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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Proseando com Tadeu Vilani

Tadeu Vilani por Ana Mendes
Ele saiu de Santo Ângelo e rodou algumas cidades, mas por força do destino encontrou, em Porto Alegre, um amigo roqueiro que tinha aberto um negócio: um laboratório fotográfico. Foi ampliando chapas dentárias que Tadeu pôs em prática os seis meses de curso de fotografia que tinha acabado de fazer na capital.
Antes foi officeboy, barbeiro e digitador; morou em pensão, cortou cabelo de milico e casou com a amiga do amigo. Fotógrafo mesmo só se tornou aos 30 anos quando foi contratado como freelancer pelo Jornal Zero Hora. É que quando era pequeno entre um filme de neo-realismo italiano e outro ele desejou ser um contador de histórias. E foi. O tio, porteiro do cinema da cidade, abriu a porta definitiva na vida do guri do noroeste gaúcho.
Aos 47 anos, Tadeu soma diversos ensaios documentais que desenvolve paralelamente ao cotidiano do jornal. Atualmente se dedica a fotografar os negros. Este trabalho é em homenagem ao bisavô que assustava as crianças contanto histórias de boitatá e negrinho do pastoreio.“Quero fotografar até o final da minha vida sobre a formação étnica do Rio Grande do Sul.” afirma. E para isso, já percorreu o estado produzindo imagens dos índios Guarani, dos imigrantes poloneses, alemães e italianos.
Na região metropolitana de Porto Alegre, registrou o cotidiano dos moradores da Vila Dique e Vila Umbu com o qual ganhou, em 2011, um dos maiores prêmios da fotografia brasileira, o Corado Wessel. “As raízes da Vila Dique são do interior. São como eu, eu vim do interior também. Todos vieram para, de alguma forma, vencer na vida.”. Ele é um regionalista, no melhor dos sentidos, porque quando fotografa olha pra si e para os seus. É um deleite conhecer o Rio Grande do Sul através dos olhos e do coração de Tadeu Vilani. Bom proveito!
Por Ana Mendes

Nota de Rodapé – Me diz teu nome, idade e profissão.
Tadeu Vilani – Meu nome completo é Luiz Tadeu Vilani, eu assino Tadeu Vilani porque quando eu comecei na Zero Hora já tinha o Luiz Armando Vaz, pra não ter confusão foi assim. Eu sou de Santo Ângelo [RS], nasci no dia 3 de março de 65, em casa, por uma parteira. Parto natural. Somos seis filhos, três casais. Meu pai foi um barbeiro que tinha uma cantina dentro do quartel e minha mãe uma dona de casa que trabalhou muito. Os dois trabalharam muito, enfim, vamos em frente...

NR – Infância e família parecem estar muito presentes no teu trabalho.
TV – Isso é interessante. O meu pai foi sempre um trabalhador, mas ele nos proporcionava umas coisas. Por exemplo, a primeira televisão em preto e branco do bairro foi nossa, em Santo Ângelo da década de 1970. Não tinha calçamento, era terra de chão batido, mas nós tivemos a primeira televisão. A casa vivia cheia de gente, trinta, quarenta pessoas assistindo televisão. Me recordo bem da Copa de 1970. Eu era criança, tinha cinco anos, mas aquelas coisas ficam na tua cabeça. Aquelas imagens em preto e branco. Na realidade não me recordo da copa de 70, mas do movimento das pessoas, eu tinha cinco anos, não podia lembrar mesmo... Uma coisa peculiar daquela época: quando foi lançado o primeiro voo tripulado para a lua, o Apolo12. É impressionante isso. Quando o homem foi a lua se falava muito. Se comentava muito sobre aquela conquista, sobre aquela guerra espacial, então isso mexia com o imaginário das pessoas. Quando era criança acreditava em boitatá!
Na década de 70 imagina, né? Tu não tinha informação nenhuma, tu tinha o imaginário e o que as pessoas te falavam. Não existia internet, não existia facebook, não existia celular. Telefone tinha pra poucos. Então a fertilidade da imaginação da gente era muito grande. Muito grande.

Vila Umbu

NR – E como é Santo Ângelo?
TV – Foi onde tive, com a ajuda dos amigos, a minha formação de personalidade. O pessoal ia pra Europa e trazia fita cassete, o MP3 daquela época, e nós trocávamos, saia aquela música de som mais agudo. Não sei se vocês sabem disso, cada vez que tu reproduz uma fita cassete ela fica mais aguda. Então tinha algumas musicas que nós conhecíamos de um jeito e anos mais tarde é que descobrimos que ela era um pouquinho diferente. Outra coisa peculiar daquela época era o cinema, o meu tio era porteiro de um cinema e eu assisti muito filme. Aqueles do Teixeirinha em preto e branco eu vi bastante. Eu ia duas, três, quatro vezes na semana ao cinema. O cinema tem uma influência imensa na minha fotografia e muito do cinema italiano, o neorrealismo italiano, o francês também, a Nouvelle Vague. Mais o italiano, porque descendo de italianos (com uma parcela de polonês e negro também). Aqueles filmes, aquela dramaticidade... Ladrões de Bicicleta, do Vittorio De Sica, é um filme que me ajudou muito. Quando assisti, pensei: “É isso que eu quero fazer da minha vida: ser um contador de histórias.”. Ele conta a história de uma época da Itália. De uma forma muito dramática. Eu não era fotógrafo ainda, nem sabia fotografar. Mas aquilo lá mexeu comigo lá no interior do estado e eu disse “um dia quero fazer algo parecido”e acho que a fotografia foi a forma que encontrei de me expressar.

NR – E como foi o início com a fotografia?
TV – Até os 23 anos eu morei em Santo Ângelo e quando sai fui morar em Joinville [SC]. Lá eu trabalhei um ano no Plano Collor como office boy numa empresa, fui demitido e fui morar em Rio Negro, no Paraná. O quartel do exército que existia em Santo Ângelo foi transferido para o Rio Negro onde tinha meus parentes que mantinham o mesmo seguimento do meu pai. Daí eu fui aprender a cortar cabelo. Trabalhei um ano dentro do quartel cortando cabelo de milico, faz parte né? Foi bem legal, mas não fotografava ainda. Em 94 eu retornei para Porto Alegre (tive uma tentativa antes, em 90, de vir morar em Porto Alegre quando saí de Santo Ângelo, mas não deu certo, não achei emprego e voltei) e fui morar no centro em uma pensão ali na rua Vigário e aí que entra uma história bacana. Ali nessa pensão, na Vigário José Inácio eu tinha um amigo e falei pro cara assim “um dia que tiver uma festa legal que não precise gastar muito me convida que quero ir junto”. Eu já era digitador na Caixa Econômica Federal. Não saia muito, não tinha grana pra gastar em festa. Então nós fomos jantar na casa de uma amiga dele. Saímos, jantamos e ela se tornou minha esposa. E ela é muito importante na minha vida porque ela me ajudou muito a ser fotógrafo. Ela pagou meus cursos de fotografia, minha primeira câmera foi ela que comprou. Eu já queria isso, mas não tinha oportunidade de financeira de comprar câmera, essas coisas...

NR – Tu trabalhou como laboratorista, não foi?
TV – Isso. Fiz o curso de seis meses no Senac da Cidade Baixa, depois revi um amigo de Santo Ângelo que era músico e por destino, não sei, ele abriu um laboratório especializado em preto e branco e cromo na Rua dos Andradas. Naquela época os médicos faziam foto de arcada dentária pra analisar, então tu revelava. Eu estava começando, tinha seis meses de laboratório e fotografia, quase nada. Então, começar a ampliar foto dos outros e fazer corte no ampliador te dá uma noção muito grande de enquadramento, perspectiva e tonalidade de cinza, todas essas coisas me ajudaram bastante. Foi bem interessante, até hoje tenho minha Nikon FM2 que preservo daquela época. Venho do analógico, mas não me agarro ao analógico, eu tô no digital e tá bem legal assim. Não sou aquele cara saudosista que tem que estar agarrado ao passado. Foi maravilhoso, foi bom, mas a vida continua. Daqui a pouco virão outros processos e tu vai ter que te adaptar. Porque o processo é um processo e acabou. O que vale na fotografia pra mim é o teu pensamento, teu caráter, teu comprometimento com a fotografia. Se a máquina é uma Canon, uma Nikon, uma Leica, isso é um mero detalhe.

NR – Ela está a teu serviço, né?
TV – Claro, exato. A fotografia é o teu pensamento. É o modo como tu vê o mundo. É o teu coração que está ali, não é a máquina fotográfica.


NR – Tu não tem formação acadêmica?
TV – Não tenho, infelizmente. Acho que faz falta. Mas não tive a oportunidade de fazer.

NR – O fotojornalismo parece que ainda é uma das poucas profissões em que o diploma não é essencial. Acho que isso tem a ver com a atuação do fotojornalista ser muito prática, não acha?
TV – Acho que sim. Talvez eu sinta falta de ter o diploma, nada mais que isso. Tu não fotografa com teu diploma. Tu fotografa com o que tu é. Acho que a faculdade talvez te dê alguns subsídios, mas o mais importante é o caráter. Se tu não tiver ética no teu trabalho não adianta ter curso de jornalismo.

Ensaio Alemães
Mãos, Ensaio Alemães [Premio Categoria P&B Leica Fotografe]


NR – Tu é um fotógrafo que foge a regra do eixo Rio/São Paulo. Claro que têm muitos outros, a gente sabe disso. Mas quero saber como é ser um fotógrafo gaúcho e se tu tem desejo de sair daqui.
TV – Sabe, essa coisa assim de eixo Rio-São Paulo tá mudando, felizmente. Até dez anos atrás era só São Paulo e Rio, mas os festivais que estão ocorrendo pelo país – o daqui de Porto Alegre que o Carlos Carvalho faz com muita qualidade – nos ajudaram a abrir nossas cabeças para as possibilidades que existem. Acho que os festivais de fotografia são fundamentais pra isso: abrir o leque no país.

NR – E tu tem vontade de sair daqui?
TV – Acho que não. Talvez pro Rio de Janeiro porque gosto muito dos morros, das favelas. Tenho amigos lá dentro, acho muito legal. Mas acho que tem que fotografar muito o Rio Grande do Sul, a gente fotografa muito pouco. O interior do estado é muito rico. O pampa gaúcho é fantástico. A região aqui da Lagoa do Peixe e do Taim eu nunca fui. Queria fotografar estes lugares ainda.

Violino e o Rio, Guarani, RS

NR – Queria que tu me contasse um pouco sobre este grande trabalho, que tu vem desenvolvendo há anos, a respeito da formação étnica do Rio Grande do Sul.
TV – Quando eu fui contratado pela Zero Hora, em 2001, fui pra Passo Fundo e fiquei 8 anos. Fiz um trabalho bem banaca tanto em Santo Ângelo quanto nas Missões [Sete Povos das Missões]. Desde o princípio procurei desenvolver trabalhos documentais na minha vida, porque acho importante o fotojornalismo não ficar focado somente no cotidiano da redação. Tem pessoas que acham bacana, eu respeito isso e ponto final. Mas eu comecei a desenvolver um trabalho nas missões com os índios Guarani e as arquiteturas missioneiras. Fotografei nas Missões na Argentina e no Paraguai, fiquei em reduções e Reservas Indígenas pra fazer todo esse trabalho. E deram bons resultados com exposições lá na região e na Itália. Quero fotografar até o final da minha vida sobre a formação étnica do estado do Rio Grande do Sul. Já fotografei os italianos, os poloneses, os alemães e agora tô fotografando os negros.

Daniela Benvegnú Ensaio Italianos
Dal Ben, Ensaio Italianos
PEDRETTI, Ensaio Italianos
NR – Como foram essas etapas?
TV – Quando comecei eu não tinha muita coisa em mente. Pensei: “vou fotografar as minhas origens, fotografar quem eu sou” para entender um pouquinho esse processo de um monte de gente vindo de outros países formar esse caldeirão cultural de etnias e influências que é o resultado da mistura de raça, cor, credo, religião e tal. Daí comecei pelos italianos que são os mais próximos. Depois fui para os poloneses que é a minha bisavó e a minha avó. Depois os negros porque meu bisavô era negro. Ele era negro e a minha bisavó polaca, um bem brancão e o outro bem pretão! Foram os únicos bisavós que conheci. Moravam na colônia e vinham sempre pra cidade nos visitar. Ele era um gauchão com chapéu e lenço branco. Jogava o chapéu pra trás, usava camisa arremangada, bota e faca cruzada. Chegava em casa com um assobio assim: “fiiiuu”. Vinha pra assustar a gente. Ele contava história de boitatá e negrinho do pastoreio. Nós adorávamos ouvir as histórias, mas morríamos de medo. Era criança, né? De oito, dez anos. Eu curti muito meus bisavós, tive a felicidade de conhecê-los. Meu avô também. A primeira vez que fiquei embriagado foi com meu avô materno, ele era churrasqueiro. Um dia ele chegou em casa e sentamos juntos comendo carne e tomando um garrafão de vinho. Ficamos ali, como se diz, proseando os dois: neto e avô. Só que depois teve efeito!

NR – Teus parentes estão fotografados nos teus ensaios?
TV – Sim. Fiz uma foto homenageando meus pais, eles estão na exposição dos italianos. A minha avó tá na exposição dos poloneses. Tem que homenageá-los.

NR – Quando tu pensa em um novo ensaio fotográfico sempre trás como pano de fundo essa questão regional?
TV – Acho que sim, até por conta da minha infância, o meu pai veio da colônia aos 18 anos para servir o exército e minha mãe também veio da colônia aos 16 anos. Então, tenho nas minhas raízes a vida rural. Durante as férias do colégio eu sempre ia pra colônia ficar na casa dos meus tios. Ficava dois meses vivendo como colono. Trabalhava no arado, na carroça, capinava a lavoura, ajudava no paiol de milho, carregava saco de calcário e cimento nas costas. Todas essas coisas eu fiz. Essas são as memórias da minha vida. É por isso que quando vou pro interior do estado quero de alguma forma deixar isso transparecer na minha fotografia. Porque a fotografia é o que tu é. É a carga da tua existência. É a forma como tu vê o mundo. Pra mim isso é indiscutível.

NR – Como é a tua relação com as pessoas retratadas e o que é essencial para se realizar um bom retrato?
TV – Na verdade o retrato é uma forma de tu interagir com a pessoa, de se aproximar dela. Eu procuro, dentro das possibilidades que a pauta ou a situação me permite, ficar próximo e trocar alguma experiência. Porque as pessoas por mais humildes que sejam têm prazer em te receber, eles veem um cara circulando no meio deles interessado em saber as suas histórias, isso enche eles de orgulho. É bacana, sabe? Quando tu consegue ter essa aceitação as fotos acontecem. Nem sempre é possível, mas se tu puder chegar neste nível é o ideal.

NR – Eu percebo que nos teus ensaios tu não trás um aspecto degradante das pessoas, embora trabalhe em contextos de pobreza.
TV – Acho que não é necessário. Expor uma pessoa a uma situação que não vai trazer nenhum retorno, acho que não é legal. Não vai acrescentar valor, só vai te prejudicar e fechar portas. A a minha ideia é continuar fotografando, não quero fechar portas.

NR – Queria que me contasse sobre os registros que fez na Vila Dique. Qual era o contexto desse lugar no momento em que tu chegou lá?
TV – Quando fui transferido da Zero Hora em 2008, quis continuar meus projetos fotográficos, daí eu disse: “vou dar uma pequena guinada no que faço”, porque eu só vinha fazendo etnias. Daí comecei a olhar o que estava acontecendo aqui, neste contexto da região metropolitana de Porto Alegre, especificamente. Uma matéria da Aline [Custódio], do Diário Gaúcho, sobre a transferência dos moradores da Vila Dique (próximo ao aeroporto Salgado Filho) para o Porto Seco me chamou a atenção. Nem tinha começado o processo ainda, estava só se falando. Então eu fui falar com a Aline. Ela me apresentou pros líderes da comunidade. Comecei em maio de 2009 e até hoje estou fotografando a Vila. Vou na nova. Pra fazer um comparativo de como era a vida deles naquele período e como estão hoje no local novo, pra saber se eles estão felizes.

Banho, Porto Alegre, 2010. Vila Dique


NR – E isto já faz três anos.
TV – É, mas os projetos são assim, têm que durar. É uma bola de neve, tu faz um aqui outro ali e eles vão indo. Daí o que aconteceu: por causa dessa aceitação e desse convívio tenho, até hoje, uma amizade com as pessoas de lá. Eu ligo pra eles de vez em quando pra saber como eles estão. Vou lá no Vavá, na Enedina e outros que não me lembro o nome. São tantas pessoas! Teve uma guria que eu dei de presente de aniversário as fotos dos 15 anos dela. Ela não tinha pai, vivia com a avó. Essas trocas são legais, sabe? Eles me deram alguma coisa. Eu tenho que dar outra coisa em troca. Acho que é o mínimo que posso fazer. Todas as pessoas que fotografo eu dou fotos. Todas, sem exceção. Tem umas criancinhas que eu fotografei que tinham cinco anos quando comecei e hoje já estão com 8, 9 anos. Tu vê essa mudança. Daqui algum tempo tu pode voltar e os caras vão estar com 16 anos. Quero fazer essa linha do tempo...

TV, Vila Dique, Porto Alegre
NR – E como tu elaborou a ideia de enquadrar as pessoas dentro das televisões?
TV – Ali na Vila Dique a maioria das famílias vive da reciclagem. Eu estava fotografando aquele contexto de trabalho dos papeleiros e um dia vi uma carcaça de televisão velha sem o tubo. Como eu já tinha um forte relacionamento com eles, perguntei pro filho do Ricardo se ele se importaria de ser fotografado dessa forma, ele disse que não tinha problema. Qual foi a minha ideia quando eu vi aquela sucata e olhava para aquela situação? Queria dar rosto para essas pessoas. Porque todos que estão ali são imigrantes gaúchos. Eles vieram da fronteira de Porto Xavier com a Argentina, alguns vieram de São Gabriel. As raízes da Vila Dique são do interior. Todos vieram para, de alguma forma, vencer na vida. Daí aquela carcaça fez uma linguagem bem forte da contextualização daquela situação. Não sei se deu certo ou não. Me inscrevi no concurso da Conrado Wessel e tive a felicidade de ganhar. E na verdade tu não ganha sozinho, quem ganha são todas aquelas pessoas que veem a suas situações assim reconhecidas num prêmio importante.

Vaqueiros, Ensaio Negros
Vaqueiros, Ensaio Negros

NR – O teu trabalho mais recente é Vaqueiros. Como ele se desenvolveu?
TV – Vaqueiros é assim: tá dentro do contexto dos negros gaúchos. É uma homenagem ao meu bisavô.  Um dia eu estava olhando para os quilombos gaúchos e o de Santana do Livramento, Ibicuí da Armada, me chamou atenção. É muito peculiar. Porque esses quilombolas vivem no mesmo local há 300 anos com as mesmas tradições e costumes da lida rural, do pastorio, do cuidado com o gado. Então, eu fui pra lá e dormi quatro dias no quilombo. E descobri uma particularidade: aqueles quilombolas têm o sobrenome Vaqueiros. Porque quando a Lei Áurea aconteceu o fazendeiro batizou eles de Vaqueiro. Lá tem o Luiz Vaqueiro, a Marta Vaqueiro, o Paulo Vaqueiro, a Maria Vaqueiro. Naquele quilombo 90% é Vaqueiro. Mas muitos quilombolas saem de lá porque as famílias vão crescendo e não tem espaço para todo mundo. Eles estão na região metropolitana de Porto Alegre. Minha ideia é fotografar os Vaqueiros que estão aqui e fazer um comparativo do Vaqueiro metropolitano com o Vaqueiro do pampa gaúcho.

NR – E a utilização do Preto e Branco nos teus ensaio fotográficos?
TV – Me recordo que quando era criança minha mãe ouvia rádio novela. Me lembro dela trabalhando em casa e eu do lado. Ficava imaginando aquelas cenas. Como naquela época era tudo em preto e branco tu já imaginava assim também. Então, eu acho, que o mundo era meio monocromático. Uma vez fizemos uma brincadeira bem colorida (a gente era bem danado quando era pequeno): na frente da minha casa não tinha calçamento, só chão batido e num dia de chuva tinha uma kombi estacionada, pegamos uma melancia que nós tínhamos comido e colocamos embaixo das rodas traseiras pra o cara não conseguir sair. Coisa de piá, né? É uma brincadeira colorida porque tem o vermelho da melancia e o verde da casca. Então, nem tudo é monocromático. Mas acho que o preto e branco é uma coisa natural. Será que aqueles filmes neo-realistas italiano teriam o mesmo contexto e dramaticidade se fossem em cor? Acho que não. O impacto daquelas imagens faz tu pensar. A fotografia em preto e branco tem essa força porque ela direciona o teu olhar.

Todos, Porto Alegre,2010. Vila Dique
NR – Tu te considera um fotojornalista, um artista ou um fotógrafo documental? O que tu me diria sobre essas definições?
TV – Essas coisas pra mim não são importantes. O importante é contar tua história, tua fotografia fazer tu pensar como ser humano. Se ela é arte, se ela não é arte... eu não posso entrar em muitos detalhes, acho que não é importante isso. Acho que a gente é ser humano que fotografa. Acho que é isso. Mas se eu fosse definir seria fotodocumentarista.

NR – Criticam o fotojornalismo por ser o óbvio eficiente, por ter imagens criativas, mas que nada dizem, por ilustrar mais que informar. Qual é a tua opinião sobre o fotojornalismo que se faz hoje em dia?
TV – Aquele fotojornalismo romântico que existia nos anos 60, 70 e 80 não existe mais. O mundo mudou e isso é uma coisa que nós temos que entender. As câmeras analógicas não existem mais, aquela coisa de sair e ficar dez dias numa pauta, isso não existe mais, as coisas são mais imediatas, o mundo é outro. Então, acho que o caminho para o fotojornalismo dar vasão a essa produção de imagens, essas histórias mais profundas é a internet. É o melhor caminho para poder dar esta vasão e construir histórias profundas, fotograficamente falando.

NR – Tu não é daquela turma de fotógrafos que se incomoda com a dita vulgarização da fotografia?
TV – Claro que não me incomoda. Porque vou me incomodar com isso? Eu não tenho nenhum poder nenhum de dizer o que as pessoas tem que fazer ou não. Elas são livre pra expor, tu é livre pra ver! Tu é livre pra fazer, tu é livre pra ver. Eu vou focar no que eu gosto. Não vou navegar na internet num mar tenebroso cheio de situação. Eu vou no que eu quero ver e ponto final, não fico sofrendo porque tem um trilhão de fotos. As pessoas tem que curtir a vida delas, né? Se acham que é bacana. Coloquem! Hoje eu procuro inserir vídeos nos meus trabalhos porque não dá mais pra imaginar um trabalho fotográfico sem o vídeo. São complementos muito bons. Quando eu fotografei os italianos, viajei durante seis anos por 40 cidades, não fiz um vídeo com aqueles dialetos, com aqueles nono falando e jogando nos salões. Eu não tenho nada disso! Tem que ter!  Acho que os fotógrafos tem que estar mais aberto pra essas novas linguagens. Eu não tenho nenhum preconceito. Se o pessoal da Magnun faz, porque nós não podemos fazer? Os caras são os ban ban ban. Nós que somos daqui do extremo sul temos que fazer também, né? Não tem porque não. Depois tu olha o teu trabalho bem editado na internet é muito legal. Hoje tem vários festivais que recebem documentários de fotojornalistas, né? Tu tem que migrar, não pode ficar parado no passado. O mundo continua. É uma evolução constante, é um ser vivo. O mundo é mutante também. Acho que tu não pode jamais mudar a tua personalidade, tua ética, teu caráter, mas as ferramentas tem que usar elas em prol, em benefício. Igual vocês aí [aponta para a filmadora], daqui a pouco vão estar com outras coisas...

NR – Pra terminar, um conselho para os fotógrafos iniciantes, como eu.
TV – Acho que pra fotografar tem que ser muito persistente. Tem que se doar. Porque o retorno é muito lento na construção de um trabalho documental. Mas primeiro, tem que acreditar em si próprio. Se tu não acreditar que vai conseguir, que teu trabalho é importante, que tem alguma coisa a dizer não vai dar certo. Tem que ler muito, ficar atento aos novos pensamentos fotográficos (com a internet ficou mais fácil) e ver as produções maravilhosas mundo afora. Tem também que estar aberto pros outros (se tu não souber ouvir e perceber o mundo ao teu redor também não adianta insistir). E por fim saber que nem sempre as tuas verdades são as verdades do mundo.

A entrevista em vídeo:





Para saber mais:
http://olhares.uol.com.br/Tadeu003
https://www.facebook.com/profile.php?id=1609441039
http://tadeuvilani.blogspot.com.br/

Ana Mendes, 26 anos, gaúcha de nascimento, errante de coração e profissão. Fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Trabalha como fotojornalista freelancer entre Brasília e Porto Alegre. Mantém a coluna mensal Faço Foto.

9 comentários:

Kelvin Koubik disse...

Parabéns! Linda história do Tadeu, ótima pesquisa e entrevista. E o vídeo é a melhor forma de exibir um material hoje em dia. Gostei muito, é um prazer conhecer o fotógrafo Tadeu Vilani um pouco melhor.

japa disse...

muito bom Ana e Tadeu, que não conheço mas gosto.
Parabéns Ana pela Argentina, irei lá ver.

Anônimo disse...

Gostei muito da entrevista, do jeitão que ele fotografa. Não conhecia o trabalho, parabéns pelas artes - a da entrevista e de fotografar. Fredo Sidarta, SP

ana mendes disse...

Japa!! Tu vai a argentina? Opa!
Legal, nos vemos lá.
O Tadeu tambpem vai expor.

beijos

Leandro de Araújo disse...

Sou admirador do trabalho do Tadeu há tempo e achei muito legal conhecer um pouco mais de sua história... Parabéns pelo trablaho do Tadeu e da Ana Mendes! Grande abraço!

1401843 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ratao Diniz disse...

É bom por demais conhecer mais das historias e experiencias vividas pelo grande amigo Tadeu Vilani. PARABENS meu amigo, sua fotografia hj é uma grande referencia p nossa formaçao ak no Rio e p onde caminho divulgo os trabalhos q acredito, e o seu é com td a certeza sempre lembrado.
Fortes abraços solidarios
Ratao Diniz

Cristina Ávila disse...

Bah! fiquei com saudade do Rio Grande (pra isso nao precisa muito, mas as fotos sao emocionantes, traduzem belissimamente o imaginário que o Tadeu fala). Li com prazer. Texto bem feito, entrevista bem conduzida. Filmagem e edição bem feitas. Acho que faltou colocar créditos no início, e identificação do entrevistado (para que o vídeo possa circular independente. Adorei! Parabens pelo trabalho de todos!

Anônimo disse...

E MARAVILHOSA QUANDO UMA PAIXAO SE TORNA PARTE DE NOSSA VIDA, A SUA POR FOTOGRAFIA ME INSPIRA POR E ALGO DELICIOSO, POR QUE NUM MOMENTO VOCE TA CLICANDO, E NOUTRO VOCE ESTA APRECIANDO O RESULTADO, QUE MUITAS VEZES NOS SURPREENDE.

TAMBEM SOU APAIXONADO POR FOTOS, DESEJO SEMPRE SUCESSO A VOCE AMIGO.
DILAMAR DOS SANTOS-SANTO ANTONIO DO PALMA-RS

DILAMAR DOS SANTOS-GERENTE EPAVI SERRA
CASA POLONESA DE SANTO ANTONIO DO PALMA-RS

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