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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 30 de julho de 2010

LIXO: 60 milhões de toneladas

Edição 37, agosto de 2010
A revista Retrato do Brasil (edição 37) de agosto traz um longa reportagem de dez páginas da repórter Tânia Caliari sobre o desafio do lixo no país: acabar com os lixões, nos quais trabalham milhares de catadores, é o primeiro desses desafios. Foi aprovada nova e avançada política pelo Congresso que deve contribuir para a superação dos obstáculos. Outra matéria, de Júlio Bonassi, trata da PEC 438, que há anos aguarda votação final na câmara e que, se aprovada, permitiria a expropriação de terras nas quais se utilize trabalho escravo. Tema extremamente importante, tratado com grande capacidade pelo pessoal da Repórter Brasil.
Em outro artigo, denso mas necessário, são apresentados o que chamamos de “gatos gordos” de Obama que, apesar da vitória política do presidente americano com sua reforma financeira, não consegue se livrar desses felinos de Wall Street. Para entender: agora é sabido que a Telefónica comprou a parte da Portugal Telecom na maior operadora de telefonia celular do Brasil, a Vivo. Gustavo Brigatto, no entanto, conta essa história detalhadamente na matéria que fez de forma bem clara e com nuances interessantes. Em ciência, Flávio de Carvalho Serpa fala do primeiro organismo sintético, criação do americano Craig Venter, uma espécie autorreplicante cuja paternidade é um computador. Em cultura, uma resenha sobre o relançamento de A coleira do cão, de Rubem Fonseca e uma critica a política da dança no Estado de São Paulo concentrada numa única companhia.

Thiago Domenici, jornalista e Secretário de Redação da Retrato do Brasil


Veruscka Girio é publicitária, designer, diretora de arte, produtora multimídia, videocenarista, vj e curiosa no processo do uso do computador como ferramenta de criação e produção artística para elaboração de novos mundos.

Baú do Youtube: Chorando baixinho

Eu não conhecia muito sua história. E parece que a imprensa também não. Tirando os verdadeiros conhecedores da música pouco se leu (de homenagens a registros) sobre a morte do clarinetista Paulo Moura (1932-2010) no mês passado. Fica a homenagem e a indicação de seu site onde pode saber mais sobre sua vida e obra: http://www.paulomoura.com/

Liquidificador da "informação": em SP, feiras ganham 1h a mais para vender pastel

Imagine a turbulência mental ao ler detalhadamente todas as notícias mais “importantes” do dia veiculadas no jornal do dia seguinte. S.A.T.U.R.A.Ç.Ã.O é o que penso sempre que pego o jornal, qualquer deles. “Não quero saber, mas preciso”. Liquidificador da informação é um apanhado. Nada mais. Aqui, somente, apenas, a informação menor. O que batemos o olho. De ontem, não te importa hoje. Respire e vá de um fôlego.

Dia 30 de julho. Bruno (agora de cabeça raspada) é indiciado por homicídio, sequestro e cárcere privado. Ele também responderá por formação de quadrilha e corrupção de menores. Outras oito pessoas, incluindo a mulher e a amante, também serão processadas. Os casais homossexuais poderão declarar companheiros (desde que seja comprovada união estável) no Imposto de Renda 2011 (parecer do Ministério da Fazenda deu esse direito). Da reunião da Unasul, Uribe (da Colômbia) critica (em nota) Lula por ter tratado a crise entre Bogotá e Caracas como um “caso de assunto pessoal”. Ainda sem saber da critica, Lula, em um comício em Porto Alegre nega que irá se licenciar do cargo por conta da campanha de Dilma, que após almoço (em Brasília) conseguiu apoio de Ciro Gomes (aliás, o ex-candidato a presidente irá ser comentarista de um programa de tevê no Ceará).
Ata do Copom justificou a redução do ritmo de alta da taxa Selic, sinalizando ao mercado que o fim do ciclo de aperto monetário está próximo (traduza isso ao povão, por favor). Lucro da Vale dobrou com alta do minério (e olha que já foi estatal e era pra continuar a ser). Irã diz estar disposto a suspender o enriquecimento de urânio a 20% enquanto os árabes dizem apoiar diálogo direto entre governo de Israel e a autoridade Palestina. Rolou um protesto de imigrantes no Arizona e a Alemanhã registrou em julho seu décimo terceiro mês consecutivo de aumento do mercado de trabalho. Bem-feito: uma mulher foi condenada por passar trote em idosos (foram 80 telefonemas ofensivos num único dia. A esperta vai pagar 8 mil reais por danos morais). Trágico e sem sentido: na França, mãe admite ter matado oito filhos. Boa notícia: feiras livres de São Paulo terão mais uma hora para vender pastel (a partir da próxima semana até 13h 30, incluindo as barracas do imbatível caldo de cana). Liquidificador volta na segunda com as notícias “tiro-curto” do final de semana.

Thiago Domenici, jornalista, sempre que puder, fará aqui o liquidificador das informações do dia anterior que você lê no dia seguinte. Em linhas gerais, parte daquilo que é publicado na grande mídia e afins que ninguém consegue ler.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Turismo Médico é filão de negócios em exploração crescente no Brasil

Turismo Médico é quando um cidadão, por exemplo, dos EUA, vem a um hospital de ponta em São Paulo realizar um check-up ou fazer tratamentos dentários, oftalmológicos, cardíacos etc e ainda curtir a cidade como manda o roteiro de um verdadeiro turista. E tudo isso pagando muito menos do que em seu país. E com a colaboração de agências de viagens especializadas nesse tipo de serviço. Se você resolver colocar silicone nos seios nos EUA vai pagar, em média, 16 mil reais enquanto aqui no Brasil, pagaria menos da metade desse valor. Se um Alemão, em outro exemplo, resolve reduzir o estômago vai gastar por aqui pouco mais de 13 mil (oito mil a menos que no seu país).
Entre 2012 e 2015, a Organização Mundial de Turismo (OMT), projetou uma movimentação na casa de 60 bilhões de dólares. A Tailândia, líder nesse setor, fatura 500 milhões de dólares por ano com o turismo médico (ainda segundo a OMT). Outros países muito procurados são Cingapura e Índia. Os indianos, inclusive, concedem visto especial de um ano para os "turistas-pacientes".
Por aqui, segundo o Ministério do Turismo, 180 mil estrangeiros vieram buscar tratamento médico nos últimos anos. Se levarmos em conta que nos EUA o seguro saúde é uma “bica”, usando uma gíria, o viagem se torna atraente, principalmente, pelo preço aliado a qualidade dos hospitais particulares do país (a maioria em São Paulo).
A cidade, aliás, recebe em agosto (entre 25 e 28) o primeiro encontro para desenvolver o Turismo Médico. O evento, foi batizado de Medical Travel Meeting Brasil e vai apresentar os hospitais brasileiros com certificações internacionais para planos de saúde e de seguros estrangeiros. A cidade recebe 11,5 milhões de turistas por ano e em 2009 foram 900 mil pessoas realizando algum tipo de tratamento médico ou estético.
Alguns hospitais da cidade como o Sírio-Libanês, Albert Einstein, Oswaldo Cruz, Samaritano e HCor foram acreditados pela Joint Comission International, importante certificadora mundial e têm até setores e equipes especiais para receber os estrangeiros. Esse filão é mais um negócio em crescimento. A globalização ocorre em todas as áreas, não sei, sinceramente, se felizmente. Vamos perguntar aos que ficam nas filas do SUS?

Thiago Domenici é jornalista

Liquidificador da "informação" destaca que Fábio Jr. não está feliz com Cléo Pires, que vai posar nua com dois homens na Playboy

Imagine a turbulência mental ao ler detalhadamente todas as notícias mais “importantes” do dia veiculadas no jornal do dia seguinte. S.A.T.U.R.A.Ç.Ã.O é o que penso sempre que pego o jornal, qualquer deles. “Não quero saber, mas preciso”. Liquidificador da informação é um apanhado. Nada mais. Aqui, somente, apenas, a informação menor. O que batemos o olho. De ontem, não te importa hoje. Respire e vá de um fôlego.

Dia 29 de julho. Com certo atraso (e a pedido), Valdívia é do Palmeiras (el mago). Lula demite o presidente e também o diretor de recursos humanos dos correios (será que por sedex?). Marina Silva (PV) declara não ser nem de direita e nem de esquerda (Noberto Bobbio, do livro “Direita e Esquerda – razões e significados de uma distinção política”, falecido em 2004, poderia explicar). Dilma diz em comício que a campanha da oposição não é civilizada enquanto seu opositor, José Serra, criticava a situação da malha ferroviária do país (disse que de cada dez estradas federais, oito não tem condições de operar). Daí que em SP caminhões estão proibidos de circular na Marginal Pinheiros, Av. Roberto Marinho e Rodovia dos Bandeirantes e as motos (a partir de segunda) proibidas de circular na pista expressa da Marginal Tietê. Rolou, enfim, o divórcio entre Telefónica e Portugal Telecom pelo controle da Vivo (a maior operadora de telefonia celular do país) e o governo brasileiro foi camarada cedendo parte da Oi (que até então era a "supertele" nacional) aos portugueses (assim, ninguém ficou de mãos vazias).
O Tesouro nacional divulga o resultado fiscal do governo central (ah, tá, aquele formado por Tesouro, Previdência Social e Banco Central) enquanto o Bradesco apresentava balanço do semestre (positivo, é claro, com lucro de R$2.4 bilhões). E por essa, caro leitor, você não esperava: importação do aço pode bater recorde (veja bem, pode, ainda não bateu!). O neurocientista Miguel Nicolelis (que já foi entrevistado por este que vos escreve, leia aqui) recebeu prêmio ciêntifico (US$ 2.5 milhões ao longo de cinco anos) por sua pesquisa sobre o sistema nervoso e a interação cérebro-máquina. Advogado de defesa de Bruno insiste na tese de que Elisa Samudio está viva (sim, ela pode ser chamada para depor).
Os EUA, depois de tanto fazer para que o Irã recebesse sanções da ONU, resolveu que topa negociar (urânio enriquecido) com o país de Ahmadinejad. No extremo sul (Paraguai) lider extremista do auto-denominado Exército do Povo Paraguaio foi morto. Já não bastasse a situação em terra (entupida) cresce o tráfego áreo global (crescimento de 11,9% em junho). Rolou uma segunda hipoteca nos EUA (mas não sei explicar isso) e uma juíza federal (Susan Bolton) barrou regras mais polêmicas da Lei de Imigração do Arizona (não se pode mais abordar e prender qualquer suspeito de ser imigrante ilegal). A tourada (um ritual sádico e muito cruel) foi proibida, mas só na Catalunha. Segundo Ricardo Teixeira (aquele que se perpetua, infelizmente, há décadas na CBF), Belo Horizonte está na frente para a abertura da Copa (já que São Paulo nem tem mais projeto de estádio). E a Fifa (que manda e desmanda e faz suas próprias regras) veta o Estatuto do Torcedor para a Copa 2014. A dupla sertaneja Edson e Hudson (depois de trinta anos se separou) mas cantam neste sábado uma despedida oficial. E surgem os desmentidos no futebol: Gilberto Silva (volante da Copa) nega acerto com o Flamengo e Kleberson (reserva na Copa) nega que vá para a Grécia. Ela está mesmo em alta. Sim, Cléo Pires, que fará par com o solteiro Edson Celulari em novela da Globo posou nua com dois homens para a Playboy (de agosto) para desgosto do pai, Fábio Jr, que não ficou feliz com a ideia. Ah, e a namoradinha do Brasil (Regina Duarte, 63 anos, a que “tem medo”) desabafa: “quero trabalhar mas não sou chamada como já fui. (…) Eu sei que existem papeis bacanas para a minha idade.”

Thiago Domenici, jornalista, sempre que puder, fará aqui o liquidificador das informações do dia anterior que você lê no dia seguinte. Em linhas gerais, parte daquilo que é publicado na grande mídia e afins que ninguém consegue ler.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Lançamento da Revista A3 Quadrinhos

A capa da primeira edição
O amigo Matheus Moura, jornalista, residente em Uberlândia emplacou mais um bela inciativa por lá. É o lançamento da primeira edição da revista “A3 Quadrinhos”, que para virar realidade teve apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura da cidade. A revista tem 112 páginas, é feita em papel jornal PB, e traz histórias de terror. Pode ser adquirida nos pontos de venda atendidos pelo coletivo 4º Mundo, lojas especializadas, com os autores e na Bodega do Leo (a maior loja virtual de HQBs do Brasil) ao preço de R$ 3,50 (frete incluso). Mais informações pelo email: revistaa3@gmail.com e pelo blog www.revistaa3.wordpress.com

“Não faço para mim”
Perguntei ao Matheus o que o motivou a fazer a publicação e o que ele espera com essa boa iniciativa. Veja sua resposta, um depoimento muito relevante: “Aqui no Brasil não existe um mercado formal de Hqs para despontar novos autores. Esses, muitas vezes, precisam se autopublicar. No entanto, isso é oneroso. Minha motivação está na edição do material contribuindo para que novos autores sejam lidos e vistos pelo público, mesmo com toda a dificuldade de distribuição que há no país, com duas (na verdade uma) empresas que monopolizam o mercado de distribuição em larga escala. Além do que, como autor, estou também me autopublicando. No caso da A3, é uma revista patrocinada por Lei de Incentivo Municipal da cidade de Uberlândia (MG), o que me poupa dos gastos financeiros. Como expectativa tenho as críticas, positivas ou negativas, do leitor e de outros autores de HQs nacionais. Quando faço uma revista em quadrinhos, ou qualquer outra, não faço para mim, ou para os autores, mas, sim, para os leitores."

Liquidificador da "informação" destaca Cléo Pires como nova parceira de Edson Celulari

Imagine a turbulência mental ao ler detalhadamente todas as notícias mais “importantes” do dia veiculadas no jornal do dia seguinte. S.A.T.U.R.A.Ç.Ã.O é o que penso sempre que pego o jornal, qualquer deles. “Não quero saber, mas preciso”. Liquidificador da informação é um apanhado. Nada mais. Aqui, somente, apenas, a informação menor. O que batemos o olho. De ontem, não te importa hoje. Respire e vá de um fôlego.

Dia 28 de julho. Lula nomeia novos ministros do STJ (dois, uma de Brasília e outro do Rio Grande do Sul) enquanto Marina Silva (PV) lançava seu programa de governo (uma nova e ampliada versão). No vai e vem, Dilma criticou Serra por suas declarações e quem respondeu foi Sérgio Guerra, presidente do PSDB (chamou a equipe da petista de "guerrilha de mentira"). Lula fez o anúncio da MP que amplia o valor (agora 75 mil) dos imóveis para “Minha Casa, minha Vida". Saiu o balanço semestral da ABIMAQ e o Tesouro está vendendo títulos por juros menores que a inflação.
Lá no Irã, Armajinehad, anuncia que está disposto a novo acordo nas negociações de plano nuclear e exige (olha só, hem!) presença do Brasil e da Turquia. Disse ainda que nos próximos três meses os EUA atacarão dois países do Oriente Médio (eu não duvidaria tanto assim). Na nosso quintal, a América do Sul, Colômbia diz que não vai discutir plano de paz com Venezuela de Chávez que vai ser apresentado amanhã na reunião da Unasul. Mais no alto do mapa, Obama, dos EUA, declara que informações vazadas (aquelas sobre o Afeganistão) não continham informações sigilosas (continham o que, então?). Falei disso no NR (leia) já que o suspeito de vazar as informações é o analista do setor de inteligência do pentágono Bradley Manning (o mesmo que teria divulgado vídeo com cenas de extermínio de civis iraquianos pelo exército dos EUA). E mais: Evo Morales escancara e diz a diplomatas de órgão da ONU que tráfico no país é mais poderoso que a polícia ("o narcotráfico do país tem mais tecnologia do que a Polícia Nacional e equipamentos mais modernos que as Forças Armadas"). Operação da Polícia Federal (chamada de Tapete Persa em 54 municípios) prendeu número recorde de Pedófilos (21) enquanto a avó de Bruno o visitava na cadeia. Troca, troca: Washington (ex-São Paulo que agora terá Ricardo Oliveira, já apresentado) reforça o Fluminense (que perdeu Fred por lesão) e Gilberto Silva (volante da última Copa) foi para o Flamengo (que mandou Kleberson, reserva na Copa, para um time da Grécia). Para fechar, fofoca da boa: Cléo Pires é a nova parceria de Edson Celulari (na novela Araguaia da Globo).

Thiago Domenici, jornalista, sempre que puder, fará aqui o liquidificador das informações do dia anterior que você lê no dia seguinte. Em linhas gerais, parte daquilo que é publicado na grande mídia e que ninguém consegue ler.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Desabafo de uma repórter indignada

Telefones de apoio a mulher vítima de agressão não existem, mudaram ou são de lojas e até de uma peixaria

Peço licença para dividir minha indignação como jornalista e principalmente como mulher. Como os leitores do NR sabem, a violência contra a mulher, em todos os formatos possíveis e não imaginados só aumentam por aqui. A Lei Maria da Penha, que ajuda a intimidar parte dos agressores, é motivo de chacota para alguns juízes e juízas como a doutora Ana Paula Delduque Migueis Laviola de Freitas, do 3º Juizado de Violência Doméstica do RJ, que não puniu o goleiro Bruno na primeira denúncia de Eliza Samudio por entender que a moça não poderia se beneficiar das medidas de proteção, nem "tentar punir o agressor", sob pena de banalizar a Lei; ou ainda o doutor Edilson Rumbelsperger Rodrigues, que para não me estender muito, conto com a curiosidade do leitor e indico o site onde ele discorre sobre o assunto.
Pesquisando sobre o machismo que culpabiliza a vítima de violência para uma matéria que escrevo neste exato momento para o jornal Folha Universal, resolvi montar um guia de serviços com centros de referência e delegacias da mulher, locais onde a mulher vítima de agressão sexual poderia encontrar apoio e segurança para denunciar. Pois bem. Encontrei uma infinidade destas listas em sites de organizações feministas respeitáveis e até em páginas ligadas ao governo. Que maravilha! Mas uma pulguinha cismou pular atrás da minha orelha e decidi checar estes números - algo trabalhoso, porém necessário e básico. Qual não foi a minha surpresa ao constatar que a maioria dos números fornecidos não existe, mudou e onde deveriam estar os tais locais de apoio na verdade funcionam lojas e até uma peixaria. Agora o leitor imagine: quanto tempo uma mulher demora e quantos monstros tem que vencer até resolver pegar o telefone para procurar ajuda? Quanto está em jogo? Então esta mulher disca o número fornecido e compra uma roupa nova? Encomenda um peixe?
Só faltou o telefone de uma pizzaria. Seria bem apropriado. Quando finalizar o guia, pretendo disponibilizar aqui no NR. Quem quiser e puder, compartilhe!

Andrea Dip é jornalista e mantém a coluna Mãe em Surto

Liquidificador da “informação” destaca Edson Celulari e Claudia Raia separados

Imagine a turbulência mental ao ler detalhadamente todas as notícias mais “importantes” do dia veiculadas no jornal do dia seguinte. S.A.T.U.R.A.Ç.Ã.O é o que penso sempre que pego o jornal, qualquer deles. “Não quero saber, mas preciso”. Liquidificador da informação é um apanhado. Nada mais. Aqui, somente, apenas, a informação menor. O que batemos o olho. De ontem, não te importa hoje. Respire e vá de um fôlego.

Dia 27 de julho
. Pesquisa Datafolha sobre os candidatos ao senado; Marta na frente em SP e Romeu Tuma (aquele da Ditadura) em segundo. Serra critica apoio de Lula a Chávez e José Eduardo Dutra (PT), apesar de xará, rebate: “Serra está caindo no ridículo. Esse figurino de direita troglodita não assenta bem nele”. Marina Silva, candidata do PV, foi sabatina pelo portal Terra e não acha correto que chamem a hoje petista Dilma de terrorista e diz que não extraditaria o italiano Cesare Battisti. Eletrobrás pretende investir na energia dos EUA.“O bom nos EUA é que com quaisquer US$ 60 milhões é possível comprar alguma coisa”, disse Silval Gama (quem?) que é superintendente de operações internacionais da estatal. O Banco Central divulgou as contas externas do país (e aí?). Índios libertam engenheiros em Mato Grosso que mantinham como reféns na usina de Dardanelos.
Do mundão: Venezuela envia tropas (mais de mil soldados) para a fronteira com a Colômbia (brigar pra que?) e o ministro de Relações Exteriores de Chávez, Nicolas Maduro, veio a Brasília falar com o presidente Lula. A União Europeia (que anda desunida com a crise) aprova sanções contra o Irã (por quê?). 90 mil documentos secretos do governo americano sobre a guerra no Afeganistão (em 2001) são divulgados pela ONG WikiLeaks do Reino Unido. Robert Gibbs, porta-voz da Casa Branca disse que isto “representa uma real e potencial ameaça aos que estão trabalhando todos os dias para nos manter em segurança” (blábláblá). O próprio Afeganistão acusa a Otan de soltar um míssil em uma de suas regiões matando civis (52 para ser mais preciso). Cresce a venda de imóveis nos EUA. De novo: A União Europeia (aquela que anda desunida por conta da crise) abre investigações sobre o IBM dos EUA (estaria ela adotando pratica anticoncorrencial?). O grupo Basic (formado por Brasil, África do Sul, Índia e China) se reuniu no Rio de Janeiro para discutir sobre uma proposta única sobre a redução de gases do efeito estufa. Mano Menezes convocou a seleção. Mas diante de tudo isso o que importa mesmo é que Edson Celulari e Claudia Raia não estão mais casados. Ele até já saiu de casa.

Thiago Domenici, jornalista, sempre que puder, fará aqui o liquidificador das informações do dia anterior que você lê no dia seguinte. Em linhas gerais, parte daquilo que é publicado na grande mídia e que ninguém consegue ler.

O gaúcho que a Seleção precisava

Mano Menezes deixou uma boa impressão depois da primeira convocação como técnico da Seleção Brasileira. O treinador mostrou tranquilidade, segurança e conhecimento ao anunciar o início da reformulação no time após a era Dunga. A CBF atirou no que viu e acertou no que não viu. A entidade conduziu mal a contratação do novo treinador e acabou perdendo Muricy Ramalho por falta de habilidade de Ricardo Teixeira, inimigo político de Fluminense, Palmeiras e São Paulo, por coincidência, os últimos clubes de Muricy.
A postura de honrar o contrato com o time das Laranjeiras é louvável e digna de elogios. Poucos profissionais hoje, em qualquer ramo, agiriam com a mesma ética em uma negociação. Sorte de Mano, que já era cotado para o cargo antes mesmo da Copa de 2010. O gaúcho que conquistou, com muito trabalho, honestidade e bons resultados, os corações das exigentes torcidas de Grêmio e Corinthians (aliás, quem viu a homenagem que ele recebeu da Fiel no Pacaembu sabe que um dia ele voltará ao Parque São Jorge, como Felipão voltou ao Palmeiras, idolatrado).
Durante mais de uma hora de sabatina dos jornalistas no Rio, Mano deu seu cartão de visitas à CBF. A fala mansa não deve criar a ilusão de uma pessoa submissa. Mano não deixou de apontar falhas da CBF na condução de trabalhos anteriores e garantiu que não vai aceitar ingerências, assim como deixou claro que não vai comprar brigas que não lhe pertencem. A contratação de um psicólogo e a descentralização dos poderes serão benéficas ao time. O treinador mandou também seu recado aos jogadores, tanto os novos quanto os experientes e deixou claro que não vai aceitar que a vida pessoal de cada atleta interfira na Seleção. No trato com a imprensa, Mano não quis criar um personagem. Mano foi Mano e ponto, como sempre foi desde o início de sua carreira. O bom senso do técnico vai guiar todo o trabalho à frente da seleção em todos os aspectos, desde as futuras convocações, até o relacionamento com a imprensa. Mano é o gaúcho que a Seleção precisava depois da ditadura Dunga.

Mais brilho nas quadras que no campo
Faz parte da nossa cultura achar que o futebol é a única coisa que presta no esporte. Temos muitas vezes uma certa arrogância: enchemos o peito para valorizar o único pentacampeão do mundo; não cansamos de dizer que Pelé é o maior esportista de todos os tempos; enaltecemos que o jogador brasileiro é diferenciado e que temos uma renovação constante de bons atletas. Mas essa paixão futebolística nos faz cometer injustiças com outros esportes. O vôlei, por exemplo, tem trazido muitas glórias ao país. Seja com a seleção feminina ou masculina, as medalhas olímpicas e outras conquistas vão se acumulando. Fica aqui a sincera e humilde homenagem aos garotos comandados por Bernardinho que conquistaram a Liga Mundial pela nona vez. Prometo abordar mais vezes as lutas e as glórias dos chamados esportes olímpicos e por justiça vou trazer aos leitores do blog uma coluna exclusiva às modalidades. Hoje, a homenagem ao campeões do vôlei veio como uma “Nota de Rodapé”, o que reforça a importância do NR.

Thiago Barbieri é jornalista; autor do livro sobre o Corinthians "23 anos em 7 segundos", editor do jornal Primeira Hora da Rádio Bandeirandes e colunista do Nota de Rodapé.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Apocalipse é muito mais um livro de “viagem” do que um livro “histórico”

Tanto a literatura apocalíptica judaica como o Livro do Apocalipse de São João Apóstolo pretendem desvendar os mistérios dos tempos finais da história e do início do Reino de Deus. Um dos diferenciais é que, enquanto os apocalípticos judeus discutem a primeira e única vinda do Messias, São João Apóstolo trata do Segundo Advento de Jesus Cristo.
Do mesmo modo, enquanto os apocalípticos judeus tratam do Reino de Deus como se fosse uma teocracia terrena, instaurada pelo Messias, que foi enviado por Deus, mas não é Deus, São João Apóstolo trata de um Reino de Deus no plano das almas, instaurado pelo próprio Deus, nas suas Três Pessoas. Mas tanto judeus como São João expressam que o Messias enfrenta o Inimigo que quer tomar o seu lugar.
Também, no plano imediato, os judeus e São João parecem partir de um tempo histórico determinado, no caso do Apocalipse o tempo da perseguição do imperador romano Nero aos cristãos, perseguição que o Apocalipse chama de “grande tribulação”. Mas, ao contrário da maioria dos apocalípticos judeus, São João Apocalíptico não usa pseudônimo e sim assina com seu nome próprio o texto sobre as visões da revelação que teve, vinda de Jesus.
Por falar nisso, a característica de expressar a mensagem por meio de visões se encontra tanto nos apocalípticos judeus como em São João Apóstolo. Igualmente, está presente nos dois casos o elemento da predição, como, do mesmo modo, tanto a utilização de símbolos arbitrários a serem decodificados, como a utilização de números como símbolos. Assim, no Apocalipse, cinco são os meses da praga de gafanhotos, sendo cinco nos apocalípticos judeus o número das peripécias humanas, sendo que os gafanhotos só são nocivos aos seres humanos, não à natureza. Enquanto são sete tanto as estrelas como os candeeiros portados por Jesus Cristo no Apocalipse, sendo sete o número da perfeição para a literatura apocalíptica judaica.
Figuras de linguagem e situações dramáticas também foram usadas tanto pelos apocalípticos judeus como por São João Apóstolo. Mas o Apocalipse é muito mais um livro de “viagem” do que um livro “histórico”, segundo a classificação de Collins. Confesso que não me sinto suficientemente preparado para ir além dessas observações.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, especialmente para o Nota de Rodapé. Conheça o Blog do Renatão

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Para mim, tanto faz

Já estamos em julho. Como passa o tempo... E o ano é importante: agora que Brasil se fodeu na Copa do Mundo as atenções se voltam para as eleições. O senhor já tem candidato, dr.? Me chamou a atençao na internet uma dessas enquetes que perguntava sobre a desistência dos candidatos Dilma (PT) e Serra (PSDB) de um debate online. A maioria respondeu “para mim, tanto faz.”
Essa amostragem, por mais que não prove nada, reflete um pouco a minha sensação com relação ao mundo e as pessoas que me rodeiam. E isso me entristece. O senhor sabe, vim para essa quick therapy porque estava para me suicidar. Esta é minha terceira sessão e alguns meses depois me sinto mais forte para enfrentar algumas coisas. Estou caminhando três vezes por semana. São trinta ou quarenta minutos em que fico de papo para o ar poluído de São Paulo com um amigo falando sobre a vida, o trabalho, o amor, literatura, futebol, poesia e sobre a falta que faz ao povo refletir sobre o mundo em que vive.
A política, por mais chata ou outro termo que você dê, é fundamental. O país vive às voltas com um problema crônico de picaretas no Congresso. Um conhecido disse no facebook... Sabe aquela rede social famosa? Você usa? Depois te acrescento, então. Ele disse: “Que fim levou a ética na política e por onde andam as promessas de uma política programática e de princípios? Tudo pode, tudo vale, escancaradamente, para ganhar eleições e satisfazer ambições pessoais. Precisa ser mesmo assim? O que será da democracia - tão falada - a médio e longo prazos com a generalização dessas alianças espúrias e a reafirmação desses vícios políticos? Lamentável!”.
Diante de uma indagação assim, te pergunto: tanto faz? E questões importantes que poderiam ser discutidas num debate online, em que qualquer um poderia perguntar sobre temas delicados que, normalmente, ficam de fora dos debates televisivos.
O aborto, uma questão de saúde pública, tanto faz? A redução da jornada de trabalho, tanto faz? O trabalho escravo, tanto faz? O aumento do salário mínimo, tanto faz? Usar dinheiro público nos estádios da copa de 2014, tanto faz? Um trabalhador que leva mais de três horas para chegar no emprego, gastando mais três para voltar, levantando de madrugada, para ganhar míseros reais para criar dois filhos, tanto faz? Eu sei, dr., estou num tema muito pesado hoje. Saindo daqui tenho uma entrevista de emprego num jornal de bairro. Gostei da ideia de escrever sobre os acontecimentos de um pequeno lugar da cidade. A grana é pouca, vou levar uma hora e meia para chegar na redação, mas vou distrair a cabeça. Aliás, você viu que beleza o beijo do goleiro Casillas da Espanha na namorada repórter após a conquista do mundial? Pra mim, é a cena do ano! Até a próxima, dr! Me deseje sorte na entrevista!

Fredo Sidarta, poeta, escreve sobre suas sessões de quick therapy (consultas de 15 minutos com o psicólogo) no espaço Cronetas do NR.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Baú do Youtube: Cambalache, de Gardel

Cambalache, de Carlos Gardel, interpretado por Julio Sosa, cantor uruguaio conhecido como "El varón del tango". Uma dica enviada pelo amigo de NR, Paulo Rodrigo Ranieri, para relembrar dos tempos em que estivemos em Buenos Aires, em 2003. A mesma canção foi interpretada por Caetano Veloso em 1969 (veja) e também por Raul Seixas (veja). E aqui na interpretação do próprio Gardel.

Saia justa nas eleições do DF

Com pouco mais de duas semanas de campanha eleitoral nas ruas em todo o país, começam a ficar claros, se não cômicos, os efeitos das articulações pesadas que aconteceram em Brasília e precederam o processo. Os partidos e principais lideranças políticas da cidade voltaram todos os seus esforços para costurar apoios e alianças, sendo que a definição do quadro se deu aos 45 do segundo tempo.
Resultado é que a grande maioria dos candidatos, exceto os que já estavam definidos há tempos, como o PSOL, entraram no período de campanha sem plataforma política nem estratégia de campanha. Pudera, nem tinha como definir essas coisas sem saber com quem se estaria fazendo campanha.

Sem adesivo, por favor!
As rusgas na coligação de Joaquim Roriz foram ficando evidentes à medida em que foram acontecendo as pouquíssimas atividades na rua. Na carreata de abertura da campanha, partidários do senador Adelmir Santana (DEM), que busca vaga de deputado federal, se recusaram a adesivar seus carros com o nome de Roriz. Poucos dias depois, o deputado federal Alberto Fraga, candidato ao Senado, foi vaiado quando discursava em um carro de som. Fraga atribuiu a vaia ao “fogo amigo”, e disse que havia pessoas “invejosas”, por ser do último partido a entrar na coligação e conseguir a candidatura ao senado.
Agnelo Queiroz (PT) não ficou atrás. A aliança histórica do seu partido com o PMDB colocou um ex-militante do PCdoB na cabeça de chapa e o antigo braço direito de Roriz, o empresário Tadeu Filippelli, na vice. E mais, o PMDB do DF tem uma série de deputados acusados de envolvimento no escândalo da Caixa de Pandora, que derrubou José Roberto Arruda do governo estadual.
O constrangimento é visível quando, por exemplo, Agnelo sobe para discursar em carro de som ao lado de três “pandoristas” que foram, durante o governo de Arruda, duramente atacados pela bancada petista na Câmara do DF.
Fato é que os dois lados estão cheios de contradições nestas eleições, e a forma como cada um irá lidar com elas ainda deve gerar uma série de fatos engraçados, curiosos, emblemáticos da forma como se faz política hoje. E agora, resta esperar as propostas de governo para saber qual a diferença dos lados.

Rodrigo Mendes de Almeida é jornalista e escreve a coluna Estação Brasília

quarta-feira, 21 de julho de 2010

"Não tem por que tocar nesse assunto"

A Rede Brasil Atual traz uma série de reportagens sobre desaparecidos políticos durante a ditadura escritas pelo companheiro de NR João Peres. Familiares esperam o resgate de ossos da Vila Formosa, na zona leste da capital paulista. Um dos casos mais emblemáticos é o de Virgilio Gomes da Silva, enterrado como indigente no local, e que lutou contra a ditadura com o codinome Jonas. Em outro trabalho de apuração, João Peres, localizou o ex-chefe do Serviço Funerário, que acha que "não tem por que tocar nesse assunto". Também ouviu o Ministério Público, que cobra esforço do governo federal.

Amistad

Baixe o Filme de Graça
Na década de 1830, negros de Serra Leoa que estavam sendo levados num navio negreiro espanhol, como escravos, de um ponto para outro de Cuba, se revoltam e conseguem assumir o comando do navio, obrigando o capitão e o piloto, únicos brancos que sobraram vivos da revolta, a se dirigirem de volta para a África. Ainda na costa dos Estados Unidos, entretanto, o navio sob o comando dos negros é apresado por um navio de guerra americano, e os negros são feitos prisioneiros em terra, em território americano.
Inicia-se então um complexo julgamento num tribunal federal regional dos Estados Unidos, em que são partes a rainha Isabel 2.a da Espanha, uma menina pré-adolescente, que afirma serem os negros escravos de propriedade da Coroa espanhola; dois empresários de Cuba, que afirmam terem comprado os negros como escravos num ponto de Cuba e que eles estavam sendo transportados para outro ponto de Cuba exatamente para serem entregues a eles, empresários; e os próprios negros, representados por advogados americanos abolicionistas, que querem a sua liberdade.
Inicialmente a causa dos negros parece perdida, pois a escravidão, na época, era legal nos Estados do Sul dos Estados Unidos e o país tinha um tratado com a Espanha que mandava entregar à Espanha os escravos das colônias espanholas que fossem apresados em águas americanas.
Mas os advogados dos negros descobrem que a lista dos negros do grupo, apresentadas pelos empresários de Cuba como prova de que os negros eram escravos e de sua propriedade, era na verdade uma lista dos negros que haviam sido levados de Serra Leoa para Cuba por um navio português. Isso era importante, pois na época o tráfico de africanos já tinha sido abolido nos Estados Unidos e a legislação americana só reconhecia como escravos quem tivesse nascido escravo, isto é, filho de escravos. Se aqueles negros tivessem nascido livres em Serra Leoa – que era uma colônia britânica e a Grã-Bretanha já tinha abolido não só o tráfico como a própria escravidão em seus territórios em todos os continentes –, e foram depois capturados e vendidos como escravos, eles eram homens livres pelas leis americanas.
Os advogados dos negros, porém, não conseguem se comunicar com seus clientes, pois estes não falam inglês e os advogados sequer sabe que língua os negros falam. Depois de muitas peripécias, e de uma viagem dos advogados a Serra Leoa, se descobre que eles falam mendê, uma das línguas da então colônia britânica. Se descobre também, em Serra Leoa, um intérprete que fala tanto inglês como mendê e os advogados dos negros passam a poder se comunicar com seus clientes.
Um líder dos mendês presos, falando em sua língua, e traduzido a cada trecho pelo intérprete, presta depoimento perante o tribunal, contando como ele e outros dos negros presentes eram livres em sua terra natal e como haviam sido capturados e levados à chamada Fortaleza dos Escravos, fora do território da Serra Leoa, e lá foram vendidos ao capitão do navio português, que os levou para um ponto de Cuba, onde foram revendidos e estavam sendo transportados no Amistad, um navio espanhol, para outro ponto de Cuba quando se revoltaram e acabaram assumindo o comando do navio, até serem aprisionados pelo navio de guerra americano.
O tribunal de primeira instância acaba decidindo que os negros tinham nascido livres e tinham direito não só à liberdade como à insurreição, por terem sido escravizados. O governo americano, a rainha Isabel 2.a da Espanha e os empresários de Cuba recorrem em todas as instâncias, embora sejam derrotados em todas, até a Suprema Corte, onde apesar de, dos nove magistrados, sete serem proprietários de escravos, novamente e definitivamente os negros obtêm ganho de causa e são libertados, podendo voltar à sua terra natal.
O filme se baseia num episódio real e é bastante fiel aos registros históricos. Apesar de ser um hino à liberdade, o filme foi questionado por espectadores negros, como a jornalista e escritora brasileira Marilene Felinto, particularmente por contar que os primeiros a escravizarem esses negros foram outros negros, de fora de Serra Leoa. No entanto, é fato histórico registrado que soberanos e empresários negros africanos traficavam escravos de sua cor.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, especialmente para o Nota de Rodapé. Conheça o Blog do Renatão.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Conversas inesperadas no Parque da Água Branca

De manhã, às vezes à tarde, faço minhas caminhadas pelo Parque da Água Branca. Uso pedômetro para marcar distância, de modo que caminho ou corro da porta do meu prédio até a volta, sem parar.
Andando no Parque eu passo por muita gente conversando e ouço, involuntariamente, pedaços de conversas descomprometidas.
Ou então:
“Menino, não mexe com o pavão que ele pode bicar!”
Existe uma frase materna mais ou menos frequente de mães de crianças muito novas:
“Não corre se não você cai!”.
Geralmente, isso acaba sendo uma missão subliminar para a criança: não corra, não assuma riscos, ou então caia para me deixar feliz.
Mas existem frases que ouvi que me marcaram pelo seu inesperado. Como aquelas duas moças de quem ouvi, ao passar por elas:
“Mas se você põe na boca ele fica duro!”
Ao que a outra respondeu:
“Mas se você continuar chupando ele amolece.”
Não foi indiscrição minha; elas andavam despreocupadas, a mais de um metro uma da outra, falando alto. Se não falavam de uma nova goma de mascar, o surpreendente era a naturalidade com que conversavam para quem quisesse ouvir. Passei por elas e não sei como terminou a conversa.
Um outro dia havia duas moças com um rapaz, uma de cada lado dele, andando devagar e conversando despreocupados. Tive de esperar que abrissem uma brecha para eu passar, já que os três bloqueavam a passagem. As duas riam para ele e o rapaz olhava para baixo, enquanto andavam.
Uma delas perguntou:
“Mas você é mesmo capaz de dar conta de duas ao mesmo tempo?”
Aí foi quando consegui ultrapassá-los e reparei que ele estava muito encabulado, por isso tinha a cabeça baixa. Respondeu, com uma voz insegura, antes de eu deixá-los para trás:
“Ah, eu acho que sim. Se vocês querem...”
Mas a mais surpreendente conversa cujos trechos eu ouvi, assim de passagem, no Parque, foi ontem [19 de junho]. Em frente ao Recanto dos Idosos, as veredas são estreitas e não dá para duas pessoas passarem ao mesmo tempo sem que cada uma se vire para ceder espaço à outra.
Eram duas moças meio mulatas e atraentes – diria eu, meninas, dessas de 14 a 16 anos, no auge do fervilhar dos hormônios – vestidas de modo discreto (jeans) e modesto. Conversavam, entreolhavam-se e riam uma para a outra enquanto uma delas filmava a outra com um celular, como se fosse uma entrevistadora.
A entrevistada fazia pose de artista ao falar, mas interrompeu o que ia dizer quando me aproximei delas para passar. Eu apenas ouvi a palavra final do que dizia para a outra:
“....agropecuária...”
Dei a volta no jardim, como sempre faço, e depois retornei sobre meus passos para continuar a caminhada. As duas vinham vindo do ponto em que eu cruzara com elas e uma terceira moça encontrou-as, cumprimentando-as com um tapa na mão levantada de cada uma. Elas pareciam agitadas e alegres, como se estivessem excitadas com alguma novidade.
A que fizera a gravação estava observando o display do aparelho, enquanto a outra parecia explicar algo à recém-chegada, quando passei por ela. Provavelmente contando o que acabara de gravar:
“O meu avô tinha uma fazenda e ele era totalmente focado na agropecuária. Mas nos últimos anos tudo mudou e...”
Não ouvi o resto. Continuei minha caminhada até as baias ao lado da Francisco Matarazzo e, uns quinze minutos depois, eis que as três vinham, saltitantes, rindo, animadas. E, ao passar por elas, ainda ouvi não sei qual delas falando, com ênfase:
“É a evolução do agronegócio, mas a palavra-chave hoje é sustentabilidade!”
E aí não ouvi mais.

O texto acima é do amigo Pergentino Mendes de Almeida e foi publicado originalmente em seu blog AnEx Futuros. Pergentino é conhecido homem de Marketing e Membro Profissional da World Futures Society (siga no twitter @PergeMA ). É mais um texto do espaço Cronetas do NR.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Revista focada em história do Nordeste

O companheiro J.C David, dos primeiros leitores deste blogue, jornalista, me enviou gentilmente a revista “Revivendo a História” na qual trabalha como assistente de redação. A editora que a publica se chama Velino e fica em Vitória de Santo Antão, Pernambuco. A revista traz reportagens, entrevistas e artigos. Mensal e com 64 páginas tem o conteúdo focado exclusivamente na história do nordeste (vale ressaltar que é a primeira editora do país a fazer isso). Seu editor, Arquiles Petrus, diz no editorial da primeira edição que traz na capa (na imagem) matéria sobre a imprensa no interior nordestino que a publicação “audaciosa” surgiu da “teimosia” que “alavancou dez profissionais para mergulhar no projeto”. Pelo que li a revista circula em todos os estados do Nordeste (bancas e livrarias, além das assinaturas e tem tiragem de 15 mil). É isso aí, sorte aos companheiros e vida longa a publicação!

O futebol e a grande crise

A Copa do Mundo terminou mas a crise no futebol mundial não. Neste mês de julho a Retrato do Brasil (hoje nas bancas em SP e terça-feira no RJ) traz matéria sobre uma paixão popular que vem, ao longo das décadas, se transformando de forma preocupante. Ao esporte não falta dinheiro, mas os clubes de futebol estão cada vez mais endividados e os jogadores brilham por cada vez menos tempo. Ao longo de 10 páginas o repórter Antônio Martins discorre - com muita pesquisa e entrevistas com inúmeras fontes do meio - sobre como a mercantilização mudou o negócio do futebol e forçou os clubes a estabelecerem curiosas relações com os investidores. Num papo com Mauro Holzmann da Traffic, por exemplo, ele diz: “Garantir que o torcedor possa ir ao estádio é papel do Lula – o meu é assegurar a sobrevivência do esporte”. Em linhas gerais, a matéria aborda o esporte se tornando cada vez mais um “entretenimento-espetáculo” onde a paixão e a prática esportiva vão ficando paulatinamente em outros planos que não o principal: o jogo bonito e acessível ao torcedor. Do antigo “passe”, por exemplo, ficou um resquício – a multa -, que se tornou um negócio lucrativo para empresas como a Traffic. Fernando Gonçalves, diretor executivo da empresa, argumenta: “Compare o dirigente de um clube ao dono ou executivo de uma siderúrgica. Ambos precisam de dinheiro para concretizar seus planos. Nossa especialidade é o futebol. Assim como os bancos, mantemos inteligência para avaliar nossos investimentos. Somos culpados por sermos eficientes?”, diz. E por aí o barco anda. Segundo a UEFA, o custo com jogadores é maior que aumento de receitas. A entidade reconhece que a ultramercantilização não é sustentável. Alternativas existem, sim, basta mirar o exemplo de clubes como o alemão Saint Pauli, agora na primeira divisão do campeonato e que, entre outras, repudia em seu estatuto o racismo, o fascismo, a homofobia e o machismo. A reportagem aborda ainda a questão das bilheterias, dos contratos de televisão etc. Saiba mais.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O inflar moderado das bochechas e a amizade

As viagens de elevador sempre me causaram desconforto. Não se trata de pavor por estar enclausurado em uma caixa de aço ou mal-estar pelas subidas e descidas. Minha questão está relacionada ao estranho-conhecido com quem sou obrigado a dividir dois metros quadrados. Demasiada intimidade.
O que fazer/dizer nos poucos segundos em que você e a outra pessoa compartilham aquele pequeno espaço? A saída mais óbvia e confortável é apoiar-se nos clássicos chavões (‘esfriou, né’; ‘será que chove?’) para solucionar a questão. Comigo a tática não funciona. Acabo me sentindo um completo estúpido e me envergonha da pequenez humana.
Ao mesmo tempo, sei que é absolutamente impossível tentar iniciar uma conversa que tenha um mínimo de profundidade. São segundos que teremos para discutir os problemas vitais. Inviável.
Ultimamente minhas viagens de elevador têm sido bem mais agradáveis. Há meses tenho um companheiro. Um senhor de seus sessenta anos que pouco antes das sete da manhã, inclusive nos finais de semana e feriados, encara a viagem dentro daquela caixa de aço para poder fumar seu cigarro no estacionamento do prédio. Há entre nós uma compaixão silenciosa.
Ao olhá-lo, penso: “Pobre homem. Trabalhou a vida toda, conseguiu juntar algum trocado para comprar sua morada, e hoje precisa abandona-la em plena madrugada para fumar em paz o primeiro cigarro do dia para não ser torturado mental (e quiçá fisicamente) pela esposa, que um dia foi companheira, mas hoje é inimiga”.
Arrisco dizer que quando meu amigo me fita de canto de olho, vem a sua mente algo do gênero: “Pobre rapaz. Sempre com essa cara abatida, derrotado. Tão cedo tem que levantar para se dirigir a um trabalho que não deve fazer com gosto e que não tem coragem de largar porque lhe paga o suficiente para o aluguel. Tomara não termine a vida ao lado de uma mulher que nem lhe permita fumar um cigarro quando acorde”.
Os primeiros encontros no elevador foram tensos. Com o cérebro ainda operando no modo de segurança (apenas as operações vitais em funcionamento) o único possível é balbuciar uma palavra. Da primeira vez tentei um “opa”, mas ele, mais formal, já havia ensaiado um “bom dia”, que saiu ao mesmo tempo do que meu cumprimento. O descompasso nos deixou bastante constrangidos. Na saída do elevador, me escapou um “falou”, que ele respondeu com um “bom dia”. No dia seguinte, adotei a tática do “bom dia”, mas ele, ainda sonolento, disse, um instante antes, um “boa noite”. Quando a porta se abriu, me saiu um “tchau tchau” e ele rebateu com um “falou”. Ambos soaram falsos, e cheguei a conclusão de que nunca seriamos amigos nesses tristes madrugadas se não alcançássemos essa afinidade.
Foi no terceiro dia que nos entendemos e demos início a essa linda amizade que agora existe. Naquele início de manhã eu estava especialmente destruído e, ao entrar no elevador, não tive forças sequer para abrir a boca. Meu gesto foi espontâneo e em momento algum tive a mínima noção de sua grandeza. Simplesmente movimentei moderadamente a cabeça para baixo e para cima e inflei, com parcimônia, minhas bochechas. Só depois fui me dar conta de que aquela saudação era um tratado sobre o sofrimento humano, as mazelas da vida e a tristeza de se encarar o universo totalmente desarmado. A reação de meu amigo foi imediata, sincronizada e perfeita. Repetiu o gesto com a mesma altivez e sabedoria.
Ali estava nossa chave. Sem palavras, nos entendíamos. Demos força um ao outro. Sofremos juntos nossas penas e, ainda em silêncio, transmitimos ânimo para aquele início de labuta que prometia ser penosa. Na saída do elevador, o adeus veio em forma de uma mão – a direita – erguida levemente. Não era um aceno, nos vos confundais. Era apenas um levantar de braço com a palma da mão aberta. Gesto simples, mas muito mais forte do que um abraço.
Desde aquele dia nossas manhãs começam menos triste. Embora não tenha conversado com ele sobre esse assunto – nem sobre nenhum outro, jamais – sinto que minha presença no elevador lhe passa serenidade e lhe dá o combustível necessário para tragar com força seu cigarro matinal e voltar à casa disposto a suportar a tragédia humana. De minha parte a sensação é a mesma. Tenho um companheiro que me entende e está a meu lado sem nenhum interesse. Somos amigos graças a nossas bochechas e nossa mão direita.
Amizade de elevador é coisa rara e deve ser cultivada. Até então eu só havia conquistado um amigo nessas circunstâncias. Um senhor austero, digno, mas completamente torpe na arte da convivência na caixa de aço de dois metros quadrados que nos sobe e baixa. Sempre se apressava em cumprimentar-me e, invariavelmente, dizia frases óbvias e dispensáveis. Por quere-lo, passei a entrar no elevador com celular em mãos. Assim que respondia seu “bom dia”, eu agarrava o celular e apertava a primeira tecla que meu polegar encontrasse. Era a senha: estou ocupado, respeite. Assim, viajávamos os quatro andares em paz e terminávamos o recorrido com a saudação de praxe. Um dia cometi o equivoco que deu início a nossa relação de cumplicidade. Ao ingressar no elevador, vi que ele trazia compras e passei a analisa-las (com muita discrição). Ao levantar a cabeça, minha mirada e a sua se cruzaram de forma que ele se sentiu obrigado em dizer algo. E foi quando, sem argumento e preso na angústia de dialogar, o senhor da cobertura me disse: “É isso”. Um pouco espantado, entendi que aquela era a senha da cumplicidade absoluta. A mensagem era clara, cristalina. O que eu dissesse ele estava de acordo. Éramos amigos. Uma pena, meses depois me mudei e duvido que ele tenha encontrado alguém capaz de entender a profundidade de seu “é isso”.
Em breve estarei de férias. Sentirei a falta de meu companheiro fumante. Talvez eu volte a meu antigo prédio apenas para tentar encontrar o senhor da cobertura. Quando ele me disser seu sábio “é isso” responderei com um moderado movimento de cabeça, para baixo e para cima, com a simultânea inflada parcimoniosa de minhas bochechas. Tenho certeza que ele vai entender toda a profundidade desse singelo gesto.

Henrique de Melo Sabines, mineiro, 30 anos, trabalha na ECT e se dedica à astronomia nos fins de semana. Fã de Drummond, começou a escrever por recomendações médicas. É um dos autores do espaço Cronetas no NR.

Novo espaço no NR: Cronetas

Cronetas é o nome do espaço criado no NR para, veja só, publicação de crônicas e contos. É uma sessão rotativa, voltada aos autores que gostam de rabiscar ideias nesse formato. Serve aos iniciantes e aos graduados, servirá aos consagrados, afinal, indicar a produção literária de grandes mestres é oferecer acesso a boa leitura ficcional. Por hora já temos o poeta e jornalista Fredo Sidarta e agora o segundo integrante, Henrique de Melo Sabines, mineiro, 30 anos, funcionário da ECT (Correios e Telégrafos) que se dedica à astronomia nos fins de semana. Fã de Drummond, começou a escrever por recomendações médicas. Então é isso, fique a vontade para sugerir seus contos e crônicas, divulgue este espaço e nos escreva (não se acanhe) para contato@notaderodape.com.br

quarta-feira, 14 de julho de 2010

El gato de Botero (Barcelona-ES, 2010)



Veruscka Girio é publicitária, designer, diretora de arte, produtora multimídia, videocenarista, vj e curiosa no processo do uso do computador como ferramenta de criação e produção artística para elaboração de novos mundos. Mantém a coluna de arte multimídia e interativa Astronauta Mecanico neste Nota de Rodapé.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Os desafios da Seleção Brasileira para a Copa de 2014

Muito bem gente, o ser humano é mesmo um bicho louco. Sempre reclamamos de alguma coisa. Se está frio é porque está frio; se está calor é porque está calor; se a Copa é na África, é porque as vuvuzelas enchem o saco, enfim, parece que nunca estamos satisfeitos. Antes mesmo do fim da Copa de 2010, as discussões sobre o mundial de 2014, aqui no Brasil, já eram enormes: onde será a abertura? São Paulo terá ou não um estádio na competição? Teremos capacidade de, em dois anos e meio, resolver os problemas de transporte e estrutura nas cidades-sede? (sim, em dois anos e meio, porque em 2013 já teremos a Copa das Confederações, uma prévia da Copa...) Todas essas dúvidas só serão respondidas na prática na época do mundial.
Mas depois de dois fiascos seguidos, o de Parreira em 2006 e o do time de Dunga agora, a grande dúvida na cabeça do torcedor é: quem será o novo técnico da Seleção Brasileira? Fala-se em Felipão, Muricy Ramalho, Vanderlei Luxemburgo, Mano Menezes, Ricardo Gomes, Leonardo e, até Zico, que enfrenta mais resistência na cúpula da CBF. Independentemente de quem for o escolhido, o novo treinador assumirá já sabendo da enorme responsabilidade que terá para reformular o time, dar chances aos jovens talentos como Paulo Henrique Ganso e Neymar, e conquistar o hexa em casa (um novo Maracanazo ou mesmo uma eliminação antes da final seriam catástrofes sem precedentes).
Analisando as declarações de Ricardo Teixeira, presidente da CBF, de que tudo terá de mudar, de novo, penso que além do dirigente fugir da responsabilidade por ter colocado Dunga, que nunca havia treinado sequer um time de pelada, para comandar a seleção, saímos atrás de muitas equipes na corrida pelo título em 2014. Depois da farra feita na Alemanha em 2006, uma reformulação foi feita: os jogadores mais talentosos ficaram de fora e os jogadores aplicados e obedientes foram para o pau, mas negaram fogo na hora mais importante. Não podemos dizer que nada prestou, mas deste grupo que esteve na África do Sul, eu acho que o zagueiro Thiago Silva, o lateral Daniel Alves e o volante Ramires são um dos poucos que terão chances de disputar a Copa no Brasil. Elano, Robinho, Nilmar e Luis Fabiano ainda podem sonhar, terão de reconquistar a confiança da torcida e, principalmente, do novo técnico. Kaká, para mim, encerrou a carreira na seleção com um balanço negativo: um gol marcado em três Copas disputadas e a marca de ser uma estrela que se esconde na hora da decisão. A defesa, que realmente era a melhor do mundo, já teve sua vez e não deve manter o mesmo nível técnico e físico por mais quatro anos. Nomes como Felipe Melo, Gilberto Silva, Josué, Júlio Batista, Kleberson e Grafite, com certeza estão fora. Se eu não citei de algum nome dos 23 que foram ao mundial, não foi por esquecimento, mas porque o cara nem mereceu ser citado.

Abandonar o militarismo
Resumindo e sendo bem otimista: teremos 4 jogadores com experiência de uma Copa no novo grupo. Isso é preocupante, já que até 2014 não teremos competições fortes que servirão de teste para a seleção. Um pré-olímpico, uma Olimpíada, duas Copas Américas, uma Copa das Confederações e um monte de amistosos inúteis. Se o projeto olímpico não atrapalhar o time principal, podemos usar o ciclo para entrosar o time. De resto, já ficou provado que ganhar Copas Américas e das Confederações não garantem títulos mundiais.
Outro motivo para sairmos atrás é que a Espanha, atual campeã europeia e mundial, a Holanda, a Alemanha, o Uruguai, Argentina e até Gana, já têm excelentes bases formadas com jogadores jovens e, agora, experientes em Copas do Mundo. Ou alguém acredita que nomes como David Villa, Fábregas, Özil, Müller, Suárez, Messi, Aguero, Gyan, entre outros que brilharam na África do Sul, vão estar fora da Copa de 2014?
Espero que quem assumir a Seleção Brasileira tenha uma visão de futebol moderno e ofensivo, como sempre foi a característica do Brasil. Espanha, Holanda e Alemanha chegaram onde chegaram em 2010 porque jogaram como o Brasil sempre jogou. Vamos resgatar nossa tradição e abandonar o militarismo imposto por Dunga.

O Mundo é da Fúria
Um pouco atrasado, parabenizo a Espanha pela inédita conquista. Uma seleção/time, que teve como base o Barcelona, campeão de tudo nos últimos anos, reforçado por talentos de Real Madri, Sevilla e outros times locais. Lembrando que do time campeão, apenas Fábregas e o goleiro reserva Pepe Reina jogam fora da Espanha. O futebol de toque de bola e movimentação intensa superou os favoritos e o trauma de sempre amarelar na hora H.
Agora, a grande homenagem eu faço ao goleiro Casillas. Criticado após a derrota na estreia para a Suíça e acusado de sofrer com a presença da bela namorada-jornalista atrás do gol espanhol, o camisa 1 do Real foi decisivo e fez defesas importantíssimas na campanha do título da Fúria. E ainda fez um golaço ao beijar a amada durante uma entrevista após a final. Quem não viu, veja:



É isso gente, vamos torcer pelo Brasil, sem ufanismo, mas confiantes na recuperação do futebol que encanta o mundo desde antes do nascimento de um tal Pelé.

Thiago Barbieri é jornalista; autor do livro sobre o Corinthians "23 anos em 7 segundos", editor do jornal Primeira Hora da Rádio Bandeirandes e colunista do Nota de Rodapé.

Na foto com quem chamou de “Ficha suja”

Joaquim Roriz (PSC) havia prometido cargos majoritários para meio mundo. Na hora de fechá-los, no entanto, as contas não batiam. Some isso a uma ferrenha disputa interna no Democratas (DEM), e temos que o partido resolve lançar candidatura própria nestas eleições.
Estava resolvido um dos grandes problemas da legenda, pois agora haveria vaga para todo mundo. Adelmir Santana, presidente regional do DEM depois de uma intervenção da direção nacional do partido, seria candidato a senador, como era de seu desejo. E o deputado federal Alberto Fraga seria o candidato ao governo pelo DEM.
Fraga é coronel aposentado da Polícia Militar. Deputado federal eleito com mais de 90 mil votos, a segunda maior votação do DF em 2006 – perdeu para Tadeu Filippelli, do PMDB, vice na chapa petista de Agnelo Queiroz ao GDF -, Fraga é típico representante da linha dura da polícia. Foi acusado de chefiar esquadrões da morte em Ceilândia. E ganhou notoriedade, virando uma figura folclórica, por dar declarações bombásticas.
Na recente rusga interna do partido, chamou dois dos grandes líderes do DEM, Osório Adriano e Adelmir Santana, de “a dupla Gagá e Sem Voto”. Osório tem mais de 80 anos e Adelmir assumiu sua cadeira no Senado como herança de Paulo Octávio, que saiu para ser vice-governador de José Roberto Arruda.
Pois na quinta-feira, 1 de julho, antes do prazo final para as inscrições de candidaturas, que iria até a terça seguinte, o DEM anuncia a candidatura própria, no que seria uma cunha entre a polarização chamada de Azuis x Vermelhos, ou seja, Roriz contra alguém do PT. O único que fugiu dessa regra foi Arruda, que se elegeu com o apoio de Roriz, que foi candidato ao Senado, pois já havia governado o DF por dois mandatos.

Sozinho o DEM não iria longe
Na mesma quinta-feira, entrevistei Fraga (na imagem). Ele disse que não se juntaria a “Ficha Suja”, se referindo a Roriz. Disse também que já estava quase certo o apoio do PPS. De fato, sozinho o DEM não iria longe e teria dificuldades de eleger até mesmo um deputado distrital. Pouco antes disso, eu havia falado com Adelmir Santana, confirmando a informação da candidatura própria. O senador afirmou que estavam em curso negociações com o PP e, eventualmente, até mesmo com o PTB.
No dia seguinte, os patinadores da areia vermelha dão um tremendo 180 graus. O PPS decidiu, em plano local, que não fecharia com o DEM. O problema é que a cola que une DEM e PPS Brasil afora tem plumas azuis e um grande bico. E aqui, em Brasília, já estava coladinho em Roriz. Fraga já havia soltado cobras e lagartos contra o PSDB e, principalmente, contra Maria de Lurdes Abadia, por ter se juntado a Roriz. Disse que a decisão havia sido unilateral da ex-governadora e insinuou questões “escusas” entre os dois, da época em que foram governador e vice. E feitas as contas, o PPS viu que estava na roça com o DEM e não elegeria ninguém. Desembarcou de mala e cuia na aliança PT-PMDB, mesmo com a cara feia do presidente nacional do partido, Roberto Freire.
O PP foi absolutamente pragmático. Viu que a candidatura do DEM estava fadada ao fracasso. Se percebeu equidistante de Roriz e PT. Colocou os números no papel e pesou onde teria mais vantagens. Roriz pagou mais e levou o partido. Mas Benedito Domingos, deputado distrital e presidente regional do PP, fez questão de ressaltar que guarda enormes convergências com o PT e que até seus filhos iriam fazer campanha para Agnelo Queiroz.
O PTB tem um cacique local que rende outro capítulo, mas adianto que Gim Argello queria se candidatar a senador. Ainda tem mais quatro anos, mas como era suplente de Roriz, temia que um dos muitos processos contra o ex-governador o fizesse perder o mandato, o que resultaria que ele também perderia seu mandato. Portanto, queria concorrer e ganhar, na atitude mais “fominha” que se poderia esperar. Mas a história de Gim, de fato, merece outro texto.
Então o DEM estava sozinho. Com uma candidatura sem nenhum outro partido grande, lançada aos 45 do segunda etapa e sem tempo de costurar apoios nem nada. Então, vemos outro enorme giro. O DEM resolve se juntar a Roriz. Fraga vira candidato ao Senado na chapa, e sai constrangido nas fotos para campanha com quem, uma semana antes, havia chamado de “ficha suja”. E mais, ainda teve que aguentar o ciúmes do PSDB, que perdeu espaço na aliança. O clima, de fato, não era dos melhores entre os amigos. Resta saber como será o resto da campanha e, mais ainda, como ficarão os aliados se a chapa fracassar.

Rodrigo Mendes de Almeida é jornalista e escreve a coluna Estação Brasília

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Futebol e política se misturam, sim

Sei que vou chover no molhado, mas não resisto. Há muita gente que insiste em dizer que futebol e política não se misturam. Bobagem, pois se misturam sim e muito bem misturadinho.
Há vários exemplos que ilustram o fato, mas vou ficar com dois deles, quanto a mim, bastante emblemáticos. O primeiro diz respeito ao tricampeonato mundial conquistado pelo Brasil em 1970, em plena ditadura civil militar, quando o governo de plantão incorporou a conquista do tri campeonato dentro do ufanismo reacionário do “Brasil: ame-o ou deixe-o”, sem falar que houve interferência de Brasília na destituição do técnico João Saldanha (que foi, afinal, quem montou o time vitorioso) por ter respondido ao presidente Médici que ele mandava no governo, mas na seleção de futebol mandava ele, Saldanha.
Na copa de 1978, a ditadura argentina – anfitriã do evento - comprou uma derrota da seleção de futebol peruana, fato já comprovado por entrevistas de alguns dos envolvidos e que possibilitou a classificação da própria Argentina, levando-a também a conquistar o título mundial em um momento negro na história do país irmão, quando desapareceram mais de 30 mil pessoas, vítimas de repressão e das perseguições políticas. Era preciso conquistar a copa mundial e “aliviar” as pressões internas.
Outros exemplos poderiam ser aqui citados, mas já não é mais segredo para ninguém que todo e qualquer assunto relativo às atividades humanas tem como objetivo a integração, o convívio social, seja em qualquer nível: ambiental, religioso, comercial, político, cultural, esportivo, educacional. Para essas atividades humanas no seu todo, convergem os mais variados interesses, muitos deles conflitantes. E a política, a polis, permeia tudo isso.
Se o futebol não se mistura com a política, como explicar, por exemplo, algumas infâmias promovidas por repórteres e comentaristas esportivos em relação à Argentina ou ao Paraguai, nossos vizinhos e irmãos latinos? Ou o preconceito e o viés ideológico não passam por essas “reportagens”? Qual o problema de Maradona ter uma tatuagem do Che Guevara e Fidel e ter feito tratamento contra drogas em Cuba? Por quê o deboche contra o Paraguai feito por uma equipe do Sportv? Dunga virou bandido por não ter permitido entrevistas exclusivas à Rede Goebells? A liberdade de imprensa tem mão única ou vale para todos os cidadãos de um país?
Quando Pelé disse que os brasileiros não sabiam votar, ele estava fazendo um gol de letra ou fazendo política? O mesmo Pelé, quando omite a questão do racismo no Brasil, jamais tendo feito uma declaração a respeito, está sendo o jogador ou o político? Quando âncoras e comentaristas esportivos achincalham pessoas e povos do alto de sua cultura, que mal cabe numa caixa de fósforos estão sendo preconceituosos em termos esportivos ou políticos também?
O dia a dia do futebol no Brasil, e me arrisco a dizer em todo o mundo futebolístico mistura e muito a política com o esporte. A tal ponto que reconhecem a necessidade de aproveitar o maior evento do futebol para campanhas como a do antirracismo, por exemplo. No que aliás, fizeram muito bem.
Para aqueles que, porventura, tenha dúvidas a respeito do tema, sugiro que leiam o livro do jornalista escocês Andy Dougan, publicado pela Jorge Zahar Editora, intitulado FUTEBOL & GUERRA, um livro maravilhoso que conta a tragédia do Dínamo de Kiev, na Ucrânia ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Izaías Almada é escritor, dramaturgo e colunista do NR.

Barcelona em festa antes, durante e depois
















Imagens da colunista do NR, Veruscka Girio (Astronauta Mecanico) diretamente de Barcelona, Espanha

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Pode o título mundial forjar uma identidade espanhola?

Morei na Espanha entre 2001 e 2002 e durante esse tempo, sem sucesso, tentei compreender o que é ser espanhol. Na véspera da Copa da Alemanha fui a Barcelona assistir a um amistoso entre a seleção brasileira e a catalã. No estádio, conversei com alguns torcedores e ouvi de um deles o seguinte: “Já que não estamos, torcerei para vocês [Brasil] na Copa”. Sem entender o comentário, retruquei: “Como não estão? A Espanha está classificada”. A resposta foi direta: “Sou catalão, não sou espanhol”.
Meses antes, em um trem que partia de Portugal para a Espanha, conheci um casal do País Basco. Ao apresentá-los como espanhóis a um português que viajava no mesmo vagão fui repreendido: “Somos bascos”.
Uma vez, caminhando pelas ruazinhas do centro histórico de Bilbao, me deparei com um cartaz que dizia (em inglês): “Turista, lembre-se: você não está na Espanha, está no País Basco”.
Em uma conversa com um amigo espanhol simpatizante da “causa separatista” perguntei se a Constituição já não garantia bastante liberdade (financeira e cultural) às comunidades. Sua resposta foi: “Imagine que você vive trancado em um quarto de uma casa. Depois de muitos anos, deixam você transitar por toda ela. No começo você fica feliz com a liberdade concedida, mas depois de um tempo sentirá falta de sair para conhecer o mundo.”

Só há uma nação?
Essas histórias dão uma pequena noção da divisão que há na Espanha. Hoje mesmo, dia 9 de julho, o Tribunal Constitucional tornou pública uma decisão sobre o Estatuto da Catalunha. “A Constituição não conhece outra que não a nação espanhola”, decidiram os magistrados, que também vetaram o dispositivo que colocava o catalão acima do espanhol como língua na comunidade autônoma – ambas são reconhecidas como “oficiais” pela constituição. Se o tribunal precisa dizer que há somente uma nação, a espanhola, é porque há quem defenda o contrário (e não são poucos).
A questão promete se arrastar. Na Catalunha acusam o tribunal de “enfraquecer” a Espanha com a decisão e cria problemas em vez de resolvê-los. Uma maior autonomia é tema frequente no também País Basco - como é sabido, por lá há grupos que defendem o separatismo.
Do outro lado do Atlântico e ao ver fotos da festa que se faz em toda a Espanha pela campanha da seleção na Copa passei a me questionar se uma possível conquista não serviria para forjar um sentimento de nação e, de certa forma, unir mais o país. Fiz essa pergunta a Miguel Ángel Bastenier, professor e ex-diretor de redação do jornal El País, e a Gerard Romero, jornalista esportivo em Barcelona. A resposta dos dois foi categórica: não.
Bastenier: "Sem dúvida, não faz mal algum ganhar um Mundial, mas seria muito otimismo acreditar que isso vá influenciar quem tem opinião formada sobre o tema. Além disso, uma vitória da seleção pode dar alguma alegria aos catalães já que a Espanha venceria como jogadores de sua comunidade, sobretudo. No entanto, houve já, especialmente na Catalunha, quem deixou claro que não se importava com o resultado ou, inclusive, torceu pela Alemanha. Para os nacionalistas radicais, é evidente, uma vitória da Espanha será uma chateação." 
Romero: "Uma vitória da Espanha no domingo não fará com que o povo catalão se sinta mais espanhol. Quiçá em parte, vejamos. Há um sentimento diferente este ano na Catalunha porque há sete jogadores da comunidade na seleção e as pessoas acreditam que esta seleção é o Barcelona. Seguramente isso pode unir um pouco. Só um pouco."
Ao ler as notícias do principal jornal esportivo da Catalunha durante a Copa entendo o que Bastenier e Romero dizem. Hoje, por exemplo, o destaque do Sport é: “Quatro jogadores do Barça [Xavi, Iniesta, Villa e Messi] na lista dos melhores da Copa”. Por que não três espanhóis? No dia da vitória da Espanha sobre a Alemanha, o fato de Puyol (catalão e jogador do Barça) ter feito o gol da vitória tinha mais destaque do que o triunfo em si.
Nem mesmo o fato de a seleção espanhola ser praticamente dividida entre os dois principais clubes do país (Barcelona e Real Madrid) parece que significará alguma coisa quando a bola deixar de rolar na África do Sul. Se no Brasil há um sentimento patriota meio besta que só surge de quatro em quatro anos, quando a amarelinha entra em campo, na Espanha, ao que tudo indica, nem mesmo um título mundial fará com que o país todo se una para celebrar.

Ricardo Viel é jornalista.

Coisas que irritam II

No dia a dia passamos por situações que nos tiram do sério. Sou do tipo, “Tolerância Menos Zero” e desde a primeira vez que escrevi “Coisas que irritam”, tantas outras aconteceram que mereciam uma segunda carga.

ESCADA ROLANTE COMO PLAYGROUND...
Por que os pais adoram brincar com crianças nas escadas rolantes? Não avisaram que isso é perigoso? E o pior é que eles ficam irritados quando nós (que não usamos a escada rolante como playground) queremos apenas chegar são e salvos até o final da dela. ‘Melhor ainda’ é quando a criança cisma em não andar bem no final da escada, e claro, é a gente que está logo atrás a imaginar a desgraça.

…E PONTO DE BATE PAPO
Continuo insistindo que deixar o lado esquerdo livre é uma regra de boa conduta e de bom senso. Amigas que ficam fofocando na escada, famílias inteiras papeando, pessoas que adoram colocar suas sacolas e mochilas sentadinhas nos degraus. E você, que está atrasado ou que está simplesmente com pressa, não consegue passar.

O SEGURO NUNCA TE ATENDE QUANDO VOCÊ PRECISA
Vocês já repararam que pagamos o seguro residencial por um ano e usamos uma ou duas vezes no máximo? E nessas poucas vezes o seguro nunca cobre o que você precisa? Vazamento na pia cozinha: “Senhora, desculpe, mas o seguro não cobre troca de sifão” Troca de resistência do chuveiro: “Senhora, desculpe, mas se for problema no chuveiro, nós não cobrimos o reparo, apenas problemas na fiação da casa”. E a troca do chuveiro: “O serviço é cobrado a parte senhora”.

INFRAÇÕES DA TERCEIRA IDADE
Perguntas sem respostas. Vocês podem me ajudar? - Por que idosos adoram atravessar fora da faixa, devagar e com o farol fechado para eles? - Por que os idosos sempre estão com pressa? - Por que os idosos sentam no banco marrom do metrô, quando o banco reservado para eles está vazio? - Por que alguns idosos não pedem licença para passar?

EM DEFESA DA TERCEIRA IDADE
Já reparou que algumas pessoas sentem um sono incontrolável no transporte público logo que um idoso se aproxima? Vi gente jovem, saudável, feliz e mal educada sentar no banco reservado na maior cara de pau, enquanto o idoso estava lá, de pé. Irritante! O pior são as situações em que idosos em pé, em plena hora do rush, são empurrados, mal tratados enquanto as pessoas que estão sentadas no banco marrom não se sentem no dever de ceder seus lugares só porque não estão no banco reservado. Educação independe de cor de banco. Essa lei só foi feita, porque sem ela, infelizmente a boa educação, e o bom senso, não seriam suficientes.

VIZINHOS PRECIOSOS!
Vizinhos: você ama ou odeia. Não tem meio termo. Seus vizinhos jogam todas as sujeiras no portão? Seus vizinhos adolescentes passam o dia todo jogando futebol e fazem o seu portão de Gol? Seus vizinhos ficam conversando no seu portão a qualquer hora? Seus vizinhos ficam ouvindo funk no celular no alto falante na frente da janela do seu quarto? Seus vizinhos adoram falar os mais variados tipos de palavrões bem debaixo da sua janela? Se todas as respostas acima foram afirmativas, parabéns, seja bem-vindo ao mesmo clube que o meu!

A LEI DE MURPHY E A INFRAERO
Estava no Rio de Janeiro e o vôo estava marcado para 9h 40 da manhã. Mas, havia a opção de adiantar o vôo para 9h 10. Melhor ainda, porque o dia em São Paulo seria bem cheio. Adiantei a passagem e após 30 minutos de vôo o comandante diz: “Vamos sobrevoar a cidade de Ilhabela por cerca de 20 minutos até que a Infraero termine a vistoria na pista do aeroporto de Congonhas. Conclusão? Cheguei na mesma hora.

A LEI DE MURPHY E O ELETRICISTA
Chuveiro queimou e não dá para tomar banho de caneca. Chamei o eletricista. Minutos antes de o eletricista chegar a Eletropaulo precisou fazer manutenção em alguns bairros. Fiquei horas sem energia e o problema só foi solucionado horas e horas depois.

Fabiana Cardoso é jornalista e produtora e mantém a coluna Penetra Oficial neste Nota de Rodapé.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Futebol, política e cachaça em 15 de julho

Causos e ditados do Brasil sobre a “marvada” e sua influência na política e no futebol. Com Mouzar Benedito e o amigo Anselmo Massad, na quinta-feira que vem, 15 de julho, às 19h na Biblioteca de São Paulo, no Parque da Juventude, avenida Cruzeiro do Sul, 2630 em Santana. Segundo o próprio Anselmo “a ideia é um bate-bapo sobre as relações entre a cachaça, o ludopédio e o universo da política. Das trágicas como a do garrincha, às recentes, de jogadores que são cachaças sem tomar cachaça.”

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sala de Cinema entrevista Silvio Tendler

Amanhã, 8/07, às 22h, Miguel de Almeida entrevista Silvio Tendler, cineasta documentarista autor de registros dos principais acontecimentos da história política do Brasil em filmes como "Os Anos JK - Uma Trajetória Política" (1980); "Jango" (1984) e "Utopia e Barbárie" (2005), entre outros. A exibição faz parte da série Sala de Cinema, do SESCTV e esse que vos escreve participou como entrevistador. A entrevista foi no ano passado - novembro, se não me engano - quando Tendler tinha lançado seu último filme, Utopia e Barbárie. Eu ainda estava na Revista do Brasil quando fui convidado a participar da entrevista. O vídeo abaixo explica a dinâmica do programa. Fica a dica!

ATENÇÃO PARA AS REPRISES:
09/07/2010 : 02h00 : sexta-feira
10/07/2010 : 20h00 : sábado
11/07/2010 : 04h00 : domingo
11/07/2010 : 17h00 : domingo
12/07/2010 : 00h00 : segunda-feira

PARA SINTONIZAR O SESCTV
Canal 3, da Sky.
Nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro
Canal 137, da NET Digital
Em outras cidades consulte: www.sesctv.org.br




Thiago Domenici, jornalista

6.700 cabeças de gado do candidato Roriz

Roriz é candidato
Até agora, o medo do Ficha Limpa não se mostrou fundamentado. Quem tem amigos tem tudo, e Roriz é candidato com tudo, inclusive nove partidos que confiaram que o ex-governador não terá sua candidatura impugnada pela justiça eleitoral. Alguns partidos tiveram medo de se juntar a uma campanha que ficaria pendurada em idas e vindas da justiça, como o PSDB, o DEM e o PR. Mas algo, no meio do caminho, deu um sopro de motivação e confiança, fazendo com que esses partidos apostassem todas as suas fichas na velha Raposa da Política do Cerrado.

Lavô tá novo
O efeito Gilmar Mendes pode ser um dos fatores para essa confiança extra. Parece que o ministro entende por Ficha Limpa uma versão mais branda, chamada Ficha Lavô Tá Novo. Ele deu autorização para amigos seus, que se enquadram perfeitamente nos critérios de inelegibilidade previstos pela lei, concorrerem nessas eleições. Simples assim

Quem tem amigos...
… como Gilmar Mendes sabe que ele é um para se guardar do lado esquerdo do peito. Amigão de verdade. Daniel Dantas que o diga.

Patrimônio Menor
Na eleição passada, quando concorreu e ganhou uma vaga ao Senado, Roriz declarou patrimônio de cerca de cinco milhões de reais. Os mais desconfiados estranharam, pois o fazendeiro tem uma fortuna enorme, acumulada ao longo de décadas. E qual não foi a surpresa quando, esse ano, a declaração de Roriz chegou em cerca de um milhão de reais. Agnelo Queiroz, modesto ex-ministro e ex-PCdoB, declarou valor 38 mil reais maior que Roriz. No dia 7, os advogados de Roriz enviaram uma retificação, dizendo que a Justiça Eleitoral havia deixado de contabilizar cerca de 6.700 cabelas de gado. Com a boiada, o patrimônio de Roriz fica pouco acima de cinco milhões de reais. Até o Ministério Público estava desconfiado.

Rodrigo Mendes de Almeida é jornalista e mantém no NR a coluna Estação Brasília

No Nepal, quase presa, fumando o haxixe do Sadam

“- De onde você conhece esses dois?” – me perguntou, em inglês o comandante. Eu de pé, com a latinha de cerveja Everest na mão, olhei para os dois meninos sentados na escada e respondi: “- De um vilarejo, quando cheguei à Kathmandu, dois dias atrás.” Eu estava mentindo. Conheci Sadam num tour por um vilarejo pouco distante da capital do Nepal, chamado Bhaktapur. Conversamos muito quando eu lhe disse que era brasileira. Apaixonado por futebol e um curioso pelo Brasil, fez diversas perguntas sobre modo de vida, clima, praias. Falamos sobre minha viagem, falei que no dia seguinte iria embora e contei sobre minha experiência com o Bhang na Índia. Prontamente, ele me ofereceu o haxixe nepali. Apesar de proibido, no vilarejo de agricultores onde mora Sadam eles cultivam e fumam e a polícia nunca vai lá.
Anotei meus contatos e combinamos de sair naquela noite pra experimentar a iguaria local. Apesar de me sentir segura em relação à Sadam, por precaução, deixei passaporte e dinheiro no hotel. Levei somente o cartão de identificação do seguro e a chave do quarto. Quando ele chegou, me apresentou um amigo e rapidamente decidimos aonde ir. Avisei a recepcionista que ia sair e deixei com ela o número do meu quarto. Pegamos um táxi na porta do hotel, avisei que estava sem dinheiro e eles se ofereceram para pagar. Descemos numa praça, alguns templos e muitas pessoas. A lua cheia brilhava e algumas vacas passeavam pelo calçadão.
Subimos o templo e, sentados na escada, fumamos dois cigarros do mais puro haxixe do Nepal. Ele me perguntou se eu queria mais, eu disse que não e ele avisou que estava na bolsa, pra quando eu quisesse. O outro rapaz desceu para comprar umas cervejas, voltou com três latinhas e algumas salsichas.
Estávamos ali há poucos minutos e eu sentia o efeito do haxixe bater enquanto conseguia a proeza de contar uma piada em inglês, quando avistei um sujeito fardado vindo em nossa direção. Percebi que os meninos ficaram tensos, o guarda chegou falando com eles em nepali, pegou uma das latinhas, confirmou que era cerveja, olhou pra mim, de pé, estática, com cerveja e cigarro na mão, e ficou puto. Eles começaram a discutir, Sadam do meu lado tentava me tranquilizar.

Qual era a bronca?
Eu estava nervosa, não entendia qual era a bronca. Tentei argumentar com o policial e comecei a conversa perguntando se ele falava inglês. A resposta veio num inglês perfeito: “I don’t speak english”. Na hora, só consegui pensar que ele me entenderia se eu falasse e comecei a argumentar.
Disse que era turista, brasileira, estava com um grupo num hotel cinco estrelas de Kathmandu. Expliquei que aquela era minha última noite na cidade, estaria encerrando minha viagem e nós só queríamos comemorar. No ar do haxixe, devo ter dito que a lua estava linda, e o oficial me cortou num inglês que ele disse que não falava, dizendo que eu não tinha culpa porque eu era turista e não sabia, mas tomar cerveja no templo não era permitido. Os meninos sabiam disso e por isso estavam encrencados.
No fundo, eu sentia que o policial queria dinheiro. Ele me tratava, além de eu ser turista, achava que eu tinha alguma coisa. Em algum momento perguntou se eu tinha dinheiro para um táxi. Disse que não. Fomos escoltados templo abaixo até o meio da praça, onde uma concentração de policiais já tinha se formado. Sadam ao meu lado ia traduzindo parte da conversa. Quando me virei para falar com Sadam, ouvi um estalo. Olhei para o nosso amigo e ele estava no meio de cinco policiais com a mão na cabeça. O oficial que havia conversado comigo, crescia com uma mão para cima enquanto a outra segurava o cacetete atrás das costas.

Me mandaram subir na van
Sem pensar duas vezes, pedi que parasse, aquilo não resolveria nada. Sugeri que fôssemos ao meu hotel pegar meu passaporte, tomar as providências necessárias, mas não adiantou. Ele falou suavemente que eu voltaria para o meu hotel sem problemas, mas que os meninos o acompanhariam até seu escritório. Quando a viatura chegou, tomei um susto. Era uma van preta, com o inscrito da Polícia do Nepal na frente, em branco. As janelas, insufilmadas e gradeadas. Certamente, blindada, o mesmo tipo de veículo utilizado para fazer transporte de presos. Achei que me colocariam num táxi e dali eu voltaria para o hotel. Me mandaram subir na van. Confusa, confirmei. Mandaram de novo. Lá dentro, uma única policial feminina já me aguardava com um lugar reservado ao seu lado. Sentei, ainda a latinha na mão. Subimos por uma rua, viramos outra, paramos no farol. Me virei para a policial e perguntei: “O que acontece agora?”. Ela se virou, sorriu e respondeu em inglês: “Vamos cumprir a lei.”. Eu gelei.
Respirei fundo e me mantive respirando para enfrentar o que quer que viesse a acontecer. Entramos numa pequena rua à esquerda e dobramos a direita. Paramos, nos mandaram descer. Quinze policiais em volta, olhei e me vi num beco. Os meninos estavam sentados na pequena escada do último prédio da ruazinha sem saída quase sem luz.
Por um momento entrei em pânico. Fiquei ali por uns segundos tentando racionalizar o que fazer e decidi tentar abrir a boca. O que saiu, foi um simpático inglês engasgado para o guarda do meu lado: “Posso voltar pro meu hotel?”. Ele olhou calmamente pra mim, quase deu um sorriso e disse: “I don’t understand what you said.”. Senti o sadismo e mantive o olhar nele.
Ele continuou me olhando e finalmente perguntou de onde eu era. Respondi que era brasileira e ele me disse que não podia me autorizar a ir embora. Tive que falar com o comandante, que naquele momento dava bronca nos meninos. Quando me aproximei, pedi licença e fiz a mesma pergunta que havia feito para o guarda. Depois de me perguntar de onde eu conhecia os meninos, me olhou em silêncio por alguns segundos e me respondeu: “A Sra. está no Nepal e este é um país livre. A senhora pode ir embora quando quiser.” Perguntei se eu podia pegar minha bolsa que estava com Sadam e ele consentiu.

Acordei com o som do telefone
O outro rapaz me deu praticamente todo o dinheiro que ele tinha para que eu pegasse um táxi de volta para o hotel. Saí dali, desci a rua e virei à esquerda. Dei de frente com a van preta que havia nos deixado ali. Do lado de fora, a policial que me escoltou na viagem me deu boa noite. Não respondi, desci direto e entrei no primeiro táxi que encontrei. Já de volta ao meu quarto no hotel, tomada pela badtrip de não saber o que ia acontecer com eles, abri a bolsa de Sadam. Me lembrava que ele tinha dito que o resto do haxixe estava lá dentro, não podia deixar a bolsa com ele. Achei também uns recibos de pagamento de uma associação de artesãos. Foi dele que comprei uma flauta em madeira de Sândalo, naquela mesma tarde. Decidi esperar um pouco. Conforme as horas passavam, eu ficava mais nervosa e, apesar de ter sono, não conseguia dormir. Escrevi um bilhete para Sadam, com meus contatos no Brasil, desejando-lhe boa sorte e anexando 10 dólares, quantia equivalente ao que eles haviam me emprestado. Na pior das hipóteses, deixaria na recepção do hotel na manhã seguinte quando fosse embora. Lá pelas tantas da madrugada, fumei o último haxixe e dormi.
Acordei às 6h20 com o som do telefone, que imediatamente atendi. A recepcionista me avisava que um dos meus amigos estava lá embaixo. Avisei que desceria em 5 minutos, me vesti e peguei a bolsa. No hall, encontrei o amigo de Sadam, o abracei e fomos para fora fumar um cigarro. Ele me contou que apanharam um pouco e que Sadam ficaria preso até notificarem a família dele. Avisei-lhe dos 10 dólares, pedi que entregasse o bilhete e subi para me arrumar para o vôo que teria em breve. Chateada e ainda pensando que a noite terminara bem mal, quase meia hora depois, ouço novamente o telefone. A voz de Sadam do outro lado da linha me pedia para descer, estava no hall.
Desci, fumamos, conversamos, ele me deu um pingente de boa sorte e nos despedimos. Ganhei um amigo que, por mais que eu nunca mais veja, vai ficar na minha memória. Durante o vôo de volta pra Delhi, depois de ver o Himalaia da minha janela, a ressaca do haxixe me ajudou a dormir. E o único registro que ficou dessa história foi a foto que tirei com Sadam quando o conheci.

Cylene Dworzak, jornalista, esteve no Nepal em novembro de 2009, especialmente para o Nota de Rodapé
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