.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Imunidade

por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna* 

Tenho lido notícias sobre o que parece um novo tipo de paralisia acometendo crianças nos Estados Unidos, coisa mais maluca. Foram mais de vinte casos comprovados nos últimos anos. Suspeita-se que seja pela ação de um vírus de poliomielite modificado, e se atribui seu surgimento ao fato de, na última década, ter-se alastrado entre os pais de crianças pequenas o hábito de não vaciná-las, sob alegações várias.

Por coincidência, recentemente fiquei sabendo também que crianças têm sido intencionalmente expostas a certos vírus de doenças evitáveis, como catapora e outras, para que, uma vez contaminadas, desenvolvam a doença e os respectivos anticorpos, também como forma de driblar as vacinas. Não sei se esse comportamento tem algum respaldo científico, só sei que acho muito esquisito. Quando eu era criança, convivi com colegas que tiveram poliomielite por falta da devida imunização, e a vida se tornou extremamente difícil para elas. Aos poucos, os casos foram diminuindo até desaparecer. Agora reaparecem, com variações ainda desconhecidas. Talvez essas mães e pais não tenham ideia de como era a vida antes das vacinas. Eu não arriscaria, nadinha mesmo.

Houvesse estado ao meu alcance, eu teria vacinado meus filhos, e todas as outras crianças, contra moléstias do corpo, da alma e da mente. Teria misturado às gotinhas contra pólio, sarampo, meningite, rubéola e companhia substâncias que criassem a capacidade de rebater o desamor, o desamparo e a brutalidade, que em algum momento – ou em muitos, vai saber – atacam cada ser humano já nascido ou por nascer neste mundo. Nem os filhos da rainha da Inglaterra estiveram a salvo. Também os teria capacitado para não sentir fome e sede se não tivessem a possibilidade de acesso à comida e à água.

Teria providenciado imunização completa contra a inexperiência e imperícia dos pais, tanto para aplacar cólicas de recém-nascido quanto para decifrar com precisão suas necessidades mais profundas ao longo da vida. Teria inoculado neles, em dose única, o vírus da liberdade e do direito de escolher, de maneira que nunca fossem contaminados pela escravidão do pensamento e pela infelicidade de viver vidas alheias às suas. Teria inserido neles o DNA dos vagalumes, para que nunca me fossem invisíveis, no meio da noite bem escura ou de tantas coisas que podem distrair a gente.

* * * * * *

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Roque sabe


por Carlos Conte    ilustração Ligia Morresi*

Vão pensar que estou ficando maluco. Por educação, ninguém vai ter coragem de me falar isso, mas vão pensar, tenho certeza: “Que coisa, o Carlos enlouqueceu! O que se pode fazer?...” Mas é verdade, pensem o que quiserem. Meu cachorro, o Roque, um vira-lata preto que acaba de completar 3 anos de vida no último 2 de fevereiro, dia de Iemanjá, consegue ler meus pensamentos.

Não entendo de psicologia canina, mas o pouco que sei de psicologia humana me faz duvidar do fenômeno da telepatia, assunto estudado pelos defensores da parapsicologia e seus métodos tão pouco científicos. Já tinha ouvido falar de cães com supostas habilidades paranormais: “Ah, o meu cachorro sabe quando estou triste”, ou “sabe que vou mandar ele pra casa da avó”, ou “sabe que está na hora de comer”... sabe isso, sabe aquilo, coisas que o animal, evidentemente, não teria como saber, pois estão na cabeça do dono, mas o que não falta é gente que acredita em transferência de pensamento, seja entre pessoas, seja entre bichos ou até mesmo entre pessoas e bichos.

Sempre duvidei. Papo aranha! Ora, cachorros são condicionados, como são condicionadas as orcas do Sea World, o Rin-Tin-Tin, ou o Flipper, aquele golfinho dos filmes antigos. Não sabem coisa nenhuma, mas foram amestrados, por algum espertinho que tem o olho na grana e poderia trabalhar num circo ensinando elefantes a dançar no picadeiro. É a velha história de estímulo-resposta inventada pelo Skinner. O elefante dança ao ritmo da música porque foi treinado por um longo tempo a associar a música com a experiência dolorosa de pisar numa chapa quente.

Por exemplo, tive uma cadela, a Tifany, que previa quando íamos sair de viagem. Imagino que ela relacionasse o fato de tirarmos as malas do guarda-roupa com a longa ausência que se seguiria, talvez pelo cheiro de mofo das malas sem uso durante meses, talvez pela simples imagem das malas. Fosse pelo cheiro, fosse pela imagem das malas, era começar a arrumar as bagagens que ela se enfiava debaixo do sofá, começava a salivar e a tremer, coitada, em completo desespero, porque tinha aprendido que as malditas malas eram o prenúncio de dias de solidão.

Com o Roque também é assim. Mas o Roque é mais inteligente que a Tifany. Ele sabe das coisas, diferentemente de cães comuns. (Todo dono de cachorro acha que o seu é mais esperto que os outros: “Ah, igual ao Brutus eu nunca vi! Até parece uma pessoa”). Pois o Roque, garanto, é como se fosse uma pessoa. Mais que isso. Pessoas não leem pensamentos, o Roque sim. Já disse: ele sabe das coisas.

No começo, não me espantei: a chave era o sinal. Quando ele ouvia o tilintar do molho de chaves, latia, porque sabia que ao som metálico das chaves se seguiria o nosso cooper diário. Até aí tudo bem. A Tifany também associava o barulho da coleirinha com o passeio. Sei de muitos cães que fazem isso. Mas o Roque foi além. Com o tempo, ele começou a se antecipar à etapa das chaves. Bastava tirar o shorts da gaveta que ele, lá embaixo, no quintal (meu quarto fica na parte de cima do sobrado), começava a latir. Incrível, pensei. Certamente está associando o cheiro do shorts com a corrida, que ele tanto adora. E cachorros, todos sabem, têm um faro extremamente apurado, a ponto de serem usados por caçadores atrás de veados ou por policiais federais atrás de drogas. Penso que o Roque bem que poderia ser útil pra essa gente, devido a essa enorme capacidade olfativa, mas está fora dos meus planos, e também dos planos do Roque, caçar veados ou prender alguém. Ele sabe, por exemplo, quando vai chover, sabe quando vou sair de casa (porque sente o cheiro da mochila), sabe todas essas coisas – ou, melhor dizendo, não é que ele saiba, mas está acostumado, condicionado, a associar o cheiro ao fenômeno que a ele está diretamente relacionado. Até aí nada de novo, porque os outros cães também sabem dessas coisas.

O susto veio num dia em que, escrevendo no laptop, pensei (não falei, nem fiz nenhum sinal – apenas pensei): “Bom, mais um parágrafo e vou correr!”. Mal termino de combinar isso comigo mesmo, ouço o Roque latindo lá embaixo. Olho pela janela e vejo que ele está sentado, língua de fora, bem debaixo da minha janela, naquela velha posição ansiosa, me esperando descer. Vejam: saio para correr todos os dias, portanto é de se esperar que ele, esperto que é, já tenha registrado isso na sua memoriazinha de cão; mas nem sempre corro nos mesmos horários. Tem dias que vou logo cedo, assim que acordo. Tem dias que vou à noite, pra fugir do calor. Não me perguntem como, mas ele sabe.

A partir de então é assim: não espera que o shorts saia da gaveta, nem que o molho de chaves faça o seu característico tilintar, sinal tão óbvio para qualquer cachorro normal. Posso estar no banheiro, lendo jornal enquanto me alivio, tomando banho, olhando os últimos posts no facebook: é pensar, mesmo que vagamente, que está na hora de correr, que o Roque começa a latir lá embaixo. Nos dias em que estou com preguiça, isso até me serve de estímulo. “Bom, ainda preciso enviar uns e-mails, preparar umas aulas, terminar esta crônica... Acho que hoje, só hoje, vou cabular a corrida...”. Mas aí, como um amigo pentelho convidando pra tomar cerveja numa segunda à noite, ou o louco do Cadão nos tempos de criança na Vila Ipojuca tocando a campainha insistindo pra jogar futebol, o Roque, percebendo minha hesitação, antecipa-se, e decide por ele mesmo, ou por nós dois, que hoje, sim, vai ter corrida. Nesses dias, talvez seja melhor não pensar.

* * * * * * * 

Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração especial para o texto de Ligia Morresi, designer e ilustradora

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Então assim: trabalhar não basta para ser feliz


por Thiago Domenici  ilustração Kelvin Koubik (Kino)*

É preciso um ano – 365 dias – para que a terra complete a sua rotação em volta do sol. Durante esse tempo a lua descreve doze rotações em torno da terra. O mês corresponde, aproximadamente, à duração de cada uma dessas rotações. Por isso, o nosso calendário foi estabelecido levando-se em conta os movimentos da lua em torno da terra, da terra em torno do sol e em torno dela mesma. Então, o ano tem 12 meses, o mês tem 30 dias, a semana sete dias e cada dia tem 24 horas – tempo em que a terra dá uma volta em torno dela mesma.

Mas o povo trabalhador "temos" direito a trinta dias por ano de férias remuneradas, finais de semana – que não são todos que têm direito – e os feriados. Com a Copa do Mundo vamos ganhar, ao menos nos jogos da primeira fase da competição em que a canarinha for jogar, três dias de folga. Além disso, cinco feriados – repito, cinco! – cairão no final de semana. Num país que conta oficialmente com oito feriados nacionais, disciplinados pela Lei Federal 10.607/02, é uma sacanagem com o trabalhador.

Lá em 2009, conversei com o então deputado federal Milton Monti (PR-SP) que propôs um projeto de lei (2756/2003) para alterar feriados que caiam entre terças e sextas-feiras. Para ele, seria bom antecipar para as segundas-feiras os feriados que caíssem nesses dias para evitar a "semana morta". Quer dizer, pela proposta, se o calendário diz que o feriado é quarta, ele seria usufruído na segunda anterior. Mas feriados no sábado e domingo não teriam a mesma regalia.

Imaginei algumas ideias livres para um possível projeto de lei de iniciativa popular. Quem anima? A primeira sugestão é coisa simples e você já deve ter pensado nisso. Não seria o caso de alongar o final de semana para três dias seguidos ou alternados? Por exemplo: sábado, domingo e segunda ou então: sexta, sábado e domingo. A minha preferência é sábado, domingo e quarta-feira pois tente mais ao equilíbrio. Você descansa dois, trabalha dois, descansa um e trabalha dois.

Outro cenário abrange períodos maiores de tempo. Imagine: o sujeito trabalha o ano todo e tem abolido os feriados (não se pode abusar!) mas tem mantido os finais de semana (período inegociável). O que você ganharia com isso? Que tal um ano inteiro de férias com remuneração? Trabalha um ano, folga outro. Seria possível implantar uma espécie de rodízio e um certo grau de critérios para ter uma parcela da população ativa e outra não. Exagerado?

Outra boa seria, pelo menos, férias de trinta dias a cada seis meses, tal como usufruem estudantes, parlamentares e juízes. Ou então a cada quatro anos trabalhados um ano sabático remunerado pelo estado por meio de um imposto pago pelas empresas e estendido ao trabalhador informal, frilas e afins. Na minha cabeça tudo isso é possível.

É verdade que o trabalho dignifica, mas a liberdade de viver períodos sem trabalhar é fundamental. E saber usar o tempo livre para o que bem entendermos nos traria uma vida menos doente, mais produtiva e feliz. Produção, sim, mas com mais prazer, mais descanso e menos estresse, eis o ideal para mim.

* * * * * * 

Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Relato do repórter fotográfico Victor Moriyama, detido pela PM no Ato contra a Copa do Mundo

Detido pela Polícia Militar durante três horas na tarde do último sábado, 22 de Fevereiro de 2014, durante o segundo grande Ato contra a Copa do Mundo no centro de São Paulo, o repórter fotográfico Victor Moriyama, colaborador do Nota de Rodapé, conta que foi agredido e impedido de exercer sua profissão durante a cobertura para a agência Getty Images. Além do seu relato, NR publica o vídeo de sua detenção, no qual o policial diz que o "crachá anda no peito ou ninguém vai saber quem é você". A imprensa, como mostram os relatos e os vídeos que circulam na internet, teve o trabalho cerceado, assim como os manifestantes tiveram o direito a manifestação violado.


“Relato da violência a imprensa e a sociedade no segundo grande Ato contra a Copa do Mundo”

São Paulo, Brasil, 22 de Fevereiro de 2014

por Victor Moriyama

Na tarde do último sábado, 22 de fevereiro de 2014, manifestantes organizaram o segundo Grande Ato contra a Copa do Mundo no Brasil, na cidade de São Paulo, que acabou sendo um dos mais violentos desde o início dos protestos iniciados em junho de 2013. No último ato, ocorrido no dia 25 de janeiro, o fotógrafo da Agência EFE Sebastião Moreira fora agredido por um policial. Outros companheiros de profissão sofreram agressões muito piores ao longo do último ano enquanto cobriam os protestos pelo país, os quais tiveram seu ápice no triste falecimento do cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Andrade, atingido por um morteiro disparado por um manifestante.

Quando cheguei ao protesto, por volta das 17hs, senti uma energia pesada no ar e essa era a mesma sensação dos colegas de imprensa que conversei. Acho que prevíamos a violência que estava por vir.

No protesto do dia 22, que reuniu cerca de 1.000 manifestantes, as agressões físicas e morais à imprensa e aos manifestantes de forma generalizada pela Polícia Militar continuaram.

O tumulto, que acabou virando pancadaria promovida pelos dois lados, Policiais e Manifestantes, começou não sei ao certo como e por qual motivo, muito menos de qual lado se iniciou. O que presenciei foi uma rápida ação policial, que em maior número, cercou rapidamente centenas de pessoas, dentre os quais jornalistas como eu e outros colegas da imprensa. Eu, exercendo minha profissão, também fui agredido por cassetetes, mesmo mostrando meu crachá de imprensa e tentando dialogar e acalmar os ânimos.

Neste momento, diversos jornalistas foram detidos e/ou agredidos, dentre os quais: Bárbara Ferreira, O Estado de São Paulo; Paulo Toledo do portal G1; Reynaldo Turollo do jornal Folha de São Paulo; Sérgio Roxo, O Globo; a Fotógrafa Alice Martins, Vice Brasil; e, o fotógrafo Bruno Santos, do portal Terra. Em poucos minutos, fomos cercados por um número muito superior de policiais que com seus cassetetes agrediam as pessoas que pediam calma e tentavam dialogar. Os oficiais os ignoravam enquanto os manifestantes entoavam em coro a frase: “SEM VIOLÊNCIA!”.

Tive lesões nos braços e nas mãos que resultaram na quebra da minha ferramenta de trabalho, fato que me impediu de registrar as ações de abuso, coerção e violência cometidas pelos policiais.

O cerco realizado pelo Pelotão Ninja da Polícia Militar durou cerca de uma hora e muitos manifestantes, jornalistas e advogados foram retirados do local com truculência. O Governo do Estado de São Paulo adotara ontem uma nova medida para conter os manifestantes: técnicas de jiu jitsu, arte marcial que prevê imobilizações. Comigo não foi diferente, fui retirado do cerco com uma chave de pescoço, e encaminhado para a calçada com outros 200 manifestantes. Durante todo este período argumentei com os policiais que eu trabalhava para a imprensa e gostaria de comunicar isso a um oficial superior. Sem sucesso. Advogados do grupo “advogados ativistas” que prestam serviço gratuito aos manifestantes presos durante os processos foram impedidos de exercer seu trabalho e retirados do bloqueio com golpes e imobilizações da técnica jiu jitsu.

Esse cenário propicia a seguinte indagação: o que é ordem para o Estado? os policiais seguem uma filosofia imposta que impõe a violência e a brutalidade em vez do diálogo. Pela primeira vez na vida tive a sensação clara de estarmos no mesmo clima da ditadura que completa 50 anos em 2014. Tive meu trabalho impedido moral e fisicamente, além da quebra parcial do meu equipamento fotográfico e a forte sensação de que a polícia e governo do Estado ainda se orientam pela violência presente na ditadura. A triste experiência do 22 de fevereiro me remete ao sofrimento incomparável que os manifestantes e presos políticos passaram durante o período do Golpe Militar no Brasil.

A polícia que quer passar à sociedade uma postura de ordem e organização se mostrou bastante desorientada sobre como encaminhar os detidos. Após o cerco fomos levados para diversas delegacias da região central, sem a posse dos nossos pertences e, portanto, sem comunicação para denunciar e buscar ajuda ao grupo. Outros colegas da imprensa e os advogados que também foram detidos alegam que tiveram seus trabalhos impedidos, pois policiais agiram com violência contra os instrumentos de trabalho além de ameaçados verbal e fisicamente pela força do Estado. Ameaças de morte, assédio moral e físico são práticas recorrentes nos protestos e demonstram a presença totalitária do Estado. É inquietante o fato de a Polícia Militar determinar o que a imprensa deve ou não fazer e divulgar. É uma atitude que impede nosso trabalho.

Após um longo processo de averiguação e encaminhamento à delegacia, fomos liberados um a um e assinamos boletins de ocorrência não criminal, relatando nossas versões dos fatos. Mais do que isso, acredito que o papel dos colegas de imprensa seja denunciar judicialmente os abusos cometidos por policias e cabe a nós, enquanto membros organizados da imprensa, batalhar por uma sociedade mais igualitária e menos opressora.

Icu e o menino que furtava livros

por Cidinha da Silva

Em A menina que roubava livros, a mãe de Liesel Meninger, personagem principal, era comunista e sofria perseguição nazista. Seus filhos, como ela, várias vezes escaparam da morte no período de 1939 a 1943. A violência se alastrava como erva daninha por todos os cantos da Alemanha e a morte, perplexa diante da degradação humana, resolveu narrar a história de Liesel que driblava seu cheiro (da morte) exalado das valas comuns, dos corpos de homossexuais, descapacitados, comunistas, judeus e todos os adversários do nazismo, incinerados nas câmaras de gás.

A morte, então, acompanha a trajetória dos livros que escapam das grandes fogueiras públicas promovidas pelo Estado e como Liesel os resgata, assim como rouba outros de bibliotecas e passa a alimentar-se do perfume de vida difundido pelas mentiras deliciosas e encantadoras contadas nas obras literárias.

No Brasil, 71 anos depois da 2ª Guerra, Alex Santana não tem a mesma sorte de Liesel e é preso ao furtar três livros em uma livraria de shopping soteropolitano. Segundo declarações prestadas na delegacia, foram três livros naquele momento, mas o menino já havia furtado outros sete. Todos para estudos.

O texto da notícia enfatiza o gênero dos três livros furtados, ficção. Fica no ar o sub-texto, não eram livros para estudos? Icu, pesarosa, testemunha do desfalecimento do desejo de voar do menino, pergunta: quem decretou que só se estuda em manual ou livro didático? Se alguém rouba um pão francês é porque tem fome, mas se rouba um chocolate ou sorvete é porque tem febre de riqueza e luxo? E Icu mesma responde: é que no furto praticado pelos pequenos, o sonho e a delícia não são permitidos.

Icu, testemunha da luta de Alex pela sobrevivência, resolve defendê-lo na justiça, pois que, sem recursos para pagar fiança, mandaram o menino para o presídio da Mata Escura, onde os dias não amanhecem e as noites de lua desconhecem a ternura.

Diz Icu na peça de defesa: todos os viventes um dia serão meus, é a certeza mais perene da vida. Mas de alguns, como Alex, a vida, minha opositora, me aproxima pelas iniquidades impostas ao caminho. Essa gente integra coletivos de pessoas expostas à precariedade, ao racismo, aos abusos, à violência. Gente que sobrevive por teimosia. Deles costumo gostar e quero que vivam, mas a vida insiste em que eu os leve.

A vida tentou me convencer a levar Alex e tantos meninos iguais a ele, quando as mães não conseguiram fazer pré-natal, quando nasceram e não foram pesados e cuidados nos postos de saúde como todas as crianças deveriam ser, quando a família não pôde alimentá-los como mereciam, quando as doenças típicas da miséria os acometeram, quando escaparam das chacinas, porque minha irmã, a sorte, fez com que o morticínio ocorresse minutos antes da passagem deles pelo local. A vida quer entregá-los a mim, na bandeja, como prato frio e amargo. Eu me recuso a comer. Eles driblam a vida como grandes jogadores que aprendem a ser e conseguem me evitar.

Meu cliente, senhoras e senhores jurados, ao furtar três livros de ficção, em ato extremo de resistência ao nada que lhe é destinado pela vida, afirma que, de todas as mentiras empurradas pela garganta (da inexistência do racismo, da existência da igualdade, da justiça, do equilíbrio no julgamento do delito, do tratamento humano para seres humanos), a literatura é a mentira menos danosa. Por isso, peço sua absolvição.

* * * * * * * 

escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O enigma de Kaspar Hauser


Um colóquio sobre as relações humanas, o corpo e o amor

por Alexandre Luzzi   ilustração Marcelo Martins Ferreira*

O menino Kaspar Hauser apareceu pela primeira vez numa praça de Nuremberg, Alemanhã. Era um estranho: ninguém sabia quem era ou de onde vinha. Trazia uma carta de apresentação anônima para o padre da paróquia local, contando que fora criado sem nenhum contato humano, em um porão, desde o nascimento até aquela idade (provavelmente 15 ou 16 anos) e pedindo que fizessem dele um homem com a capacidade de amar.

Quando apareceu em Nuremberg, o garoto não entendia nada do que lhe diziam; sabia falar apenas uma frase: “quero aprender o que é o amor.”

Soube-se mais tarde (quando ele aprendeu a falar) que uma pessoa, que Kaspar não conheceu, era seu mantenedor enquanto esteve isolado, deixando-lhe alimentos enquanto dormia.

Acolhido na paróquia, logo o padre se ocupou de iniciar sua socialização. Com o tempo, aprendeu a falar. Mesmo a linguagem não lhe permitia capturar esse estranho mundo em que vivem as pessoas. Sua dificuldade de comunicação era imensa, já que não tinha referencial emocional e afetivo. Logo vieram as primeiras lições sobre o amor, vindas do padre que o tutelava:

 Kaspar, o amor é algo ainda maior do que a morte e a dor, maior do que tudo. Esse foi o exemplo do nosso mestre, Jesus. Bem-aventurado é aquele que ama seu amigo “em” Deus, assim como seu inimigo por amor a ele também. E não se esqueça, quem semear da carne, da carne colherá corrupção, quem semear no espírito, do espírito colherá a vida eterna.

Kaspar Hauser se sentia confuso. Como representar figuras tão abstratas como Deus, espírito, eternidade, amor? Como desprezar seu próprio corpo se tudo o que podia conhecer até então eram resquícios mentais e afetivos de necessidades extremamente corporais como a fome, a dor, os impulsos sexuais e agressivos.

A incapacidade de comunicação e o nível de abstração exigido foram barreiras intransponíveis. Ao sucumbir da tarefa e na esperança de mais sucesso o padre enviou Kaspar, com uma nova carta de recomendação, para um cientista amigo chamado Rene, que recebeu o jovem com o seguinte discurso:

 Não se preocupe, nada escapa ao olhar da ciência, tudo que temos a fazer é encontrar uma metodologia adequada para investigarmos as causas desse fenômeno em questão. Antes me responda: após ter passado certo tempo na paróquia, como se sente? E o que pôde aprender?

Kaspar ficou em silêncio, mas não somente por sua dificuldade de falar e se expressar. Com esforço, ousou dizer:

 Sr Rene, o padre da paróquia foi muito gentil em me acolher e me explicou muitas coisas sobre quem criou o mundo e todas as criaturas, além disso, explicou coisas importantes sobre o amor e sobre quem sou, porém ainda não pude experimentar tal sentimento. Mas a experiência na paróquia não foi de todo mal, aprendi o que é o medo e hoje sou temente a Deus, além disso, sei que meu corpo pode ser um grande inimigo na busca do amor verdadeiro.

 Hora Kaspar, não leve isso tudo tão a sério, afinal, o que não pode ser demonstrado nada mais é do que um exercício de fé. Veja, talvez nosso corpo não seja esse grande vilão, tudo que temos a fazer é submetê-lo aos comandos da razão. Nosso corpo é uma máquina perfeita Kaspar, e pode estar aí a causa de todos os seus problemas, pois um sentimento como o amor também depende de uma produção orgânica e cerebral.

 Sr Rene, mas por quais razões Deus teria me criado com defeito?

 Talvez Deus não tenha nada a ver com isso Kaspar, você foi muito mal cuidado ao nascer. Lembre de quando comentei que para todo efeito há uma ou mais causas, então, talvez a formação de seu cérebro tenha sido prejudicada pelos maus cuidados.

Ao ouvir essas palavras Kaspar sentiu algo que, até então, não havia experimentado. Seu corpo se encheu de energia, seus caninos saltaram aos olhos do cientista, suas mãos se colocaram em posição agressiva e tudo que o Sr. Rene pode fazer foi nomear tal experiência para o conhecimento de Kaspar:

 Isso o que você está sentindo agora chamamos de raiva.

Logo em seguida, a imagem do padre da paróquia se apoderou da mente de Kaspar, seu corpo teve outra reação, dessa fez freando seus movimentos e produzindo nele uma espécie de apatia. Surgia nele a culpa, um novo sentimento a ser nomeado.

 Sr Rene, quer dizer que tenho um defeito no cérebro causado por outra pessoa e por isso não posso amar? O Sr. Seria capaz de concertar minha cabeça? O cientista sorriu ao observar tamanha ingenuidade e decidiu então enviá-lo para um amigo psicanalista. Quem sabe a ressignificação das experiências passadas não seria algo mais útil.

E lá foi Kaspar com mais uma carta de recomendação bater na porta do consultório do Sr. Sigmund. Na carta o cientista detalhava toda a sua trajetória incluindo suas últimas experiências. Ao lê-la com cuidado e atenção, Sigmund começou sua explanação:

 Veja Kaspar, todo discurso que assume um estatuto de verdade absoluta pouco pode dizer sobre o amor. A experiência do amor responde sempre a categorias como a contradição, a dúvida, o imponderável.

O Sr. Sigmund interrompeu seu discurso ao observar a expressão de angustia em Kaspar:

 O Sr. está querendo me dizer que quando amamos não possuímos garantia de nada, ficamos vulneráveis? Nesse caso, por quais razões escolhemos amar alguém?

 Jamais sabemos ao certo Kaspar, porém, dentro do que venho observando em minhas pesquisas, escolhemos alguém para atualizar e dar sentido às primeiras relações amorosas infantis. O amor não é um sentimento inato, é preciso aprender a amar a partir da experiência com aqueles que nos amam e, para tanto, é preciso a vitória parcial sobre dois inimigos, o medo e a culpa.

Ao ouvir o dr. Sigmund, Kaspar sentiu desespero, pois algo lhe dizia que a possibilidade de se humanizar seria inalcançável. Tempos depois, Kaspar foi encontrado morto. Nada souberam sobre os motivos de sua morte (se assassinato ou suicídio). No cemitério de Ansbach, na Alemanha, há uma inscrição na lápide de Kaspar assinada por um desconhecido que diz: “Aqui jaz um desconhecido”. De fato, nada resume melhor o misterioso percurso da vida e morte deste homem.

O FILME

O texto foi inspirado no filme alemão de 1974, Jeder für sich und Gott gegen alle (O Enigma de Kaspar Hauser, na versão brasileira), do diretor Werner Herzog. O filme narra a história de Kaspar Hauser, uma criança abandonada envolta em mistério, encontrada na Alemanha Ocidental do século 19. O filme fez parte da competição para a Palma de Ouro no Festival de Cannes (1975), onde ganhou três prêmios. Abaixo, a versão completa e legendada em português.



* * * * * * * *

*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

De vida e morte


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Morrer passa logo, viver é que às vezes parece pra sempre. Palavras do Duarte, parceiro da Maria Moura no faroeste caboclo de Rachel de Queiroz. Para quem vivia sob fogo cruzado, disputando terras nos cafundós do Brasil imperial, a morte era uma possibilidade concreta em cada arbusto, cada pedra, cada dobra de coluna. Ainda o é para quem até hoje disputa terras nos cafundós do Brasil, como os índios, tentando preservar um restinho da enormidade que a civilização lhes tomou. Poucas palavras são tão cínicas quanto “civilização”.

Não me lembro de já ter vivido algum perigo de morte iminente. Ouço contar que, recém-nascida prematura e muito frágil, alimentei durante alguns meses em minha família o temor de não vingar. Disto não tenho memória consciente, confio no que me contam.

Pensando bem, aconteceu, sim, quando eu viajava num avião que sofreu uma pane sobre o Atlântico e teve que fazer um pouso de emergência. Até que pousasse em segurança, foram quase duas horas de pensar que talvez não chegássemos ao chão vivos. Um silêncio espesso e profundo se fez naquele grande avião lotado, cada passageiro e cada tripulante curtindo o medo e a expectativa em sua própria língua interior.

Quanto mais o tempo passa, mais sinto a vida como um acaso, um inesperado que se renova o tempo todo. Ninguém quer a morte, só saúde e sorte, confirmou mestre Gonzaguinha no samba famoso. Até os quarenta anos, somos todos imortais. A partir de um certo momento, a danada começa a se infiltrar no juízo da gente, de mansinho. Atualmente, tento vê-la com a naturalidade que ela requer. Se não temos saída, não adianta fazer drama, esconjurá-la ou fingir que não vai acontecer. Mas é ela lá, e eu cá. Por enquanto, nada de intimidades.

Vida e morte se encontram também na comédia, como no delicioso e destrambelhado seriado “Pé na cova”. Na vida real, gosto muito da história da minha amiga que, estando numa rápida viagem a trabalho, decidiu esticar mais um dia, para acompanhar outra amiga, que havia perdido uma pessoa da família. Foram juntas tomar todas aquelas providências de praxe. Sua única muda de roupa trazida de casa já estava em uso, e a correria era grande. A caminho do velório, passaram as duas pela casa da falecida em busca de algum documento. Encontraram no armário um tesouro: calcinhas novas, dentro da embalagem. Se você está desacreditando que uma delas foi imediatamente vestida na visitante, acredite já! Pois foi. Mais uma para o inesgotável anedotário de velórios e enterros, que teria feito a morta em questão se acabar de rir. Quem nunca riu de uma boa história de morte?

Viver é que às vezes demora, como disse o Duarte lá no primeiro parágrafo. Por isso acho tão necessário espantar a banalidade e tratar de se entender com a vida. Estou tratando.

* * * * * *

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Historietas Urbanas


por Maria Shirts* 

***

Da Solidariedade

Ambiente: Ônibus na Avenida Angélica

O motorista estaciona no meio da Avenida Angélica, em Higienópolis, bairro central da capital paulista. Em meio às muitas buzinas dos Audis detrás do ônibus, ele fala com o passageiro do primeiro banco:

– Vamos lá André?

Os passageiros, atônitos, procuram ver o homem, que se levanta com agilidade e uma bengala própria para cegos na mão.

O motorista abre a porta do veículo, pega André pelo braço, cruza a Angélica parando, mais uma vez, o trânsito de carros. Volta correndinho, entra e retoma o caminho.

***

Histeria sem noção

Ambiente: Rua Coronel José Eusébio

Vindo a mais de 60 por hora numa rua estreita e pequena, a senhora teve que freiar suas 2 toneladas de carro quando uma mãe com seu pequeno filho atravessava a rua, uns 20 metros antes da faixa de pedestres.

Ela, que vinha buzinando histericamente há bons 50 metros parou e começou a bater palma ironicamente, ao mesmo tempo em que gritava “DÁ PRÓXIMA VEZ VAI PELA FAIXA SUA SEM NOÇÃO”.

***

Em inglês

Ambiente: Busão na Avenida Sumaré

Dei sinal para descer e me levantei para esperar o meu ponto de ônibus junto à porta. Estava lendo O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, em inglês. Já chegando em meu destino o cobrador perguntou:

– Você fala inglês?

– Falo sim

– Demorou pra aprender?

– Com certeza, acho que fiz uns 10 anos de aula

Levantou as sobrancelhas em expressão de surpresa e disse:

– Deve ser legal falar inglês

Emudeci. E desci no ponto.

***

Xavequeiros Indecisos

Ambiente: Rua Aspicuelta

Passaram por mim buzinando. Eram quatro homens num só carro:

– Gostosaaa!!!! Gostosa!!!! Uhuu!!!!

Respondi:

– Vai à merdaaa!!! Bando de folgado!!!!

O trânsito, parado, os fez frear. Eu, a pé, continuei pela calçada que beirava o veículo do quarteto fantástico. Sem delongas, gritaram: - Fiu fiu! Que princesa hein!!! Gostosaaaa!!!

Me limitei a fazer um tradicional e obsceno gesto com as mãos.

Eles, ofendidos, gritaram:

– Vai se fudêê! Gordaaaaa!! Feiaaa!!!

* * * * * * * * * 

Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Culpados


por Fernanda Pompeu

A figura do bode expiatório é tão antiga quanto a prática de encontrar um culpado - tenha ele culpa ou não - para um desgoverno, uma calamidade, ou mesmo para um desfortúnio pessoal. Culpar alguém fora de nós pode aliviar a dor, mas não resolve o problema. Digo que também há acidentes sem culpados, as fatalidades. Escorregar numa folha seca, bater com a cabeça no meio-fio e morrer. Nesse caso, de quem é a responsabilidade? Da folha? Do meio-fio? Do acidentado?

Mas voltando à expiação. Dependendo do momento político-econômico, os culpados viram sujeitos coletivos. Os judeus foram perseguidos em épocas diferentes da história. Idem os árabes que, neste começo de século, são os bodes do ocidente. Imigrantes também levam a culpa quando o desemprego aumenta. Quando tudo vai bem, são bem-vindos. Basta o barco fazer água para muita gente querer afogá-los.

No Brasil de 2014, a Copa do Mundo é candidata preferencial a bode expiatório pelas nossas (velhas) maldades. A educação vai de cinco a zero? Culpa da Copa. A saúde pública é uma doença generalizada? Culpa da Copa. Meu amor não me ama mais? Culpa da Copa! Os políticos também viraram culpados coletivos. Mais fácil jogá-los na vala comum da corrupção, do que diferenciá-los. Mais simplório se esconder atrás de uma máscara do que pôr conteúdo nos protestos.

Pois diferenciar, matizar, organizar dão trabalho. Nos obrigam a mexer com os neurônios, a buscar referências, a estudar a História do Brasil. Quantos se dispõem à reflexão? Menos trabalhoso meter a boca na Copa do Mundo, xingar a todos. Mais confortável dizer ninguém me representa. Assim como na vida pessoal, preferimos acreditar que a relação amorosa não deu certo porque o outro teve a culpa.

Se levássemos em conta que todos temos responsabilidades e que essas responsabilidades se entrecruzam, talvez não precisássemos eleger bodes expiatórios. Políticos ruins são reeleitos por eleitores ruins. Programas de baixarias na TV são mantidos por espectadores que gostam de baixarias. Então vale perguntar: como eu colaboro com a violência e a humilhação? Como eu colaboro para nossa tremenda desigualdade?

Respondendo a essas questões, posso chegar a outras perguntas: O que eu posso fazer pela não violência? Como contribuir para um Brasil educado? De que forma votarei melhor? Que habilidade posso oferecer à sociedade? Qual a taxa de densidade do meu grãozinho de areia na praia do mundo?

* * * * * * * 

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis sobre "O acusador" de Adèle Vergé.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Cada um que cuide da sua bituca


por Thiago Domenici*

O dono da banca de jornal localizada na esquina da rua Ministro Godoy com a Turiassú, em Perdizes, mantém o ritual diário da antiga dona. Todos os dias ele disponibiliza um cinzeirão para os fumantes de plantão.

“Aqui jazem bitucas”, como se vê na imagem acima. Eis uma irônia e também uma dura realidade. Diz o jornaleiro que muitas delas, de fato, jazem ali no cinzeirão ao fim do dia. É “uma atração” dos passantes, ele conta. “Fazem fotos e dizem que é legal”. Diariamente, sem folga, ele tem de limpar a área para novas bitucas serem depositadas. A guimba é o fim do cigarro fumado. É um resíduo diminuto, formado de papel, filtro e tabaco e que pesa, em media, meio grama. Meio grama e muitas substâncias tóxicas. Meio grama que aos montes pesam toneladas e poluem a cidade.

Os filtros dos cigarros são tão resistentes à biodegradação que ficam no solo e na água por mais de cinco anos. Esses restos são responsáveis por 25% de todos os resíduos encontrados em limpezas de praias pelo mundo. Aqui em São Paulo são algumas toneladas diárias. Todos os dias vejo centenas delas no chão ou sendo arremessadas a ele. Um péssimo hábito!

Um estudo de anos atrás apontou que duas guimbas de cigarro geram a mesma quantidade de poluição produzida por um litro de esgoto. Outro problema são os acidentes com fogo, por exemplo, queimadas, causadas, em sua maioria, pelo arremesso de bitucas dos veículos em movimento. O problema é tão constante que no ano passado, 90% das multas no Rio de Janeiro por jogar lixo no chão se referiam ao cigarro. No Paraná também já existe multa para os deseducados na bagana.

Um levantamento recente indicou que são cerca de 20 milhões de fumantes no País, além de 70 milhões de fumantes passivos (meu caso). O mesmo levantamento diz que nos últimos seis anos o número de fumantes no país diminuiu 20%. É uma ótima notícia a diminuição de fumantes. Péssimo é perceber que isso não se aplica a quantidade de chicas jogadas na rua.

Penso que além de multa a quem joga o troço no chão, uma campanha bem-humorada e educativa ao estilo “Aqui jazem bitucas” poderia adiantar alguma coisa. Mas a prerrogativa não é só brasileira. Em Paris, segundo cálculos, são jogadas 315 toneladas de pontas de cigarro nas calçadas anualmente. A lei francesa prevê multa de 35 euros – algo como 112 reais. Lá, a meta para esse ano é chegar a 30 mil cinzeiros espalhados pela cidade.

Fuma quem quer, é verdade, mas cada um que cuide da sua bagana, né?

* * * * * * * 

Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O alienígena



por Cidinha da Silva

Um homem foi surpreendido na plataforma do trem em confabulação serena com os próprios botões. Perdia-se no infinito da linha férrea enquanto aguardava a máquina transportadora, de gente, de sonhos, de preguiça, de cansaço, de medos.

Ele mesmo portava esses sentimentos todos. Tinha preguiça de ver tantos dedos teclando, tantos olhos vidrados na tela, tanta conversa sem escuta, tanta exibição de conquistas pelos canais virtuais em busca de afeto e admiração.

Tinha o cansaço da faina diária, oito horas no computador, as preocupações com o dinheiro curto e muito trabalho, os colegas desesperados no banheiro acessando as redes sociais pelo celular.

Tinha medos e pesadelos. Medo de ser soterrado pelos aparelhos de comunicação, pelos auriculares, teclados, microfones, fibra ótica, telas sensíveis, falantes e curiosas, pelos avisos de compra efetuada naquele momento via cartão de crédito dele, cujos dados desconhecia (da compra e do cartão).

Tinha sonhos de viajar nas férias, de encontrar um novo amor, de pedalar com esse amor e curtir as montanhas, próximo a um lago e uma estação de esqui. No lago haveria patos selvagens mansos, cisnes, botos e as vitórias régias que ele teria importado dos rios amazônicos nas férias do ano anterior.

O homem esperava o trem e tinha a alma silenciosa e feliz de um ser urbano que não vive a vida num smartphone.

* * * * * * * 

escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Morte matada


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna

Assuntos sobram: o beijo de amor de Félix e Niko, o trágico e violento desaparecimento do cineasta Eduardo Coutinho (que dói em mim), o cinegrafista atingido mortalmente por um rojão durante uma manifestação no Rio, a filha de Woody Allen insistindo em acusá-lo de abuso sexual e pedofilia (ela espera ser ouvida, ele desmente tudo, mas acho muito importante prestar atenção quando alguém, qualquer pessoa, faz esse tipo de denúncia), médicos cubanos desertores, a patética e incansável torcida do contra, o prefeito de um município amazonense acusado de aliciar meninas para orgias sexuais, o crescimento exponencial da violência e da insegurança em Brasília e até mesmo a suposta crise conjugal de Obama e Michelle. E muitos mais.

Mas há um que se acavalou no meu cangote e fica ali cafungando seus acres vapores: os assassinatos de homossexuais, transexuais e travestis. Morrem atacados na rua, em suas casas e escolas porque são diferentes. Não uma diferença qualquer, mas uma diferençona bem grandona, que agride, ofende, incomoda mais que qualquer outra, ao que parece.

Enquanto milhões de espectadores se deleitavam com a tal cena do beijo gay na TV Globo, há alguns dias, outros milhões bufavam de raiva pela ousadia da cena. São os que acreditam poder parar o tempo. Ou que creem que a honra, a virtude e o caráter dependem da aparência condizente com o sexo biológico ou do uso certo ou errado que se faça da genitália. Gente que não entende nada, absolutamente nada, de amor, acolhimento, compaixão, compreensão, respeito. Alguns até acham que entendem, mas, para colocar suas virtudes em ação, exigem que os “diferentes” desistam de si mesmos e se tornem iguais a eles.

Se de fato amassem os “diferentes”, defenderiam sua vida e seu direito de vivê-la, independentemente de qualquer outra coisa. Não se calariam diante das centenas, talvez milhares de assassinatos de gays, lésbicas, travestis, transexuais e transgêneros que acontecem no nosso país todos os anos. Pessoas agredidas, humilhadas, expulsas das escolas, igrejas, famílias e comunidades. Pessoas que poderiam estar compartilhando conosco sua inteligência, capacidades, potencial intelectual e sensibilidade, mas são impedidas. Em muitos casos, sadicamente confinadas no mercado sexual, e discriminadas também por isto. São atacadas com ódio, desfiguradas, submetidas a “tratamentos” toscos. Assassinadas. Assassinados.

No último fim de semana, fui a um restaurante muito tradicional de Pirenópolis, aqui em Goiás, onde já estive inúmeras vezes. Havia lá um garçom antigo, sabidamente gay, que sempre atendia a todos com eficiência e cortesia, equilibrando bandejas enormes pelo salão. Notando sua ausência, perguntei por ele:

— O Fulano não está mais aqui?
— Ih, a senhora não sabia? O Fulano morreu.
— É mesmo? Puxa, que pena! Morreu de que?
— De morte matada.

* * * * * * 

 Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Qual a sua Geni?


por Fernanda Pompeu*

Faz trinta e seis anos, Chico Buarque compôs uma canção cuja letra conta de uma mulher que já foi namorada "de tudo que é nego torto, do mangue e do cais do porto. A rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos, dos velhinhos sem saúde, das viúvas sem porvir." A cidade toda, ao vê-la, canta em coro um refrão: "Joga pedra na Geni! Ela é feita para apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!"

Um dia aterrissa um zepelim gigante na cidade. Seu comandante ameaça explodir tudo "com dois mil canhões". Mas ao ver Geni, ele se encanta e faz a proposta: se aquela formosa dama o servir, a população estará salva. Acontece que ela se recusa a dormir com o mandabala. Diz: "Prefiro amar com os bichos." O prefeito, o bispo, o banqueiro, o zé-ninguém imploram para Geni dar para o forasteiro e resolvido. A chamam de "Bendita Geni!"

Geni domina o asco e cede. "O homem se lambuzou a noite inteira até ficar saciado, e nem bem amanhecia partiu numa nuvem fria com seu zepelim prateado." A cidade foi salva pela mulher que todos desprezavam. Ela vê a aurora surgir e, por um momento, se sente uma heroína. Melhor, uma redentora! Até ouvir o coro dos cidadãos: "Joga pedra na Geni! Joga bosta na Geni! Ela é feita para apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!"

Às vezes penso nas milhares de Genis que habitam ao nosso lado. Geni não é necessariamente uma mulher. Não é necessariamente uma prostituta. Ela pode ser o garoto gordinho que sofre bullying na escola. A adolescente lésbica enfrentando uma malta de machos. A menina negra coagida a alisar seus cabelos. A travesti morta a facadas numa esquina qualquer. O homem tão pobre que nem dinheiro sobra para andar de ônibus.

Ao olhar para as Genis, reflito também nos atiradores de pedras. Sujeito individual ou coletivo que sonha em fazer do mundo sua imagem e semelhança. Aquele que é contra o casamento homossexual, porque é hétero. Aquela que é contra as cotas raciais, porque nasceu branca. Aqueles que condenam os ateus, porque são de Jesus. Aquelas que falam mal das outras, porque são do bem. Qual a razão de um comportamento diferente ou minoritário ameaçar a maioria? Quem tem direito de impingir um jeito de viver sobre um outro jeito? Eu sei! Somos ótimos juízes da vida alheia e péssimos quando se trata da nossa. Mas, talvez, a canção do Chico Buarque seja uma oportunidade para nos revisarmos e, com algum esforço, eliminarmos ideias ortodoxas, fundamentalismos sufocantes. Viva e deixe o outro viver sem julgamentos e pedras pode ser a luz do farol a nos guiar entre rochedos.

* * * * * * * 

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O Grande desafio das massagens: Parte 2



por Thiago Domenici    ilustração Ligia Morresi*

Tomas Chiaverini não gosta de ganhar massagem. Dá pra entender? Ele diz que não gosta e ponto. E o fato de ele não gostar acometeu esse texto e o dele, depois de um papo virtual despretensioso.

Faz tempo quero falar desse assunto. Faz tempo: digamos que há 5 mil anos existem registros de desenhos do uso de técnicas de massagem na China, Japão, Egito, Pérsia – atual Irã. Massagem, veja você, é a manipulação do corpo do outro por meio do toque o que nos traz muitas vantagens terapêuticas.

Minha experiência mostra que os pés são templos de sentidos. É um universo. As costas, talvez uma preferência nacional, são minha segunda opção. Apesar que o seguinte: minhas panturrilhas tem se destacado nos últimos anos como minhas preferidas zonas de dor e prazer. Ficar sentado muito tempo dá nisso. E dá noutras coisas também, mas deixa pra lá.

Massagem exige muita técnica e estudo. E a técnica somada a mais ou menos força gera prazer, libera endorfina – a substância do bem-estar. E o prazer, ao gosto do freguês, ora vem com ou sem dor. Muita atenção: não é só maçarocar o sujeito de qualquer maneira que tudo se resolve. Não, não, não.

Tem de tudo na massoterapia: da anti-celulite a ayurvédica; da anti-stress a holística; da massagem com velas a quick massage; da aromaterapêutica a biodinâmica; do shiatsu a tibetana; da sueca à redutora; da pedras quentes a tailandesa etc

Digo de brincadeira mas é muito sério: todo ser humano devia ter direito a massagem. E essa coisa toda tem base científica. Não é piração. Os gregos da antiguidade e chineses de séculos passados já praticavam massagem em seus atletas depois de exercícios.

E uma turma de cientistas no Canadá demonstrou que os gregos e chineses entendem do negócio. O estudo mostra que a massagem facilita a recuperação após danos musculares. Dez minutos de massagem reduziram os sinais de inflamação nas células. E, algo que vai merecer mais estudo, o "resultado foi parecido ao produzido por analgésicos”.

Bom, é preciso também ver o lado do massagista – “doador” –, profissão das mais nobres e difíceis. Há que se ter uma empatia entre massagista e massageado. Ele pode, oras, até negar a massagem. Seria justo caso o sujeito não se apresente em condições adequadas ou com ideias erradas na cabeça.

Pense bem: não é tão culturalmente natural deitar numa maca com parte do corpo despida diante de um desconhecido. E o massagista, por azar, pode pegar cheiros e texturas pouco ortodoxas durante sua jornada profissional. Massagista amiga minha é da tese que todo mundo devia tomar banho antes da sessão. Eu topo. Mas o Tomas não. Cada um na sua. Não tô aqui para provocar ninguém.

Como tudo que é bom – ou quase tudo – não é barato, penso que a popularização da massagem ia ter impacto econômico-social positivo na sociedade. Mas a felicidade, nesses casos, tem preço – e no caso em questão varia bem e não tem muito a ver com a inflação.

Para dar rumo final a essa prosa, não se pode negar que a questão prazer-dor tem uma vertente sexual – veja bem, sexual não é sexo. O ato de dar e receber massagem tem uma ligação de corpos, de sentidos e sensações. Portanto, a ver com doar e sensibilizar.

A melhor massagem da minha vida será sempre a próxima. Ao fim, aquele sono que me dá e um relaxamento gigantesco é o que todo corpo precisa para vencer o dia seguinte. Entendeu, Tomás?

* * * * * * * *

Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR. Ilustração especial para o texto de Ligia Morresi, designer e ilustradora

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O Grande desafio das massagens: Parte 1



por Tomás Chiaverini  ilustração Victor Zalma*

 Ciberespaço - Gtalk:

Eu: mano, to te devendo um texto, né?
tava com um pronto. mas fui reler e desisti
como anda nosso deadline?

Thiago [editor do NR]: desistiu pq?

Eu: achei ruim

Thiago: tô precisado de texto pra semana que vem

Eu: até que dia?

Thiago: segunda tá bom, mas se puder, me passe a ideia - se já tiver - pra eu tentar a ilustra

Eu: tá fueda
sem ideia

Thiago: haha
então blz, me viro aqui

Eu: vou tentar escrever entre hoje e amanhã

Thiago: ótimo
é o penúltimo cara. faz dois de uma vez e vc já tira férias do NR. daí só ano que vem.

Eu: haha
eu quero ideia pra um!

Thiago: cara, escreve sobre massagem
todo mundo devia ter direito a massagem,
é um negócio incrível

Eu: não curto não
Hum, ok, acho que temos um bom começo, haha

Thiago: faz um contra a massagem e faço um a favor
vira um tendências e debates no NR

Eu: eu fecho

Thiago: então pronto
tô precisando de um tema tb, vou nesse

Eu: vou começar com a nossa conversa

Thiago: beleza, tô curioso pra saber pq não gosta de massagem
diria que você é cheio de não me toques. haha

Pois é isso mesmo. Sou cheio de não me toques. Quer dizer, depende de quem está tocando. Massagem da mulher amada numa langorosa tarde de domingo? Ótimo, delícia, de preferência se uma coisa levar a outra e, enfim, deixa pra lá. O fato é que meu não me toques é com gente estranha, desconhecidos de jalecos brancos ou aventais esverdeados.

Mas minhas ressalvas começam antes, já nas instalações. Que coisa mais de mal gosto a decoração dessas clínicas de massagem, cruzamento de motel com consultório dentário. Enya nos autofalantes, quadros de inspiração budista e gosto duvidoso, fontezinha artificial, colchões de tecido impermeável e panfletinhos sobre vida saudável. TVs de LED sintonizadas no programa da Fátima Bernardes, e aquelas cadeiras todas emendadas, com velhinhas gordas ávidas por falar das netinhas.

Você fica lá, olhando para o nada, tentando evitar contato visual com aquelas pessoas, porque se isso acontecer imediatamente as imaginará sem roupas sendo apalpadas sobre uma maca, até que finalmente chega a sua vez.

Lá vem uma pessoa que você nunca viu e que, via de regra, é um homenzarrão com braços de matrona ou uma matrona com braços de homenzarrão. Aqui vale um aparte, nobre leitor: se sua massagista for uma mulher linda, com decotes provocantes, estamos falando de tipos distintos de estabelecimento. Vamos, portanto, tratar das casas de massagem, digamos, “de família”. Você entra num cubículo, geralmente separado dos demais por uma dessas paredes falsas que servem mais para tirar do que para conferir privacidade (você se acha protegido, mas na verdade estão escutando tudo do lado de fora). Então o homenzarrão (vou ficar com essa variante), manda que você tire a camisa. Isso na melhor das hipóteses. Porque se for do tipo purista vai te deixar só de cuecas, se tanto.

Você obedece. Tira a camisa e fica lá, em pé, esperando se ele vai te pegar pela mão, ou pedir gentilmente que se deite. Detalhe que ele não tirou a camisa. O que por um lado é bom (não são amantes afinal), por outro é estranho (pelas convenções sociais ocidentais, quando um tira a roupa, todos tiram a roupa. Vide piscinas, praias de nudismo, saunas gays). Então você tirou a camisa e está de pé, ao lado do homenzarrão desconhecido, num minúsculo cubículo rescendendo a aromas orientais. Doas auto-falantes jorra uma suave melodia new-age ou, talvez, sons sinuosos de cítaras indianas. O homenzarrão sorri um sorriso profissional e simpático e pede que você se deite de bruços. Se fosse em outra situação era o caso de partir pra cima do infeliz em defesa da própria honra. Mas, nesse caso, você obedece.

Deita sobre aquele lençol-papel-higiênico-de-gigante, que, no entanto, não dá conta de cobrir a maca inteira, e seus braços e ombros repousam sobre o plástico impermeável onde sabe-se lá quantos braços e ombros repousaram nas últimas horas.

A maca é, via de regra, pequena demais para um homem de estatura média. De um lado seus pés ficarão flutuando ali, prontos para levarem um esbarrão das coxas do homenzarrão. De outro, sua cara permanecerá enterrada numa argola acolchoada que mais parece a tampa de um vaso sanitário mirim.

Então lá vem o homenzarrão. E você sabe que ele se aproxima porque, com a cara metida no vaso sanitário mirim, consegue enxergar as unhas do seu enorme dedão despontando de uma ensebada sandália de couro. E voilá. Assim, sem mais nem menos, sem nem pagar um jantar antes, o sujeito está esfregando suas costas nuas e indefesas.

Ah, sim, não poderíamos deixar de mencionar que as mãos gigantescas do homenzarrão estão convenientemente besuntadas em algum óleo vagabundo e fedido, que vai te deixar com cheiro de loja de sabonetes pelos próximos três dias.

Iniciada a massagem, temos dois cenários básicos a seguir, ambos bastante desagradáveis. No primeiro, o sujeito vai se ocupar em tentar colocar seus músculos, nervos e ossos no lugar, com movimentos precisos, firmes e automáticos. Isso lhe causará um bocado de dor, muito provavelmente trará mais problemas do que benefícios, e você sairá de lá direto para um ortopedista, ou para uma farmácia, onde lhe venderão uma bela cartela de Dorflex por um valor equivalente a um décimo do preço da massagem.

No segundo ele lhe acariciará suavemente, espalhando gentilmente aquele óleo todo, talvez cantarolando algum mantra budista. Você pode até gostar, relaxar legal, pode até aproveitar na hora, até pensar na possibilidade de uma tarde langorosa ao lado do homenzarrão com braços de matrona. Nem isso, contudo, tornará menos desagradável a experiência. Porque, passados os quarenta minutos da sessão, o homenzarrão virará as costas, lavará as mãos e lhe dirá adeus, friamente ordenando que acerte o valor na saída.

* * * * * *

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Victor Zalma, especial para o texto

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Como assim você morreu, Renatão?

por Thiago Domenici*

Nos falamos pela última vez na sexta-feira. Ele estava bem, me disse. Combinávamos uma resenha para a Retrato do Brasil e uma matéria sobre Copa do Mundo para a edição de maio. Aos 72 anos, Renatão (Renato Pompeu) mantinha um ritmo de trabalho impressionante. E sempre estava em busca de frilas para pagar as contas.

Hoje você deveria me escrever e fazer uma troça da vitória da sua Ponte Preta sobre o meu São Paulo. E agora, quem é que vai me ligar quase que semanalmente para, antes de contar uma piada e esperar com ar de expectativa o veredicto, perguntar: “Thiagôô, quais são as novidades?” Eu nunca sabia o que responder. “Temos então um jornalista sem novidades, hummmm...”, me ironizava.

Quando ficávamos algum tempo sem contato você dizia: “Thiagôô, é de praxe, entre amigos, que um procure o outro, sabia disso?”. Pois é, Renatão. Pois é... vacilei muitas vezes. Você foi uma grande influência para mim. E tive a oportunidade de dizer isso pra você. E agora, vendo os jornais fazerem seu obituário, me parece uma puta injustiça com o que você foi e representou para tanta gente. Você foi muitos, Renatão, e de uma capacidade intelectual raríssima. Uma enciclopédia ambulante, eu costumava te dizer. Você era um crítico do que se transformou o jornalismo brasileiro. Se indignou com a forma como as mulheres eram tratadas nas redações. Você Renatão, como bem lembrou o Silvio Lancelotti, em depoimento no Facebook, era um tipo inesquecível. Ele diz: “Jamais me esquecerei da noite em que os meganhas do Doi-Codi foram buscá-lo na redação de "Veja" – e ele voltou até a sua mesa porque havia se esquecido do guarda-chuva...”

| Mais de Renatão |
 - Leia matéria abaixo, homenagem do Diário do Commercio
- Morre aos 72 anos Renato Pompeu, um mestre do jornalismo brasileiro (Rede Brasil Atual, por Paulo Donizetti de Souza)

 Um homem com tantas histórias que seus causos preencheriam muito mais do que os 22 livros que você publicou ao longo da vida. Livros, aliás, como Canhoteiro – o Homem que driblou a glória, Quatro-olhos, Memórias da Loucura. Livros incríveis.

Quando o conheci na Caros Amigos, em 2004, você chegava de mesa em mesa contando a mesma piada. Que figura! Lembro ainda de você contar a história do “parabéns para você” antes de iniciarmos a sua festinha com bolo e refrigerante, como era de seu agrado. Sabe, Renatão, tem um causo que sempre conto de você. Num fechamento, lá pelas tantas da noite, ao esperar por horas a chegada de uma reportagem que eu disse que chegaria em 20 minutos, você levantou da mesa e veio até mim com seu andar vagaroso para dizer em tom solene: “Thiagôô, se as minhas fodas durassem os 20 minutos que você diz eu seria um homem feliz...”.

Pois é, Renatão, quem viu você cantar em alemão a “Oração de mãe menininha” não esquecerá jamais. Outra boa sua é a entrevista que deu ao Jô Soares. Divertidíssima e tão lúcida sobre uma situação de grande delicadeza, a esquizofrenia que você tratava.

Em 2009, quando montei para você o seu blog – Blog do Renatão – me senti muito feliz por ajudá-lo a manter ativa sua produção intelectual. Você quis desistir, lembra? Dizia que ninguém lia. Eu retruquei que você tinha eu como leitor fiel e você riu. Obviamente você tinha muitos leitores, Renatão. Você é muito admirado. Então, te pergunto, como assim você morreu?

Suas realizações e trajetória no jornalismo são de arrepiar, apesar de você dar importância menor a isso. Foi copidesque da Folha (então Folha da Manhã) aos 18 anos. Esteve na turma que revolucionou o Jornal da Tarde na década de 1960, participou da revista Veja no seu início, quando era uma revista para ser lida com maior entusiasmo. Ganhou prêmio Esso e tudo o mais. Em 1999, quando ingressou na revista Caros Amigos, onde ficou mais de uma década, levado pelo nosso Serjão, você escreveu que era preciso sair do jornalismo para ser jornalista.

De cabeça, lembro de você ter colaborado para o Jornal do Commercio, Carta Capital, Estadão, Revista do Brasil além desses veículos já citados... E quando te perguntaram em 2008 que conselhos você daria para alguém que está começando no jornalismo você me saiu com essa: “1) Abandonar imediatamente a profissão e escolher outra. 2) Se não for possível isso, procurar se estabelecer por conta própria na internet, com patrocínio próprio que não interfira na sua independência. 3) Se isso também não foi possível, procurar manter a dignidade profissional e preparar-se para uma vida de sacrifícios."

Renatão, guardo com carinho sua mensagem do ano passado, depois de nos desentendermos por uma questão menor, quando você diz, “Saiba que você, entre as pessoas que conheço, é uma das mais queridas”. “Sempre a nossa amizade”, Renatão, como você costumava finalizar ao cantar parabéns para seus amigos. Você vai fazer muita falta.

Essa minha homenagem no NR, blog que você colaborou tantas vezes, é só um carinho a quem tanto quero bem. Seu talento, amizade e grandeza deixa um grande vão nessa selva toda em que vivemos. O jornalista e mestre Carlos Azevedo disse algo muito bonito sobre você no Facebook, Renatão: "O Renato é aquele cara que não morre, que não machuca ninguém, a não ser quem sabe pelo seu imenso rompante amoroso. Lamento muito porque a perda é grande. Uma luz forte que rasgava as trevas da ignorância se apaga. Viva para sempre, Renato, no brilho de seus trabalhos!”. Ao que soubemos seu coração parou na madrugada de domingo. E o meu bate mais forte agora de saudade de você.

 * * * * * * * 

Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

Domenico De Masi e o Brasil cordial, modelo de vida para a sociedade desorientada


por Cidinha da Silva 

A chamada de abertura da entrevista do sociólogo italiano Domenico de Masi ao semanário Época, afirma, de maneira pretensamente ingênua, “que os brasileiros, de um tempo para cá, passaram a ver sociologia em tudo, até no rolezinho dos adolescentes”.

O texto prossegue e apresenta De Masi como um profundo conhecedor do Brasil, que mergulhou nas obras de autores fundamentais para a compreensão do país, tais como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro, embora destes três, o autor mencione apenas Darcy Ribeiro como destaque na formação de seu pensamento sobre o país. Outro intelectual brasileiro que merece citação particular do italiano é Oscar Niemayer. Segundo De Masi, “ambos deram contribuição criativa inestimável para impor ao mundo a excelência original do modelo brasileiro”.

É provável que ao longo do livro “O futuro chegou – modelos de vida para uma sociedade desorientada”, De Masi mencione Freyre e Buarque de Holanda como leituras importantes a informar sua análise. Um tanto conservadora, pois ele parece não ter chegado sequer à geração de sociólogos uspianos da década de 50, responsável por atualizar os estudos sobre relações raciais no Brasil, haja vista os clichês sobre a cordialidade do brasileiro propagados por De Masi, dos quais trataremos um pouco à frente. Mas, é notório que o jornalista quis enfatizar os autores dos nos 30, com os quais deve ser afinado.

Ao descrever a riqueza do Brasil para construir um novo modo de vida, De Masi faz afirmações controversas, no mínimo. Diz ele: “penso na copiosa mistura de raças aliada ao baixo índice de racismo, no sincretismo cultural, no amor pelo corpo, na sensualidade, na cordialidade, na musicalidade, na propensão do brasileiro a assimilar as contribuições dos estrangeiros, na hospitalidade, na alegria, na espontaneidade, na abertura ao novo e ao diferente, na tendência a encarar a realidade com um pensamento positivo, na capacidade de considerar fluidas as fronteiras entre o sagrado e o profano, o formal e o informal, o público e o privado, o emocional e o racional.”

Minha dúvida é se realmente De Masi caracteriza o Brasil em que milhões de brasileiros negros e pobres vivem ou faz uma abstração sociológica com o fim generalista de construir um modelo interpretativo, a partir de teorias e teóricos que optaram por não aprofundar as desigualdades que aqui imperam e suas raízes.

Comecemos pela copiosa mistura de raças... Ela tem servido para nos apresentar ao mundo como nação do futuro, multiétnica, misturada, mas, no frigir dos ovos, a tal mistura produz ganhos reais ou mesmo simbólicos para quem está na base da pirâmide socioeconômica? Essas pessoas são aquelas fenoticamente mais próximas dos ingredientes africanos e indígenas no caldeirão tupiniquim das raças. Cabe perguntar, então, a quem serve e para que serve a “copiosa mistura de raças”.

A propalada sensualidade brasileira também é uma faca de muitos gumes. Por exemplo, é certo que não vemos nas ruas dos EUA ou de países da Europa, beijos cinematográficos ou mesmo o carinho ostensivo vistos nas ruas do Brasil à luz do sol, entre pessoas comuns. E parece que gostamos disso ou consideramos coisa normal, desde que, seja entre casais heterossexuais considerados belos e padrão. Se for um casal de negros, uma parcela significativa da população considerará o ato sensual e carinhoso como atentado ao pudor, porque o stablisment animaliza as expressões de amor e a sensualidade quando vêm dos negros.

Se forem gays, lésbicas ou transexuais, os casais correrão o risco de ser assassinados enquanto fecham os olhos. Se forem pessoas LGBT negras, além do risco de vida que todos os casais homoafetivos correm ao vivenciar seu afeto nas ruas, serão seguramente alvos de piadas racistas que também as matarão, de maneira lenta e gradual. Dessa forma, me pergunto sobre qual sensualidade maravilhosa ou sobre a sensualidade de quais brasileiros De Masi se gaba? A quem essa generalização contempla e quem fica fora dela?

Outra suposta característica positiva do país é a abertura ao novo e ao diferente! Abertura para quem? De qual diferente falamos? Quem tem direito pleno ao gozo de identidade sólida e alteridade respeitada no Brasil?

Como são tratados, por exemplo, os jogadores de futebol negro-brasileiros que, depois de poucos meses jogando na Europa e na Ex-URSS voltam cheios de amor próprio e identidade, com os cabelos crespos grandes, eriçados, trançados, com dreads? Quem os deixa ser diferentes, na verdade, quem os deixa ser parecidos com os seus que reinam altivos pelo mundo ou mesmo aqueles sobreviventes que conseguem escapar do achatamento dos crespos e da mesmice imposta à estética capilar dos homens negros brasileiros? Qual é o programa esportivo que os deixa se diferenciar da média dos boleiros negros em paz? Se a maioria da população representada por esses negros em ascensão não tem direito sequer a usar o penteado desejado sem que se torne alvo de piadas racistas, das mais simplórias às sofisticadas, de que país aberto ao novo e ao diferente De Masi trata?

Considerar uma vantagem a vigência de fronteiras fluidas entre o emocional e o racional, o formal e o informal, o sagrado e o profano, vá lá, são questões subjetivas, mas a fluidez entre o público e o privado não creio que seja uma coisa boa, não.

A urbe mal administrada por gestores que consideram a cidade um bem privado, expulsa as pessoas comuns do centro, evita as aglomerações de gente em shows de música abertos, sob justificativas incompreensíveis de proteção ao patrimônio público. Impede a freqüência aos espaços públicos como praças, ruas e avenidas em dias e horários de pouco movimento. Cerceia o direito de ir e vir das pessoas e, quando permite o movimento, cerca-as mesmo, com cercos de ferro, ora móveis, ora fixos, de um modo geral fornecidos por empresas de políticos e/ou parentes ou coligados deles, aos quais se exime de licitação.

Em Belo Horizonte, teve início em 2010 o movimento Praia da Estação, uma reação a um decreto da Prefeitura Municipal que proibia a realização de eventos de qualquer natureza na Praça da Estação, um dos pontos turísticos mais antigos da capital mineira. A moçada traja roupas de banho, óculos de sol, protetor solar e em finais de semana previamente acordados, ocupa a praça, se refresca no chafariz, bate-papo e resiste à lei autoritária.

Em búzios, praias públicas, como deveriam ser todas as praias, são quintais privatizados das mansões dos ricaços. Ai do cidadão comum que pisar naquelas areias, arrisca-se a levar tiros dos fuzis da polícia privada (muitas vezes composta por policiais militares) que toma conta da área pública privatizada.

Por fim, a inexistência de fronteiras entre o público e o privado impulsiona a corrupção, faz com que a máquina pública seja regida por princípios de economia doméstica e/ou práticas de beneficiamento de empresas privadas.

Como é possível a um sociólogo estrangeiro concluir que o Brasil tem “baixo índice de racismo” quando a imprensa sensacionalista esfrega na cara dele a crescente exposição de homens negros ao suplício público – acorrentados a postes por correntes de metal, cordas e trancas de bicicleta, torturados e amarrados nus com os braços presos para trás, rosto e genitais colados ao asfalto escaldante -, punidos exemplarmente por delitos ou supostos delitos, como forma de recuperar na memória de todos os negros contemporâneos, a escravidão a que seus ancestrais foram submetidos e o que pode acontecer a eles, que assistem às cenas de tortura solidários e enojados, caso não rezem direitinho pela cartilha dos brancos?

Não é aceitável que alguém pleno de capacidades mentais argumente que o Brasil é um país de “baixo índice de racismo”? Uma afirmação como esta me leva a duvidar da seriedade do livro e do pesquisador.

* * * * * * * 

 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Questão de segurança


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Quem já cumpriu a quarta década sabe como era: qualquer assunto indesejável, que implicasse contrariar os desígnios dos senhores fardados e seus muitos asseclas, era rotulado como “questão de segurança nacional” e tratado de acordo. E segurança nacional era um balão inflável, dentro do qual cabia de tudo, desde que tivesse o objetivo de proteger azelite e a classe média contra as terríveis ameaças do comunismo. Entenda-se por “comunismo”, neste caso, o regime político em si, mais o distanciamento da religião católica tradicional, da moral e dos bons costumes já consagrados, da sexualidade entendida e aceita socialmente, dos pobres e pretos conformados com o lugar designado para eles. O país mergulhou numa noite fria e muito escura, que encobriu mortes, tortura e as penas do inferno em vida para muita gente.

Por sua profunda incompetência política e de gestão, sem falar da supressão da liberdade (que sempre cobra um alto preço), a ditadura teve um fim patético, do ponto de vista formal, há quase trinta anos. Mas deixou pegadas malditas, que para mim nunca estiveram tão claras como agora. A mais gritante delas é o fosso que separa os encastelados, protegidos por fortalezas e aparatos bélicos, dos que só muito recentemente estão adquirindo o status de sujeitos titulares de direitos, muito contra a vontade dos primeiros.

Todos conhecemos relatos de escravos, prisioneiros ou miseráveis apáticos, alienados de sua própria condição que, na primeira oportunidade de libertação, reagem de forma brutal contra seus algozes, ferindo-os ou matando-os sumariamente. Nunca se deve subestimar a dor e o ódio do zumanos.

Pois os pobres, os pretos, os peões, as empregadas e os jardineiros estão comendo, estudando, aprendendo e desejando, como nunca, e fazendo tremer o mundinho encastelado. Os shoppings, aonde, nesses tempos inseguros, se vai para comprar e também para tomar um café ou um sorvete, aproveitar o ar condicionado e a conexão wi-fi ou andar à toa, estão na mira dos enjeitados, sujos e barulhentos, que não se contentam mais com a rua. Encontram portas fechadas, polícia e ordens judiciais. A vizinhança dos bairros “de bem” aplaude.

Quanto mais se aprofunda o fosso, mais ele é exposto, num movimento de retroalimentação desesperador. Os noticiários confirmam o que estou dizendo, lá do jeito deles, pois expõem as nossas misérias o tempo todo, num sem fim de corrupção, fraudes, negociatas, racismo, homofobia, assassinatos, sequestros, mais assassinatos, mais racismo, mais tiros, mais bombas, mais grades, mais câmeras, mais sistemas de segurança residencial, mais treinamento de funcionários de condomínios fechados, mais explosões de caixas automáticos, mais medo, real e fictício, mais mais mais.

No fim das contas, a questão da segurança nunca passou de um pretexto. Na ditadura, para perseguir, oprimir, prender, torturar e matar. Atualmente, também, agora travestida de proteção aos que sempre tiveram o Estado do seu lado e se serviram dele até o osso. O aparato de segurança, e a sociedade como um todo, estão tentando lidar com um país incompreensível, com métodos e estratégias de validade mais que vencida.

Não sou especialista no assunto, falo do que sinto e observo. Aliás, não estou dizendo nenhuma novidade. Nossos sistemas políticos e sociais se baseiam em princípios tão equivocados, que o que realmente surpreende é que tenhamos chegado até aqui, acumulando tamanha desigualdade, tanto vício consumista, tantas diferenças e tanta separação, no nosso país e no mundo. Ainda bem que chegamos, pois assim temos a chance de ser mais inteligentes e competentes do que temos sido.

Na minha condição de otimista de carteirinha (talvez ingênua, não descarto), continuo acreditando no diálogo, na negociação, na busca do bem comum, na aproximação – em oposição ao fosso – em diminuir, ao invés de ampliar as diferenças, em compartilhar mais e disputar menos, em contradizer as expectativas nefastas que pairam sobre nós, caso não encontremos formas de convivência mais generosas e menos segregacionistas. Mas é indispensável abrir mão das pegadas malditas, deixá-las para trás. E, quem sabe, alcançar a segurança nacional, a verdadeira, para todos nós. Convém não subestimar o instinto de sobrevivência e a capacidade de superação do zumanos.

* * * * * * 

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Mais uma chance…


por Pedro Mox*

Lembro-me de, inúmeras vezes nos últimos anos, em conversas com familiares ou mesas de bar, argumentar que frequentar estádios no nosso país era algo seguro. Aquele passado dos anos noventa, no qual brigas em clássicos eram quase obrigatórias, havia ficado para trás, e era possível ir e voltar de um jogo sem grandes perigos.

Pois bem, hoje seria obrigado a rever minha posição. A invasão de alguns torcedores ao Centro de Treinamento do Corinthians fez-me repensar em que plano está a segurança do futebol brasileiro. Em pleno ano da Copa do Mundo na nossa casa, o Brasil parece ter regredido várias casinhas no quesito segurança em praças de jogo. Cenas as quais ninguém quer ver – espancamentos, correrias, torcedores “comuns” desesperados – tornaram-se novamente corriqueiras, envergonhando a pátria de chuteiras.

Claro, seria muita ingenuidade pensar que houve um hiato nos casos de violência ligados à torcidas, ou que durante esse tempo ir ao campo era 100% seguro. Entretanto tais conflitos aconteciam, geralmente combinados, no caminho para os estádios, estações de metrô. O interior das arenas reservava-se aos cantos e alegorias.

Todavia, em 2013 esta não foi a tônica. O maior exemplo, não poderia deixar de ser, aconteceu em Santa Catarina, na última rodada do Brasileirão. A partida entre Atlético-PR e Vasco da Gama ficou marcada pela batalha campal entre membros da torcida Os Fanáticos contra Ira e Força Jovem. Partida paralisada por incontáveis minutos, jogadores atônitos em campo, helicóptero para resgatar feridos. Barbárie em estado bruto.

Foi o caso mais emblemático, conquanto houve outros. Na mesma rodada integrantes de duas facções cruzeirenses (Máfia Azul e Pavilhão Independente) brigaram em plena festa de comemoração ao tricampeonato celeste. O estádio Mané Garrincha, em Brasília, viveu tumultos tanto na parte interna, no Vasco x Corinthians, como na entrada, no duelo entre São Paulo e Flamengo. Rodrigo Mattos, do UOL, apurou em seu blog que a edição 2013 do nacional registrou torcidas de 17 times envolvidas em algum tipo de confusão.

Tais fatos nos remetem a outra pergunta: porque atos desse naipe continuam acontecendo? Leniência do Estado, incompetência de autoridades, apatia dos que comandam o futebol, “culpa” das organizadas? Uma mistura disso tudo, porventura. Contudo o principal motivo não é, e pelo jeito mais uma vez, não será atacado: punição a quem comete crimes.

No Brasil todo e qualquer caso ligado a futebol é simplesmente desconexo do mundo real – está inalcançável e inimputável. Experimente discutir com um colega de trabalho e “cair na porrada”. Ou, invadir qualquer estabelecimento privado. Duvido que nada aconteça. Porém, acontecendo em um ambiente futebolístico, há permissão para tudo, como se o motivo justificasse a ação. Dos envolvidos no incidente da Arena Joinville, não há mais nenhum detido – e ficará por isso mesmo, como todos os outros casos aqui citados ou não.

Em reunião no dezembro último, diversas autoridades discutiram o que poderia ser feito em 2014 para que acontecimentos desse tipo não voltassem a ocorrer. Dentre elas Aldo Rebello, ministro do esporte, José Eduardo Cardozo, ministro da justiça, Flávio Sveiter, presidente do STJD e Weber Magalhães, vice-presidente da CBF.

Infelizmente, nenhuma novidade nas conclusões do grupo. Medidas usualmente sugeridas já mostraram-se ineficientes; não adianta acabar com organizadas – que tem sim belo papel nas festas da arquibancada e tem importante papel nos jogos – criar juizados especiais, realizar partidas com portões fechados, entupir estádios com câmeras...

A simples aplicação da lei, a mesma que qualquer cidadão está submetido em seu cotidiano é o maior passo que o estado brasileiro pode dar. Aos envolvidos em brigas, as mesmas penas que sofreria qualquer um pelo mesmo ato efetuado em outras circunstâncias. Talvez assim consigamos avançar alguns passos e, quiçá, chegarmos a estádios sem divisão entre campo e arquibancada.

Que não precisemos de uma tragédia de Heysel para que realmente algo seja feito.

* * * * * * *

*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Acerte na flor


por Fernanda Pompeu*

Os fãs de Steve Jobs conhecem a historinha. Em 1997, ao voltar a ser o mandachuva, depois de anos fora da Apple, a primeira decisão de Jobs foi reduzir de forma radical o prolixo portfólio de produtos da empresa, que contava com quarenta itens. Ele impôs a matriz de apenas quatro computadores. A saber, dois notebooks profissional e doméstico e dois desktops profissional e doméstico. Justificativa: enxugar para focar melhor.

Deu certo! Os computadores ficaram muito bons e a Maçã Mordida lucrou uma barbaridade. Há uma lição aí: se você empreender várias ações concomitantes, a tendência é que haja dispersão e distração. É verdade que o cérebro humano é multifacetado, multiconectado etc. Mas não é multitudo, pelo menos não ao mesmo tempo!

Quem é motorista sabe que segurar o celular, trocar estação de rádio, meter o olho no GPS são distrações - que dependendo da velocidade em que o veículo está - podem levar a desastres. Então é mentira dizer que a nossa atenção acolhe inúmeras situações. A própria palavra foco é elucidativa: você vê a floresta, mas se fixa na árvore. Enxerga o mapa-múndi, mas aponta o dedo para um país. Operamos assim.

A não ser que o seu negócio seja um supermercado ou um armarinho, a dica é diminuir itens, carretéis e alfinetes. Abduzir excessos. Essa lógica não se aplica só a produtos. Ela também abarca a prestação de serviços. Por exemplo, um só profissional escrever bem, fotografar bem, ilustrar bem é sonho gostoso, mas duvidoso. Se você insistir, provavelmente conseguirá ser um mediano redator, fotógrafo, ilustrador. Salvo raras exceções!

Para ser bom no que fazemos é necessário focar! É parecido com o processo de encontrar água debaixo da terra. Não adianta se iludir fazendo furos superficiais pelo terreno. Você tem que apostar num único ponto e cavar fundo. Os processos fluem quando a gente mergulha neles. É básico. Eu demorei pares de anos para me convencer que não era possível dar de comer a toda a minha curiosidade. Tive que deixar morrer à míngua queridos interesses para super alimentar os escolhidos. Anda funcionando.

* * * * * * *

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Política de confinamento x direito à cidade


por Cidinha da Silva

Estava a pensar sobre as conexões entre a perseguição aos rolezinhos, vinda de tantos lados, e a postura de certos críticos à reabertura e revitalização do cine Belas Artes, na esquina da Consolação com Paulista.

Há décadas experimentamos o incremento da chamada política de gentrificação, que expurga as pessoas pobres do centro das cidades, das áreas nobres de interesse da especulação imobiliária para periferias, cada vez mais distantes. Por acaso nos esquecemos dos incêndios aparentemente involuntários que consomem favelas e seus moradores, estação seca após estação seca, e em seu lugar, logo depois são erguidos prédios suntuosos ou estacionamentos gigantescos para carros particulares?

Nessas periferias, a vida tem renascido, é de onde brotarão as soluções para o mundo, segundo o que dizia o professor Milton Santos. Mas, essa vida cultural que se reinventa e que, em alguma medida despreza o centro, produzindo em locais periféricos da cidade de São Paulo um movimento de contra-fluxo, ou seja, de gente do centro que vai curtir a periferia (de carro, lógico, prescindindo do transporte público da região), não responde aos anseios de todos os que vivem lá, notadamente dos meninos e meninas da geração digital-shopping.

Se fizermos uma breve panorâmica dos equipamentos culturais das periferias de São Paulo, veremos que a moçada dos rolezinhos não freqüenta com regularidade os CEUs, saraus, Centros Comunitários de Juventude, Fábricas de Cultura, bibliotecas públicas e/ou comunitárias, rede SESC, teatros e casas de cultura. Esses espaços não lhes dão respostas e, por sua vez, os bailes funk que os agrega, eram perseguidos pelos policiais reformados que geriam as sub-prefeituras e continuam a sê-lo pela polícia, hoje.

Contudo, aos empresários e suas diversas ações de coibição ao rolezinhos, às práticas policialescas de criminalização de jovens que querem apenas o direito de ir e vir, de circular livremente por parte da cidade (os shoppings), à justiça e sua indústria de liminares que proíbem esse tipo particular de encontro de jovens na área dos shoppings somam-se os intelectuais orgânicos das periferias. Estes, desejosos de que esses meninos e meninas frequentem os locais de resistência cultural da periferia.

Esses mesmos intelectuais criticam o apoio dado pela prefeitura para recuperar o cine Belas Artes, alegando que ele é patrimônio apenas da classe média e do povo cult que circula pela Paulista. Eu mesma nunca fui cult, não tenho origem na classe média e sempre gostei muito de arte, tudo assim, superposto, e frequentei assiduamente o Belas Artes e entristeci quando foi fechado.

O Belas Artes em São Paulo, como o Nazaré, o Pathé e o Palladium, em Belo Horizonte, marcaram a minha juventude, de alguém que morava a 40 kilômetros do centro de BH e saía de casa para ir ao cinema ou ficava na rua, porque não havia tempo para ir em casa e voltar fresca a tempo de pegar o início da sessão de cinema.

No Nazaré, assisti Boys in the rude que, como outros filmes do circuito não-comercial permaneciam uma mísera semana em cartaz. No Palladim assisti Blade Runner, clássico hi-tech dos anos 80 e no Pathé, por quatro ou 5 vezes, naquele tempo em que ao fim de uma sessão podia-se permanecer na sala para assistir a próxima, vi Sonhos, de Akira Kurosawa. No Belas Artes, além de ter acesso a filmes africanos pela primeira vez na vida, vi Faça a coisa certa, de Spike Lee, que só chegou em Belo Horizonte dois ou três meses depois e ficou em cartaz durante uma semaninha no cine Nazaré.

A política de confinamento nas periferias das grandes cidades tem muitas faces, algumas inusitadas, e o direito a usufruir da cidade vai do rolezinho nos shoppings (periféricos e centrais) aos filmes do Belas Artes, agora com intervenções da prefeitura para a criação de programas escolares, de barateamento de ingressos para facilitar a circulação de trabalhadores assalariados pela boa programação do cinema.

É certo que muita gente da Angélica e da Paulista dirá que o Belas Artes não é mais o mesmo, que agora é frequentado por uma gente diferenciada. Oxalá seja mesmo assim. Que o pessoal do outro lado da ponte possa exercitar o direito pleno de fruir pela cidade.

* * * * * * *

escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.
Web Analytics