingança”. Aspas, Fawkes era o responsável por pôr em prática um plano de explodir a House of Lords, parte do parlamento britânico, em 1605. O plano fracassou, mas até hoje os ingleses comemoram a noite do dia 5 de novembro soltando fogos de artifício. Quando passou por lá, Julian Assange usou uma. Fecha aspas.

Policiais passeiam entre as barracas, conversam com os acampados. Não há muitos, contudo as entradas de Paternoster Square são vigiadas 24h, além de bloqueadas por grades. Outra ocupação aconteceu em Finbury Square, mas bem menor.

Como os moradores locais não viram problema, lá estão acampados até hoje. Há imprensa de diversas línguas, vários canais britânicos, atentos a qual será o próximo ato.

E, uma coisa não muda de cá para o Brasil, boa parte dos manifestantes não tem uma boa opinião sobre muito do que é publicado – embora eu ache que deve ser menos distorcido do que as cobertura da RBS durante as revoltas da catraca em Florianópolis.

Não há data definida para saírem de lá, se depender de alguns deles o réveillon será numa área bastante nobre da capital inglesa. Qualquer que seja o desfecho, que os ideais da Tent City ajudem algumas outras cidades, bem servidas de dinheiro mas carentes de ideias.

Pedro Mox, fotógrafo. De Londres especial para o Nota de Rodapé

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Isto daria naquilo

Se meus pais não tivessem mudado do Rio para Sampa, quando eu tinha quinze anos, talvez eu morasse na ilha de Paquetá e não na Vila Madalena. Também não teria conhecido os amigos que amo. Nem teria os adversários dos quais me esquivo. Certamente não seria a dona do meu cachorro Chico. Ele dorme aos meus pés, neste momento em que escrevo com a doida esperança de que alguém me leia.

Caso meu professor de matemática no curso ginasial, o seu Almerindo, não fosse o idiota que foi, talvez eu tivesse cursado engenharia civil. Quem sabe, no lugar de criar puxadinhos de palavras, estivesse construindo pontes que levam pessoas, carros, mercadorias, encontros, sonhos do ponto A ao ponto B. E vice-versa.

Se eu tivesse nascido num grotão do país, provavelmente seria uma mulher sem escolhas, com poucos se, caso, se. Estaria esfolando as mãos num canavial, ou limpando e cuidando da casa dos outros. Se eu tivesse sido submetida ao trabalho infantil, provavelmente teria um déficit de expectativa.

Caso os portugueses não tivessem erguido a Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, defendendo a Baía de Guanabara, talvez a gente falasse francês. Caso a mãe de Lula não tivesse montado naquele pau-de-arara rumo ao sul, talvez ele não se tornasse presidente da República. Caso o Brasil não tivesse mergulhado na noite da escravidão, teríamos chance de sermos menos desiguais.

Se Jonatas tivesse demorado mais trinta segundos na festa da casa da amiga, talvez o carro que o atropelou e o matou já tivesse passado no momento em que ele cruzou a rua. Se aquele domingo fosse chuvoso, talvez a menina Marina não quisesse brincar no quintal da vizinha e não teria caído no poço.

Caso Judas não tivesse traído Jesus, talvez a Igreja Católica nem existiria. Caso Moisés fosse analfabeto, os dez mandamentos não nos perseguiriam. Caso o carnaval fosse permanente, adoraríamos trabalhar quatro dias por ano. Caso os galos pusessem ovos e o Papa engravidasse, as mulheres não precisariam lutar tanto e nem o tempo todo pelos seus direitos.

Se os brasileiros ficassem sérios, talvez deixassem de ser brasileiros. Se os ingleses derrubassem a monarquia, talvez deixassem de ser ingleses. Se os franceses desenvolvessem alergia a perfumes, talvez deixassem de ser franceses. Se os espanhóis não se indignassem, talvez deixassem de ser espanhóis.

Caso não houvesse sons, o ouvido gritaria de pavor. Caso não existisse a morte, a vida perderia os sentidos. Caso não houvesse praia, o mar seria apenas dos peixes e das embarcações. Caso não existisse o silêncio, a música jamais teria sido inventada. Caso não houvesse a recorrente dor, ninguém escreveria e nem leria nada.

Se não encontrássemos, na última Flor do Lácio, as conjunções condicionais indicadoras de hipóteses, eu não poderia ter escrito esta crônica. Caso meus pais não tivessem mudado do Rio para Sampa, eu não teria a ideia de escrevê-la.

fernanda pompeu, escritora e redatora freelancer, colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Trabalho e ideias: precarização do jornalismo

O texto Morte no Exercício de Jornalismo, publicado semana passada neste NR, sobre a morte do cinegrafista Gelson Domingos da Silva, da TV Bandeirantes, no último dia 6, pedia continuação. Falar do assunto sem pensar na precariedade do trabalho jornalístico e, na atuação coletiva como solução, tornaria a questão tão delicada, quase que só um desabafo.

O que se vê nas redações e assessorias são habituais condições trabalhistas distantes do ideal. Mostra disso, ocorre na contratação do jornalista como pessoa jurídica (o famigerado PJ), sem registo em carteira. Dessa forma, o profissional é transformado numa “empresa”, com todos os ônus que isso traz.

Já o contratante, se vê livre de uma série de obrigações, como pagamento de 13° salário, depósito de fundo de garantia, recolhimento de INSS e outras seguranças que o trabalhador teria no modelo registrado.

Tal prática vem sendo rechaçada por tribunais do trabalho, pois agride normas celetistas e constitucionais, causando prejuízos não somente aos trabalhadores, mas também aos órgãos fiscais e previdenciários que deixam de receber receitas.

E o pior: das corporativas às alternativas, das de direita às de esquerda, das “conservadoras” às “progressistas”, a situação não é incomum. Há exceções, claro, mas elas só confirmam a regra.

Mesmo nas publicações ligadas a entidades sindicais não é raro observar contratações pelo modelo PJ, o que é bastante incongruente com o discurso de quem representa os interesses da classe trabalhadora.

Mobilizar passa
pelo olho no olho

As entidades de classe que representam os jornalistas fazem pouco pelo debate da precarização. Até lançam reivindicações pontuais, principalmente em momentos quando a situação é exposta radicalmente – como no caso de Gelson que, além de cinegrafista, era motorista da reportagem da Bandeirantes – mas estão minimamente presentes na prática: seja na verificação das relações trabalhistas burocráticas ou no cotidiano das redações, abarrotadas de superexploração, falta de estrutura e várias formas de assédio.

O grosso da categoria (e me incluo) faz pouco para mudar tal realidade. Mesmo no espaço aberto da rede, se nota escassez de discussão sobre o assunto. Além disso, com tantos pequenos projetos coletivos que pululam na internet, são poucas as inciativas de aproximação, da criação de laços para saltos maiores, que possam unificá-los, por exemplo, em formato de cooperativas, agências, portais que pudessem amplificar e divulgar bons trabalhos de foco alternativo (na ausência de melhor nome).

Nesse ritmo, o que se vê são os meios de produção, aqueles capazes de gerar renda para que os ofertadores de mão-de-obra tenham condições de sustento das necessidades básicas, concentrados nas mãos de minorias. Ainda que na rede, no geral, continuam a frente, como provocadores dos debates, jornalistas renomados. Mesmo que, de fato, não sejam eles os geradores das pautas, terminam por ser os retransmissores/massificadores e os que crescem significativamente em audiência e faturamento.

Não afirmo aqui que a relação em rede não seja boa quando um blogue “maior” indica um “menor”. Claro que não é isso. Longe de apontar a condição como nociva, a classifico como insuficiente. O problema é que, muitas vezes, os pequenos são levados para o centro dos debates pelos de grande audiência, numa espécie de sistema orbital, onde centenas de ótimos coletivos giram em torno de “astros de brilho mais intenso”.

O que busco (também) neste espaço, já que o texto, essencialmente, trata do trabalho coletivo como solução minimizadora da precariedade, é somente trazer à discussão a criação de mecanismos que equilibrem a possibilidade de chegada ao público, inclusive na internet, e a construção de projetos baseados no coletivismo que não necessitem de nomes famosos – sem necessariamente dispensá-los – para serem sustentáveis economicamente.

Talvez mais encontros, mais pizzas, cervejas e muito bate-papo possibilitem começar a produzir cenário favorável. Talvez menos conversas pelo virtual e mais olho no olho sejam a possibilidade de fazer florescer ideias. Hoje, a correria é de tirar o fôlego, certo, mas quantas das grandes propostas do jornalismo sairiam a partir de rabiscos em guardanapos de mesas de bar?

A discussão aqui é embrionária, os argumentos são simplistas, sei disso, mas quem topa engrossá-la, se possível, olho no olho?

Moriti Neto é jornalista, colunista do NR

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O último Amor

Faleceu ontem, em um pequeno povoado ao Sul do país, o último exemplar conhecido de Amor. As causas da morte ainda não foram confirmadas pelas autoridades, mas as primeiras informações dão conta de que a pequena criatura de apenas cinco meses não suportou o rigidez dos tempos em que vivemos e sofreu uma parada cardíaca fulminante.

A notícia da morte causou comoção não só na comunidade científica, mas na sociedade civil em geral - o assunto foi o mais comentado nas redes sociais. O governo decretou luto por nove dias e o primeiro-ministro enviou condolências aos proprietários do último Amor.

Há cerca de três meses a notícia de que ainda existia um sentimento como esse foi recebida com surpresa e enorme alegria em todo o país, já que a espécie havia sido declarada extinta no ano passado. Por questões de segurança e privacidade a identidade do casal que cultivava o Amor e o local exato onde vivia foram preservados.

Ontem, após um longo silêncio sobre o desenvolvimento da criatura, as autoridades divulgaram um comunicado com a notícia que ninguém gostaria de receber: o último Amor se foi.

Havia dentro da comunidade científica a expectativa de que esse exemplar, quando chegasse à idade adulta, pudesse cruzar com outros sentimentos (como o Altruísmo ou a Amizade) e se reproduzir como espécie. Mas a prematura morte pôs fim às esperanças.

Confirmada a extinção, restaria a possibilidade da produção artificial - em laboratório - de Amores.

Os cientistas garantem que, por meio de uma modificação genética, poderiam alcançar o objetivo. No entanto, esse tipo de pesquisa segue proibida pelo governo, que alega ser impossível prever as consequências de experimentos dessa natureza.

“A manipulação de sentimentos é muito perigosa e ainda não há como garantir que esse tipo de atividade não gere mutações incontroláveis, o que colocaria em perigo todos os seres humanos. Além disso, muitos de nós vivemos sem um Amor e nunca morremos. É questão de acostumar-se. As próximas gerações, por nunca terem visto um Amor, sequer sentirão falta”, afirmou o ministro de Defesa e Tecnologia em uma coletiva de imprensa.

O velório do último Amor que se tem notícia será amanha em local não divulgado. A cerimonia será fechada para a imprensa e apenas as pessoas mais próximas poderão se despedir do pequeno, que foi embora sem saber que trouxe alegria e esperança a tanta gente. Gente que agora chora sua morte.

Ricardo Viel, jornalista, colunista do NR e do Purgatório

sábado, 12 de novembro de 2011

A espetacularização da barbárie

Mal a humanidade inicia a sua caminhada pelo século XXI adentro e os sinais exteriores da barbárie reclamam seu perverso protagonismo no dia a dia de todos nós cidadãos e começam a pontuar, a se destacar, nos grandes feudos de comunicação em massa. O capitalismo perdeu a compostura de vez e escancara para quem quiser ver a verdadeira natureza de suas entranhas.

A mídia corporativa, a televisão em especial, dominada pelo entretenimento e pelo jornalismo de mau gosto dos últimos anos, avançou um degrau no plano de embrutecimento das consciências, na banalização sistemática dos costumes, dos sentimentos, e na alienação política dos cidadãos.

Mas com uma curiosa e, sobretudo, perversa estratégia: a culpa dessa tragédia que nos enfiam pelos olhos e ouvidos, a sua articulação, será sempre dos terroristas muçulmanos ou poderá ser também dos excluídos e seus líderes populistas, ou ainda dos que insistem em teses anticapitalistas... E contra toda essa gente será necessária uma ação profilática e de preferência seguida por uma propaganda de impacto, o mais realista possível.

Nessa nova escalada para impor o terror e o medo, o primeiro a tombar foi Sadan Hussein após o genocídio no Iraque. Alguns anos depois vem a morte do “tão procurado” Osama Bin Laden e o genocídio do Afeganistão provocado pela caça ao líder da Al Qaeda. Agora, o cruel assassinato de Muhamar Khadafi e o genocídio líbio. Quem serão os próximos: Ahmadinejad no Irã, já anunciado inclusive, Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia? Algum eventual ditador africano ou asiático?

O “Complexo Industrial/Militar”, expressão tão em voga nos anos 60, não só não deixou de atuar à sombra todos esses anos, como tem se modernizado e feito – para usar linguagem atualíssima – o “upgrade” de suas atividades, alardeando a propaganda menos dissimulada de seus interesses.

O desuso dessa expressão apenas mascara a contínua busca por outros eufemismos que escondam a ganância, a selvageria e a brutalidade que toma conta da minoria de milionários que comandam as grandes corporações de sociedades anônimas, as multinacionais que mantêm em suas mãos as rédeas econômicas e políticas de um mundo cada vez menos civilizado. Segundo pesquisa recente feita na Suíça por um Instituto de Tecnologia, pouco mais de 1300 grandes empresas entrelaçam-se nessa rede de domínio da economia mundial.
Quem serão os próximos: Ahmadinejad no Irã, já anunciado inclusive, Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia? Algum eventual ditador africano ou asiático?
Como nos clássicos romances da literatura policial cabe aqui uma primeira pergunta: a quem interessam essas mortes e a grande e insana orgia midiática em volta delas? A lista real e hipotética indicada num dos parágrafos acima aponta para direção bem clara: a “democracia” ocidental e cristã, tutelada por meia dúzia de países no mundo sob o comando cruel e cínico dos Estados Unidos da América, procura, já sem nenhum escrúpulo, manter sob seu domínio alguns dos maiores produtores de petróleo e gás mundiais, ainda e por bom tempo as principais fontes de energia, para tocar os seus grandes negócios e não só.



Não há aqui meio termos. Sob o olhar passivo e subserviente da ONU e a sempre que necessária e providencial ajuda profilática da OTAN (organismos que necessitam exercitar os músculos de seus diplomatas e soldados em férias compulsórias após a queda da ex-União Soviética), a África Setentrional, o Oriente Médio, uns tantos países asiáticos e sul americanos, precisam – sempre e quando isso for possível – continuar explorados e mantidos sob dependência como fornecedores de matéria prima e mão de obra escrava. E importadores de manufaturados. Tudo para o regozijo dos “homens de bem” que tanto se preocupam apenas com as liberdades humanas que lhes dizem respeito.

O cinismo midiático atual não deixa dúvidas quanto a isso. Antiga ou não, essa visão de mundo e essa teoria continuam a ser postas em prática, apesar de se apresentarem em novos e sedutores envoltórios, onde as insinuantes sereias do neoliberalismo tiveram e têm papel de destaque, não importando aqui que os novos Ulisses sejam de esquerda, de direita ou não tenham ideologia nenhuma. E não é pequeno entre nós o número de defensores dessa ignomínia, seja sob qualquer pretexto, inclusive o religioso.

Mas, salvo erro de avaliação, parece que o tiro, a qualquer momento, pode sair pela culatra. A insanidade dos grandes bancos mundiais e dos agentes financeiros do capital especulativo, onde a produção de mais e mais capital (real ou virtual) – incluídos aqui o tráfico de drogas e armas, cujo volume em bilhões de dólares não sofre qualquer tipo de controle – já supera em muito a produção de bens para o consumo.

Esse capital especulativo dá sinais de preocupação quanto ao futuro, não da humanidade (seria esperar demais dessa gente), mas com o futuro de seus próprios negócios, numa demonstração inequívoca de que todo o sistema pode estar à beira de uma crise não só de nervos, mas de anomalias mais profundas.

A ágora grega, outrora palco milenar de grandes festas e debates democráticos, transformou-se nos últimos meses em cenário de lamentações e revoltas, onde o desespero e a dor de milhões de cidadãos fez subir o índice de suicídios, numa antevisão macabra do que poderá ocorrer em outros países. O temor toma conta do mundo e a hora é de reflexão. Mais do que isso, talvez: é hora de ação.

Contudo, na contracorrente das manifestações e revoltas populares por inúmeras cidades no mundo, os insensatos apologistas de um sistema que vaza água por muitos lados e seus irresponsáveis porta-vozes midiáticos, insistem em nos fazer crer que determinados governos, os árabes em particular (muçulmanos ou não), bem como outros, eleitos democraticamente ao redor do mundo, são comandados por “ditadores” que merecem ser abatidos como cães para se dar a impressão de que a democracia ocidental e cristã que defendem (a sua, claro) é quase que a expressão de um direito divino. As cruzadas e a Inquisição não fariam melhor.
Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade. 
Se você consegue mostrar um ser humano cruel, ditador em seu país cheio de gás e petróleo, acuado, abatido como um animal selvagem dentro de um buraco, estuprado numa tubulação ou num fundo de quintal, salpicando as cenas seguintes com grupos fanáticos agitando bandeiras e armas em nome da “liberdade e da democracia”, como insiste a hipocrisia de Hilary Clinton e Obama, mais um passo é dado na manipulação de mentes e consciências. Um passo estratégica e maquiavelicamente preparado.

Os programas matinais e vespertinos de emissoras de rádio, “talk-shows”, novelas e séries de televisão, alguns filmes de Hollywood, denúncias jornalísticas de origem duvidosa, revistas semanais impressas muitas delas naquele papel do Alfredo, jornais diários despudoradamente pusilânimes, e isso em quase todo o planeta, formam o renovado e agressivo pelotão de frente da ideologia dominante, usando a força de imagens e palavras para iludir, confundir, levantar suspeitas onde muitas vezes elas não existem; encobrir crimes dos apaniguados e, criar, enfim, a impressão de que esse – se não é o melhor dos mundos possíveis – é o mundo que se tem. E devemos todos nos conformar com isso. Devemos?

A Declaração Universal dos Direitos Humanos aprovada pela ONU em 1948 diz em seu artigo 1º: Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.

Parece incrível que estas palavras tenham sido escritas um dia, mesmo levando-se em conta as circunstâncias de terem sido impressas no final de uma guerra devastadora. A isso, entende-se. E com elas concordamos. Contudo, a memória capitalista é cada vez mais curta e seletiva, como convém a todos aqueles para quem o sistema é vantajoso, ou seja, os próprios donos do capital e seus vassalos.

A barbárie vai fazendo suas vítimas reais e virtuais, sob os clarins da indiferença de uns, da hipocrisia e do cinismo de outros e do regozijo daqueles que, cegos e surdos diante do sofrimento de milhões de seres humanos, insistem também debochadamente que o problema não é sistema econômico, o problema é o “ser humano”, e que esse não tem jeito.

O natal se aproxima. Sabemos que o Papai Noel não existe, mas como é bom acreditar no bom velhinho, não é mesmo? A árvore enfeitada e os presentes à sua volta dão validade ao espírito cristão por mais 24 horas, juntando os despojos de nova e lucrativa campanha consumista, bem como nos tranqüilizando a todos a consciência de bons cidadãos.

Exorcizados, preparamo-nos para os novos espetáculos da barbárie.

Izaías Almada, dramaturgo e escritor, colunista do NR

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Paixonar-se

Foi a paixão pela eletrônica que levou Stphen Wozniak a conseguir pela primeira vez na história digitar letras num teclado e vê-las aparecer numa tela. Foi a paixão por um Brasil comunista que fez Carlos Marighella arriscar liberdade e vida e acabar sendo assassinado em uma rua de São Paulo. A paixão por perguntas fez Clarice Lispector criar Macabéa e uma galinha. A paixão pela superação fez Marina Silva, alfabetizada aos dezesseis anos, se tornar ministra de Estado e candidata à presidência da República.

Muitos vivem a paixão de mudar o mundo das coisas ou das ideias. Alguns se dão bem. Tornam-se ricos ou famosos ou respeitados. Ou as três venturas juntas. Outros morrem anônimos, ou solitários ou esquecidos. Ou as três injustiças juntas. Então, paixão não garante nada, além do entusiasmo e da energia maluca que ela desperta.

Há paixões coletivas. Os portugueses do século XVI se apaixonaram pela navegação. A ponto de Fernando Pessoa poetar que o mar era português. Os estudantes em 1968 se apaixonaram pela imaginação no poder. Os candidatos a escritores, no século passado, se apaixonaram por Paris. A maioria deles sonhou que se lá vivessem, escreveriam o que não conseguiram escrever na Vila Madalena, em Boa Viagem ou no Leblon.

Apaixonados são aficionados. Podem criar fã-clubes, partidos, ongs. Ler tudo sobre um único assunto. Assistir a todos os filmes de Godard. Saber a novena inteira do santo de estima. Passar a vida colecionando selos ou recolhendo conchinhas em cada praia que pisam. Podem perder todo salário no bingo. Podem gastar infinidades de domingos encerrando um karmanguia azul.

Lembremos dos que rompem com mulher e filhos para pescar todos os fins de semana. Mulheres que desistem de casamentos com o objetivo de guardar dinheiro para a coleção de pares de sapatos. Velhos que se esquivam dos amigos para deixarem-se dezoito horas em frente à TV. Crianças que roubam dinheiro dos pais para comprar figurinhas de dinossauros. O que é tudo isso se não paixão?

Um amigo meu abandou a Escola Politécnica da Usp para ser músico em bares noturnos. Minha vizinha largou o emprego na Bolsa de Valores, Mercadoria e Futuro, vendeu a casa com tudo que havia dentro, rifou o carro do ano com câmbio automático, e se mandou para Trancoso no sul da Bahia. Uma conceituada psicanalista rasgou a carteira de clientes neuróticos e foi assar arepas em Bogotá. O que é tudo isso se não paixão?

Meu tio Walter, morto em julho deste ano, era apaixonado pelo Flamengo. Tinha chaveiros, cinzeiros, flâmulas, canecas, canetas, camisetas com o brasão rubro-negro. Quando pressentiu o fim, foi no cartório e deixou por escrito a última paixão: que suas cinzas fossem jogadas no campo do time do coração. Sua filha Wânia enganou o segurança e cumpriu o desejo do pai.

Qual a minha paixão? Não é mudar o mundo. Não é inventar a máquina perfeita. Não é apostar nos cavalos do Jockey Clube. Não é cultivar um jardim. Minha loucura é colecionar lápis. Tenho de todos os tipos. Redondos, sextavados. Lisos, engruvinhados. De todas as cores. Pretos, brancos, lilases. Com nomes de museus, açougues, hotéis. De madeira comum e de madeira certificada. Essa paixão começou aos seis anos e segue até hoje.

Fernanda Pompeu, escritora e redatora freelancer, colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O poder do diálogo

Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colaborador do NR

USP: uma clipagem "alternativa"

Antes de sair por aí postando bobagens, fazendo trocadilhos medíocres e reduzindo questões importantes a palavrões, palavras de ordem e adjetivos que desqualificam o outro seria bom, independentemente da sua posição ideológica ou política, ler e se informar mais, antes de concluir um julgamento.

Um jornalista experiente, com grande bagagem, nesse episódio uspiano, escorregou feio. Simplesmente opinou a versão do senso comum. Outros, como sempre, simplesmente ignoraram os fatos.

Interessa, pra mim, que você, caro leitor, não engula qualquer informação e a tome como verdade. Se tem uma coisa importante no jornalismo é saber o que se lê e onde se lê. E desconfiar sempre, acredite, não é demérito nenhum.

Por isso, coloco para vocês alguns textos de colunistas de jornais que acho que tem uma visão menos maniqueísta dos recentes fatos na USP.

E faço uma clipagem de textos “gerais” que, por falta de penetração de massa, não chega a você pelos veículos tradicionais que, infelizmente, na pressa, pressão e afins publicam uma informação desvirtuada.

E um fato mal apurado leva a conclusões precipitadas.

Espero que as leituras abaixo, diante das que você já leu, ouviu e viu, te ajude a fortalecer sua análise critica.

Boa leitura.

Para os meninos da USP, texto de Jotabê Medeiros, repórter de Cultura do Estadão.
Desabafo de quem estava lá, por Shayene Metri, Jornal do Campus
Nota de esclarecimento sobre a assembleia geral dos estudantes de 01 de Novembro
Vagabundos, baderneiros, maconheiros, irresponsáveis... incompetentes?, por Daniel Gorte-Dalmoro
Campus da USP, quem ganhou e quem perdeu, por Walter Maierovicht, no Terra Magazine
Muito além da polêmica sobre a presença ou não da PM no campus da USP, por Raquel Rolnik
Geração Mascarada, por Marcelo Rubens Paiva
Nota sobre a tropa de choque na USP e a prisão de 70 estudantes
Tributo a festa da Nokia, do blog Godod não virá
Relato sobre a ação policial na USP no dia 8 de novembro de 2011, do blog Boteco da Bete
O longo caminho da truculência e seu mais recente capítulo na USP, por Luka Franca, do blog Bidê Brasil
Eu penso. E você? do blog o Sexo e as Mulheres 
Relato - Desocupação da Reitoria e Prisão Política, do Blog Notícias da Merda Fóssil
A PM e a USP: onde estão as fronteiras que separam a universidade da sociedade? por Blogueiras Feministas
A pauta da ocupação por Guilherme Scalzilli
O longo dia de ontem na USP e a desocupação pela manhã, por Igor Carvalho, Revista Fórum
Uma aula de crise, Por Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa
Esclarecendo o caso USP (pra quem vê de fora), por Jannerson Xavier, no Facebook
Pronunciamento oficial da Atlética FFLCH sobre os acontecimentos recentes na USP, no Facebook
ECA: Moção de repúdio a cobertura da imprensa sobre o movimento estudantil
Ocupação da USP, uma questão de legitimidade, por Raphael Tsavkko Garcia, no site Almálgama
A face autoritária do reitor da USP, por Ana Paula Salviatti, Blog Coletivo Outras Palavras
Nota de pesquisadores da Universidade de São Paulo sobre a recente crise da USP
USP: autonomia seletiva, por Leonardo Caderoni e Pedro Charbel, no blog do Juca Kfouri
Conflito da USP é maior do que maconha, por Marcelo Semer, Terra Magazine
Pensar a USP, Vladimir Safatle, na Folha de S. Paulo

Thiago Domenici com colaboração de Natalia Mendes

Enquanto isso, na sala de justiça...

Diante de tamanha aula magna, pergunto a vocês, caros leitores, que conclusão podem tirar do vídeo a seguir?

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Morte no exercício do jornalismo

Acordo cedo. Café. O noticiário girando nas telas da TV e do computador. Leio sobre a já tão anunciada morte do repórter cinematográfico Gelson Domingos da Silva, da Rede Bandeirantes de Televisão, na cobertura de uma ação policial na comunidade de Antares, no Rio de Janeiro, na manhã do último domingo.

Gelson foi atingido com um tiro de fuzil que perfurou o
colete a prova de balas.

Gelson tinha 46 anos e deixa esposa, filhos e netos. Em 2010, fez parte da equipe de reportagem da TV Brasil, vencedora do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, com o trabalho “Pistolagem”, sobre assassinatos no nordeste do Brasil.

Domingo, cobria mais uma entre tantas trocas de tiros entre polícia e traficantes em solo carioca. Morreu com um tiro no peito, bala de fuzil. Sem capacete, usava um colete que protegia contra disparos de revolveres calibre 38 até pistolas 44. Sabe-se, infelizmente, que a utilização de fuzis nos morros cariocas é comum.

Pode-se dizer que o cinegrafista sabia dos riscos que corria. Que era experiente nesse tipo de cobertura. Que gostava do que fazia. Que estava disposto a levar a informação, o furo de reportagem, a qualquer custo ao espectador. Tudo isso é e será dito.

O que não será falado é que esse é o discurso dos manuais produzidos pela visão patronal que impera nas grandes redações. Falácias de que o jornalismo é o bem maior. Bravatas que escondem o desapreço pelo ser humano – tanto por quem é o motivo da notícia quanto por quem a produz. E se o custo é deles, o lucro é do patrão.

Sobre os riscos e a “proteção”, é comentado que a legislação não prevê o uso de coletes mais densos e capacetes por equipes de jornalistas. Se a lei não permite o uso de certos equipamentos que seja rediscutida, mas os patrões, diretores e editores sabem da utilização de armas poderosas nessas frentes de cobertura.

Ainda assim, sabedores da ineficácia do aparato, enviam profissionais. Os primeiros, porque não estão nem aí com a vida. Os outros, pois, em geral, incorporam o discurso patronal.

Até mesmo a validade jornalística do fato é questionável. Qual a relevância em mostrar mais um tiroteio nos morros cariocas? Aliás, o que existe de jornalístico em registrar gritos, sons de balas e homens se movendo em busca de uma melhor posição para fugir ou acertar alvos? Isso, muitas vezes, sem ao menos escutar uma história. Não é jornalismo. É entretenimento macabro em busca de ibope e, claro, ganhos financeiros. Os números de audiência sobem e a emissora atrai condições mais favoráveis para negociar com anunciantes e investidores.

No final, há um homem morto no “pleno exercício do jornalismo”. Ele será exaltado em notas de pesar e falas cheias de falso amor a uma profissão que tem progressivamente menos direitos e mais riscos. Gelson morreu e deixou a família por precariedade nas condições de trabalho. Isso, nas lamentações disparadas pelas bancadas de telejornais, certamente não será discutido.

Moriti Neto, jornalista, colunista do Nota de Rodapé. Na sequência desta pensata, na segunda-feira que vem: A regra é a precariedade.

Meu pequeno legado

Tenho um sonho, bobo, talvez um pouco utópico, mas é um sonho.

Daqui a umas quantas décadas, em uma cidade milhares de quilômetros distante da minha, alguém se reunirá com seus filhos e amigos e lhes contará que sente falta de um amigo que lhe ensinou que há uma palavra linda em português, palavra que não tem tradução ao espanhol.

Esse alguém, que pode ser homem ou mulher, vai lhes contar que certa vez conheceu a esse brasileiro e que se fizeram amigos e que desta amizade restaram boas recordações e um pouquinho de dor – não só pela falta do outro, mas pela impossibilidade de se voltar àquele tempo.

Essa pena, explicará, é a saudade.

E todos os presentes a repetirão, já com uma pontada no coração, e pensarão (ou dirão em voz baixa): “Que palavra tão bonita”.

E essas pessoas, tempo depois, reunidas um dia com seus seres queridos, lhes contarão que há uma palavra em português, tão linda, que exprime uma sensação de dor, de ausência e de fortuna pelas lembranças. Uma palavra intraduzível: saudade.

E assim ela se propagará e será dita por pessoas que nunca conheceram aquele brasileiro, que talvez nem saibam nenhuma outra palavra em português, só a mais bonita de todas elas: saudade.

Se isso se realizar, esse será o meu legado. Humilde, pequeno, mas será meu, o meu legado.

Ricardo Viel, jornalista e colunista do NR e do Purgatório

domingo, 6 de novembro de 2011

Imagine um som II...


Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colaborador do NR

sábado, 5 de novembro de 2011

"Conduta descontrolada”

A colunista do NR, Andrea Dip, fez em maio de 2010 um reportagem ótima para a revista Retrato do Brasil sobre os crimes de maio de 2006, quando a políciade São Paulo pesou a mão contra civis inocentes após os ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Relembro essa história porque, na sexta-feira, o governo de São Paulo foi condenado a pagar R$ 165,5 mil à mãe de José da Silva Santos morto a tiros durante operações de repressão policial.

O Tribunal de Justiça de São Paulo qualificou como "Conduta descontrolada” a atuação policial. Segundo o portal UOL: “A 7ª Câmara de Direito Público entendeu que a reação das forças policiais foi 'atabalhoada' e que provocou a morte de civis inocentes”.

Para o desembargador Magalhães Coelho, relator do processo, a reação do Estado foi “desconexa, violenta e indiscriminada” e vitimou, sobretudo, “os pobres e desvalidos”. A decisão é inédita. E, enfim, reconhece os excessos do Estado no período, um dos mais sangrentos da história recente do país.

Além da reportagem da Andrea, disponível no site dela em PDF, também a ONG Justiça Global, que trata de casos de direitos humanos, fez relatório a respeito, intitulado “São Paulo Sob Achaque: Corrupção, Crime Organizado e Violência Institucional em Maio de 2006”.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A história por traz do objeto é o que vale para você?

Paul Bloom, professor de psicologia da universidade de Yale, nos EUA, fez uma palestra no TED – que volta e meia o NR indica – sobre as origens do prazer.

Segundo sua tese, “nós não reagimos às coisas ao vê-las, sentí-las ou ouví-las”. Ao contrário, “nossas reações estão condicionadas as nossas crenças. O que são? De onde vieram? Do que são feitas e quem fez?”.

Algo que ele chama de humanos “essencialistas naturais”. Por que nós gostamos mais de uma pintura original do que de uma falsificação? Em suma, a palestra foca em algo comum o dia a dia: a história de um objeto muda a nossa experiência com ele?

Joshua Bell, um famoso violinista tocou por 45 minutos num metrô de Nova York e ganhou poucos trocados, foi, segundo consta, praticamente ignorado. A questão é que disfarçado, ninguém que passou por ele sabia quem ele era. Mas sua famosa música estava ali, sendo tocada num violino Stradivarius de 1713 avaliado em 3,5 milhões de dólares. Se soubessem, mudaria algo?

Se o vinho é caro é melhor? Aos olhos de uma criança, se uma cenoura fosse vendida no McDonals poderia ser mais gostosa? Um chiclete comum mascado por Britney Spears ou um taco de golfe usado por um ex-presidente americado vale milhares de dólares pela experiência agregada? Sim, diz Blomm. E isso vale para o prazer e também para a dor.

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