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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

domingo, 31 de outubro de 2010

DataNR aponta vitória de Dilma no segundo turno

O DataNR recebeu em 30 dias 1084 votos. Os resultados mostram que a candidata Dilma Rousseff do PT ganharia no segundo turno. 593 internautas que votaram na candidata petista no primeiro turno responderam que continuam com ela no segundo. Dos que votaram em Marina Silva, PV, 49 indicaram voto em Dilma. E dos que votaram em Plínio de Arruda Sampaio, PSOL, 44 a indicaram como opção de voto. Dos outros partidos, seis votos a escolheram como para o segundo turno. Em relação ao adversário, José Serra, PSDB, 37 optaram por continuar com ele no segundo turno. Dos que votaram em Marina Silva, PV, 24 votariam em Serra e somente 5 dos que votam em Plínio, PSOL, votariam no candidato tucano. Dos outros partidos, quatro indicaram voto em Serra. Brancos e nulos somaram 35 votos e indecisos, oito. Obrigado a todos que participaram e contribuíram para essa pequena amostragem de intenções.

A votação
Continuo com Dilma: 593
Continuo com Serra: 37
Votei Marina e agora voto Dilma: 49
Votei Marina e agora voto Serra: 24
Votei Plínio e agora voto Dilma: 44
Votei Plínio e agora voto Serra: 5
Votei PSTU, PCO etc e voto Dilma: 6
Votei PSTU, PCO etc e voto Serra: 4
Vou anular: 31
Vou votar em branco: 4
Não decidi: 8

sábado, 30 de outubro de 2010

Kirchner deixa país órfão e muitas incógnitas

A morte inesperada do ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner caiu como uma bomba para a população e abriu as portas para a incerteza na política do país. Morreu o principal líder político argentino atual, presidente do partido Justicialista/Peronista e também o criador da corrente Kirchnerismo, que reunia peronistas e membros do partido opositor União Cívica Radical. Um homem que personificava o poder – há quem diga que era viciado nisso –, governava junto com a esposa presidente Cristina Kirchner e que pretendia se revezar com ela na Casa Rosada durante vários mandatos. Ele era o principal candidato para as eleições presidenciais de 2011.
As incógnitas e o vazio político surgidos com a morte de Kirchner colocam um grande desafio para a agora viúva presidente. Como será o governo de Cristina sem Néstor? Ela continuará com o projeto que os dois tinham e será candidata à reeleição em 2011? Apressado, o ministro das Relações Exteriores, Hector Timerman, já anunciou que sim. Reduzirá a estratégia de conflitos desenvolvida pelo casal presidencial desde 2003 – quando ele foi eleito presidente – e começará a pregar a harmonia na sociedade? Ou radicalizará ainda mais sua política, continuando a dividir a população entre os que estão e os que não estão do lado do governo?
Não se sabe. É difícil sair do campo das especulações neste momento. O que sim é latente é a singularidade da política nacional. Não é normal que a morte de um ex-presidente – que já nem tinha tanto apoio assim – devaste o cenário político e deixe um partido órfão em um ano-chave para as eleições. Solidários à dor da presidente, os argentinos se enfileirarem durante horas, em quilômetros, para dar o último adeus ao homem que pilotou a recuperação do país após a crise econômica de 2001, recuperou a auto-estima nacional e colocou militares atrás das grades. Muitos diziam “Força, Cristina” e pediam que ela continuasse firme. Há comoção, mas também a lembrança recente do caos na Casa Rosada em 2001, quando vários presidentes assumiram e renunciaram em meio à crise.Argentina: um país de uma política peculiar e com um passado às vezes trágico. Juan Perón perdeu a mulher e líder dos descamisados, Evita, quando era presidente. Na sua segunda presidência, morreu e deixou a vice e segunda mulher, Izabelita, em seu lugar. Sem apoio, foi deposta pelos militares. Tomara que Cristina, que não tem nada da fragilidade de Isabelita, saiba – agora sozinha – conduzir a Argentina e a difícil máquina de poder deixada pelo marido. E que não caia na tentação de isolar ainda mais o seu governo.

Mariana Camarotti é jornalista e mora na Argentina, especial para o NR

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Esperando as eleições

Caco Bressane,  arquiteto e ilustrador paulistano, na ilustração da semana para o Nota de Rodapé: "esperando as eleições".

Telefônica Sonidos: o Festival que ainda pode virar gente grande!

Trago aqui um tema de setembro, para quebrar o ritmo e fazer pensar em outra pauta que não as eleições de domingo. Acredito imensamente que o festival “Telefônica Sonidos” (realizado entre 21 e 25 de setembro) é um dos caminhos que tanto imaginei para estreitar as relações entre Brasil e o restante da América Latina, mas é necessário que o festival seja amplamente repensado, para que - de fato - o festival possa transparecer a identidade da América Latina. É bem verdade que organizar algo grandioso passa por todas as dificuldades possíveis, como:
Locação de um lugar apropriado;
Coincidir datas nas agendas dos artistas;
Cumprir contratualmente com as exigências de cada artista, patrocinadores, apoiadores, fornecedores, etc.;
Montar a logística;
Contratar staff;
Contratar fornecedores;
Elaborar plano de mídia e;
Divulgar em tempo.
Aponto ainda, um dos maiores erros dos grandes shows e/ou festivais, que está na postura dos assessores de imprensa, e em como tratam os pequenos veículos de comunicação. Não credenciam, não dão retorno, não atendem. Está na hora das assessorias de imprensa entenderem que a grande mídia nem sempre dá tanta importância e ênfase aos acontecimentos culturais, como tantos outros blogs, jornais de bairro, revistas de pequena circulação e por aí vai.
Trabalho com assessoria há mais de sete anos e sempre fiz questão de manter contato com todos os veículos.
Antes uma noticia veiculada em escalada menor, porém, feita com conhecimento e atenção, do que uma noticia jogada no papel. O Nota de Rodapé recebeu – infelizmente – esse tratamento. Um dos canais atuais que mais falam da América Latina e que tem colunistas que se dedicam a escrever sobre a música e os fatores culturais dos irmãos latinos. É uma pena, porque vi um grande jornal paulistano noticiar, por exemplo, que o músico Fito Paez nunca pensou em morar fora da Argentina. Quem acompanha a carreira do músico, sabe que após uma tragédia pessoal, ele não só pensou em morar na Espanha, como chegou a fazer uma turnê de despedida na Argentina.
O festival ‘Telefônica Sonidos’ tem um grande potencial e acredito que em próximas edições poderá melhorar diversos quesitos.
Vale apostar em mais quiosques de alimentação com cardápio latino.
Vale apostar em exposições de artistas da América Latina.
Vale apostar em outros grandes nomes como Julieta Venegas (que já fez parcerias com Lenine e Otto), Charly Garcia, Leon Gieco, Andres Calamaro e quem sabe, torcer para que haja a recuperação do Gustavo Cerati e que possamos apostar num show desse grande músico argentino, no Brasil.
Telefônica Sonidos poderia ter um maior reconhecimento do público e da mídia. Não é fácil fazer uma produção desse tamanho e que envolve uma temática diferente, por isso mesmo, o festival deveria ter se preocupado em apresentar as parcerias envolvidas e o que cada artista representa de maneira mais eloquente e persistente.

Leia mais:
- Sonidos faz ponte entre Brasil e vizinhos da Latino América (Ricardo Viel)
- O que não foi dito sobre o SWU (Juliana Sassi)

Poucas pessoas do meu círculo de amizades sabiam do evento, e claro, menor ainda o grupo que conhecia os artistas latinos em questão. É hora de abrir o caminho para a cultura latina em nosso país e acredito que o “Telefônica Sonidos” foi o primeiro - ainda que inseguro – passo.
Infelizmente falta muito para que o Brasil se considere latino, e não ter o mesmo idioma dos demais países é um dos motivos para isso. Nossa incrível arrogância em pensar que somos melhores, e na verdade, culturalmente estamos muito, mas muito atrás dos nossos hermanos espalhados nessa grande América Latina.
Que venham alternativas desse tipo e que as ações possam acontecer de forma mais amadurecida e organizada.

Fabiana Cardoso é jornalista, produtora e colunista do NR

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Aquele homem, Néstor Kirchner

No final da década de 70 os dois eram recém formados em direito, ele, Néstor, vinha do sul do país, ela, Cristina, de La Plata, Província de Buenos Aires. Ambos decidem ir para Santa Cruz, terra natal dele. E seria por lá que começariam seu pequeno império político-econômico dentro do Partido Justicialista. Sempre juntos, ombro a ombro, com ele aparecendo mais, foram conquistando a prefeitura de Río Gallegos, capital de Santa Cruz, logo governador da província varias vezes; e ela senadora por vários mandatos. Somaram-se uma fortuna considerável junto a práticas políticas conservadoras, autoritárias e personalistas. Foram
consequentes a cada período histórico, na ditadura se fez o dinheiro, na democracia o poder.
Na época neoliberal de Carlos Menem, foram neoliberais, apoiando leis que desmantelaram o estado argentino. Que homem chega a governador e não quer ser presidente?
Em 2001, a Argentina desaba em pedaços. Tanto o sistema político como o econômico se desfazem frente a uma população cansada de tudo e de todos. Entre tropeços e uma luta feroz dentro do peronismo chegam as eleição de 2003. Néstor Kirchner chega como um candidato desconhecido e consegue com poucos votos (apenas
23 por cento) ganhar as eleições.
Começa então a aparecer um líder político que ninguém esperava. Trocou os juízes da Suprema Corte de Justiça dando a esta um novo perfil necessário para uma nova etapa de país. Revogou o indulto dado aos militares mais sanguinários da America latina e deu um novo impulso para os direitos humanos no país. Tanto as Mães como as Avós da Praça de Maio receberam pela primeira vez um tratamento merecido por parte do estado. O fortalecimento do MERCOSUL, alianças estratégicas com os países do continente Latino-americano e uma política independente dos Estados Unidos. Elevou os impostos ao setor agroexportador, o que lhe custou o ódio das classes poderosas.
Criou a política de renda universal por filho, parecido ao bolsa família, e a estatizou o sistema de aposentadorias causando uma distribuição dos ingressos. A lei de mídia audiovisual, com a qual ganhou o ódio do maior grupo de
comunicações, Clarín, foi o último embate antes de partir.
Muitos viram nestas atitudes um oportunismo político já que Néstor nunca teve em 30 anos de vida pública ações semelhantes. Mas, o que importa? O importante não era no que ele realmente acreditava, e sim no que fez e o que fez ao povo para acreditar novamente que outro país era possível. Formou junto a sua mulher um governo de centro esquerda disposto a melhorar a vida das classes menos favorecidas. Deu esperança para uma nova geração que já não acreditava em mais nada. Colocou a Argentina novamente como protagonista na política sul-americana.
Um estrategista político como poucos. Algo indispensável numa Argentina cada vez mais polarizada. Estava tudo pronto; alianças políticas acertadas e pesquisas que o colocavam como vencedor das próximas eleições presidenciais. Sua morte repentina não só deixará um vazio, senão que também exigirá de sua viúva uma enorme força de comando.
O projeto político por ele forjado não é só indispensável para a Argentina, mas também é peça chave no continente. Apesar das diferenças e críticas, tenho o maior respeito a uma grande figura que mudou o rumo das coisas do país no qual vive muitos anos.

Rodrigo Menitto, jornalista hermano-brasileño, especial para o Nota de Rodapé

Serra também era “terrorista”?

Do site Última Instância, a repórter e amiga Natalia Viana recupera nos arquivos do Dops a história do candidato do PSDB, José Serra. As fichas, prontuários e dossiês dos anos 60 e 70, apontam que Serra, para os órgaos de seguranca, também esteve “envolvido em atos de terrorismo” e fazia discursos “extremistas”, conclamando estudantes e trabalhadores para a “revolução”. Nessas eleições, a candidata do PT, Dilma Rousseff foi acusada erroneamente e com fins eleitoreiros, como explica a matéria. “Dilma recordou em sua propaganda eleitoral o período em que esteve presa e foi torturada, enquanto e-mails e panfletos apócrifos a acusaram de “terrorista”.”
Outro trecho da matéria diz. “Serra também foi julgado, à revelia, pela Justiça Militar, e condenado a três anos de prisão por 'fazer publicamente propaganda de processos violentos para a subversão da ordem política ou social'. Os arquivos do Deops indicam que Serra era acompanhado pelos serviços de segurança antes de mesmo do golpe de 1964. Eleito presidente da UNE em julho de 1963, o tucano participou ativamente do movimento de apoio ao ex-presidente João Goulart e resistência ao golpe militar. Seu dossiê no Deops – um grande resumo dos principais relatórios feitos pelo departamento sobre a sua atuação – mostra como os agentes da inteligência seguiam suas atividades, consideradas “subversivas”. Leia a íntegra.

SAP volta atrás

O amigo Léo Arcoverde, jornalista de polícia do jornal Agora, escreve hoje que o governo de São Paulo recuou e decidiu reformular a resolução que mudou, no dia 21 de setembro, a regra de transferência de presos, como citamos neste NR nesta quarta-feira. A SAP (Secretaria de Estado da Administração Penitenciária) informou que a medida anterior foi reformulada. O anúncio da revogação da resolução 219 ocorreu três dias depois de a SAP dizer que a autorização de transferência de presos era feita “com brevidade”. Saiba mais.

Morre Kirchner, ações do Clarín sobem

Os conflitos entre governo e o grupo Clarín vinham quentes por conta da nova lei dos meios de comunicação, que obrigaria o grupo a vender parte de seus negócios. Com a morte do ex-presidente argentino as ações do maior conglomerado de comunicações do país subiram 40,85% em Buenos Aires, segundo a Reuters.

A coisa mais nojenta das eleições?
O vídeo abaixo, intitulado “2012: O fim está próximo” é mais um episódio lamentável do terrorismo eleitoral, fruto do ódio que se alastrou entre PSDB e PT. Segundo o Estadão,  num "blog da campanha do tucano José Serra o vídeo no qual é “mostrado” o futuro do Brasil já com Dilma Rousseff (PT) na Presidência. “Se a Dilma se eleger, olhe o futuro que nos espera”. Chamado Vou de Serra 45, o blog está na página oficial do candidato do PSDB e usa imagens da propaganda petista no horário eleitoral." Simplesmente, bizarro! Não é a primeira vez, como publicamos aqui.

Senador, não tenho obrigação de me curvar ao poder

O senador eleito Aloysio Nunes (PSDB-SP) afirmou nesta quinta-feira (28) ao jornal Folha de S. Paulo que minha versão sobre o xingamento proferido por ele na última segunda-feira (25) é “mentira de petista”. Após me chamar de “pelego filho da puta”, diz o senador que sou “insolente.”
Vamos por partes. Quanto ao que me toca, o senhor sabe que não é mentira. O que eu lucraria inventando essa história? Como já lhe disse antes, sou jornalista, apenas relato aquilo que vi. Invenções, deixo-as para aqueles que se interessam por elas. Sobre o “petista”, senador, há coisas que a gente precisa provar quando fala. Essa é uma delas. O senhor pode revirar todos os registros do PT que não vai encontrar qualquer ligação entre mim e o partido. Se encontrar, pode escolher o local em que devo lhe pedir desculpas publicamente.
Se não encontrar, faz aquilo que deveria ter feito desde o lamentável episódio: retrata-se, mostrando que, como homem público, sabe reconhecer erros. Um colega seu, o prefeito Gilberto Kassab, já o fez uma vez e, ao que parece, segue vivo. A questão, senador, é que o mundo não está dividido entre tucanos e petistas. Recorrer a simplificações demonizantes, como se tudo que lhe ocorre de ruim na vida fosse culpa do PT, não vai resolver o problema.
Quanto à terceira acusação, a de ser “insolente”, contento-me em analisar o uso histórico desta palavra. Insolente era a característica que se atribuía aos escravos “rebeldes” ou “fugidios”. Depois, como nosso país não apagou certas heranças, passou a ser maneira como as elites chamavam aquele funcionário que tinha a ousadia de ter pensamentos próprios. É aquela empregada que irrita os patrões porque tem a insolência de atender o celular durante o trabalho. É aquele funcionário que enerva o chefe porque tem a insolência de propor que seu salário de miséria seja aumentado.
Então, sob os olhos da elite, sou mesmo insolente. Afinal de contas, não me agacho frente a uma pessoa pelo simples fato de ela ter mais posses ou mais poder do que eu. Muito pelo contrário, olho nos olhos de quem quer seja. Minha espinha, senador, nasceu com essa terrível mania de não se curvar. Sei que há colegas de profissão que não têm problemas em serem subservientes, em terem coleguismos com o poder. O senhor me perdoe, senador, mas não é meu caso, e isso não me faz insolente nem petista.

- A resposta de Aloysio Nunes Ferreira

Diferentemente do que o senhor insinua, sou jornalista sem aspas, jornalista de verdade. Como lhe disse, sou formado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e em algumas das redações para as quais gente de seu partido certamente dispensa grande apreço. Agora, se o senhor ainda não tirou o pé da Casa Grande, lamento. O meu já deixou a Senzala há algum tempo.

João Peres é jornalista, colunista do NR e repórter da Rede Brasil Atual

Reportagem da Folha de S.Paulo de hoje:

Jornalista diz que foi xingado por tucano antes de debate

DE SÃO PAULO

O jornalista João Peres, da "Revista do Brasil", diz ter sido chamado de "pelego filho da puta" pelo senador eleito Aloysio Nunes (PSDB-SP).
A agressão, diz, ocorreu na última segunda-feira, antes de debate dos presidenciáveis na TV Record.
O tucano admite tê-lo chamado de pelego, mas nega o palavrão.
À Folha Peres disse que o tucano teria perguntado para qual veículo ele trabalhava e, depois, teria se negado a dar declarações. "Eu disse: "educado, hein, senador?". Ele respondeu me xingando".
Aloysio Nunes confirma parte da história. "É pelego mesmo. É revista pelega, paga com dinheiro público para fazer campanha. E ele foi insolente. Perguntou se eu não falava com trabalhadores".
Questionado sobre o palavrão, Aloysio disse: "É mentira de petista. Estão querendo me colocar contra a mídia".
A "Revista do Brasil" é ligada ao movimento sindical e foi alvo de representação apresentada pela coligação de José Serra (PSDB), que pediu à Justiça a retirada da revista de circulação, alegando de que estaria atuando em favor de Dilma Rousseff (PT).
Houve decisão favorável à coligação tucana, baseada no argumento de que sindicatos não podem contribuir com candidatos ou partidos.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Eu também sou filho da puta, senador!

Antes de tudo, minha total solidariedade ao jornalista e colega João Peres. E votos de que continue a desempenhar corajosamente a sua missão de informar.
A arrogância e o desespero dos incompetentes e dos traidores das causas populares têm mostrado a sua face mais obscena nessa campanha eleitoral por parte de um partido que, em tempos nem tão distantes assim, quis representar no Brasil o pensamento de esquerda seja dito “civilizado”. Caiu a máscara!
Com a perspectiva de que venha a público e, mais do que isso, temendo o julgamento popular e da própria justiça brasileira, a nata do PSDB e da oposição como um todo, entrou em queda livre e quer melar o jogo da democracia no país.
O discurso, por vezes inflamado, de vários desses atores, já desliza pela linguagem de esgoto, muito provavelmente a mesma linguagem com que se tratam uns aos outros na hora em que vêm seus interesses contrariados nas grandes jogadas de corrupção em que se envolveram no governo de São Paulo ou na comemoração dos seus patrióticos “negócios”
Com a palavra o ex-vice governador e atual senador eleito por São Paulo Aloysio Nunes Ferreira que, do alto da sua ignorância e falta de educação ataca um jornalista no cumprimento de sua missão.
Quem é filho da puta, senador? O jornalista ou os que recebem propina da Cia. Alston, essa empresa das licitações do metrô de SP, conforme inquérito que está em julgamento na Europa?
Quem é filho da puta, senador? O profissional de imprensa independente ou amigos que desviam dinheiro do Caixa 2 do PSDB e ameaçam com chantagem se não forem defendidos?
Quem é filho da puta, senador? Quem diz a verdade ou quem vicia processos de licitação em benefício próprio, botando a mão no dinheiro público?
Quem é filho da puta, senador? Quem defende a soberania nacional ou quem entrega a riqueza do país a empresas internacionais, vendendo-as a preço de banana? E que um dia já se disse “revolucionário”?
A lista de perguntas é bem mais extensa, mas não vou maçá-lo com questões que têm a ver com a consciência dos homens que, de fato, são sinceros e honestos na sua trajetória política. Seria esse o seu caso?
Orgulho-me, sinceramente, de não pertencer ao seu grupo social e político. Entre o meu Brasil e o seu, de homens verdadeiramente “íntegros”, prefiro ser um filho da puta, mas com a dignidade de quem não se vende por trezentos dinheiros. E não sou pelego filiado ao Partido dos Trabalhadores.
O fascismo enrustido não passará!

Izaías Almada é dramaturgo e escritor, colunista do NR e do Escrivinhador

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A democracia que só fala com os amigos

Foi com espanto e tristeza que ouvi os xingamentos a mim dirigidos pelo senador eleito Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP). Na noite de segunda-feira (25), o ex-chefe da Casa Civil do governo paulista classificou-me como “pelego e filho da puta.” A agressão verbal ocorreu antes do debate realizado pela Rede Record entre os candidatos à Presidência da República.
Ao senador, não havia, até aquele momento, dirigido nenhuma palavra. Tudo o que ele sabe de mim, naquele instante e agora, é que trabalho para a Rede Brasil Atual e para a Revista do Brasil. Parece ser suficiente para que se sinta no direito de proferir insultos: são veículos produzidos por uma empresa privada cuja receita vem da prestação de serviço (venda de anúncios e assinaturas) a pessoas físicas e jurídicas – incluindo sindicatos de trabalhadores.
Foi por conta desse aspecto que o PSDB obteve liminar, via Tribunal Superior Eleitoral (TSE), vetando a continuidade da distribuição e a divulgação da edição 52 da revista na internet sob a argumentação de que dinheiro do trabalhador não pode financiar material eleitoral - este assunto já foi discutido aqui e a editora apresentou recurso ao TSE, não cabendo de minha parte qualquer argumentação.
O que a mim, como jornalista, é importante debater é a maneira como o senador se sente no direito de tratar a imprensa. É deplorável que, como repórter, tenha de me posicionar contra a agressão que sofri, deixando de exercer o fundamento básico da minha profissão, que é escrever sobre os outros, e não sobre minha vida. O único bem de um jornalista, ao menos daquele que não se presta a coleguismos com o poder, é a palavra: é ela que ouço, é com ela que conto histórias.
Quando o senador classifica a mim como “pelego filho da puta” porque trabalho em um veículo que jamais escondeu sua posição favorável à continuidade do atual projeto de governo, recorre a uma simplificação lamentável. Seguida a linha de pensamento do futuro parlamentar, todos os que trabalham em Veja, Folha, Estado e O Globo são, necessariamente, tucanos – e aí o leitor escolha o adjetivo que deve acompanhar a classificação.
A fala do senador é reveladora da propensão a não lidar com o contraditório. Talvez por maus costumes: quem circula pelos eventos políticos brasileiros sabe a cordialidade com que são tratados alguns líderes políticos, plenamente oposta à ferocidade dispensada a outros. Ao recorrer a esta simplificação, realiza-se um desmerecimento prévio de meu trabalho, numa triste tentativa de intimidação de minha atuação. Simplificação que teve continuidade no Twitter, em que o senador utilizou aspas para dizer que sou jornalista: "O 'jornalista' faz o que eu esperava dele: mente quando afirma que o xinguei de fdp. Chamei de pelego, o que é verdade e, a mim, muito pior."
O senador sabe as palavras que proferiu. Se quer admitir em público ou não, para mim é indiferente. O que não se pode colocar em dúvida é minha formação e minha integridade profissional. Sou jornalista – sem aspas – formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Minha passagem pelo Departamento de Jornalismo e Editoração, portanto, está lá registrada, caso alguém se interesse em averiguar.
Daqui por diante, como o senador espera que se proceda para entrevistar algum integrante do PSDB? Será que a democracia ideal contempla apenas a manifestação das vozes amigas (e queridas), sem espaço ao debate necessário para o amadurecimento da sociedade e, por consequência, da realização do bom jornalismo? O PSDB, que tem recorrido a simplificações para acusar adversários de quererem cercear a liberdade de pensamento, é quem mais nos fornece exemplos deste suposto cerceamento. Já não cabem nos dedos de uma mão: a restrição da circulação da Revista do Brasil, a censura ao jornal ABCD Maior, a tentativa de agressão do padre que se manifestou contra boatos, a ação no Paraná para impedir a publicação de pesquisas eleitorais, a "criminalização" de jornalistas que fazem perguntas efetivas a Serra e, agora, este xingamento.
Uma coisa é a opinião de um veículo. Outra, que não se confunde, é a opinião do jornalista. Esta, manifesto em blogues e nas redes sociais da internet, bem como outras centenas de profissionais da área, e deixo para trás quando estou na condição de repórter. Nas redações nas quais trabalhei, e há nesta lista algumas que o senador seguramente vê com bons olhos, sempre mantive minha posição de não deixar que interesses se misturem. Cumpro o compromisso de ouvir todos os lados. Como teria feito na última segunda-feira, se me tivesse sido conferida, pelo senador, tal oportunidade. Espero que, na próxima ocasião, Aloysio Nunes se mostre aberto ao diálogo. Sem ofensas, sem simplificações.

O que o senador disse no Twitter:
# O "jornalista" faz o q eu esperava dele: mente quando afirma q o xinguei de fdp. Chamei de pelego, o q é verdade e, para mim, muito pior. 35 minutes ago via TweetDeck
# O "jornalista" perguntou se eu não falava com trabalhador. Respondi: falo com trabalhador, com pelego, não falo (segue) 36 minutes ago via TweetDeck
# Revista sindical que faz campanha da Dilma, bancada por dinheiro público, quis me entrevistar na Record e eu recusei (segue) 40 minutes ago via TweetDeck
# Caros, vejo que o assunto sobre o jornalista da Rede Brasil Atual voltou ao twitter. Respondi ontem. Acho perninente repetir. Vamos lá:

João Peres é jornalista, colunista do Nota de Rodapé e repórter Rede Brasil Atual

Repórter do NR e da RBA é ofendido por senador do PSDB

João Peres, nosso colaborador do NR e repórter da Rede Brasil Atual, profissional da mais alta competência teve ontem uma experiência desagradável e desrespeitosa.  Ele estava na cobertura do debate entre os presidenciáveis da Record, na noite de ontem, e na entrada da emissora, como todo repórter faz e é da profissão, foi conversar com os políticos que chegavam para acompanhar o evento.  O senador eleito por São Paulo, do PSDB, Aloysio Nunes, amigão do Serra, foi abordado pelo repórter que fazia a cobertura para a Rede Brasil Atual, que pertence ao mesmo grupo da Revista do Brasil, censurada recentemente pelo partido do senador em questão. Era perto da hora do debate, que começou às 23h, quando o senador eleito com mais de 11 milhões de votos indagou ao repórter:

- é ligada a quem essa revista?
- aos sindicatos
- que sindicatos? - falou a assessora do lado dele
- bancários, metalúrgicos, químicos...
- pelego, você é pelego - falou o senador
- não podemos conversar, senador?
- pelego. sua revista é financiada pelo PT...
- e a Veja, quem financia, senador?
- pelego
- que educação, senador
- pelego filha da puta. pelego filha da puta!

João me escreveu: "foi assim, gratuito. fiquei passado, triste mesmo. não que não devesse esperar isso, mas agora vai ser isso, vou ser rotulado logo de cara pelo veículo em que eu trabalho? ninguém associa a tucano-demo logo de cara um sujeito que trabalha na folha? uma noite horrível." Digo o seguinte: é preciso que os políticos respeitem o trabalho dos jornalistas. Esse clima de guerra entre PT e PSDB está doentio. João Peres é um trabalhador, um empregado de um veículo que, sim, tem ligações com os sindicatos. E daí? Isto é público e notório. Nada está escondido. Pergunto ao distinto senador: todos os metalúrgicos, químicos e afins são "filhos da puta", então? Eu sou "filho da puta" também, pois apesar de não ser petista, trabalhei na revista durante um ano. Eis mais um absurdo que se tornou estas eleições. Lastimável.
"A Editora Atitude, que publica os dois veículos (Rede Brasil Atual e Revista do Brasil), condena a postura do senador eleito e entende que liberdade de expressão não é agredir verbalmente quem está em seu direito constitucional de exercer a liberdade de imprensa, muito menos a função de um representante de um Estado no Senado Federal", diz o diretor da editora, Paulo Salvador.

Thiago Domenici, jornalista

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Renatão, 50 anos de jornalismo

O amigo e parceiro Renato Pompeu, jornalista e escritor, que mantém o blog do Renatão fez 50 anos de profissão e escreveu o texto a seguir que tomo a liberdade de compartilhar com vocês. O texto foi publicado originalmente em março, na Revista Caros Amigos, e também em seu blogue. Como o próprio diz, "meio século de alegrias e frustrações."  Estudantes e profissionais, tirem sua próprias conclusões.

Estou completando este mês 50 anos de jornalismo profissional, que iniciei entrando por concurso em 1960 na “Folha da Manhã”, hoje “Folha de S. Paulo”. Continuo enfrentando a profissão como a iniciei: alegre por prestar um serviço público e frustrado por não conseguir, por limites pessoais e externos, prestar plenamente esse serviço.
Aprendi muito nessas décadas todas. Em primeiro lugar, aprendi que um jornalista não precisa saber nada, precisa apenas saber quem sabe. O jornalista, ao contrário dos intelectuais, não tem de divulgar seus conhecimentos, e sim de divulgar o conhecimento de terceiros, sempre relatando que se baseia em fontes, embora possa não identificar essas fontes. Essas fontes podem ser testemunhas, especialistas ou pesquisas e outras documentações. O que o jornalista precisa saber é realmente como conseguir chegar às fontes em cada assunto específico, e distinguir entre as fontes boas e más.
Uma segunda constatação que fiz é que a especialização em alguma problemática, seja Esportes ou Polícia, ou seja qual for, pode ser mais prejudicial do que benéfica. Um jornalista sempre depende de suas fontes e, se insistir ficar anos a fio cobrindo o mesmo campo, pode ficar prisioneiro de suas fontes. Ele não pode correr o risco de desagradar cada uma de suas fontes, publicando uma informação importante que a fonte não quer ver divulgada, por exemplo, pois nesse caso a fonte deixará de prestar novas informações. Por isso, ao longo de minha carreira, sempre procurei passar sucessivamente de um campo de cobertura para outro. A tal ponto que, quando me perguntam, “Afinal, você é jornalista especializado em quê?”, sempre respondo: “Sou jornalista especializado em jornalismo”.
Outra coisa que aprendi foi que cada jornalista tem as fontes que merece. Se o jornalista for um ser intelectualizado que procura ser isento, ele terá como fontes seres intelectualizados que procuram ser isentos. Se o jornalista for conservador, terá conservadores como fontes. Se o jornalista for esquerdista porra louca, terá esquerdistas porras loucas como fontes. Dize-me quem são tuas fontes, e dir-te-ei quem és. Ou melhor, dize-me quem és e dir-te-ei quem são as tuas fontes.
Finalmente, aprendi que existe um outro jogo de espelhamentos como esse entre os jornalistas e suas fontes: é a identificação dos integrantes de uma redação bem sucedida com o seu público. A composição social, política e cultural de uma redação bem sucedida vai ao mesmo tempo criando um público de composição social, política e cultural semelhante, e vice-versa, as exigências do público vão alterando a composição da redação que serve àquele público. Disse Marx, referindo-se a livros, “Cada obra cria o seu próprio público”. Disse meu falecido irmão, jornalista Sérgio Pompeu: “O jornalista precisa ter um vínculo com seu público”, do contrário sua obra cairá no vazio, ou mesmo será recebida com hostilidade. Dize-me se você gosta de me ler e dir-te-ei que você é parecido-parecida comigo.

Condenados lotam delegacias de São Paulo após nova regra da SAP

O repórter e amigo Léo Arcoverde, do Agora, mostra na edição de hoje que condenados lotam delegacias após uma nova regra da Secretaria de Administração Penitenciária. Leia trecho: "O governo do Estado baixou, no fim do mês passado, uma medida que transformou os oito DPs da capital que possuem carceragem em depósitos de presos condenados. Os distritos abrigavam, na semana passada, 392 detentos onde cabem 155, segundo carcereiros. Por conta da falta de segurança das delegacias, segundo especialistas, a regra aumenta o risco de rebeliões, de resgates e de fugas de presos e representa um perigo para quem vai a uma delegacia registrar um ocorrência policial. (...) A superlotação dos DPs — esvaziados em 2005 — é fruto da resolução 219, da SAP (Secretaria de Estado da Administração Penitenciária). A regra proíbe, entre outros pontos, a transferência imediata, para CDPs (Centros de Detenção Provisória), de foragidos da Justiça já condenados que foram recapturados ou presos ao cometerem novo delito.
Antes da resolução 219, um preso era transferido de um distrito policial da capital para um CDP (Centro de Detenção Provisória) no mesmo dia, no dia seguinte ou na segunda feira, em casos de prisões realizadas nos fins de semana. Agora, um preso demora até um mês para conseguir uma vaga da SAP e ser transferido da carceragem de um distrito policial para uma penitenciária."

No Pará, contêineres
O Conselho Nacional de Justiça, CNJ, vistoriou cinco presídios no Pará na última quinta-feira. E o que encontraram? Presos vivendo em celas dentro de contêineres no Presídio Estadual Metropolitano Unidade 1 (PEM1), em Belém. O juiz Vinicius Paz Leão comparou a um forno as altas temperaturas dentro das celas. Vale lembrar que, recentemente, o Departamento Penitenciário Nacional (Depen) do Ministério da Justiça atualizou os “Dados Consolidados da População Carcerária 2010”, relativos ao mês de junho, que apontam um total de 494.237 pessoas presas no país – ainda segundo o Depen, o número de vagas no sistema é de apenas 299.587, ou seja, há um déficit de 194.650 vagas.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Abrindo a carta de Marina

Acabou o suspense: Marina Silva escolheu a neutralidade. Uns apostavam que, neste segundo turno, as lideranças paulistas e cariocas do PV a empurrariam na direção de José Serra. Outros acreditavam que seus antigos laços políticos com o PT a fariam apoiar Dilma Rousseff. No fim, porém, a candidata não ficou nem lá nem cá: preferiu subir no muro e, assim, não manchar a áurea que construiu ao redor de si durante a campanha.
A decisão foi tomada durante a convenção nacional que o PV realizou em São Paulo, no dia 17 de outubro, dentro do prazo de duas semanas que o partido havia estabelecido para tomar uma posição. O eleitor se lembrará que, após conhecer seu surpreendente desempenho nas urnas, Marina declarou-se temporariamente neutra e pediu um tempo para consolidar as ideias. Sua independência, agora, é o resultado deste período de reflexão.
Praticamente todos os convencionais do PV a seguiram: apenas quatro das 92 lideranças presentes manifestaram o desejo de apoiar o nome de Serra ou Rousseff. Os demais preferiram pensar a longo prazo e preservar o potencial eleitoral do símbolo criado pela candidata verde: foram 20 milhões de votos, pouco para levar Marina Silva ao segundo turno, mas suficientes para elegê-la como representante de uma espécie de “terceira via” no Brasil e alçá-la nacionalmente como defensora de uma “nova forma de fazer política”.
São conceitos ainda vagos e fartamente explorados pelo marketing do PV, mas que aos poucos vão se esclarecendo. Agora, por exemplo, temos mais elementos para analisá-los. Junto com o anúncio de que manteria sua neutralidade em relação ao duelo presidencial, Marina Silva lançou uma Carta Aberta aos candidatos que continuam na disputa.
O documento, quase um manifesto, deixa transparecer pelo menos cinco pontos que definem (e possivelmente continuarão definindo) o discurso “marinopevista” de cara à sucessão presidencial de 2014.

1. A utopia verde
Antes de mais nada, Marina Silva se enxerga – e é enxergada pelo PV – como “mantenedora de utopias”. Não na acepção ingênua e imatura da palavra, que confunde utopia com sonhos impossíveis ou delírios juvenis, mas no sentido mais profundo e filosófico do termo, que interpreta o pensamento utópico como catapulta das mudanças que podem ser aplicadas à realidade futura. Os utópicos veem o mundo não apenas como ele é, mas principalmente como ele deveria ser.
Utopia, portanto, é analisar o tempo presente, identificar mazelas, projetar transformações e lutar para que, um dia, possam se concretizar. O objetivo óbvio de todo utopista é modificar o estado atual das coisas. Portanto, ser utópico é caminhar na contramão do fatalismo, do “não tem mais jeito”. A utopia reconhece que o homem é dono de sua história e que, ao contrário do que dizia Francis Fukuyama, ainda não chegamos nem vamos chegar nunca ao fim dela. A organização das sociedades é dinâmica e tudo que nelas acontece é resultado direto da ação humana.
O comportamento utópico, contudo, não remete necessariamente às crenças marxistas. Na década de 1930, o sociólogo alemão Karl Mannheim identificou quatro tipos de utopia vigentes no mundo pré-nazista de então: comunista, conservadora, liberal e anarquista. As diferenças entre cada um dos modelos utópicos dependem da ideologia que professam. E é a natureza da ideologia que localiza o ser humano em posições distintas na linha da história e define a maneira como irá interpretar a realidade (ou seja, de analisar o mundo como ele é) e traçar caminhos para construir o futuro (isto é, projetar como o mundo deve ser). Se há uma característica comum a todas utopias, porém, é a de que o presente necessita ser transformado e que esta transformação resultará numa vida melhor.
Com 19,3% dos votos válidos debaixo do braço, Marina Silva está tentando ocupar no imaginário dos brasileiros o espaço da utopia, da mudança e do outro mundo possível que era terreno ideológico exclusivo do PT. Pelo menos até 2002, quando o partido foi confrontado com o ápice do sucesso eleitoral. A vitória de Lula, o operário que virou presidente, inaugurou o período mais importante da história petista (em termos de projeção política e influência nos rumos do Brasil) mas também encerrou seu reinado como porta-voz da revolução social de esquerda no país.
Aliás, há quem diga que o PT perdeu o primado sobre os anseios da classe trabalhadora antes mesmo do êxito nas urnas, quando publicou a Carta aos Brasileiros para acalmar o mercado e as elites às vésperas do pleito. Até então, e a despeito do discurso conciliador, ainda se temiam as barbas de Lula nas altas rodas da grã-finagem.
Foi o início da desconstrução da imagem combativa do partido, que teve prosseguimento com as denúncias de corrupção, mensalão e afins, a profissionalização de quadros e hierarquização da cadeia de mando interna, a adoção de uma agenda menos pautada pelos movimentos sociais e sua adaptação às “regras do jogo” eleitoral – inclusive às mais sujas. O próximo passo foi a expulsão (e, depois, a saída voluntária) de militantes que, fiéis às antigas propostas do petismo, não assimilaram bem as mudanças. Plínio de Arruda Sampaio, Heloísa Helena, Luciana Genro, Babá, Ivan Valente… A lista dos que negaram a nova fase do PT é extensa. E uma das últimas a deixar o barco, ainda que por motivações e em momentos distintos, foi precisamente Marina Silva.

2. O joio no trigo
A Carta Aberta escrita pela presidenciável joga PT e PSDB na vala comum dos partidos brasileiros. Ao conceder a si mesma o título de “mantenedora de utopias”, Marina Silva automaticamente quer dizer que o PT passou a ser apenas mais um grupo político trabalhando para conquistar o poder – e apenas o poder. Nas entrelinhas, defende a tese de que já não se pode esperar, nem do PT nem do PSDB, as grandes e profundas transformações na estrutura política, econômica ou social que o Brasil precisa. Isso, Marina diz que precisa. Porque uma boa utopia, para ser convincente, deve projetar seu mundo ideal.
Não é a toa que ataca com tanta veemência o que chama de “signo da dualidade”, que, segundo a candidata, tem se expressado historicamente no país pela “redução da disputa política ao confronto de duas forças determinadas a tornar hegemônico e excludente o poder de Estado.”
A situação narrada por Marina é típica dos partidos esvaziados de utopia. Ou porque sua construção ideológica não cumpriu as promessas que fez, transformando-se numa grande mentira – caso típico do neoliberalismo tucano após os pífios indicadores do governo FHC e, mais recentemente, da derrocada dos mercados. Ou porque o partido deu um giro contundente em suas posições políticas a tal ponto de não ser mais reconhecido como portador da mudança. Ou ainda porque tanto a realidade presente como as necessidades futuras estão em rápida e constante transformação, deixando as lideranças partidárias a reboque dos acontecimentos sociais. Na falta de projetos inovadores para o país, as disputas políticas passam a ser apenas disputas de poder.
Em sua Carta Aberta, Marina Silva lembra que a situação não é nova e que as rixas partidárias existem desde a época de Dom Pedro II. Começou contrapondo republicanos e monarquistas. Depois, já no século 20, jogou UDN contra PSD. No regime militar a briga era MDB vs. Arena. Agora, diz o marinismo, a história estaria se repetindo com PT e PSDB.
Não sem certa dose de ironia, observa, já que ambos os partidos nasceram das entranhas do MDB justamente para denunciar a ineficácia do “bipartidarismo” em representar a diversidade social brasileira.
Resgatando os conceitos do “eterno retorno” e aplicando-os ao jogo partidário nacional, Marina Silva se apega à ideia de que PT e PSDB são hoje os fiadores do “conservadorismo renitente” que desde sempre tem colonizado a política tupiniquim e sacrificado qualquer utopia em nome do pragmatismo sem limites.
“O mergulho desses partidos na antiga lógica empobrece o horizonte da inadiável mudança que o país reclama”, alfineta. Em outras palavras, Marina está gritando bem alto que a política que se faz atualmente no Brasil está ultrapassada, vazia de conteúdo e pobre de projetos. Ou seja, nossas eleições estão envenenadas pela sede de poder. E, contra esse veneno, eis que surge Marina Silva: o antídoto capaz de fazer com que a utopia volte a correr nas veias da democracia partidária.

3. Voto revolucionário

Marina Silva expressa o bem-vindo desejo de que a política nacional seja mais do que a escolha compulsória entre tucanos azuis e estrelas vermelhas. Ainda que a polarização entre PT e PSDB não seja de todo verdadeira em nosso presidencialismo de coalizão. O nó górdio do fisiologismo parece descansar muito mais na imensa influência institucional do PMDB. Trata-se do maior partido do Brasil, uma sigla gigante, difusa e incoerente, repleta de caciques e interesses regionais, mas cujo apoio garante no Congresso a governabilidade de quem quer que venha a ocupar o Palácio da Alvorada. E a cor da camisa nunca foi problema: o PMDB quer estar sempre no poder e tem força suficiente para barganhá-lo com o vencedor das eleições.
A Carta Aberta deixa claro que Marina Silva anseia por um país onde a democracia seja mais do que ceder aos totens do tradicionalismo. Mas não só. A candidata quer uma política multicolorida, diversa e que admita o verde como alternativa eleitoral. Só nos resta saber se o verde que se reclama é o do ambientalismo, que propõe novos paradigmas de desenvolvimento para o mundo e para o país, ou o que veste 43 e pede nosso voto na tevê de dois em dois anos.
Essa dúvida sobre as intenções do PV é a mesma que paira sobre o perfil dos eleitores de Marina Silva. Quem são eles? Será a comunidade evangélica, identificada pela fé da candidata? Será gente que, fazendo eco à Carta Aberta, está cansada da mesmice eleitoral dos últimos 16 anos? Serão pessoas que votavam no PT e se desiludiram com a guinada pragmática do partido? Ou cidadãos que mal acompanham o noticiário, não se interessam por política e gostaram da estética clean da campanha pevista? Fiéis adoradores dos produtos Natura, talvez? Quem sabe gente antenada com as principais consequências da crise ambiental, que acompanhou com amargura os fracassos de Copenhague e realmente acredita num mundo onde é possível viver bem e dignamente sem consumir tanto? Quem são os eleitores de Marina: intelectuais, trabalhadores, empresários, ateus, cristãos, ricos, pobres?
Talvez haja de tudo um pouco. A candidata do PV, porém, não acredita que seus votos tenham emanado de uma “soma indistinta de pendores setoriais”. Marina responde a uma das perguntas. Na Carta Aberta, escreve que seus eleitores são pessoas que repelem o fatalismo partidário que os empurra a votar ou PT ou PSDB para os altos cargos. Mas prefere pensar que, mais que o descontentamento com esta dualidade, os brasileiros que apertaram 43 para presidente estão unidos no desejo por “outros valores e outros conteúdos para o desenvolvimento nacional”.

4. O novo modelo

Infelizmente, é difícil acreditar que 20 milhões de pessoas estejam repensando padrões de vida e bem-estar num momento em que o país festeja o aquecimento da economia, o crescimento do PIB, a geração de empregos e a redução da pobreza. Pela simples razão de que o “bom momento” que se vive no Brasil é consequência direta de um nível de consumo maior (e cada vez maior) dos brasileiros, inclusive de gente que antes não consumia quase nada e que, depois do Bolsa Família e dos programas de microcrédito, pôde consumir o necessário para viver com o mínimo de dignidade. No sistema capitalista, as compras geram demanda, as demandas geram empregos, que geram mais compras e assim por diante.
Para o bem ou para o mal, ainda estamos presos neste esquema. E, agora que as coisas vão ou parecem ir melhor do que antes, aparentamos certa dose de satisfação em poder assistir o futebol e a novela numa televisão grande, viajar de avião nas férias, fazer churrasco aos finais-de-semana ou ir de carro para o trabalho. Talvez sem atentar, ou sem dar tanta importância, para os limites do planeta em aguentar nosso conceito de satisfação pessoal. Marina, porém, acredita que os 19,3% da população que votaram nela está ligada nesta problemática.
O caso do Brasil e demais países emergentes é extremamente complicado. A maioria de nós jamais teve acesso aos confortos da vida moderna. Mas agora está tendo: desde o pequeno prazer de poder escolher entre milhares de produtos em exposição nos supermercados até concretizar o sonho da casa própria.
Não dá para dizer aos que passaram toda a vida excluídos das delícias do consumo que, agora que lhes é permitido usufruir do bem-estar que nunca tiveram, deverão permanecer a uma distância segura da fartura. Do tipo: Nunca comeu filé mignon? Pois continue comendo ovo, mesmo que seu ordenado dê para um bom bife. Afinal, amigo, o planeta já não aguenta mais. Seria a maior das hipocrisias pedir que os recém-saídos das classes E, F, G e H, que não têm culpa nenhuma pela crise ambiental, se contentem com uma vida de austeridade porque os mais ricos fizeram o favor de usufruir da Terra para além da conta.
O carro-chefe da campanha de Marina Silva, portanto, é dos assuntos mais complexos que a humanidade já está enfrentando. Mas há dúvidas de que o PV possa conduzir a pauta verde com a devida legitimidade e competência. Primeiro porque a maioria de seus quadros estão historicamente alinhados com os setores mais conservadores da sociedade. Fernando Gabeira e Fábio Feldmann, que certamente ocupariam ministérios num eventual governo de Marina Silva, apoiam PSDB e DEM no Rio de Janeiro e São Paulo. E, apesar da neutralidade do partido neste segundo turno, estão trabalhando para a campanha de José Serra. Depois, porque o programa econômico apresentado por Marina Silva para estas eleições não questiona o ponto nevrálgico do modelo de desenvolvimento: o capitalismo.
Vivemos num planeta com recursos limitados, mas professamos uma economia que se pauta pelo crescimento infinito da produção, do consumo e da acumulação. Temos uma minoria que através dos séculos usufruiu à vontade das riquezas e só agora chegou à conclusão de que, se todos quiserem viver como as elites, o mundo não aguentaria.
Entretanto, José Eli da Veiga, um dos gurus econômicos da campanha do PV, diz que as nações subdesenvolvidas não podem sequer cogitar a possibilidade de não crescer. “A lei é consumo ou morte”, diz. “Os únicos que já podem colocar em questão o crescimento econômico são os países escandinavos. Lá existe uma situação em que a melhoria da qualidade de vida não necessariamente exige mais produção e consumismo.” Para Eli da Veiga, o Brasil e seus parceiros emergentes não se encontram em nenhum destes dois extremos: nem podem se dar ao luxo de deixar de crescer, nem devem crescer a qualquer custo. “A questão para nós é a qualidade do crescimento.”

5. Ecocapitalismo

O capitalismo está na encruzilhada de um mundo verde – mas não do mundo verde do PV. Enquanto o sistema econômico não for radicalmente modificado (e assim também seus padrões de bem-estar, conforto e riqueza) não haverá prosperidade suficiente para todos. O mundo acabaria antes. E não é uma questão de capitalismo ou socialismo ou o retorno da Guerra Fria. Trata-se de pós-capitalismo. Contudo, como bem apontava o presidenciável do PSOL Plínio de Arruda Sampaio durante os debates eleitorais, Marina Silva diagnostica com perfeição o grande problema do nosso tempo, mas não o encara de frente. Daí a pecha de ecocapitalista.
Sua Carta Aberta diz que “o mega-fenômeno com o qual temos que lidar é o do encontro da humanidade com os limites de seus modelos de vida e com o grande desafio de mudar. De recriar sua presença no planeta não só por meio de novas tecnologias e medidas operacionais de sobrevivência, mas por um salto civilizatório, de valores. Não se trata apenas de ter políticas ambientais corretas ou incentivar os cidadãos a reverem seus hábitos de consumo. É necessária nova mentalidade, novo conceito de desenvolvimento, parâmetros de qualidade de vida com critérios mais complexos do que apenas o acesso crescente a bens materiais.”
É simplesmente maravilhoso ouvir uma candidata à presidência com este discurso, mas é difícil acreditar que uma mudança de tal magnitude virá de um partido tão comprometido com as elites tradicionais, como o PV, ou da associação da figura ambientalista de Marina Silva com o empresário Guilherme Leal, um dos mais ricos do país. Graças a ele, o jatinho da campanha do PV era o mais luxuoso entre os presidenciáveis.
Que salto civilizatório pode-se esperar de tais alianças? Se a Carta Aberta diz que “o novo milênio exige mais justiça dentro de cada sociedade”, devemos esperar que os milionários nos deem a solução para a crise que se agrava? Estariam os mais ricos dispostos a abrir mão de seu alto padrão de vida e nível de consumo para começar a construir na realidade a utopia marinista?
A mudança civilizatória rumo ao ecologismo dificilmente virá da minoria mais abastada. A elite tem muito a perder com uma transformação tão radical. Talvez as classes de baixo poder aquisitivo, que jamais se lambuzaram na festa do consumo desenfreado, é que possam, agora que as portas dos shoppings se abrem para seus salários, escolher um novo caminho. Mas isso dificilmente ocorrerá dentro de um sistema que só prospera na gastança e que neste momento está possibilitando aos brasileiros contar com mais dinheiro no bolso. Marina Silva acredita que os 20 milhões de votos que recebeu refletem o “sentimento de superação de um modelo”. Pode até ser que seja o modelo neoliberal (em prol do desenvolvimentismo de estado, quiçá) mas definitivamente não é o capitalismo.
Muitas comunidades indígenas na cordilheira dos Andes e na Amazônia têm um discurso bastante semelhante ao de Marina Silva. A imensa diferença é que elas não se aliam a milionários para lutar por seus valores ambientais, que são profundos e definem o âmago de suas sociedades. Os povos tradicionais andinos, atropelados pela máquina colonialista, há tempos exigem uma mudança civilizacional. E, com todos os problemas e contradições, a praticam diariamente. Seja por meio da organização comunal da propriedade e na tomada coletiva de decisões, seja pela agricultura familiar e preservação da natureza, os indígenas latinoamericanos dedicam suas vidas para superar a concepção ocidental de mundo.
É assim que começa uma utopia verde. Falar em mudança de paradigmas e caminhar ao lado de baluartes do capitalismo e do pragmatismo nacional está longe de ser uma postura utópica. É muito mais uma atitude meramente ideológica, no pior sentido do termo, que manipula o discurso e os dados da realidade como plano de ação para enganar a opinião pública e alcançar o poder. Nesta trilha, Marina caminha para a mesmice que tão oportunamente critica em seus adversários.

Tadeu Breda, jornalista, é colunista do Nota de Rodapé e vive em Latitude Sul.

O peso eleitoral da bolinha de papel, o retorno

Na edição de ontem, 21, o Jornal Nacional (e depois o Jornal da Globo) mostrou que José Serra do PSDB havia sido atingido por uma bolinha de papel e numa outra imagem, feita por um repórter da Folha de S.Paulo (do celular) por um objeto "mais pesado". O JN dedicou um bom tempo (mais de 7 minutos) para dizer que não errou na reportagem do dia anterior, questionada veementemente em blogs e redes sociais, a partir de uma reportagem do canal concorrente, o SBT, que mostrava o candidato atingido por uma bolinha de papel. Serra afirmou, não sobre a bolinha de papel, mas sobre o outro objeto (o voador não identificado), que ficou "tonto" só que não a ponto de "desmaiar". E que fez uma tomografia em seguida. Um exagero.
A questão de ser agredido é forçar a barra. A intenção é criar medo e pânico colando a ideia de que petistas e Dilma são agressivos. Lembrem-se, estamos há oito dias do pleito e a Globo, a Folha e o Estadão, nitidamente, estão em campanha por José Serra. Seria uma forma de abafar a história de Paulo Preto e desviar o foco? Concordo que errou, sim, quem jogou alguma coisa em Serra, isso é patético, mas pior é usar tal episódio para capitalizar eleitoralmente em seu favor como fez no horário eleitoral e nos eventos em que participou. Pior é ver a matéria do JN induzindo o telespectador, como bem esclarece o texto do Azenha "Em menos de 24 horas, objeto sólido que atingiu Serra encolheu de 2kg para 0,5 kg". Sem falar na sorte do repórter da Folha. Com um celular, na muvuca, captar o momento exato - com imagem pouco clara - em que o objeto voador não identificado (que o perito usado no JN diz ser uma rolo de fita) acerta o tucano.
E hoje, como se nada tivesse acontecido, a divulgação pela Folha e pela TV Globo da pesquisa realizada pelo instituto Datafolha sobre as intenções de voto à Presidência mostra a candidata Dilma Rousseff (PT) com 50% das intenções e o candidato José Serra (PSDB) com 40% - foram ouvidos 4.037 eleitores no dia 21 de outubro. Ou seja, Dilma vai a 56% dos válidos e abre 12 pontos sobre Serra. Com o episódio, eles já devem estar alucinados por outra pesquisa para ver se Dilma perde uns pontinhos - coisa que o Serra não levou na cabeça.


Reportagem do JN de ontem, 21 de outubro


Vídeo "Farsa em 6 partes" de hoje, 22 de outubro

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O peso eleitoral da bolinha de papel no cucuruto de Serra

Reportagem do SBT se opõe a da Rede Globo. Segundo a assessoria de José Serra, um “pesado objeto” o atingiu em passeata na Zona Oeste do Rio. E teria sido atirado por militantes do PT. Mas, como mostra o vídeo abaixo, se não era uma pedra e nem um rolo de adevisos, o que era? Uma bolinha de papel com peso eleitoral. As imagens, a meu ver, me parecem bem fidedignas de que nada pesado foi jogado no tucano. O presidente Lula comparou Serra ao goleiro Rojas (em alusão ao goleiro chileno Roberto Rojas que fingiu ser atingido por um morteiro em uma partida contra o Brasil) e disse que agressão é 'mentira descarada'. "A mentira que foi produzida ontem pela equipe de publicidade do candidato José Serra é uma coisa vergonhosa. Ontem deveria ser conhecido como dia da farsa, dia da mentira", disse Lula, após inaugurar um estaleiro em Rio Grande (RS). Como não poderia ser diferente, a história virou febre no twitter, com as hastags #boladepapelfacts e o #serrarojas liderando os trendtopics (espécie de ranking dos assuntos mais comentados). Já não é a primeira e nem a segunda vez que o tucano faz manobras marketeiras de impacto para impressionar negativamente o eleitor.

Virou jogo
O episódio do tumulto na caminhada no Rio de Janeiro já virou um game virtual. No joguinho, o internauta tem que acertar uma bolinha de papel na figura recortada de Serra, que se esquiva das investidas. Ao fim de 30 segundos, um resultado de tomografia indica os acertos. O fundo do jogo é a bancada do Jornal Nacional. Clique aqui para jogar. Abaixo, veja o vídeo com a reportagem do JN e do SBT.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A agenda do candidato

Perdoem-me por começar citando um lugar comum: “ninguém é perfeito”. E, por ser assim, minha amiga Alzirinha é daquelas pessoas que, sempre que se aproximam as campanhas eleitorais, se anima com a possibilidade de arranjar um bom emprego por três meses. Normalmente apresenta-se para trabalhar em algum comitê eleitoral onde durante noventa dias ou até um pouco mais, se tiver sorte, trabalha como secretária. O mais engraçado é que ela vive dizendo que não gosta de política e de políticos, mas descobriu há anos que em campanhas eleitorais rola um bom dinheiro. E é disso que a Alzirinha gosta. Mas... Ninguém é perfeito.
Desta vez ela teve sorte e foi chamada para trabalhar no comitê do candidato Serra e divide o seu trabalho de secretária com mais duas colegas. A grana é tanta que ela resolveu trocar de carro. Sorte dela. Nessas ocasiões encontramo-nos pouco, pois ela trabalha quase que dezesseis horas por dia. Mas teve folga no último domingo e convidou-me para um almoço no seu apartamento: picadinho à mineira, com ovos e tutu de feijão, receita da sua avó, nascida em Carandaí.
Já no cafezinho, à espera de um ligeiro descanso no sofá, pois ninguém é de ferro, Alzirinha atendeu a um chamado do celular. Enquanto andava pela sala de um lado para o outro, muito concentrada no tal telefonema, arrisquei dar uma espiadela na agenda da Alzirinha, aberta sobre a mesa. E vejam só o que lá estava anotado:

8:30hs – Telefonar para SF e saber como está a questão do telemarketing contra D;
9:00hs – Ligar para TJ em Fortaleza e saber como está o encontro em Canindé. Se estiver OK, saber com a gráfica de K se podem enviar os panfletos para Fortaleza;
11:00hs – Falar com secretária de AK na G e combinar entrevista no JN;
11:30hs – confirmar vôo M para Santiago. Ida 25/10;
13:00hs – almoço com empresário indicado pelo pessoal que vai estar em Foz do Iguaçu com FHC;
15:30hs – marcar encontro com o I e pedir a ele para não falar com a imprensa antes de conversar comigo;
17:00hs – avisar o O. na FSP que gostaria de conversar com a MB;
18:00hs – digitar rascunho para editorial do Estadão e ver com o JA se confere com o combinado;
21:00hs – Marcar novo encontro com TFP.

Quando ia virar a página, Alzirinha desligou o seu celular e pegou a agenda que estava em cima da mesa, mas algumas daquelas iniciais atiçaram a minha curiosidade. O leitor pode tentar também decifrar o que está escrito. Vai ser um bom passatempo.

Izaías Almada é escritor, dramaturgo colunista deste NR e também do Escrivinhador 

Ombudsman da Folha diz que jornal precisa “explicar melhor” detalhes da quebra de sigilo fiscal

Marina Amaral, jornalista e amiga das mais competentes da profissão, escreveu a ombudsman da Folha de S. Paulo, Suzana Singer, a respeito do caso do dossiê Amaury. Marina indagou. “Sra. Ombudsman, a reportagem que "sustenta" a manchete da Folha de S. Paulo de hoje (20) desmente completamente a conclusão do jornal. Se quem quebrou o sigilo foi o jornalista Amaury Jr. a serviço do Estado de Minas, pago pelo jornal, como é que se diz que a PF ligou o inquérito à pré-campanha de Dilma? Se o jornalista tentou passar isso adiante depois, não importa, já que foi como empregado do Estado de Minas que ele tomou a iniciativa de "encomendar" a quebra de sigilo. Aguardo seu comentário no jornal de domingo, grata, Marina - Assinante da Folha há mais de dez anos.”
A resposta foi. “Cara Marina, também apontei, na crítica interna, a necessidade de o jornal explicar melhor essa relação entre Estado de Minas e quebra de sigilo fiscal.”
A manchete de capa da Folha desta quarta-feira é “PF liga quebra de sigilo à pré-campanha de Dilma”. A matéria procura encontrar na revelação da PF uma comprovação do vínculo do jornalista Amaury Ribeiro Jr. com a coordenação da pré-campanha de Dilma Rousseff. Em nota recente à imprensa, a PF disse:
"Brasília/DF - Sobre as investigações para apurar suposta quebra de sigilo de dados da Receita Federal, a Polícia Federal esclarece que:
1- O fato motivador da instauração de inquérito nesta instituição, quebra de sigilo fiscal, já está esclarecido e os responsáveis identificados. O inquérito policial encontra-se em sua fase final e, depois de concluídas as diligências, será encaminhado à 12ª Vara Federal do Distrito Federal;
2- Em 120 dias de investigação, foram realizadas diversas diligências e ouvidas 37 pessoas em mais de 50 depoimentos, que resultaram, até o momento, em 7 indiciamentos;
3- A investigação identificou que a quebra de sigilo ocorreu entre setembro e outubro de 2009 e envolveu servidores da Receita Federal, despachantes e clientes que encomendavam os dados, entre eles um jornalista;
4- As provas colhidas apontam que o jornalista utilizou os serviços de levantamento de informações de empresas e pessoas físicas desde o final de 2008 no interesse de investigações próprias;
5- Os dados violados foram utilizados para a confecção de relatórios, mas não foi comprovada sua utilização em campanha política;
6- A Polícia Federal refuta qualquer tentativa de utilização de seu trabalho para fins eleitoreiros com distorção de fatos ou atribuindo a esta instituição conclusões que não correspondam aos dados da investigação."

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Os mineiros do Chile vão ficar igual o Lelé de Itabira?

Quando eu era criança, em Itabira, cidade do interior de Minas onde minha avó morava, aconteceu um caso curioso e dramático. Um garoto de uns dez anos caiu em um poço e ficou desaparecido por sete dias. Foi resgatado quando já ninguém mais acreditava que ele ia aparecer com vida e graças ao faro da Veridiana, cachorra que começou a cavar ao lado do buraco e chamou a atenção do dono da propriedade onde o poço ficava.
Lembro o nome da cadela, mas não o do menino sobrevivente. É que ninguém chamava ele pelo nome, mas sim de Lelé do Poço, porque ele parecia meio ruim da cabeça. Minha avó dizia que ele ficou assim depois de ter ficado sete dias comendo o próprio coco e bebendo xixi. Eu acho que ele já tinha uns parafusos a menos desde sempre.
Pois esse Lelé do Poço cresceu e continuou “dando trabalho pra família”, como dizia minha avó. Vez ou outra voltava para o buraco. Arrumava uma corda, descia os três metros (às vezes se machucava) e ficava lá, quieto – esperto, levava comida pra não precisar comer coco e água, por que tinha vez que o poço estava seco.
Da primeira a família se preocupou – mas Veridiana logo delatou o esconderijo. Depois o pessoal já ia direto no buraco quando ele sumia. Quando voltava, o Lelé falava que achava a vida “na terra” muito complicada e que preferia viver lá embaixo “pensando”. Ele era o perfeito “bobo” da Clarice Lispector. “Minas Gerais facilita ser bobo”, escreveu ela.
Volto pouco a Itabira, mas sempre que vou para lá encontro o Lelé – que já tem seus 40 anos. Sempre sozinho. Sempre fora do ar. Dizem que ele vira e mexe enche a cara e passeia pelado pela praça. Por precaução, o poço em que ele passou sete dias foi fechado, mas dizem que ele não perdeu a mania de “fugir” da terra. Já ficou dias trepado em uma mangueira e foi resgatado diversas vezes do telhado da igreja da praça.
Lembrei desse caso quando vi a história dos mineiros chilenos. Fiquei pensando que depois da euforia pelo salvamento e da glória repentina, eles podem sofrer do mesmo mal que o Lelé sofria e quererem voltar pra debaixo da terra. A mina onde eles ficaram presos também vai ser fechada parece, mas tem tanta mangueira e igreja espalhada pelo mundo; e é tão difícil viver aqui na superfície.

Henrique de Melo Sabines, mineiro, 30 anos, trabalha na ECT e se dedica à astronomia nos fins de semana. Fã de Drummond, começou a escrever por recomendações médicas. É um dos autores do espaço Cronetas no NR.

Promoção no NR: solo Lounge Chico Buarque e Beatles

Nota de Rodapé e a gravadora MCD vão sortear quatro cds, dois de cada, do lançamento Solo Lounge Beatles e Chico Buarque. Os sorteios serão no dia 28 de novembro!

A gravadora MCD e o NR oferecem aos leitores e tuiteiros dois cds do álbum Solo Lounge Chico Buarque que traz releituras do compositor interpretadas pelo pianista Benjamim Taubkin e outros dois cds com sucessos dos Beatles reinterpretados pelo pianista André Mehmari.

Para participar é fácil, tem dois jeitos:

Pelo Twitter
É só seguir o @notaderodape e retuitar a seguinte mensagem:

#Promoção Beatles e Chico Buarque: Siga @notaderodape dê RT e concorra ao álbum solo lounge da @gravadoramcd: http://kingo.to/joI

Dois cds, um de cada (Chico Buarque e Beatles) serão sorteados pelo Twitter no dia 28 de outubro.

Pelo Blog
Participam os leitores cadastrados no “Boletim Rodapé” ou os que deixarem nome, cidade e e-mail nos comentários desta postagem. Também serão sorteados Dois cds, um de cada (Chico Buarque e Beatles) no dia 28 de outubro.

Qualquer dúvida escreva para promocao@notaderodape.com.br

Boa sorte!

Solo Lounge Chico Buarque
No CD Solo Lounge Chico Buarque, desfilam obras de grande sucesso popular, de autoria somente de Chico, como “A Banda”, “Carolina”, “Quem Te Viu, Quem Te Vê”, “Noite dos Mascarados” e “A Rita”. E composições com grandes parceiros: Garoto e Vinicius de Moraes (“Gente Humilde”), Tom Jobim. Releituras do compositor interpretadas pelo pianista Benjamim Taubkin. “Foi um prazer me aproximar da obra do Chico Buarque. Mais reconhecido como letrista, Chico é um excelente músico. Sua obra é consistente, diversa e, para mim e de alguma forma, feliz. Assim espero que boa parte deste universo chegue até o ouvinte. E que colabore para dias e noites felizes em família. Afinal, o mundo é só uma continuação”, afirmou Taubkin.

Solo Lounge Beatles
O disco traz arranjos surpreendentes de 14 sucessos dos Beatles assinados pelo renomado pianista André Mehmari. O primeiro contato profissional de Mehmari com Beatles ocorreu com a gravação da faixa “Because”, presente no celebrado CD Piano e Voz, trabalho realizado ao lado da cantora Ná Ozzetti. Apesar de não se considerar “beatlemaníaco”, o jovem músico brasileiro aceitou o desafio de criar novos arranjos para 14 canções dos Beatles. As canções são: Hello Goodbye (Lennon / McCartney); Norwegian Wood (Lennon / McCartney); The Fool on the Hill (Lennon / McCartney); Across the Universe (Lennon / McCartney); Because (Lennon / McCartney); Here Comes the Sun (Harrison); Yellow Submarine (Lennon / McCartney); Penny Lane (Lennon / McCartney); Blackbird (Lennon / McCartney); Eleanor Rigby (Lennon / McCartney); Ob-la-di Ob-la-da (Lennon / McCartney); Something (Harrison); Let it Be (Lennon / McCartney) e Get Back (Lennon / McCartney). O CD cumpre o plano do músico brasileiro de realizar um trabalho pautado pela simplicidade e pela transparência musical. “Para estes arranjos a simplicidade e a naturalidade foram uma procura constante: preservar a forma e a essência de canções tão conhecidas e queridas por tantos. Queria também que os arranjos fossem respirados e tranquilos, porém com uma ideia musical marcante e única para cada canção escolhida”, afirmou o pianista.

Revista do Brasil censurada e o PSDB mancha a democracia

A Revista do Brasil, publicação mensal da editora Atitude, na qual trabalhei durante um ano como repórter, o que muito me orgulha, com a ótima condução do editor e amigo Paulo Donizetti de Souza, está passando por maus bocados, infelizmente.
A capa da última edição, número 52, está censurada. Isso mesmo, censurada! A RB sofreu uma investida do PSDB. Na madrugada da segunda-feira, 18, o ministro Joelson Dias, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pediu a suspensão de circulação da edição que leva Dilma na capa.
A ação da coligação "O Brasil pode mais", encabeçada pelos tucanos de José Serra, foi atendida apenas em parte. Agora, entre aspas, a informação completa de Paulo Salvador, que explica o ocorrido.

"Além da Revista do Brasil, suspende a circulação do Jornal da CUT, ano 3, nº 28. Mas três itens cruciais foram negados pelo ministro Dias. A demanda dos advogados tucanos queria silenciar o Blog do Artur Henrique, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), e pedia a busca e apreensão do material mencionado.

O terceiro item negado é emblemático: o PSDB queria que a questão tramitasse em segredo de Justiça. Nenhuma informação sobre o processo poderia ser divulgada, caso o pedido fosse atendido. Isso denota intenções claras do tucanato de ocultar da opinião pública a própria tentativa de restringir, ou censurar, a circulação de informações e opiniões.
A divulgação foi feita pelo site do TSE e repercutiu em sites noticiosos ao longo do dia. A Editora Gráfica Atitude, responsável pela Revista do Brasil, só poderá se pronunciar quando for comunicada oficialmente pelo órgão sobre a decisão do juiz e seus eventuais desdobramentos.

Leia mais:
Lula sobre investida contra RdB: “Neste país, ser sério é uma afronta”
Serra pediu 'segredo de justiça' para censura à Revista do Brasil
Publicidade só para os outros? (Paulo Donizetti de Souza)
Publicidade na Revista do Brasil, resposta a Folha (Petrobras, Fatos e Dados)
Suspensa distribuição de impresso feito pela CUT em favor de Dilma (TSE)
Os trabalhadores e o direito a informação (dos Diretores da Revista do Brasil)

De antemão, agradece as centenas de mensagens de apoio e de solidariedade recebidas ao longo do dia, fruto da mobilização da blogosfera. Qualquer ato dessa natureza – indispor o Judiciário contra às liberdades de imprensa e de expressão – merece no mínimo a condenação de todos os cidadãos que prezam pela democracia e pelo direito à informação.

Diferentemente de panfletos apócrifos destinados a difundir terrorismo, desinformação e baixarias das mais diversas – sejam eles de papel, eletrônicos, digitais ou virtuais –, a Revista do Brasil tem endereço, CNPJ, núcleo editorial e profissionais responsáveis. A transparência do veículo, ao expor sua opinião de forma tão clara quanto rara na imprensa brasileira, e o jornalismo independente e plural que pratica – patrimônio dos trabalhadores aos quais se destina – não merecem ser alvo de qualquer forma de cerceamento.
Quatro anos depois
A edição 52 da Revista do Brasil trazia, à capa, uma foto da candidata à Presidência da República, Dilma Rousseff (PT), com a chamada "A vez de Dilma: O país está bem perto de seguir mudando para melhor". A publicação explicita em seu editorial a posição favorável à candidatura Dilma, e traz também reportagem analisando circunstâncias da disputa do segundo turno.
O pedido de restrição de circulação de seu conteúdo assemelha-se a uma investida datada de junho de 2006. À época, o mesmo PSDB encampou pedido de suspensão de distribuição da edição número 1 da revista. Havia ainda a demanda de que a edição deixasse de ser divulgada no site da CUT e do Sindicato dos Químicos.
Repetida a investida, fica latente o lado em que estão as forças aliadas a José Serra. O lado de quem quer liberdade apenas para o tipo de imprensa e de expressão que lhes convém."

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Em eleições nas redes sociais é preciso mostrar a cara

Já era esperado que nessas eleições as redes sociais tivessem um papel importante, muito embora quem faça parte de alguma comunidade virtual já percebeu que o marketing dos partidos aqui no Brasil não funcionou como nos EUA, com Obama. O pessoal já sabe também que perfil falso não funciona. Não importa se você é popular ou não, o melhor é ser você mesmo e interagir com pessoas que te conhecem a ter um monte de “amigos” e virar mais um spam na multidão.
Não tem jeito, quem tem acesso à internet nessas eleições precisa saber o que fazer com seu voto. Mesmo sem ler sites e sem participar de comunidades virtuais, com certeza todos que tem conta de e-mail já devem ter recebido mensagens relacionadas aos dois grandes personagens dessas eleições, a “bruxa” e o “vampiro”. A grande novidade, no entanto, é o que essas mensagens são capazes de despertar nas pessoas.

Kombi virtual
Na minha Kombi virtual, tem gente que reage de todo jeito. Aqueles que não dão bola para o inimigo e os que postam baixarias e piadas de mau gosto para denegrir determinado candidato. Tem gente que fica em cima do muro junto com Marina Silva (PV), ou é Plínio e diz que vai anular o voto. Tem gente que se revolta com a sacanagem e grita em caixa alta. Tem gente que tem medo de sair do armário e perder o emprego (como aconteceu com a psicanalista). E, finalmente, tem os que fazem o tipo blasé que ameaçam: “a partir de hoje vou dar um hide em quem postar comentários dessas eleições, quero ficar longe, parece que estamos na idade média!”.
Estamos na idade média? Jura? E o que esperar de uma sociedade que queima índio e espanca trabalhadora doméstica por achar que é prostituta? O que esperar de gente que se reúne em frente a um Fórum para linchar em praça pública um casal acusado de assassinato? E o quase estupro coletivo dentro de uma faculdade por causa de uma minissaia? Já vi posts na minha rede onde o elemento bípede diz que não paga 10% aos garçons que votam na adversária. Olhem bem como somos evoluídos! Nossos valores ainda são os mesmos daquela época e se omitir nessa hora significa concordar com toda essa modernidade. Queremos a pena de morte, queremos a justiça com as próprias mãos. Queremos matar o vizinho de infância por não ter a mesma opinião que a nossa.
O mais interessante é que nós, jovens internautas brasileiros, de repente, ficamos politizados. Nós, que nem sabemos direito o que o governo anterior fez ou deixou de fazer, agora enviamos mensagens do tipo “diga não à corrupção” com a foto da “bruxa”. Mas o lado bom de participar de uma eleição com internet é que agora podemos pesquisar rapidamente, coisa que antes tínhamos que estar com a lição de casa em dia ou nos restava acreditar na conversa da padaria que parecia ser verdade. Agora podemos colocar em xeque a credibilidade da imprensa, podemos compartilhar centenas de vídeos, matérias, posts de famosos e de anônimos, formadores de opinião, e ainda podemos trocar nossas mensagens. Depois de “assistir” alguns debates virtuais nas páginas de meus amigos, indignada e pressionada (por compartilhar do voto da minoria na minha Kombi de São Paulo), acabei me sentindo provocada e na obrigação de tomar uma atitude, e como era de se esperar, fui convocada ao debate político em meu perfil.

Sair da toca
Pouco a pouco, como eu, outros amigos começam a sair da toca, e vem mais gente por aí. Em dois dias, celebridades como Oscar Niemeyer, Gilberto Gil, Marilena Chauí e Hélio Bicudo se declararam em vídeos. E cresce o número de posts dos blogs, mais vídeos e mensagens disso e daquilo. A informação antes oprimida pela falta de recursos, agora ganha um belo espaço que é de direito, tudo funcionando perfeitamente e compartilhado a cada segundo no Twitter, Facebook, YouTube, Orkut etc.
Enfim, o Brasil se divide e na internet o jogo é rápido, há quem tente, mas é impossível ficar de fora. Para os meus amigos blasés vai um recado: prefiro mil vezes aguentar as bobagens do exército azul de José Serra do que gente como vocês que não mostram a cara! Queridos, não dá para só dizer que eles roubam, que política é uma merda mesmo, que simplesmente não gostam de um ou da outra, que o povo é burro, que o SWU foi legal e desorganizado, ou que não brinca mais! Afinal, o que vocês estão fazendo aqui mesmo?

Ligia Morresi é designer e vota em Dilma, especial para o NR

Marinanomuro

Carvall, Ilustrador e caricaturista, colaborador do NR, também habita na ONG PI. Mais uma garatuja das eleições. O Marinômetro pifou.

Liquidificador: ET de varginha era um morador que foi confundido






Imagine a turbulência mental ao ler detalhadamente todas as notícias mais “importantes” do dia veiculadas no jornal do dia seguinte. S.A.T.U.R.A.Ç.Ã.O é o que penso sempre que pego o jornal, qualquer deles. “Não quero saber, mas preciso”. Liquidificador da informação é um apanhado. Nada mais. Aqui, somente, apenas, a informação menor. O que batemos o olho. De ontem, não te importa hoje. Respire e vá de um fôlego.


Dia 18 de outubro. Ontem o debate Folha de S.Paulo e RedeTV com Dilma e Serra estava tão chato que ver o Dr. Hollywood na sequencia seria mais interessante. Nem um piu sobre religião. Marina Silva (PV): nem ela, nem ele, do verde ao amarelo, ela vai ficar em cima do muro. “PT e PSDB são hoje fiadores desse conservadorismo renitente que colozina a política”, disse. O PV optou pela “independência”, no entanto, Gabeira vai de Serra e Zequinha Sarney, de Dilma. Aliás, a PF apreendeu em uma gráfica panfletos anti-Dilma (tinha o logo da CNBB e a Dona da empresa é irmã do coordenador de infraestrutura da campanha de José Serra). Acabo de saber que também foi Suspensa distribuição de impresso feito pela CUT em favor de Dilma.
MST, Via Campesina e mais 13 movimentos sociais divulgaram uma carta de apoio à candidata petista. “Estamos convictos que uma possível vitória sua [de Serra] significará um retrocesso para os movimentos sociais e populares”, diz o documento. Camarada Anselmo, da Rede Brasil Atual, me avisou da pérola. A história oficial do ET de Varginha: Investigação do Exército conclui que um morador da cidade foi confundido com um ser de outro planeta e documentos explicam a movimentação anormal de militares na região. Matéria da revista IstoÉ.
Venezuela e a Rússia assinaram um acordo nuclear. E na França, greve para o país e falta gasolina. Sabe o goleiro Bruno? 30 horas de visita íntima com a noiva. Ela chegou no sábado e saiu domingo. Será que ele desmaiou? O jornal O Dia do RJ botou na capa de hoje quem era Marina e agora é Dilma ou Serra (na imagem). O psiquiatra José Angelo Gaiarsa, 90 anos, morreu neste sábado de causa desconhecida. Ele teria falecido enquanto dormia, por volta de 5h da manhã. Irreverente, era um dos mais respeitados profissionais do país. Em 54 anos de carreira, publicou mais de 30 livros. Do twitter: Mineiro chileno aos repórteres: "Tive pesadelos naqueles dias. Mas o pior pesadelo são todos vocês”. Que dia do médico que nada, parabéns ao Louro José, 11 anos ganhando a vida com a Ana Maria Braga. Isso, sim, merece comemoração!

Serra, Caô Caô e as propostas na era tuiteira

Tucano, talvez por soberba, resume em 140 caracteres suas propostas, que, analisadas a fundo, mostram despreparo exatamente de quem se orgulha de um passado acadêmico tão belo

É interessante tentar analisar a fundo as propostas do candidato do PSDB à Presidência, José Serra. É bom analisar a fundo essas promessas exatamente porque elas não têm fundo. São rasas. São propostas que estão de acordo com este momento do mundo em que alguém consegue expressar todo um pensamento em 140 toques.
Não quero, com isso, dizer que Serra tem grande capacidade de síntese. Não tem. Assim como não tem propostas que devam ser levadas a sério. As propostas de Serra são tuiteiras, se resumem a uma, duas linhas: salário mínimo a R$ 600, 13º para beneficiários do Bolsa Família e reajuste de 10% para as aposentadorias.
Estive, nestas eleições, em alguns eventos com a presença do tucano. Não foram raras as ocasiões em que, perguntado sobre como levaria adiante determinada proposta, Serra falou coisas do gênero “Não sei, precisa estudar, analisar, mas dá pra fazer”. Assim, em 52 caracteres, Serra resume seu pensamento.
E, para quem está um cadinho mais atento, entrega seu despreparo. O ex-governador, que tanto se orgulha de seu passado acadêmico, parece não ter estudado o suficiente para ser presidente do país. É esperado que um candidato, ainda mais um que figura entre os favoritos, tenha clareza em suas propostas e possa explicá-las a fundo, inclusive apontando de que forma e com que dinheiro seriam executadas. Serra, não sei se por soberba, não sabe fazê-lo.
Quando recebe uma pergunta desfavorável, sai-se com simplificações demonizantes, como a que ocorreu na última semana, quando acusou o repórter do Valor Econômico – publicação das organizações Globo – de “fazer capa para a propaganda do PT”. Um grunhido de 34 caracteres, emburrecedor do debate, mas que se presta àquilo que deseja o PSDB em uma era em que propostas tuiteiras são aceitas como verdades inteiras.

Agrotóxico genérico
Poderia citar inúmeras aqui e mostrar como nenhuma passa de duas ou três frases. Fico apenas com a última, e sugiro ao leitor que preste atenção daqui por diante nesta característica serrista. No sábado (16), o tucano defendeu suas propostas para a agricultura. Falou que vai criar o “agrotóxico genérico”. Isso mesmo. Ou Serra é desinformado ou aposta na desinformação dos brasileiros. Se bem entendi este grunhido, a ideia é um agrotóxico sem patente. Oras, é evidente que se trata de algo absolutamente impossível para um neoliberal: Monsanto e suas parceiras fabricantes de venenos mandam em boa parte do Congresso, em especial nas bancadas de DEM, PSDB e PMDB. Parece que Serra, de tanto gostar dos remédios genéricos, resolveu adotar as propostas genéricas.

Caô Caô
Com tantas promessas, impossível deixar de lembrar do mítico personagem construído por Bezerra da Silva em “Candidato Caô Caô”. Com sua inigualável simplicidade, Bezerra descreve o candidato que sobe o morro sem gravata, diz que gosta da raça, toma cachaça e até dá um tapinha. Mostrando que é mesmo do povão, vai lá na macumba pedir ajuda e... o tiro sai pela culatra:



A entidade que estava incorporada
Disse esse político é safado
Cuidado na hora de votar
Também disse:
Meu irmão se liga
No que eu vou lhe dizer
Hoje ele pede seu voto
Amanhã manda a polícia lhe bater

A diferença é que Serra, em vez da macumba, vai à igreja, papa-hóstia e reza o Pai Nosso como nunca. Mas apareceu um padre lá no Ceará que resolveu incorporar a entidade de Bezerra e recusar o uso político da religião. Tasso Jereissati, ex-presidente do PSDB e grunhidor profissional, resumiu em menos de 140 caracteres tratar-se de um “padre petista” que “provoca problemas à igreja”. Só um pouquinho de tanta verdade. Só um grunhido contra a mentira. Como diriam os cariocas, contra o caô. Como diria Serra, contra o trololó.

Último Grunhido

Serra, no último debate do primeiro turno, afirmou em 350 toques que São Luiz do Paraitinga, cidade do interior paulista devastada pelas enchentes, está reconstruída. “De tudo que tinha de mais importante já foi entregue”, resumiu. Estive em São Luiz. Precisei de mais de 350 toques para explicar que a cidade está longe da reconstrução.

João Peres é jornalista e colunista do NR

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Os óculos Oakley, o náufrago de García Márquez e o heróico salvamento dos chilenos

Em 1955, um repórter chamado Gabriel García Márquez foi escalado pelo editor do diário colombiano El Espectador para contar a incrível história de Luis Alejandro Velasco, que sobreviveu dez dias em alto mar, sem comer nem beber, depois de cair do navio em que trabalhava – outros sete marinheiros caíram no mar, mas morreram. García Márquez foi incumbido de narrar uma história que, à época, fora explorada à exaustão pelos meios colombianos. O náufrago, depois de declarado oficialmente morto (as buscas se encerraram após o quarto dia), virou herói nacional, foi beijado pela “rainha da beleza”, ficou rico com comerciais e, por fim, esquecido para sempre.
Havia algo na fantástica história que faltava ser contado: os motivos pelos quais Velasco caiu no mar. A embarcação vinha dos Estados Unidos sobrecarregada de muamba e, ao encontrar uma tempestade, acabou por entornar. Parte da carga e alguns marinheiros caíram no mar. García Márquez, depois que a história esfriara, conseguiu descobrir o real motivo do naufrágio. O Relato de um Náufrago saiu em fascículos semanais no diário e depois virou livro. Além da qualidade da narrativa, Gabo teve o mérito de expor mazelas escondidas ao recontar a história.
Nesta semana, o mundo (não é exagero dizer) se comoveu com o resgate de 33 mineiros que ficaram, por 70 dias, enterrados a quase 700 metros de profundidade em uma mina nos Andes. Com a facilidade de informação em tempo real, fomos bombardeados com a história de vida dos chilenos, que, assim como Velasco, viraram heróis. Eles também terão encontros com rainhas da beleza, farão comerciais, ganharão dinheiro e serão esquecidos.

33 óculos e 40 milhões de dólares
No entanto, há, ainda, muito a ser contado sobre o ocorrido no Deserto do Atacama. Fatos como a “doação” de 33 óculos de sol que a Oakley fez aos mineiros. Calcula-se que a exposição gratuita que a marca teve com as imagens dos trabalhadores usando seu produto ultrapasse os 40 milhões de dólares – o custo do resgate dos 33 chilenos foi estimado em 20 milhões de dólares. O que há por trás disso?
Segundo o jornal El Mundo, da Espanha, durante os trabalhos de escavação para a retirada dos mineiros foi encontrada uma grande quantidade de ouro e cobre na mina. O Chile é hoje o 15º produtor mundial de minério e pretende, até 2015, alcançar a sétima posição. Quem ficará com essa riqueza descoberta? A mina será reaberta?
Quantas minas como a San José existem no Chile e na América do Sul? Quantos mineiros vivem em situação de risco como os resgatados? É exagero imaginar que muitos trabalhadores de minas trocariam 70 dias de liberdade, a 700 metros embaixo da terra, para ganhar uma casa, 20 mil dólares, fazer propaganda, ganhar ingresso vitalício para assistir seu clube de coração, ser convidado pelo Real Madrid para ver um jogo no Santiago Bernabéu e, principalmente, nunca mais precisar viver como tatu?
O que aconteceu com aquele mineiro, desconhecido, que perdeu uma perna no dia em que os outros 33 ficaram soterrados? Vai ganhar um abraço do presidente do Chile? Vai ganhar óculos de sol da marca gringa? Vai precisar se enfiar embaixo da terra com uma perna só para sustentar a família?
Espero, e torço para, que um novo Gabriel García Márquez seja escalado para contar a história por trás dessa história dentro de alguns meses, quando tudo isso pareça só o roteiro de um filme. Por falar em filme, um canal de TV espanhol, em associação com um colombiano, já está filmando a história dos 33 mineiros.

Ricardo Viel é jornalista e colunista do NR
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