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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Sobre sentir


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

Sentir é imprescindível. Cada vez mais acredito nisto. Na vida prática, no vuco-vuco de todo dia, poucas vezes temos a chance de nos conectar com o que sentimos ao fazer isto ou aquilo. E não falo só das emoções fortes, definitivas, mas também daquelas sutis, que se infiltram na música que ouvimos pelo fone conectado ao celular, enquanto o ônibus se arrasta no engarrafamento, no olhar que oferecemos às pessoas que nos cercam, no texto da personagem da telenovela, na maneira como interagimos com chefes e colegas de trabalho, nas notícias que nos chegam e em tantas outras situações que vivemos o tempo todo. Neste estranho mês de junho, em que o ativismo nos tomou de assalto e não nos permitiu a indiferença, sentir se torna ainda mais urgente e necessário. É o que legitima o que fazemos, no fim das contas.

Por uma curiosa ironia, não estou podendo presenciar esses dias efervescentes. Digo ironia porque sei o quanto teria apreciado viver de perto esse período tão especial, que ninguém esperava, e que me pegou em pleno voo para fora do país. Estou acompanhando os acontecimentos como posso, ao mesmo tempo que me conecto com o que rola aqui.

Nesta Buenos Aires que tanto amo, onde a tragédia do tango se faz presente em tudo – até mesmo num recente pronunciamento presidencial, em que a fúria se sobrepôs à cerimônia – vejo-me assistindo um show intitulado “Si no tiene un sentimiento, retírese!”. Nele, a atriz e cantora Rita Cortese, uma diva, que me evoca uma mistura de Angela RoRo com Nana Caymmi, interpreta, no mais profundo sentido do verbo, aqueles tangos e boleros de vida e morte, encharcados de sangue, lágrimas, uísque e fumaça de cigarro. As canções são entremeadas por comentários e frases do tipo “no hay que tocar para deslumbrar, sino para alumbrar”. Sim, há gente que nasceu para sentir desmesuradamente.

Os que sentem desta maneira vivem muito à mercê dos altos e baixos, e nem todo mundo aprecia uma boa montanha russa – embora às vezes ela seja inescapável. Mas, na outra ponta, pessoas que não conseguem entrar em contato com o que sentem estão condenadas a um desperdício de vida. Mais do que as emoções em si, a consciência sobre elas nos define como humanos.

É revolta o que te mobiliza? Indignação? Perplexidade? Vingança? Medo? Solidariedade? Compaixão? Oportunismo? Exasperação? Ódio? Nenhum desses? Algo indefinível? Misturas várias?

Seja lá o que for, sinta. E se não houver um sentimento, busque-o.


*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A criação do mundo revisitada

por Izaías Almada*

E no sexto dia, antes do descanso, Deus contemplava a sua obra, pensativo. De repente, girou o globo terrestre e colocando o indicador num determinado ponto, exclamou: “Aqui será o Brasil!”

Admirou Deus por alguns momentos a beleza da sua criação e acrescentou: “Aqui, nesta terra de palmeiras, sabiás e rios piscosos, colocarei à minha direita a maioria dos inaptos. À minha esquerda, habitará a maioria dos ineptos... E no centro, bem... No centro, deixarei viver a grande maioria dos inócuos...”

E viu Deus que era bom.

Inaptos, ineptos e inócuos, aqui vivemos todos nós na expectativa de criarmos uma grande nação, de projetarmo-nos como seres humanos de primeira grandeza, de nos livrarmos de seculares mazelas impostas por um colonialismo predatório e refém de interesses além fronteiras. De uma cultura que costuma se dividir entre a arrogância e a submissão: a arrogância do saber mal assimilado e a submissão originada pela alienação.

Nesse coquetel de desejos e frustrações, caminhamos sobre o fio da navalha e vamos trocando os papéis em consonância com nossos interesses de momento: passamos de inaptos a ineptos ou vice-versa, mas sempre com a possibilidade de continuarmos ou de nos transformarmos em inócuos.

No paraíso que nos foi destinado por vontade divina, onde oito milhões e quinhentos mil metros quadrados de verdes matas, água doce e potável, frutos os mais exóticos e saborosos, subsolo riquíssimo, há quinhentos anos ainda não sabemos organizar a casa. Tentamos, é verdade, mas o tempo que nos é dado viver é muito curto, se pensarmos que após a infância e a adolescência temos que escolher (ou somos escolhidos?) entre sermos inaptos, ineptos ou inócuos.

Um belo dia, ao comermos da árvore da sabedoria, descobrimos que inaptos, ineptos e inócuos poderíamos viver em harmonia e com isso imitamos outros povos e culturas mais antigas. Organizamos a coisa pública, a república e, consoante a boas experiências alheias, criamos parâmetros de convivência social, deixando para trás nossos antepassados colonizadores. E foi assim que estabelecemos três poderes: um para administrar, um para legislar e um terceiro para zelar pelo cumprimento das leis.

E viu Deus que era bom.

Surgiu aí o grande problema. Como distribuir pela nova república, com sabedoria e com sentido de justiça, os inaptos, os ineptos e os inócuos?

Chamando um representante de cada grupo, Deus colocou na mão de cada um deles um manual a que deu o nome de Constituição e disse: “Aqui está o caminho, a verdade e a vida. Leiam, reflitam e aí encontrareis as respostas para os desafios da vossa jornada neste paraíso por mim criado”

Os inaptos leram, leram e não entenderam muito bem, ou fingiram que não entenderam. Os ineptos marcaram reuniões e mais reuniões e foram poucas as vezes em que conseguiram algum consenso sobre o que leram. Os inócuos, bem, os inócuos praticamente não leram. E foram todos para as ruas...

E viu Deus que era ótimo!

*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Recife sob combustão espontânea



por Aleksander Aguilar*

Então, vale a pena falar um pouco de como está em Recife? Pois na cidade proeminente do tantas vezes longínquo Nordeste brasileiro o quadro é similar, sim, ao do Brasil atual e sinistramente unido por nossas análises igualmente preocupadas que encurtaram nossas distâncias. E por que não seria?

Por exemplo: ”O mais importante é parabenizar a população pela maneira pacífica com que realizou o ato". Sim, sim, foi o Geraldo que disse! O prefeito da capital pernambucana, que é amicíssimo, para dizer o mínimo, do governador do mesmo Estado, Eduardo Campos. E os comuns: “Então graças a deus que aqui foi tranquilo, né? Não teve toda a baderna lá do Sul”, disse ao telefone agora a senhorinha vizinha no prédio, evangélica de devotada disciplina ao rádio a todo o volume em canais cristãos, religiosamente todos os dias às 7h da manha.

Não, aqui não é São Paulo, porra! Mas e daí? É a capital “mais vibrante do Nordeste” ainda assim reproduzindo ufanismos vazios, típicos de “revoluções de twitter” e de outras expressões cunhadas no afã midiático de criar nomes de impacto, que permanece num nível tão superficial quanto o dessas paradas cívicas e protofascistas (neste momento, porque podem mudar de natureza) que começaram chamando-se atos políticos. Tão apressadas quanto foi a mídia progressista – façamos a autocrítica – achando tudo lindo no início dos protestos antes de entender o que estava em jogo.

Reconheçamos que há uma crise urbana que a classe média assumiu e que ajuda a configurar uma crise da democracia representativa como um todo. A melhora do padrão de renda dos últimos anos tem paradoxalmente, e em especial nas grandes cidades, piorado a vida em alguns aspectos como a mobilidade urbana, estopim desta crise.

Nesse contexto, no ato do dia 20 de junho foram pelo menos 52 mil pessoas nas ruas, segundo a Secretaria de Defesa Social do Estado, e constituiu um dia histórico em Recife, assim como o foi em várias outras cidades brasileiras. Tudo tranquilo, “o mais pacífico do país”, com pequenos e breves incidentes rapidamente controlados e no máximo bombas de fogos de artifício lançadas pra fazer barulho. Até a Polícia Militar trabalhou com braçais brancos nas mangas indicando paz e chegou a abrir faixas de apoio ao movimento. E assim Recife não fez se fez pioneiro ou vanguardista; replica um sentimento bastante generalizado nesse 20 de junho que efetivamente parou o Brasil ao mesmo tempo que pôs todas as antenas progressistas em alerta. Um movimento imenso e sem comando: perigo! A horizontalidade é perigosa? Com que tipo de aventura estamos lidando?

Recife, uma das cidades símbolo do atual e dificilmente negável processo brasileiro de redução de injustiças sociais – porque tem um crescimento econômico destacado na região do país com desigualdade socioeconômica de amplo e conhecido lastro – a surpresa com que todos foram tomados na organização das gigantescas manifestações de rua ajudam a amplificar um típico debate sobre estratégia e organização. Aquele que remonta à velha discussão organização e espontaneidade das massas, travada já desde 1905 entre o contexto alemão e russo, mas agora diante de uma dinâmica organizacional da era Web 2.0.

Há espaço para que nos movamos mais adiante da polarização conceitual entre partidos vanguardistas vistos como muito rígidos e redes de articulação virtual vistas como muito frouxas? É possível que os movimentos contemporâneos transcendam o espontaneismo pejorativo e sejam articulados como novas formas de criação e de organização?

Seja como seja que evoluamos nesse debate, está na hora de politizar o momento, de capitalizar os movimentos sociais vivos, e de pautar um horizonte de emancipação social. O esvaziamento político daquilo que começou como atos propositivos, e agora tem como tom predominante o de paradas cívicas moralistas e conservadoras, precisa ser preenchido. Propostas emancipatórias radicais precisam ser construídas, debatidas e massificadas de modo a se ter um objetivo sociopolítico estruturalmente transformador.

*Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor e viajante a Ítaca. Especial para o NR.

domingo, 23 de junho de 2013

De um a dez sobre os protestos



por Ricardo Sangiovanni*

Já chegou segunda e ainda não tenho nada concreto pensado a lhes dizer sobre o único assunto da semana digno dessa crônica.

Mas se não tenho nada concreto pensado sobre o que anda se passando, é menos por dificuldade de organizar o pensamento, e mais por dificuldade de entender com a devida precisão o que anda se passando.

Não será contudo por isso que deixarei o blog em branco – não é hora de deixar o blog em branco. Irei portanto enumerando alguns temas e alguma reflexão inicial sobre eles, convidando a todos de antemão ao debate, que é o único instrumento capaz de nos levar ao melhor entendimento, à melhor opinião, à melhor expressão do que cada um de nós leva no espírito.

1. De que protestos falamos? Parece que as manifestações de rua chegam ao final desta semana já são bem diferentes daquelas que começaram há duas semanas atrás. Protestar claramente contra o aumento do preço da passagem do transporte público – primeiro em São Paulo, em seguida em outras praças, mas sempre em torno da mesma demanda imediata (redução do preço já), da mesma agenda (vamos debater o modelo de transporte público), da mesma ideologia (o estado deve ser antetudo agente de pressão do empresariado a prestar serviços de qualidade que atendam às demandas dos cidadãos, e não o contrário) – me pareceu algo digno do maior apoio. Já protestar difusamente contra todo e qualquer problema, real ou irreal, visível ou invisível, palpável ou impalpável, de imediato ou de prolongado remédio, direcionando todas essas demandas, ainda que justas, a uma raiva desmedida da política em si, do Estado em si, tem-me parecido coisa difícil de apoiar.

2. A quem esse tipo de protesto interessa? Não tenho como afirmar que a maior parte das pessoas que estão na rua esteja protestando desse jeito amorfo e difuso. Tampouco afirmaria que, ainda que amorfas e difusas, as demandas de qualquer pessoa que esteja na rua sejam infundadas ou injustificadas – viver no Brasil é difícil mesmo, cada um sabe de si. Entretanto, a soma de protestos inconscientes de sua natureza mais profunda – de sua natureza ideológica – é que me parece a coisa perigosa. Perigosa porque basta que alguém, pessoa ou grupo, consiga pilotar a indignação popular, para que as demandas originais – a ideologia original – seja subvertida. De maneira que ir às ruas “para dizer que sou brasileiro”, convocar as pessoas para “mudar o Brasil”, animar-se porque “o gigante acordou”, dizer-se revoltado “contra isso tudo que está aí” significa menos ajudar a obter a universalização da cidadania no país (esse nosso mais grave problema) e mais abrir espaço para projetos de apropriação das instituições para finalidades completamente opostas a essa – já volto a essa questão.

3. É demais imaginar que possa estar-se desenhando um golpe? Infelizmente, acho que não. Porque à medida em que cresce o movimento de descredibilização da política, dos partidos, do governo em si – descredibilização essa embasada no simples fato de que a política, os partidos, o governo existem – cresce o risco de que as manifestações se traduzam em caos social incontrolável aos olhos de quem detém as armas, a força, o porrete. Ou seja: mesmo que não haja um golpe milimetricamente arquitetado em curso, criar um clima de ódio da política pode servir muito bem a quem deseje a supressão da agitação popular por um golpe mais duro de força, um golpe que, por um suposto bem da paz nas ruas, poderia atentar contra a institucionalidade democrática – coisa que o Brasil levou tanto tempo e tanta porrada para conquistar. Afinal, se nossa democracia tem problemas, esses talvez sejam menos decorrência do sistema, e mais da expressão da luta de classes que se faz através dele. Me parece difícil acreditar simplesmente que, se o modelo institucional fosse outro, e os atores esses mesmos, teríamos as transformações severas de que o Brasil precisa.

4. É hora de sair das ruas? Questão complicada. A princípio responderia que não, porque é sempre possível disputar na própria rua a escolha que cada pessoa fará do direcionamento a ser dado à sua indignação. E também por acreditar que a maioria das pessoas que está protestando estaria sim propensa a direcionar sua indignação a demandas claras de democratização acelerada da condição cidadã – como era, por exemplo, a dos 0,20 do Passe Livre, um rótulo excelente para aglutinar pessoas e pautar uma discussão mais ampla, de um novo modelo de transporte público. Mas interponho a esse meu entusiasmo um problema: será que essa disputa pode ser de fato ganha nas ruas na atual circunstância, tendo em vista a quantidade de atores/grupos sociais que já entrou na concorrência pelo direcionamento e pelos resultados de uma mesma revolta popular? Será que, dado o atual grau de agitação, o chamado a se batalhar por coisas claras (algo que demanda pesquisa, conversa, entendimento, coisas que levam tempo e requerem um investimento que muita gente não sabe ou não quer fazer) tem condições de enfrentar o facilismo da argumentação “pelo Brasil”, “contra os políticos”, “contra o governo”, “contra tudo que está aí”? Gostaria de crer que sim, mas não creio. Talvez, entre sair ou ficar nas ruas, a alternativa seja continuar a se reunir gente na rua, porém começando a tentar formar, ainda que na própria rua, grupos com nome e cara, a separar de forma mais evidente quem é quem nos protestos, a procurar saber ao lado de quem está se protestando, pelo que se está protestando, onde se está protestando, quais são as ideias que se somam de fato ao que se tem como alvo de protesto.

5. A repressão policial. Apenas para repisar que segue vergonhosa. Porque não consegue distinguir protesto de verdade de vandalismo picareta, e quase sempre massacra mais quem se manifesta por alguma razão justa. Porque, afinal, essas são as pessoas mais frágeis, seus inimigos mais antigos: a gente pobre comum, historicamente massacrada.

6. Sobre as redes sociais. Muita gente tem falado que as redes sociais são a grande diferença dessas manifestações, já vi “especialista” por aí dizendo que “chegou a hora do pessoal que ficava debatendo e se manifestando virtualmente ir se manifestar na rua”. O problema é que não consigo ver nas redes todo esse debate. Pela rede se consegue sim agendar atos públicos, se consegue aglutinar quem pensa de forma parecida, mas a regra até agora não tem sido o debate de fato, a polêmica, o amadurecimento de ideias. Nas redes sociais me parecem ainda ser predominantes os desaguadouros de posicionamentos que não precisam necessariamente de debate, porque, quando encontram as portas fechadas em um grupo, correm para outro onde sejam mais amplamente aceitos. Outro cuidado que temos que ter é de não misturar a horizontalidade do movimento Passe Livre – uma forma convencionada entre os integrantes do movimento, uma decisão coletiva e política – com a suposta horizontalidade de toda e qualquer manifestação marcada pelas redes. Rede social não é sinônimo de horizontalidade e falta de liderança. Quem marca cada protesto? Os perfis são todos verdadeiros? Dizer/escrever o que pensa significa pensar com a própria cabeça? São perguntas que me faço.

7. A mídia nessa história. Retomando o ponto 2, um dos grupos a quem interessa pilotar essa onda de manifestações que sou capaz de individualizar é certamente a mídia. A mídia quer dizer os quatro ou cinco grandes grupos familiares de comunicação do país e, com nuances, seus sucedâneos nos Estados a fora. Grupos que, por sua vez, representam, diretamente ou por solidariedade ideológica, a classe empresarial (ou a parte dela) preocupada em manter a atual repartição do bolo nacional de privilégios. De maneira que me parece muito estranho que a reação raivosa da mídia contra as manifestações pela redução da passagem, semana passada, tenham se tornado tão rapidamente apoio entusiasmado – até incitação, em alguns casos – à continuidade dos protestos “contra os governos”. Tudo se torna muito esquisito quanto William Bonner aparece dando dicas de como se diferenciar dos “vândalos” nas manifestações, dicas as quais ele teria visto circulando por aí, nas redes sociais. Mais estranho ainda quando a Globonews encerra seus noticiários com o hino nacional, homenageando as manifestações. Quando os grandes veículos de comunicação brasileiros se viram diretamente implicados como alvos da revolta popular – após seus editoriais contrários às manifestações, defendendo a repressão policial há duas semanas – , tiveram a sacada magistral e oportunista de passarem rapidamente a se posicionar a favor dos manifestos. Desse modo, a mídia conseguiu retornar ao papel que lhe é mais conveniente ocupar aos olhos do espectador: o de suposta “refletidora” e “debatedora” do que está se passando no mundo, nas ruas, como se não estivesse ela mesma implicada nesse cenário e no que leva as pessoas a se manifestarem. E assim, excluindo-se do contexto social, a mídia exclui também (por solidariedade de classe, já sabemos) toda a classe empresarial brasileira do tabuleiro dos manifestos. Como se o que estivesse em jogo fosse uma revolta do povo apenas contra os governos, contra os partidos, contra os políticos. Como se esses governos, políticos e partidos fossem corruptos sozinhos, como se não houvesse uma classe empresarial corrupta/corruptora por detrás deles, pressionando-os a continuarem a ser corruptos, a continuarem a utilizar o poder que recebem do povo para manter privilégios. De maneira que não adiantará muito pressionar os governos, mudar ou depor os governos, recomeçar a democracia no Brasil, sem questionar o papel do alto empresariado – do capital, me perdoe quem não gosta dessa terminologia – numa suposta reconstrução desse sistema. No fundo, esses grupos – entre os quais a mídia – sabem que, qualquer que seja o resultado de uma rebelião popular sem consciência da velha luta de classes em questão, toda reconstrução que advir daí não prescindirá deles.

8. Do preço do ônibus ao fora Dilma. Tento há dias recuperar a conexão lógica entre essas duas pontas. Não consigo. Vá lá que a postura de Haddad em São Paulo tenha sido vexatória no episódio do preço das passagens. Mas a velocidade com que se virou o leme das manifestações é tremenda. E, infelizmente, não me parece que seja resultado da luta de esquerda contra os erros do PT e do governo Dilma. Na falta de argumento que me convença do contrário, entendo que os protestos chegaram ao ponto em que chegaram porque alguns setores descontentes com o governo viram neles uma oportunidade de tirar proveito da situação. Lembremos que Dilma, apesar de toda crítica que possamos (e devamos) fazer a seu governo, mexeu recentemente com os bancos, reduzindo as taxas de juros; mexeu com as energéticas, baixando as contas de luz; mexeu com o PMDB, ao pressionar que 100% dos royalties do petróleo vão para a educação; enfrenta resistência na MP dos Portos; enfrenta uma campanha pela volta da inflação, o que ressuscitaria o PSDB para as eleições de 2014. Enfim: se os que estão à esquerda do governo não estão contentes, os que estão à direita estão menos contentes ainda. E as alternativas que eles oferecem não são nada animadoras.

9. Por falar em inflação, vou aproveitar para contar um caso, e já encerro este bolodório. Estive nesta semana na Ceasa de Campinas, um dos maiores centros de distribuição de alimentos do país. Me parou um senhorzinho, que há décadas vende tomates na feira. Falou assim: p"or que é que, quando tem pouco tomate para vender e sai na televisão que o preço do tomate disparou, chove gente aqui para fazer reportagem de que o tomate está caro; e agora, quando sobra tomate e o preço vai lá para baixo, não aparece ninguém para fazer matéria?” Me disse isso na frente de pilhas e pilhas de caixas de tomates não vendidos.

10. Em qualquer desses pontos, por favor me corrija quem tiver informação ou reflexão de melhor qualidade.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O que me surpreende?



por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Esses meninos e meninas desafiando a versão limpinha de país que passou a frequentar os estádios, e que queriam que exibíssemos aos gringos no embalo das copas e olimpíadas. A perplexidade geral da nação diante da mobilização das pessoas por causas supostamente incompreensíveis ou menores, justo agora, quando estávamos nos achando tão classe média. A incompetência renitente dos senhores do poder para lidar com gente atrevida, que não aceita participar do show “na maior arquibancada do Brasil”, esta não me surpreende.

Continuarmos existindo como país e como sociedade, a despeito de todas as atrocidades, injustiças, corrupção, escravidão e roubalheira perpetradas, primeiro pelos invasores europeus e depois por seu legado cultural e político, suficientes para aniquilar qualquer possibilidade de futuro. Constatar que estamos longe de ser um caso único no mundo e que, diferentemente do que muitos de nós acreditamos, nada disso é exclusividade dos brasileiros.

A legitimação do estupro estar sendo considerada em proposta de legislação nacional – sem falar do malfadado tema da “cura gay”. Mulheres tratadas como viveiros de plantas em pleno século 21. Que se tenha aberto tanto espaço para o fundamentalismo religioso na agenda pública, na base da chantagem eleitoral. Dá pra acreditar?

Presenciar a solidez dos jornais, revistas, livros, discos, CDs, dicionários, enciclopédias, editoras e redes de televisão desmanchar-se no não-lugar da internet, que é tudo e nada ao mesmo tempo. Ficar sabendo que os americanos estão sendo vigiados na privacidade de seus computadores e telefones, igualzinho a Stasi e a KGB faziam no passado. Sair de casa e ter que driblar esta quantidade inacreditável de carros nas ruas; ainda não me acostumei. O contato retomado, graças ao Facebook, com pessoas que faziam parte da minha vida há trinta, quarenta anos. Ouvir “Pra sonhar” no rádio pela primeira vez, desavisada. Cada página da poesia do Leminski. O delicioso absurdo semanal do “Pé na cova”, brincando com a vida e a morte sem frescura. Um pungente ensaio fotográfico sobre travestis na Piauí.

Sentir o tempo passar e mesmo assim duvidar de que tanto tempo passou.


*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Será a volta do monstro?



por Cidinha da Silva*

Parece que o vento virou, à direita, e os de sempre têm o leme nas mãos.

Mãos sujas de sangue por tantos séculos, tantas gerações.

Gerações de sesmeiros, exploradores de minas e escravizadores de gente, cafeicultores, donos do cartel do transporte público.

Transporte público que foi e é luta de vanguarda, pelo direito a viver na cidade, a desfrutar da cidade.

Cidade que nos expulsa, que não nos cabe, não nos dá amor.

Amor que se vê na Brasilândia, no Campo Limpo, no Morro do Alemão que desce para o asfalto e exige o fim do extermínio da juventude negra, favelada, periférica. Amor que se respira na Revolta dos Turbantes.

Turbantes que protegem e molduram cabeças e cabeleiras de potentes mulheres negras.

Negras mulheres que mais uma vez tingem as ruas e a noite com cores de alegria e força da transformação, com espadas banhadas em mel.

Mel que nos dá Oxum com chá de canela bem quente para que despertas, acompanhemos o desenrolar dos fatos novos, tão velhos e conhecidos.

Conhecidos como o são todos os expedientes da direita que não podem nos surpreender, tampouco nos apequenar.


*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum

Eu não sou da paz

por Ana Mendes*

No olho roxo da imprensa, eu chorei. Porque o povo Pinheirinho que lutou lutou lutou morreu na praia e isso me dói demais. A mulher branca da televisão não tem sotaque nenhum e ela não nos representa. Agora favorável? A liberdade do Jabor me violentou: uma retumbante palavra malfeita. A desculpa lhe esfarrapou a própria cara. Passarálho! Acabou-se o monólogo. Dramaturgo ultrapassado!

No morro carioca o bilhete na porta do barraco diz “Por favor, seu policial, não invada a minha casa. A chave está na vizinha, a dona Chiquinha. Entre, sem bater.”.Ué, a favela pacificada não é graça e bunda preta!? Não, a humilhação está na UPP mais próxima de você. Salve, Jorge!

Não foi na desmemória da ditadura que pegou fogo a vila Liberdade em Porto Alegre. Desapropriação geral em nome da paixão nacional! Meu país, minha vida! Dilma, me dá um vale a pena!! Se o Brasil acordou hoje eu morri ontem, que nem o índio Terena do Mato Grosso do Sul com o grito seco na garganta: matança!

*Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna Faço Foto.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Agentes do caos: forjados na exclusão



Texto e fotos Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá  
ilustração Victor Zalma*

Se quinta-feira a polícia era a turba sedenta de sangue espalhando violência na região da Paulista e segunda a paz reinou sem as “forças da ordem” nos Jardins, Marginal e Brooklin, ontem agentes do caos tocaram o terror no Centro de São Paulo. Diversas lojas saqueadas, lixeiras e câmeras de segurança destruídas, uma agência bancária, um posto policial e um carro de reportagem incendiados estão nas listas dos noticiários, para não falar em tentativa de invasão de prédios públicos e pichações, muitas pichações.

É fato que as manifestações pacíficas atraem pouca atenção da mídia e, por consequência, de boa parte da população. Um exemplo claro é a ridícula estimativa pelo DataFalha (e naturalmente repercutida nos principais veículos), dando conta de apenas 65 mil pessoas nas ruas de São Paulo há dois dias.

Outra parte significativa quase nunca é representada honestamente por nossas lentes e microfones. Esse é um dos motivos de indivíduos que recusam qualquer organização partirem para a destruição de propriedade, incentivados ou não por infiltrados. Em geral, são rapazes com muita testosterona e quase nenhuma perspectiva.

Se é verdade, como diz John Zerzan, que uma vidraça não pode ser violentada e que o prejuízo a uma instituição bancária com a depredação de uma agência é irrisório, quando essa ação do tipo Black Bloc mete fogo no térreo de um edifício ocupado por movimentos sem-teto, coloca em risco a vida de uma parcela da população tão excluída pela mídia e das benesses do capitalismo quanto os incendiários. Idosos, crianças, adultos e animais de estimação que talvez há poucas semanas lutassem por espaços sob as marquises da cidade para se abrigar do frio.

Teve morador surtando e quase linchando um adolescente com cartaz contra o vandalismo, além de ameaçar os únicos repórteres a permanecer para a cobertura no local.

Quando até os bombeiros que fizeram o rescaldo do incêndio haviam partido, chega a Tropa de Choque da PM. Já não há manifestantes a serem dispersados e anarquistas, punks e saqueadores estão espalhados pelos calçadões em grupos de, no máximo, quatro ou cinco. Ágeis, não esperam e também não provocam mais os escudos e cassetetes reluzentes. Ainda assim, bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo são atiradas em profusão. Depois desse junho de manifestações, os moradores de rua não correm mais. Apenas se encolhem debaixo de cobertores surrados, meio que acostumados a serem violentados cotidianamente na Paulicéia. Todos somos, mas não tanto quanto eles.


*Texto e fotos Vinícius Souza, jornalista e Maria Eugenia Sá, fotógrafa, ambos do MediaQuatro, especial para o NR. Ilustração de Victor Zalma


Uma noite no Zicartola


por André Carvalho ilustração Kelvin Koubik "Kino"*

Uma grande fila se formava em frente ao sobrado localizado na Rua da Carioca, 53, no centro do Rio de Janeiro. Todos queriam ver de perto aqueles baluartes, que por muito tempo ficaram escondidos da indústria fonográfica e do público. Naquela noite, o que se ouviria não seria mais o bolero e o samba-canção, ritmos que dominaram as rádios nos anos 50, e tampouco a bossa nova, que ainda ressoava com força naquele ano de 1963. Era tempo de samba, novamente o samba. Cartola e Dona Zica eram os anfitriões. Cada um fazendo o que mais sabia. Ele, cantando suas belas composições, ao som de seu violão. Ela, cozinhando seus saborosos quitutes. A combinação encantava, fascinava e atraía multidões. Tempos de Zicartola.

A roda já estava formada. Manoelzinho da Flauta se aquecia solando um choro de Pixinguinha, acompanhado pelos violões dos irmãos Walter e Waldir e o pandeiro de Jorge dos Cabritos. Enquanto Caçula afinava o cavaquinho, notava-se a satisfação dos presentes. Os músicos formavam o conjunto regional da casa e iriam acompanhar, em poucos instantes, o lendário sambista Zé Keti.

Zé Keti foi o primeiro a se apresentar e trazia em seu rosto um sorriso sincero. Poder viver o samba em sua plenitude, em um espaço onde aqueles bambas eram, novamente, protagonistas, era motivo de celebração. Pouco antes de subir ao palco, travou uma parceria inédita, criando a melodia para os versos de outra figura proeminente do local, Hermínio Bello de Carvalho. Antes de entoar o novo samba - “Pobre não é um / Pobre é mais de cem / Muito mais de mil / Mais de um milhão” -, o sambista da Portela cantou alguns de seus clássicos, como “A voz do morro” e “Mascarada”, acompanhado do regional da casa.

A apresentação do sambista portelense agradava em cheio os presentes. A cerveja era bebida em profusão, sendo servida por quatro copeiras, mulatas de Mangueira vestidas à rigor, em verde e rosa, mesma cor da louça e da decoração da casa. Na plateia, amigos de Zé Keti se acotovelavam nas mesas, espremidas naquele espaço de celebração à música brasileira.

Quitutes caprichados, preparados com carinho pela anfitriã Dona Zica, eram servidos. Pratos como rabada, mocotó, carne seca com abóbora e doces dos mais diversos tipos ganhavam sugestivos nomes no cardápio, cuja ilustração fora criada por Heitor dos Prazeres. Os clientes, então, esbaldavam-se ao pedir o “Filé à Ismael Silva”, o “Doce de coco à Elizeth”, entre outras iguarias.

Dentre as amizades recentes firmadas por Zé Keti estava Carlos Lyra, músico ligado à bossa nova que se encantava com a força da tradição contida nas composições daqueles sambistas. Junto a ele, jovens integrantes do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC–UNE), na ilegalidade por conta do Golpe Militar, faziam daquele espaço, além de uma trincheira cultural, um centro de resistência política.

A nova safra de sambas de Zé Keti trazia outras criações inspiradas. Uma delas causou grande impressão nos presentes. Havia pouco, a ditadura militar instaurara-se no Brasil, gerando um clima de medo e desconfiança. Apesar disso, Zé Keti não se calou. Pediu um sol maior, sendo prontamente atendido pelo cavaco de Caçula, e atacou: “Podem me prender / Podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião / Daqui do morro eu não saio não”. O samba daria origem ao espetáculo “Opinião”, um musical de protesto à Ditadura Militar que juntava ao palco Zé Keti, João do Vale e Nara Leão, e contava com texto de Armando Costa, Paulo Pontes e Oduvaldo Vianna Filho (integrantes do CPC-UNE), direção de Augusto Boal e direção musical de Dori Caymmi.

Zé Keti atuava como mestre de cerimônia, diretor musical, anfitrião... Cartola gostava de encontrar os amigos, cantar e tocar, mas se incomodava com o tumulto, a falta de tranquilidade e intimidade para ficar quieto tocando o seu violão, compondo suas músicas. Era reservado. Sobrava para seus amigos, como Zé Keti, Hermínio Bello de Carvalho, Sérgio Cabral e Albino Pinheiro, então, a tarefa de organizar e conduzir tudo.

Os versos de “Opinião” ainda ecoavam pelo Zicartola, causando admiração nos presentes – e também preocupação (e se houvesse algum agente da repressão infiltrado ali?) –, quando subiu ao palco o jovem bancário Paulo César, que logo entraria para a história da música brasileira. Havia um porém: Paulo César não era nome de sambista. Inspirados em Mano Décio da Viola, sambista do Império Serrano, então, Zé Keti e Sérgio Cabral decidiram que, a partir daquele dia, aquele jovem de 20 e poucos anos de idade seria o “Paulinho da Viola”, nome que se tornaria grande cartaz na música popular brasileira. Para o número de Paulinho, foram convidados a se apresentar com ele Elton Medeiros, na caixinha de fósforo, Nelson Sargento, ao violão, Jair do Cavaquinho, com suas palhetadas que faziam inveja até mesmo a Jacob do Bandolim, e o tamborim bem ritmado de Anescarzinho do Salgueiro.

Enquanto se apresentavam, Hermínio Bello de Carvalho tomava uma cachacinha com Clementina de Jesus na cozinha. Entre uma dose e outra, o jornalista Lúcio Rangel apareceu, apresentando ao compositor e produtor musical uma das grandes estrelas da música brasileira do começo do século, que amargava, há anos, um triste ostracismo, Aracy Côrtes. Hermínio olhou para os lados, viu aquelas duas mulheres talentosas e desconhecidas da nova geração, mirou a roda de samba, formada por aqueles sambistas de Escolas de Samba, cada vez mais desalojados de seus próprios terreiros, e pensou: “E se eu reunisse esse time em um palco? Acho que isso dá samba!” (pouco tempo depois, Hermínio Bello escreveria o espetáculo “Rosa de Ouro”, musical que reunia as duas cantoras veteranas, além de Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho do Salgueiro e Jair do Cavaquinho).

Após os músicos “da casa” se apresentarem, era hora do Divino Cartola mostrar toda a beleza de seu repertório. Dona Zica, então, tinha que acordar seu companheiro, que não gostava de bagunça, madrugada e sereno – seu negócio era a boemia vespertina. De chinelo, contrariado e emburrado, ele cantava alguns sambas, antes de voltar a fazer o que mais gostava naquele horário: dormir.

Depois da apresentação do anfitrião Cartola, Hermínio Bello de Carvalho assumiria o posto de mestre de cerimônias para apresentar o último ato da noite. Era chegada a hora de homenagear os grandes nomes da música popular brasileira com a “Ordem da Cartola Dourada”, honraria idealizada pelo jovem poeta. Naquela noite, a celebração seria destinada a Ciro Monteiro. Satisfeito, feliz, realizado, o sambista que fez história na Era de Ouro do Rádio recebia o reconhecimento por sua destacada obra.

Ciro Monteiro estava emocionado, feliz em poder cantar seus grandes sucessos para aquela plateia, que ouvia tudo compenetrada, absorvendo cada instante, cada acorde, cada síncope, cada divisão: “Baiana que entra na roda só fica parada / Não canta, não samba, não bole, nem nada / Não sabe deixar a mocidade louca...”. Grandes clássicos do samba, como “Falsa baiana”, de Geraldo Pereira, eram cantados por ele e acompanhados por todos. Uma grande animação pairava no ar.

Se dependesse do anfitrião Cartola, no entanto, o samba não demoraria muito para acabar. Irremediavelmente, ele fazia com que a casa fechasse às 23h, levando o público a buscar outras alternativas de diversão nas redondezas, como a Gafieira Estudantina.

O saldo final das noites era pouco dinheiro, muita conta pendurada (“parecia uma mangueira cheia de galho, de tanta pendura que tinha”, dizia Dona Zica), e a certeza de que o casal não nascera para ser empresários da noite. Cartola era sambista e Dona Zica, quituteira. O Zicartola não duraria muito, encerrando suas atividades em 1965.

Neste curto tempo de existência, o restaurante foi palco da consagração definitiva de Cartola e do reconhecimento de gênios como Nelson Cavaquinho e Zé Keti (até então lembrados apenas no meio musical, entre compositores e sambistas de Escolas de Samba), além de ter dado o pontapé inicial na carreira de Paulinho da Viola, uma das mais sólidas entre os sambistas de todos os tempos.

O Zicartola foi um templo do samba, um espaço onde se reunia a fina flor da música popular, entre veteranos compositores de Escolas de Samba e jovens sambistas, que iniciavam ali trajetórias musicais de grande relevância. Em tempos em que se destacava no meio musical a bossa nova, o bolero, o samba-canção e até mesmo a novidade do rock, graças a Cartola e Dona Zica, os sambistas reencontraram um lar, um espaço para cantar, compor, tocar samba, celebrar a arte que brotava espontânea entre aqueles compositores populares. No Zicartola, o samba voltava a triunfar.









1 - Cicatriz (Zé Keti – Hermínio Bello de Carvalho) – Zé Keti (1967)
2 – Opinião (Zé Keti) – Zé Keti (1996)
3 –Falsa baiana (Geraldo Pereira) – Ciro Monteiro (1944)
4 – Pout-porri Rosa de Ouro I (Vários compositores) –Conjunto Rosa de Ouro (1965)
5 – Pout-porri Rosa de Ouro II (Vários compositores) –Conjunto Rosa de Ouro (1967)
6 – Coração vulgar (Paulinho da Viola) – Conjunto A Voz do Morro (1965)
7 – Sorri (Zé Keti – Elton Medeiros) - Conjunto A Voz do Morro (1965)
8 – Cuidado (Nelson Sargento - Marreta) – Conjunto A Voz do Morro (1966)
9 – Tive sim (Cartola) – Cartola (1974)
10 – O sol nascerá (Cartola – Elton Medeiros) – Cartola (1974)
11 – Pode sorrir (Nelson Cavaquinho – Guilherme de Brito) – Nelson Cavaquinho (1973)

*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

terça-feira, 18 de junho de 2013

Eles querem se apropriar

por Thiago Domenici*

1 – A reivindicação principal é pela redução da tarifa do transporte em SP, é baixar de 3,20 para três reais, pra começar. Só pra começar. A tarifa zero não é utopia. Há que ser discutida.

2 – Antes de quinta, quando a PM aterrorizou, o movimento era de jovens "baderneiros", pedindo algo "impossível". A ideia era desacreditá-los. O discurso da mídia virou depois da ação truculenta da PM, vide um exemplo: Arnaldo Jabor se desculpando por falar asneira.

3 – A imprensa, nome aos bois mais vistosos: Globo, Veja e editoriais de Estadão e Folha agiram em prol da manipulação da pauta dos protestos desde o início.

4 – Daí teve ontem, um mar de gente e...

5 – Essa mesma imprensa pensou: “e agora?”. E o que fez? Seguiu deturpando a pauta principal das manifestações. Agora, dá um jeito de dizer que não é só pela “redução das passagens”. Que a coisa é geral, contra tudo que de ruim existe no país e blábláblá.

6 – Isso se explica, de certa forma, pelo seguinte: ontem teve tanta gente na rua, “sem partido”, “contra corrupção”, “acordando” e cantando o hino e outras firulas (lembram do “Cansei”?) que nisso viram [não só a imprensa, tá?] uma boa oportunidade de seguir jogando sujo. E seguem.

7 – Então assim: não se enganem. O Brasil dos movimentos sociais fortes não está acordando. Está desperto há tempos. Lutam, como grande parte da imprensa independente, por suas bandeiras verdadeiras e justas. A imprensa, a de massa, vai seguir tentando desqualificar e desmobilizar as ações por meio da informação torta, aquela que mais confunde do que esclarece. A independente, menor em alcance e recursos, mas tão capaz e forte, vai seguir limpando essa sujeirada toda com informação de interesse público.

PS: assistam o Roda Viva de ontem, com os representantes do Movimento Passe Livre, no qual o NR esteve presente na bancada de tuiteiros. Vídeos em quatro partes aqui.

Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

“o povo unido é gente pra caralho”

São Paulo, 17 de junho de 2013: o dia histórico que reuniu gerações contra, principalmente, o aumento do transporte público, pela revogação do aumento de 0,20 centavos no ônibus e metrô. Um relato pessoal em três frentes, por três jornalistas, Natalia Mendes, Moriti Neto e Thiago Domenici. E mais; a ida do Nota de Rodapé ao programa Roda Viva e um apanhado das discussões durante a entrevista com os representantes do Movimento Passe Livre.




Vinte centavos, sim
(Moriti Neto)

“A Copa das Confederações parece que nem está acontecendo. Ou que está acontecendo só na Globo”. A frase corre entre os jornalistas que estão nas dependências da TV Cultura, em São Paulo, na noite desta segunda-feira, dia 17, à espera do programa Roda Viva, no qual este NR esteve presente na bancada de tuiteiros para participar da entrevista com integrantes do Movimento Passe Livre (MPL). Não que o futebol tenha sido realmente esquecido, mas as palavras representam muito da sensação que se espalha pela capital paulistana após a manifestação que se estendeu pelas ruas da cidade. O ato foi tão impactante que, de fato, outros eventos ficaram infinitamente menores.

Tão intensos têm sido os protestos realizados há três semanas – com crescente incorporação de participantes – que acabam por produzir debates proporcionalmente fortes. Bastante disso é causado pela heterogeneidade do movimento. Várias tendências se encontram nele. Não de organizações político-partidárias constituídas. O que se vê é outro tipo de mobilização. De diversas cores e classes, elas têm no valor concreto, nos R$ 0,20 de aumento da passagem de ônibus em SP, o eixo que as une. Essa discussão é essencial.

Qualquer tentativa de rotular as manifestações e tirá-las do principal mote, o da reivindicação pela democratização do transporte coletivo, algo que não passa somente pela tarifa, mas pela revisão do modelo, é veementemente refutada por membros do MPL. “O Movimento Passe Livre não nasceu agora. É fruto de organização de anos. Muito tempo fazendo um debate que interessa à grande parcela da sociedade, pois isso passa pelo direito de se locomover. Assim, é claro que não perdemos de vista o principal das manifestações, que são, sim, os R$ 0,20”, explica ao NR Lucas Monteiro de Oliveira, professor de história e integrante do MPL, logo depois do fim do Roda Viva.

Tal firmeza de argumento não evita que análises apressadas se construam. À direita e à esquerda surgem comentários que buscam enquadrar o movimento. A bola da vez, na voz dos conservadores, é classificar as ações como acéfalas e carentes de lideranças, inclusive buscando estimular a ideia de que qualquer ato de violência policial-estatal se torna mais provável “pela falta de organização das manifestações”, como tentou sugerir o coronel reformado da Polícia Militar, José Vicente Filho, entre os entrevistadores na bancada do Roda. “Com mais de 100 mil pessoas, não houve violência hoje. E não haveria na quinta passada, se não fosse a agressividade da PM, estimulada por vários atores. Estamos mobilizados horizontalmente, mas muito bem organizados. Se não estivéssemos, como seria conduzida uma manifestação desse porte?”, destaca Lucas.

Por outro lado, há correntes esquerdistas que, perdidas na incapacidade de renovação do próprio pensamento, seguem na avaliação de que é necessária a aproximação com “gente gabaritada” para fortalecer e legitimar os protestos. Óbvio que os “gabaritados” seriam os sindicatos. Justamente o movimento sindical que, seduzido pelas benesses do poder público, tanto se perdeu desde que o PT assumiu o Governo Federal. “Dizer que o movimento não tem organização, que precisa de lideranças, não condiz com o real. A diferença é que nossa articulação é horizontal, o que não invalida nossas escolhas políticas. Desde as deliberações, passando pelos trajetos até as aparições públicas, todas as iniciativas são pensadas politicamente”, diz Nina Cappello, estudante de direito da Universidade de São Paulo (USP) e também membro do MPL.

Como se observa, qualquer busca por rotular apressadamente a multidão que protesta em São Paulo, parece mais uma jogada para arremessar o movimento à vala comum dos discursos vazios, casos do “Pelo fim da corrupção” e “Acorda, Brasil”. Tais lemas seriam válidos se não carecessem de direção. Na verdade, são vulneráveis a manobras populistas. Nesse caso, vale lembrar a caça aos comunistas da ditadura militar. Generalizante, o argumento funcionou apenas como ferramenta de marketing que mobilizou setores mais conservadores da sociedade e promoveu o massacre dos direitos civis.

Fora isso, existe o despreparo em lidar com novas formas de organização popular. Maneiras de agir sem hierarquia evidente e que, naturalmente, contêm menor grau de paternalismo. De um jeito ou de outro, enquanto os que avaliam a situação, governantes e mídia, seguirem sem pisar na rua, sem encarar os rostos de múltiplos tons e sem escutar as vozes que reivindicam a solução para os problemas concretos da população, pode-se até adiar a redução do preço da passagem de ônibus, porém nada fará perder o que esse movimento já conquistou: o amadurecimento político que assusta as formas velhas de gerir o que é público.

“São Paulo se reencontrou”
(Thiago Domenici)

A ponte Estaiada, ocupada por manifestantes
É difícil dar um início para esse texto que não saia do óbvio sentimento de energia pura, de grande felicidade que acometeu todos os que estiveram nas ruas de São Paulo ontem para protestar pela redução da tarifa de transportes. Na esteira dessa bandeira do Movimento Passe Livre (MPL), da revogação do aumento de 0,20 centavos, somado aos lamentáveis episódios de violação dos direitos humanos praticados com brutalidade e arrogância pela Polícia Militar de São Paulo na última quinta-feira, mais de 100 mil pessoas levaram sua voz a urbes paulistana.

Uma voz que uniu gentes – muitas – de todos os tipos, caras, idades, partidárias e apartidárias, marinheiros de primeira manifestação, pais e mães em apoio aos filhos, brasileiros em geral, que tentavam, a medida que engrossava a manifestação, compreender aquilo tudo. O jeito, meus caros, foi andar. E andamos um bocado. A rua tinha forma e direção. Estava tomada. Era nossa e não dos carros.

Mas vale dizer que o Brasil não estava dormindo. Pelo menos não o Brasil dos movimentos sociais fortes, de gente que já vem apanhando na rua faz tempo, se mobilizando e lutando sem ter a merecida voz dos meios de comunicação, os mesmos que dias atrás lançaram editorias fascistas e estavam às voltas com sua habitual manipulação de informação.

A coisa toda começou a partir do Largo da Batata, onde se deu a concentração, que depois rumou pela avenida Brigadeiro Faria Lima e, a partir dali, dividiu-se em três blocos: uma turma que seguiu para a Avenida Paulista, outra para a Ponte Estaiada e outro grupo ao Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo Estadual.

“Que coincidência, sem polícia não existe violência”, foi um dos gritos que reverberou durante a caminhada totalmente pacífica. Tão pacífica, que diante da primeiro vacilo de alguém, o povo repreendia. Aliás, hoje, se alguém tinha duvida do significado do termo “povo unido”, já aprendeu na prática.

Na Faria Lima, dos prédios e estabelecimentos comerciais, gente sacudia bandeiras brancas como forma de apoio. Outras dançavam. Tudo, sob aplausos e gritos de “vem, vem pra rua vem, contra o aumento”. Também foi curioso o festival de cartazes, que seria impossível descrever aqui de tantos que eram. Lembro de um, que me chamou a atenção: “nós fazemos a nossa própria nação”.

Os protestos, vale lembrar, levaram, dizem por aí, mais de 230 mil pessoas (foram muitas mais, sem dúvida) às ruas em 12 capitais nesta segunda-feira. Por fim, é indecifrável saber no que vai dar essa mobilização toda. A cabeça ainda está a milhão. Mas a sensação, depois da barbárie da PM, é que São Paulo se reencontrou consigo mesma. Deu uma reposta fantástica, cheia de entusiasmo e dormiu feliz para acordar revigorada nesta terça-feira. Amanhã vai ser maior? Tomara que sim.

“O que ouvi hoje não foi uma voz só”
(Natalia Mendes)

Avenida Paulista tomada por manifestantes
Lá pelas quatro da tarde, fomos para o ponto pegar o ônibus com destino ao Largo da Batata. Já encontramos alguns conhecidos e, logo no ponto seguinte, entraram vários adolescentes carregando cartazes, rostos pintados e energia pra dar e vender. Com isso, o ônibus foi tomado por manifestantes.

Ainda no caminho, a expectativa que tentava se disfarçar saiu pela garganta dos passageiros que já chamavam “Vem, vem pra rua vem, contra o aumento”. Pelas janelas, podíamos ver pessoas descendo a pé e cantando também. Não dava pra esperar o tempo dos veículos motorizados, saltamos alguns pontos antes para nos juntar aos outros.

No Largo, muitos rostos familiares, amigos e conhecidos. Recebi uma flor e um belo sorriso. No caminho, a mesma coisa. Encontros rápidos, abraços, sorrisos, alegria. Um clima leve. Não vi polícia nenhuma. “Que coincidência, não tem polícia, não tem violência”. Mas vi funcionários de uma famosa lanchonete dançarem animados, pessoas nas janelas acenando com lenços e lençóis brancos para os manifestantes, curiosos observando da calçada e batendo palmas.

A tensão inicial, a expectativa, o receio pelas balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo foram se perdendo.

Não sei dizer o quanto andamos, algumas horas. Paramos em uma esquina e ficamos observando aquele mar de gente. Era muita gente, mas muita mesmo. Era lindo, era impressionante. Isso que a manifestação tinha se dividido em três. Não conseguíamos imaginar quantas pessoas ocuparam as ruas. Ainda não sabemos ao certo.

Li relatos de gente que nem imaginei que estivesse lá. Soube de cantos que não ouvi. Encontrei (e vi de longe) pessoas que não esperava, que não sabia que estariam ali. Vi fotos de lugares que não passei. Parece que foram várias manifestações pela cidade. Todas parceiras.

O que ouvi hoje não foi uma voz só. Foram muitas, muitas mesmo.

Imagens: Joel Silva/Folhapress / Moacyr Lopes Júnior/Folhapress /Mídia Ninja.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Sobre o sono dos cavalos e o transporte público em São Paulo



por Cidinha da Silva*

Você aprendeu na escolinha que cavalos e outros quadrúpedes dormem em pé, ou pelo menos tiram uma soneca, não foi? Pois pegue o metrô em São Paulo, da Zona Leste para o Centro, antes das 7:30 da manhã, e você verá vários bípedes humanos dormindo nessa posição.

Você se perguntará como é possível, mas em questão de segundos, perceberá que ninguém cai. Uma pessoa escora a outra, não protege, mas escora, tal qual bois e vacas no caminhão sacolejante a caminho do matadouro.

Mas, espere, ao invés de propor um projeto de pesquisa baseado na observação etnográfica do quadro a seus alunos na universidade, aproveite esta narrativa insólita para compreender porque é tão aviltante acrescentar 40 centavos diários ao que essas pessoas pagam para serem transportadas como animais maltratados rumo a um dia extenuante de trabalho, e também depois para voltar à casa.

São pessoas que dormem em pé no metrô porque chegam onde moram sobressaltadas pelo risco de serem abatidas pela polícia ou por milícias atuantes na quebrada, porque não sabem se encontrarão os filhos vivos, porque disputam um lugar na aglomeração pacífica tolerada pelas autoridades para entrar no metrô e viajar de pé. Dormiram cansadas na noite anterior (dormem assim todos os dias), acordaram cansadas e não sabem quando terão paz para descansar o suficiente.

No dia em que o trem pára e sempre que chove isso acontece, um trabalhador ou trabalhadora pode levar até 4 horas (usualmente são 2:30) para deslocar-se do Centro à casa, em São Miguel Paulista, que, é longe, mas ainda é mais perto do mundo conhecido do que o Pantanal, bairro da mesma região Leste, no qual reside a família do ciclista que teve o braço arrancado por motorista criminoso na Paulista.

As paradas do trem por tempo indeterminado podem acontecer também em dias secos e, nestes, você poderá ver hordas de usuários do transporte público, de todas as idades, caminhando como formigas em fila pela linha do trem.

Não é mentira da cronista, fantasia ou metáfora. Haverá também quebra-quebra feito pelo setor mais revoltado do grupo, ao terminar o trajeto forçado a pé sobre o cascalho da linha férrea.

Para você que, além de curiosidades sobre o sono dos cavalos, aprecia cinema, este não é um mundo de replicantes. Estas pessoas não são baratas. São tratadas como se o fossem, mas não o são, é bom avisar, Just in case!

Na vida de gado real e cotidiana desses seres humanos, qualquer vintém acrescido ao valor do transporte de todo dia é inaceitável.

Na prática, mulheres e homens trabalhadores, estudantes, pessoas que circulam pela urbes são constrangidos a pagar mais pela ração diária de maus tratos.

Aceitar passivamente o aumento do valor pago por esse tipo de transporte público, mesmo abaixo da inflação acumulada, como propugna o prefeito, é apertar o fecho da coleira de rebaixamento da condição humana no pescoço.


*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum.

domingo, 16 de junho de 2013

Do vintém ao vinagre


por Ricardo Sangiovanni*

Sobre esse rebuceteio todo dos protestos contra a alta do preço da passagem em São Paulo, apenas queria registrar – menos por conhecimento profundo do tema, mais por não tê-lo visto registrado em outra parte com a devida atenção – que já se quebrou o pau antes no Brasil por razão semelhante a essa de agora.

Bem antes dos vinte centavos de hoje, vinte réis a mais no preço do bonde levaram a população do Rio capital imperial a uma grita generalizada, que perturbou a ordem naturalizada das coisas. Isso foi entre dezembro de 1879 e janeiro de 1880, e o movimento ficou conhecido como Revolta do Vintém – que era como a moeda de 20 réis, a de menor valor à época, era chamada.

Bem antes dos trabalhadores e estudantes justissimamente indignados de hoje, o pessoal indignado daquela época – sobretudo quem morava longe para pagar aluguel mais barato, e que por isso dependia do transporte público para ir ao Centro ganhar a vida – não engoliu o aumento do preço da passagem, arbitrado da noite para o dia, desatrelado a qualquer melhoria na qualidade do serviço. E resolveu ir protestar no meio da praça, no meio da rua.

Isso porque bem antes do aumento injustificado de hoje – afinal, se por um lado R$ 0,20 significam menos que a inflação do último ano, por outro, se considerarmos a inflação acumulada em 20 anos, a passagem de ônibus em SP deveria custar R$ 2,16 em vez de R$ 3,20 – , o povo não aceitou o aumento injustificado daquela época. Porque o acréscimo fora idéia da intelligentsia imperial, um subterfúgio safado para fechar o rombo das contas de D. Pedro II.

Dom Pedro II, bem antes que o Alckmin de hoje, mandou a polícia reprimir a revolta do povo. E bem antes que o Haddad de hoje, resolveu recuar e dizer que aceitava sim conversar com os revoltosos – mas só quando o pau já estava comendo e já era tarde demais.

Bem antes da polícia violenta de hoje, a polícia violenta daquela época desceu o sarrafo nos manifestantes – estimados em cerca de 5 mil, o que resulta em expressivos 2,5% da população urbana do Rio de então. E como inexistisse munição menos-letal, a polícia disparou balas de verdade mesmo contra o povo – morreram ao menos três – e atiçou ainda mais a raiva justa que o povo já sentia dela.

Sim, porque, bem antes do povo de hoje, o povo daquela época já torcia a cara para a polícia. Porque polícia afinal nasceu no Brasil menos para combater a criminalidade, mais para reprimir e vilanizar os costumes da gente comum. Polícia naquele tempo, bem antes de hoje, já servia no mais das vezes para enquadrar nos rigores da lei, conter, dispersar todo tipo de manifestação (política, social, cultural) que viesse do povo. E os policiais de então, bem antes que os de hoje, eram quase sempre gente comum convertida, a troco de ridícula paga e nenhum preparo, em máquinas de bater, prender e matar semelhantes seus.

De maneira que, bem antes das barricadas, das vidraças quebradas e das civilizadíssimas bombas de vinagre de hoje, o bicho pegou – e feio – naquela época. O povo tacou fogo nos bondes, arrancou os trilhos, e esfaqueou os pobres dos burros (sempre sobra para eles!) que os puxavam gentilmente todos os dias. Atacou a polícia, é verdade – mas pior que essa violência era a violência original, que o Estado cometia contra eles todos os dias.

Bem antes do eventual proveito político que pessoa ou partido possa retirar das manifestações de hoje, houve quem retirasse proveito político da manifestação pelo vintém de então. Os republicanos utilizaram-se dos protestos para ganhar força – é óbvio. Muito embora, bem antes de hoje, quem participou de fato daqueles protestos não o tenha feito por motivação político-partidária anterior aos vinte réis, porque eles faziam – como fazem os vinte centavos de hoje – diferença mesmo.

Aí, quando viu que a coisa tinha azedado de vez, bem antes que a grande imprensa conservadora de hoje, a grande imprensa conservadora daquela época não gostou. Mas sobre isso, à guisa de preservar o amigo leitor de algum sentimento menor que porventura persista em meu espírito, abstenho-me de falar – dou voz ao historiador Ronaldo Pereira de Jesus: “A imprensa mais conservadora falava na convocação de mobilizações de protesto, apelava para a manutenção da lei e da ordem, lembrava que o governo havia tolerado sempre a manifestação de “representações respeitosas” e, finalmente, pedia para que os descontentes, ao invés de protestar, direcionassem sua energia para a eleição de bons políticos que se ocupassem em defender os verdadeiros interesses da maioria da população.”

Qualquer semelhança não será mera coincidência, senão prova inconteste de que vivemos no Brasil, no mesmo Brasil de há mais de cem anos atrás.

Aliás, minto – há sim uma diferença: ao contrário do professor de história e da estudante de direito de hoje, quem liderou a Revolta do Vintém desde o início foi um jornalista – que tinha aliás um sugestivo sobrenome: Trovão. Reputo como coisa triste o fato de já não ser primazia de nossa profissão liderar semelhantes protestos, colegas. Mas, para já, não polemizemos: embora para alguns tenha sido preciso esperar até que as balas da polícia pegassem nos olhos de colegas da imprensa, é sempre tempo de posicionar-se do lado certo.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Agora é contra o Estado vândalo



por Moriti Neto ilustração Caco Bressane*

A repressão tão violenta da Polícia Militar, ontem, contra os manifestantes que protestam em São Paulo, está entre as ferramentas de uma luta ideológica. O movimento é ameaça política ao poder oficial, seja o governo estadual ou a prefeitura. A agressividade, obviamente, tem o objetivo de quebrar a mobilização.

Nosso modelo de Estado, em qualquer esfera de poder, existe para servir a burguesia, o poder econômico. Portanto, claro que sempre estará ao lado do capital que, no caso da situação hoje vivida na cidade de São Paulo, é representado pelas empresas que fornecem o péssimo serviço de transporte de ônibus, um dos setores mais nebulosos nas relações entre iniciativa privada e poder público.

Outro grande problema do aparelho estatal modelado do jeito que está é a única, de fato, flexibilidade permitida pelo formato: a possibilidade de forte inclinação à direita. Algo que torna viável a grupos de tendência fascista, como é o caso do liderado pelo governador paulista Geraldo Alckmin, acentuar o reacionarismo.

O uso do aparato de guerra visto nesta quinta é apenas um dos instrumentos usados contra quem desafia o poder conservador. A mídia corporativa, principalmente os patrões e articulistas que ecoam opiniões patronais, é outra parte do equipamento político-ideológico. E não porque reportem o discurso de uma classe. Eles pertencem a ela. Só que algo novo parece ter entrado em cena. A violência estatal generalizada e sem justificativa, já que a maioria dos manifestantes queria protesto pacífico, é puro revanchismo que, de maneira descontrolada, atingiu quem atua nos órgãos da grande mídia e até mesmo parcela da população que passava ao largo das reinvindicações.

O governo raivoso administrado por Geraldo Alckmin aproveitou-se, mais uma vez, (lembram-se do caso Pinherinho?) de uma instituição sem esperança de melhora. A Polícia Militar é organização que deseja briga, agressão, truculência, mesmo que o outro lado peça paz. Dessa forma, com a intenção de destruir o movimento politicamente por meio da força e do terror, estimula-se, na PM, o sentimento de vingança contra a mobilização que desafiou o poder oficial.

Só que quando se motiva um animal a ser violento, corre-se o risco de que ele se vire contra aquele que o treina. Foi o que atingiu os veículos de comunicação alinhados ao discurso tucano de lei e ordem, revoltando redações e mesmo parcelas mais comodistas da sociedade.

Agora, a luta tem tudo para crescer. Talvez, seja a oportunidade do povo de São Paulo entender que o protesto é maior do que um movimento contra aumento de passagem de ônibus. É disputa por ocupação de espaços conceituais e concretos, bem retratada na batalha pela avenida Paulista. Aos fascistas a serviço do poder econômico é fundamental não permitir a ocupação do "templo" do capital paulistano.

Isso é mesmo uma guerra. Cabe a quem deseja defender a democracia assumir papeis ativos.

Haddad imperdoável

Papel lamentável o do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, nessa história. Para quem se colocou como “o novo” na campanha eleitoral, foi arrogante ao não negociar com o movimento e não abrir espaços reais de diálogo. Além disso, demorou a condenar a ação da PM (que o prefeito poderia ter negociado para evitar), praticamente incorporando o argumento do governo do estado que busca criminalizar o movimento.

Aliás, muito representativo Haddad estar na Europa com Alckmin – defendendo candidatura a sei lá o quê, não importa no contexto – enquanto o clima esquentava aqui. Imperdoável.

*Moriti Neto, jornalista. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador

Apenas nós



por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

 Dizem que os telefones celulares mais inteligentes disponíveis hoje no mercado podem armazenar mais informação que os computadores da Nasa que, em 1969 (há menos de quarenta e cinco anos), foram essenciais para colocar os primeiros seres humanos na Lua. Mesmo que seja apenas mais uma das tantas frases de efeito que circulam nas redes sociais, deve conter alguma verdade. A evolução absurda dos sistemas de processamento e armazenagem de dados das últimas décadas é um fato.

Séculos antes de os astronautas americanos terem pisado na Lua, navegadores de diversas partes do mundo empreenderam bem sucedidas viagens ao desconhecido, apoiados em instrumentos que hoje parecem saídos de filmes de ficção científica ao contrário. Nos dois casos, o que determinou o resultado dos empreendimentos foi a capacidade intelectual humana – um patrimônio absolutamente extraordinário para nós, terráqueos – aliada a uma inquieta e aparentemente inesgotável curiosidade sobre o que está além daquilo que já conhecemos.

Nossos limites coincidem com as possibilidades do planeta que se nos oferece e da vida como a conhecemos. Mas já nos demos conta de que há tantos mundos além do nosso, que em algum deles haverá inteligências equivalentes ou, como gostamos de acreditar, superiores. E quanto mais esticamos as fronteiras do universo conhecido, com voos tripulados, sondas e telescópios, maior ele se apresenta. Inclusive, li há pouco tempo que os primeiros humanos a migrar para outro planeta farão a viagem só de ida, porque seu tempo de vida não comportará a volta. Assustador, não é? (Mas concretiza o sonho da passagem “só de ida” que gostaríamos de presentear ao nosso mala preferido.)

Em suma, é tudo muito vasto e desconhecido e, na escala astronômica, nosso planeta, com tudo dentro, não passa de uma poeirinha cósmica. Aqui nos toca viver. Se fomos capazes de encontrar continentes desconhecidos navegando em cascas de nozes, desembarcar na Lua com o apoio de computadores que hoje são peças de museu, produzir alimentos em quantidade suficiente para todos, encontrar a cura para inúmeras doenças e os meios para melhorar consideravelmente nossas condições de vida, certamente temos capacidade para dividir melhor o que pode estar sobrando para alguns (para uns poucos, sobra muito mesmo, né?), compartilhar o conhecimento de maneira a beneficiar o maior número de pessoas possível e entender e conviver melhor com as diferenças entre nós. Afinal, não temos outro planeta para onde fugir. E não há nós e eles, apenas nós mesmos.


*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Uma imagem que diz muito

A foto é do G1. Quinta-feira das mais tristes da história de São Paulo. NR acompanhou pelo facebook, veja o que publicamos lá. http://www.facebook.com/notaderodape


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Vídeo: jornalista é preso e agredido injustamente em SP

Pedrão Ribeiro Nogueira, jornalista, foi preso ontem durante a manifestação contra o aumento de passagem de ônibus e metrô em São Paulo. Ele estava fazendo a cobertura para o Portal Aprendiz, no qual é repórter. Como mostra o vídeo abaixo, ele foi preso. Antes, foi agredido inúmeras vezes de forma covarde e ilegal pela Polícia Militar de SP.

O jornalista é amigo próximo de muitos conhecidos deste Nota de Rodapé. É pessoa séria e competende no que faz. Já  parte da imprensa brasileira, a meu ver, faz novamente uma cobertura factual que insiste em criminalizar o movimento Passe Livre, com a velha lógica de dizer que fazem "vandalismo", "tumulto" e que são "baderneiros" e "criminosos".

Os pseudo-analistas de plantão, ah, são muitos nessas horas, não perdem a chance de descontextualizar os acontecimentos. Em palavreado curto e grosso, eles dizem nas entrelinhas que "se um fez merda, todos são iguais." Não é assim, nunca foi e não podemos deixar que isso se torne verdade mais uma vez. 

Os direitos de greve e manifestação são garantias constitucionais. O vandalismo, não. A quem comete crimes a lei precisa valer.

Mas alguém me diga, como fica a acusação contra o jornalista Pedro de "formação de quadrinha e dano qualificado" ao ver o vídeo abaixo?

As imagens foram feitas em frente a um hotel, na rua São Carlos do Pinhal, paralela à av. Paulista. Do que devemos chamar esses PMs? Torturadores? Covardes oficiais? Em quadrilha eles é que se revezam em agressões ao jornalista.

Também é de espantar as recentes declarações do prefeito Haddad sobre o assunto. Já do governador Alckmin, sinceramente, não esperava outra posição se não a tacanha de sempre.




Thiago Domenici
, jornalista, editor e coordenador do Nota de Rodapé

Afinal, que corpo queremos?



por Alexandre Luzzi*

Dizem que o corpo humano é a máquina mais perfeita que existe, e que se todas as suas engrenagens funcionarem em equilíbrio e harmonia, a saúde está garantida. Além disso, nossa cultura nos fez crer que essa máquina perfeita é comandada pela mente. Seria mais ou menos como se nosso corpo fosse um navio a vapor, e o comandante do navio a mente. Se conduzido de forma correta, o comandante do navio fará a viagem até seu destino final de forma segura e sem surpresas.

Na metáfora, viagem segura é sinônimo de saúde e o destino da viagem quem organiza é a cultura. Toda concepção de saúde sempre se apoiou na relação entre corpo e mente. A tradição ocidental é que produziu as dicotomias que afetam de forma concreta o sentido que atribuímos ao conceito de saúde, por exemplo: corpo/mente, natureza/cultura, materialidade/essência, saúde/doença.

Todo sistema procura produzir sujeitos que sustente essa engrenagem. Ainda mais numa sociedade de mercado em que manter ativas essas dicotomias só reforça o controle da mente sobre o corpo e sinaliza, por consequência, uma proposta de saúde consumista.

O sujeito de hoje tenta de tudo para manter-se saudável e em forma. Por isso, consome todo tipo de produtos: seguros, produtos alimentícios de baixa caloria, remédios, atividades da moda, produtos de beleza e estética. Se pensarmos, a vida saudável é como uma grife, um estilo. Porém, na mesma proporção em que tentamos controlar o corpo e o risco, parece existir um mal-estar nos sintomas contemporâneos representados pelos distúrbios da percepção da imagem corporal. Exemplos não faltam: ansiedades de exposição, anorexia, vigorexia, bulimia, toxicomanias, etc.

Uma outra proposta de saúde

O que nos introduz no mundo é a linguagem: palavras, gestos, olhares, toques e imagens dão o sentido às nossas experiências. A linguagem, em linhas gerais, é um sistema de sinais, signos e símbolos que foram organizados de acordo com a cultura. Ela, portanto, determina a experiência da nossa realidade e o nível de generalização e abstração do pensamento.

Deixando a filosofia de lado, pense comigo: quando falamos em experiências assumimos um corpo que não é mais o corpo natural e biológico, mas um corpo “biocultural”, em que foi atravessado pela linguagem e pelos signos culturais. “Ao contrário da concepção do corpo como propriedade privada de cada um, afirmo que nosso corpo nos pertence muito menos do que costumamos imaginar. Ele pertence ao universo simbólico que habitamos, pertence ao Outro; o corpo é formatado pela linguagem e depende do lugar social que lhe é atribuído para se constituir. Se os corpos não existem fora da linguagem, as práticas da linguagem determinam a aparência, a expressividade e até mesmo a saúde dos corpos”, disse a psicanalista Maria Rita Kehl.

Quando admitimos a saúde do ponto de vista do corpo-máquina, temos a tendência de não considerar a expressão emocional e subjetiva dos encontros que realizamos, ou seja, mantemos os valores e medicalizamos a doença, almejando uma ideia de corpo e de saúde que não contempla o risco, o mal-estar e a experiência trágica do viver.

Uma outra proposta de saúde parte do pressuposto que corpo e mente são expressões distintas de um mesmo ser. A sabedoria do corpo, ao contrário da mente que pode ser expressa com palavras e conceitos, só pode ser expressa por metáforas cuja linguagem são as emoções.

As emoções e os sentimentos são revelações do estado de vida de nosso organismo, para realizarmos a escuta desses saberes é preciso coragem para nos lançarmos no encontro com o outro sem a necessidade do enquadramento nos padrões culturais.

Quanto maior o raio de ação do radar de nossa consciência de como nosso corpo/mente afetam e são afetados pela complexidade das relações na qual estamos inseridos, maior será a probabilidade de adotarmos uma postura ativa e criativa frente às diversidades. Talvez esse seja um caminho para um ser saudável.

*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzicoordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Os óvnis do meu pai


por Tomás Chiaverini*

Meu pai viu um objeto voador não identificado. Não só viu como fotografou. A coisa toda aconteceu na véspera do ano novo, em Ubatuba, onde ele mora há alguns anos. Era noite, ele estava no jardim e fotografava estrelas, testando uma nova teleobjetiva. Como todos os fotógrafos da era digital, clicava, depois olhava no visor LCD, ampliando as imagens para conferir os detalhes. Foi assim que viu o OVNI.

Aumentou uma das estrelas e viu que, na verdade, não era apenas uma, mas várias, agrupadas num emaranhando de luzes em forma de cesta. Tirou uma sequência de fotos. Mostrou a uma amiga para ter certeza de que não estava tresvariando. Não estava. Havia realmente uma cestinha de luzes estacionada, no céu de Ubatuba.

Meu pai está com quase setenta anos. Numa altura da vida em que o materialismo da juventude já foi bastante contaminado pelo esoterismo difuso – autodefesa frente à proximidade da morte e à assustadora possibilidade do fim, ordinário, implacável e definitivo. Mas está longe de ser um deslumbrado. Cientista de formação, é um dos homens mais cultos que conheço e ocupa boa parte do tempo pensando sobre a estranha natureza do mundo sensível. O OVNI era um belo material para esse passatempo.

As fotos tinham excelente definição e ele as ampliou ao máximo. Enviou por email para um primo meteorologista do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). As imagens circularam por entre alguns dos maiores especialistas em fenômenos atmosféricos do país. Nenhum deles disse se tratar de um disco voador, como meu pai evidentemente ansiava (imaginem, caros leitores desocupados, registrar a prova de vida extraterrestre inteligente?). Mas nenhum deles soube explicar o fenômeno.

Não havia qualquer experimento científico na região naquela data, nenhum evento celeste especial. Tampouco havia registros de imagens semelhantes àquelas. A cesta de luzes, portanto, permanecia como um objeto voador não identificado. Meu pai foi adiante na investigação. Entrou em contato com comunidades de ufólogos e enviou as fotos para eles também. A resposta foi semelhante, ainda que com mais empolgação. Algo como: “parabéns, o senhor presenciou um fenômeno inexplicável”.

Durante meses meu pai mostrou essas imagens e repetiu a história, acrescida de justificativas e reflexões. As luzes pairavam no céu entre São Paulo e Rio de Janeiro. Duas das maiores metrópoles do planeta. E estavam ali na véspera do ano novo, momento exato em que hordas de humanos migram para o litoral num bizarro ritual de celebração cósmica. Não há duvida de que a data e o local seriam ideais para estudar os hábitos da nossa espécie.

O tempo passou. Meu pai continuou a espalhar e história. Até um fim de tarde em que resolveu fotografar um navio de cruzeiro, em frente à sua casa. O balde de água fria veio quando ele ampliou a imagem para conferir o foco. Todas as luzes do navio tinham o mesmo formato de cestinha do famigerado OVNI. Meu pai, que se sustentou a vida inteira como professor de fotografia, finalmente percebeu do que se tratava o seu querido disco voador. A nova lente tinha um defeito. O anel de foco ia um pouco além da posição “infinito” causando uma pequena distorção que borrava as luzes.

A vida alienígena não passava de uma ilusão de ótica. Ainda assim, enganou um punhado de ufólogos e alguns dos maiores cientistas do país. Moral da história: o pior cego, na verdade, é aquele que quer ver.

*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. 
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