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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 31 de maio de 2013

O que me comove?


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

Este valente arbusto, que todo mês de maio reveste-se inteiro com um véu de delicadas flores brancas. O surto de grávidas ao meu redor, cada qual com uma expressão mais luminosa que a outra. Pernas e braços enroscados, nós dois ocupando metade do espaço da cama, e o silêncio. Os oitenta anos da minha mãe, feliz como uma debutante.

“Janela da alma”, do João Jardim, que chega a doer de tão bonito. Afeto gratuito e espontâneo. O senhor centenário ao meu lado na grande mesa de almoço, há poucos dias, me chamando de menina e me contando que toma duas doses diárias de uísque e vive pensando no futuro. Um diálogo inesperado e profundo, via computador, com gente querida que não vejo há muito tempo. Caminhar sem destino por lugares que me surpreendem. Pensar na minha própria velhice.

Cantar o Hino Nacional num grande auditório cheio. O documentário “Questão de gênero” sobre transexuais. “Amor e seu tempo”, do Drummond, e “Casamento”, da Adélia Prado. Lembrar da infância nos tórridos verões de Lins. Pensar que tudo já me foi tão mais doloroso. Ir à casa da minha filha. Ter visitado Praga com o meu filho. Uma certa história sobre Higienópolis contada pela Cidinha da Silva. O vídeo “Me gritaron negra”, com Victoria Santa Cruz, em preto e branco.

“Noite sobre Alcântara”, de Josué Montello. Quase tudo, na voz de Maria Bethânia. Pessoas queridas que morrem. Ter assunto com gente muito mais jovem que eu. Fotos dos sobrinhos-netos branquelos. O sol iluminando as orquídeas no meio da exuberância verde do sítio das amigas em Pirenópolis. A luta da comadre contra a maldita depressão. Hospedar pessoas amadas. A curva do mar no Arpoador.

Pensar que você me lê, numa tela iluminada, em algum lugar por aí. O que te comove?

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Na falta do fato


por Ricardo Sangiovanni*

Juro que saí na segunda-feira à noite para comprar um terno bonito – meu primeiro, pago ademais de meu próprio bolso, sublinhe-se – para ir à formatura da turma de Comunicação da Ufba, os primeiros alunos deste inverossímil professor, que acharam ainda de honrar-me com a homenagem de “Amigo da Turma 2012.2 de Jornalismo”.

Juro, amigos, que comprei o terno. Teria que comprá-lo mesmo, daqui a uns meses, porque em setembro se casa minha prima, e eu serei padrinho; então, juntando isso com a formatura, julguei chegada a hora de finalmente ter meu terno próprio, para não mais ter que passar as raras noites de gala que me acontecem na vida sentindo o perfume de defunto habitual dos trajes alugados.

Provei o terno em casa, meus amigos, e juro que estava animado para exibir em vossa festa o corte italiano do fato (guardem essa, é como se diz terno em Portugal) e a gravata (que existe e é vermelha e branca, garanto).

Ocorre porém que, faltando dois dias para a festa, hesitei – hesitei como no passado não costumava, mas passam os anos e o homem começa a hesitar, é uma coisa – e achei de telefonar para certa pessoa que também participaria da festa, perguntando se a essas coisas se vai mesmo de terno, a qual me garantiu que não, que de terno não precisava não, que era demais, que deixasse aquilo para os pais dos formandos, porque, em anos de experiência em formaturas na Reitoria da Ufba, essa fonte (cujo nome preservarei, como bom jornalista) não se recordava de ter dividido mesa com gente assim enfatiotada.

De sorte que, chegado o dia da festa, do terno tomei apenas a calça, vesti a camisa de manga comprida, arrumei (assim creio) o desgrenho dos cabelos, entrei no carro e – crendo-me a salvo da gafe terrível de ser o único de terno na cerimônia – fui.

Juro, amigos, que levei o paletó e a gravata no banco de trás do carro. Juro, meus amigos, que perguntei às moças do cerimonial, antes de entrar no salão nobre, se era preciso vestir terno, que se fosse o caso eu corria no carro e pegava o bendito do terno. Ao que elas contestaram, cheias de decepcionada cordialidade, “o senhor fique à vontade”. E eu, só de camisa social e calça, apostei mais na cordialidade que na decepção e respondi que estava muito à vontade assim, obrigado. E elas me deixaram passar.

Não deviam, amigos – por que essa gente de cerimonial prefere ser polida a dizer a verdade? Porque, entrando, cumprimentei o funcionário homenageado – de terno. E chegou o paraninfo – de terno. E o vice-coordenador do Colegiado – de terno. (Este último aliás reparou, mas me tranquilizou dizendo que “tem problema não, amigo da turma pode ser assim mesmo, mais despojado”.) Confesso que nessa hora, amigos, quase saio correndo para ir buscar o diabo do paletó no carro, mas pensei que não, qual nada, afinal que tipo de homem pareceria que sou, que não sabe que a esse tipo de coisa não se vai sem um bom terno – exceto no caso de estar muito seguro e consciente de estar cometendo, deliberadamente, a grandissíssima iconoclastisse de transgredir o protocolo.

O duro foi quando chamaram meu nome para compor a mesa de honra da solenidade – então caí em mim de que não havia mais jeito: teria que passar a cerimônia toda ali, em pé, entregando os diplomas, o único desarrumado ladeando todo aquele pessoal empertigado, meus colegas de terno.

Não foi de propósito, amigos, nem para quebrar o protocolo. Ademais porque protocolo só se quebra uma vez, de maneira que, se não tivesse gastado meu tiro com o paletó faltante, talvez tivesse quebrado o protocolo pedindo o microfone para fazer-lhes um breve discurso (pois, atenção você que não entende nada de cerimonial de formatura: amigo da turma não fala, o que fala é o paraninfo), um discurso bonito e natural, como os que costumava fazer há uns anos, quando era presidente do grêmio estudantil e ainda não hesitava na vida.

Vocês não se incomodem porque teria sido coisa breve, meus amigos. Teria-lhes lembrado apenas uma crônica de João do Rio, uma em que o eu-lírico (quer dizer, ele) conta como um dia chegara do interior, inocente, puro e besta, cheio de auspícios para viver vida de Redação, e fora recebido por um veterano jornalista, o qual tratou logo de tentar dissuadi-lo (de salvá-lo), contando do insalubre que era aquela profissão – conselhos aos quais ele, moço jovem, evidentemente não dera ouvidos. E então, vendo que o rapaz era mesmo caso perdido, passou o referido veterano a ensinar-lhe o que sabia, tendo o moço do interior vindo a tornar-se um grande jornalista – que, anos e anos depois, encontrar-se-ia na Redação do jornal, acolhendo agora, ele próprio, outro jovem vindo do interior, inocente puro e besta, ao qual tentaria, sem êxito, dissuadir… Isso para lhes dizer do quanto, antes do tempo e sem nem bem ter deixado de ser o moço do interior, do quanto me sinto um tanto como aquele veterano toda vez que cometo essa heresia ótima que é dar aula para vocês.

E quando toda essa conversa parecesse muito aziaga a vocês e a seus pais, meus amigos, aí mudaria de assunto, e lembrar-lhes-ia, como nos discursos bons, duas ou três frases de algum tomo da Antiguidade – talvez algum recorte da Retórica de Aristóteles, ou talvez, melhor, algum trecho escolhido da Amizade de Cícero, talvez aquele que diz que a grande vantagem da amizade é “conceber belas esperanças, para tudo que possa sobrevir, e não deixar que desfaleçam ou se acovardem os ânimos. Porque o verdadeiro amigo vê o outro como a uma imagem de si mesmo”, alguém “com quem se pode falar como se estivesse falando a si mesmo”. E – já terminando – diria que eu, como Cícero, prefiro ante ao poder, às honras, aos prazeres e até à saúde, que eu prefiro a amizade, e que se há algum proveito nessa nossa profissão de jornalista é justamente o de conhecer gentes e fazer grandes amigos – porque sossego afinal não se tem, tampouco dinheiro se ganha.

Enfim: se não fiz discurso nenhum, meus amigos, terá certamente sido porque, na falta do terno, hesitei. Vocês então por favor aceitem, no lugar de alguma fala inspirada, esta crônica humilde deste vosso humilde amigo. E aos pais de vocês, por favor não contem a verdade sobre o terno – eles se preocuparão ao saber que vocês tiveram por professor alguém que não sabe nem a roupa justa para ir a um evento importante. Não os deixem, contudo, pensando mal de nossa profissão, pensando que com ela não se ganha nem o que chegue para comprar um terno – digam-lhes, em vez disso, que, se aquele professor mais à esquerda não usou paletó e gravata, foi de caso pensado, porque afinal um verdadeiro jornalista não se dobra ao que mandam os cerimoniais, não abaixa a cabeça aos protocolos. Porque um verdadeiro jornalista é, na alma, um informal.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

terça-feira, 28 de maio de 2013

As letras e o mundo

Caro leitor,
O texto desta terça-feira é de autoria do jornalista Fernando Martins, meu aluno no curso de redação marginal. Esta é a segunda publicação dele no Nota de Rodapé – a primeira foi com o texto Bastidores de um crime. Na próxima semana eu volto com as crônicas.
 Boa leitura.
Fernando Evangelista



As letras e o mundo
por Fernando Martins*

Se você precisar de remédio para dor de dente, dor de cabeça, dor nas pernas, na coluna, no estômago, na garganta, remédio para azia ou má digestão, procure a Beatriz. Ela não é médica, nem farmacêutica, tampouco foi à escola. Mas conhece as doenças humanas como se fosse especialista – e é mesmo. Os remédios são todos naturais.

“Para cada dor”, ela conta, “há uma erva”. “Os venenos feitos em laboratório, se melhoram uma coisa, pioram outra. A cura está na natureza e é de graça”, diz, sorrindo. Até os mais céticos têm se rendido à sabedoria desta senhora de 60 anos, moradora do Ribeirão, sul da Ilha de Santa Catarina.

Casada, mãe de quatro filhos, Beatriz já foi faxineira, cozinheira, lavadeira e cuidadora. Ainda criança, começou a trabalhar nos serviços domésticos. E trabalhou dia e noite, na casa dos pais e de outras pessoas. Até os 20 anos, obediente e prestativa, fez tudo exatamente como lhe haviam exigido. Depois, com uma trouxa de roupa na mão, fugiu com o namorado Manoel.

Fugiu sentada no quadro da bicicleta. Em menos de um ano veio o primeiro filho, perdeu dois na gestação seguinte, teve mais um filho e ganhou um casal de gêmeos.

As dificuldades financeiras surgiram e com elas os problemas familiares. Manoel se entregou a dependência do álcool, ia trabalhar bêbado, caia seguidamente, batia a cabeça, lesionou o cérebro e terminou com crises de epilepsia, aposentado por invalidez. Mesmo assim, Beatriz permaneceu ao lado dele.

A situação a obrigou a trabalhar dobrado. Fazia faxina o dia inteiro. Mas se o trabalho era muito, o dinheiro era pouco e não dava para sustentar toda a família. Com dois filhos pequenos, ela teve uma ideia: comprou um carrinho de pipoca.

Comprou fiado, inclusive o óleo, o milho, os saquinhos e o gás. Pagaria assim que conseguisse algum trocado com as vendas. No dia seguinte, com a ajuda da mãe, levou o carrinho para uma grande festa, próximo de onde morava. Ganhou tanto dinheiro que pagou as dívidas e ainda teve lucro.

A pipoca foi a salvação de Beatriz e de sua família. Conseguiu permissão para vender o produto no aeroporto. Quando os aviões pousavam, ela ligava a pipoqueira e o cheirinho se espalhava rapidamente pelo ambiente. Foi um sucesso. Assim que os passageiros e tripulantes desciam do avião mergulhavam no espaço aéreo da pipoca. Ninguém resistia.

Por muitos anos, Beatriz trabalhou nesse ofício. Fez muitos clientes e amigos. E só aposentou o carrinho de pipoca porque achou outro jeito de ganhar a vida – mas essa é outra história. O marido Manoel está há 15 anos sem beber. Sobreviveu e se reergueu por causa dela.

Beatriz, mulher sábia, conhecedora das agruras e das belezas da vida, de doenças e de remédios, é minha querida mãe. Poucas vezes ela me deu sermões ou lições de moral, mas sempre deu o exemplo de seu caráter e de sua coragem. Ela nunca soube ler as letras, mas sempre soube, com sabedoria e profundidade, ler o mundo.

 *Fernando Martins, jornalista e locutor, especial para o NR

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O único que eu tinha



por Ricardo Viel, de Lisboa*

Arruinou minha primavera, desapareceu com o meu verão e me encerrou nesse inverno eterno.

E não bastasse esse vazio terrível, vens até mim e decretas uma daquelas frases de sabedoria emprestada:

“Por morrer uma andorinha não acaba a primavera”.

Recitas essa sentença tola, vira as costas, e vais aproveitar a primavera cheia de andorinhas que é a tua vida. E ainda que ficastes, não serias capaz de entender algo tão simples: a andorinha era o único que eu tinha nessa vida. O único. E foi justamente por isso que nela depositei o meu futuro.

E num dia qualquer, sem aviso prévio, vem a Morte e ... Assim, sem mais, contrariando a lógica do nascer, crescer, se reproduzir e só depois, só depois (ouviu bem!), SÓ DEPOIS, desaparecer.

Nem chegou à maturidade. Foi flor de um dia. Morreu nas minhas mãos sem que eu pudesse fazer nada. O coraçãozinho a bater cada vez mais devagar, seu corpinho a se fechar e depois endurecer feito pedra. Nas minhas mãos. Ainda sinto entre os dedos o toque daquelas penas, os pezinhos delicados a fazer-me cocegas, o diminuto bico a massagear meu coração...

“Há muitas andorinhas no mundo. E muitas primaveras por acontecer”.

Pois para mim, não. Já não haverá mais primavera, nem andorinhas, só esse frio que me comprime a alma e esse vento interminável que há muito tempo levou a Esperança, sem que ela tivesse o direito de viver uma única primavera inteira.

*Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Adeus, Cecilia!


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Cecilia Lipszyc partiu, deixando atrás de si, muito mais que um rastro de luz, um cometa inteiro de alegria, liberdade, bom humor, generosidade e amor pela vida e pelos seres humanos. Amor traduzido numa vida inteira de dedicação à causa dos direitos das pessoas, tanto no ativismo incansável, como na academia e na política. Desde que nos tornamos amigas, entendi que o melhor remédio para a caretice e o atraso era uma boa dose de Cecilia na veia.

Vimo-nos pela última vez, há menos de um ano, no café Bidou, uma daquelas casas tradicionais de Buenos Aires, onde os garçons parecem eternos e a decoração reflete tempos melhores em décadas passadas. Quando chegamos, ela já estava acomodada à mesa, tendo junto de si o cilindro de oxigênio portátil e o fino tubo preso às narinas, de maneira que pudesse inalar enquanto tocava a vida, como se nada estivesse acontecendo, como se seus pulmões não estivessem comprometidos por uma enfermidade devastadora. Fazia muito frio, e ela vinha trabalhada na habitual elegância, com sua inconfundível cabeleira rosa-choque, mas que também podia ser laranja vivo. Durante a hora e meia seguinte, jogamos dentro uma conversa saborosa, pontuada de observações ferinas e muitas gargalhadas.

Dona morte a levou num dia e, por uma estranha ironia, pouco depois buscou também seu oposto, o tirano assassino, condenado a prisão perpétua pelos inomináveis crimes cometidos contra seu país e sua gente. Aquele, cujo corpo foi entregue intacto à família e será sepultado em lugar próprio, apesar dos milhares que fez desaparecer.

Ironia à parte, estas duas pessoas representam muito bem o que a humanidade pode produzir de mais sublime e mais execrável. Gente que honra a vida e faz por merecê-la, e gente que a usa para produzir medo, horror, sofrimento e morte.

Há uma linda canção argentina, “Honrar la vida”, composta por Eladia Blázquez, que fala exatamente desses dois opostos, e que transcrevo aqui:
¡No! Permanecer y transcurrir
no es perdurar, no es existir
Ni honrar la vida
Hay tantas maneras de no ser,
tanta conciencia sin saber
adormecida...
Merecer la vida no es callar y consentir,
tantas injusticias repetidas...
Es una virtud, es dignidad
Y es la actitud de identidad más definida
Eso de durar y transcurrir
no nos da derecho a presumir.
Porque no es lo mismo que vivir...
Honrar la vida
¡No! Permanecer y transcurrir
no siempre quiere sugerir
Honrar la vida
Hay tanta pequeña vanidad,
en nuestra tonta humanidad
enceguecida.
Merecer la vida es erguirse vertical,
más allá del mal, de las caídas...
Es igual que darle a la verdad,
y a nuestra propia libertad
La bienvenida
Eso de durar y transcurrir
no nos da derecho a presumir.
Porque no es lo mismo que vivir...
¡Honrar la vida!
E pode ser ouvida, na voz da inesquecível Mercedes Sosa, aqui:

 

Um beijo, Cecilia! Adeus.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Tem coisas que eu olho, tem coisas que eu vejo


por Ana Mendes ilustração Victor Zalma*

No último dia em Recife, não pude deixar de conhecer o famoso Mercado São José, um casarão verde-água no centro da cidade. Me ocorreu comprar alguns colares, mas o Ton apareceu a tempo para me dizer que era melhor não. “Guias de proteção são usadas quando há um fim específico, Ana”.

Insatisfeita com a censura, escorreguei os dedos por colares vermelhos de Iansã, amarelos de Oxum, azuis de Ogum e brancos de Oxalá. Desejei todos. São vendidos a três reais nas casas de candomblé. Entrei numa: duas mulheres, sentadas em um canto, afundavam a mão em cestos cheios de missangas e dali montavam anéis infinitos em fios de naylon. Com uma habilidade impressionante, respingavam contas coloridas da ponta dos dedos. “Saí daí, guria!”, minha mãe sussurrou no meu ouvido. Fulminei ela também, com meu olhar estrangeiro.

No corredor, um homem com um cajado e uma cartola preta nos observava sossegadamente. Ele estava encostado em uma das portas de saída do mercado, onde era possível ver pingar grossas gotas d'água. Fui atraída pela porta que chovia: feirantes encharcados vendiam quiabos e outras cores para fregueses que tão pouco se preocupavam com a exacerbação dos céus. Ao contrário, estavam todos ocupados em negociar o preço dos legumes. Sob um vento forte e quente a cena se repetia como uma cascata, a feira, a chuva e os fregueses tomavam a rua inteira.

Amontoados de gente aqui e ali, entoavam em coro, que nem fossem cigarras acasalando nomes de frutas, ervas, conservas e legumes. Às pressas, um menino riscou uma poça com a bicicleta e o feirante escoou a água que se acumulava em cima da lona amarela, “shuuuuaaaaa”. Finalmente o sol chegou rasgando nuvens e mudando o f. da minha íris. Porque não fotografei? Fotografei sim.

*Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna Faço Foto. Título inspirado em Poemicro de Climério Ferreira, poeta brasiliense do Piauí. Ilustração de Victor Zalma, especial para o texto

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Vanzolini, um gênio imortal


por André Carvalho  ilustração Kelvin Koubik "Kino"*

Ele foi e foi sem pena, com o cravo branco na mão. Quanta vitória no passado, quanta página na história. Agora só toca harpa, de camisola e sandália. Aos sambistas, deixou a saudade, que corta como aço de “naváia”, deixando corações aflitos e os “óio cheio d’água”. No tempo em que tinha asa, piruetou, mandou brasa, mas agora a cachoeira desceu e não sobe mais a serra. Deus sabe o dia e a hora, vida como a dele não é feita para entender. É uma fumaça, e o tempo do homem, uma baforada. Deu na primeira edição: morte é paz.
Paulo Emílio Vanzolini foi um paulistano que trazia no sangue, como poucos, o micróbio do samba. Sambista dos bons, foi autor de grandes páginas do nosso cancioneiro, que fizeram com que o samba de São Paulo derrubasse fronteiras geográficas, alcançando ouvidos, mentes e corações pelo Brasil afora.

Àqueles que a genialidade habita, transcende a normalidade, o simples, o comum. Bom de caneta, de verso e prosa, ritmados em compasso de samba, o compositor era também doutor. Dr. Paulo Vanzolini, zoólogo altamente gabaritado, foi um dos maiores especialistas em répteis do mundo e diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo por mais de 30 anos.

A paixão pelo samba veio na tenra infância, quando tinha seus inocentes seis anos de idade e passava horas a fio escutando os grandes cartazes da música popular brasileira no rádio, aproveitando os momentos em que não estava na escola. Ainda menino, dava suas escapadas para ver a orquestra tocar em bailes na sede do Glorioso Futebol Clube. Depois, muitas vezes, no ginásio, a despeito de sua paixão pelos estudos, matava aula para assistir memoráveis rodas de samba.

O gosto pela música ganhou força na juventude, quando passou a frequentar os “inferninhos” do centro da capital paulista, desafiando versadores com rimas afiadas e iniciando-se na arte da composição. Vanzolini criou muito samba, fruto de histórias cotidianas que, atento, observava com intenção de transformar em música. Muitas composições se perderam pelas madrugadas paulistanas, junto ao sereno que caía do céu e se dissipava com os primeiros raios de sol da manhã. Outros, no entanto, permaneciam vivos, latentes em sua mente.

“Ronda” 

Certa vez, quando fazia ronda pelo centro da cidade, em seus tempos de cabo do Exército brasileiro, teve a inspiração para criar aquele que seria um dos grandes clássicos da música popular brasileira, “Ronda”. A primeira gravação deste samba, que fez com que Paulo Vanzolini ingressasse no meio musical profissional – ainda que ele se mantivesse, por toda a vida, focado em sua profissão de zoólogo –, foi um tanto curiosa.

Inezita Barroso, cantora paulista que gravou muita música caipira, sendo também grande conhecedora de temas folclóricos e sambas, era muito amiga da primeira mulher de Vanzolini, Ilze. Quando Inezita foi ao Rio de Janeiro, nos idos de 1953, gravar “Marvada Pinga”, um de seus maiores sucessos, levou à tiracolo o casal de amigos paulistas.

Noite Ilustrada
Chegando aos estúdios da RCA, surgiu um problema: ela não tinha em mente nenhuma música para registrar no lado B do disco. Precisava de alguma solução rápida. Perguntou a Vanzolini se ele não tinha nada “na meia” para ela gravar. Ele ofereceu, então, “Ronda”. Rapidamente, junto ao conjunto regional da gravadora, a cantora aprendeu o samba. E realizou o primeiro registro deste clássico, que, no entanto, não alcançou, nesta ocasião, grande repercussão.

Vanzolini ingressava, de forma inusitada, no meio artístico. Cronista musical, o compositor tinha sempre à mão um cantor, a quem chamava de “tradutor”, que o ajudava a trabalhar o samba que imaginava na cabeça. Adauto Santos e Luiz Carlos Paraná muito o ajudaram nisso, mas ele destacava um sambista chamado Zelão como um de seus maiores “tradutores”.

Era ele quem Vanzolini gostaria que gravasse “Volta por cima”. O destino fez, no entanto, com que o samba fosse imortalizado por Noite Ilustrada. Foi no ano de 1963 que veio o enorme sucesso. “Reconhece a queda e não desanima / Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima” caiu na boca do povo. Vanzolini costumava dizer que a mensagem mais importante do samba não era o “volta por cima”, e sim o “reconhece a queda”.

“Eu me lembro quando Noite Ilustrada gravou ‘Volta por cima’, em 1962. Eu tinha 12 anos e já gostava de samba. Foi um sucesso enorme esta gravação”, afirma Eduardo Gudin – cantor e compositor paulistano, parceiro e arranjador de Vanzolini –, ressaltando que “o fato dele ser autor de dois clássicos absolutos da música brasileira, ‘Ronda’ e ‘Volta por cima’, engrandece muito seu nome e faz dele um ícone do samba paulista”. O compositor vai além e pontua que “poucos sambistas de São Paulo têm a visibilidade nacional” de Vanzolini. “Ele é muito respeitado, transcende as fronteiras regionais e se destaca nacionalmente”.

Se a gravação de “Ronda”, de Inezita Barroso, fez pouco sucesso – assim como os registros posteriores de Cláudia Moreno, Carmen Costa e Marlene –, foi com um disco produzido por Eduardo Gudin que a música entrou, definitivamente, para o cancioneiro nacional. “Em 1977, produzi um disco da Márcia, que levava o nome deste samba. Somente aí que “Ronda” estourou de vez”, lembra.

“Onze sambas e uma capoeira”

Gudin conheceu Paulo Vanzolini sete anos depois de se impressionar com a força do samba “Volta por cima”. Corria o ano de 1969. Com “Gostei de ver”, feito em parceria com Marco Antônio da Silva Ramos, Gudin alcançou as finais do V Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record. Vanzolini gostou, e quando encontrou o futuro parceiro no Bar Jogral – ponto de encontro da boemia paulistana –, fez questão de cumprimentá-lo, iniciando aí uma amizade que levaria para o resto da vida.

De propriedade do cantor e compositor Luiz Carlos Paraná e do publicitário Marcus Pereira, o Jogral, fundado em 1966, reunia músicos, artistas e boêmios paulistanos, que ali se encontravam para cantar e discutir os rumos da cultura popular brasileira. Um ano depois da fundação do bar, Marcus Pereira teve a ideia de produzir um disco com as músicas de Paulo Vanzolini, para ser distribuído entre os clientes de sua agência de publicidade. O disco “Onze sambas e uma capoeira” seria o embrião do selo Marcus Pereira Discos, que reuniria em seu catálogo pérolas da discografia brasileira, como, por exemplo, os dois primeiros discos solos de Cartola.

“Onze sambas e uma capoeira” contou com as participações de Luiz Carlos Paraná, Adauto Santos, Cláudia Moreno, Mauricy Moura e os irmãos Chico e Cristina Buarque. Com 16 anos de idade, Cristina fazia ali sua primeira gravação profissional, cantando o samba “Chorava no meio da rua”. A cantora lembra-se de sua estreia nos estúdios: “Minha mãe não queria deixar, se preocupava com meus estudos, achava que eu não deveria seguir carreira de artista”.

O fato de o disco ter sido lançado, à princípio, em tiragem limitada, como brinde para clientes da agência de publicidade de Marcus Pereira (depois seria relançado comercialmente), fez com que o publicitário e produtor musical conseguisse dobrar sua mãe, Maria Amélia. “Paulo Vanzolini foi o responsável pelo pontapé inicial na minha carreira”, diz a sambista ao Nota de Rodapé.

Vanzolini, por Cristina e Gudin

“Paulo era muito amigo de meu pai e frequentava muito a minha casa, quando morávamos em São Paulo. Minha mãe também era muito amiga da primeira mulher dele. Era aquela amizade de família, gostosa”, relembra Cristina, ressaltando que, com a morte de Sérgio [Buarque de Hollanda], a amizade permaneceu. “Ele gostava de ver as cantorias das meninas, ficava encantado, adorava participar daquilo”.

Cristina homenagearia Vanzolini em 1974, quando gravou em seu disco de estreia o samba “Cara limpa”, brilhante criação do compositor paulista (“Já me acostumei com dia a dia em vez de vida inteira / Relógio em vez de retrato na cabeceira”). Em 2002, gravaria outras quatro composições do paulista, no “Acerto de contas”, caixa com 4 CDs, contendo a grande maioria das músicas criadas por Vanzolini: “Falta de mim”, “Morte é paz”, “Noite longa” e “Mente”, esta última feita em parceria com Eduardo Gudin.

“Foi nossa primeira parceria”, conta Gudin. “Ele me mandava a letra e eu fazia a música por cima, fizemos quatro sambas nesse esquema”, diz. Além de “Mente”, o sambista fez melodia para as bem colocadas palavras criadas por Vanzolini em “Longe de casa”, “Condição de vida” e “Pra tirar você do sangue”. Há, no entanto, a possibilidade desta lista aumentar. “Tenho duas letras inéditas dele comigo”, revela o compositor.

A forte amizade entre Gudin e Vanzolini fez com que o primeiro produzisse e criasse os arranjos do disco “Inéditos de Paulo Vanzolini”, lançado em 1987, e que não chegou a ser comercializado – foi distribuído, tal como a primeira edição de “Onze sambas e uma capoeira”, como brinde para clientes de uma empresa.

Além de “Onze sambas e uma capoeira” (1967), “Acerto de contas” (2002) e deste raro “Inéditos de Paulo Vanzolini” (1987), a discografia do compositor contempla o álbum “A música de Paulo Vanzolini” – lançado em 1974, com Paulo Marques dividindo o microfone com Carmen Costa – e o disco “Por ele mesmo”, de 1979, onde o sambista, finalmente, interpreta suas canções. “Ele era engraçado cantando, todo desafinado, sem ritmo”, lembra, com graça, Cristina.

Na opinião de Cristina e Gudin, o que salta aos olhos na obra de Paulo Vanzolini é o extremo esmero que tinha com as palavras. Cronista social de primeira grandeza, burilava as letras de seus sambas até conseguir o resultado perfeito, que desse ritmo às rimas e às ideias expostas sob a melodia de sambas, choros, valsas, toadas e capoeiras.

“As letras dele são geniais. Ele tinha cada sacada... Era muito louco. Sempre bem humorado”, aponta Cristina. “Era um cronista, tinha um linguajar muito peculiar. Gostava de contar história dos outros, coisas que observava em suas andanças pela cidade e em suas viagens que fazia trabalhando como zoólogo”.

Gudin endossa o argumento da caçula dos irmãos Buarque de Hollanda. “Ele tinha uma preocupação com a letra. Tinha um cuidado, um capricho com as palavras, buscava o tamanho certo, a medida exata. Era um cronista, como Noel e Chico”. Para o sambista, Vanzolini “armou um esquema musical só dele. Ele era diferente mesmo, tinha um talento incrível. Era superdotado, um gênio”.

As criações de Paulo Vanzolini

Das crônicas urbanas do mestre, a vida boêmia se faz presente em composições como o samba “Falso boêmio” (“Porque não é boemia trocar noite pelo dia / Beber com ar de tristeza / Ser boêmio é diferente / É viver clinicamente, padecendo com grandeza”) ou a “Valsa das três da manhã” (“Eu não bebo pra esquecer / Bebo pra lembrar / Bebo e cambaleio e tenho você ao meu lado / É o meu instante de felicidade”).

A praça Clóvis, em São Paulo, na década de 1960
O retrato de São Paulo é pintado com cores de tragicomédia, simbolizando uma metrópole onde problemas como a falta de segurança e a ausência de infraestrutura são amenizados pelo fim de um romance mal desenrolado ou por uma bela paisagem do alto de um morro. Os exemplos citados são os sambas “Praça Clóvis” (“Na Praça Clóvis, minha carteira foi batida / Tinha vinte e cinco cruzeiros e o seu retrato / Vinte e cinco, eu francamente achei barato / Pra me livrarem do meu atraso de vida”) e “Seu Barbosa” (“Ô Seu Barbosa, nóis era dois casado certo / Morando num bairro longe, mas passando ônibus perto / Uma vista tão linda, de cima do nosso morro / E as crianças precisando de um pronto-socorro”).

A sua maneira particular de exaltar a mulher, era feita com uma boa pitada de ironia. Em “Mulher que não dá samba” ele diz que “Ainda se fosse brava, porém competente / Se atrás da bronca viesse a roupa limpa, o café quente / Ou se fosse ignorante no claro e ardente no escuro / Eu lhe asseguro: não faria falta a paz / Mulher que não dá samba, eu não quero mais”. Já na composição “Mulher, toma juízo”, ele  afirma: “Mulher que se vira pro outro lado tá convocando a suplente / Mulher que não ri não precisa dente”.

De uma temática recorrente na música popular brasileira, o pranto, criou outras duas pérolas: a clássica “Volta por cima” (“Chorei, não procurei esconder / Todos viram / Fingiram / Pena de mim, não precisava / Ali onde eu chorei, qualquer um chorava /Dar a volta por cima que eu dei / Quero ver quem dava”) e a pungente “Chorava no meio da rua” (“Você diz que eu choro escondido / Ai, meu deus, que ingenuidade sua / Se eu tivesse que chorar / Chorava no meio da rua”).

Finalmente, sobressai em suas letras o ritmo, o andamento da poesia, cadenciada com palavras em posições cirúrgicas. Em “Mente”, consegue esse efeito de ritmo com rimas: “Me chama de meu amor, constantemente / No meio de toda a gente / E a sós, entre nós dois, mente”. Já em “O rato roeu a roupa do Rei de Roma”, o compositor vale-se de um famoso trava-língua e vai além: “O rato roeu a roupa do rei de Roma / O sapo saltou do saco, se sacudiu e sumiu da soma / Tatu, tamanduá, tejubina transaram umas trovas, tolices totais / O vento da vida ventou e varreu você pro nunca mais”.

Mais que uma obra, um legado

Paulo Vanzolini teve mais de 50 sambas gravados, por nomes da mais alta patente da música popular brasileira. Entre seus intérpretes estão: Nelson Gonçalves, Carlinhos Vergueiro, Nara Leão, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Clara Nunes, Elza Soares, Maria Bethânia, Roberto Silva, Ana Bernardo, Márcia, Inezita Barroso, Jair Rodrigues, entre outros.

Para ele, compor era um processo de extrema dedicação. Muitas vezes, demorava meses até achar a rima perfeita para seus versos. Sua última composição, feita em 1997, simboliza sua marca, sua passagem, seu legado. “Quando eu for, eu vou sem pena / Pena vai ter quem ficar”. Paulo Vanzolini foi sem pena. Mas, para quem fica, no entanto, permanece vivo seu cancioneiro, repleto de beleza e genialidade.

Em suas andanças pela floresta, o zoólogo costumava dizer que “na mata, todas as partes são mais que o todo”, já que cada animal, cada folha caída ao chão, cada sopro de vento e raio de sol que penetra pelas árvores têm um valor imensurável, não podendo ser descrito apenas como uma parte do ecossistema. Em sua obra, ocorre o mesmo. Em cada composição, um pedacinho de boemia, de madrugada, de drama, de denúncia, de crítica social, de humor, de poesia, do viver paulistano, do povo brasileiro. No total, seus sambas, valsas, toadas e capoeiras formam muito mais do que uma obra, simbolizam um estilo, uma maneira peculiar de criar versos e melodias originais. Mais que uma obra, é um legado para a música popular brasileira.

Escute os sambas de Vanzolini, entre eles,
Noite Ilustrada cantando "Volta por Cima"





*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

terça-feira, 21 de maio de 2013

Reais-ficções de carnaval



por Aleksander Aguilar*

Na finaleira mesmo, na madrugada de quarta pra quinta, quando só estão de pé os mais aguerridos e/ou desesperados foliões, um bloco de massa muito conhecido do carnaval de Olinda faz sua passada arrastando, literalmente, multidões pelas ruazinhas de paralelepípedo da Cidade Alta. E segundo o que dizem os que por ali já suaram o ambiente é tenso, “só dá os mala”.

A empolgação que se extravasa às vezes vai pro nível da provocação. Desta vez sobrou foi é pro carro da polícia meio que pelo meio do caminho do bloco e da massa animada: cocos e latas de cerveja direto no veículo das autoridades, que se arretaram e foram atrás dos mala, descendo o cacete mesmo em quem quer que parecesse suspeito, incluindo Fernando, que nem tinha feito nada, mas que tava por ali parado (parado justamente por não ter feito nada) estando, assim, no lugar errado na hora em que o apetite da resposta policial era o mais voraz.

Preto e de longos dreadlocks, Fernando já foi arrastado direto pro camburão, enquanto o amigo Jair protestava, até esbravejando bem por perto a música Porcos Fardados do Planet Hemp, mas bem branquinho, galego, que era, não lhe aconteceu nada, nem tocaram, nele, já o neguinho...

E apanhou que só, visse! Bateram, bateram, e foi passar a noite na delegacia de Olinda, ali na Praça do Carmo, numa cela “nojenta”, segundo ele, e num estado todo esgualepado, diríamos no Sul, tendo que lidar com sua perda.

Sim, Fernando perdeu, e a faca, os seus longos dreads. Cortaram só de maldade – como parte da punição que a autoridade sentenciou e executou sem julgamento – as maçarocas de cabelo cuidadosamente cultivadas, pro divertimento dos guardinhas no plantão, provavelmente aborrecidos e recalcados de terem trabalhado durante todo o carnaval. Pela manhã Fernando foi jogado no meio da rua, ali por perto da Faculdade, e lhe atiraram por cima a carteirinha plástica onde guardava a identidade, os passes para o ônibus e o dinheirinho dobrado que entocara para uma emergência, mas agora sem o dinheiro, nem os passes.

E sem nem poder pegar um ônibus, Fernando tão desorientando quanto descabelado, e todo dolorido, teve que conseguir que uma das vans que fazia a linha Olinda-Recife na época, lhe desse uma carona.

Teve sorte e conseguiu ir até a Praça do Derby, e de lá sem outro remédio senão seguir a pé pela avenida Caxangá a fora, pensando no caminho até a zona do Cordeiro o que fazer com a sua história. Tomado de indignação, encheu-se de coragem, e denunciou tudo aos órgãos judiciais competentes, que abriram investigação e cordialmente lhe recomendaram: “É melhor você sair daqui por algum tempo”.

Risco de revanche policial dizem que é foda! Fernando falou com a sua mãe, e os dois realmente saíram, pra a capital de um Estado vizinho de Pernambuco, que é pra não ficar muito longe. Além do cabelo, Fernando perdeu liberdade, e quem ganhou foi a impunidade e o medo. Agora Recife/Olinda é só de visita duas ou três vezes por ano, mas incluindo o carnaval!


*Aleksander Aguilar, jornalista, acadêmico, candidato a escritor e viajante à “Ítaca”, especial para o Nota de Rodapé

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Um toureiro chamado Renato Borghetti


por Ricardo Viel, de Lisboa*

 “Não sei o que de comunicativo tem o acordeão que quando o escutamos nos encolhe o sentimento”, escreveu Gabriel García Márquez em uma crônica sobre o vallenato, típico ritmo da costa caribenha colombiana. Pois essa sentença do genial Gabo me veio à cabeça tão logo Renato Borghetti abriu seu fole em cima do palco, na sexta-feira, 17 de maio, em Lisboa.

Em escassos metros de palco e por quase uma hora o músico de origem gaúcha domou diante de mim (e uma centena mais de afortunados) um animal arisco que insistia em expandir-se e contrair-se. Parecia querer fugir, mas ao mesmo tempo aparentava deleitar-se ao cerco a que foi submetido. E suas queixas tinham algo de lamento e de desabafo.

Contorciam-se ambos, mas o homem era sempre quem tinha o comando. Sabia o momento exato de cada gesto, o começo e o fim de cada ato. Às vezes, deixava a fera tomar ar, afastar-se, para logo em seguida encolhe-la sobre seu regaço. Com os olhos fechados, o artista media os movimentos – que variavam entre brutalidade e a candura – e por ora parecia desafiar aquela fera ao dançar de rosto colado com ela.

Já pela terceira música concluí que sem saber eu havia entrado numa tourada cujo touro fora substituído por um acordeão (para ser mais correto uma gaita de ponto).

O matador, vestido de negro, com um cinto de pano e um chapéu na cabeça, tinha seus auxiliares, como há de ser. Mas esses, em vez de portarem capas e lanças, traziam clarinete, violão e teclado. E o ajudavam, estavam a seu lado, cientes do que acontecia e atentos para se preciso fosse agirem no intento de evitar um fatal escorregão. Mas era óbvio: o duelo mesmo era entre o fole e o homem. Caminhavam pelo palco agarrados, amarrados peito com peito, desenhando invisíveis caminhos.

Foi uma linda e emotiva tourada. Cheia de arte, como deve ser, mas sem humilhação. A vitória de um não foi a derrota de outro. Não houve marca de sangue no solo, nenhuma agonia, nenhuma traiçoeira estocada. Não aplaudimos a morte, mas a vitória sobre ela.

E findo o ato, quando Renato Borghetti afastou as mãos da fera, foi como se dela tivesse arrancado a alma. A vi estática, retraída, depositada em um caixote sem qualquer resistência. Nem de longe lembrava o animal imponente que segundos atrás mostrava seu esplendor ao desafiar o artista diante do público. Parecia mesmo sentir falta daquele homem que, ao tê-la nos braços, a havia encantado. A ela e a um mortal que, sentado logo na primeira fileira, parecia encolhido em seus sentimentos.


*Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR

Idade da pedra


por Ricardo Sangiovanni*

O senhor preste atenção, da próxima vez que cruzar do Sergipe para a Bahia no rumo de Paulo Afonso, o senhor preste atenção quando passar uma casinha verde que fica na beira da estrada, depois do povoado da Malhada Grande. O senhor pare o carro na frente da cancela, e bata três palmas e grite a mulher, a dona, ô dona, ô de casa dona, que é para ela vir abrir a cancela, para o senhor poder entrar com o carro lá dentro.

A mulher não vai estar. Mas vão vir os meninos – sete, oito, uma escadinha de não-sei-quantos meninos. Os mais pequenos trotando encapetados, a chinela pé-de-um pé-de-outro rastando poeira do chão, gritando ó, ó os turista, ó os turista. O do meio vai mandar chamar o grande, e o grande vai vir de lá garrado na mão do que é doente, dizendo que mainha não tá em casa não, mas que o senhor espere aí que tem chave, que ele já vai já buscar.

O senhor dê bom dia e entre, e pergunte das pedras. Pergunte ao mais velho se naquelas pedras grandes ali detrás da casa tem alguma coisa pintada, se tem uns desenhos. Tem desenho, uns desenho vermelho tem sim, bem ali, apontará o do meio, com a voz grossa e o tamanho curto de rapazinho sertanejo.

O senhor aí vá, deixe a meninada para trás e vá lá espiar as pedras. Espie nelas aqueles desenhos antigos, dos tempos desconhecidos, aqueles desenhos de coisa de nove mil anos atrás. Não duvide: repare nas placas do patrimônio nacional, que estarão lá para o caso de a crença do senhor necessitar de atestado.

Aí então o senhor sonhe. Sonhe, senhor, viaje no tempo e sonhe com o que aquelas linhas mal-traçadas terão querido um dia dizer. Os três círculos um dentro do outro serão marca de que ali houve um templo em graça do sol da caatinga, ou a prova incontestável do projeto de uma iminente invenção da roda? Os riscos em forma de peixe (ou de oito) serão restos do acerto de contas da pescaria, ou vestígios de pioneiras especulações sobre a infinitude do tempo? E aqueles traços em ziguezague, senhor, que quererão dizer, senão escadas – pendentes ainda de construção, mas certamente escadas mágicas que um dia levariam aqueles homens de nove mil anos atrás ao céu dos deuses astronautas, como diz naquela música?

Emocione-se, senhor. Se puder emocione-se ante a constatação desconcertante de que há muitos miles de anos já havia habitando ali, naquele retalho inóspito de sertão, sob o mesmo solão rutilante deste seu dia de hoje, esse milagre danado que é o ser humano.

Depois o senhor torne ao presente. E fique sabendo, senhor, que um sem fim de pedras que nem aquelas ficou debaixo d’água, sem estudo, nem placa, nem teste de carbono catorze, nem nada quando construíram a represa. E que as que sobraram vão pouco a pouco sendo quebradas e vendidas para a construção civil pela gente que vive hoje na região. E assim seguirá sendo, enquanto a paga pela pedra bruta quebrada for maior que a que se dá pelo fruto da terra cultivada. A placa do patrimônio, enquanto a escola for pouca, senhor, não vai adiantar é de nada. Repare, senhor: passaram nove mil anos, mas o homem de hoje, como o de ontem, continua só se preocupando mesmo é com o tempo presente. Não sei para o senhor, mas para mim ainda estamos na idade da pedra.

Mas, ia dizendo, o senhor torne ao presente, e peça ao menino mais velho que lhe abra de novo o portão, para o senhor ir-se embora. Já tá abrido, ele gritará de lá de dentro. Aí o senhor siga em paz sua viagem, com pesar pelas pedras, mas mais ainda por aquelas crianças, que delas é que o patrimônio nacional não cuida de jeito nenhum.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Quelconque



por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

Passados os cinquenta e cinco anos, a pessoa já poderia ter assunto para uma biografia, principalmente se acreditasse que “minha vida daria um livro”. Não sei se a minha daria para mais que umas crônicas, embora eu tenha vivido algumas peripécias, viajado um pouco por esse mundão, conhecido um bocado de gente, casado, parido e criado dois filhos, igual a quase todo mundo. Bem pouco para encher um livro, quanto mais uma bi-o-gra-fi-a, coisa de gente grande.

Nos últimos tempos, me meti a publicar umas mal-traçadas linhas em formato digital, aquele que existe, mas não muito, porque a gente não consegue pegar o texto, nem cheirar, rabiscar ou guardar numa gaveta ou estante. Mas existe, em algum lugar – ou será aqui neste computador? – e chega a algumas pessoas, não sei quantas. Uma tremenda ousadia da minha parte, num território ocupado por muitas feras, cuja lista nem começo a desfiar, para não me sentir ainda mais atrevida. Algumas delas rugem aqui neste mesmo blog, e eu me encolho toda.

Para fazer jus a uma biografia, a pessoa tem que preencher alguns requisitos básicos: cumprir uma longa carreira política, de preferência combinada com a autoria de livros, não necessariamente úteis ou relevantes, tanto a carreira quanto os livros; realizar façanhas incríveis como navegador, astronauta, tenista, geneticista ou alpinista; ganhar muito dinheiro como executiva ou empreendedora, e fingir que revela seus métodos de enriquecimento; ou fazer qualquer outra coisa que a torne uma celebridade, termo amplo e generoso, onde cabe de um tudo, para mal e para bem.

Porém, celebridade alguma merecerá ser biografada se não puder relatar, revirando os olhinhos, como foi sua primeira vez... em Paris. Ainda mais nos últimos anos, em que temos viajado tanto por aí, que já tem colunista com medo de encontrar o porteiro do seu prédio dando um rolé no Champs-Elysées. Désolée.

Na adolescência, quando conhecer a língua e um tiquinho que fosse da cultura francesa era sinal de inteligência e finesse, estudei meu bocadinho de francês. Não só porque o estudo de idiomas sempre me interessou, mas também porque éramos uma turma de alunos muito divertida e animada, que se tornou, para mim, o principal atrativo do curso. Paris, em todo o seu glamour, era um grande assunto entre nós, e rendia muitas fantasias e gargalhadas, pois éramos todos pobres de marré, sem qualquer possibilidade de pisar no Marais.

E, até o momento, tenho falhado neste quesito. Entra ano, sai ano, e nada. Várias pessoas já se prontificaram a me servir de cicerone, sugeriram roteiros; ouvi incontáveis relatos, encantei-me com a cidade em muitos filmes e livros, mas ir lá e verificar tudo pessoalmente, isto ainda não aconteceu. Portanto, continuo sendo quelconque, uma joana-ninguém.

Então, ficamos assim: como não conheço Paris e estou muito longe de ser uma celebridade, não serei biografada. Posso dispensar o advogado e dormir em paz.


*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Que eu sou eu?

por Fernanda Pompeu*

Leitores consolidados sabem que o autor é diferente do narrador. Essa maravilha permite que uma escritora use a primeira pessoa de um personagem masculino e um poeta fale em nome de um eu feminino. Para ficar num exemplo doméstico, Chico Buarque se "fez" de mulher em Tatuagem, Atrás da Porta, Olhos nos Olhos.

Quando uso o eu - em poema ou prosa - não é necessariamente a Fernanda Andrade Pompeu, nascida no Rio de Janeiro, moradora de Sampa. O eu que escrevo pode ser a dona Laurinda que fumava cachimbo e passava as anáguas da minha avó. Pode ser meu pai com vinte anos ao fazer sua carteirinha no PCB.

Quem é leitor de boa data dirá: isso é óbvio! Mas esse óbvio não é tão cristalino para os novos leitores - particularmente os jovens que xeretam histórias em blogs. Observo pelos comentários postados que a maioria acredita que autora e narradora são uma única persona.

Talvez o Facebook e o Twitter contribuam para essa confusão. Uma vez que nas redes sociais a escrita é sempre em primeira pessoa, acompanhada de uma fotinho de cada eu. Curto, comento, compartilho, escrevo. Isso cria a ilusão de que o eu que escreve é o ego.

Longe de mim dizer que as pessoas usam a primeira pessoa para contar mentiras. Elas recorrem ao eu para contar uma parte da verdade. Ou a verdade daquele momento. Pois o eu é entidade líquida, mutante. É de um jeito às oito da manhã, de outro às treze horas.

O eu que escrevemos é um eu linguagem. Eu que mostra e que esconde. Que lembra e inventa. Que esquece. Um eu tentando editar a vida. Por que não? um eu louco para consertar o que sai errado. Um eu Pinóquio.

Qual eu - da galeria dos meus - escreve essa notinha? O eu bom? O eu ruim? O eu inteligente? O eu burro? O eu feminino? O eu masculino? O mascarado, ou sem máscara? Mais sincero dizer: o eu múltiplo. Meio fictício, meio realidade. Eu escrevinhadora.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Pelos olhos de um cão (guia)


por Thiago Domenici   ilustração Caco Bressane*

São oito da manhã de uma sexta-feira de abril. Àquela hora já passaram pela plataforma de embarque do metrô Palmeiras-Barra Funda, no sentido Corinthians-Itaquera, algumas milhares de pessoas. Na minha distração sonolenta, observando o vai e vem de uma escada rolante, o trem se aproximava. No mesmo momento, senti um solavanco leve nas costas.

Na esquiva instintiva, virei e topei um cego e seu cão-guia. Dei licença o mais rápido que pude, enquanto os dois, bem jovens, se falavam apressadamente sobre o destino. “Direita, para a plataforma de embarque”, pediu o rapaz, roupa social esportiva bem cortada. A cadela, uma beleza de labradora de pelo curto caramelo o olhava de soslaio como quem diz, “eu sei chefe, mas isso aqui tá uma bagunça”.

Com sua coleira adaptada para a situação, ela decifrou o caminho com seu jeitão apaixonante. O vagão lotou em segundos assim que a porta se abriu. Uma senhora pequena dessas com cara de avó, já sentada na cadeira azul clarinha – das que são reservadas por lei para idosos, grávidas, mulheres com crianças de colo e pessoas com deficiência – ficou confusa com aquele rapaz que, de surpresa, surgia com uma cachorra diante dela.

Após um vai não vai de segundos, ele solicitou com gentileza que ela sentasse na cadeira imediatamente ao lado, ao que foi atendido com um sorriso largo, benevolente, que diz tanta coisa sem dizer em verbo. Não tinha capricho nenhum naquele pedido, mas uma questão simples: quanto mais perto da saída, menos enrosco.

Acomodados, ele sacou do bolso um petisco que a cadela engoliu num piscar de olhos. Em seguida, ele fuçou um celular com teclado que puxou do bolso, colocou fones de ouvido brancos e se confortou ao som de alguma música que se iniciava. Na ligeireza habitué, o metrô corria pela estação Santa Cecília, a segunda da linha vermelha, a partir do nosso ponto de partida. Eu os observava de perto, num misto de admiração e encantamento.

Jogada no chão com seu focinho rente ao assoalho, ali no meio da passagem, com ar clássico de cachorro que deixa a gente babando e com vontade de fazer uma carícia, as pessoas desviavam de sua dócil cabeça, enquanto ela acompanhava com olhar de pouca importância.

Desci na estação República e os dois seguiram em frente. A cena ficou em mim. Coincidentemente, eu havia lido na Folha de S. Paulo no dia anterior um texto que dizia das dificuldades dos deficientes visuais em conseguir um anjo de quatro patas. Logo, conclui sem esforço, que a batalha foi árdua para aqueles dois estarem no metrô naquele dia.

***

De fato, somente 80 deficientes visuais têm cães-guia no país, num universo que, segundo o IBGE, passa dos 2 milhões. É uma dificuldade atender a demanda de quem deseja um companheiro de quatro patas. Primeiro, por ser muito custosa a formação e treinamento, em média entre 20 e 40 mil reais fora do país. E a maioria dos bichos vem justamente do exterior, principalmente dos EUA, pois aqui, diz a matéria da FSP, a formação esbarra “na falta de boas linhagens e treinamento correto”. Do que pesquisei, posso dizer que o trabalho de quem busca dar conformo ao deficiente visual por meio de um companheiro cão é louvável. As iniciativas, como em tantas outras questões que merecem atenção pública, vem dos particulares que se organizam.

Também é recente (de 2005) a Lei que “Dispõe sobre o direito do portador de deficiência visual de ingressar e permanecer em ambientes de uso coletivo acompanhado de cão-guia.” Ou seja, todo restaurante, shopping, teatro, supermercado, casa noturna e meio de transporte não pode negar acesso sob risco de multa.

Mas o que significa ter um cão-guia? A parte do fato de ajudar o cego a desviar de obstáculos, atravessar a rua com segurança, encontrar caminhos mais simples e dar, sobretudo, autonomia e liberdade, o bichano faz companhia – é amor que se constrói –, traz aprendizado e desperta sorrisos gratuitos.

Outra vantagem é em relação à bengala, pois o cão-guia ajuda a desviar de objetos que estão acima do chão. Um deficiente visual, numa declaração que pesquei na internet, explica que com a bengala ele tem domínio de um metro e meio à frente o que torna mais difícil perceber um orelhão ou um galho de árvore, por exemplo.

Paciência na fila de espera de uma ONG por tempo indeterminado, ou tentar comprar o cão em outro país é, por enquanto, o principal caminho. Essa espera, no entanto, no Instituto IRIS – De Responsabilidade e Inclusão Social, chega a 4 mil pessoas, todas na expectativa de voltar a enxergar pelos olhos de um cão.

***

E AOS INTERESSADOS: o site do Instituto IRIS, entidade sem fins lucrativos, fundada em 2002 em São Paulo, das poucas que trabalha na formação de cães-guia, traz mais detalhes sobre o assunto. A sua fundadora, a advogada Thays Martinez, também deficiente visual, contou sua experiência com o cão-guia Bóris no livro - e áudio livro - "Minha vida com Bóris". Bóris (que já faleceu) em 2004 foi o pioneiro ao abrir caminho na Justiça para deficientes visuais terem o direito de entrar no Metrô de São Paulo.

Além do IRIS, outro projeto, Cão Guia Brasil, treina cães para guiar pessoas com deficiência visual. E a escola de Cães Guia, Helen Keller, também está na rede. Para saber mais sobre deficiência visual vale se informar na Fundação Dorina Nowill para cegos.


*Thiago Domenici, jornalista, é editor e coordenador do Nota de Rodapé. Ilustração de Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, especial para o texto

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Futebol e “jornalismo do apocalipse”: tudo a ver


por Moriti Neto  ilustração Victor Zalma*

O que se faz, aproveitando o reforço das escassas inteligências e do quase zero de seriedade constantes no meio do jornalismo esportivo, é apostar maximamente no descartável, mola essencial da sociedade de consumo.

Deparei-me com exemplo disso no último dia 1º de maio, à tarde, um feriado, quando assistir ao jogo de volta entre Barcelona e Bayern Munique, disputado na Espanha, pelas semifinais da Liga dos Campeões da Europa, parecia boa opção. Parecia. Com a partida transmitida em sinal aberto pelas emissoras Bandeirantes e Globo, o que vi foi uma exibição de mau jornalismo, total descompromisso com a informação.

A vitória do time alemão por 3 x 0 e a incontestável classificação (o time bávaro já havia vencido a primeira partida pelo placar de 4 x 0) transformou o Bayern em novo xodó da mídia esportiva internacional, brasileira incluída. Mais do que isso, expõe a irresponsabilidade das equipes “jornalísticas” que transmitem competições esportivas de alto nível, já que alcançam – e influenciam – tantas pessoas.

O modelo do time a ser admirado nem é o problema. Isso vai de gosto pessoal. A questão é a falta de embasamento. O que leva narradores e comentaristas a afirmarem que “um gigante surge” e “o fim de uma era”?

Sim, o Bayern é ótimo. Apresenta valores individuais de excelente nível e bom jogo coletivo. Ganhou o último campeonato alemão de forma notável. Contudo, o que exatamente serve de parâmetro para guindá-lo ao gigantismo internacional promovido pelos Galvões da vida?

Os reis das obviedades tomam como fundamento duas partidas. Absolutamente nada que escape às duas derrotas impostas ao Barcelona, este, de fato, o gigante da história do futebol contemporâneo tanto pela qualidade técnica como por grandeza de títulos conquistados (vale ressaltar que, no momento, o Barça está claramente em declínio, motivado por diversos itens que vão muito além da ausência, na ocasião da partida, do contundido Lionel Messi).

Nem mesmo é possível classificar a recente alçada midiática do Bayern à condição de time mais forte do mundo como resultado de anos de construção. O projeto que colocou o clube em três finais da Liga dos Campões nas quatro últimas competições disputadas não é considerado. Está longe de ser o parâmetro para a conclusão dos gênios da cobertura esportiva, já que mal citado é.

Sai o Barcelona, entra o Bayern Munique. Numa simples operação que não leva em conta nenhum fator a não ser a busca de audiência e a venda da publicidade. Aqui entra a aposta no descartável. Mexe-se na prateleira, substitui-se um produto por outro e esquece-se a missão de informar.

Não estou aqui a defender o mau humor, mas a seriedade. São conceitos bem diferentes. O futebol, esporte mais popular do planeta, não é só diversão. É patrimônio cultural da humanidade. Merece precisão e responsabilidade na transmissão da informação, que é bem de interesse público.

No entanto, na ânsia pela venda do produto, o que prevalece são as bobagens ditas por falsos profetas, principalmente os do apocalipse. Eles adoram gritar fins e surgimentos. Amam antever os rumos do mundo. Triste. Ainda mais entristecedor é que isso vá bem além de uma transmissão esportiva. Invade as várias áreas do jornalismo. Sem piedade, a irresponsabilidade informativa vista em Barcelona x Bayern Munique atravessa a vida de quem acompanha as editorias de cada dia.

Precisão? Que se dane!

Só para reforçar o quanto o futebol serve de referência sobre a falta de competência na apuração e o quão são irresponsáveis as coberturas jornalísticas atuais, vale lembrar casos envolvendo os jogadores Neymar e Paulo Henrique Ganso, hoje no Santos e no São Paulo, respectivamente.

No limite da irresponsabilidade, tem veículo de comunicação que reforça o erro de outro, site que aposta em astrologia para fazer “jornalismo” e interesses nada nobres em jogo.

-- Ganso troca Santos por Corinthians

-- Astrologa prevê lesão de Ronaldo, alcoolismo de Neymar e queda do Vasco

-- A cruzada da mídia contra Neymar


*Moriti Neto, jornalista. ilustração de Victor Zalma, especial para o texto, faz sua estreia no time de colunistas do NR

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Atalho furta-cor



por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Decidi pegar uma carona no bonde do dia das mães, que partiu já faz tempo, tão logo os ovos de páscoa encontraram seus donos. Mas fique tranquilo, não vou começar mais uma ladainha sobre essas criaturas lindas, sorridentes, perfeitas e prontas para renunciar a qualquer coisa pelos filhos, criadas pela mitologia religiosa e alegremente assumidas pela publicidade e o comércio. Pego a carona e mudo o itinerário.

Todo mundo conhece alguém que adotou filhos, ou que foi adotado por mãe, pai ou uma família inteira. Independentemente das muitas razões que levam ao abandono de um filho ou filha, o primeiro destino dessas crianças quase sempre é a aridez dos abrigos mantidos pelo Estado ou por instituições de cunho social. Por mais que os profissionais da área se esforcem e se dediquem, serão sempre pessoas desempenhando uma função, não têm como proporcionar uma vivência familiar, em todas as suas nuances.

E acho que ainda não inventaram um ambiente mais adequado para o acolhimento e desenvolvimento das crianças do que as famílias, nas suas mais diferentes conformações – se bem que, em algumas delas, há mais motivos de sofrimento que de crescimento e preparação para a vida. Mas este é um outro assunto.

Vou ficar com o lado que conheço dessa história, aquele das pessoas com quem me relaciono, que adotaram ou foram adotadas.

Elas me comovem. De um lado, os filhos, que, como todos os bebês de todos os tempos, não pediram pra nascer, mas nasceram, e, a partir de certo momento, foram privados do aconchego de quem os trouxe ao mundo, porém encontraram outros colos e braços ávidos por acolher e nutrir. Do outro, mães e/ou pais que decidiram compartilhar a existência no sentido mais profundo e recebem os filhos dentro de si, naquele exato lugar onde eu guardo os meus, lugar que dispensa nome e desconhece palavras. E constroem uma vida juntos.

Sim, há histórias de adoções mal sucedidas, assim como existem tantas famílias biologicamente constituídas que dão errado, por assim dizer. Em todo caso, todo mesmo, é impossível prever o desenrolar da vida, a começar por não termos como saber o que qualquer outra pessoa sente. Levantar um edifício sobre estas incógnitas é tarefa para mais de uma vida, e dá sentido a esta única que temos.

Acho que o desvio do bonde deu num atalho pra lá de complicado. Tomara que alguém me entenda.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Higienópolis


por Cidinha da Silva*

A Veridiana parece uma avenida, é larga que só, até cansa atravessar. Esperávamos o sinal verde para pedestres no cruzamento com a General Jardim.

Do lado oposto ocorria uma cena bastante comum na região, uma dondoca acompanhava um daqueles cachorros artificiais, de pelo desenhado, unhas pintadas, maria chiquinha, óculos escuros, cachecol e outras firulas. Inusitada era a presença de uma garotinha dourada de uns três anos ou pouco mais. Filha da mulher, soubemos depois.

O sinal abriu para nós, finalmente. A mãe do cachorro rearranjou as sacolas de shopping no antebraço, de forma a deixar a mão livre para ajudá-la a colocar o animal no colo. Ainda teve tempo de dar um beijinho nele, antes de dizer para a menina, “vem filha, vem. Segue a mamãe.”

Desceu da calçada para o asfalto, deu três ou quatro passos e olhou para trás para certificar-se de que a filha a acompanhava. A menina não se movia. Ela, carinhosa: “vem filhinha, vem com a mamãe, vem, vem.” A menina olhava para a mãe, para o cachorro que devia ser dela também, para os carros, para a imensidão à frente e ficava do mesmo jeito, empacada.

A mãe andou mais uns cinco passos e disse: “Olha, filhinha a mamãe ta indo. Vem também, fofa!” A menina então abriu o berreiro e começou a sapatear. A mãe compreensiva, explicou à filha e aos passantes que estava com as duas mãos ocupadas, não poderia carregá-la. Ela precisava colaborar, ser boazinha e andar.

Os passantes pareciam estar em choque. Nós estávamos. Ninguém foi despachado o suficiente para oferecer ajuda à senhora. O guarda de trânsito da outra esquina, atento, veio andando e ofereceu a mão para a menina. Ela não aceitou, queria colo. Ele ofereceu o colo. Ela rejeitou. O guarda, paciente, explicou à mãe que a menina parecia querer o colo dela e que talvez fosse bom colocar o cachorro no chão e puxá-lo pela corda.

A mulher, meio brava, argumentou que o cachorro tinha trauma de buzina e havia gente sem coração que parecia ler a mente do bicho e buzinava só para assustá-lo. De mais a mais, ele tinha tomado uma vacina e estava sonolento. Disse ainda que a filha estava ficando muito cheia de vontades. Será que o guarda não poderia ajudá-la carregando as sacolas, ela morava no quarteirão abaixo. O guarda assentiu. A mãe fez um carinho na cabeça da menina e deu-lhe a mão.

O guarda aconselhou à mulher que acelerassem o passo, pois estava juntando gente e multidão, sabe como é...

*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A Casa da Vó


por Tomás Chiaverini  ilustração Ligia Morresi*

Uma festa dionisíaca. Música alta sem ligar pros vizinhos, intervenções artísticas nas paredes, stripers, pirofagia, fogos de artifício. A festa da demolição. Era o mínimo que poderíamos fazer pelo predinho de dois andares, encravado no âmago da boemia paulistana: Arthur de Azevedo, quase esquina com a Fradique Coutinho. A Casa da Vó.

A primeira vez, pus os pés sobre os tapetes persas puídos que forravam o chão de tacos da Casa da Vó foi há algo como quinze anos. Estava no colegial e usava um vergonhoso porém bem cuidado rabo-de-cavalo. Devia ser pouco mais de dez da noite e lembro bem do meu grande amigo Arpad entrando pé-ante-pé na minha frente, do som alto e da luz azulada da televisão vindo do quarto da Dona Alzira.

– Vó?... – Ele gritou da sala, com a voz cheia de receio. – Trouxe um amigo pra dormir aqui, tudo bem?

– Contanto que não durma comigo!... – Foi a resposta bradada num português arquetipicamente alentejano.

Dona Alzira era assim. Baixota e gorducha, dona de um mau-humor tão direto e evidente que ganhava contornos cômicos. Lúcida e ativa, sabia da fama de birrenta e usava isso a seu favor, às vezes (talvez na maior parte delas) apenas por diversão. Tinha uma vitalidade incomum para os oitenta anos e estava sempre viajando, o que, ao longo de uma década e meia, nos deu oportunidade de realizar um sem número de festas dionisíacas no seu apartamento recheado de fotos antigas e flores de plástico.

Não lembro quantas vezes dormi embriagado nos lençóis de Dona Alzira enquanto ela viajava pelo Brasil em excursões da terceira idade. Mas lembro bem de algumas em que sucumbi às carícias femininas, pecaminosamente alheio ao Cristo de madeira, obrigado a assistir a tudo com as mãos pregadas na parede da cabeceira.

Dona Alzira sofria com nossa boemia, com a boemia do bairro e, em especial, com a boemia do neto. Um desabafo dela ao próprio tornou-se anedota recorrente no fabulário da Casa da Vó. Estava inconformada com a morte de duas plantas postas em dois grandes vasos na calçada, ao lado da porta da frente.

– Toda noite esses bêbados sem-vergonha mijam nas minhas plantas – revoltava-se sem saber que a fonte da ureia mortífera era, vejam só, a bexiga de seu próprio neto.

Há cerca de dois anos, Dona Alzira ficou doente. Na verdade foram vários problemas na sequência, um agravando o outro. Ela perdeu a vitalidade numa velocidade espantosa e em pouco tempo já não podia morar sozinha. Há pouco mais de um ano, mudou-se para a casa da filha, e alugou o apartamento para o neto, que convidou outra amiga, a Marilia, para dividir a casa e as despesas.

A vocação ainda mais festiva da nova configuração já se evidenciou na mudança. Pleno sábado de carnaval, uma van, três amigos, daí passamos na casa do Paulo que incrivelmente estava de bobeira na calçada, pensando no que fazer da tarde modorrenta, e foi imediatamente sequestrado junto com a Nat, e logo era tudo uma confusão de coisas velhas sendo jogadas fora e perucas da Dona Alzira distribuídas para acompanharmos o bloco de rua que logo passou na nossa porta, como aconteceria se a vida fosse um filme de Felini.

Em pouco tempo, o que era um ponto de apoio à boemia, logo se tornou o centro da nossa interação social, zona franca dos prazeres mundanos. Por um regulamento nunca escrito ou sequer falado, alguns membros subjetivamente eleitos daquele grupo tinham liberdade de marcar comemorações, aniversários ou churrascos na Casa da Vó.

Alheia às alegrias que sua ex-casa nos proporcionava, Dona Alzira ficou novamente doente. Foi internada algumas vezes, por períodos progressivamente mais longos... Até que, já viram... Há alguns meses Dona Alzira não está mais entre nós. E algum tempo após a sua morte, a família finalmente capitulou às investidas de uma construtora. Não havia escolha. Ou vendiam o predinho por uma polpuda quantia de reais, ou teriam de conviver com uma obra que se estenderia durante anos e faria da Casa da Vó uma verruga encravada em mais um arranha-céu neoclássico. Isso se as velhas fundações resistissem aos bate-estacas.

Daí, portanto, a ideia da festa da demolição. Uma última homenagem ao prédio moribundo. Um misto de comemoração, catarse e funeral, uma histérica e dolorosa ode a Shiva e à inclemência do tempo. Chegamos a planejar as intervenções artísticas e até escolhemos a data. Não aconteceu na primeira e adiamos, sem muita certeza. Também não aconteceu na segunda.

E, novamente, já viram... A festa da demolição nunca se concretizou. Meu grande amigo Arpad arrancou as peças dos banheiros, as janelas e as portas para instalar na sua nova casa, num sítio no extremo da Zona Sul. O máximo que pude fazer foi quebrar um pedaço de parede com um ponta-pé. E hoje nosso querido sobrado não passa da uma pilha de escombros.

Aos leitores, peço perdão pelo anticlímax final. Mas assim parece ser a vida, uma vertiginoso desfile de caprichos e picuinhas do tempo. Poderia, talvez, terminar com o doloroso clichê de que éramos felizes e não sabíamos. Mas não seria verdade. Éramos felizes e sabíamos muito bem disso.


*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Ligia Morresi, designer e ilustradora, especial para o texto

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Solilóquio sobre a monotonia



por Alexandre Luzzi*

A oportunidade da escrita tem transformado a forma como vivencio o mundo. Tenho prestado mais atenção nas coisas que me cercam, incluindo meu mundo interior. Aliás, sempre tive dúvidas quanto a essa separação entre exterior e interior, afinal, emoções e sentimentos também são feitos de carne, ossos e mundo.

As motivações para o texto de hoje são duas: a primeira diz respeito a um sonho que tive  certa noite. Eu era observador em uma partida de futebol vibrante e disputada, em que dois times se digladiavam sem definição. Enquanto isso, os torcedores cantavam de forma penetrante das arquibancadas: “jogamos o jogo com a bravura de estar fora de alcance”.

Identifiquei a música, das minhas preferidas, que é do álbum In the flesh (na carne) de Roger Waters. O que teria motivado tal material onírico? Qual o significado dessa canção dentro desse sonho? Alguém conhece algum psicanalista por aí?

Confesso que fiquei inquieto com o assunto e fiz uma investigação partindo dos pensamentos conscientes que mais me importunaram nos últimos dias. Fiz a seguinte associação: sentado em meu sofá, dias atrás, em uma manhã de domingo meio nublada, enquanto via um desses programas esportivos espetaculares pensei:

– Como anda monótona e ordinária essa minha vida perto das aventuras que vivem esses esportistas e jornalistas que arriscam tudo por uma sensação “extra-ordinária”.

Maratonas exaustivas em lugares exóticos, escaladas em montanhas com alto grau de risco, ondas gigantes surfadas no fio da navalha, mega-rampas de skate que desafiam a gravidade, lutas agressivas que fazem qualquer filme de gladiadores virar desenho animado.

Mais perguntas tomaram de assalto meus pensamentos. Que tipo de experiência estão buscando essas pessoas? Que corpo é esse que hoje suporta todo tipo de provação esportiva? Onde estão ancorados nossos ideais de felicidade e bem-estar? Em que medida a cultura modula tudo isso? Além de todas essas perguntas, o que mais me intrigava era entender a relação desses pensamentos com o sonho. Será que nossa mente inconsciente é capaz de apresentar respostas simbólicas para anseios e angustias reais?

O fato era que realmente me senti insatisfeito com minha própria vida diante de tanta exuberância sensorial espetacular mostrada naquele programa. No mesmo instante outro pensamento colocou-me um contraponto:

– Rechear a vida com êxtase sensorial significa ser mais feliz?

Sem respostas fui atrás de alguma literatura que desse uma luz sobre o assunto. Encontrei algumas coisas muito interessantes que gostaria de dividir (a segunda razão do texto de hoje).

Diz o psicanalista Jurandir Freire Costa, por exemplo, que a atualidade é marcada pelo peso dado ao desempenho sensorial do corpo na construção dos ideais de felicidade. Nossa cultura associa, cada vez mais, êxtase sensorial com felicidade, é a cultura da “adrenalina”, diz ele.

Valorizamos atualmente objetos e imagens que excitam os sentidos despertando o corpo para uma nova prontidão prazerosa. O problema é que essa estrutura é similar ao arranjo bioquímico do vício, ou seja, depois de um certo limiar a pessoa não consegue parar de aumentar a dose.

Segundo o mesmo autor, êxtase é um ponto de intensidade que, uma vez atingido, decai rapidamente, e ao se tornar familiar, perde o atrativo. E além de cessar com o fim da excitação, raramente o indivíduo reproduz o gozo na forma original. Desse ponto de vista a felicidade erguida sobre o êxtase sensorial é precária, vacilante e passiva.

E temos o extremo oposto dessa engrenagem: dor, sofrimento, angústia e perdas, que são sensações a serem exterminadas pelo primeiro pastor, médico, curandeiro ou, até mesmo, educador físico que aparecer. Quanto mais falamos em minimizar o sofrimento e otimizar o prazer, mais nos privamos de prazer e mais nos atormentamos com os sofrimentos que não podemos evitar.

A busca da felicidade é um horizonte perseguido pela maioria das pessoas, no entanto, poucos se dão conta da dependência desse conceito com pressupostos culturais.

Dependendo do sentido e dos ideais que nos mobilizam nessa busca, corremos o risco de como na torcida do meu sonho, “jogar o jogo com a bravura de estar fora de alcance”.

O que quero dizer é que damos muito valor a realidade e pouco valor a imaginação – sorte dos poetas e escritores que se refugiam da monotonia da existência criando um mundo novo a cada escrita. Talvez, mais importante do que ser feliz é ser criativo. A compulsão pela felicidade sensorial é a ação criativa em seu mais baixo grau de expressão. Já o seu mais alto grau, é coisa que só Fernando Pessoa sabe expressar:
“Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha. O caçador de leões não tem aventura para além do terceiro leão. Para o meu cozinheiro monótono uma cena de bofetadas na rua tem sempre qualquer coisa de apocalipse modesto.”
*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Vida mansa


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna

Lá nas bandas de onde eu vim, branco era branco, preto era preto, pobre era pobre e rico era rico. Todos católicos, menos nós e mais uns gatos pingados, que o cônego italiano adorava infernizar.

Sanduíche de mortadela era a delícia suprema no lanche da escola, quando nossa pobreza me permitia uns trocados pra gastar na padaria. Melhor do que isso, só as maçãs argentinas, que comia escondida no banheiro da escola “pra não dar vontade nos outros”, dizia a professora. Escola pública de antes da universalização do ensino; lá aprendi tudo o que sei.

A cidade era cercada de canaviais e laranjais. Depois que se instalou a primeira fábrica de suco para exportação, todas as tardes subia o doce cheiro de bolo de laranja, provavelmente resultado do processamento da casca da fruta. A cana era cuidadosamente descascada e picada em pedaços tão pequenos que cabiam inteiros na boca. Dela se fazia a garapa, que mais tarde ganhou o nome bobo de caldo de cana.

Seguia mansa a vida. Minha mãe trazia tecidos da loja da minha avó, que morava em outra cidade. Íamos juntas levá-los à costureira Mercedes, que os transformava nos figurinos das revistas. A modista vivia ao lado do quartel do exército, com o marido ferroviário e muitas filhas. Fascinava-me a quantidade de tecidos, retalhos, aviamentos, moldes de papel, fitas métricas e carretéis de linha colorida amontoados por todos os lados. Misturavam-se crianças, cachorros, café e o cheiro do refogado do arroz.

Os professores estão em greve, ouvi um dia ao chegar à escola. Hoje não tem aula. E não teve por meses a fio. Depois foram os ferroviários, em assembléia permanente num galpão do centro da cidade. Meus pais participavam de mutirões que preparavam sanduíches de queijo para os grevistas.

Até aquele dia. A cidade se encheu de soldados. “Finalmente se tomou uma providência para por ordem neste país” – explicou a professora – “estudantes e sindicalistas só querem baderna”. Era dezembro, mas os dias eram cinzentos e eu sentia um frio na barriga.

Quando voltamos à costureira, soubemos que o marido estava preso no quartel vizinho. Por quê?, perguntei, espantada, pois para mim cadeia era coisa de ladrões e bêbados. Ninguém respondeu. Meu pai foi chamado para um interrogatório. Quase morremos de medo durante as horas que ele passou lá. Voltou ileso, mas amansou seu discurso sobre os milicos, que sempre havia desprezado e ridicularizado.

Minha vida continuou sem sobressaltos, no entanto nunca mais foi a mesma. Embora não entendesse o que se passava, sentia o medo, a vigilância constante, via velhos apresentando documentos a soldados adolescentes e aprendi que os adultos tinham sempre que provar quem diziam ser.

Uma nova matéria foi incluída no currículo escolar. Chamava-se Educação Moral e Cívica. Falava da importância da religião católica, da família e dos valores ditos cívicos, como patriotismo e guerra ao comunismo e à subversão, tudo misturado no mesmo balaio. Tentaram explicar o que se passava, com louvações aos heróis militares e canções de amor ao Brasil, “meu coração é verde, amarelo, branco e azul anil”. No começo, até fui na onda, mas perguntava muito, e a falta de respostas só me fazia pensar mais. Levei uns bons anos para entender.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

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