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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

domingo, 31 de março de 2013

Esse nosso dia


por Ricardo Sangiovanni*

Hoje é Primeiro de Abril. Mentira.

Essa sorte não tive: o dia de minha crônica caiu neste trinta e um insólito de março. Acho inclusive, me desculpe você que aniversaria hoje ou em algum trinta e um de mês, mas acho trinta e um o número mais feio entre todos para ser um dia – ganha até do detestável dezessete. Dia trinta e um só serve para atrasar o salário de entrar na conta, atrasar o ano novo de entrar, atrasar, atrasar, atrasar. Não deveria haver dia trinta e um.

Mas não será tampouco porque hoje ainda não é Primeiro de Abril que deixarei de registrar o que tinha pensado em falar dessa efeméride, aliás para mim a mais fascinante do calendário nacional.

Pensando melhor, bem que eu poderia, é verdade, guardar essa minha ideia para outro ano futuro, ou deixar para falar do Primeiro de Abril quando a ilustre data dignar-se a cair num domingo, que é meu dia de publicar a crônica, como se finalmente o destino estivesse me pedindo opinião sobre o assunto. Mas vejo no calendário que isso só vai acontecer em 2015, e daqui até lá sabe-se lá se ainda vivo estarei; e se estiver, se estarei escrevendo; e se estiver, se ainda será aos domingos, pois nisso tudo só quem manda é Deus e o patrão.

Ademais, guardar essa minha ideia (esse meu pleito!) em relação ao Primeiro de Abril para depois parece-me coisa aziaga, um atestado de que não acredito que nosso Brasil possa dar a volta por cima em dois anos redentores, um malíssimo auspício para os rumos da nação – e maldição é coisa de que a pobre anda menos precisando por esses tempos. E outra: em 2015 já vai ter passado a Copa, e então todas as nossas mazelas já terão sido sanadas – e sobrearei eu, reles croniqueiro fraquinho das ideias, micado com minha piada na mão.

Pois então, o que queria dizer é o seguinte: todo ano, quando chega o Dia das Mães, aparece sempre alguém para dizer que Dia das Mães, na verdade, é todo dia. Vem o Dia do Índio, e tome-lhe gente a dizer que o Dia do Índio é todo dia. Dia da Consciência Negra, e ah, mas deveria ser todo dia. Igualmente ocorre com o Dia do Trabalhador, com o Dia da Mulher, o Dia da Vó, Dia do Livro, do Meio Ambiente, da Liberdade de Imprensa… todo dia era para ser dia de tudo, afinal de tudo se precisa - do que já há e do que ainda falta - todo santo dia.

Acho bom.

Só acho graça que num país que tem mais de 200 (ou, sei lá, de 500) anos e ainda analfabetos aos milhões; que ainda discrimina gente por causa de opção sexual, classe social, preferência divinal, cor epitelial e mais o escambau; que ainda concentra privilégios, direitos e poder, mas peleja para distribuir um trisquinho de renda e oportunidades; que deseja infame a volta da inflação só para vender notícia; que quer ter criadagem doméstica e por isso pagar uma miséria; que elege seus legisladores uma torrente de pilantras a cada quatro anos - entre os quais, oh cereja do bolo!, um homofóbico racista para cuidar de seus direitos humanos… enfim: só acho graça que num país onde isso tudo grassa, não apareça ninguém para bradar que se reconheça de uma vez por todas nossa única e inconteste verdade nacional: Dia da Mentira é todo dia.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Pronto, falei!


por Júnia Puglia              ilustração Fernando Vianna

A notícia está num jornal de hoje (março de 2013!): foi realizado o primeiro casamento civil no Líbano, de um casal decidido a desafiar as lideranças e as práticas religiosas e utilizar um dispositivo legal que já existia, mas ninguém ainda havia tido a coragem de aplicar. O casamento aconteceu há quase um ano, mas só agora veio a público, provocando, mesmo tardiamente, a ira dos muçulmanos radicais, que exigem a manutenção do controle religioso sobre a vida civil.

Posso imaginar a reação dos meus esclarecidos leitores, chocados com o atraso nos costumes observado naquele país e com a ingerência da religião na vida privada das pessoas. E aliviados por Deodoro da Fonseca ter estabelecido o casamento civil heterossexual por aqui em 1890, tão logo nos tornamos uma república.

Lamento estragar seu alívio. Se você ainda não percebeu, está em curso no Brasil – e, infelizmente, não só aqui – uma ofensiva religiosa conservadora fundamentalista cujo principal objetivo é ocupar o cenário político e institucional com pessoas que promovam suas ideias e sua visão de mundo, e imponham seus valores a toda a sociedade. Ou você acha que Marco Feliciano brotou da terra e se fez sozinho? Santa ingenuidade!

Não me refiro apenas aos evangélicos fundamentalistas, que têm estado mais em evidência, mas a grupos religiosos ultraconservadores em geral. No dia-a-dia, eles não são grandes amigos uns dos outros; disputam fiéis, atacam-se mutuamente, competem por espaço na mídia e na política, criam cisma sobre cisma, mas quando se trata de sustentar publicamente posições de força em defesa dos temas que lhes são caros, unem-se como monólitos e passam todos juntos, derrubando tudo o que veem pela frente.

O perigo maior é que, apesar do discurso de amor, compaixão etc., essas pessoas nutrem um profundo desprezo pelo outro, por quem crê de forma diferente da sua, ou descrê. Na verdade, em seu pensamento raso, muitas delas acham que estão agindo movidas pelo amor e pela compaixão, porque o que realmente importa para o mundo, para todas as pessoas, que vai salvá-las definitivamente da maldição eterna – que é o que elas mais temem, no fim das contas – é a sua própria crença, a única, a definitiva, completa e inquestionável. E, vamos combinar, contra verdades definitivas não há argumentos.

Sonham com um país santificado, livre de feministas, gays e afins, famílias não tradicionais, negros e índios inconformados, humanistas, arte profana, querem libertar o Brasil da imoralidade e da tirania dos direitos, inaugurando uma sociedade voltada para o que é certo, justo e conforme com o que interpretam como a vontade do seu deus, da qual são porta-vozes. E que deve ser imposta a todos e todas, sejam lá quais forem as convicções e escolhas individuais. Contam com o apoio tácito de muita gente que, embora não necessariamente partilhe das mesmas crenças, acredita que um pouco mais de controle e menos direitos vai ser bom pra todo mundo. Não sabem, não têm ideia de onde isso pode parar.

Resumindo, trata-se de um projeto de poder, bem humano e bem terreno, com objetivos ambiciosos, que está avançando a olhos vistos. Mais do que necessário, considero essencial detê-lo, em nome de tudo o que me permite pensar, escolher e decidir, e que me obriga a respeitar a vida alheia.

Hesitei muito em me manifestar sobre este assunto, em respeito à minha origem pentecostal e às muitas pessoas desse meio por quem tenho toda a consideração, começando pela minha família. Concluí que deveria fazê-lo, e que só se incomodará quem se identificar com a intolerância, o obscurantismo e o atraso.


Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto

quinta-feira, 28 de março de 2013

Violência na UFSC: "são vagabundos", disse a PM

por Marino Mondek*

No dia 24 de março, um domingo, a Polícia Militar entrou na Universidade Federal de Santa Catarina, Campus da Trindade, para impedir que algumas pessoas, todas jovens, quase todas pobres, muitas delas crianças, brincassem de pipa.

Quem acionou a Polícia foi a própria segurança do Campus, alegando que o cerol usado em algumas pandorgas ou pipas poderia causar acidentes graves. Para justificar a ação, disseram ainda que alguns jovens, em situações passadas, estavam armados.

Eu estava lá e relato as coisas que vi. E confesso que nunca, na minha vida acadêmica, tinha visto nada igual. Por volta das 15h, a PM e os seguranças da universidade expulsaram o grupo que estava próximo ao CED (Centro de Educação) e depois foram fazer a mesma coisa na Praça da Cidadania.

O argumento da PM: “são vagabundos”. O da segurança do Campus: “eles não têm autorização para brincar”. Depois de tirarem essas pessoas da praça, destruindo e confiscando pipas, bambus e rolos de barbante, como se fossem armas, o grupo seguiu para o estacionamento ao lado do antigo Restaurante Universitário.

Eu fiz algumas fotos, que foram postadas no Facebook, e tentei filmar a truculência da polícia. Vi a PM jogar o carro em cima de crianças de menos de 10 anos e passar por cima dos brinquedos. Continuei filmando até a chegada de um segundo carro da PM, uma S10. Os policiais desceram apontando armas para o grupo.

Nunca pensei que isso pudesse acontecer comigo. Quando este segundo carro chegou, um policial, que estava desde o começo da “operação”, veio pra cima de mim. Recuei, ainda com o celular filmando. Outro PM se aproximou e apontou a arma para a minha cabeça.

O primeiro falou: “pra parede seu merda, vagabundo.” Pensei: “fui preso”. Depois de uma “geral”, fui duramente repreendido pela segurança do Campus. Nesse momento, chegaram uma conhecida e um conhecido e começaram a discutir o assunto.

Então, aparentemente mais calmos, os policiais me pedirem “com gentileza”, sem arma na minha cabeça, mas com a mão na pistola, para que eu apagasse o vídeo do celular. Apaguei. Eles ainda rondaram dentro da UFSC por cerca de meia hora, até dispersar o grupo da brincadeira.

Este texto não é para relatar o terror psicológico ao qual foi submetido um estudante, mas sim para refletir como o Estado e a Universidade lidam com a disputa do povo por um espaço na sociedade.

Parto do princípio que uma das maiores funções de uma universidade pública é cumprir o papel de pensar e construir soluções para os conflitos sociais. Quando chegamos ao ponto da universidade precisar chamar a polícia – órgão que tem apenas a função de reprimir – para mediar esses conflitos, ela expressa sua total falência. Onde deveria ser construído o diálogo, é construída a repressão.

Os setores populares veem a universidade como um local cheio de prédios, nada além disso e com a entrada da polícia no campus, expulsamos quem mais deveria se beneficiar com esse espaço. E, de quebra, perdemos nossa autonomia e liberdade para pensar e resolver os problemas da sociedade.

Pergunto: Qual a posição da Reitoria com relação a isso? Quando a universidade vai sair de sua bolha, subir o morro e abordar os conflitos sociais?

Até quando o único órgão público que chega a essas pessoas será a polícia?

Até quando perderemos nossa autonomia de pensamento e expressão em nome de uma suposta segurança, que mais nos reprime do que nos liberta?

O mais incrível: tudo isso aconteceu durante uma gestão que se diz a mais progressista na história da UFSC. E imagina se não fosse.


*Marino Mondek, estudante de pedagogia, mora em Santa Catarina, especial para o NR

Corporalidade Negra em Lado a Lado



por Cidinha da Silva*

Perdoem-me os fãs da Capoeira, mas quero falar sobre futebol na novela Lado a lado. Chico (César Mello) protagonizou cena histórica vivida no início real do século XX por Carlos Alberto, jogador negro que, migrando do singelo América para o aristocrático Fluminense, temeu a rejeição da torcida e, desejando evitá-la, passou pó-de-arroz no corpo, antes da partida.

O problema é que a mistura química do pó-de-arroz com o suor, à medida em que o jogador se movimentava no campo,  transformou-o em uma papa. Resultado trágico de uma válvula de escape do racismo que não funcionou. Talvez seja possível à leitora imaginar o desespero de Carlos Alberto ao buscar uma alternativa de proteção tão ridícula e fadada ao fracasso.

O jogador da telenovela imitou o jogador da vida real com o mesmo objetivo do primeiro, ou seja, encontrar um caminho para ser aceito no mundo branco. Chico é chamado para jogar no time dos brancos (todos os times eram de brancos, naquela época), porque é bom de bola. O perigo é defini-lo como bom de bola porque é negro.

Nenhum negro é bom de bola porque nasceu negro, não está no sangue. Determinismo sanguíneo é quando o negro tem muitas hemácias saudáveis, isso pode oxigenar bastante o cérebro e potencializá-lo como corredor. Esse seria o verdadeiro sangue bom. Mas o talento de Chico não vem daí. É nato na proporção apenas em que todo e qualquer talento pode ser considerado nato, não o é para os negros de maneira restrita.

Chico joga bem porque tem ginga, tem o corpo flexível, corre muito e não se cansa. Tem habilidade para correr e dominar a bola ao mesmo tempo. A ginga, Chico adquiriu na vida, não só na capoeira. O corpo precisa aprender muito de flexibilidade ao carregar numerosas sacas pesadas no porto, de maneira tal que a coluna vertebral se mantenha inteira para carregar outras tantas sacas no dia seguinte e no próximo, no próximo... E depois de carregar peso o dia inteiro, é preciso ter pernas fortes para subir o morro e disposição para ajudar um vizinho a refazer o telhado do barraco levado pelo vento. E depois de comer o feijão com farinha oferecido a toda gente, tomar um banho frio e amar a amada até o primeiro galo cantar lembrando que o porto o espera novamente.

Essa corrida insana pela sobrevivência inscreve no corpo negro um requebro, uma destreza, uma polissemia que entorta os janotas e o povo, erradamente, chama de característica negra. Certo seria entender que é a vida do negro que acaba por obrigá-lo a adquirir essa maleabilidade. E como não somos de ferro, subvertemos  a ordem da opressão, da exploração, em favor nosso. Enganamos tão bem, que passam a achar que somos bons de bola porque somos negros.

* escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Tia Ciata e as tias baianas...

Uma história da Pequena África carioca


por André Carvalho ilustração Kelvin koubik "Kino"*

Eram embarcações repletas de negros que aportavam no Rio de Janeiro. Porém, ao contrário daqueles tristes tempos em que os navios que lá chegavam eram negreiros, estes traziam a bandeira branca de Oxalá. Era o sinal para avisar que mais uma leva de baianos forros desembarcaria na Baía de Guanabara.

O destino principal era o bairro da Saúde, próximo ao cais, onde muitos ex-escravos tornariam-se estivadores. Morando em cortiços e em outras instalações coletivas, não demoraria muito para o grande volume de africanos e afrodescendentes incomodar a elite branca higienista. Então, no alvorecer do século XX, o prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, promove uma grande reforma urbana, demolindo as habitações onde os negros haviam se instalado, ao chegar da Bahia.

Retirados de lá à força, passariam a ocupar os morros próximos, dando início à criação das primeiras favelas. Outros se retiraram para o subúrbio, morando próximo às estações de trem que se espalhavam pela cidade. Muitos, porém, residiriam em um espaço que viria a ser conhecido por Pequena África – nome dado por Heitor dos Prazeres –, que partia das margens do Campo de Santana e se estendia até a Cidade Nova, terminando nos limites do bairro do Estácio de Sá. Era lá que ficava a Praça Onze de Junho, reduto de celebrações carnavalescas e local onde se estabeleceram as tias baianas, que fariam história com suas festas religiosas e pagãs, de candomblé e samba. Foi lá que brincaram, cantaram e criaram ricas páginas do nosso cancioneiro os integrantes da primeira geração do samba carioca.

Quituteiras, mães de santo, foram articuladoras de uma sociedade – que se valia do matriarcalismo, herança direta africana – configurada às margens da “civilização” proposta pelas elites. As tias baianas eram lideranças sociais de uma comunidade que buscava se afirmar em uma nova cidade, uma nova civilização e uma nova era, onde os ex-escravos almejavam, finalmente, uma integração social que lhes foi negada desde o dia em que desembarcaram dos navios negreiros no território brasileiro. Em suas casas, configuraram-se espaços de aconchego, participação, luta e festa.

Para aqueles que chegavam à Pequena África, a primeira parada era, ou na casa da Tia Sadata, ou na casa da Tia Davina, verdadeiras embaixadoras da comunidade negra baiana no Rio de Janeiro. Elas ajudavam os recém-chegados a encontrar moradia e trabalho, dando guarida a eles enquanto as oportunidades não apareciam. Havia muitas outras: Tia Perciliana (mãe de João da Baiana, que traz no nome a ligação a sua genitora), Tia Amélia (mãe de Donga), Tia Celeste (mãe de Heitor dos Prazeres), Tia Bebiana (a passagem dos ranchos e dos cordões carnavalescos sob a janela de sua casa, na Praça Onze, era obrigatória), Tia Mônica, Tia Perpétua, Tia Veridiana, Tia Dadá (onde o compositor Caninha afirmava ter ouvido samba pela primeira vez).

Uma delas, no entanto, se destacou pelo grande poder de integração sociocultural, registrando o nome, para sempre, na história do samba: Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata. Nascida na capital baiana em 1854, migra para o Rio de Janeiro aos 22 anos de idade. Quituteira, monta seu tabuleiro na rua, mas é em sua casa que as coisas acontecem. O endereço, que depois entraria para história da música popular brasileira, é Rua Visconde de Itaúna, 177, Praça Onze, “Pequena África”, Rio de Janeiro.

Iniciada no candomblé no terreiro de João Abalá, Tia Ciata torna-se Iyá Kekerê, Mãe-Pequena, adquirindo, assim, grande respeito e influência na comunidade baiana local. Em sua casa, os cultos misturavam-se com as festas profanas. Também ali, era um espaço comunitário de trabalho. Os quitutes e doces, primeiramente oferecidos aos orixás, eram vendidos para fora. Tia Ciata também era exímia costureira e fabricava fantasias que as elites da Zona Sul alugavam para brincar o carnaval.

Casada com João Batista da Silva, consegue para ele um emprego de funcionário público de forma um tanto inusitada: curou uma doença grave na perna do então Presidente da República Wenceslau Brás, fazendo um trabalho a base de ervas e reza. A recompensa foi um cargo no gabinete de chefe de polícia para seu marido.

Muito por conta do cargo de João Batista, as constantes batidas policiais, que afligiam a vida dos negros, que sequer podiam se reunir para praticar os cultos e cantar o samba, passavam ao largo daquele espaço de celebração negra. As festas na casa da Tia Ciata duravam três dias. As panelas, sempre cheias, eram constantemente requentadas. A música envolvia a todos e, em cada espaço da casa, um ritmo predominava, obedecendo a uma reprodução sociocultural dos participantes das festas.

Na sala de estar, os mais velhos e bem-sucedidos praticavam o partido alto e o choro. O samba corrido, tocado pelos mais jovens, tinha espaço na sala de jantar, ao passo que a capoeira e a pernada ocorriam nas rodas de batucada no terreiro do quintal.

Eram bambas aqueles que frequentavam o local: Donga, Pixinguinha, João da Baiana, Heitor dos Prazeres, Caninha, Sinhô, Marinho que Toca (pai de Getulio Marinho), João da Mata, Didi da Gracinda, Hilário, João Cancio, Getúlio da Praia, Oscar Maia, Alfredinho, Tisco, Germano e Getúlio Marinho batiam cartão por lá. Os “distintos” Manuel Bandeira, Mario de Andrade, Mauro de Almeida e João do Rio também não perdiam as grandiosas festas que ocorriam ali.

Destes encontros musicais, nasceu o samba Pelo Telefone, o primeiro gravado sob o nome de samba na incipiente fonografia brasileira. Criado de forma coletiva, a música foi registrada, ardilosamente, pelo sambista Ernesto dos Santos, o Donga, como único autor – ele recolheu os estribilhos, adaptou e inseriu a letra de Mauro de Almeida na composição (que apareceu como parceiro nas gravações posteriores), uma das mais emblemáticas da história de nossa música.

A polêmica sobre a real autoria da composição rendeu debates acirrados, paródias e sérias acusações. Fato é que a música segue popular quase cem anos após a sua criação. Em 1924, Dona Hilária Batista de Almeida, a Ciata de Oxum, parte para o Reino de Aruanda. Não se escutariam mais os pandeiros, cavacos, violões e atabaques naquele logradouro histórico. Pouco depois, uma nova geração, baseada no bairro do Estácio de Sá, revolucionaria a música popular urbana carioca, dando nova roupagem ao ritmo nascente que seria batizado como samba. Era a segunda geração de sambistas do Rio, cujos principais nomes seriam Bide, Baiaco, Mano Rubens, Mano Edgar, Marcelino, Ismael Silva, Nilton Bastos, entre outros “valentes”. Mas isto é história para outra crônica.

Escute três versões de "Pelo Telefone". A primeira versão com letra, de 1917 (interpretada por Bahiano), a gravação de Zé da Zilda (de 1938) e, finalmente, o registro de Martinho da Vila, de 1973" Para saber mais, acesse a bibliografia que preparamos para você. 




*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

segunda-feira, 25 de março de 2013

A essência, o essencial e os óleos essenciais


por Tomas Chiaverini*

É preciso escrever sobre assuntos relevantes. Textos profundos, que reflitam sobre a natureza e o sentido da vida, sobre a política humana e sobre o amor genuíno. Foi mais ou menos isso que meu amigo e editor deste espaço falou quando entreguei o último post. Falou cheio de cuidado e educação e com algum pesar. Tinha, talvez, chegado ao limite.

Também pudera, um ensaio sobre cuecas? Quem quer saber que porra de cuecas você usa ou deixa de usar, rapaz? E isso depois de uma série de escritos sobre desodorantes, o desapreço aos barbeiros, o incômodo do relógio de ponto e outras trivialidades desimportantes. Assim não dá. Paciência tem limite. Afinal, se o convidamos para colaborar com este espaço, não foi por seus belos olhos ou para saber dos contratempos de sua vidinha classe média. Você é um escritor, cacete, três livros publicados. Queremos substância. Queremos o sumo da vida vertido em Arial 10.

Certo, certo estou exagerando um pouco. Meu amigo e editor não foi assim tão assertivo. É um cara muito polido e discreto. Apenas sugeriu que eu talvez devesse investir em textos mais sérios e profundos de vez em quando. Claro, concordei, faz todo sentido. E sentei e pensei e comecei até. Mais de uma página sobre o carnaval e a natureza inerentemente efêmera da felicidade.

Mas o mecânico ligou bem no meio de um raciocínio. Aquele barulho na roda dianteira era mesmo o que eu pensava. Rolamento. Tive tanto carro velho que fiquei bom em diagnosticar problemas. Me fale onde dói (ou, no caso, onde faz barulho) que te digo que peça trocar. Cento e sessenta reais. Nada desesperador.

Voltei ao texto. Mas, de repente alguma coisa começou a me incomodar ali. Sabe quando não convence? E quando não convence não flui. E um texto, um bom texto, ainda mais um texto curto, tem de sair de uma vez. Tem que ser uma espécie de orgasmo mental. E, como no caso dos orgasmos, não adianta forçar. Só vem se for natural. Pra piorar, eu tinha prometido entregar no começo de fevereiro. Ou seja, um mês atrás. Mas não dá. Melhor fazer uma pausa pra lavar o resto da louça de ontem.

Mas que caralho, fui de novo ao supermercado e de novo esqueci de comprar detergente. E cândida. E os desodorantes? Cada vez que olho pra coleção de potes, tubos e aerosóis na janela do banheiro, sinto um desconforto no coração. Não consigo encontrar um que não deixe manchas brancas nas camisas.

A Pat, minha nova amiga pseudo-hippie até fez um pra mim. Com vodca e óleos essenciais. Uma graça de menina. Cheguei a testar. Mas estou acostumado a usar desodorantes sem perfume e os óleos essenciais (desculpe, Pat) têm um pouco de cheiro de lojinha indiana. Enfim, preciso jogar fora os desodorantes que não vou usar. Preciso também dar um tapa na casa. Esses tufos de pó que vão de um lado pro outro... Talvez seja o caso de finalmente contratar uma diarista.

Mas e o texto? O carnaval? A busca impossível pela felicidade plena? Talvez tenha perdido a mão. Bloqueio de escritor. Essas coisas acontecem. Ou, pior, talvez simplesmente não tenha um intelecto suficientemente arguto. Afinal, a mediocridade é a regra do mundo, por que seria eu uma exceção? Coisa assustadora. Mas pode ser pior. Pode ser que a vida seja isso. Um infinito amontoado de pequenas tarefas, coisas quebradas, compras, faxinas a prestação, alegriazinhas de sexta à noite e buscas inúteis pelos desodorantes ideais. Pode ser que falar de desodorantes seja o mesmo que falar da essência da experiência humana.

Eu, sinceramente, espero que não.

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha.

sábado, 23 de março de 2013

Criolo e Vaz, expressão da periferia

O artista é a última linha de resistência e de expressão da periferia

Quem foi ao encontro poético entre Sérgio Vaz e o rapper Criolo, promovido pelo Itaú Cultural, na noite da última terça-feira (19/3), entendeu, sentiu e entendeu um pouco desta expressão. Para os dois artistas, essa ideia condensa aquilo que os artistas da periferia vivem e enfrentam para fazer (e viver) da sua arte.

Durante pouco mais de uma hora, Vaz instigou (e brincou) com a ‘timidez’ de Criolo, espécie de poeta que disfarça bem a vivacidade do Criolo músico. Entre declamação de poemas, eles falaram sobre o significado da poesia em suas vidas e também da importância do fazer poético para quem vive nas chamadas quebradas.

Criolo e Vaz durante o evento no Itaú Cultural
O rapper contou o que representa ser reconhecido pela sua arte e as mudanças que esse reconhecimento trouxe a sua vida. “Quando você começa a fazer Rap – poema ou alguma outra forma de arte – não só se torna visível, como percebem que você tem voz”, disse.

Vaz, que dirige o sarau da Cooperifa, contou que já foi criticado pela temática dos seus escritos tratar de miséria, preconceito, violência policial e racimos. “Perguntaram para mim, sobre o que eu ia escrever quando essas coisas não existissem mais. Daí respondi, vou escrever sobre o maravilhoso mundo em que vivemos”, ironizou.

Também sobre a “violência da arte periférica”, Criolo diz que não só é natural o artista falar sobre a sua realidade, como também é “necessário” que isso seja feito.

 “Primavera periférica”

“Você quer brisa? Vai escutar poesia! Toda quarta-feira ainda tem Cooperifa”, diz trecho da música “Vasilhame”, composta por Criolo. É atrás dessa brisa, que os moradores do bairro Piraporinha, extremo Sul de São Paulo, e também de outras regiões, se reúnem para recitar seus poemas, versos, pensamentos.

A Cooperifa é o maior sarau da periferia da cidade e um dos motivos que levam Vaz a afirmar que vivemos uma “primavera periférica”.

O termo, explica, pode ser visto na efervescência da literatura marginal, na multiplicação dos saraus de poesia “nas quebradas” e na retomada do espaço musical do Rap. “Antigamente os excluídos dos processos culturais agora estão se apropriando de diferentes formas de artes e criando novas formas de se expressar”, diz. “É brutal isto que está acontecendo, é uma revolução que oferece outras coisas para o cotidiano de quem vive lá. Isso é muito bonito”, afirmou Criolo.

O grande trunfo deste momento, explica Vaz, é que desta vez está ocorrendo há formação de público. “Agora a periferia deixa de criar o artista e vê-lo indo se apresentar no centro. Agora a manifestação artística é vivida e experimentada pelo povo daqui, esse é o barato”, comemora.

Para escutar o áudio do encontro, acesse a página do programa no Facebook. Para saber mais sobre a Cooperifa, acesse o vídeo.


Paulo Cesar Pastor Monteiro, jornalista, especial para o NR. Fotos de Brisa Almeida

sexta-feira, 22 de março de 2013

Duas chaves


por Júnia Puglia Ilustração de Fernando Vianna

Para que serve um livro? Tola pergunta! Tantas são as respostas... Fico com apenas uma: para nos conectar a sensibilidade, juntar lembranças e exercitar a reflexão. Há poucos dias, ao ler as memórias de uma célebre escritora, deparei-me com uma rápida passagem sobre o hábito judaico de levar consigo a chave de casa, para onde for. Em instantes, fiz duas conexões que ficaram martelando aqui dentro.

A primeira, de quando eu tinha uns vinte anos, já trabalhava num bom emprego – coisas dos começos de Brasília – mas não podia ter a chave de casa, privilégio restrito aos pais e ao irmão mais velho. Inconformada com a restrição, comprei a briga e ganhei, conquistando a bendita chave e o direito de entrar e sair quando bem entendesse. Pode parecer banal, mas esses embates familiares sobre as coisas do cotidiano tomavam proporções quase épicas, principalmente quando protagonizados por uma pentelha topetuda que achava que podia tudo, e que muito pouco lhe era permitido.

A outra: alguns anos atrás, hospedei-me com uma família palestina árabe, em Amã. Apesar da rápida estadia, trago uma viva memória da paisagem árida, do calor e da cantoria prévia às cinco orações do dia, que me chegava de distintas direções por potentes alto-falantes. Chamou-me a atenção, como em nenhum outro lugar onde já estive, a demarcação do espaço público como território masculino. E também o tamanho dos apartamentos, verdadeiros solares empilhados, com salões, saletas, vários quartos, cada cômodo abrigando facilmente um desses ovos de codorna que andam vendendo por aqui, “com varanda gourmet e área de lazer completa para sua família”.

Ali, fiz meu primeiro contato direto com personagens da diáspora palestina. Guardo no coração o relato que me fez a velha senhora da família, em seu parco inglês, sobre a casa onde moravam em Jerusalém até 1948, quando foram sumariamente expulsos para dar lugar aos judeus, que chegavam aos milhares da Europa. O destino foi a vizinha Jordânia.

Supondo que seria um exílio temporário, levaram consigo a chave da casa, que ela tirou de uma caixa e me mostrou, enquanto terminava a história. Porém, como outros milhares de palestinos desalojados, foram impedidos de voltar, vítimas de um milenar, trágico e interminável balaio-de-gatos racial-político-religioso, produto da arrogância, da estupidez e da intolerância que se perpetuam em várias situações similares mundo afora. Uma única vez puderam visitar sua antiga morada, agora habitada por israelenses, que, por sua vez, não tinham ideia do drama por trás daquela casa. Consternados com a insólita visita, moradores e visitantes terminaram chorando juntos por uma situação na qual eram simples peças de um quebra-cabeça perverso.

Ambas as chaves ganharam vida. Nas mãos da moça ávida por alçar seu próprio voo, o objeto tomou a forma de pequenas asas, que depois ganharam envergadura. Lá na Jordânia, naquela caixa de madeira entalhada, o tesouro preservado com tanto sentimento por uma família exilada trazia uma história proibida de morrer.


Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto

quinta-feira, 21 de março de 2013

A mídia e o Papa


por Celso Vicenzi*

Nos últimos dias o noticiário sobre a eleição do novo papa tomou conta da mídia brasileira. Entre o ufanismo inicial e o (quase) desapontamento final, seguem algumas observações.

Não se sabia, até a renúncia de Bento XVI, que o Brasil era um país com tantos “jornalistas vaticanólogos”. Muitos deles sem nunca terem colocado os pés no Vaticano. No máximo, como turistas.

Os nossos “jornalistas vaticanólogos”, com raras exceções, divulgaram notícias que oscilaram entre a obviedade e o triunfalismo. Mais fácil ler direto no Google.

Ao tomar conhecimento de que outros “especialistas” apontavam o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, como um dos candidatos com boas chances, a cobertura tupiniquim entrou em campo em clima de jogo de futebol. Brasil zilzil... Um verdadeiro espetáculo de torcida organizada. Vai que é tua, Odilo!

Odilo foi, viu,votou, mas não venceu. Deu zebra! Nenhum dos candidatos apontados pelos jornalistas foi eleito. Tomaram um baile dos cardeais. A Argentina venceu de goleada, pelo que disseram depois.

A exemplo do que acontece com nossos cronistas esportivos, somos especialistas também em comentar “depois do lance”. E de uma hora para outra – sem fontes – soube-se que já no conclave anterior Bergoglio teria sido o segundo mais votado. Ora, então por que não estava entre os favoritos?

Em Santa Catarina, vários jornalistas chegaram a cogitar a hipótese de um papa catarinense. Rendeu manchete. Sim, tudo era possível. Mas jornalistas não são pagos para fazer análises fidedignas dos fatos? Para investigar com boas fontes mais do que fazer torcida? Infelizmente, tudo muda muito rápido. Jornalismo tornou-se algo bem próximo do entretenimento, e jornalista, não raro, vira personagem das reportagens. De narrador oculto a estrela dos fatos. Muito distante das lições do mestre Joel Silveira: “Jornalista é para ver a banda passar. Não é para fazer parte da banda”.

Muito se falou que a preferência do Vaticano seria por um papa mais jovem. Quem disse isso deve ter faltado às aulas de comunicação e marketing. Com tantas horas de mídia gratuita cada vez que morre um papa e se elege outro, é um bom negócio não escolher um papa muito jovem, não é?

E agora que foi aberta a “porteira” para a renúncia por “motivos de saúde”, salvo se o papa for muito idolatrado, tudo indica que a fórmula pode vir a ser usada mais vezes.

Impressionante a quantidade de espaço, em todas as mídias. É bom lembrar que, embora o cristianismo seja a maior corrente religiosa, a maior parte do planeta não professa a fé católica, mas o islamismo, o hinduísmo, a religião tradicional chinesa, o budismo e o sikhismo, entre outras. A cobertura é desproporcional à real importância global. Por tão generoso espaço, o Vaticano, penhoradamente, agradece.

Por trás de todo o discurso da fraternidade e solidariedade, há uma Igreja que se autointitula única, a verdadeira, a do papa infalível, e diz que fora dela não há salvação. Ao tentar impor um só Deus para todas as culturas, abrem-se as portas para os conflitos. Embora o discurso seja de paz, as religiões estão na raiz de muitas guerras. Ontem e hoje.

Nessa imensa centimetragem de jornais e infindáveis horas de televisão e rádio, sem falar nas redes sociais – quanta overdose! – pouca coisa se viu sobre as intrigas do Vaticano e a onipresente mistura entre religião e política. O tom foi quase sempre igrejeiro, tudo divino e maravilhoso. Mas há esperança: eu, por exemplo, sou um crente. Creio na boa reportagem jornalística. Tenho fé que nem tudo está perdido.

Mesmo com tanto oba-oba, em tempos de redes sociais, não deu para represar as denúncias de envolvimento ou omissão do novo papa com a ditadura argentina. Há muito ainda para explicar.

Pelos próximos anos, a pauta da pedofilia abre espaço para a da tortura nos porões da ditadura. O Vaticano tenta, mas não consegue exorcizar os seus fantasmas.

É quase certo que teremos um papa populista e conservador. Contra o casamento gay, contra o aborto, contra a ordenação de mulheres na igreja. Talvez um aliado em alguns embates contra a vergonhosa acumulação de riqueza no planeta. Mas de leve, porque o telhado do onipotente Vaticano também é de vidro.

A escolha de um papa não europeu, e especificamente da América Latina, é uma tendência que pode se repetir no futuro. No último século, o número de católicos europeus caiu pela metade e hoje representa apenas 25% do total mundial. Na América Latina a tendência é oposta. Na região já se concentram 42% dos fiéis do planeta, e estima-se que até 2050 esse número terá crescido mais de 40%.

A eleição de um papa argentino renovou o estoque de piadas dos humoristas brasileiros no mínimo até a próxima década.

As minhas contribuições, a seguir.

Não bastasse o Messi, agora temos um papa argentino. Não dá mais para dizer que Deus é brasileiro.

A Argentina foi com Jorge Mario (Bergoglio). O Brasil deveria ter escalado Mario Jorge (Lobo Zagallo): “Zagallo é o papa” tem 13 letras!

São tantos os escândalos sexuais da Igreja Católica que a fumaça no conclave do Vaticano bem que poderia ter saído em cinquenta tons de cinza.


*jornalista, Celso Vicenzi é ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia, com passagens por rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. O autor autorizou a publicação no Nota de Rodapé.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Curto e grosso



por Izaías Almada*

O esforço que algumas chamadas “celebridades” fazem para demonstrar erudição chega, em alguns casos, a ser patético. Pessoas há que demonstram na sua vida profissional talento para aquilo que fazem, como é o caso – por exemplo – do cantor e compositor Caetano Veloso. Entretanto, dono de uma vaidade que supera o seu próprio e reconhecido talento, este senhor gosta de pontuar em áreas onde nem sempre o seu conhecimento o credencia.

Essa tendência egocêntrica fica bastante evidente no seu livro “Verdade Tropical”, ao qual já tive a oportunidade de chamar de “Vaidade Tropical”, onde procura analisar a cultura brasileira a partir de um prisma inequivocamente pessoal, deixando nas entrelinhas que a nossa cultura contemporânea se divide em dois tempos: antes e depois do tropicalismo, isto é, antes e depois de Caetano Veloso.

Vale aqui um registro histórico para os mais novos: durante a grande fase dos festivais de música brasileira, na segunda metade dos anos 60, houve uma apresentação no TUCA aqui em São Paulo, na qual o cantor após ser vaiado pelo público presente foi tomado de alguma histeria e gritava para a plateia estudantil: “vocês é que são a juventude que quer tomar o poder? Vocês não estão entendendo nada, vocês não estão entendendo nada”. O pequeno e arrogante discurso – que já prenuncia o tal “Vaidade Tropical” pode ser ouvido no Youtube. Hoje, passados mais de 40 anos, arrisco-me a dizer que quem não estava entendendo nada era o próprio Caetano.

Mas o que de fato me leva a essas pequenas e mal traçadas linhas é a mais recente frase de efeito (frases de efeito costumam apostar na ignorância das pessoas) do compositor baiano, desta vez sobre o cinquentenário dos Beatles. Como não dá para medir o sucesso internacional do conjunto inglês, este sim, grande transformador da música pop dos anos 60 e o seu sucesso ibero-americano, Veloso, tal qual o Narciso de uma de suas canções, decretou: “Quando ouvi os Beatles pela primeira vez, era como ouvir o Justin Bieber hoje...” (sic) Espelho, espelho meu, quem é mais famoso no mundo, eu ou aquele conjunto de quatro Justin Bieber de Liverpool?

Penso que algumas das grandes vantagens do envelhecimento são a sabedoria e a tolerância, o carinho e o respeito pelos mais jovens. A grande desvantagem, no entanto, e para a qual ainda não encontraram o antídoto chama-se Alzheimer.

*escritor e dramaturgo, Izaías Almada mantém a coluna mensal Pensando Alto

terça-feira, 19 de março de 2013

Ótimo dia para nascer



por Ricardo Sangiovanni*

Chovia, mas chovia muito, no dia em que cheguei a este mundo. Chovia tanto que chega derrubou o muro de pedra do Hospital Português, onde nasci. Chovia e era apenas 17 de março, nenhum dia importante, digno de se escrever por extenso. Não era bem o que se pode chamar um Bom Dia Para Nascer, como disse de seu Primeiro de Maio o aniversariante Otto Lara Resende numa crônica de 1991.

Mas pronto, me enxergo, não sou ninguém para interessar a vocês contando do dia em que nasci. Sou pago para escrever a crônica e basta; portanto lá vai.

Começo pelo domingo passado, quando recebemos a visita de meus pais aqui em casa. Em troca de um bom pedaço de pão caseiro, deixaram-me sobre a mesa uma pequena relíquia, que me faria companhia durante essa semana que passou: uma dezena ou pouco mais de páginas em encadernação caseira intituladas “Encontro com D. Annina – Memórias do ano 1982”.

Trata-se da transcrição de um brevíssimo diário redigido à mão por minha tia Annina Sarno, irmã de meu avô Franceschino, italianos os dois. Falar de tia Annina na data de hoje é aliás oportuno, por ter sido ela afinal personagem determinante no concurso de fatos que redundaria nessa minha modesta existência: conta-se que foi ela a grande responsável por convencer meu avô a mudar-se da Itália para o Brasil, no início dos anos 50 – fato ao qual devo a vida, e vocês, a infelicidade de estar em frente à tela lendo este bolodório.

Recordo-me pouco de tia Annina – ela faleceu quando eu tinha coisa de seis anos – , mas há em minha memória um registro esparso de seu feitio alegre e sereno, fazendo-me sorrir n’algum quarto amerelo-penumbroso de piso amadeirado onde terá vivido ou se hospedado.

Bem melhor que minha memória é o tal diário, que registra idas e vindas, passeios, viagens, nascimentos, doenças, enterros e uma série de acontecimentos cotidianamente triviais que se passaram entre janeiro e maio de 1982 – quando ela já se aproximava dos 80 anos de idade e ainda faltavam dois anos para eu nascer.

A transcrição literal deixa entrever na grafia das palavras seja a raiz italiana jamais abandonada, seja o grato enraizamento na brasilidade. Anota que um “entregou a alma ao Creador”; que outros “vieram de avión”; e que houve também uma divertidíssima “reunião alegre no Plegram [play-ground, suponho]”. “Oje”, “tradizional”, “notizias”, “fesdanza” e mais muitas são palavrinhas que revelam dois idiomas imbricados, duas culturas docemente amalgamadas numa forma gentil de pessoa.

Boa italiana, tia Annina estava sempre atenta à comida: merendas e almoços e lanches e jantares estão sempre entre as marcas do dia, registrados geralmente antes de dormir no diário. “Fizemos ravioli”, “a pizza feita por Lina” e “os salgadinhos de Aurora” povoam sempre seus breves relatórios.

Boa brasileira, tia Annina adorava “prosar” e “lorotar”. “Lá encontramos minha gente de Poções stava Peixoto e Dolores prosamos lembrando os nossos tempos”. “E com Du e Noia lorotamos bastante.” E, claro, não perdia uma novelinha. “As novelas também enchem o tempo”; “À noite a novela e a reza do meu terzo.”

Boa serva do Senhor, tia Annina fazia de um tudo para não perder a missa, desfrutando sempre do passeio até as igrejas. Rezava muito o terzo. E em época de semana santa então, não tinha negociação: “Pietro comprou um sítio perto de Lea, todos me chamaram para ir passar a S. Santa, mas não me convem, tenho que ficar aqui pois é tempo de rezar por todos eles que vão para fora (certo?)”

Certo, tia. Tia Annina não raro encerrava o registro do dia com uma interrogação graciosa, como dialogasse consigo mesma, ou com “Deos”, ou com o “meo querido Corinto”, seu marido, então já falecido – jamais saberemos. “Reclamei a Marilene que está sempre imposível quebra minhas cosias de estimação, oje arrancou o dourado do bibelô que Noemia comprou em Manaos, isto me enerva, mas tudo passa. Certo?” Te cuida, Marilene.

Encanta no diário de tia Annina o olhar prosaico cheio de resignada delicadeza, de fino bom humor fino e certo sentido divino para um cotidiano aparentemente repetitivo, sem maior finalidade. Mesmo nas situações mais aviltantes do dia-a-dia, havia uma reflexão de fundo, um agradecimento, um aprendizado. “Depois da missa fui até o I.N.P.S. da Vitória para conseguir a mudanza de pagamento para o banco aqui no C. Grande Economico para não ir a rua Chile receber uma ninharia, mas não deo certo, tinha que fazer um depósito de 10 mil cr. Agradeço pois não tinha juro nenhum era só abrir a conta para a transferência, tá bom?” Uma prova viva de que não há tédio nem falta sentido na vida vivida no registro do sagrado – seja ele (aí já sou eu quem digo) religioso ou não.

Mas o que me chamou mesmo a atenção foi o quanto ela era atenta ao tempo que fazia do lado de fora da janela. Conectada com o tempo da natureza, não deixava passar despercebido se fazia sol ou, principalmente, chuva – ou melhor, “chiuva”. “Amanheceo chovendo”; “o tempo continua chuvoso”; “Chiuva durante a missa”…. há chuva por todo lado.

Dia 19 de abril, enquanto as chuvas não davam trégua à Cidade da Bahia, ela refletiu: “As chuvas continuam, foi obrigada a sospender a missa, o pior e que os pobres com as casinhas de barro e até minhas casas que não são de barro mas a chiuva foi continuando e entrou nas casas com prejuizo e muito susto, e alguma morte, o que acontece que nunca ficamos preparados para a chiuva e para a morte, sempre quasi nos pega de emproviso.”

Porém toda tragédia, bem sabia tia Annina, não era culpa da chuva de Deus, senão das casas e muros dos homens. “A chiuva foi implacavel na chegada no predio me molhei toda. Azar, pois a chiuva é óttima.”

É, tia, pensando bem, aquele dia comum e chuvoso foi um ótimo dia para nascer.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador. 

segunda-feira, 18 de março de 2013

A verdade restabelecida

Pelo direito à memória e à verdade.

Hoje este NR publica a imagem do atestado de óbito de Wladimir Herzog, jornalista assassinado na Ditadura Militar, nas dependências do DOI-Codi de São Paulo. Esse atestado, verdadeiro, entregue a família na última sexta-feira (15), é o reconhecimento oficial de algo ocultado pelo Estado há décadas: de que ele, Herzog, ao contrário do que queriam fazer crer os torturadores, não se suicidou.

O documento traz como causa da morte “lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório nas dependências do segundo Exército DOI-Codi”. Ou seja, tortura. No atestado anterior, a versão para a morte dizia em “enforcamento por asfixia mecânica”. Mentira. A verdade agora se restabelece. Há muito a se fazer, como descobrir as circunstâncias da morte do jornalista. Esse situação abre prerrogativa para que outras famílias tenham atestados na linha da verdade.


domingo, 17 de março de 2013

Coisa Íntima # Waslala

Série Coisa Íntima
Autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores.
Participe, saiba + 

“Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais íntima que uma pessoa pode fazer com ela mesma, depois da masturbação e do suicídio”.







Autora: Waslala
Data: 2011

sábado, 16 de março de 2013

Santana


por Kelvin Koubik "Kino"*

Terminando esta pintura, logo atrás de mim aparece uma senhora. Uma senhora muito vivida, com um tom bem baixo e doce de voz.

Chafiá, um nome difícil, segundo ela, de família árabe. Dona Chafiá, 86 anos, comentou que observou a pintura inteira pela sacada que levou 2 tardes para ser finalizada. Quando, então, finalmente tomou coragem para descer. Disse que eu tenho um dom, o dom da arte, arte que pode transformar o mundo, disse ainda que o mundo estava naquela parede. Chafiá gostaria que eu fosse o neto dela, comentou. Assim assenti afirmando que eu poderia ser.

Após o papo ela saiu e fiquei pensando que devia algo em troca de todos os comentários que senhora tão querida me ofereceu. Lembrei que tinha o rascunho do meu desenho, um pouco sujo e amassado, mas bacana. Peguei uma caneta e dediquei:

"Chafiá, obrigado pelo incentivo e pelas palavras bonitas que me arremessou. Com carinho, do teu neto - Kino 23".

*Kelvin Koubik, colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

sexta-feira, 15 de março de 2013

Futurologia barata


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

A gente vai avançando pela casa dos cinquenta (cujo trema foi limado pela última reforma ortográfica) e a pele vai crescendo, sobrando. As dobras vão virando caminhos escavados por todo lado. A cada dia encontro uma pelanca nova, que eu juro que não existia na semana passada. Uma dorzinha aqui, outra ali, e tome aulas de Pilates.

Enquanto isso, a roda vai girando, com destaque para a inédita renúncia do papa mais esperto de todos os tempos (sucedido por um argentino, por la mano de diós) e a morte do caudilho liberticida, endeusado e ainda insepulto. Tem a vergonhosa eleição de um sujeitinho à toa, um mequetrefe nefasto, para um lugar importante de promoção e defesa dos direitos humanos – aqueles que a maioria dos brasileiros ainda interpreta como “argumentos para a proteção de bandidos”, e que estão muito longe de ser prioritários nas preocupações dos políticos, dos governos e de amplos setores da sociedade. Tem, ainda, o goleiro assassino da mãe de seu filho recebendo uma punição que é quase um escárnio e, no meio do caminho, a Avenida Paulista, onde playboys cercados de doutores advogados brincam de mutilar ciclistas pobres.

Aí vem a senhora octogenária me propondo pensar em 2053. O futuro é uma ficção, penso eu, que gosto mesmo é do presente. Mas vamos lá.

Se eu ainda estiver viva, serei uma velhinha bem velhinha, como tantas outras mulheres e homens que terão tido a oportunidade de prolongar muito a vida, em comparação com as gerações anteriores. No embate permanente entre o bem e o mal, segundo a concepção de cada um, espero que aquelas coisas que eu considero “do bem” tenham ocupado mais espaço, e que meus netos, que ainda nem nasceram, e bisnetos, vivam num mundo mais bem preparado para acolher as novas gerações, tanto no terreno da qualidade de vida quanto no das ideias. Que viver lhes seja mais leve. Sonhar ainda não paga imposto.

Quero me sentar numa varanda ensolarada e ampla, acompanhada de algumas pessoas que já vêm vindo comigo há um bocado de tempo, e rir. Lembrar dos nossos medos, das nossas incertezas, fechar o quebra-cabeça das nossas vidas e finalmente entender tudo, ou não entender nada, e rir muito. Talvez chorar um pouco também, mas principalmente rir de tudo, com gosto.

Daqui até lá, espero comer muito arroz com feijão e ovo frito, viajar bastante, me indignar o suficiente com a falta de sentido das coisas, escrever e publicar as minhas lorotas, cultivar meus afetos todos os dias, receber as adversidades como puder e rir, sempre que possível.

* Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto

quinta-feira, 14 de março de 2013

Ton


por Ana Mendes*

Entra no bar, pede um cigarro avulso. A criança atônita, deixa a coca-cola de lado. Estava vendo um faraó egípcio de perto. Num impulso, pergunta: tu é homem ou mulher? Os pais rangem as cadeiras. É mais uma daquelas típicas situações em que as crianças colocam os velhos num beco sem saída. Constrangidos sorriem com as gengivas e deixam o olhar escapar em direção a porta da rua, não queriam estar ali.

– Sou os dois, diz.

– Pará piá, deixa o moço em paz!

– Mas por que eu pareço uma mulher? Insiste, a fim de conversa.

– Porque tu usa colar e short, isso é coisa de mulher.

– E homem?

– Tu tem barba. Meu pai tem barba.

– Sou homem e mulher no mesmo corpo. Faz tempo... Gostou da minha maquiagem?

– É bem legal.

– Qual é o teu nome?

– Ariel.

– E o teu?

– Akhenaton.

Este é Ton. Uma grande amiga que mudou a maneira como uso artigos e substantivos.


*Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna mensal Faço Foto e é curadora da coluna Coisa Íntima, autorretratos por fotógrafos profissionais e amadores publicada aos domingos neste espaço.  

quarta-feira, 13 de março de 2013

As galinhas do Água Branca

por Thiago Domenici*

A fuga das galinhas do Parque da Água Branca, na esquina da movimentada av. Francisco Matarazzo com a ministro Godoy é das observâncias mais inusitadas. De uns tempos pra cá faço um novo caminho diário ao ir e voltar do metrô Barra Funda: desço a ministro Godoy, cruzo a faixa de pedestres pela Matarazzo e pego, em seguida, após correr os olhos por uma banca de jornal e ver as manchetes de algum periódico, uma ruazinha estreita que vai desembocar defronte a estação, a poucos passos do exuberante Memorial da América Latina.

Nesse itinerário tenho me deparado diariamente, não sem espanto, com motobóis sem paciência e carros sem amor buzinando para galos e galinhas radicais e seus pintinhos emancipados que arriscam suas cristas e penas ao atravessar fora da faixa de pedestres.

Isso mesmo! Galos e galinhas que se aventuram no asfalto em busca de um mix de farelos qualquer. Os bichos, sem medo, retrucam às buzinadas; galos, principalmente, empostando seu canto alto e vigoroso. É um tal de Fom! Fom, Beep Beep e Có coró cóóó de dar inveja ao silêncio, que ali não tem espaço.

Pois outro dia a mamãe galinha e dois rebentos estavam a cacarejar com regateios solenes, com seus movimentos pescoçais ritmados em meio ao já citado ruído nauseante. Fotografei com o celular. Não deu boa foto. Pensei, oras, que a cena tem é de ser vista a olhos vivos, sem imagens ou registros que inibam a imaginação, sempre mais interessante (ou quase sempre) do que a realidade.

O Água Branca, para situar, é nome do bairro, localizado no distrito da Barra Funda, mas que oficialmente leva o nome do homem que o concebeu, Fernando Costa, secretário de agricultura no longínquo ano de 1929, data em que se iniciou uma grande crise na economia mundial, devido à quebra da Bolsa de valores dos Estado Unidos. Quando inaugurado em 2 de junho daquele ano, o objetivo era abrigar exposições e provas zootécnicas.

Hoje o lugar é patrimônio cultural, histórico, arquitetônico, turístico, tecnológico e paisagístico do Estado. Além desses títulos, o que mais importa é o que nele vive: além da farta (e cada vez mais rara) natureza e dos galos e galinhas que gostam de aventurar-se no além-parque, os outros bichos que vale a confraternização são os macacos, gatos, cavalos, patos, pavão, peixes e, claro, alguns espécimes de zumanos em busca de respiro. O lugar tem um certo ar de nostalgia, meio outro tempo.

Nos meus encontros com as aves, uma galinha em especial – de penas escuras – que já vi por mais vezes a saçaricar entre os andantes sempre ignora meu “boa tarde” com uma corrida meio trotada em direção oposta. Ela, a quem apelidei de Mafalda, não é de dar atenção fácil pra ninguém. O guardador de carros que fica no pedaço é dos poucos que oferece um rango farelístico sem que ela fuja.

Fico a imaginar, por pura curiosidade, aquela São Paulo mais antiga e rural que não vivenciei, com seus transeuntes ternados e chapelados, quando por essas bandas existia mais terra batida do que asfalto e mais horizonte, que ofuscado, dorme atrás dos edifícios.

*jornalista, Thiago Domenici é editor e coordenador do NR

segunda-feira, 11 de março de 2013

Era da janela


por Ricardo Sangiovanni*

Líamos muito na Faculdade de Comunicação escritos dos anos acho que 30 de Walter Benjamin – ou talvez de Bertold Brecht, ou mais provavelmente dos dois, agorinha não estou me lembrando bem – sobre o advento do rádio e tudo o que dele derivava de bom, de ruim e sobretudo de neutro.

E então ouvíamos de nossos bons professores, para em seguida reproduzirmos alegres e doutos pelos corredores, que bastava trocar, naqueles textos, a palavra “rádio” por “televisão” – ou mais modernosamente ainda por “internet” – e estaríamos diante de análises atualíssimas, como se os próprios campeões do passado tivessem voltado da tumba e acabado de re-redigi-las. E como se rádio fosse assim coisa de um passado longínquo, muitíssimo remoto.

O que – oh lástima! – jamais chegamos a ler por recomendação acadêmica foram as preciosas e mais ainda antigas crônicas, dos anos 00 e 10 do Novecentos, do arguto e perspicaz João do Rio. Mas não me atrevo a julgar meus mestres; limito-me, antes, a afirmar que nunca é tarde: agora que me vem sendo facultada essa inverossímil condição de professor universitário, vejo a meu alcance corrigir tal clamorosa lacuna. Atrevo-me então a sugerir de saída uma contribuição de João a esse precioso acervo de pensatas as quais, substituindo-se uma palavrinha, conservam intacta a análise.

“Gente às janelas” é o título da crônica, compilada no volume “Os dias passam…”, de 1912.

Pois qual rádio, qual nada! Já pelo título se percebe que está em causa invenção bem mais antiga, seguramente milenar. Conta-nos o narrador que, ciceroneando um estrangeiro que visitava o Rio de Janeiro pós-imperial, ouvira-o comentar que lhe impressionava a espantosa quantidade de gente debruçada às janelas que via ao longo do passeio de carro que faziam. Acaso estariam à espera de alguma procissão?, indagava o homem. “Porque está toda a gente sempre à janela e às portas, dando conta do que se passa na rua…”

Bem surpreso com a observação do viajante, mas sem querer transparecer que ignorasse tal evidentíssimo traço distintivo do povo carioca – do brasileiro – , nosso narrador banca que, de fato, nossa gente tem mesmo esse “defeito” – é “janeleira”. E mete-se então a improvisar canastríssima explicação para cujo “costume original” – da qual transcrevo-lhes a seguir os principais trechos:

“Sim. O carioca vive à janela. Você tem razão. Não é uma certa classe, são todas as classes. Já em tempos tive vontade de escrever um livro notável sobre o “lugar da janela na civilização carioca”, e então passeei a cidade com a preocupação da janela. É de assustar…”

Fornecida a premissa, prossegue com a enumeração de algumas evidências empíricas de caráter mais geral:

“À janela brincam as crianças, à janela compram-se coisas, à janela espera-se o namorado, à janela namora-se, salta-se, ama-se, come-se, veste-se, e dá-se conta da vida alheia, e não se faz nada. Principalmente não se faz nada…”

Logo, aluno da boa retórica, depreende conclusão geral a partir de observação recortada:

“Ali tem uma senhora idosa, atentamente olhando. Já não vê; já nada no mundo a pode interessar. Está ali por estar, porque vendo muita gente é que melhor se isola uma pessoa. Olha, não vê, e está à janela, sempre à janela, porque a janela é a escápula do lar sem dele sair, é o conduto da rua sem seus perigos, é o óculo de alcance para a vida alheia, é a facilidade, a economia, o namoro, o amor, o relaxamento, o fundamental relaxamento…”

Até concluir, menos científico que cheio de brilhante lucidez (como Benjamin, como Brecht):

“Há tanta gente à janela, porque, realmente, sem o saber, um instinto vago lhes diz que vem aí o péstito ou a procissão. Apenas não sabem qual é o préstito. Não saber, e ficar, e não ver, e continuar, e continuar, é o que se chama esperança. Nós somos o povo mais cheio de esperança da terra – porque vivemos à janela.”

Vocês me desculpem, mas aí, a esse ponto, não me contenho e acrescento irresponsavelmente à História um fato que, se não corresponder à verdade, bem que poderia: Roberto Marinho leu certa feita essa crônica de João do Rio, substituiu “janela” pela palavrinha mágica – “televisão” – e gritou eureka! pelado no meio do banho: acabara de descobrir que não haveria território mais fértil do que o Rio de Janeiro para iniciar seu império global; e que não haveria povo mais propício à conquista do que esse nosso esperançoso povo brasileiro.

Consolidados os domínios de cujo império – em 2011, 96% dos lares do Brasil já haviam sido conquistados – , trocar hoje em dia “janela” por “internet” é só questão de atualizar a tecnologia.

Enfim: bem mais sorte que nós teve João do Rio, que, crítico contumaz do ritmo acelerado dessa vida urbana e exímio escarafunchador do universo da rua que era, não viveu para ver no que esse progresso todo deu.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Imbatíveis

por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*


Dia Internacional da Mulher. Não me lembro quando foi a primeira vez que ouvi falar dele, mas acho que faz mais de trinta anos.

E faz mais ou menos isso que eu soube que existiam umas mulheres chamadas feministas. No rastro do livro de Betty Friedan, um furacão nos anos setenta, e que até hoje não li, me chegaram notícias de mulheres que começavam a expressar publicamente seu repúdio à tutela masculina e ao tratamento que recebiam como seres frágeis, dependentes, incapazes e tolos.

Na mesma época, uma série de rumorosos assassinatos de mulheres – sim, porque eles sempre aconteceram, mas não tinham nenhuma importância até então – levou para as ruas do Brasil a irresistível campanha “Quem ama não mata”. E a violência que se comete contra as mulheres na vida privada começou a ganhar contornos de problema público.

Tudo por causa das tais feministas. Pelo terrível incômodo que causaram ao questionarem verdades profundamente arraigadas na sociedade, na religião, na vida das pessoas, foram combatidas, ridicularizadas, desprezadas. Delas se dizia que eram infelizes, mal amadas, revoltadas, amarguradas, feias e por aí vai, como se as mulheres oprimidas, agredidas e conformadas fossem todas lindas e felizes.

Mas elas não se importaram com nada disso, ou melhor, relevaram os insultos e continuaram em frente, sabendo que tinham uma tarefa gigantesca a cumprir.

Então, é o seguinte. Se hoje podemos escolher com quem queremos viver, e por quanto tempo, é por causa delas. Se temos o direito de não ser agredidas e espancadas, é por causa delas. Se podemos nos dedicar a qualquer profissão ou tarefa que nos ocorra, é por causa delas. Se podemos decidir se queremos ser mães, quantos filhos queremos ter, e quando, é por causa delas. Se o exercício do prazer e da sexualidade livres é considerado um direito, é por causa delas. Se não somos obrigadas a suportar chefes, patrões, médicos, pais, irmãos e tios que nos consideram objetos disponíveis à sua libidinagem, é por causa delas. Isso pra ficar só no super básico.

De vez em quando, ouço ou leio acusações contra elas, do tipo “onde estavam com a cabeça quando nos obrigaram a sair do nosso papel submisso e dependente tão cômodo e conveniente”. E sempre penso que quem quiser ser assim, e achar que vive melhor desse jeito, que viva. A possibilidade de optar passou a existir também por causa delas.

Feminista não é palavrão. É apenas uma palavra, que define uma turma batalhadora, insistente, que não se contenta com pouco, e leva um monte de gente atrás. Aliás, metade da humanidade.

Às feministas o meu respeito, meu reconhecimento e minha gratidão.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna De um tudo. Texto escrito em 25 de janeiro de 2009. Fernando Vianna, artista visual, especial para o texto

quinta-feira, 7 de março de 2013

Coisas que nem Deus mais duvida!

por Cidinha da Silva*

A senhora brandia os braços, inflava bochechas e olhos, tremia a boca pequena. Era Madame Mim em performance para leitura do poema.

Coisa boa não viria dali. A colega já havia feito caras e bocas de incredulidade quando apresentei meus livros no sarau. Reparei que não aplaudiu, assim como as outras pessoas fizeram com a convidada para lançar livro naquela noite.

Houve um preâmbulo antes do poema, a autora dizia: “no meu tempo, como vocês podem ver, eu sou velha, a gente chamava os pretos que a gente gostava de negão, quando era homem, neguinha, quando era mulher. Era carinhoso. Hoje, se a gente não for politicamente correto, pode até ser preso”. Nessa hora, seus olhinhos de Madame Mim encontraram os meus e, de pronto, tratei de exuzilhá-los, fechei meu corpo com a mão direita e com a esquerda levantei meu Tridente.

A chuva apertou e N’Zila rodou, me levou para fora das paredes de vidro da biblioteca, para o local exato onde havia feito minha saudação de chegada. Era uma encruza da Henrique Schaumann com Cardeal, 777, era o número da casa. N’Zila dançou para mim, apontou o céu, logo cortado por um raio de Kaiongo. Eu saudei N’Zila e o raio, agradeci. Quando um deles ilumina meu caminho é sinal de anunciação.

De volta ao sarau, de olhos abertos, aqueles versos mal feitos e ressentidos machucavam meu coração. A mulher velha desprovida de sabedoria destilava mágoa e saudade dos tempos da escravidão. Dizia num poema torto que solução para o racismo é que os pretos se pintem de branco e se tornem cinza e os brancos se pintem de preto, obtendo o mesmo resultado. Se ela fosse um pouco mais inteligente e criativa, honesta também, seu verso expressaria o desejo de que os negros virassem cinzas.

Terminada a performance ouviram-se uns fracos aplausos constrangidos, outros, consternados, afinal, tratava-se de uma idosa e muita gente acha que a idade justifica tudo. Duas ou três pessoas, além de mim, não descruzaram os braços. Um rapaz muito sério, que se eu encontrasse andando pela rua, julgaria mestiço, levantou-se negro e mandou uma letra de rap aguda sobre a hipocrisia das relações raciais no Brasil. Tinha uns palavrões cabeludos e o menino de tridente nos dentes colocou os tridentes nos devidos lugares.

Eu reuni meus livros e trocados, olhei a chuva intermitente e vi Kaiongo a minha espera, absoluta e bela, próxima ao cemitério. Guardei a distância respeitosa da natureza que não se afina com a casa dos mortos, Kaiongo veio sorridente, me abraçou generosa, só amor. Eu entreguei o que era dela: “toma, Senhora dos Raios, leva daqui essa carcaça, esse egum da mentalidade colonial e racista que inda sibila entre os vivos.” Kaiongo sorriu outra vez, cúmplice, e desapareceu soberana na noite sem lua.


* escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum

quarta-feira, 6 de março de 2013

Hugo Chávez em debate



por Moriti Neto  colaboração  Thiago Domenici


Inevitável debater Hugo Chávez. Figura complexa, ele despertou, em vida, sentimentos diversos. Dado o impacto da morte dessa figura histórica e polêmica, não pude me furtar a discuti-lo. Aliás, o fiz há pouco com o amigo e idealizador deste NR, Thiago Domenici. No diálogo, feito virtualmente, caminhamos por consensos e contraposições. Natural, se consideradas as controvérsias em torno do personagem.

O rótulo de ditador, colado por grupos midiáticos que lhe eram inimigos políticos, inclusive capazes da arquitetura de um golpe contra o ex-presidente no ano de 2002, é das questões mais discutíveis. Aliás, essa mídia o apontava como censor, mas tinha a liberdade de dizê-lo em capas de periódicos, sites e bancadas de telejornais.

No nível parelho de complexidade e controvérsia, há outras tantas possibilidades quando se trata de Chávez. As eleições por tempo indeterminado, a personalização do estado, mas, ao mesmo tempo, a colocação da permanência na presidência a plebiscito e o consequente incentivo à participação popular, principalmente das classes mais carentes, somados aos acertos e erros na economia, são ingredientes que nos empurram ao debate, algo que a preocupação com o bom jornalismo transforma em busca pela informação mais completa e por análises baseadas na concretude.

Em resumo: com a cautela que o tema merece, o Nota de Rodapé oferece ao leitor, no campo das ideias e argumentações, uma relação de textos que sirva de fomento a este rico debate sobre a Venezuela e Hugo Chávez.

Conforme surgirem novos textos que considerarmos de boa leitura (contrários ou favoráveis) iremos postar abaixo com o devido link.

Entrevista essencial com o professor Luiz Fernando Sanná Pinto para entender os efeitos do chavismo, ainda que depois de Chávez. Na Carta Capital, por José Antonio Lima. Leia...

Análise de Glauco Faria, colunista do Futepoca e editor-executivo da Revista Fórum, resgata a importância de Chávez para o discurso de esquerda na América Latina e traz o indispensável pensamento de Eduardo Galeano a respeito. Leia...

Em artigo escrito para o jornal Valor Econômico e reproduzido pelo site Brasil 247, Rubens Rícupero fala do pioneirismo de Chávez em dar expressão às periferias na AL. Leia...

Bob Fernandes, que tem inúmeras horas de entrevistas gravadas com Chávez, faz uma análise sobre os sentimentos de "amor e ódio" nutridos pelo venezuelano durante os seus mandatos. Leia... 

Outro texto de Bob Fernandes, "Chávez, o homem que viveu múltiplos personagens. Leia...

Consuelo Dieguez fez reportagem na revista Piauí sobre o candidato adversário de Chávez nas últimas eleições: "o candidato tococha, Henrique Capriles". Leia...  

O site Outras Palavras fez um dossiê de textos publicados no espaço sobre Chávez. Leia...

O La Jornada do México faz uma cronologia da vida de Hugo Chávez (em espanhol, Leia...) e no texto de Luis Hernández Navarro um pouco da infância do venezuelano. Leia...  

O site da BBC Brasil fez uma seleção das frases polêmicas de Chávez. Leia...

"Um chavismo sem Chávez é possível?", texto publicado no Le Monde Diplomatique Brasil. Leia...

Debatedores falam do futuro da Venezuela após a morte de Hugo Chávez na Globo News, entre eles, Gilberto Maringoni. Assista...

Da revista Anfibia (em espanhol): em 1999, pouco antes de Hugo Chávez assumir como presidente de Venezuela, Gabriel García Márquez o entrevistou em um avião durante uma viagem de Havana até Caracas. Leia...  

Pública - Agência de Jornalismo Investigativo conta sobre a ação estrangeira para intervenção na Venezuela, captada pelo vazamento dos telegramas do Wikileaks. Leia...  

Revista Fórum na matéria de Lucas Krauss, que esteve em Dezembro na Venezuela, analisa o chavismo numa perspectiva recente. Leia...

De onde vem o Português da padaria?



por Marcos Grinspum Ferraz*

“Flor do Minho”, “Dom João VI”, “Lisboa”, “Flor de Coimbra”, “Cabral”, “Estado Luso”, “Nova Portuguesa”, “Camões”, “Do Porto”, “Lusitana” e até mesmo “Salazar”. São todos nomes de padarias paulistanas, que explicitam um pouco a origem lusa de nossas casas de pães. Pois o fato é que, no Brasil, sempre que pensamos em padarias pensamos na figura do imigrante português. Mas é fato, também, que muito pouco sabemos sobre essa história, ou melhor, sobre o porquê da existência dessa figura já folclórica no país: o “português da padaria”. Interessado no assunto, acabei descobrindo um tanto de coisas. Vamos lá.

Quem já viajou para outros países certamente reparou que não há pelo mundo padarias como a brasileira. Em geral, existem locais que fazem e vendem o pão, mas não espaços onde se pode sentar, comer sanduíches, pizzas e almoçar; tomar café, suco e cerveja; comprar frios, bebidas e até revistas. O curioso é que a nossa padaria, tão tipicamente brasileira e que domina as cidades do país, foi criada não por nativos da terra, mas principalmente por portugueses, em um modelo que não existe nem mesmo em Portugal. Por isso podemos chamá-las, aqui, de luso-brasileiras.

GRANDES MIGRAÇÕES

Apesar de os portugueses terem “descoberto” o Brasil ainda em 1500, a época em que vieram em maiores fluxos para nosso país vai de meados do século 19 a meados do século 20, na época das “grandes migrações”. Entre 1855 e 1914, por exemplo, as estatísticas de Portugal registram cerca de 1,3 milhões de saídas, e quase 90% delas são rumo ao Brasil. Ou seja, em um período de vacas magras na terrinha, os imigrantes – principalmente jovens e do sexo masculino – vinham em busca de novas oportunidades e de uma vida melhor.

Entre os milhares de portugueses que desembarcavam em portos brasileiros, uma parte seguia diretamente para o campo, para trabalhar nas plantações. Eram parte, também, do projeto de “branqueamento” da população levado a cabo pelo Estado. Outro grupo, mais numeroso, ia diretamente para as cidades, sendo Rio e São Paulo os principais destinos. Apesar de saídos principalmente das zonas rurais de Portugal, a vontade maior dos que chegavam ao Brasil era de viver nas áreas urbanas, que prometiam mais dinheiro no bolso e maiores oportunidades de ascensão social.

Eles se estabeleceram nas mais diversas profissões – desde jornaleiros, sapateiros, taberneiros, leiteiros e vendedores de roupas até funcionários da construção civil ou da grande indústria que florescia nas novas metrópoles. Muitos se tornaram também pequenos empresários, e abriram negócios para suprir as novas demandas de consumo de uma população urbana em rápido crescimento no Brasil. Demandas como, por exemplo, por pão.

Com a forte presença de imigrantes de todo o mundo e com o acelerado crescimento das cidades, novos costumes e hábitos alimentares foram se difundindo. A farinha de trigo, por exemplo, começou a ocupar o lugar das farinhas de milho ou mandioca, com as quais se fazia o pão. Até então, pelo meio do século 19, o ramo era comandado principalmente por mulheres, com uma produção ainda caseira e um sistema de distribuição apenas de entrega nas casas e venda nas ruas.

A mudança no quadro se deu pelas mãos de portugueses, espanhóis e, no primeiro momento, principalmente italianos. Surgiram então as primeiras padarias, dominadas por homens, onde se fazia e vendia o pão, com uma estrutura que permitia uma produção regular e em maior escala. Com farinha de trigo importada e fermentação natural, eles produziam o chamado pão caseiro – mais duro e que durava dias –, em padarias como a portuguesa “Santa Teresa” (1872) – hoje a mais antiga em funcionamento no país, em São Paulo – ou a italiana “Popular” (1890).

O DOMÍNIO PORTUGUÊS

Virada para o século 20 e o domínio português no setor já começava a dar sinais. O motivo principal: a invenção do popular pão francês, que de francês só tem o nome. A propagação do uso do fermento biológico, que permitia uma produção rápida, foi sabiamente aproveitada pelos padeiros portugueses, que “lançaram” no mercado o tal pão, pequeno e macio, que saia em várias fornadas ao dia. Os italianos, por sua vez, seguiram fazendo pães mais duros, de casca grossa, que duravam alguns dias nas bancadas. Nada contra os italianos e suas saborosas receitas, mas é claro que o pão francês, fresquinho em diferentes horários, dominou o mercado.

Padaria do Floriano Nunes, em Assis (SP), em 1936.
As entregas feitas em casa com pequenas carrocinhas puxadas por burros também ajudaram os portugueses a ganhar a freguesia. Os clientes viravam fiéis a uma ou outra padaria e a um ou outro carroceiro, criando uma relação de intimidade que envolvia exigências de qualidade e a possibilidade de comprar fiado. Assim, já em 1938, dos 298 sócios registrados no Sindicato dos Industriais de Panificação de SP, 52,4% eram portugueses, seguidos por 26% italianos e 17% brasileiros.

Nas padarias de portugueses do início do século 20, diferentemente de hoje, os lusos ocupavam todos os cargos: eram desde os donos até os masseiros, forneiros, carvoeiros e carroceiros. Vale lembrar que a nacionalidade em comum não impedia o surgimento de conflitos de classe dentro das padarias. Para funcionar até 20 horas por dia, todos os dias da semana, os patrões impunham jornadas aos funcionários de até 18 horas. Muitos jovens moravam dentro das próprias padarias, em cômodos precários cedidos pelos proprietários, perto de fornos, de modo que o controle sob suas vidas era quase total.

Nas décadas seguintes, em meio a demoradas melhoras nas condições de trabalho – resultado de muitas lutas –,  o domínio português no setor da panificação se tornou quase total. Entre os anos 1950 e 1960 – quando desceram aqui mais cerca de 240 mil imigrantes lusos – os portugueses chegaram a ser cerca de 90% dos donos de padarias em São Paulo, e dominaram o ramo  também em Santos, Rio de Janeiro, Belém-do-Pará etc. As padarias foram sendo passadas de pai para filho, como ainda o são em muitos casos, assim como foram transmitidas as técnicas dos padeiros e forneiros. Diferentemente de hoje, em que cursos de formação são comuns, aprendia-se a fazer o pão trabalhando.

AS NOVAS PADARIAS

Hoje, século 21, qualquer bairro ainda tem alguma boa e velha padaria tradicional. Mas as padarias modernas, que dominaram a cena, são diferentes. Cupcakes, sushis, carnes, saladas, frutas, comidas congeladas, vinhos, champanhes e por aí vai; tudo pode ser comprado na padaria. Pois a partir dos anos 1990 um novo modelo revolucionou o setor, após a constatação de que a demanda por produtos “chiques” subia e que a competição com as lojas de conveniência e supermercados aumentava. Desse modo, temos hoje as padarias que ficam abertas 24 horas, com estacionamentos e caixas eletrônicos, farmácias etc.

E, sim, mais uma vez o processo de mudança foi comandado por portugueses e por seus descendentes. Dessa vez, por uma nova geração que teve boa formação e usufruiu de melhores condições de vida que seus pais e avós. A “Dona Deôla”, por exemplo, criada pelos netos da padeira portuguesa Dona Deolinda, se tornou uma bem-sucedida rede e está abrindo a 5a filial. A “Casa dos Pães”, no nobre Jardim América, emprega 520 funcionários, recebe cerca de 8 mil visitantes por dia e vende aproximadamente 900 mil pães por mês. O estabelecimento, claro, é comandado por filhos e netos de imigrantes portugueses.

Assim, cerca de 150 anos após seu surgimento, a padaria brasileira é, paradoxalmente, uma instituição nacional e ainda um lugar um tanto “português”. Em 2007, quando o time da Portuguesa lutava para voltar à primeira divisão do campeonato nacional, os donos de padaria de São Paulo organizaram uma grande arrecadação de dinheiro para premiar os jogadores, caso eles conseguissem levar o clube de volta a elite do futebol. E deu certo. Está claro: mesmo servindo ciabatta, brioche, pão preto, sushi ou cupcake, as padarias brasileiras certamente não abandonarão tão cedo os pasteis de Belém e de Santa Clara, nem os seus nomes ligados à história de Portugal.


*Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura e música. 

segunda-feira, 4 de março de 2013

Os Quatro Brasileiros - assim se chamará

por Ricardo Sangiovanni*

Há “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, personagens da mitologia cristã que prenunciam o fim dos tempos.

Há “Os Quatro Grandes”, chefes de uma rede mafiosa internacional que só o infalível detetive Hercule Poirot consegue desbaratar, num thriller da escritora britânica Agatha Christie.

Há “Os Quatro Mineiros”, que é como a história das letras nacionais registrou o grupo brilhante formado por Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pelegrino.

E há “Os Três Mosqueteiros”, do clássico de Alexandre Dumas, mas que, por serem quatro, entram nessa lista.

Haverá decerto quatro outros muitas coisas mais que ignoro. Mas o caso é que, em comum nessa quadra de exemplos, há o fato de exalarem todos o cheirinho de mofo da boa e velha Literatura.

Literatura com letra maiúscula à qual jamais pertencerei, mas que não me negará inspiração para um romance, um conto que seja.

Os Quatro Brasileiros - assim se chamará.

Começará numa quarta de noite normal, com um personagem, um velho (suponhamos um qualquer licenciado, ou então chofer de praça) gorducho, suado, bonachão, sentado em casa na frente da televisão para ver o jogo.

Um jogo previsto para ser jogado sem público no estádio, vez que um integrante da torcida organizada do time em questão recém-matara com um tido de morteiro um torcedor boliviano menor de idade, e a punição - ao clube, à torcida, ao nosso Brasil brasileiro - foi estabelecer-se que nenhum torcedor iria mais ao estádio até o final do campeonato.

Nosso herói então verá na televisão (surpresa) que quatro torcedores haviam ido à Justiça, brigado por seus direitos de sabe-se-lá-o-quê e conseguido entrar no estádio, e agora olha eles lá, cantando a plenos pulmões hinos ao seu timão, eô.

Ele aí sorrirá soltando ar pelo nariz. Do jogo, verá o primeiro gol; no segundo, já terá embalado, roncando, e a cerveja emborcará da pança para o chão.

Nos dias seguintes, verá no noticiário esportivo - o único aliás a que assiste e lê - a reportagem divertida mostrando a vibração, os lances, os flashes, as reações do inusitado que foi aqueles quatro torcedores solitários acompanhando o jogo.

Ainda lerá, curioso, o depoimento do locutor que terá narrado a partida: “A emoção da torcida faz falta”. Depois, pescará de um blogueiro indignado que “por causa de quatro (ir)responsáveis que buscaram seus direitos, mas não tiveram bom senso, o buraco que já era enorme poderá se tornar gigantesco para o clube”.

Sentirá que há algo errado muito errado naquele noticiário todo - muito embora, homem simplório, não saiba dizer bem o quê.

Até quando, dirigindo perdido a trabalho (esqueçam o licenciado, vamos ficar com o chofer), pegará pelo rabo a fala de alguém no rádio do carro:

“… o estádio maculado com a presença de quatro consumidores amparados pela justiça comum que passaram por cima de tudo para ver o time. O Pacaembu deveria estar vazio. Não só pela punição da Conmebol, mas por luto mesmo. Usei a palavra “consumidores” de propósito porque é o que essas quatro pessoas são. Antes do futebol ou de serem torcedores do time. O poder de compra os define. Como define nossa sociedade…”

Opa: nessa hora algo estranho despertará dos fundilhos da consciência de nosso herói.

E, iluminado, ele de repente prestará atenção ao motorista ao seu lado, um danadão que acabará de ter invadido o sinal vermelho para os carros. O velho sinal vermelho habitual, aquele que ninguém deveria furar, mas que alguém sempre fura. E pensará, unindo lé com cré, que todos os dias algum pobre diabo invade descaradamente o sinal fechado bem em frente à sua fuça.

Porque a lei - matutará cheio de ironia e raiva - é para todo mundo, menos para esses filhos da puta aí que se acham no direito de julgar, de si para si, qual é o sinal que se pode furar e qual é o que não.

E cogitará genial que todos os invasores são, na verdade… um único! Espera, um único não, ponderará, porque afinal já terá visto invasores de sinais vermelhos mais de uma vez numa mesma hora, num mesmo minuto, num mesmo segundo até.

Mas, homem observador de semelhanças, não deixará passar despercebido o fato de que os invasores agem de maneira tão parecida - aceleram sempre o carro espertalhão às pressas, bem naquela justa horinha em que o sinal fica vermelho para toda a gente - que não é possível que estejam agindo isoladamente. Há um método por trás daquilo!, pensará. E devem ser no mínimo dois os comparsas patifes. Ou três, os biltres. Ou quem sabe uma gangue - uma gangue de... quatro.

É, pensará. Quatro. Quatro, assim como eram quatro, clic!, os torcedores no estádio fechado.

E nessa hora aí do clic!, nosso herói terá então descortinado, sem querer, a matriz das mazelas todas desse Brasil varonil.

Pois terá irrefutavelmente descoberto que quem terá sempre espezinhado todas as regras que apertam nos calos; quem terá sempre dado um jeito de realizar o próprio e banal desejo, em detrimento da impossibilidade dos demais de fazer o mesmo; quem até terá se comovido com as desgraças do mundo, mas achado sempre que elas jamais terão tido algo a ver com o sacro-direito-a-ver-o-meu-time-jogar; quem terá não apenas furado sinais, mas sempre passado na frente nas filas dos bancos, obtido favores nos cartórios, sido liberado de pagar impostos e multas; enfim: quem sempre terá tripudiado do que é de todos, por todos, para todos, terão sido sempre eles, eles, eles - sempre aqueles mesmos, sempre aqueles quatro brasileiros irremediáveis sentados no estádio.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

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