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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 12 de março de 2014

Tristes táxis


por Carlos Conte*

Na segunda-feira pós-carnaval (10/03), li com alegria um post no facebook do meu amigo Mariano Mattos (o folião dos foliões!), do bloco Viemos do Egito. Ele compartilhou um link do jornal O Globo – nada mais nada menos que coluna assinada por Caetano Veloso dizendo que brincar carnaval na Cinelândia no meio do bloco Viemos do Egito o fez relembrar toda a história recente do carnaval brasileiro e dos blocos de rua de Salvador de sua juventude. Ao som de “O canto da cidade”, na voz de Daniela Mercury, Caetano festeja sorridente “a volta às ruas da juventude carioca”. (Se quiser ler a coluna na íntegra, acesse).

Nesse mesmo post, comentando suas vivências carnavalescas, meu amigo Mariano recorda a experiência tipicamente “momística” de tentar tomar um táxi fantasiado durante o carnaval. (Detalhe: “momesco” ou “momístico”, esta última mais interessante, por fundir as palavras Momo + místico, são expressões usadas fartamente pelos integrantes dos novíssimos blocos de rua paulistanos. Então viva a “Momocracia”!).

Pois é, Mariano, os táxis não param mesmo. Senti isso na pele na madrugada da segunda-feira, depois de brincar carnaval no bloco Bastardo, em Pinheiros (na imagem acima). Minha fantasia esse dia estava “bem de boa”, como se diz. Nada de vestido, saia, sutiã, sunga, colares. Penso o que teria acontecido com o folião que foi fantasiado de Borat na praia... Já viram esse filme? Imagine um sujeito alto, bigodão preto, trajando um maiô verde mínimo, com um tremendo fio dental... A melhor fantasia. A mais ousada. Geralmente as melhores fantasias são as mais ousadas. Mas com certeza teria muitas dificuldades de entrar num táxi.

Não era o meu caso nessa madrugada de segunda. Estava com uma fantasia relativamente discreta. Saí de romano. Mais especificamente de Carlos Magno Máximos III (o Neto), para divulgar o nosso nascente bloco Quem Tem Boca Vaia Roma, que desfilou na segunda à tarde causando arrepios nas donas de casa da Vila Romana. Minha fantasia não era nada escandalosa: uma toga feita de trapo de lençol velho, uma espécie de saiote improvisado com o forro branco da minha cama, galhinhos atrás das orelhas imitando folhas de louro e, nos pés, sandálias de couro emprestadas do meu amigo Cabelo. E só. Vê se pode! Nenhum táxi parar por isso?

Que foi? Acharam a pouca roupa indecência, atentado ao pudor? O problema era o saiote? Ah, já sei: veadagem... É que os taxistas não conhecem as virtudes machas de um imperador romano, como Júlio César, ou um general como Pompeu, líder militar de inúmeras façanhas. Talvez se levassem isso em conta tivessem me deixado entrar. Tudo bem que o Nero fosse cheio das extravagâncias (com suas festas eróticas repletas de convivas nus), mas aos olhos dos machões de hoje em dia seria considerado, por seus feitos militares, um cara de respeito, sujeito de fibra, destemido, cabra homem.

Será que os taxistas estavam com medo? Talvez eu fosse mesmo uma ameaça. Eu e minhas virtudes belicosas de um guerreiro do exército mais entusiasmado e dedicado que existe, embora deliberadamente pouco disciplinado – que é o nosso exército de carnaval. Como diz a canção: “nas trincheiras da alegria / o que explodia / era o amor”. Sim, estava em missão de paz. E, se não podia me considerar derrotado, pelo cansaço, pela cerveja, pela folia, era certo que estava ansioso para chegar ao QG o quanto antes para me recuperar da batalha. Mas quem disse que os taxistas estavam a fim de ajudar este pobre soldado do carnaval?

Passavam, gesticulando as mais diversas coisas, e não paravam. Alguns nem gesticulavam. Nem olhavam. Simplesmente passavam, o carro fazendo aquele típico barulho de borracha alisando o asfalto, o som da rejeição. O gesto que mais se repetiu, entre dezenas de motoristas nos seus carros pálidos, foi o do indicador em riste apontando ora para a esquerda, ora para a direita, querendo que eu acreditasse que ele estava indo atender a um chamado em outro lugar. Pensa que engana quem? Todos os carros vazios. Almas vazias. Teve motorista com a cara de pau de fazer o típico gesto de abrir e fechar a mão com os dedos voltados para cima, polegar encontrando-se com os demais, sinalizando que o carro estava cheio, sendo que a luz estava acesa e o táxi, nitidamente, vazio. Deprimente.

Ora, para um guerreiro romano, natural da Vila Romana, que precisava urgentemente descansar para estar disposto na última batalha, terça-feira, não me sobrou alternativa senão apertar o fecho das sandálias, levantar a cabeça, e seguir adiante, travando disputa com as ladeiras de Pinheiros e Lapa. Não desviei um único olhar. Enfrentei. Há uma tarefa (pensei): desentranhar o espírito carnavalesco dessa gente. Agora era verdadeira batalha. Velhinhos saindo pra comprar pão. Senhoras levando o cachorrinho pra passear. Mamães e papais tomando média na padoca com o pequeno. Zeladores de prédio fumando o cigarro na calçada. Cabeça erguida. Como se o carnaval fosse a regra. Deixando que os primeiros raios de sol refletissem no meu corpo dourado de purpurina. E cochicharam. E me ignoraram. Mas será que aquela ali sentiu tesão? E aquele senhor, me olhando de lado, será que se lembrou de seus tempos passados, não menos dourados? Quase escapou um “Viva a Momocracia!”, mas ele não ia me entender. “Viva o carnaval!”, cumprimentei-o. E ele me respondeu um “Viva!” que me deixou feliz.

De novo, o facebook. Me desculpem. É que ando digerindo este último carnaval através dos infindáveis murais. Postei em tom de lamento, na quarta-feira de cinzas, que chegou a hora, infelizmente, de tirar a purpurina do corpo. E como é difícil! Em todos os sentidos. Mas fico com o que a Evelyn, uma amiga, me respondeu: “Deixa a purpurina!”.

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Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Foto: Facebook do Bloco Bastardo.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A mídia e o Papa


por Celso Vicenzi*

Nos últimos dias o noticiário sobre a eleição do novo papa tomou conta da mídia brasileira. Entre o ufanismo inicial e o (quase) desapontamento final, seguem algumas observações.

Não se sabia, até a renúncia de Bento XVI, que o Brasil era um país com tantos “jornalistas vaticanólogos”. Muitos deles sem nunca terem colocado os pés no Vaticano. No máximo, como turistas.

Os nossos “jornalistas vaticanólogos”, com raras exceções, divulgaram notícias que oscilaram entre a obviedade e o triunfalismo. Mais fácil ler direto no Google.

Ao tomar conhecimento de que outros “especialistas” apontavam o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, como um dos candidatos com boas chances, a cobertura tupiniquim entrou em campo em clima de jogo de futebol. Brasil zilzil... Um verdadeiro espetáculo de torcida organizada. Vai que é tua, Odilo!

Odilo foi, viu,votou, mas não venceu. Deu zebra! Nenhum dos candidatos apontados pelos jornalistas foi eleito. Tomaram um baile dos cardeais. A Argentina venceu de goleada, pelo que disseram depois.

A exemplo do que acontece com nossos cronistas esportivos, somos especialistas também em comentar “depois do lance”. E de uma hora para outra – sem fontes – soube-se que já no conclave anterior Bergoglio teria sido o segundo mais votado. Ora, então por que não estava entre os favoritos?

Em Santa Catarina, vários jornalistas chegaram a cogitar a hipótese de um papa catarinense. Rendeu manchete. Sim, tudo era possível. Mas jornalistas não são pagos para fazer análises fidedignas dos fatos? Para investigar com boas fontes mais do que fazer torcida? Infelizmente, tudo muda muito rápido. Jornalismo tornou-se algo bem próximo do entretenimento, e jornalista, não raro, vira personagem das reportagens. De narrador oculto a estrela dos fatos. Muito distante das lições do mestre Joel Silveira: “Jornalista é para ver a banda passar. Não é para fazer parte da banda”.

Muito se falou que a preferência do Vaticano seria por um papa mais jovem. Quem disse isso deve ter faltado às aulas de comunicação e marketing. Com tantas horas de mídia gratuita cada vez que morre um papa e se elege outro, é um bom negócio não escolher um papa muito jovem, não é?

E agora que foi aberta a “porteira” para a renúncia por “motivos de saúde”, salvo se o papa for muito idolatrado, tudo indica que a fórmula pode vir a ser usada mais vezes.

Impressionante a quantidade de espaço, em todas as mídias. É bom lembrar que, embora o cristianismo seja a maior corrente religiosa, a maior parte do planeta não professa a fé católica, mas o islamismo, o hinduísmo, a religião tradicional chinesa, o budismo e o sikhismo, entre outras. A cobertura é desproporcional à real importância global. Por tão generoso espaço, o Vaticano, penhoradamente, agradece.

Por trás de todo o discurso da fraternidade e solidariedade, há uma Igreja que se autointitula única, a verdadeira, a do papa infalível, e diz que fora dela não há salvação. Ao tentar impor um só Deus para todas as culturas, abrem-se as portas para os conflitos. Embora o discurso seja de paz, as religiões estão na raiz de muitas guerras. Ontem e hoje.

Nessa imensa centimetragem de jornais e infindáveis horas de televisão e rádio, sem falar nas redes sociais – quanta overdose! – pouca coisa se viu sobre as intrigas do Vaticano e a onipresente mistura entre religião e política. O tom foi quase sempre igrejeiro, tudo divino e maravilhoso. Mas há esperança: eu, por exemplo, sou um crente. Creio na boa reportagem jornalística. Tenho fé que nem tudo está perdido.

Mesmo com tanto oba-oba, em tempos de redes sociais, não deu para represar as denúncias de envolvimento ou omissão do novo papa com a ditadura argentina. Há muito ainda para explicar.

Pelos próximos anos, a pauta da pedofilia abre espaço para a da tortura nos porões da ditadura. O Vaticano tenta, mas não consegue exorcizar os seus fantasmas.

É quase certo que teremos um papa populista e conservador. Contra o casamento gay, contra o aborto, contra a ordenação de mulheres na igreja. Talvez um aliado em alguns embates contra a vergonhosa acumulação de riqueza no planeta. Mas de leve, porque o telhado do onipotente Vaticano também é de vidro.

A escolha de um papa não europeu, e especificamente da América Latina, é uma tendência que pode se repetir no futuro. No último século, o número de católicos europeus caiu pela metade e hoje representa apenas 25% do total mundial. Na América Latina a tendência é oposta. Na região já se concentram 42% dos fiéis do planeta, e estima-se que até 2050 esse número terá crescido mais de 40%.

A eleição de um papa argentino renovou o estoque de piadas dos humoristas brasileiros no mínimo até a próxima década.

As minhas contribuições, a seguir.

Não bastasse o Messi, agora temos um papa argentino. Não dá mais para dizer que Deus é brasileiro.

A Argentina foi com Jorge Mario (Bergoglio). O Brasil deveria ter escalado Mario Jorge (Lobo Zagallo): “Zagallo é o papa” tem 13 letras!

São tantos os escândalos sexuais da Igreja Católica que a fumaça no conclave do Vaticano bem que poderia ter saído em cinquenta tons de cinza.


*jornalista, Celso Vicenzi é ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia, com passagens por rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. O autor autorizou a publicação no Nota de Rodapé.
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