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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Guantánamo em foco

Na quinta entrevista da série "O mundo Amanhã", o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, entrevista Moazzam Begg, ex-detento de Guantánamo, e Asim Qureshi, advogado que largou o mundo corporativo para lutar contra os abusos da guerra ao terror

Desde o início da ofensiva norte-americana, em 2001, na chamada Guerra ao Terror, centenas de prisioneiros foram levados à base de Guantánamo onde permanecem encarcerados sem acusação formal e sem direito à defesa.

O britânico Moazzam Begg, intelectual muçulmano detido sob suspeita de ser integrante da Al-Qaeda, é um deles. Preso em 2002 no Afeganistão, só foi libertado três anos depois, sob muita pressão do Reino Unido. Jamais foi acusado formalmente de terrorismo.

Ao sair de Guantánamo, Begg juntou-se ao advogado Asim Qureshi para fundar Cagepriosioners, organização que defende o direito ao devido processo legal para prisioneiros detidos na guerra contra o terrorismo.

“O que você tem que entender é que, até onde os muçulmanos sabem, eles estão sob ataque em países ao redor do mundo todo. Há centenas de milhares de pessoas morrendo”, diz Asim Qureshi, em entrevista concedida a Julian Assange durante sua prisão domicliar, no interior da Inglaterra.
E se você olhar o conceito de jihad no contexto atual, ele diz que, como muçulmanos, temos o direito de nos defendermos. Não tem sentido dizer que as pessoas que estão sendo mortas por ocupações, domínios coloniais, racismo, não devem se defender e devem continuar levando tapas, sendo estupradas…”

Julian pergunta, então, se esta “defesa” significaria resistência militar. “Claro”, responde o advogado, ponderando que as “armas” da Cageprisoners são o lobby e as campanhas.

Para Moazzam Begg, que hoje é um reconhecido defensor de direitos humanos, a grande diferença na guerra ao terror entre as administrações Bush e Obama foi a seguinte: “Eu costumava dizer que Bush era o presidente do governo em que as detenções extrajudiciais estavam acontecendo. Mas o Obama é o presidente do governo em que as mortes extrajudiciais estão acontecendo. Então, Obama prometeu uma mudança, disse que a mudança tinha chegado à América. E é isso: a mudança é de detenções extrajudiciais para mortes extrajudiciais”.


O material foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia e a publicação e adaptação no Brasil é de responsabilidade da Agência Pública.

O Nota de Rodapé é um dos sites/blogs parceiros da Pública na reprodução dessas entrevistas, 12 no total, que vão ao ar todas às quartas-feiras, às 18h.

Assista a seguir a entrevista em vídeo e com legendas em português ou clique aqui para baixar o texto completo da conversa.

Os dois postes de Lula


Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colunista do NR, atualmente mantém a série A Fábrica de Brinquedos Pau-brasil. + do autor

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Se eu acreditasse em Deus

Advertência: material não recomendado a fanáticos religiosos

Se houve um estupro e dele resultou uma gravidez é porque Deus quis; logo, não se deve abortar. Foi o que disse na semana passada um político estadunidense em campanha para o Senado.

A concepção divina de Richard Mourdock é, grosso modo, a de muitos crentes. Ele [Deus] está em todos os lugares, é onipresente e nada acontece sem sua benção. “Não cai uma folha de uma árvore se Ele não quiser”. Portanto, se uma mulher ficou grávida era para ser assim, e o fato dele não querer aquele filho, do feto não ter cérebro ou qualquer outro “detalhe” é secundário.

Se eu acreditasse em um deus, o odiaria. Ao menos que aceitasse que esse deus, após criar o mundo e as pessoas, foi descansar e nunca mais acordou. Caso contrário, seria difícil ter qualquer apego por um ser sádico, perverso, implacável e injusto.

Tenho alergia a extremistas, e acredito que um ateu que pregue sua ausência de fé deve ser tão insuportável quanto um crente que faz o mesmo. Não pretendo que quem tenha um Deus deixe de tê-lo, mas apenas fazer um alerta que em nome de um deus se pode cometer barbaridades como obrigar uma mulher a parir uma criatura fruto de um estupro.

Um mundo com menos fanatismo religioso possivelmente seria um mundo melhor, sem tanto preconceito e intolerância, e talvez menos injusto - já que o discurso da existência de um ente superior que tudo vê e tudo pode acarreta em muitos o comodismo e a resignação.

Durante um tempo pensei que ter fé trazia paz e um certo sentido na vida, e cheguei até a invejar os crentes. Hoje me sinto livre por não acreditar numa força superior, já que nutriria por ele uma repulsa e um ódio que não faz bem que se cultive, muito menos contra algo que nem sequer existe.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas, de Lisboa, Portugal

domingo, 28 de outubro de 2012

Coisa Íntima # Júlia Berenstein

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
Participe, saiba + 

“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”. 

Título - Júlia Berenstein
Descrição - Essa foto foi feita em uma praça em Dresden, em um dos passeios de bicicleta que costumava fazer pela cidade durante a participação em um intercâmbio acadêmico. A bicicleta foi comprada por 15 euros em um leilão feito na universidade e me acompanhou durante aquele período.
Autor - Júlia Berenstein
Data - 10/06/2009

sábado, 27 de outubro de 2012

Replica NR + 3

Essa edição da coluna é especial. Dedicada aos índios Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul. Entenda o que está acontecendo. 

+ “Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui” A declaração de morte coletiva feita por um grupo de Guaranis Caiovás demonstra a incompetência do Estado brasileiro para cumprir a Constituição de 1988 e mostra que somos todos cúmplices de genocídio – uma parte de nós por ação, outra por omissão. Texto de Eliane Brum. Leia +

+ Bastidores da tragédia Kaiowá-Guarani: Multinacionais, partidos, Justiça… por Bob Fernandes. Leia +

+ Neste 2012, pelo menos mais 30 suicídios entre os Kaiowá-Guarani. Leia +

+ Kaiowá e Guarani de Pyelito Kue é violentada por oito pistoleiros em Iguatemi, MS. Notícia do Conselho Indigenista Missionário  Leia +

+ "Se a gente vai se matar? Não! Não nos entregaremos fácil", afirma Kaiowá de Pyelito Kue. Leia +

Quadrinhos_20

por Fernando Carvall, mais em www.estudiosaci.com.br

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Correio sentimental

A culpa é do Ricardo Viel, que há algumas semanas publicou aqui um lindo texto sobre como era a vida “Antes do email”. Pegou-me prestes a encarar um centro cirúrgico (lugarzinho lúgubre) para uma intervenção programada, tranquila, mas que deixa qualquer um de cabelo em pé e coração mole. Não só porque você sabe que vão te cortar e te remexer por dentro, mas também porque vão fazê-lo enquanto você está sedada, vagando pelas galáxias. Saí de lá com uma pintura primitiva na barriga e uma sonolência boa, que me fez viajar pelas cartas que escrevi e recebi.

Foram muitas. Escrevia-as à mão, em papel especial, passava a limpo quando necessário, preparava o envelope com destinatário e remetente, dobrava o papel no formato que encaixava, colava e levava ao correio, onde ela recebia o selo e era despachada ao seu destino. Daí, ficava curtindo a ansiedade de esperar a resposta por vários dias, e quase sempre vinha. Vieram muitas. Fui uma missivista – como ainda se dizia – esforçada e prolífica por anos a fio, mantendo correspondência com parentes e amigos espalhados por algumas cidades e até países.
Sabe o que não mudou? A nossa necessidade de trocar afeto com as pessoas, compartilhar segredos, colocar em palavras escritas o que nos vai no coração, falar de impressões e sentimentos, ou de qualquer outra coisa, num tom que só funciona quando estamos sozinhos com nossos botões.
Uma das últimas novidades da era das cartas foi o aerograma, uma folha de papel bem leve, que permitia que a gente escrevesse de um lado e, do outro, trazia impresso o formato do envelope. Era só dobrar, endereçar e enviar. Numa IBM elétrica, eu ocupava todo o espaço interno com a carta, datilografada em letra pequena e espaçamento apertado. Rendia muito e ficava baratinho.

Pois é, o email acabou com esses rituais e quase eliminou a espera. Mais recentemente, outras formas de comunicação digital o estão substituindo, e daqui a pouco ele também será lembrado com esse tom nostálgico. O “videofone”, que encantava nas fantasias futuristas de poucas décadas atrás, está hoje acessível a qualquer pessoa que esteja diante de um computador e saiba usar seus inúmeros recursos de comunicação instantânea com som e imagem. Tanto que, atualmente, nenhuma viagem é tão longa ou distante que impeça o contato diário, o que, por sua vez, tirou do ato de viajar um certo glamour de se estar inacessível – e um distanciamento eventualmente muito desejado e apreciado.

Sabe o que não mudou? A nossa necessidade de trocar afeto com as pessoas, compartilhar segredos, colocar em palavras escritas o que nos vai no coração, falar de impressões e sentimentos, ou de qualquer outra coisa, num tom que só funciona quando estamos sozinhos com nossos botões. Não sabe como encarar a pessoa e dizer o que pensa ou sente? Tente escrever, procurando aquelas palavras que melhor expressem o que te vai no coração e na cabeça. No mínimo, será um exercício de autoconhecimento e moderação, que pode te surpreender muito. Depois de matutar bastante, talvez até decida não enviar o que escreveu, guardando para si mesmo uma reflexão preciosa ou reveladora do que te vai por dentro. É isso, escrever permite ajustar o foco.

Falando nisso, e fazendo uma ressalva importante, pense muito bem antes de colocar desaforos e impropérios por escrito, porque, que eu saiba, ainda não foi inventado um “delete”, uma tinta, uma borracha mágica que conserte sentimentos feridos por letras. Só o tempo, que, acredita-se, conserta tudo, mas demora pra passar.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Segundo DataNR, Haddad vence no segundo turno

No DataNR,  na enquete que terminou ontem, tivemos 100 votos no total sobre a escolha do candidato a prefeitura de são Paulo.

No resultado final, Fernando Haddad do PT venceu com 60% dos votos e José Serra, do PSDB ficou com 30%. Nulos, brancos e indecisos somaram 10%.

No primeiro turno, Haddad também havia vencido a enquete no DataNR.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A primavera árabe continua

Na quarta entrevista da série "O mundo Amanhã", o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, entrevista Alaa Abd El-Fattah e Nabeel Rajab, lideranças importantes da Primavera Árabe no Egito e no Bahrein

Em 17 de dezembro de 2010, Mohamed Bouazizi, um jovem tunisiano de 26 anos, ateou fogo ao próprio corpo. A auto-imolação, motivada pelo descontentamento com a situação geral das condições de vida no país, tornou-se símbolo de uma revolução que, posteriormente, se espalhou por outros 16 países do Oriente Médio, numa série de eventos que foram intitulados de “Primavera Árabe”.

Argélia, Egito, Líbano, Palestina, Bahrein, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Israel, Marrocos, Arábia Saudita, Síria, Iêmen e Emirados Árabes seguiram o exemplo da Tunísia e articularam suas próprias mobilizações. Em meio às transformações no mundo árabe, dois nomes se destacam: Alaa Abd El-Fattah, blogueiro e ativista egípcio, e Nabeel Rajab, diretor do Centro de Direitos Humanos do Bahrein.

Assange conversou com os dois ativistas para saber se eles acreditam que as manifestações foram bem sucedidas e também para entender o que os motiva a continuar lutando na linha de frente, mesmo sob forte repressão. 

Antes da entrevista, Alaa havia sido repetidamente detido sob acusações que dão inveja ao Super Homem: sabotagem e roubo de tanques, assassinatos, violência contra pelotões inteiros: “eu tinha uma boa reputação e moral na prisão. Sabe, quando as pessoas são presas por roubarem carros… Mas eu fui acusado de roubar tanques”, ironizou na conversa. Hoje ele continua impedido de viajar.

Rajab havia sido sequestrado, torturado e preso pela sua oposição ao governo do Bahrein, país no qual atua como diretor do Centro de Direitos Humanos, causa que defende desde a década de 90. 

Sobre a experiência de viver num país com uma revolução em curso, Nabeel acredita que o custo que se paga pela liberdade é alto, “mas queremos pagar por mudanças pelas quais lutamos”, diz. Um dia antes da entrevista, Rajab tuitou sobre ela na sua conta no Twitter; pouco depois, sua casa foi cercada por policiais armados e ele foi intimado a comparecer à Promotoria de Justiça para prestar esclarecimentos.

O material foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia e a publicação e adaptação no Brasil é de responsabilidade da Agência Pública.

O Nota de Rodapé é um dos sites/blogs parceiros da Pública na reprodução dessas entrevistas, 12 no total, que vão ao ar todas às quartas-feiras, às 18h.

Assista a seguir a entrevista em vídeo e com legendas em português ou clique aqui para baixar o texto completo da conversa.

   

Seja feliz, demita-se

Eu nunca cheguei a conhecê-lo mas sempre o achei triste. A impressão vinha das vezes em que nos cruzamos pelos corredores da emissora. Era muito gordo e baixo e usava um rabo de cavalo que não dava conta de esconder o início da calvície. Caminhava com dificuldade, sempre fumando um Marlborão vermelho, exalando tédio e cansaço.

Só o vi sorrir uma vez. Na verdade foi no mesmo dia em que ouvi sua voz pela primeira vez. Estava estranhamente radiante. As mãos tremiam de empolgação, segurando um cigarro que não fazia questão de acender. O motivo? Acabara de ser demitido.

– Vou pra Bahia, deitar embaixo de um coqueiro e fumar um quilo de maconha – dizia rindo feito criança.

Eu olhava aquele pobre ser humano, que durante dez anos trabalhou sem vontade, acumulando banha e alcatrão, e secretamente o invejava. Na vida, há poucos prazeres comparáveis a abandonar um emprego.

Tive essa grata experiência algumas vezes e frequentemente sonho em repeti-la. A mais memorável aconteceu há uns quatro anos, na Folha de S.Paulo. Estava terminando um período de cinquenta dias cobrindo férias no caderno Cotidiano. Trabalhava muito, ganhava pouco, não tinha benefícios e sempre acabava com as tarefas mais ingratas.

Certa vez, durante o julgamento de Suzane Von Richthofen, o jornal havia conseguido uma pista de onde estava o irmão mais novo da loira homicida. Me mandaram com um carro de reportagem para a frente da casa, num bairro residencial, perto do aeroporto de Congonhas. A ordem era esperar para ver se o guri entrava ou saía, e tentar arrancar alguma declaração. Fiquei das sete da noite às três da manhã parado na rua escura, ao lado do motorista que ferrou num sono pesado.

Em outro julgamento, dos cúmplices do Champinha, passei vinte e cinco horas na rua, diante do fórum de Embu Guaçu. Havia outros repórteres do jornal que iam alternado turnos e não escrevi uma linha sequer.

Por tudo isso, estava feliz da vida que minha temporada de suplício chegava ao fim, quando o editor do caderno me chamou de lado. Hoje ele é Secretário de Redação do jornal e já à época ocupava um cargo importante.

Talvez por isso não tenha se dado ao trabalho de sentar pra conversar. Falou enquanto andava, apressado. O jornal estava com um novo projeto, explicou, e eu seria o encarregado. Não perguntou nada, apenas me comunicou, como se eu fosse uma mesa, ou uma impressora, que pudesse simplesmente ser mudada de lugar. Foi falando e caminhando por corredores desconhecidos da redação até chegarmos a uma sala de espera, onde nos sentamos e ele terminou de explicar.

A Folha passaria a publicar diariamente um texto de obituário. Queriam que eu escrevesse. Para isso, eu teria de gastar meus dias telefonando para famílias enlutadas, à cata de informações sobre seus defuntos.
O prazer de deixar um emprego, creio eu, é o mesmo de arrumar a mala para viajar a um país desconhecido, de levantar a saia daquela garota pela primeira vez, de cair na estrada sem rumo. É um prazer que está nas possibilidades.
Acontece que eu não só estava feliz por deixar a redação como tinha um projeto de um livro-reportagem aprovado pelo maior grupo editorial do país. Quando expliquei isso tudo, a cara dele congelou e caiu no chão. E nesse exato momento a secretária nos mandou entrar. Sem ação, ele obedeceu. Entramos os dois, na sala que pertencia a Suzana Singer, à época a todo-poderosa Secretária de Redação do jornal. Nós entramos, sentamos, e ele me apresentou, com o sorriso mais amarelo do mundo.

– Oi Suzana, esse é o Tomás. Como eu te falei, ele ia tocar o novo projeto, mas acabou de dizer que está deixando jornal.

Ah, quanto prazer!... Mas não só por ver o rosto do chefe se partindo. Pedir demissão é muito mais do que isso. Também não creio que tenha a ver com as maravilhas do ócio, que fatalmente se transforma em tédio. Meu ex-colega do rabo-de-cavalo já deve estar de saco cheio da maconha, da brisa do mar, dos coqueiros e daquele maldito pôr-do-sol deslumbrante, todo santo dia no mesmo horário.

O prazer de deixar um emprego, creio eu, é o mesmo de arrumar a mala para viajar a um país desconhecido, de levantar a saia daquela garota pela primeira vez, de cair na estrada sem rumo. É um prazer que está nas possibilidades. Na esperança de que amanhã ou na semana que vem poderemos estar num lugar melhor, realizando coisas mais interessantes, vivendo a intensidade dos comerciais de cartão de crédito.

Infelizmente, como todos os prazeres intensos, este também passa rápido. E no fim não nos deixa mais do que uma lembrança feliz misturada à vontade de experimentá-lo de novo o quanto antes.

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Apontamento para um texto que nunca escreverei

São como fragmentos que, penso eu, poderiam formar um todo. Chego a enxergar uma lógica, mas me sinto incapaz de transformar isso tudo em um texto. Não é preguiça, garanto.

E por achar que esses apontamentos fazem algum sentido, e pensando que talvez podem servir a alguém – e quem sabe esse alguém até se anime a dar um corpo a tudo isso –, abaixo os transcrevo.

"Sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo" (Fernando Pessoa Ricardo Reis)

“Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer.” (Drummond)

“E, aquele/ Que não morou nunca em seus próprios abismos/Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas/Não foi marcado. Não será exposto/Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.” (Manoel de Barros)

Carta de Alejandra Pizarnik a Cortázar *

“Julio, fui tão baixo. Mas não há fundo. Julio, creio que não tolero mais as perras palavras. (...) Me excedi, suponho. E perdi, velho amigo da tua velha Alejandra que tem medo de tudo salvo (agora, Oh, Julio!) da loucura e da morte. [carta escrita desde o hospital psiquiátrico, depois de uma tentativa falida de suicídio]

Reposta de Cortázar *

Não te aceito assim, não te quero assim, eu te quero viva, burra, e perceba que estou falando da linguagem mesma do carinho e confiança – e tudo isso, caralho, está do lado da vida e não da morte. Quero outra carta tua, logo, uma carta tua. Esse outro é também você, eu sei, mas não é tudo e além disso não é o melhor de você. Sair por essa porta é falsa no teu caso. Eu te peço (...) um pulso sobre a terra, alegre ou triste, mas não um silencio de renuncia voluntária. Só te aceito viva, só te amo, Alejandra. (...) não imaginas com quanta vontade abaixaria tua calcinha (rosa ou verde?) para te dar uma surra dessas que dizem eu te amo a cada chicotada.

Nota: Pizarnik se matou meses depois de receber essa carta

*tradução minha

Ricardo Viel, jornalista, também publica hoje no Valor Econômico uma entrevista com o escritor português Joao Ricardo Pedro. 

domingo, 21 de outubro de 2012

Coisa Íntima # Protegido

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
Participe, saiba + 

“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”.




Autor Rafa Éis e Diana Kolker
Título Protegido
Descrição "Quando a defesa do capital se sobrepõe à integridade física das pessoas, faz-se necessária a criação de estratégias poético-políticas que se mostrem contrárias aos efeitos da constituição das cidades-empresas no contexto da copa. De fato, tatudoerrado."
Data 2012

sábado, 20 de outubro de 2012

Replica NR + 2

Preconceitos + se você é desses que critica a aparência física dos outros leia esse texto. Se não faz isso, leia e indique aos que fazem. Uma pensata sobre “policiamento corporal” de Jarid Arraes, 21 anos, estudante de Psicologia, feminista e entusiasta em sexualidade. Leia +

Mobilidade + Notícia diz que venda de bicicletas supera a de carros na Itália. Foram 1,75 milhão bicicletas compradas em 2011, contra 1,748 carros. Culpa da crise ou um lado positivo dela?  Leia +

Sociedade + Eliane Brum, sempre ela, nos brinda com outro grande texto. “Ao propor 'abolir' a prostituição na França, o governo socialista reacendeu o debate, tão velho quanto atual, sobre a quem pertence o corpo da mulher”. Leia +

Internet + Você sabia que o Brasil lidera os pedidos de retirada de itens da internet em um ranking produzido pelo Google para monitorar a liberdade de expressão? Neste texto, publicado no Observatório da Imprensa, se discute “Os limites da liberdade na internet”. Leia +

Entrevista + No último Roda Viva da TV Cultura, uma entrevista com Drauzio Varella, médico e escritor, que lançou recentemente o livro Carceireiros, pela Companhia das Letras. O homem é de uma clareza incrível quando o assunto é sistema carcerário e outros temas-chave da sociedade. Leia +

com colaboração de Juliana Kroeger, Natalia Mendes e Thiago Domenici

Quadrinho_19


por Fernando Carvall, mais em www.estudiosaci.com.br

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Caixinha aberta

Algumas ideias grudam na gente ao longo da vida. Um dia lá, você ouve ou lê algo que faz sentido, que combina com o que você sente ou pensa, mas que ainda não estava formulado. E pimba! aquilo se incorpora à sua visão da vida.

Livros e filmes fazem muito isso. Lembro a emoção que senti ao identificar, nos autores que li na adolescência e juventude, como a liberdade era importante pra mim – e a ansiedade que isto me trouxe. No mesmo pacote da liberdade, estavam as escolhas pessoais e a possibilidade de construir a minha própria vida, de acordo com as minhas convicções. Daí para concluir que a vida é feita de escolhas, foi um passo.

Há muito tempo, incorporei a ideia de que a gente vive a vida que escolhe, principalmente quando teve oportunidade de comer, estudar e se educar. Não suporto pessoas de mais de trinta anos que responsabilizam os pais, a família, o governo, a falta de sorte, a conspiração cósmica, deus ou o diabo por não terem uma boa vida, aquela que sonharam. E isto não tem necessariamente a ver com ser milionário e famoso, como muitos pensam, mas com o que é importante para cada pessoa. Pode ser uma profissão sonhada, um grande amor ou um ideal político, coisas que ocupam um lugar central na vida. Buscar pessoalmente os caminhos que levam ao que nos satisfaz, saber lidar com situações adversas e superá-las, são premissas da vida adulta, mesmo sabendo que não temos, nem nunca teremos, controle total sobre a nossa vida.

Mas os dias vão rolando, e a gente vai encontrando outras ideias, que tocam em outros botões e acendem novas luzes.

Dia desses, eu almoçava com uma amiga, que me contava sobre a conversa que tivera com os filhos sobre as tais escolhas. Esta querida amiga vem de um país africano que deixou de ser colônia há poucos anos, numa luta que contou com seu engajamento pessoal. Mas a situação se complicou a tal ponto, que ela decidiu se candidatar a um bom emprego num país europeu, foi selecionada e se mudou para lá com a família.

Deu a todos a impressão de que havia escolhido partir, motivada pela possibilidade de ter e oferecer aos filhos uma vida mais tranquila, que não era pouca coisa, no contexto em que viviam. Mas ia muito além disto. Ela estava, em suas próprias palavras, elegendo entre a opção que destrói e aquela que salva. Aí, já deixa de ser escolha, porque quem, em seu juízo perfeito, iria pelo caminho da destruição?

Não é fascinante? O 2+2 que eu tinha bem arrumadinho na cabeça sobre o assunto se desfez num instante, me obrigando a abrir a caixinha das certezas. Coisa boa! Preciso ainda pensar muito mais sobre isto.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

“Nós intersomos”

É preciso pensar além do dualismo saúde e doença
Como professor de Educação Física tenho o compromisso ético de colocar em debate todos os assuntos que norteiam minha prática, pois acredito que aceitar um determinado conceito ou ideia de saúde nos leva a escolher certos tipos de intervenção sobre o nosso corpo e nossa vida.

Dito isso, espero que você leitor do Nota de Rodapé possa me ajudar a refletir, participando dos assuntos que vou passar a propor aqui, principalmente os relacionados a saúde, corpo, mente e cultura.

No primeiro semestre deste ano, por exemplo, a partir de uma palestra da Monja Coen, representante de uma tradição milenar, o Budismo japonês, discutimos os rumos que as nossas atitudes e o conceito de saúde estão tomando na atualidade. É que o senso comum tende a pensar a saúde a partir de algumas premissas:
1 – Saúde é um conceito que se contrapõe ao estado de doença, ou seja, ter saúde é não estar doente; 
2 – O corpo físico é uma máquina que necessita funcionar de forma perfeita, ou dentro de certos padrões de “normalidade” (assunto que abordarei em outro texto); 
3 – Usualmente pensamos a saúde a partir de uma perspectiva individualista, é sempre o sujeito o responsável e nunca uma questão coletiva.
De uma forma bastante clara e simples, as palavras da Monja durante a palestra colocaram pontos de interrogação nessas ideias. Te pergunto, caro leitor, será que realmente precisamos pensar a saúde em oposição à doença?

A resposta não é automática. Segundo os princípios do Budismo, esclareceu a Monja, além da transitoriedade de tudo o que existe, temos a existência do sofrimento como condição inerente à vida. Ou seja, a vida de todos nós inclui a experiência da doença.

Vivenciar uma enfermidade não significa não ter saúde, essa é uma perspectiva menor e perigosa. Assumir essa ideia, veja só, significa abrir caminho para a medicalização excessiva, o abuso nas práticas esportivas e até mesmo o excesso em investigações e exames.

Nosso corpo é habitado pela impressão de tudo que nos “toca” e estar aberto a outras formas de pensar, como proponho, significa assumir um conceito de saúde capaz de contemplar a qualidade dos encontros que realizamos, seja com a natureza, objetos, ideias, pensamentos, imagens, fantasias, emoções, sentimentos e outros seres.

Qual o impacto desses encontros na sua subjetividade? Que tal pensarmos a saúde no território da intersubjetividade? Segundo a própria Monja disse, “nós intersomos”.

Portanto, treinar corpo e mente significa também perceber as nossas expressões emocionais e a forma como estamos nos comunicando com o outro. Saúde não é só uma questão de forma corporal, de padrões de normalidade, de índices disso ou daquilo, saúde não é algo que se tem, saúde é algo que se conquista a partir da nossa capacidade de compor forças com o outro, rumo a um mundo melhor para todos.

A medida ética dos cuidados com o corpo e a saúde não está na quantidade de exercícios que destinamos para esse fim, mas no sentido e no significado que essa prática assume.

Alexandre Luzzi, Professor de Educação Física, coordena o espaço Tai Ken, especial para o Nota de Rodapé

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Um rebelde na presidência da Tunísia

Na terceira entrevista da série "O mundo Amanhã", o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, conversa através de medialink com o presidente da Tunísia, o ex-exilado Moncef Marzouki 

A revolução na Tunísia em 2011 marcou o início da Primavera Árabe, inspirando a população de outros países do Oriente Médio que, até hoje, seguem saindo às ruas contra governos autoritários. 

Após meses de protestos, a revolução tunisiana derrubou o ditador Ben Ali, abrindo espaço para as primeiras eleições democráticas no país em 23 anos.

Mas, passada a euforia, fica o desafio: como conduzir um governo realmente capaz de mudar a vida da população tunisiana?

“Você ficou surpreso com a falta de poder ao se tornar presidente?”, pergunta Assange ao presidente eleito no país, Moncef Marzouki. “Eu estou descobrindo que o fato de ser chefe de Estado não significa que você tenha todo poder”, responde o líder tunisiano.

Marzouki é médico e opositor de longa data do ditador Zine El-Abidine Ben Ali, o que o levou à prisão na década de 1990. Fundou o Comitê Nacional em Defesa dos Prisioneiros de Consciência e foi presidente da Comissão Árabe de Direitos Humanos. Em 2002, exilou-se na França onde, junto com outros tunisianos na mesma situação, fundou o partido político Congresso pela República.

Desde 2001, ele declarara que pressões externas e revoltas armadas não derrubariam Ben Ali, mas sim um movimento popular que empregasse os métodos da resistência civil. 

Em janeiro de 2011 a Tunísia mostrou que ele estava certo. Depois da queda de Ben Ali, Marzouki voltou do exílio para anunciar sua candidatura e foi eleito presidente interino pela nova Assembleia Constituinte da Tunísia, em outubro de 2011.

A grande pergunta, nas palavras de Assange, é: “Moncef Marzouki, ativista pelos Direitos Humanos, deve agora liderar o Estado que o aprisionou. Poderá ele transformar o Estado?”.

O material foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia e a publicação e adaptação no Brasil é de responsabilidade da Agência Pública.

O Nota de Rodapé é um dos sites/blogs parceiros da Pública na reprodução dessas entrevistas, 12 no total, que vão ao ar todas às quartas-feiras, às 18h.

Assista a seguir a entrevista em vídeo e com legendas em português ou clique aqui para baixar o texto completo da conversa.

Herivelto 100. Brasil 41

Ele formou sua própria Escola de Samba, ensaiou o coro de pastoras e colocou o samba pra frente, ajeitando a pancadaria. Diretor de harmonia de suas gravações, desenvolveu um novo formato para registros em discos e apresentações em rádios: já não era orquestra, nem tampouco conjunto regional, era a sonoridade dos carnavais de rua invadindo os estúdios. Autor de clássicos de nosso cancioneiro, travou parcerias com gigantes e foi gravado pelos maiores cartazes de sua época. É tempo de celebrar Herivelto Martins, um nome de ouro da cultura brasileira.

Ícone de nossa música popular, o sambista nasceu há 100 anos, na pequena cidade fluminense de Engenheiro Paulo de Frontin. Bons costumes se aprendem em casa, desde a tenra infância, e assim se deu com o pequeno Herivelto. Em seu lar, respirava-se cultura e tudo conspirou para fazer dele um ser dotado de inspiração artística. Com seu pai, Felix Bueno Martins (um entusiasta do teatro, promotor de várias peças amadoras), tomou gosto pelo teatro e pela música. Aos nove, compôs seu primeiro samba, “Nunca mais” e depois, adolescente, foi ganhar os picadeiros da vida, arriscando-se como palhaço em cidades vizinhas.

A veia artística pulsava e a também pequena cidade de Barra do Piraí, onde morava com a família desde os 4 anos, não poderia comportar suas ambições. Aos 18, após breve passagem por São Paulo, decidiu: iria se mandar para o Rio de Janeiro. Queria conhecer o berço do samba, o bairro do Estácio de Sá, e os bambas locais, professores do novo ritmo do samba.

Na então capital da República, Herivelto conheceu o compositor Príncipe Pretinho que o levou para o Conjunto Tupi, do cantor J.B. de Carvalho. Sagaz e atento às possíveis novidades que poderiam ser inseridas no arranjo das músicas, desenvolveu com o cantor Francisco Sena, uma nova maneira de cantar em duetos. Em vez de se valer do formato “pergunta e resposta”, como Francisco Alves e Mario Reis faziam, agora, os cantores atuavam juntos, com um deles alterando a melodia, cantando em terças. Foram pioneiros de um estilo que depois apresentaria grupos como Quatro Ases e um Coringa, Bando da Lua e Demônios da Garoa.

Com Francisco Sena, descolou-se do Conjunto Tupi e formou a Dupla Preto e Branco. Eram os anos 30 e as composições de Herivelto começavam a ser gravadas por nomes como Aracy de Almeida, Silvio Caldas, Carmem Miranda e Carlos Galhardo. Entretanto, a inesperada – e precoce – morte de seu companheiro o obrigou a voltar aos picadeiros da vida.

Com a obrigação de gargalhar, encarnou o palhaço Zé Catimba e passou a apresentar-se no Teatro Pátria, em São Cristóvão. Foi lá que conheceu Nilo Chagas, com quem formaria a segunda Dupla Preto e Branco. Também foi neste teatro que conheceu Dalva de Oliveira, sua futura esposa. Com ela e Nilo Chagas, iria compor o Trio de Ouro, conjunto vocal que marcou época na história da música popular brasileira (e que depois teria mais duas formações, com Herivelto à frente).

Apogeu do
sambista

Antes de se separarem e darem início a uma famosa – e depois global – polêmica, Herivelto e Dalva protagonizaram belas peças. O Trio de Ouro era inovador e se apresentava com uma legítima Escola de Samba e um coro de pastoras. Herivelto comandava tudo com seu apito – e apita quem pode apitar –, legando para nossa cultura fonográfica uma nova maneira de se apresentar os sambas. Até mesmo o clima festivo e de folia carnavalesca era transmitido pelos integrantes do conjunto nas gravações.

Nos anos 40, Herivelto alcançou o apogeu. Tudo o que um compositor poderia almejar, ele conquistou. Emplacou grandes sucessos, como “Praça Onze” (com Grande Otelo), “Ave Maria no Morro”, “Lá em Mangueira” (com Heitor dos Prazeres), “Isaura” (com Roberto Roberti), “Laurindo”, entre tantos outros. Além das históricas e seminais gravações do Trio de Ouro, foi gravado pelos maiores intérpretes da época, como Francisco Alves, Linda Batista, Isaurinha Garcia e Roberto Silva. No campo da criação, travou parcerias com grandes compositores como, por exemplo, Ataulfo Alves, Benedito Lacerda, Grande Otelo, Bide, Heitor dos Prazeres, Marino Pinto, David Nasser e Príncipe Pretinho.

Cronista social de um Rio de Janeiro onde tanto malandro viveu, onde tanto valente morreu, Herivelto cantou a Praça Onze – seu desaparecimento físico e simbólico –, cantou Mangueira – seu morro e sua Escola de Samba – e cantou a cidade do Rio de Janeiro. Cantou os amores de uma gente, com seus encantos e com seus penosos reveses.

Versátil, Herivelto Martins compôs, também, muito samba-canção, valsa e até mesmo tango. Viveu até os 80 anos e deixou para a eternidade uma obra que acompanhou, ao longo de décadas, as transformações sociais e culturais que se acometeram sobre nosso país. É notória a percepção de como ele acompanhou a sensibilidade musical do ouvinte, fã, consumidor de seu produto. Se na Era de Ouro do rádio, emplacava sambas, pois isso era o que o povo consumia, depois, com a ascensão do bolero e do samba-canção no gosto das massas, ele passou a compor intensamente canções mais lentas, fazendo de Nelson Gonçalves seu intérprete mais frequente.

Tal ecletismo faz com que muitos sambas de altíssimo nível (como “Adeus Mangueira”, “Como eu chorei”, “Consulta teu travesseiro” e “Obrigado, General”) não sejam lembrados nas coletâneas das melhores e mais representativas composições do artista. No entanto, o samba era o carro-chefe de sua obra e foi principalmente com as gravações do Trio de Ouro, e as inovações proporcionadas pela genialidade de seu líder, que Herivelto foi lembrado por quem mais fez bonito em sua homenagem neste ano. Sua mais bela louvação veio por conta do samba, providência de Deus.

Sim, porque neste centenário do grande sambista, pouco se fez por sua memória. Diferentemente do ocorrido em anos passados, em que foram celebrados intensamente os centenários de nomes como Cartola, Adoniran Barbosa e Nelson Cavaquinho, as comemorações dos 100 anos de nascimento de Herivelto Martins não tiveram o mesmo confete. No entanto, de um grupo de amigos de Minas Gerais, formado por músicos amadores, sambistas, veio a redenção. Onde quer que esteja Herivelto Martins, ele pode ficar tranquilo. Uma homenagem à sua altura foi feita.
"O cara tem uma importância muito grande pra ser lembrado apenas pelas brigas com a mulher.”
Em Belo Horizonte, toda sexta-feira, a turma desperta, entoando um hino de harmonia. É dia de sambar até cansar. No número 41 da Avenida Brasil fica o bar Brasil 41. É lá que se reúne a roda de samba de mesmo nome. O formato é acústico, sem amplificação, com instrumentos de corda e de couro, com os sambas cantados em coro. O repertório contempla tanto compositores da Era do Rádio como sambas de terreiro das antigas Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Das rotineiras reuniões semanais nasceu um valoroso projeto, que culminou com a grandiosa homenagem à Herivelto Martins, realizada em julho e agosto deste ano, nas cidades de Belo Horizonte e Ouro Preto.

Mas tudo começou antes, em novembro de 2011. Os personagens: os mineiros Vinícius Terror, de Ouro Preto, e Daniel Capu, de Belo Horizonte. Quando o primeiro escutou, na roda de samba do Brasil 41, o samba “Controlando essa mulher” (com Benedito Lacerda), ficou maluco e foi pesquisar mais. “A cada áudio que ouvia meus olhos brilhavam ao perceber que estava diante de um dos mais expressivos compositores que o samba já teve”, diz Terror. Com a proximidade do centenário do bamba, sugeriu ao amigo Daniel a realização de uma homenagem ao baluarte, prontamente aceita. “Uma obra dessas não pode ficar guardada com tanta gente se interessando pelo bom samba hoje em dia. As canções de Herivelto foram pra nós uma grande descoberta”, completa o sambista de Ouro Preto.

Foram escolhidos 55 sambas, divididos em cinco blocos temáticos: “Exaltação à batucada”, "Tristeza, sofrimento e orgia”, “Súplica e exaltação à mulher”, “Crítica, favela e esperança” e “Exaltação à Mangueira”. Definido o repertório, era hora de ensaiar: foram cerca de 20 reuniões. “Era coisa de ensaio mesmo, com bronca do Daniel, nosso diretor de harmonia, e tudo o mais. Geralmente cada ensaio era dedicado a um ou dois blocos. Vez ou outra rolavam uns ensaios gerais, passando tudo. Teve uma vez que alugamos uma casa na roça e ficamos 4 dias só cantando Herivelto”, conta, saudoso.

Já se ouviam o som dos tamborins, anunciando que iria haver carnaval. E eles precisavam fazer um bom carnaval – ainda que fora de época – para o povo saber quem eles eram, afinal. Salve as pastoras e a bateria! Se o ritmo da batucada ficava cada vez mais redondo, era hora de formar o coro feminino. “As pastoras sempre frequentaram a roda, mas nunca tinham cantado. São namoradas e mães da galera da roda. Novamente, a ideia foi do Daniel. Elas toparam e foi tudo muito natural, pois já conheciam boa parte das músicas e estavam por dentro do processo, ouvindo Herivelto o dia inteiro. Nos ensaios, elas combinavam os arranjos do Trio de Ouro, os versos certos pra cantar, pra destacar o coro delas”, explica Terror. “Acabaram roubando a cena!”

A imersão na obra do compositor fluminense foi transformadora para o sambista. “Você lê a biografia dele e descobre que o cara era um gênio, um Pixinguinha da voz. Ele criou o Trio de Ouro e o sucesso estrondoso do conjunto se deve aos arranjos do Herivelto. Tem a história do apito, da Escola de Samba dentro do rádio. O cara tem uma importância muito grande pra ser lembrado apenas pelas brigas com a mulher. E acho que hoje, eu e a turma do Brasil 41 nos sentimos honrados, orgulhosos de ter mostrado pra um monte de gente que o Herivelto é uma brasa”.

O que se passou no dia 14 de julho, na roda de samba ocorrida em Belo Horizonte, e no dia 5 de agosto, em Ouro Preto, não dá pra ser narrado, apenas sentido. Assista ao vídeo, ouça o áudio abaixo da roda e aproveite para mergulhar na obra de Herivelto Martins no excelente blog dedicado ao centenário deste mestre, preparado pelo dedicado Vinícius Terror.



André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba, a ser publicada sempre na terceira quarta-feira do mês. Ilustração de Kelvin Koubik, artista visual e músico de Porto Alegre, especial para o texto

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Pedras nos bolsos

No capítulo inicial de A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera apresenta um dilema que poderíamos denominar de liberdade vs prisão. Em princípio, qualquer ser humano com o mínimo de juízo diria que a liberdade é o paraíso enquanto a prisão, o inferno. Mas como a vida não é um filme de Hollywood, essa polarização entre o certo e o errado, o bom e o mau, não costuma ser funcional. Entre o branco e o negro há uma infinidade de tonalidades de cinza, e é nela que nós, que não somos Brads Pitts ou Angelinas Jolies, nos encontramos. É o que explica Kundera:

“Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semirreal, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”

Claro está: carregar um peso excessivo nos impede de sair do lugar e torna a existência um martírio. Mas não trazer consigo peso algum representa o enorme risco de distanciar-se de maneira tal do mundo a ponto de fazer da liberdade uma prisão. Bom exemplo do que digo é a vida de Christopher McCandless (na imagem), que foi primorosamente retratada no filme Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007, dirigido por Sean Pean; o filme é uma adaptação do livro de Jon Krakauer, que por sua vez é baseado nos diários deixados pelo próprio McCandless).

Aos 22 anos, o jovem estadunidense abdica dos confortos materiais e sai em busca de uma vida plena, em contato com a natureza e distante das mazelas humanas. Não conto o final para não estragar a surpresa dos que não tenham visto o filme, mas advirto que McCandless – que passa a se autodenominar Alexander Supertramp – percebe que a vida sem nada que lhe ate a qualquer lugar ou pessoa pode não ser a plenitude.

E qual a solução? Também não sei, mas minha intuição diz que é dosar a leveza com algo de peso. Carregar umas quantas pedras nos bolsos. O suficiente para lembrar-se dos caminhos por onde se passou (das pessoas, lugares, sons, cheiros, cores etc), mas que não seja peso excessivo que impeça de seguir a caminhada. Deve ser um leve peso, que se transforma em âncora apenas como metáfora. Porque a decisão de estacionar em um lugar tem sempre que ser uma escolha e não uma imposição.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas de Lisboa, Portugal. Leia + textos do autor.

domingo, 14 de outubro de 2012

Coisa Íntima # Japa

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
Participe, saiba + 

“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”. 

mais informções sobre o fotógrafo, acesse: www.foto.art.br/pinguins

sábado, 13 de outubro de 2012

Replica NR + 1

Memória + Com a morte do historiador Eric Hobsbawm, muito foi escrito em sua homenagem, merecidamente, sem dúvida. Dentre os textos, o de autoria de Marcus Gaspariam calha bem a este blog: leve, despretensioso, o relato conta de quando Hobsbawm riu de uma “carteirada” nas estradas brasileiras . Leia +

Perfil + Eleonora de Lucena fez na Folha de S. Paulo um perfil dos mais interessantes de Valdênia Aparecida Paulino Lanfranchi, mulher porreta, que denunciou a violência policial em Sapopemba, periferia leste de São Paulo. A primeira pessoa a entrar no programa federal que defende ativistas. Leia +

Liberdade + Eliane Brum entrevistou o repórter Andre Caramante, ameçado de morte, por matérias que denunciavam a atuação policial em São Paulo. Obrigado a mudar de país e esconder-se, Caramante conta o que a situação de exceção vivida por ele e por sua família revela sobre a intrincada relação entre poder e violência. Leitura indispensável. Leia +

 Mensalão + Paulo Moreira Leite, da revista Época: “José Genoino, vítima da tortura que o STF impediu que fosse apurada, será condenado por corrupção, ao contrário de Fernando Collor.” Leia +
 E mais uma análise do julgamento que tem dividido opiniões: texto da Retrato do Brasil, publicado na site Outras Palavras Leia +

Música + Dois B.B. Kings no show do rei do blues em SP. "O primeiro tem seus 50 anos e só existe na memória de seus fãs; segundo é um senhor de 87 anos", texto de Julio Maria no Estadão. Leia +

com colaboração de Fernanda Pompeu,  Fernando Evangelista e Thiago Domenici

Quadrinhos_18



Fernando Carvall, ilustrador e caricaturista. Mantém o Estúdio Saci.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Tambor de todos os ritmos*

Dos zero aos cinco anos, vivi uma vidinha bem irresponsável. Em casa, cercada da família e ocupada em crescer, brincar e explorar o mundo ao alcance dos sentidos. Tudo mudou quando entrei no jardim de infância. Aí começaram os compromissos, obrigações e expectativas formais a respeito da minha capacidade, comportamento e atitude, todas voltadas principalmente para o desempenho escolar. Porém, a escola e eu nunca falamos a mesma língua, então esta etapa terminou penosamente aos dezoito anos, quando impus à família a minha decisão de parar de estudar.

Arrumei um emprego de auxiliar numa biblioteca universitária, que foi o ponto de partida de quase quarenta anos de ralação. O fim foi há poucos meses, quando solicitei uma aposentadoria antecipada, mesmo sabendo que teria uma queda significativa na renda mensal.
Não sei quanto vai durar esse desinteresse por compromissos e obrigações, mas desconfio que muito mais do que eu mesma esperava.
Como a grande maioria dos seres humanos, ralei muito e gastei no trabalho grande parte do meu tempo e da minha energia, saúde e inteligência. Suportei pressões, contrariedades, injustiças e cobranças que frequentemente considerei exageradas, num mundo em que o sacrifício pessoal é exigido, mas quase sempre desconsiderado, e os sonhos despretensiosos são sumariamente desdenhados. Tive muita raiva de chefe, de colegas “malas”, de gente dissimulada e folgada, fui preterida. Também, tive oportunidades, fui reconhecida e valorizada. No trabalho, e por causa dele, conheci pessoas da melhor qualidade, por quem tenho grande admiração e respeito, e que se tornaram parte de mim. Tudo isso ajudou a moldar o que sou hoje, para mal e para bem.

Por mais que eu tivesse desejado parar de trabalhar, quando aconteceu, foi um choque. Afinal, a vida de obrigações e cobranças, de ter que produzir e ser útil, era a única que eu conhecia desde os cinco anos – e sei que, para as crianças de hoje, começa muito mais cedo – mas, então, o sonho de ter todas as horas do dia para eu decidir o que fazer com elas se realizou. Também o de viajar as minhas viagens, sem agenda e sem pressa, podendo andar na rua o dia inteiro e sentir o lugar onde estou.

Leio, navego na internet, resolvo pequenos problemas domésticos, cozinho, vou ao cinema e às aulas de Pilates no meio da tarde, encontro amigos para um bate-papo relaxado, escrevo e-mails e textos para esta coluna, viajo de vez em quando e, principalmente, faço tudo em câmera lenta.

Não sei quanto vai durar esse desinteresse por compromissos e obrigações, mas desconfio que muito mais do que eu mesma esperava. E o que vier, daqui pra frente, será cuidadosamente escolhido, de forma a não ser um retorno à vida de antes, que considero encerrada.

Enquanto escrevo, olho as árvores lá fora, ouço as cigarras, que chegaram para anunciar o fim da estiagem, e me dá uma vontade enorme de que a vida seja mais leve, simples e prazerosa para cada pessoa que passa zunindo nos carros que descem a avenida que vejo daqui; aliás, pra todo mundo. É, sonhar e desejar não pagam imposto.

*Verso da canção “Oração ao tempo”, de Caetano Velloso

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

NR na 2º fase do prêmio TopBlog 2012

Prezados leitores do NR, perdoem a cara de pau, mas este blog foi pra segunda fase do TopBlog 2012, o maior prêmio do gênero no país. Estamos entre os 100 mais votados do Brasil na categoria Notícias e Cotidiano.

Como no primeiro turno em que vocês ajudaram muito, precisamos de vocês novamente nesta segunda fase. Agora, nessa etapa, três blogs serão escolhidos pela Academia e outros três pela votação popular.

Essa 2º fase é mais curta, termina no dia 11 de novembro. Peço a ajuda de vocês para votarem e divulgarem para aos seus essa iniciativa de mídia livre.

É possível votar uma vez com email, twitter e facebook. O link da votação é esse http://www.topblog.com.br/2012/index.php?pg=busca&c_b=33134130 

É isso, obrigado pela paciência e pela leitura.

Vamos em frente!

Slavoj Žižek x David Horowitz

Na segunda entrevista da série "O mundo Amanhã", o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, entrevista o intelectual esloveno Slavoj Žižek na sua prisão domiciliar na Inglaterra. Ambos conversam, via satélite, com um dos líderes da direita americana, David Horowitz

O intelectual superstar Slavoj Žižek é conhecido por suas contribuições à teoria da psicanálise, à crítica cultural e à política, na qual sempre se engajou para além das discussões acadêmicas – ele foi candidato à presidência da Eslovênia nos anos 90. Cultuado pela jovem vanguarda intelectual europeia, esse notório provocador se define como leninista mas também como lacaniano. 

Já David Horowitz é um soldado linha dura do pensamento conservador americano – e um sionista sem o menor pudor. Nos anos 60 e 70, foi uma liderança de esquerda na cidade californiana de Berkeley. Depois de colaborar com os Panteras Negras, começou seu caminho sem volta para a direita. 

Hoje, seu instituto faz campanhas contra influências islâmicas e de esquerda na mídia, na academia e na política. Este encontro entre mentes tão diferentes é, no mínimo, acalorado. “Você é um apoiador da coisa mais próxima que temos do nazismo”, diz Horowitz. “Você apoia os palestinos. Eu não vejo como diferenciar os palestinos, que querem matar os judeus, dos nazistas”. 

Irritado, o esloveno dispara: “Desculpe, você já foi à Cisjordânia?”. Em alguns momentos, Assange tem que segurar o exaltado Žižek, embora seu adversário esteja em outro continente. “Nós, totalitários das antigas, deveríamos, nos juntar e nos livrar deste liberal aqui!” brinca Žižek para Horowitz, referindo-se a Assange. 

O tom da conversa varia entre o antagônico e o bem humorado; os três falam de personalidades que vão de Stalin a Obama, do conflito entre Israel e Palestina, do desejo da liberdade ao Estado de vigilância,– passando, é claro, pelo trabalho o WikiLeaks, considerado “perigoso” por Horowitz. No final, Žižek conclui: “Isso foi uma loucura!”.

O material foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia e a publicação e adaptação no Brasil é de responsabilidade da Agência Pública.

O Nota de Rodapé é um dos sites/blogs parceiros da Pública na reprodução dessas entrevistas, 12 no total, que vão ao ar todas às quartas-feiras, às 18h. Na próxima semana, o blog publica o terceiro episódio da série em que o líder do Wikileaks entrevistará Moncef Marzouki, um ativista político tunisiano.

Assista a seguir a entrevista em vídeo e com legendas em português ou clique aqui para baixar o texto completo da conversa.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Profissão mesário

Com o nome “Verbo Sonoro”, esta coluna se propõe a falar, de modo geral, sobre música e outros assuntos culturais. Em época de eleições, no entanto, abrimos uma exceção: a trilha sonora de hoje é o agudo apito da urna eletrônica; aquele que foi repetido seguidamente nos tímpanos dos mesários das 8h às 17h no último domingo.

Para o eleitor, talvez exista até algum tipo de prazer ao ouvir o “barulhinho” após olhar para a foto do candidato e apertar “confirma”. Mas para quem passa o dia sentado ao lado da máquina – meu caso –, a coisa é um pouco diferente...

Mas sem problemas; este texto não pretende ser uma reclamação mimada por um dia a mais ou a menos de trabalho. Pretende apenas ser um breve relato do dia mais especial (profissionalmente falando) na vida destes cidadãos (os mesários) escolhidos, entre tantos, para uma função tão importante para a democracia.

PELA SEXTA VEZ 
Domingo, dia 7, primeiro turno das Eleições Municipais. Ainda cedo, na porta da sala de aula, um simpático eleitor me vê e diz: “Eu te conheço de algum lugar!”. E eu: “Sim senhor, daqui mesmo, das últimas cinco eleições...”.

Sim, já estive sentado naquela sala do colégio Objetivo, na rua Teodoro Sampaio, em 2004, 2005 (plebiscito), 2006, 2008, 2010 e, agora, em 2012. Nestas últimas duas, inclusive, como presidente de mesa. Como disse um amigo meu, fui reeleito para o cargo (provavelmente o único de presidência que terei na vida).

Cabe aqui um pequeno parênteses. Está definido em lei que a obrigatoriedade, para os convocados, é de trabalhar em apenas quatro eleições. Quando fui protestar da última convocação no cartório, tive a seguinte resposta da secretária: “Só temos registrado aqui que você trabalhou nas últimas três eleições. Nosso sistema foi trocado em 2005, talvez seja por isso”. E por fim: “Eu acredito em você, mas não há nada que eu possa fazer”.

O DIA DA FESTA
Bom, voltemos. Domingo, dia 7, às 6h da manhã, de pé, após uma noitada no Espaço das Américas para ver o show de 30 anos dos Titãs. Ao meu lado, aliás, ali na pista do show, estava o candidato Fernando Haddad, do PT, certamente tentando relaxar um pouco na véspera da votação. Ele cantava alto, como que perguntando sobre seu próprio futuro: “É cedo ou tarde demais pra dizer adeus, pra dizer jamais?”.

Sim, sim, domingo... Desço do carro na Teodoro e caminho por cima dos milhares de santinhos jogados pelas ruas. Entre os nomes espalhados pelo chão (é importante dizer), pude ver os de: Fátima Barreira, Souza Santos, Dr. Augusto, Ricardo Teixeira, Eduardo Sanazar, Chico Valente e Helena Cabeleireira. Nenhum deles foi eleito. Talvez o método de campanha de poluir as ruas com santinhos já não seja mais tão eficiente.

A partir daí, 7h da manhã na seção número 141, o mesmo processo de sempre: cumprimentar os fiscais; imprimir a zerésima – que comprova que a urna não está corrompida –; assinar os papeis; definir o horário de almoço etc. Sob a minha presidência, organizar o horário de almoço é uma das prioridades, pelo bem-estar geral dos mesários.

VOSSA EXCELÊNCIA, O ELEITOR
Ali naquela sala, aparece todo tipo de gente. Ser mesário --usando uma expressão bem clichê, mas verdadeira –, é uma experiência quase “antropológica”. Às 8h forma-se a primeira grande fila. Misturam-se os mais idosos com alguns jovens virados da balada, claramente “pilhados” pelo uso de aditivos. Praticam o melhor voto: o voto inconsciente.

Lá pelas 10h da manhã, como em todos os anos, chega o casal mais simpático daquela seção. Ela, nascida em 1917, com seus 95 anos; ele, de 1924, com 88 --fazem questão de votar, mesmo sem precisar. Quase 70 anos depois de ter que escolher entre Eurico Gaspar Dutra e Eduardo Gomes, em 1945, escolhem agora entre Serra, Haddad, Russomanno ou, sabe-se lá, Soninha e Giannazi.

Na seção 141, o tempo passa devagar. Faz falta uma televisãozinha para assistir o clássico Barça e Real Madrid. Entram e saem jovens e velhos, pais com crianças --algumas felizes, outras transtornadas por terem que entrar em uma sala de aula em pleno domingo--, senhores engravatados e, ainda nos dias de hoje, alguns poucos analfabetos.

APURAÇÃO
É curioso ver o jeito como os eleitores olham para os mesários. Um misto de pena (por não estarmos curtindo um churrasco de domingo) e respeito. Em geral, são simpáticos. “Parabéns para vocês”, disse um homem de uns 50 anos. E outro: “Tá legal aí garotada?”.

No fim do dia, às 17h, encerra-se a sessão. Nós, mesários, sempre ocupados em “servir” os eleitores, não podemos nos esquecer de votar antes disso. Mesário também vota! – no meu caso, na mesma sala em que trabalho.

Ao fim temos que imprimir cinco vias do Boletim de Urna, com o número de votos que cada candidato teve naquela seção. Resultado: 179 para Serra, 59 para Haddad, 38 para Chalita e menos de 20 para Russomanno. Em concordância absoluta com o mapa de votos da cidade divulgado mais tarde, onde as áreas ricas da cidade são território tucano.

No dia 7, portanto, nenhum incidente grave na sessão 141, no Colégio Objetivo da Teodoro Sampaio. Nenhum eleitor quebrando a urna, como aconteceu em outros lugares; nenhum candidato posando para fotos. Apenas os eleitores comuns – até hoje obrigados a votar – e nós, mesários – obrigados a trabalhar pela democracia.

Dia 28 tem mais. Mais apitinho agudo no ouvido.

Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música. Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, também colunista do blog, especial para o texto

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O verdadeiro futuro

Si se pudiera romper y tirar el pasado como el borrador de una carta o de un libro. Pero ahí queda siempre, manchando la copia en limpio, y yo creo que eso es el verdadero futuro.
(Julio Cortázar, em Cartas de Mamá)

Juan José Padilla
O jornalismo é o melhor ofício do mundo, disse certa vez Gabriel García Márquez. Às vezes quase acredito nessa sentença. Tirando a pressão, as incertezas, a precariedade dos salários e outras tantas dificuldades, resulta que ainda sobra algo (e que não é pouco): o prazer de contar histórias e relacionar-se com pessoas com as quais em outras circunstâncias seria impossível fazê-lo.

Gosto muito de fazer entrevistas e, às vezes, sinto que questionando alguém sobre sua vida, tentando entendê-la – a pessoa, digo, mas de certo modo também sua vida – acabo por buscar respostas para a minha própria.

O último trabalho que fiz me ocupou meses, trouxe certa angústia, mas foi extremamente prazeroso e serviu um pouco como uma terapia. Escrevi o perfil do toureiro espanhol Juan José Padilla, que há um ano levou uma chifrada que lhe cobrou um olho e quase lhe custou a vida.

Logo que cheguei à Espanha acompanhei pela tv a imagem da cornada que recebera. Li nos jornais sobre sua recuperação e assisti com assombro a entrevista em que dizia que queria voltar a tourear.

Comecei a ver ali uma boa história e tentei contatá-lo. Para a minha surpresa, no final de fevereiro, em uma manhã de ressaca, recebi uma telefonema do próprio. Dizia que tinha recebido minha mensagem, mas que gostaria de esperar para dar a entrevista. Estava se preparando para retornar e preferia se concentrar nisso. Ficou a promessa do encontro.

Desde aquela ligação até que nos vimos foram quase sete meses. Nesse tempo – e paralelo a outros trabalhos, claro – tratei de conversar com o máximo possível de pessoas (algumas delas muito próximas a Padilla) para aprender sobre o universo das touradas e sobre a vida daquele personagem.

No dia em que por fim sentei-me para entrevistá-lo havia duas perguntas que realmente queria que ele me respondesse: a) por que voltar a tourear? b) É possível, como ele repetia insistentemente a cada entrevista que dava, esquecer o que aconteceu e seguir a vida como se aquilo fosse página virada?

A primeira pergunta eu intuía a resposta. “Acho que se ele não voltasse a tourear daria um tiro na cabeça”, me havia dito um conhecido de Padilla. Ele me respondeu que aquilo era sua vida e que ela seria muito vazia se faltassem os touros.

A segunda resposta foi a que mais me tocou. Tenho certa obsessão com a questão do passado e estou recorrentemente olhando para trás e me perguntando “o que teria sido da minha vida se…”. Padilla me disse que não valia a pena pensar nisso, que era preciso olhar para o futuro.

Ótima maneira de superar um trauma, creio eu. Mas na prática as coisas são um pouco diferentes. Ele quis voltar ao lugar onde levou a chifrada. Visitou a praça de touros sozinho, refez todos os passos daquele dia da chifrada. Passeou pela arena, pisou no lugar exato onde o animal de 500 quilos lhe acertou. Refez todo o calvário e terminou a visita na enfermaria.

E agora, no dia 10 de outubro, um ano e três dias depois de quase morrer, Padilla voltará a tourear naquela praça. Será para fechar um ciclo, para tentar colocar um ponto final nessa história e dizer que ela é página virada.

Mas tenho para mim que, ainda que essa nova tarde na praça da desgraça seja triunfal, ela não apagará aquela outra de um ano atrás. Porque, como tão bem escreveu Cortázar, é impossível eliminar o passado. Ele estará ali sempre, manchando a escritura que está por ser feita. E essa marca, que muitas vezes é incômoda, é o verdadeiro futuro.

Ricardo Viel escreve às segundas, de Lisboa, Portugal

Nota: o perfil de Padilla sai na edição deste mês da revista Piauí

domingo, 7 de outubro de 2012

Coisa Íntima # Ana Flor

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
Participe, saiba + 

“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”. 


Título: Ana Flor
Descrição: A forma, a cor e a luz de dias de ansiedade na companhia apenas da bagunça. Autor: Ana Flor
Data: Abril, 2011

sábado, 6 de outubro de 2012

DataNR: Haddad (PT) e Giannazi (PSOL) no 2° turno

Primeiro Fernando Haddad (PT)

122 votos (60%)

Segundo Carlos Giannazi (PSOL)

21 votos  (10%)

Terceiro José Serra (PSDB)

20 votos (9%)

Quarto Estou indeciso / Vou anular

10 votos (4%)

Quinto Celso Russomano (PRB) e Soninha Francine (PPS)
 
8 votos cada um (3%)

Sexto Gabriel Chalita (PMDB)

7 votos (3%)

Sétimo Outros candidatos

4 votos (1%)

Oitavo Paulinho da Força (PDT)

1 voto (0%)

Replica NR +

Imprensa + O site Escrevinhador fez uma entrevista com o jornalista Fábio Jammal Makhoul, que na sua dissertação de mestrado na PUC de São Paulo analisou a revista Veja, publicação da Editora Abril, no período que abarca o primeiro mandado do governo Lula. O governo ocupou “54 capas de Veja, das 206 publicadas no período”, destas “32 tratavam de escândalos, segundo classificação da própria Veja, ou seja, 59,3% do total”. leia +

Eleições/Sociedade + Na véspera da eleição em São Paulo, um texto da jornalista Eliane Brum, de algumas semanas, sobre o candidato Celso Russomanno e a vulgaridade do desejo. “O ´patrulheiro do consumidor` lidera em São Paulo porque, se a política é de mercado, ele pode convencer como mercadoria”. leia +

Literatura + A revista New Yorker publicou em agosto um conto inédito de F. SCOTT FITZGERALD, intitulado "Obrigado pelo fogo", traduzido e publicado também em agosto na Folha de S. Paulo no caderno Ilustríssima. leia +

Política/Justiça + O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, no jornal Valor Econômico, critica o STF, para quem os ministros têm construído um discurso no caso do julgamento do Mensalão paralelo ao longo das sessões que destoa da tradição da Corte. leia +

Quadrinhos_17


Fernando Carvall, ilustrador e caricaturista. Mantém o Estúdio Saci.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

E agora, José Serra? #Minicraques da política

[clique para ver em tamanho grande]
Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colunista do NR, atualmente mantém a série A Fábrica de Brinquedos Pau-brasil

Ínfimo glossário contemporâneo

Ação Penal 470 – programa vespertino de TV, muito instrutivo; anda tirando o sono de gente graúda que se achava

Bancada evangélica – busca o reinodedeus em primeiro lugar, desde que o reinodedeus distribua verbas, emissoras de rádio e TV e gordos cargos públicos; para tanto, não hesita em fazer alianças as mais indecentes, chafurdando-se na lambança política que campeia; odeia impostos, homossexuais e feministas porque, cada qual à sua maneira, ameaçam seus ideais de perpetuação da sua própria espécie

Bráulei – bolo de chocolate na língua exigida de atendentes de lanchonetes fast food (ver abaixo)

Cadastro – você se despir diante do caixa das lojas pra facilitar a vida delas e dar uma força não remunerada nas vendas

Cupcake – bolinho sem graça todo lambuzado de tinta colorida, vendido naqueles shopping centers (ver abaixo) em que as peruas levam cachorrinhos na bolsa e pagam tudo em dinheiro vivo

Customização – palavrão que corresponde ao que antigamente se dizia “sob encomenda” ou “sob medida”

Delivery – entrega de encomendas feita por motoboys (ver abaixo) lascados e mal pagos

Facebook – vitrine onde a gente descobre o que rola por aí e percebe que dá de um tudo mesmo nesse mundo

Fast food – restaurante cuja especialidade é frango à milanesa com gosto de papelão, refrigerante diluído num copo cheio de gelo e bráulei (ver acima)

Freixo – estranho sobrenome recentemente adotado por todos os descolados cariocas

Frozen yogurt – creme branco gelado, caríssimo, que queria ser iogurte, mas faltou iogurte

Gracinha – não se atreva a usar; exclusividade da Hebe por toda a eternidade

Happy auer – horário para celebrar a vida e o por do sol, quando os bares ficam lotados de mesas enormes de coroas animadas, coroas enturmados, mauricinhos em fim de expediente e periguetes (ver abaixo), na mesma mesa ou cada um na sua, e depois seja o que deus quiser

Merchandising – personagem de novela te chamando de otário

Motoboy – entregador de pizza e o que mais aparecer; lascado e mal pago; invisível pra quem recebe a encomenda e pra quem dirige o carro ao lado; gosta de uma bravata no trânsito e engrossa estatísticas horripilantes

Nojinho – pertence ao vasto território dos diminutivos incorporados; ainda não entendi: é nojo mesmo ou é uma forma enojada de dizer nojo?

Periguete – aquela que queria ter nascido Suelen, mas não rolou

Preview – aquelas roupinhas caríssimas que ficam na entrada da loja pra você se achar muito esperta

Self service por quilo – lugar onde tudo se mistura; maior quebra-galho na hora da fome

Serra – zumbi revoltado

Shopping center – lugar que tem a incrível capacidade de ser o mesmo em todos os países; no Brasil, propiciou o aparecimento do grupo populacional “branquinhos de shopping”

South Beach – condomínio de micro-apartamentos aqui perto de casa, ou seja, na Flórida

SUV – Carro grande e obeso, geralmente dirigido por ego idem

Tchu-tcha-tchu-tcha-tcha-tchu – onomatopeia para uma delicada abordagem sexual

Toppings – grudes multicoloridos que fazem uma lambança sobre o frozen (ver acima); antigamente se chamavam “coberturas”

Twitter – ainda não conheço, mas desconfio que é um lugar misterioso onde todo mundo diz o que quer sobre a vida alheia e depois desconversa

Varanda gourmet – lugar de fazer churrasco na laje em apartamentos onde tudo o que se queria era fazer churrasco na laje, porque as pessoas não cabem lá dentro, mas faltou a laje.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

AP 470, vulgo Mensalão e a democracia fatiada

Os ministros do STF envolvidos no julgamento do AP 470
Tudo indica, e a semana promete, que a mais alta instância judiciária do país, o Superior Tribunal Federal, quer mesmo reescrever a história do Brasil a partir daquele que é considerado o “maior escândalo” em matéria de corrupção entre nós.
 Novos conceitos e pontos de vista para crimes e ações penais, a rigorosa (aparente, pelo menos) distinção entre indício e prova, a negação do foro privilegiado e, sobretudo, uma sutil, hipócrita, original e ladinamente construída caracterização entre a “corrupção do bem” e a “corrupção do mal”.

Sim, porque é disso que se trata a espetacularização dada pela imprensa ao julgamento da AP 470, vulgarmente chamada de “mensalão”. Ao classificar o tal “mensalão” como a maior corrupção já praticada no Brasil, segundo o entender do Procurador Geral da República, seguida e aumentada pela lente do relator do processo, uma falaciosa questão se coloca. Vejamos: se essa é a maior delas até agora, outras médias, menores ou – quem sabe – do mesmo tamanho ou ainda maiores, foram momentaneamente esquecidas. Falácia, para dizer o menos, pois corrupção é corrupção, não tem maior nem menor.

Avançar o sinal vermelho, molhar a mão do policial, comprar trabalhos escolares, andar na contramão, comprar nota fiscal, vender nota fiscal, sonegar imposto de renda, enviar dinheiro para o exterior por doleiros, praticar o caixa dois na empresa, cobrar do cliente com ou sem nota, aceitar pagar sem nota, aceitar o registro de menor salário na carteira e receber a diferença por fora, abrir a micro empresa fora do município em que atual para diminuir o imposto a pagar, aceitar o achaque de fiscais da prefeitura, ter amigos ou parentes que “quebram determinados galhos”, empregar parentes e amigos em empresas públicas, assédio no trabalho, aumentar o preço de um produto em mais de 100%, comercializar a fé, enfim a lista é bem extensa... E são todos “honestos”, por que não?

Há, por exemplo, a CPI do Banestado, devidamente esquecida e arquivada; toda a ilicitude praticada quando da privatização de empresas públicas, em particular as de telefonia, cujo regabofe foi fartamente distribuído por algumas ilustres figuras que não pertencem aos quadros do PT; há o caso da Lista de Furnas e o também chamado “mensalão mineiro”, bem como as estripulias do DEM em Brasília, onde o insigne e honrado até então governador do DF foi pego com a boca na botija.

Contudo, pelo tratamento dado até agora a esses e outros casos como o “adiamento” da CPMI-Veja/Cachoeira, convenientemente acertado para não atrapalhar o período eleitoral (mas o julgamento da AP 470 pode), e pela lista exposta no parágrafo acima, fica a impressão de que existem, portanto, a “corrupção do Bem”, aquela que pode esperar, pode ser postergada ou até esquecida, quem sabe, e a “corrupção do Mal”, aquela que precisa servir de exemplo para o Brasil, pois uma vez resolvida, isto é, uma vez condenados os réus de determinado partido ou governo, mesmo que sem provas ou com provas tênues, ficará o exemplo para os pósteros. Será?

A quem querem enganar, afinal? Qual o propósito de gerar tamanha desconfiança e confusão na sociedade brasileira? Tamanha injustiça e talvez o ódio. Começando por fatiar o processo da AP 470, o STF começa também a fatiar a democracia brasileira. E depois, hipocritamente, muitos não sabem por que aumenta a violência no país...

Izaías Almada, escritor e dramaturgo, escreve a coluna mensal Pensando Alto
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