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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Vírus


por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Pareceu-me uma grande ideia. Ao me dar conta de que tinha acesso a um personagem importante vinculado ao acordo entre Brasil e Cuba para a vinda de médicos da ilha para trabalhar no Brasil, ocorreu-me entrevistá-lo, buscando uma oportunidade de trazer informações úteis, talvez inusitadas, para os meus leitores, bombardeados por todo tipo de comentário e análise do tema, desde os mais lúcidos e consistentes até os vergonhosos ou alucinados.

O personagem generosamente concordou em conversar comigo, mas a entrevista acabou não acontecendo, devido às exigências de agenda de quem está no olho de um dos furacões da vez. Perguntei aos meus botões como contornar a situação. Eis a resposta desabotoada.

Quase tudo o que se compra e vende no mundo, hoje, é fabricado na China, ou tem alguma peça ou componente fornecido por fontes chinesas. Como bem sabido, trata-se de um país controlado com mão de ferro por um regime que persegue, condena e mata pessoas por razões de consciência e, nos dias de hoje, ainda controla uma boa parte dos meios de produção. Direitos humanos são assumidamente ignorados por lá. Pagam-se salários irrisórios a operários que trabalham em condições nada edificantes, segundo inúmeros relatos e constatações. A recente pujança econômica da China tem custado um alto preço aos seus habitantes. No entanto, não me consta que algum brasileiro, de qualquer profissão ou nível de vida, tenha se recusado a comprar produtos fabricados na China, como protesto pelas atrocidades do regime ou em solidariedade aos trabalhadores explorados e maltratados.

Então, ficamos assim: comprar bugigangas chinesas pode, receber médicos cubanos, supostamente escravizados, que vão atender pessoas que provavelmente nunca foram examinadas por um médico, isso não pode, sob argumentos cada vez mais absurdos. E no meio da lambança que se armou, não consigo captar uma só entidade médica expressando um minuto de preocupação com os milhões de brasileiros excluídos de qualquer possibilidade de atendimento. A elas, um pedido: poupem-me do seu cinismo, por favor. Mas acho que é pedir muito.

Surfando neste meu momento clichê, quero dizer que eu tenho um sonho: que médicos cubanos, baianos, ucranianos, marcianos, de qualquer parte, espalhem entre nós um vírus mortal, que corroa o mercantilismo, o elitismo, o corporativismo, a ganância, a mesquinharia e outras doenças crônicas instaladas de forma profunda e duradoura no coração daquilo que chamamos de medicina e saúde. E que atinja também, com igual intensidade, a inépcia, a irresponsabilidade e a desfaçatez do Estado. É sonho pra mais de metro.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O pão, a pomba e as sandálias prateadas



por Tomás Chiaverini ilustração Victor Zalma*

Segunda-feira. Acordo com uma sensação estranha e intensa de que nada faz sentido. Levantar da cama, sobretudo, não faz sentido. São nove horas, um horário ridiculamente preguiçoso para qualquer cidadão de bem. Mesmo assim programo o celular para tocar trinta minutos mais tarde. Não chego a dormir de novo. Fico lá, debaixo das cobertas, imaginando a manhã fria e tentando entender o que, afinal, não faz sentido com tanta força.

Foi um bom fim de semana. Priscila veio ficar comigo, bebemos vinho sem moderação, saímos para jantar, assistimos a filmes velhos na TV. No domingo fizemos torta de maçã, com uma receita indicada pela Clau. Estava um dia muito frio, mas mesmo assim fomos a pé comprar os ingredientes. Quando saímos havia uma pomba parada bem ao lado da entrada do prédio, numa esquina do bairro das Perdizes. Estava muito quieta e não voou quando nos aproximamos. Provável que estivesse doente ou machucada.

Na volta do supermercado, dobramos a esquina conversando animados e um homem fez um gesto com a mão, pedindo que parássemos ou que nos aproximássemos devagar. Estava agachado ao lado da pomba, com uma caixa de papelão nas mãos. – Parece que ela está doente – disse.

Nós concordamos em silêncio e entramos. Fizemos a torta e um caldo verde. Quando ficou tudo pronto, saímos para comprar pãezinhos frescos. A pomba não estava mais lá, nem o homem. Apenas a caixa de papelão vazia. E um par de sandálias. Sandálias prateadas, de salto alto, colocadas juntinhas sobre a calçada, perto da parede externa do prédio. Não faz sentido nenhum. A pomba, o homem a sandália. Também essa crônica não faz sentido nenhum.

E agora, lá se vão mais de sete horas desde que acordei. Tomei café, revisei algumas páginas do próximo romance que não fica pronto nunca, fiz exercícios, tomei banho, almocei os restos do caldo verde com duas fatias grossas de pão integral. Cheguei tarde na redação e o dia está mal parado. Passei o olho pelos jornais, facebook, conversei com amigos pelo comunicador instantâneo, depois me ocupei em escrever este texto. O fato é que a coisa não melhorou. Muito pelo contrário.

Cada vez mais, nada faz sentido.

*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na OrelhaIlustração de Victor Zalma

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Sobre médicos e monstros

por Izaías Almada*

Um dos momentos mais tocantes no filme “Diários de Motocicleta”, de Walter Salles, que narra a viagem do jovem Ernesto “Che” Guevara pela América do Sul na companhia do amigo Alberto Granado, é quando “Che” visita um leprosário da Amazônia peruana. Ainda estudante de medicina, Guevara, na noite em que comemora seu aniversário, atravessa um pequeno rio que separava os leprosos da convivência com outras pessoas e vai visitá-los. Um gesto de grandeza humana de quem estava prestes a se tornar um médico.

Essa aventura dos dois amigos argentinos se dá no ano de 1952, tempos antes de Guevara integrar-se à luta guerrilheira de Sierra Maestra em Cuba, sob o comando de Fidel Castro, revolução socialista vitoriosa e que mudou corações e mentes no mundo inteiro.

Alguns fatos e acontecimentos históricos menos ou mais relevantes são assim: trazem, com maior ou menor intensidade, os indícios de alguma transformação social significante. Configuram uma inflexão nos caminhos do homem e prenunciam novas alternativas para a humanidade. Os exemplos nesse quesito serão inúmeros e desnecessários, mas a lembrança dessa possibilidade nos remete a atual fase do desenvolvimento capitalista, bem como seus reflexos para o mundo atual, onde a exploração do homem pelo homem adquiriu novos e sofisticados contornos.

No Brasil de hoje, alguns desses fatos e acontecimentos mais recentes têm sido debitados, a meu ver, a dois fatores políticos e sociais de relevância: os quase doze anos de governo do Partido dos Trabalhadores por um lado e a tentativa oposicionista de interromper a caminhada vitoriosa desse governo, sob inúmeros aspectos, em particular os sociais.

Já é sobejamente conhecida a fúria com que alguns dos setores mais conservadores da sociedade brasileira atacam os doze anos de governos petistas em âmbito federal. Esses setores e não só estão representados majoritariamente em partidos como do PSDB, DEM, parte do PMDB e o penduricalho PPS. Contudo, não bastasse a verborragia, normalmente vazia de significados e argumentos sólidos de deputados e senadores de tais partidos, há uma vez mais que chover no molhado: o verdadeiro e mais articulado dos partidos de oposição, no entanto, é conhecido já há algum tempo entre nós pela sigla PIG, o Partido da Imprensa Golpista.

É na redação de telejornais, revistas e jornalões da mídia brasileira que a matilha de cães hidrófobos é solta por seus patrões atrás dos ossos da discórdia, onde é possível identificar até alguns imortais da pior cultura brasileira, aquela que é preconceituosa, racista e de traços marcadamente fascistas.

Junte-se a isso os radicais de esquerda das novas gerações, muitos deles portadores de uma espécie de ejaculação precoce quanto a necessidade de transformação do país e que, na ânsia de um orgasmo revolucionário, mais atrapalham do que ajudam, por vezes oferecendo argumentos à tal matilha para a sua empreitada contra o novo Brasil, cujo parto tem sido dos mais difíceis.

O atual episódio envolvendo o programa ‘Mais médicos’ é emblemático: trouxe à tona a síndrome do grande romance de Robert L. Stevenson “O Médico e o Monstro”, liberando em boa parte da classe média e médica, insuflada e acobertada pela matilha, o seu lado mais egoísta e irracional, transformando uma questão humanitária num palavrório do mais baixo grau político e ideológico.

É triste perceber, em pleno século XXI, que o Brasil ainda acoberta em suas entranhas gente tão desclassificada e hipócrita, incapaz de olhar o país com olhos mais justos e minimamente solidários para com os mais necessitados. Não são os mesmos que criticam a questão da saúde no país? Que debochada e incivilizadamente sugerem que a presidente Dilma vá tratar o seu linfoma em Cuba? Não são os que repetem como papagaios o que reproduz o esgoto midiático, cujo nível de conhecimento da realidade em que vivem não ultrapassa as páginas de um Almanaque Capivarol?

Sinto calafrios quando penso que os representantes políticos dessa corja possam algum dia voltar ao poder político no Brasil. Já basta ver o que fazem no governo do Estado de São Paulo, onde se praticou e se pratica a maior corrupção e bandalheira de assalto ao erário público em proveito próprio, com o butin repartido há anos por integrantes da máquina administrativa do estado, sempre acobertados pela mesma mídia hipócrita e moralista que sistematicamente ataca os governos Lula e Dilma.

Espero, sinceramente, que o Brasil não se torne o único país do mundo que vergonhosamente repudie a missão solidária de milhares de médicos que para cá vieram de outros países, em particular os cubanos, numa atitude ímpar de egoísmo e sensibilidade para com ainda os milhares e milhares de compatriotas espalhados pelas regiões mais pobres, secularmente ignoradas pelos inúmeros monstros de jaleco branco que, ao se formarem, fizeram um juramento da boca para fora... Juramento de Hipócrates ou de hipócritas?

O episódio de Fortaleza é um tapa na cara do país, um escárnio que nos ridiculariza perante o mundo, pois apenas confirma aquilo que todos nós já sabemos: médico no Brasil, só para quem pode pagar. É doloroso ver alguns médicos de formação guevariana serem vaiados por um conjunto de Abdelmasshis. QUE SEJAM BENVINDOS OS MÉDICOS CUBANOS!

*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto. (Foto: Jarbas Oliveira/Folhapress)

Carona solitária


por Ricardo Sangiovanni*

Sou um tipo ranzinza, pouco novidadeiro, é verdade; e é justamente por isso que cuido de redobrar no espírito a dose de uma antiga precaução: a de não desgostar de novidade nenhuma, a priori, apenas por tratar-se de coisa ou fato novo.

Porém que não me venha abusar da boa vontade esse pessoal que “inventa”, como se novidade fosse, alheias invenções do arco da velha, inventadas alhures, antanho, distante daqui. Descabelo-me mais ainda quando a invenção copiada, a original, já deu provas de sua redonda ineficiência – e, mesmo assim, é replicada.

O caso concreto em questão: a fabulosa “Faixa Solidária”, criada em Salvador, Bahia, Brasil, na quarta-feira passada. Foi o seguinte: a intelligentsia transporteira da prefeitura municipal netocarlista resolveu separar, em reduzidíssima porção da orla da cidade, meia pista de quem vai para ser usada por quem vem, desde que quem vem esteja dirigindo junto, no carro, com mais alguém.

A aposta, dizem, é que, a partir dessa iniciativa genial, desencadeie-se uma doce onda de solidariedade – tema, aliás, da Campanha da Fraternidade de mil novecentos e não-sei-quantos, não se esqueçam, irmãos em Cristo. Nobre sentimento que, espera-se, será decisivo para reduzir a quantidade de carros nas ruas de nossa urbe rude; sentimento que nos conduzirá, com fé, à vitória final prometida sobre esse terrível, esse dito adventício mal do século que é o engarrafamento.

Perfeito. Só que esqueceram de avisar aos baianos (ao menos aos que, como eu, passam de vez em quando o olho pelos jornais para saber o que está para acontecer na cidade) que a faixa solidária é uma artimanha já tentada em uma outra cidadezinha brasileira, uma cidadezinha acanhada e desconhecida, da qual quase nunca se ouve falar – talvez por isso ninguém tenha se lembrado dela – chamada São Paulo.

Foi no final dos anos 90 – acertou quem disse 1997 – e foi implantada não em uma, mas em oito vias movimentadas da cidade, coisa de 12 quilômetros, na soma. Começou reservada para carros com pelo menos três pessoas. Mas aí, vista a baixa adesão, liberaram para carros com duas pessoas. Passaram-se cinco anos, os engarrafamentos seguiram aumentando, e a quantidade de carros saindo pelo ladrão. Cadê solidariedade? Ora, amigo leitor, aí não teve solidariedade certa: nem bem 2002 tinha chegado à metade, a intelligentsia transporteira local (petista, nesse caso; intelligentsia não tem partido) não aguentou e resolveu liberar as tais faixas solidárias também para os motoristas dirigindo sozinhos, tamanha era a solidariedade que eles demonstravam consigo próprios em comoventes caronas solitárias.

E então as tais faixas solidárias paulistanas cumpriram seu verdadeiro destino, que seria cômico se não fosse trágico: tornaram-se mais e mais pistas engarrafadas, capazes, quando nada, de dar um aumentozinho no calibre das já entupidas artérias do trânsito de São Paulo. Pistas engarrafadas das quais, evidentemente, a São Paulo hoje já não pode mais prescindir. E os motoristas, pergunte se ficaram mais solidários…

Mas parece que nada disso aconteceu, que nada disso importa, que nada disso tem a ensinar a esse nosso intransponível bairrismo de Primeira Capital da Colônia.

Pois se o caminho é esse, começamos bem: em três dias, poucos usaram a faixa solidária, e o principal êxito foi ter-se criado um congestionamento onde não havia (a saber, no sentido de quem vai, que afinal ficou mais estreito). E assim segue a Bahia, sãopaulizando-se a cada dia. Aliás, sendo sãopaulizada, sãopaulizada no que a cidade de São Paulo – onde tive a sorte de poder aprender coisas da vida e fazer grandes amigos – tem de pior.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Por que os médicos cubanos assustam

Em discussão desde o ano passado, a vinda dos médicos cubanos ganhou força a partir de maio. Agora, com a chegada oficial desses profissionais, muito informação tem sido publicada; preconceituosa, inclusive. O corporativismo da classe médica se faz presente. Por isso, NR republica e recomenda esse texto de Pedro Porfírio, uma importante contribuição para deixar o debate em melhor nível.   

por Pedro Porfírio, em seu blog, via Cebes*

A virulenta reação do Conselho Federal de Medicina contra a vinda de 6 mil médicos cubanos para trabalhar em áreas absolutamente carentes do país é muito mais do que uma atitude corporativista: expõe o pavor que uma certa elite da classe médica tem diante dos êxitos inevitáveis do modelo adotado na ilha, que prioriza a prevenção e a educação para a saúde, reduzindo não apenas os índices de enfermidades, mas sobretudo a necessidade de atendimento e os custos com a saúde.

Essa não é a primeira investida radical do CFM e da Associação Médica Brasileira contra a prática vitoriosa dos médicos cubanos entre nós. Em 2005, quando o governador de Tocantins não conseguia médicos para a maioria dos seus pequenos e afastados municípios, recorreu a um convênio com Cuba e viu o quadro de saúde mudar rapidamente com a presença de apenas uma centena de profissionais daquele país.

A reação das entidades médicas de Tocantins, comprometidas com a baixa qualidade da medicina pública que favorece o atendimento privado, foi quase de desespero. Elas só descansaram quando obtiveram uma liminar de um juiz de primeira instância determinando em 2007 a imediata “expulsão” dos médicos cubanos.

No Brasil, o apego às grandes cidades

Dos 371.788 médicos brasileiros, 260.251 estão nas regiões Sul e Sudeste

Neste momento, o governo da presidenta Dilma Rousseff só está cogitando de trazer os médicos cubanos, responsáveis pelos melhores índices de saúde do Continente, diante da impossibilidade de assegurar a presença de profissionais brasileiros em mais de um milhar de municípios, mesmo com a oferta de vencimentos bem superiores aos pagos nos grandes centros urbanos.

E isso não acontece por acaso. O próprio modelo de formação de profissionais de saúde, com quase 58% de escolas privadas, é voltado para um tipo de atendimento vinculado à indústria de equipamentos de alta tecnologia, aos laboratórios e às vantagens do regime híbrido, em que é possível conciliar plantões de 24 horas no sistema público com seus consultórios e clínicas particulares, alimentados pelos planos de saúde.

Mesmo com consultas e procedimentos pagos segundo a tabela da AMB, o volume de clientes é programado para que possam atender no mínimo dez por turnos de cinco horas. O sistema é tão direcionado que na maioria das especialidades o segurado pode ter de esperar mais de dois meses por uma consulta.

Além disso, dependendo da especialidade e do caráter de cada médico, é possível auferir faturamentos paralelos em comissões pelo direcionamento dos exames pedidos como rotinas em cada consulta.

Sem compromisso em retribuir os cursos públicos

Há no Brasil uma grande “injustiça orçamentária”: a formação de médicos nas faculdades públicas, que custa muito dinheiro a todos os brasileiros, não presume nenhuma retribuição social, pelo menos enquanto não se aprova o projeto do senador Cristóvam Buarque, que obriga os médicos recém-formados que tiveram seus cursos custeados com recursos públicos a exercerem a profissão, por dois anos, em municípios com menos de 30 mil habitantes ou em comunidades carentes de regiões metropolitanas.

Cruzando informações, podemos chegar a um custo de R$ 792.000,00 reais para o curso de um aluno de faculdades públicas de Medicina, sem incluir a residência. E se considerarmos o perfil de quem consegue passar em vestibulares que chegam a ter 185 candidatos por vaga (UNESP), vamos nos deparar com estudantes de classe média alta, isso onde não há cotas sociais.

Um levantamento do Ministério da Educação detectou que na medicina os estudantes que vieram de escolas particulares respondem por 88% das matrículas nas universidades bancadas pelo Estado. Na odontologia, eles são 80%.

Em faculdades públicas ou privadas, os quase 13 mil médicos formados anualmente no Brasil não estão nem preparados, nem motivados para atender às populações dos grotões. E não estão por que não se habituaram à rotina da medicina preventiva e não aprenderam como atender sem as parafernálias tecnológicas de que se tornaram dependentes.

Concentrados no Sudeste, Sul e grandes cidades

Números oficiais do próprio CFM indicam que 70% dos médicos brasileiros concentram-se nas regiões Sudeste e Sul do país. E em geral trabalham nas grandes cidades. Boa parte da clientela dos hospitais municipais do Rio de Janeiro, por exemplo, é formada por pacientes de municípios do interior.

Segundo pesquisa encomendada pelo Conselho, se a média nacional é de 1,95 médicos para cada mil habitantes, no Distrito Federal esse número chega a 4,02 médicos por mil habitantes, seguido pelos estados do Rio de Janeiro (3,57), São Paulo (2,58) e Rio Grande do Sul (2,31). No extremo oposto, porém, estados como Amapá, Pará e Maranhão registram menos de um médico para mil habitantes.

A pesquisa “Demografia Médica no Brasil” revela que há uma forte tendência de o médico fixar moradia na cidade onde fez graduação ou residência. As que abrigam escolas médicas também concentram maior número de serviços de saúde, públicos ou privados, o que significa mais oportunidade de trabalho. Isso explica, em parte, a concentração de médicos em capitais com mais faculdades de medicina. A cidade de São Paulo, por exemplo, contava, em 2011, com oito escolas médicas, 876 vagas – uma vaga para cada 12.836 habitantes – e uma taxa de 4,33 médicos por mil habitantes na capital.

Mesmo nas áreas de concentração de profissionais, no setor público, o paciente dispõe de quatro vezes menos médicos que no privado. Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar, o número de usuários de planos de saúde hoje no Brasil é de 46.634.678 e o de postos de trabalho em estabelecimentos privados e consultórios particulares, 354.536.Já o número de habitantes que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) é de 144.098.016 pessoas, e o de postos ocupados por médicos nos estabelecimentos públicos, 281.481.

A falta de atendimento de saúde nos grotões é uma dos fatores de migração. Muitos camponeses preferem ir morar em condições mais precárias nas cidades, pois sabem que, bem ou mal, poderão recorrer a um atendimento em casos de emergência.

A solução dos médicos cubanos é mais transcendental pelas características do seu atendimento, que mudam o seu foco no sentido de evitar o aparecimento da doença. Na Venezuela, os Centros de Diagnósticos Integrais espalhados nas periferias e grotões, que contam com 20 mil médicos cubanos, são responsáveis por uma melhoria radical nos seus índices de saúde.

Cuba é reconhecida por seus êxitos na medicina e na biotecnologia

Em sua nota ameaçadora, o CFM afirma claramente que confiar populações periféricas aos cuidados de médicos cubanos é submetê-las a profissionais não qualificados. E esbanja hipocrisia na defesa dos direitos daquelas pessoas.

Não é isso que consta dos números da Organização Mundial de Saúde. Cuba, país submetido a um asfixiante bloqueio econômico, mostra que nesse quesito é um exemplo para o mundo e tem resultados melhores do que os do Brasil.

Graças à sua medicina preventiva, a ilha do Caribe tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América e do Terceiro Mundo – 4,9 por mil (contra 60 por mil em 1959, quando do triunfo da revolução) – inferior à do Canadá e dos Estados Unidos. Da mesma forma, a expectativa de vida dos cubanos – 78,8 anos (contra 60 anos em 1959) – é comparável a das nações mais desenvolvidas.

Com um médico para cada 148 habitantes (78.622 no total) distribuídos por todos os seus rincões que registram 100% de cobertura, Cuba é, segundo a Organização Mundial de Saúde, a nação melhor dotada do mundo neste setor.

Segundo a New England Journal of Medicine, “o sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso [dos EUA] não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.

O Brasil forma 13 mil médicos por ano em 200 faculdades: 116 privadas, 48 federais, 29 estaduais e 7 municipais. De 2000 a 2013, foram criadas 94 escolas médicas: 26 públicas e 68 particulares.

Formando médicos de 69 países

Em 2012, Cuba, com cerca de 13 milhões de habitantes, formou em suas 25 faculdades, inclusive uma voltada para estrangeiros, mais de 11 mil novos médicos: 5.315 cubanos e 5.694 de 69 países da América Latina, África, Ásia e inclusive dos Estados Unidos.

Atualmente, 24 mil estudantes de 116 países da América Latina, África, Ásia, Oceania e Estados Unidos (500 por turma) cursam uma faculdade de medicina gratuita em Cuba.

Entre a primeira turma de 2005 e 2010, 8.594 jovens doutores saíram da Escola Latino-Americana de Medicina. As formaturas de 2011 e 2012 foram excepcionais com cerca de oito mil graduados. No total, cerca de 15 mil médicos se formaram na Elam em 25 especialidades distintas.

Isso se reflete nos avanços em vários tipos de tratamento, inclusive em altos desafios, como vacinas para câncer do pulmão, hepatite B, cura do mal de Parkinson e da dengue. Hoje, a indústria biotecnológica cubana tem registradas 1.200 patentes e comercializa produtos farmacêuticos e vacinas em mais de 50 países.

Presença de médicos cubanos no exterior

Desde 1963, com o envio da primeira missão médica humanitária à Argélia, Cuba trabalha no atendimento de populações pobres no planeta. Nenhuma outra nação do mundo, nem mesmo as mais desenvolvidas, teceu semelhante rede de cooperação humanitária internacional. Desde o seu lançamento, cerca de 132 mil médicos e outros profissionais da saúde trabalharam voluntariamente em 102 países.

No total, os médicos cubanos trataram de 85 milhões de pessoas e salvaram 615 mil vidas. Atualmente, 31 mil colaboradores médicos oferecem seus serviços em 69 nações do Terceiro Mundo.

No âmbito da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), Cuba e Venezuela decidiram lançar em julho de 2004 uma ampla campanha humanitária continental com o nome de Operação Milagre, que consiste em operar gratuitamente latino-americanos pobres, vítimas de cataratas e outras doenças oftalmológicas, que não tenham possibilidade de pagar por uma operação que custa entre cinco e dez mil dólares. Esta missão humanitária se disseminou por outras regiões (África e Ásia). A Operação Milagre dispõe de 49 centros oftalmológicos em 15 países da América Central e do Caribe. Em 2011, mais de dois milhões de pessoas de 35 países recuperaram a plena visão.

Quando se insurge contra a vinda de médicos cubanos, com argumentos pueris, o CFM adota também uma atitude política suspeita: não quer que se desmascare a propaganda contra o regime de Havana, segundo a qual o sonho de todo cubano é fugir para o exterior. Os mais de 30 mil médicos espalhados pelo mundo permanecem fiéis aos compromissos sociais de quem teve todo o ensino pago pelo Estado, desde a pré-escola e de que, mais do que enriquecer, cumpre ao médico salvar vidas e prestar serviços humanitários.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Democratizar a mídia não é tolice

por Pedro Mox*

Em meio à visita do papa, frio e neve em Santa Catarina, volta do Brasileirão, eis que leio o título do editorial do Diário Catarinense, do grupo RBS, salvo engano dia 15 do último mês: “democratização da mídia?”. Atentei ao texto.

A primeira frase já assusta: “Embora não seja uma demanda do país, mas de grupos minoritários movidos por ideologias fundamentadas no radicalismo, a chamada democratização da mídia tem aparecido secundariamente na pauta das manifestações que mobilizaram os brasileiros”. A conclusão mais óbvia e ululante é: manifestação que me interessa, ok; manifestação que não me agrada, não pode.

De fato é notável o contorno criado pela grande mídia desde os primeiros protestos em SP (os que não eram por vinte centavos) até a invenção do “gigante desperto”. Enquanto ela pôde ser utilizada como jogo político, tudo certo; quando pautou um tema deveras relevante – e nem um pouco interessante aos donos de jornal – passou a ser desacreditada e esquecida.

O próprio uso do radical pretende passar ideia, pejorativa, de alguém cego por sua crença. É importante, todavia, diferenciar o sectário – este sim adequado à descrição anterior – do radical, ou seja, que visa transformar pela raiz, por completo. E a mídia brasileira, sem dúvidas, merece uma reforma radical.

O texto segue na mesma balela de sempre, a tão enaltecida “liberdade de expressão” - que na prática é a liberdade de expressão do dono do jornal – e chega ao cinismo de dizer que “só quem não aceita conviver com críticas é que pode pretender a tutela sobre os meios de comunicação e da imprensa, que já são submetidos diariamente ao mais eficiente dos controles, a escolha livre do público.

Creio não ser a livre escolha ao meio de comunicação um dos mais eficientes métodos de controle, dado o festival de bobagens enfiado goela abaixo em qualquer um que assista televisão, seja na parte jornalística quanto o do entretenimento. Pior: cada vez mais e de maneira mais explícita, jornalismo e entretenimento se confundem, como se confundem também informação com propaganda e, neste caso específico, uma evidente propaganda ideológica.

Com alguns números, o texto argumenta que não há falta de pluralismo na mídia brasileira, visto existem milhares de publicações, sites, canais. E completa: “sob o falso pretexto de que os meios de comunicação são dominados por poucas empresas proprietárias que não refletiriam a pluralidade e a diversidade da sociedade, determinados fóruns e segmentos de partidos políticos pressionam governo e Congresso pela aprovação de uma lei com potencial para impor restrições à liberdade de informação”.

Entretanto, há de se ponderar uma série de questões. Mesmo com a grande quantidade de veículos, grande parte deles pertence a mesma empresa. A RBS, por exemplo, segundo o site Donos da Mídia, é a terceira maior detentora direta de veículos do país, com 18 emissoras de televisão, 21 rádios FM, cinco AM e oito jornais. Diante disso, é lógico que o editorial do Diário Catarinense seja contra a democratização dos meios de comunicação.

Quem se preocupa com a regulamentação da mídia não são fóruns ou clubes do bolinha, mas a sociedade. Pesquisa do Instituto Sensus, encomendada pela Federação Nacional dos Jornalistas, mostrou que 75% dos brasileiros são favoráveis à criação do Conselho Federal dos Jornalistas. Outra pesquisa, o “Perfil do Jornalista Brasileiro”, divulgada em abril último, também aponta que três quartos da categoria apóia a criação do órgão. Se todo ofício conta com alguma regulamentação, por que seria a imprensa detentora desta “aura de honra e justiça”?

A opinião do jornal, no editorial, de fato é o espaço para tal. Preocupa-me, contudo, a afirmação que discussões sobre democratização da mídia são tolices, fruto de desmiolados sem mais o que fazer; quando ela é de extrema relevância para país. Quiçá por isto, tão temida e combatida.

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Mistura



por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Os pedaços de frango bem limpos, livres da pele e da gordura aparente, são envoltos numa mistura de alho socado na hora, sal, pimenta do reino preta e vinagre. Sabe como é, gordura e pele estão condenadas ao fogo eterno, por amor às nossas coronárias. Cada grama descartado dá direito ao crédito de um milímetro adicional no copo de cerveja.

O franguinho anêmico e congelado do supermercado vai virar um arremedo de galinhada, ou “colegada”, como prefere uma amiga, convicta do seu lado galináceo. Refogado com temperos, receberá um generosa dose de arroz, a ser cozido em seu caldo. Em apresentações e combinações várias, trata-se de um prato muito popular nas muitas mesas latino-americanas que têm no grão branco asiático um vício.

Como muitas outras coisas básicas da vida, conheci a galinhada em Brasília, numa casa mineira, onde se juntava o grão-de-bico ao arroz, mas a versão mais difundida por aqui leva milho verde. Um toque de açafrão ao final do cozimento, e depois é só alegria.

Entretida no preparo, minha mente passeia pelas cozinhas de casa, das avós, tias e vizinhas. Em todas, a mistura era um tormento cotidiano. Para quem não tem intimidade com o paulistês, esclareço. Em mesa de paulista, tinha sempre os infalíveis arroz branco e feijão marrom, mais pelo menos três itens de mistura. Não podiam ser muito caros nem repetidos, o que impunha um exercício de criatividade interminável. Duas vezes por dia, porque nem pensar em servir sobras do almoço na janta. A quantidade e variedade eram ostentadas como sinais de fartura, sendo desnecessário estabelecer qualquer relação de harmonia ou complementariedade entre os pratos. Mistura minguada era coisa de mulher preguiçosa ou marido mão-de-vaca, senão fracassado. A frase “não sei o que vou fazer de mistura hoje” estava sempre presente nas conversas das comadres logo cedo, enquanto varriam a calçada.

A narrativa no tempo passado indica que estou desatualizada sobre o quanto a urbanização, a escassez de empregadas domésticas, a praga da “fast food” e os restaurantes por quilo alteraram a rotina dos lares interioranos. Ouço contar que o cardápio já mudou bastante, tendo o arroz e o feijão caído muito em importância, o que considero uma lástima. Será que o dilema da mistura se acabou junto com o aparecimento de um “quilo” em cada esquina? Nas minhas poucas incursões pelo interior, noto sua presença arrasadora por toda parte. Os “serve-serve”, na deliciosa pronúncia cabocla, vieram para ficar. E o que não falta neles é mistura.

A cabeça viaja mais um pouco e visita outra mistura: de gente. Exige talento, coração aberto, espírito desarmado. Vem da constatação de que somos todos feitos da mesma matéria, e de que as diferenças só nos enriquecem. Para alguns, acontece naturalmente; para outros, exige investimento e esforço. Cor da pele, etnia, fé, identidade e orientação sexual, convicção política, profissão, origem, educação podem ser ingredientes de uma grande receita de paz e harmonia, tudo junto e misturado. Gosto muito.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Dim! Dim!

por Fernando Carvall*

O logo da rede Globo é uma síntese perfeita do que deveria ser a função de uma tv aberta. O tempo mostrou, contudo, que os papéis de sujeito (o mundo) e espelho (a tv) se inverteram.

 Hoje o mundo é um espelho da tv!



*Ilustrador e caricaturista, Carvall é um dos grandes nomes da ilustração brasileira; professor do Senac há quase 20 anos, mantém o Estúdio Saci e colabora com o NR desde 2011

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A violência policial o cegou

Foto: Filipe Granado
por Moriti Neto e Robson Morais*

O clima na noite de quinta-feira, 13 de junho deste ano, como todos viram, foi quente para o fotógrafo Sérgio Silva, 31 anos. A trabalho pela agência Futura Press, Silva foi um dos milhares de brasileiros que captou a energia do “vem pra rua”, instalada no País nas chamadas “jornadas de junho”. E foi no meio da multidão, em São Paulo, enquanto trabalhava no protesto contra o aumento da tarifa de transporte coletivo, que o disparo de uma bala de borracha da Polícia Militar o feriu e cegou. Um professor o socorreu até o Hospital Nove de Julho.

O fotógrafo foi atingido no olho esquerdo pelo tiro da chamada “munição não letal”, na altura da rua da Consolação, na área central da cidade. “Ainda é difícil de olhar no espelho. Tem dias que acordo sem o tampão. A visão ainda choca. O abalo psicológico também foi grande”, explicou à reportagem do Nota de Rodapé, no último dia 12 de agosto, quando palestrou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) sobre os riscos da cobertura jornalística.

No local da palestra, em destaque, um cartaz com a sua foto e o slogan: “Fotógrafo Sérgio Silva, vítima do Estado”. Sobre a falta de segurança para os profissionais e os manifestantes, ele disse que nada do que a polícia “fizer ou disser daqui para frente vai justificar ou amenizar” o que aconteceu. “A educação tem que partir da polícia. Eles são o exemplo, são pagos para isso. E não o contrário”.

Silva garante que, nos primeiros dias de cobertura, sentiu o clima ruim e uma certa predisposição da PM à truculência. “Fui para a rua com um pressentimento e sabia que a PM seria truculenta. Apontei a câmera para ela, para mostrar essa truculência. Ponto”. Ele acredita que “não importa” estar atrás de um cordão policial, que a PM vai continuar “atirando” e que casos como o dele “vão continuar ocorrendo.”

A reflexão do fotógrafo também tratou do receio de repórteres e jornalistas na cobertura de pautas em comunidades da periferia, locais onde as “balas são de verdade” e a “violência policial diária.” Nessas horas, “jornalista precisa ter coragem”, disse.

“Não tenho isenção”

Quanto ao mito da imparcialidade no jornalismo e o que leva os veículos da grande mídia a publicar ou não um fato, o fotógrafo explica que não tem isenção. “Faço meu trabalho e produzo sobre aquilo que penso. Se o veículo onde vou trabalhar não publicar, o problema não é meu”.

Silva não ignora que o jornalismo é cada dia mais digital, com processos de produção de conteúdo estimulando a participação de mais pessoas nas abordagens. “Cada um pode ser repórter do próprio cotidiano. Agentes comunitários e moradores de comunidades podem pautar a mídia. Os jornalistas vão ter que, cada vez mais, se especializar”.

O fenômeno da Mídia Ninja, por exemplo, junta pessoas que vão à rua com uma câmera ligada para fazer desde cobertura até ativismo. “Há repórteres que estão a trabalho e pessoas que não estão. O que será produzido parte da visão do produtor. Ninja caminha nesta direção. Não consigo ver, porém, se a grande imprensa vai entender direito isso ou que rumos os Ninjas vão tomar”, opina.

Luta por direitos

Sérgio, que já tem advogado, ainda não abriu processo contra o Estado. Eles aguardam os laudos sobre a perda da visão e outros resultados médicos, que serão incluídos na ação.

Silva optou em não usar os advogados da agência em que trabalhava. Nem as despesas do hospital que fez o primeiro atendimento, cerca de 3 mil reais, ele aceitou que pagassem. “Vou pôr na conta do Governo do Estado”. Além disso, ele está à frente de uma petição pública com o tema “Não à utilização de armas letais nas manifestações”. O documento está disponível no site www.change.org.

O coletivo Menos Letais fez uma entrevista em vídeo com o fotógrafo, que você pode assistir no link disponível no youtube.

*Moriti Neto, jornalista e colunista do NR. Robson Morais, jornalista, especial para o NR. [Foto cedida por Filipe Granado]

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Há que se ser grave

por Ricardo Sangiovanni*

É sábado de manhã e faz sol, estou de saída para um caruru, hoje estava só na intenção de contar aqui, rapidinho, o caso das meninas que semana passada fugiram de minha aula chata para ir tomar café e imaginar Gramado, a linda e cordial, a bucólica e pacífica e feliz Gramado do Rio Grande do Sul que não conheço.

Mas não, porque há que se ser grave na vida quando nem bem uma semana faz que mataram com um tiro na cabeça uma colega de trabalho, e atiraram seu corpo no asfalto imundo em troca de um carro, de trinta dinheiros, de sei lá o quê de rico e desimportante aqui, tão longe de Gramado, nesta Cidade da Bahia.

Há que se ser grave, amigos, com ternura que seja, mas há que se ser grave, porque não há válvula de escape, não há leveza pura, não há risada burra, não há recortar-se do mundo que valha se depois o sujeito tiver de voltar e enfrentar de novo o mesmo mundo, o mesmo ou até piorado mundo, quando acordar segunda-feira.br

Há que se ser grave diante da brutalidade, da expressão aparentemente pura e banal da maldade perpetrada por um, por dois bandidos de meia tigela, que não sabem por que mataram, mataram simplesmente porque mataram, incapazes que foram de tomar outra decisão para cumprir sua missão bandida daquela noite.

Há que se ser grave quando se sabe que não foi o primeiro nem será o último crime de semelhante natureza nesta cidade, neste país; quando se sabe que não-sei-quantos mil crimes bárbaros nunca foram nem serão suficientes para despertar uma reflexão sincera, severamente auto-crítica, sobre o porquê de haver gente no Brasil assim, ruim, cruel, incapaz de pensar, antes de puxar o gatilho, na barbaridade do ato que está prestes a cometer.

Há, amigos, que se ser grave, diante de nossa incapacidade de compreender que o ódio que em nós desperta a figura daqueles dois pobre diabos é absolutamente normal, legítimo, humano – e, provavelmente, os defina mesmo. Mas mais graves ainda é necessário sermos para ponderarmos que tal sentimento não nos autoriza, enquanto indivíduos, enquanto sociedade, a fazer nenhuma leitura apressada, que repute simplesmente à “crueldade”, à “banalidade”, ao “mal” puro e simples e exterior a nós, “probos”, o homicídio daquela noite.

Há que se ser grave, em contrapartida, também diante da armadilha da culpa cristã: será que somos todos igualmente responsáveis, na soma e média aritmética de nossos atos individuais, por vivermos em uma sociedade capaz de semelhantes atrocidades? Sim, mas também não. Sim porque, de fato, reproduzimos e praticamos diariamente a exclusão de quem nos é exterior, de quem nos parece dessemelhante, e assim contribuímos para que a alguns seja dada a condição de homens, a outros, a de feras. Mas veementemente não, se a partir daí pretendermos acreditar poder banir o mal do mundo à base de pequenos, de individuais, de homeopáticos gestos de cordialidade, respeito, de caridade, de alguma forma elitista de bondade quiçá.

Há que se ser grave para tentar entender a natureza da “crueldade”, da “banalidade”, do “mal” que cada vez mais, no Brasil, se nos apresenta como “puro e simples”, entendê-lo no que nele houver de mais humano, para talvez, com sorte, descobrir e assumir a parcela de responsabilidade por ele que couber a cada fração de nossa sociedade. Nesse sentido, inspirado pelo ótimo filme sobre Hannah Arendt que assisti ontem – e recordando o pouco de seu trabalho que já li – palpito, mal comparando, que é preciso abandonarmos radicalmente a hipocrisia que nos leva a, feito escritores de maus folhetins, colocarmo-nos a nós mesmos no cômodo lugar de “vítimas”, e a partir de tal sentirmo-nos autorizados a exigir medidas, respostas, punições – da Polícia, do Governo, dos Céus enfim. Há mais é que se escrutinar, tenaz e continuamente, sem auto-complacência, a brutalidade à qual acreditamos estar meramente “expostos”. Porque se dois seres humanos são capazes de puxar um gatilho de revólver diante da cabeça de uma pessoa qualquer em nome de qualquer coisa que lhes pareça ser uma “missão maior” (ainda que tal não seja o complexo nazismo, mas “só roubar e escapar”), é sinal, amigos, de que algo de muito pernicioso há na sociedade, na cultura em que eles (nós) vivem(os) e se (nos) formam(os). Nada disso atenua a monstruosidade deles hoje, nem do crime que cometeram, mas é isso ou acreditar, simplesmente, que se trata de um par de feras, de erros da espécie, de “não-seres humanos”.

Enfim, há que se ser grave, ou então passar a vida sendo obrigados a dar uma fugidinha de vez em quando, para tomar café e ser feliz, lá longe, na distante, na imaginária Gramado de nossos sonhos.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

domingo, 18 de agosto de 2013

10 anos de autonomia Zapatista

por Aleksander Aguilar*

Poucos questionaram o direito deles à indignação. A pobreza na região chegava a quase 60% da população, nas comunidades rurais cerca de 20% das crianças morriam antes de completarem cinco anos de idade e a maioria das famílias não tinha acesso a saúde básica e educação enquanto uma pequena elite controlava as terras agricultáveis em condições semi-feudais.

Nesse contexto, no primeiro dia de 1994 cerca de três mil indígenas, precariamente armados, deram inicio a uma rebelião e tomaram seis cidades em Chiapas, o estado mais ao sul do México. Nos dias seguintes, quase 100 mil pessoas marcharam na capital, Ciudad de Mexico, gritando “¡Somos todos zapatistas”!

[Foto: Moysés Zúñiga Santiago]
Eles fizeram a data da rebelião coincidir com a implementação do NAFTA, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, entre Canadá, Estados Unidos e México, chamado pelos Zapatistas de “uma sentença de morte”. A estridente oposição ao NAFTA deu aos rebeldes o apoio de organizações da sociedade civil, sindicatos e movimentos sociais de diversas partes do mundo.

São quase 20 anos desde que as marchas por terra e liberdade dos Zapatistas tomaram as montanhas de Chiapas, numa luta de um povo indígena longamente negligenciado na região. São dez anos, desde 2003, de construção de autonomia Zapatista, “sem pedir a permissão de ninguém”, quando os rebeldes cansaram do diálogo surdo com as autoridades mexicanas e abandonaram a política de demandas, e com isso todo o contato com o Estado. No lugar disso, eles preferiram concentrar-se na construção de formas horizontais de auto-governo dentro dos seus próprios territórios e com seus próprios meios, los Caracoles.

Esses dez anos de atividades emancipatórias do projeto Zapatista, que não ignoram o peso das críticas que tem recebido com essa experiência, foram celebrados neste mês de agosto na Escuelita para la Libertad según los Zapatista, em Chiapas.

ESCOLA PARA A LIBERDADE

No dia 9 de agosto de 2003, os Zapatistas anunciaram o nascimento dos seus Caracóis, em número de cinco, cada um com sua própria Junta de Buen Gobierno (JBG) e tendo, assim, responsabilidade pela sua própria Zona Municipal Rebelde de Autonomia Zapatista, que ao total englobam quase 100 mil pessoas. Cada Caracol possui seu próprio posto de saúde autônomo, escola primaria e secundária e envolve-se em pelo menos um dos cinco grandes projetos Zapatistas: saúde, educação, agroecologia, política, e tecnologia da informação.

No ano que a rebelião iniciou, em 1994, o jornal New York Times denominou-a como a “primeira revolução pós-moderna latino-americana”. Muito dessa ideia era marcada pela sua maneira de falar, particularmente nas palavras do rosto-público-fumando-cachimbo da organização, Subcomandante Marcos, que expressava uma postura nova e entusiasta para um grupo insurgente. Diferentemente dos marxistas revolucionários que os precederam, os Zapatistas não falavam com imposições e determinismos, suas mensagens eram mais poesia do que bravatas. Eles apresentavam uma imensa imaginação política e usam desde o inicio da rebelião a internet e as novas tecnologias da comunicação com satisfatório êxito.

Mas desde La Sexta Declaración de la Selva Lacandona, em junho de 2005 (La Sexta), e do começo da La otra campaña, em janeiro de 2006, os Zapatistas estiveram afastados da mídia, numa, denominada pela imprensa, “tática do silêncio” e interpretada por muitos como um enfraquecimento dos rebeldes. Ainda há muita pobreza nas comunidades zapatistas. No entanto, há também conquistas materiais, tangíveis, e não apenas avanços em dignidade e conceitos abstratos.

Os cerca de 1500 ativistas convidados para visitar Chiapas observaram o que foi dedicado neste tempo de distancia dos holofotes. Estudaram e receberam aulas dos próprios indígenas Zapatistas, de três equipes de professores e professoras que contaram com material didático, quatro livros e dois dvd´s, sobre Governo autônomo, participação de mulheres e liberdade, sobre sua experiência com autonomia. Os estudantes foram hospedados pelas próprias famílias nas suas terras e casas para aprenderem como é ser membro de uma base de apoio Zapatista.

Por quê tudo isso?

“¿Será porque acaso intuyen, saben, conocen, que la luz no viene de arriba, sino que nace y se crece desde abajo? ¿Que no es producto de un líder, jefe, caudillo, sabio, sino del común de la gente? ¿Será que en sus cuentas lo grande empieza pequeño y lo que sacude al mundo cada tanto, inicia con apenas un murmullo, quedo, bajo, casi imperceptible? O tal vez imaginan cómo es el estruendo de un mundo cuando se desmorona. Tal vez saben que los mundos nuevos se nacen con los más pequeños.”

Algumas críticas ao Zapatismo consideram os rebeldes uma força desgastada, com grande retórica, mas pequena capacidade, incapaz de projetar-se para alem de suas bases rurais: “O exemplo Zapatista não pode ser seguido em todos os lugares, nós não vivemos nas selvas de Chiapas para criar exércitos rebeldes e comunidades autônomas”. A resposta, porém, é simples: os Zapatistas nunca se projetaram como o modelo a ser copiado. Eles construíram um mundo no qual eles realizaram sua própria visão de liberdade e autonomia, e continuam lutando por um mundo onde outros mundos sejam possíveis, e na celebração de suas experiências convidam o mundo para vê-las.

*Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Caçula


por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Custo a acreditar, mas é isso mesmo. Meu irmão caçula está fazendo cinquenta anos.

Fui ao hospital conhecê-lo, com a minha irmã menor, nós duas em roupas de domingo, levadas pela nossa avó. Era grande a expectativa, pois eu havia desejado muito que o novo irmão fosse um menino. Entrei no quarto com o coração aos pulos. Minha mãe pareceu feliz de nos ver, o meu pai também estava lá, tudo bem esquisito. Ao lado da cama, um pequeno berço com um embrulho dentro.

Cheguei perto e olhei. Lá dentro, dormia uma criatura muito miúda, vermelha, enrugada e enrolada em muitos panos. Nada a ver com a minha fantasia do bebê rosado e sorridente como os que eu via pelo bairro, e que completei com os cabelos louros e olhos azuis das fotos das revistas. O impacto foi tremendo. Por mim, ele teria ficado no hospital. Como ninguém me perguntou nada, ele foi levado pra casa no dia seguinte. Eu, muito ressabiada, fui me aproximando aos poucos, enquanto ele se transformava no bebê encantador. Ficamos amigos. E agora se dá o desfrute de chegar aos cinquenta anos, minguando minhas últimas reservas de juventude. A do calendário, convém esclarecer. Pelos documentos, hoje sou, definitivamente, uma senhora de respeito. Ou um caso perdido.

Nesse meio-tempo, as décadas se empilharam, com pacotes completos, incluindo meus próprios bebês. No momento, o destaque é a multiplicação de recém-nascidos à minha volta, pelo menos seis, fora uma encomenda de gêmeos. Deve ser por conta de algum hormônio novo na carne de frango, oposto àquele que produz gays. Essa criançada multicolorida está chegando num momento muito louco, em que a internet joga uma pá de cal sobre o nosso jeito de conhecer e digerir o mundo.

Não há nada mais natural do que gente nascendo, morrendo, envelhecendo, indo pra escola, trabalhando, enfim, reciclando a vida. A novidade é uma revalorização do parto normal, que agora leva o sobrenome “humanizado”. Havia quase desaparecido na nossa classe média dos planos de saúde, por causa de um desses desvios muito estranhos que ocupam o lugar dos processos aperfeiçoados pela natureza ao longo de dezenas de milênios. Menos mal que o método de fazer filhos ainda não tenha sido substituído. Os meios programados e assépticos são exceções complementares, aliás, muito bem-vindas. Mas já pensou se viram regra? “Querido casal, a doutora fulana está de férias na Turquia; portanto, o fazimento de crianças de pele morena e olhos azuis está suspenso e será retomado em três semanas.” Valhamedeus.

Tudo conversa fiada. Mas o irmão caçula completar cinquenta anos é demais, né não?

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Quem escreve o Brasil?


por Fernanda Pompeu ilustração Fernando Carvall*

Não sou especialista em nada. Sou uma Pena de Aluguel. Passei os últimos trinta anos escrevendo roteiros, spots, slogans, textos para clientes variados. Aprendi a me apaixonar pela paixão dos outros.

Assim, já morri de amores por uma fábrica de parafusos, pontes estaiadas, bolos para festas, estatuto da criança e do adolescente, autoescola, biblioteca comunitária, casa de tintas, clube de campo, direitos humanos.

Também, é claro, escrevo crônicas dos meus temas. São as melhores de fazer, pois nelas tenho passe livre para escrevinhar o que penso e sinto. É o que hoje rabisco na coluna Mente Aberta do Yahoo e aqui neste delicioso Nota de Rodapé.

Mas mesmo não sendo doutora em nenhuma disciplina das humanas, quero dar alguns pitacos acerca do que andamos vivendo no mundo dos jornalistas e autores. Mundo em crise, acho que ninguém duvida.

O que eu mais vejo no meu Face são postagens, muitas delas desesperadas, alertando para a morte do jornalista profissional. Notícias de desrespeito social, demissões em massa, baixos salários, baixa autoestima.

No entanto, creio que não é a bonita, histórica, indispensável profissão de jornalista que está na UTI. Quem está terminal são os grandes veículos impressos de massa. Eles vão para a agonia por falência múltipla de visão.

Olha que não estou falando de modelo de negócio - esse papo não é de jornalista, é de dono de jornal. Estou falando de novos modelos de noticiar e ler notícias. Novos jeitos criados nas redes sociais e ignorados na maioria das redações.

Muitos seguem acreditando que o mundo é o mesmo do ano passado. Mas não é. Ele não é o mesmo nem da manhã de hoje. Pois tudo vai muito rápido. Corre na velocidade do curtir, comentar, compartilhar.

Mas a velocidade é uma das características da transformação. Existe outra mais acachapante: os leitores mudaram! São mais críticos e mais voláteis. Eles não cabem mais nas caixinhas de destinatários, público-alvo, consumidores.

Também são leitores sedentos de experiências e informações. Estão o tempo todo ligados. Usando seus notebooks, tablets, smartphones. Por ser tremenda a abundância de fontes e informações, são eles que escolhem o que, porque e quem ler.

Me parece que nesse ambiente, jornalistas e escribas em geral vão ter a oportunidade de florescer. Mais ainda, a oportunidade de brilhar com a matéria-prima do jornalismo - que faz algum tempo estava no limbo. Isto é, apuração correta e bom texto.

Não haverá mais a comodidade da mídia única. Nem o cargo, nem o título, nem o espaço da página, nem o compadrio darão ao jornalista a primazia de ser lido. Todo mundo vai ter que suar a caneta para conquistar o novo leitor.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Mídia Ninja: jornalismo que requer mais debate



por Moriti Neto*

Difícil abordar os debates sobre a Mídia Ninja*. Difícil, pois o projeto autoproclamado “a mídia que não é manipulada, distorcida, que não ganha nada em troca, que quer mostrar a realidade”, visita questões amplas, que vão do modelo de negócios até as ligações político-partidárias do coletivo Fora do Eixo (FdE), rede fomentadora da proposta. No mais, são vários os analistas competentes a avaliar e argumentar nos últimos tempos sobre o assunto.

Na semana passada, estive, pelo Nota de Rodapé, na bancada de tuiteiros do Roda Viva, da TV Cultura, onde o centro era justamente a Mídia Ninja, representada pelo jornalista Bruno Torturra (à direita, na imagem acima) e o articulador do FdE, Pablo Capilé (à esquerda). Na ocasião, este colunista saiu da entrevista com a sensação de que, entre muita polêmica referente à arrecadação de fundos e às relações políticas da proposta, quase nada se falou do fazer jornalístico.

Perguntei a membros da bancada de entrevistadores se não consideravam que o jornalismo deveria ser a questão central de um debate que opõe “mídia velha” e “mídia nova”. A reposta veio no tom de que temas éticos, casos de obtenção de recursos financeiros e possível envolvimento com partidos políticos, seriam temas “mais indispensáveis” naquele instante.

Não concordei. Fui até Torturra, na intenção de escutar algo diferente. O jornalista respondeu, frustrando minhas expectativas, que a pauta sobre os Ninjas era extensa e que não havia espaço para “falar de tudo”.
*Braço do Fora do Eixo – uma rede de pessoas envolvidas com produção cultural –, o coletivo de jornalismo em rede Mídia Ninja, sigla que resume o nome Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação, tem enfoque na distribuição de conteúdo informativo de forma independente que, de acordo com definição do próprio grupo, é produzido de “dentro dos acontecimentos” e especializado na cobertura de mobilizações da sociedade.
Sigo preocupado, apesar de compreender a urgência de temas morais e éticos, como modelo de financiamento e a busca por entender relações políticas que tornam possível a captação de recursos. Mas pergunto: também não é assunto relevante, exatamente dos pontos de vista moral e ético, a forma de levar informação ao público? Não é também fundamental debater o processo de produção e a consequente qualidade do jornalismo que chega à sociedade?

A menos neste instante, de acaloradas argumentações de lado a lado, não percebi empenho de nenhum lado a garimpar as vantagens e desvantagens do formato proposto, que é um filho sagaz da era digital. Já faz algum tempo, parcela crescente dos usuários de internet desejam participar, interferir e produzir o próprio conteúdo subsidiados pelos mecanismos digitais disponíveis, celulares, tablets etc...

Em relação ao método de cobertura jornalística, a exemplo daquela feita via internet durante o junho de manifestações, a pauta se perdeu nos últimos dias. Quem tem disposição para sair das redações e se deslocar para longe da tela do computador, sabe que os fatos das grandes cidades, essencialmente nas periferias, são cobertos em grande parte por “repórteres comunitários”. Desse pool de novas tecnologias e da interação é que surge espaço a experimentos comunicacionais aglutinadores como os Ninjas.

É claro que os Ninjas podem preencher uma lacuna, sobretudo porque têm condições de recuperar o estilo reportagem de rua, com o acréscimo de fazê-lo ao vivo. Por outro lado, há o crescimento explosivo de fontes, o que é visto pelo coletivo como potencial de “narrativas independentes”. Nisso, reside um perigo: garantir informação de qualidade requer checagem dos fatos e contexto. Nesse sentido, é preciso selecionar o material de forma especialmente criteriosa e, para isso, existe a necessidade de mediadores. Afinal, qual a credibilidade resultante da cultura das redes sociais, onde, individualmente, é possível publicar o que se quer e, logo depois, apagar?

Respeito o argumento de que a pauta é abrangente, mas há itens emergenciais a serem tocados. Deveria ser inescapável e imediato o interesse em debater jornalismo nas oportunidades históricas, aquelas que trazem a possibilidade da fazer evoluir o tratamento do bem público chamado informação, independentemente da forma em que ela é apresentada.

*Moriti Neto, jornalista.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

O analfabeto midiático


por Celso Vicenzi (com a “ajuda” de Bertolt Brecht)*

O pior analfabeto é o analfabeto midiático.

Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para justiçar o mundo. Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula. Nas passeatas e na internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende bandeiras políticas. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. E que elas – na era da informação instantânea de massa – são muito influenciadas pela manipulação midiática dos fatos. Não vê a pressão de jornalistas e colunistas na mídia impressa, em emissoras de rádio e tevê – que também estão presentes na internet – a anunciar catástrofes diárias na contramão do que apontam as estatísticas mais confiáveis. Avanços significativos são desprezados e pequenos deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos. O objetivo é desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade social no país.

Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã Siemens. Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum editorial contundente. A principal emissora de TV do país calou-se por duas semanas após matéria de capa da revista IstoÉ denunciando o esquema de superfaturar trens e metrôs em 30%.

O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo. Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar. Não desconfia que, em muitas tevês, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o “dono da voz” (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos. Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e imagens. Dizem que “uma foto vale mais que mil palavras”. Não é tão simples (Millôr, ironicamente, contra-argumentou: “então diga isto com uma imagem”). Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar. Também as imagens podem ser manipuladas e editadas “ao gosto do freguês”. Há uma infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram encontrados. A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia norte-americana ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com milhares de inocentes mortos foi deflagrada.

O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro ponto de vista. O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica – para não estender demais os campos do conhecimento – para compreender minimamente a complexidade dos fatos. Sua mente não absorve tanta informação e ele prefere acreditar em “especialistas” e veículos de comunicação comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos. Lê pouquíssimo, geralmente “best-sellers” e livros de autoajuda. Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e corresponde à realidade. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o espoliador das empresas nacionais e multinacionais.”

O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público. Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as populações mais pobres. Em resumo: destroem a democracia. Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma última observação a fazer: Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.


*Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Índios na cidade

No último dia 9 de agosto, Dia Internacional dos Povos Indígenas do Mundo, a Comissão Pró-Índio de São Paulo lançou o vídeo “Índios na Cidade: desafios e conquistas”, em que índios das cidades de Manaus, Boa Vista, Campo Grande, São Paulo, Osasco, Curitiba e Porto Alegre dão seu depoimento sobre os desafios de viver no contexto urbano.

Segundo o Censo de 2010, 36% da população indígena no Brasil reside em centros urbanos. Saiba mais e veja o vídeo abaixo, muito importante. 

domingo, 11 de agosto de 2013

Ruy Fernando Barboza

A última vez que encontrei o Ruy, no ano passado, na feijoada da Lana, na Vila Madalena, ele contava com entusiasmo da viagem que fizera pouco antes para Barcelona. Desde então não nos vimos mais. Somente algumas trocas de mensagens pelo Facebook e e-mail.

A última, pouco antes de ele ser operado para tirar a vesícula, eu pedia para publicar um texto que havia lido em seu blog. Ele respondeu que seria um prazer. O texto ia sair nessa semana, estava só a espera de uma ilustração para caprichar mais. Não deu tempo de ele ver, infelizmente.

Fui pego de surpresa com a notícia de sua partida, avisado pelo amigo em comum Serginho Kalili. Ruy tinha 70 anos e faleceu por conta de uma parada cardiorrespiratória em Florianópolis, cidade onde vivia.

O Ruy conheci em 2012, no começo do ano, quando ele foi ser editor de texto da Retrato do Brasil. Ele saiu alguns meses depois, num tempo de convivência curto mas intenso. Ele tinha uma energia tão boa, uma inteligência e um humor raros que virei um admirador imediato. Ruy era generoso por natureza. Era um extra-classe de ser humano. Durante as manifestações de junho ele me escreveu dizendo que o NR havia feito uma cobertura “ótima”. Fiquei orgulhoso. Elogio do Ruy era sinal de que estávamos no caminho certo.

Então, timidamente, quero prestar uma homenagem minha e do blog para o Ruy que foi, sem dúvida, um dos grandes jornalistas que esse país já teve. Foi, sem dúvida, uma pessoa muito querida e admirada, visto o tanto de gente que vi circular em seu velório nesse domingo à noite.

Queria deixar um abraço para família e pra Silvia, a namorada dele, também muito querida. Tem perdas que nos fazem balançar demais. E pensar num tanto de coisas que fica difícil digerir. Um dia a pessoa está ali, no outro não está mais. Complicado.

Valeu muito Ruy, um beijo, querido, com toda a minha admiração e respeito!

Thiago Domenici

"Nasci em Paranaguá, PR, em 1943. Mudamos para Londrina, PR, em 1947. Em 1965 concluí Direito na USP. Em Sampa, ao chegar em 1961, não conhecia quase ninguém. Primeiro emprego decente foi na Folha, em 1963. Lá Woile Guimarães e outros generosos jornalistas me explicaram o que fazer. Simultaneamente com o jornalismo, atuei por um tempo na advocacia criminal. Mais tarde cursei Mestrado em Comunicação, também na USP - mas não defendi a dissertação. Fiz Psicologia (São Marcos) e formação em Psicanálise, Psico-Oncologia e Análise Bioenergética. Planejei e implantei o curso de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina. Continuei sempre no jornalismo (Realidade, Quatro Rodas, Playboy, Veja, TV Globo etc.) e na Psicologia (consultório, grupos e consultoria a empresas). Aos 50 anos, prestei concurso, como bacharel em Direito, para Analista Judiciário do Tribunal Regional Federal (onde me aposentei em 2000). Hoje moro em Floripa e em Sampa (sou editor de Texto da Retrato do Brasil) e trabalhei: até 2009, no Canal Futura e Revista Cláudia (respondia como psicólogo, a cartas d@s leitor@s. Em 2010 coordenei, por uns meses, a TV e a Radio Justiça, em Brasilia." - no seu blog Pensamentos Divergentes 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Corporativa



por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

Vivi muitos anos dentro de ambientes corporativos bastante variados, em empresas privadas e estatais, órgãos públicos e agências de cooperação internacional. Posso dizer que conheço bem a vida nos escritórios, gabinetes, reuniões e eventos. Inúmeros são os causos colecionados, exemplos de grandeza, mesquinharia, vexames e alegrias, as pastilhas do mosaico do nosso dia-a-dia na ralação.

No mundo moderno, urbano e globalizado, trabalhar em escritórios tornou-se quase inescapável. Não importa se você está num órgão de governo, numa empresa de alta tecnologia, ONG ou transnacional de produtos químicos, ou ainda num banco, os escritórios são todos muito parecidos. Lembro-me de ter encontrado em muitos locais a missão da empresa ou instituição exposta com destaque e certo orgulho. Quase sempre, falava em busca da excelência nos produtos ou serviços, ética, bem-estar do ser humano, respeito ao meio ambiente, satisfação do cliente e outras expressões grandes e edificantes. Nenhuma delas menciona lucro acima de tudo, acionistas ávidos, entraves burocráticos, corrupção, jogo político, disputas de poder e outras lindezas que efetivamente determinam as práticas e os resultados.

Tampouco a estratégica responsabilização de quem está embaixo na pirâmide hierárquica, quando a vaca vai pro brejo, aparece em qualquer manual de conduta ou de gestão, mas quem já esteve ou está nos andares inferiores sabe bem como é. E digo mais: burocratas aplicados e convictos sempre se dão bem, por maior que seja sua cara e recheio de nada. Nos ambientes burocráticos, conhecer as engrenagens e se apropriar delas é tudo. A pessoa alérgica a graxa nunca vai usufruir das benesses reservadas a quem lê os protocolos e manuais com a determinação de descobrir saborosas e suculentas justificativas e benefícios cifrados, que jamais serão divulgados.

A propósito, engana-se quem supuser que os setores de recursos humanos sejam dedicados às pessoas; eles são peças essenciais da engrenagem das conveniências, lucros e vantagens da empresa ou do executivo principal, a despeito da legislação, da “missão”, das políticas de humanização do trabalho blábláblá.

Dito isto, de forma um tanto atabalhoada, quero deixar registrado que trabalhar é muito bom, principalmente quando a gente consegue ver o resultado daquilo que faz, que com frequência pouco tem a ver com metas, planos e estratégias. Também, o quanto figuras carismáticas, inspiradoras e bem humoradas podem fazer a diferença no trampo, tornando o ambiente de trabalho mais equilibrado, leve, sensível e divertido, apesar do piano a ser carregado nas costas. Estas, que estão na pasta “inesquecíveis” do meu arquivo pessoal, e que, mesmo sem o saber, muitas vezes me impediram de desistir nos vários momentos de exasperação, melhoram tudo.


*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

É difícil abandonar


por Fernanda Pompeu ilustração Fernando Carvall*

Mesmo quando você já se convenceu que uma determinada inovação facilita sua vida. Mesmo quando você migrou para um novo ambiente de fazer as coisas. Mesmo assim, parece tão custoso deixar hábitos, procedimentos, protocolos.

Acho que é por conta do coração. Por causa de um sentimento chamado afetividade. Pois somos, numa conta grosseira, 50% razão, 50% emoção. A segunda é mais lenta e profunda do que a primeira. Para sair do lugar, ela precisa de uma experiência além-René Descartes.

Também por isso o discurso muda mais rápido do que o comportamento. O povo sempre soube no seu adágio: falar é fácil, difícil é fazer. A encrenca não está em abraçar o novo, reside em abandonar o velho.

Porque amamos o antigo. Ele foi nosso companheiro e garantiu, no passado, alguma alegria e um punhado de sucesso. Por exemplo, eu sei que usar um editor de textos é mais prático e simples do que escrever no Word. Este é pesadão e cheio de firulas que nunca precisamos.

Mas como dizer adeus? Como deletar o programa? Vem à mente tantos textos tricotados com a linha e a agulha wordianas. O afeto que se insere no processador que te ajudou a escrever aquela crônica ótima, que te auxiliou a melhorar as médias. Te encorajou a refazer as muito ruins.

A trava que segura a mudança se faz presente para lá do comezinho. Ela vai do menor para o maior. Do privado para o púbico. Pois tudo está conectado: a insistência em usar o Word e a perplexidade com os últimos protestos de rua.

A razão nos faz compreender que as recentes manifestações dos indignados brasileiros se expressam em um novo formato de reivindicar. Formato sem palanques, sem líderes, sem partidos, sem sindicatos. Uma pauta mais difusa, utópica, solta até. Chamamentos e mobilizações em redes sociais.

No entanto o afeto, ao menos para os maiores de cinquenta anos, está ligado a um outro padrão de fazer política. Ligado ao voto, à supremacia da maioria, às decisões tiradas em assembleias, à mesa de notáveis, ao fla-flu das tendências e partidos políticos.

É claro que eu compreendo o que está acontecendo. Quero dizer, mais ou menos. Uma vez que o cérebro chega antes do que a emoção. O que alimenta um sentimento? A memória, com certeza.

Recordo da minha juventude. Das passeatas, palavras de ordem, dos meus queridos e queridas da Liberdade & Luta. Lembro que acreditávamos em Trótski e no Mick Jagger. No centralismo democrático e no amor livre.

Foi tanta vida! Sufoco só de invocá-la. Mas, mulher madura, me esforço para acompanhar as inovações. Dobro a atenção para ouvir a garotada. Mas tudo o que quero, e espero, é que ela me toque o coração.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A primeira cama de casal e um solteiro


"Prezados,

me chamo André, tenho 26 anos, sou solteiro e moro sozinho há 1 ano. Nesse tempo em que estou morando sozinho, criei uma grande expectativa em comprar a minha primeira cama de casal. Uma cama de casal é tudo na vida de um solteiro! Passei por um período de preconceito social. Escutava muitas vezes a indignação de pessoas que me questionavam: “Como assim? Você tem 25 anos, mora sozinho e não tem uma cama de casal?”.

Pois é, depois de muito perrengue resolvi comprar minha cama de casal. E lá fui em uma Loja da Ortobom. Eu, que ainda não tenho um escorregador de macarrão descente, comprei uma cama de 2 mil reais. É... Uma cama com linhos de Bambu, baba da cegonha africana, molas a base de objetos não identificados encontradas em Júpiter pela Nasa. Uma cama sensacional chamada Liberty.

Estou decepcionado. Decepcionado com a NASA, com o bambu, a cegonha e a Ortobom. O motivo para a minha decepção é que a cama não foi feita só para dormir.

Dos 7 bilhões de seres humanos que existem no planeta, acredito que, no mínimo, 60% tenham sidos concebidos em uma cama. Logo, acredito que a cama é tão importante para o sono quanto para as relações sexuais.

Antes de comprar a cama, assisti a vídeos com especialistas jogando objetos de longa distância em cima da cama para mostrar o surpreendente amortecimento das super-poderosas molas da NASA.

Não fizeram nenhum teste com movimentos sexuais!

Fiz um Open Bed em minha casa e tenho me decepcionado. Durante o entretenimento, minha cama se move e sempre para no meio do quarto. A base da cama box, com pinos e rodinhas não ficam fixas no chão de taco do meu quarto. O maior problema, não é o fato da cama se mover. O pior, é o barulho que ela faz durante o ato. Estou tendo problemas com isso! Problemas estes, que me fazem me desconcentrar, preocupar e, consequentemente, broxar. O fato é que no apartamento de baixo, moram vizinhos com uma filha de 7 anos. O quarto da filha fica justamente embaixo do meu. Não consigo parar de pensar no quão assustador deve ser para aquela pequena criança escutar barulhos de um ato adulto. Espero que este depoimento possa contribuir de alguma forma para a evolução das camas, da Ortobom, da NASA..."


André Carvalho (@andrefcarvalho)


A Ortobom respondeu ao “Sr. André” dizendo que realizaria “a troca de seu box”. Ele, no entanto, questionou que não quer a troca do produto, mas uma solução para a “cama não se mover”. O histórico da conversa onde a reclamação foi publicada originalmente está site Reclame Aqui.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Hitler descobre o "Tucanoduto"

por Izaías Almada*

O grande jornalista Sergio Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, costumava dizer que quando a situação não estava boa, o urubu de baixo cagava no de cima.

Parece que o Brasil descobriu o protesto de rua no ano de 2013 da Graça de Nosso Senhor. E o espanto foi tanto, que muita gente resolveu interpretar o fenômeno alegando perplexidade diante dos fatos.

Houve, e continua havendo, protestos para todos os gostos e uma avalanche de análises que, para meu espanto, demonstram o quão alienado o país ficou com o golpe civil/militar de 1964 e, sobretudo, com os anos dourados do neoliberalismo caboclo comandado por governos de viés conservador, para não dizer reacionário, como os anos de Sarney, Collor e Fernando Henrique Cardoso.

A democracia foi transformada em simples referência histórica e as cabeças são manipuladas por gente muito esperta e cheia do vil metal.

Abaixo mais uma das inúmeras versões que se espalham pelo youtube com o aproveitamento de imagens de um filme alemão sobre Hitler, quanto a mim a melhor delas.



*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O camarote do papa

por Ricardo Sangiovanni*

Disse outro dia a meus alunos – custa-me habituar-me a essa condição inverossímil – da faculdade de comunicação que não há ciência nenhuma na prática do jornalismo.

Torceram-se umas caras, uns quantos pares de olhos esbugalharam, e então perguntei se havia dito alguma besteira, se eles acreditavam no contrário. “Acredito, disse uma moça. Se não, não estaria aqui”.

Retruquei-lhe que não me levasse a mal, que estávamos todos nós ali na sala – como aliás estamos todos nessa vida - para perder ilusões. (Digo perder ilusões, não a capacidade de iludirmo-nos com ilusões novas, com sorte mais amadurecidas que aquelas perdidas.)

Pois avalie você, moça, o que foi a cobertura jornalística da visita do papa ao Brasil, e veja se não tenho um pinguinho de razão. Passamos uma semana inteira sendo massacrados por um noticiário que para mim foi o maior depoimento de que não há imprensa laica no país, nem critérios ditos jornalísticos que sobrevivam, na hora do vamos ver, ao olhar ideológico – pior, ao olhar hegemônico – das principais empresas brasileiras de comunicação. Qual ciência, então?

Pois digo e repito: não há, não há, não há ciência no fazer jornalístico em nosso país – nem sei se no mundo haverá. Fato que, se for verdadeiro, não deve nos espantar demais, afinal o jornalismo nasceu do prelo e tem como justificativa última (única) a propriedade dos meios de difundir informação, nada mais. Mas deve, sim, nos espantar um pouco, afinal, lá se vão décadas desde que abriram-se as faculdades de jornalismo – o que, se entendo bem, serve para atribuir critérios científicos à razão de ser da nobre atividade – , e a prática do dito cujo segue, tirando uma melhorinha aqui, uma piorinha ali, na mesma.

Se minto, é de boa fé, vocês me desculpem e por favor me corrijam. Mas sou levado a crer que, se por um lado o jornalismo de hoje em dia tornou-se mais permeável ao acesso de gente normal, sem sangue azul, às funções de imprensa – o que, isoladamente, é coisa interessante – , por outro, não faculta nem requer mais do jornalista função maior de pensador, à guisa de substituição dos antigos “intelectuais” das elites – o que, somado à tal permeabilidade, talvez resultasse em ganho, em ampliação do espaço para um jornalismo mais crítico, menos elitista, mais arguto, inteligente, democrático e, quando nada, confiável.

Mas o que ocorre é que, na falta de gestão e prática minimamente norteadas por critérios e debates científicos – e não por tecniquinhas do cu da gia – dá nisso aí: fora uma ou outra brecha, o fato é que quando chega a hora de falar de coisa séria, seguimos pedindo a benção a papas e afins, na maior faceirice (ver de 1min21s em diante).

E vamos nos acostumando, acoitados, a dourar a pílula de nossos pequenos méritos, a trocar os fins pelos meios, a reconhecer entre nós mesmos nosso valor profissional pelo “com quem conseguimos falar”, bem mais que “pelo que falamos, seja lá com quem consigamos (escolhamos) falar”.

Dou um exemplo: essa entrevista global, reputada como grandíssimo furo de reportagem, com o papa Francisco. Qual o grande êxito, senão o de “ter boas fontes”, senão o de “ter conseguido vencer a resistência do Vaticano” a que o papa desse a entrevista? Que ela tenha sido “a primeira”? Que tenha “durado 45 minutos”? Mas que moedas de avaliação de sucesso ou fracasso jornalístico são essas?

A quem a esta altura já esteja me acusando de estar polemizando isso apenas porque 1) não fui eu quem conseguiu entrevistar o papa, aliás a grande personalidade que terei conseguido ‘perfilar’ (oh, verbo mais infame!) na vida terá sido… Pablo do arrocha; ou 2) porque sou um baiano despeitado pelo fato de o autor da façanha ter sido um jornalista pernambucano; a quem pensa assim convido a dar uma revisada na entrevista – e na bolha de auto-vangloriação global que ela gerou.

Vocês notarão que 1) o papa não disse nada demais, nada além do que quis, sobre o que quis e como quis. Se tivesse mandado um video gravado na humilde choupana onde vive, o conteúdo bem que poderia ter sido o mesmo; 2) o repórter diz que não houve pauta combinada, mas também não perguntou nada realmente espinhoso (Ditadura na Argentina? Pedofilia? Aborto?), que dirá algo que permitisse ao espectador entender melhor o que há (se há) de concreto por detrás do humanismo-populista de Francisco; 3) no dia seguinte, o repórter foi o convidado de um programa da própria emissora para ser “sabatinado” pelos colegas jornalistas. No programa, ele ouviu dos pares orgulhosos que a entrevista fora o que “qualquer jornalista” (?!) gostaria de ter feito, e ficou-se ainda sabendo que ele presenteara o papa com um livro seu, com uma “dedicatória muito carinhosa”; 4) apesar da “entrevista exclusiva”, a única fala mais ou menos impactante do papa nesse balaio todo – o aceno, lido com lupa, nas entrelinhas e com muito boa vontade, de tolerância à homossexualidade – foi dada no dia seguinte, numa coletiva, no avião. Note-se que, apesar de ter sido em resposta a uma pergunta de uma jornalista brasileira, não havia sido bem aquilo o que ela perguntara… ; 5) o repórter, com aquela típica cara-de-ver-Deus, alumiada por um facho de luz dourada, admirou-se do fato de o papa ter tido a preocupação de perguntar a ele (a ele, pobre jornalista neste vale de lágrimas!) se tinha sido claro ao final de cada resposta.

Ora, tenha santa paciência. Entrevista por entrevista, tanto faz com papa, rei, milionário, artista ou mendigo: importa é que cumpra a função ou de problematizar uma/algumas questões, ou de apresentar criticamente alguém ao leitor ou espectador. Se o papa deseja parecer fofinho, aparece na tv mostrando-se um fofinho, dá uma entrevista exclusiva afirmando que é um fofinho, e quando chega domingo à noite você recebe um telefonema de sua mãe dizendo “você viu o papa, que fofinho?” (achou graça? pois eu recebi) – se isso aconteceu, é porque o rei está nu e ninguém percebeu; e, nesse caso, há algo de podre no reino do jornalismo, amigos.

Enfim, vou ficando por aqui, que não quero estragar o santo domingo de ninguém com meu fel blasfemo. Em resumo, assim cada vez mais segue sendo o jornalismo. E, com tristeza, cada vez menos jornalista sigo sendo eu.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.
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