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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 16 de julho de 2014

A outra pátria em chuteiras


por Mariana Camaroti, de Buenos Aires

Engana-se piamente o cidadão que crê que o Brasil é a única nação em que o futebol é a comida de um povo e onde a Copa do Mundo é vivida de maneira transcendental, como os dias de momo. Piamente. O futebol está para a Argentina como a praia está para o carioca; mas existe ali algo mais. E eu diria que é o tango – este lamento típico dos hermanos – que faz com que eles saibam sofrer remoendo amores – neste caso, ídolos – do passado. E aceitar o sofrimento como parte do amor. Para mim, isso explica por que futebol e argentino nasceram um para o outro. O país que pariu Ernesto Che Guevara, San Martín e Evita Perón e que tem como maior ídolo – ou melhor, deus – Diego Armando Maradona não pode ser subestimado quando de chuteiras se fala.

Era o meu terceiro Mundial no país vizinho desde que para lá me mudei, casei, comprei casa, descobri livros e tive filhos; mas este ano, quando pendurei as bandeiras alvo e celeste e a verde e amarela na minha janela, foi diferente. Sem que eu me desse conta, havia crescido dentro de mim um sentimento de pertencimento que jamais sentira. E isso não tem só a ver com meu marido argentino, mas também com a minha história com o portenho, com o saber e poder viver – bem – ali mantendo as minhas raízes.

Já no primeiro jogo, aceitei com naturalidade torcer com quase a mesma intensidade do que torcia para a canarinha. E olhe que eu odeio Maradona e não sou fã de tango. Mas a admiração deles pelo Brasil e como almejam ser como os brasileiros me toca sempre.

Mas bem, a bola começou a rolar e, em dia de partidas da Argentina, eu vestia celeste e branco, afirmava a torto e a direito que torcia por eles, como um invasor que tenta ganhar confiança do colono. Mas não, eu havia me tornado uma verdadeira torcedora de Messi, Mascherano, Higuaín e Lavezzi. E, mais tarde, de Romero. Aprendi os nomes como no campeonato de 1994, sabia quase de cór. Nem ideia de esquema tático e muito menos quem estava no grupo da Argentina. Mas a paixão me movia. E eu sei por quê. A Copa era no Brasil, o meu país, e torcer pelas duas seleções era confirmar a minha paixão pelas minhas duas casas. Como se isso reduzisse a distância.

Era lindo ver as crianças vestindo acessórios para ir ao colégio do início ao final da Copa, bandeirinhas nos carros, bandeiras desbotadas nos balcões e uma infinidade de propagandas que reafirmavam o amor pela pátria e sua independência em momentos de alta inflação e possibilidade de novo calote da dívida. Quando vi David Luiz soluçar dizendo que o povo sofrido brasileiro merecia o título, meu compadecimento se estendeu aos argentinos. Também mereciam. Vê-los cantar aquele hino sem graça como um grito de guerra, sem letra, só com urros, me tocava.

Além de mexer com a fantasia que o argentino cultiva do que vem a ser o paraíso, ter o Brasil como sede do Mundial despertou pelo menos dois sentimentos: 1. É logo ali, vamos ocupar o território tupiniquim; 2. Inveja de não sermos nós os anfitriões. Para os hermanos, o Brasil é a nação em que tudo deu certo e que, quando não dá, se sabe levar com a alegria. Invejam essa – para eles – qualidade nobre do povo brasileiro.

A torcida argentina foi invadindo o país sede à medida que sua seleção avançava. E veio o terceiro e mais forte sentimento, aquele de humilhar o Brasil na sua própria casa. A rivalidade, que se restringe apenas ao futebol, claro está, incomodava cada vez que os argentinos cantarolavam sem vergonha perguntando ao Brasil o que se sente; e cada vez que os brasileiros torciam pelo rival da seleção alvo e celeste, até mesmo quando este foi o Irã. E tudo foi potencializado pela imprensa e pelas redes sociais.

As duas seleções progrediram. Perdemos de 7x1 e ficamos em quarto com um país se sentindo humilhado; eles chegaram a segundo e, ainda que feridos, tiveram sua paixão pelo futebol enaltecida, renovada. E eu nunca entendi de onde vem essa rivalidade. Será a minha compaixão, sentimento de pertencimento ou será o meu marido. Mas desconfio que é o meu espírito de atleta que ainda me faz admirar quem joga com raça e paixão.

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Mariana Camaroti, jornalista, mudou-se pra Buenos Aires depois de se apaixonar por um argentino; mãe de dois argentinos, torcedores do Boca Juniors como o pai, e amante das livrarias portenhas. Texto escrito especialmente para o Nota de Rodapé

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Maratona étnica

por Carlos Conte*

Ainda estou tentando entender o que aconteceu na semifinal contra a Alemanha. De vez em quando tenho um pesadelo. Sonho com gols adversários. São como fantasmas. Como o garotinho do filme “Sexto sentido”, eu digo “Vejo gols da Alemanha...”. “Com que frequência, Carlos?”. “Todos os dias!”. Para driblar o trauma, tento esquecer. Vim para a Chapada Diamantina, na Bahia, de onde escrevo esta crônica. Para mim, a Copa do Mundo acabou depois dos 7 X1. Para alguns, ela nem deveria ter começado.

Apesar da goleada humilhante, vou falar da Copa pela última vez.

Primeira fase. Meu espírito ainda dividido: #nãovaitercopa X #vaitercopa. Tinha que ter escrito dois textos durante a semana, mas não deu: fiquei vidrado na TV vendo e revendo lances dos primeiros jogos.

Bateu o desespero! Cheio de trabalho, mais apertado que saco de cantor sertanejo, mas nem um pouco a fim de trabalhar. Ainda mais quando o Gongom me ligou perguntando se eu queria assistir ao jogo da Itália no Bexiga e, na sequência, ver o Japão na Liberdade. Lógico! Copa do mundo: maratona étnica em São Paulo! Bem melhor que Fun Fest da FIFA no Anhangabaú.

Quando desci do carro na 13 de maio, um menino veio perguntar se eu era italiano: como ia ver a Itália no Bexiga, pus minha velha boina do Pezzutti, uma camisa da Azzurra e um lenço vermelho no pescoço (será que italiano usa lenço vermelho?...); sei lá, resolvi me fantasiar. Até então só tinha acompanhado a Copa pela TV. E a TV mostrava uma Copa carnavalesca. Torcedores/foliões indo ao estádio fantasiados: mexicanos de sombrero, ingleses de cavaleiros templários, alemães à la Oktoberfest... Um desfile de estereótipos ao qual eu aderi ingenuamente, achando que no Bexiga eu encontraria meus pares. 13 de maio vazia... Portas fechadas, janelas fechadas. Um ou outro boteco aberto, mas tudo vazio. Respondi pro menino cantando a Tarantela e saí andando, me sentindo o Peppino di Capri.

Claro que não havia nenhum italiano no Bexiga! O Bexiga, hoje, vive da fama, nada mais. É o que dá grana pras cantinas da Dom Orione. Anos atrás, durante uma rifa na festa italiana de N. Sra. Achiropita, o mestre de cerimônias começou a fazer aquelas piadas sem graça para ocupar o tempo: “Quem aqui é italiano?”. Ninguém levantou a mão. “Quem é filho de italiano?”. Um ou outro levantou a mão. “Neto?...”. Vários. “Bisnetos?...”. Muitos levantaram a mão, inclusive eu. “Tataranetos?...”. Grande maioria. “E agora levanta a mão quem é descendente de japonês... Vocês vieram na festa errada!”. Gargalhada geral. Achei a piada besta, mas dei risada.

Na rua Santo Antônio, fomos ao Bar do Amigo Giannotti, a melhor fogazza de São Paulo! Portas fechadas. O Giannotti é genial mas imprevisível. O bar funciona de acordo com o estado de espírito do dono. Às vezes abre de segunda. Às vezes antes das 20h. Às vezes simplesmente nem abre. E não tem conversa. Uma amiga que morava no Bexiga, a Ciça, quis fazer uma festa de aniversário no Giannotti e ligou para fazer as reservas: o Amigo, pouco amigo, respondeu que não gosta de festas – muita gente, muito barulho... “Que medo de ganhar dinheiro, Giannotti!”, a Ciça bateu o telefone.

Em busca de alguma coisa italiana, entramos numa cantina, fugindo do glamour caríssimo da 13 de maio, e vimos Itália X Inglaterra tomando vinho nacional a 50 reais e comendo azeitonas pretas e uma gororoba sem gosto que atendia pelo nome de antepasto de berinjela, bem diferente do antepasto que o finado Giovanni servia num casarão na Brigadeiro Luis Antônio onde hoje funciona mais um estacionamento. Pra fazer jus à fama do bairro, decorações em verde, vermelho e branco, quadros de praias da Sicilia e um cardápio bilíngue. Tinha uma família animada perto da gente que torcia gritando “Que cazzo! Porca miséria! Avanti, Itália!”, pelo menos alguma coisa para alegrar o ambiente, que estava bem desanimado. A Itália ganhou, mas saímos frustrados.

Segunda parada: Liberdade. Talvez estivéssemos mal informados, porque custou a achar algum movimento. O jogo começaria às 22h, Japão X Costa do Marfim, duelo pouco atrativo, mas o futebol era apenas um pretexto para encontrar japoneses animados e salvar a nossa peregrinação étnica pela cidade. Nada de novo no Largo da Pólvora. A velha Liberdade com suas lâmpadas japonesas, fachadas japonesas, ideogramas, gatinhos com a pata levantada e budas de louça, mas nenhum japonês na rua pra contar a história. Na rua da Galvão Bueno, o karaokê estava lotado, fila para entrar, segurança na porta exigindo comandas, e ninguém com cara de quem ia assistir ao jogo. Fomos ao restaurante Samurai na rua da Glória, mas se fôssemos ver o jogo lá, só de cerveja teríamos que deixar as calças. Fiquei tomando uma latinha na porta e conversando com o manobrista. Ele me contou com orgulho que é amigo do brasileiro que venceu o maior concurso televisivo de karaokê do Japão. Isso deu notícia no Brasil: um brasileiro, mulato, fazendo sucesso na terra do sol nascente. Perguntou se eu queria ver uma foto deles juntos, querendo provar que estava falando a verdade. “Tudo bem”, eu disse. Mas demorou tanto pra encontrar a tal foto no celular que acabei desistindo. “Fica pra uma próxima!...”.

Pra não perder o começo do jogo, paramos num boteco qualquer, desses botecos pasteurizados que vêm dominando a cena em São Paulo, substituindo os velhos balcões de madeira. No fundo do bar, a TV mostrava as duas seleções perfiladas, enquanto tocava o hino nacional do Japão. Havia dois homens conversando no balcão, além do dono do bar, distraído com um bolo de notas fiscais. Na mesa ao lado, dois japoneses! Tínhamos ido à Liberdade por causa deles. Mas aqueles dois não queriam nada com a Copa. Clubbers, provavelmente sanseis, de costas para a TV, faziam o esquenta para a baladinha da noite, tomando vodca com energético. Conversavam em português. Riam como japoneses.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

domingo, 13 de julho de 2014

Ainda bem que tivemos “los ticos”!


por Aleksander Aguilar*

Ah, Costa Rica! O que teria sido de nós, brasileiros, nesta Copa sem ti. Pensar na tua história neste Mundial, especialmente depois do trauma do Brasil na semifinal “Mineiraço”, é um alento e uma inusitada forma de olhar a toda nuestra América. Exemplo, sim, que futebol mistura-se com política, que só aumentou o imprevisto, mas merecido, reconhecimento da tua seleção por parte desta “impávida” nação sul-americana – e por extensão do teu país, e por ampliação de toda a região da América Central.

Para mim, filho de salvadorenho, a Costa Rica era, sim, a América Central no Mundial! Admito que cada vez que eu ouvia a massa gritar em coro, meu orgulho centro-americano silenciosamente se manifestava: "¡oé-oé-oé-oé, ticos, ticoooos!". Eram os anfitriões, nas ruas durante as partidas costarriquenhas, entoando o nome, com tanta empolgação e carinho quanto com sotaque brasileiro, que para eles é o apelido da seleção costarriquenha – a equipe de um país da América Central! Mas não, não, compatriotas. Ticos é um gentilício coloquial para todo o povo da Costa Rica, algo que ocorre com vários países centro-americanos. Os hondurenhos são os Catrachos, os salvadorenhos são os Guanacos, os guatemaltecos são os Chapines, e cada um desses apelidos possui uma explicação sociohistórica.

Quem no Brasil, além de um grupo muito específico como aqueles que estudamos esta região quase invisível do mapa-mundi, saberia disso ou se importaria? No Brasil, nação onde a paixão por futebol não é apenas um simples cliché, a seleção desse país centro-americano tornou-se um xodó nesta Copa, pelo incontestável brilhantismo do seu desempenho, deixando o campeonato de forma invicta após enfrentar, e vencer a maioria, grandes potências do esporte mais popular do planeta. Ao derrotar Uruguai e Itália, empatar com Inglaterra, eliminar a Grécia e levar a Holanda para a decisão nos pênaltis numa quarta-de-final, a imprensa mundial aborrecidamente insistiu que ninguém imaginava que a seleção deste pequeno e “exótico” país iria tão longe num campeonato de grandes potências esportivas. E para a maioria da mídia aqui no Brasil, o importante era justamente esse feito. E só. Ao ponto de para muitos a Costa Rica ser uma seleção “caribenha” (afinal, América Central e Caribe é tudo igual, tudo perto por ali no mapa...)

Ocorre que o significado da participação da Costa Rica neste Mundial nunca fez tão evidente a oposição ao adágio popular de que política e futebol não se discutem. Na América Latina discutem-se, inclusive e de preferência, conjuntamente. Importa mesmo é constatar que importantes meios de comunicação no Brasil destacam de repente a história e os índices de desenvolvimento deste país da América Central. Surpresa mesmo, e satisfação, é ver os brasileiros pela primeira vez curiosos com fatos como a Costa Rica não ter exército (mais de 60 anos de sua extinção) mas ter um ganhador do Prêmio Nobel. O Brasil, via futebol, desenvolveu quase sem querer um sentimento de latino-americanidade, expresso neste caso precisamente pela invisibilizada região centro-americana, e demonstra ter mais interesse em saber quem são esses países do istmo.

Muito futebol, muita política

E por isso o atual futebol da Costa Rica fez-se uma dupla metáfora nessa fronteira futebol/política: enfeixa por um lado o paralelo das relações geopolíticas centro-periferia no mundo com o das disputas dos grandes atores globais do futebol no contexto – quadrado – dos meganegócios desse esporte na globalização hipercapitalista; e por outro o paralelo dos imbricados debates entre nacionalismos e identidade nacional com a questão da integração regional centro-americana e a projeção internacional dessa região.

A Costa Rica é um país da América Central. E enquanto através desse momentum no esporte demarcou para si mesmo uma janela de visibilidade e presença nas cartografias geopolíticas desse mundo cada vez mais multipolar – em que a articulação entre países do chamado Sul Global torna-se uma via para um sistema internacional mais igualitário – trouxe a reboque para uma pequena, mas importante, vitrine toda a região deste istmo socialmente convulsionado. Aos poucos, os centro-americanos passaram a ver o país Tico, que deixava mais e mais potências esportivas boquiabertas, como um representante de todos, permitindo o mundo ver que nem só de terremotos e guerras civis vive uma região. Devagar, porque, claro, internamente na América Central há rivalidades, ranços, já que historicamente as relações no istmo viram-se em altos e baixos, com divisões por conflitos políticos e limítrofes.

Entende-se. Em nome de uma suposta identidade regional, um gaúcho colorado torceria para o Grêmio durante uma Libertadores, e vice-versa? Um pernambucano torcedor do Sport apoiaria o Náutico num campeonato brasileiro, e vice –versa? De sociologia do futebol deixa-se para os especialistas, mas não se pode negar a força desse esporte em todo o continente como fator de unidade. No caso da Costa Rica, o país verdadeiramente possui diferenças enquanto Estado democrático de direito bem marcadas de vizinhos como os do chamado grupo CA-4. El Salvador, Nicarágua, Guatemala e Honduras, o que coloca o próprio debate sobre centro-americanidade e integração regional do istmo como questão.

A América Central hoje

Designada por uma espécie de destino geográfico, uma das especificidades da América Central no contexto latino-americano é justamente a de uma região de trânsito entre os dois oceanos, posição que marcou sua história sociopolítica no passado e lhe influencia no presente, dando-lhe peso geopolítico e características identitárias que a colocam em condições particulares para converter-se em um âmbito que merece análise especifico. Mesmo na América Latina, contudo, esse istmo é frequentemente abordado de forma marginal ou omissa, tangencial ou superficialmente, deixando-se de tratar, precisamente, seus singulares problemas e especificidade sociopolítica no continente. É a situação que levou o crítico literário guatelmateco Arturo Arias a caracterizá-la como “una región marginal dentro de la marginalidad”.

A chamada América Central, a que o poeta Pablo Neruda denominou “la dulce cintura de América” tem pouco mais de 500 mil km² (o Brasil sozinho tem mais de oito milhões de km²) abrigam sete Estados – (Belize, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá) com uma população de quase 50 milhões de habitantes. Atualmente, cerca de 47% dos centro-americanos vivem em condição de pobreza e 18.6% em pobreza extrema. Mais de quatro milhões de centro-americanos e descendentes moram fora do istmo, especialmente nos Estados Unidos. Ditos emigrantes enviam anualmente cerca de US$ 13 bilhões aos seus familiares nos países de origem, o que no caso de El Salvador, por exemplo, chega representar 17% do total do PIB do país.

Ao longo da história centro-americana, e depois da declaração de independência em 1821, o tema da integração regional – primeiro em suas manifestações unionistas e mais tarde nos esquemas comerciais, econômicos, políticos e institucionais – tem sido uma constante. No entanto, nas últimas décadas, especialmente depois do estabelecimento do Sistema de la Integración Centroamericana (SICA), em 1991, o interesse pelo processo integracionista aumentou e tem chamado a atenção de um número crescente de setores sociopolíticos e econômicos no istmo. Hoje a violência e as migrações, conforme entende o acadêmico da Guatemala radicado na Costa Rica, Rafael Cueva Molina, são grandes e poderosos traços que caracterizam a região e que tem como uma de suas causas primordiais as guerras civis dos anos 1980, embora certamente não a única. As guerras civis centro-americanas conformam uma fase arrebatadora da história sociopolítica do istmo cujas consequências constituíram-se como o principal marco contemporâneo para os sentidos de centro-americanidade.

Essas diversidades de sentidos expressam-se nessa diferença da Costa Rica do seu entorno. Os ticos queixam-se das deficiências dos seus serviços sociais básicos, como saúde e educação, das má-condições das suas estradas, persistência da desigualdade e da pobreza e, mais recentemente, igualmente a outros países centro-americanos, da crescente força do narcotráfico internacional no seu território. Ainda assim, a Costa Rica é um país chamado de renda média, como o Brasil, e tem alguns melhores índices econômicos e sociais do istmo e de todo o continente, com uma expectativa de vida alta de 79,4 anos (a do Brasil é de 74,6) e uma média de homicídios baixa de 8,9 por 100.000 habitantes (a de Honduras é dez vezes maior). O país atrai pela sua estabilidade política, tendo recebido diversos exilados políticos das ditaduras anos 70 e 80, tanto da América do Sul como dos vizinhos da América Central que efervesciam em guerras. Foi classificado em 2011 como o de maior liberdade de imprensa da América Latina, ocupando a posição 19 em nível mundial, de acordo com o ranking da Organização Repórteres Sem Fronteiras, e impressiona até hoje aqueles que ainda desconhecem que aboliu o seu exército em 1948, em nome de uma proposta, fruto de anos de trabalho, de aumentar a participação cidadã e evitar golpes militares de estado.

Contudo, a Costa Rica ainda não conseguiu articular respostas para alterar a tendência dos últimos anos de lentos e incertos progressos em desenvolvimento humano. Como lembra, entretanto, a acadêmica e analista política salvadorenha, Carmen Elena Villacorta, chama a atenção sobre o atual contexto político centro-americano que os partidos das chamadas esquerdas em vários países da região, como El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, algumas antes guerrilhas e agora no poder pela via eleitoral, movam-se cada vez mais ao centro ao verem-se confrontadas por sociedades civis cada vez mais plurais e diversas, mais politizadas e exigentes, e menos leais em termos ideológicos, conscientes do poder político do voto.

No momento, por cima das limitações, sua seleção de futebol, “os filhos prediletos da nação”, como foram chamados no país, mantem ainda mais por cima a autoestima dos ticos, e de toda a América Central. Porém, acima ainda do futebol, a Costa Rica, e todo o istmo, veem-se hoje num lugar em que, como assevera o jornalista e acadêmico costarriquenho Andrés Mora Ramirez, nunca, desde a sua independência da Espanha, a região teve que enfrentar uma necessidade tão marcada de seguir por entre diferentes padrões de crescimento e de desenvolvimento para buscar sua inserção internacional.

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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

sábado, 12 de julho de 2014

O imponderável na Copa das Copas


por Pedro Mox*

O brasileiro sentiu o golpe. Contudo, mesmo que aos poucos, felizmente a ferida vai se fechando, as lágrimas secam, explicações (mesmo que nem um pouco convincentes) aparecem, e a Copa do mundo encaminha-se para seu clímax. A despeito da campanha brasileira, é importante ressalvar grande evento aqui realizado: tivemos belíssimos jogos, boa organização, seleções bem acolhidas. A média de gols até agora, 2,7, já é a melhor desde 1994, pode ultrapassar os 2,8 de 1982. Tem a segunda maior média de público da história, atrás apenas dos Estados Unidos. E terá a decisão no estádio quiçá mais famoso do mundo, o Maracanã. Não acho exagero dizer que, até este ano, realizamos a copa das copas.

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Não há explicações para o inexplicável. Pode-se, na verdade devemos, procurar a razão pela qual o onze canarinho não decolou em 2014. Achei a escalação equivocada, precisávamos de maior ocupação no meio de campo. As características são deveras distintas, mas o substituto mais adequado para Neymar era Willian ou Paulinho, dificultando a vida de Kroos e Cia. Talvez, ou provavelmente, não ganharia, mas evitaria o maior vexame da história da seleção brasileira de futebol. Entretanto, o desastre da última terça teve grande participação de um elemento sempre presente – e que contribui muito para a graça do futebol –, o imponderável. Da mesma forma que o Brasil entrou mal escalado e não se encontrou em campo, quatro gols em seis minutos não é e nunca será uma coisa normal. Aconteceu, e provavelmente nunca mais ocorrerá na história das copas.

Nossa atual geração não é ruim, pelo contrário – esse time é, na minha opinião, inclusive, superior ao de 2010. Foi mal preparado, e em nenhuma partida realmente convenceu, mas boa parte destes jogadores pode estar na Rússia em 2018 – tem talento, é a seleção mais comprometida que vi nos últimos anos, estarão mais experientes e quererão como ninguém reparar o fiasco aqui sofrido. Este ficará para sempre na história, o título porventura vindouro também. Considero um equívoco queimar esses jogadores, apesar do elástico escore.

Outro ponto muito comentado, por razões óbvias, e a comparação com 1950. Comparação, na minha opinião, inoportuna. No ano do maracanazo o Brasil tinha equipe bem engrenada, que vinha de duas goleadas – naquele não houve partida final, mas sim um quadrangular – 7-1 sobre a Suécia e 6-1 sobre a Espanha. Entrou no Maracanã (construído para esta copa) com, diz-se, mais de 200.000 pessoas, precisando apenas de um empate. Praticamente com as duas mãos na taça, poucos lembravam que havia um adversário a ser enfrentado. Cenário completamente distinto do atual, quando: tínhamos um time que não convencia desde o primeiro prélio; enfrentamos uma seleção tida por todos como a melhor da competição. Nada que justifique o apagão apresentado, mas um contexto bem diferente de outrora.

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Não será aqui que o seleto grupo de campeões ganhará um novo membro. Domingo Alemanha e Argentina partirão para o tira-teima de decisões, são protagonistas inclusive da primeira vez que dois países reprisaram uma final. Em 1986, no México, os hermanos abriram dois gols de diferença e cederam o empate. Entretanto, ao contrário de 1954 e 1974, os alemães não viraram; com passe de Maradona, Burruchaga marcou o tento que deu o bicampeonato à albiceleste. Quatro anos depois, ambos vinham de semifinais vencidas nas penalidades. A revanche germânica deu-se em Roma: com um gol de pênalti convertido por Brehme aos 40 do segundo tempo, os comandados de Beckenbauer eram os melhores do planeta pela terceira vez.

São seis partidas em Copas do Mundo, com três vitórias e 11 gols marcados pelos alemães, uma vitória e cinco gols para os argentinos, além de dois empates. O último embate foi na África do Sul, pelas quartas de final. As equipes mantiveram boa base em relação àquele torneio: oito atletas pela Alemanha e seis pela Argentina (considerando Di Maria) se reencontrarão. Joachim Löw já comandava o time alemão, enquanto na argentina Maradona vivia sua primeira experiência como treinador. O resultado, um sonoro 4-0, com dois gols de Klose e um de Müeller. Se o ataque alemão continua fulminante, o time comandado por Alejandro Sabella melhorou e muito sua defesa, além do poderoso trio de frente com Messi. Jogo mais que digno de uma final.

Na disputa pelo terceiro lugar, hoje em Brasília, outro confronto das quartas de 2010. Se lá fomos eliminados com a fatídica trombada de Julio César e Felipe Melo, agora é a chance de uma despedida ao menos digna. Do outro lado, os craques Robben, Van Persie e Sneijder despedem-se de copas do mundo. Quatro partidas em mundiais, perdemos duas, empatamos uma e ganhamos outra. Destaco esta vitória, um suado 3-2 em 1994, com gol da vitória numa falta cobrada por Branco e um desvio de corpo milimétrico do baixinho Romário. Que nossos atletas tirem daí inspiração para os últimos 90 minutos neste mundial, levantem a cabeça e vislumbremos um futuro mais promissor.

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*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Na fila


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Fila de supermercado é um ótimo lugar para, como se diz, tomar a temperatura dos sentimentos coletivos. Logo antes do jogo danado da última terça-feira, fui comprar uns acepipes para a comilança que faz parte do ato de torcer na frente da televisão. Mercado lotado, naquele clima de fim de mundo dos lugares onde se vendem comes e bebes em pré-jogo do Brasil. A fila do caixa era grandinha e, bem atrás de mim, duas mulheres engrenaram um papo animado, como velhas conhecidas que acabavam de se conhecer.

Começaram falando das nêsperas, caríssimas, que “quando eu era criança, lá na roça, a gente chamava de ameixa” (aliás, digo eu, como a tilápia, hoje cultivada em fazendas industriais, rebatizada de “Saint Peter” e cobrada em libras). Na frase seguinte, já estavam excomungando o governo e vaticinando um quebra-quebra de proporções apocalípticas em caso de derrota no jogo contra a Alemanha. Uma delas decretou que “já estamos quebrados, somos uma Venezuela, só não vê quem não quer” e por aí foi uma longa enfiada de asneiras no mesmo tom. Várias pessoas assentiram. Eu calada, olhando para o nada, detesto entrar nesse tipo de conversa.

Que chegou à Argentina. Aí mais gente se animou a expressar seu desejo profundo de que nossos vizinhos fossem derrotados pela Holanda, pois ninguém aqui vai torcer pra eles, né? E eu com cara de paisagem. Hummmm, eu vou sim torcer pra Argentina, inclusive porque não tenho nenhuma razão para fazer o contrário. Minha torcida funcionou, pelo menos neste caso.

Então, senhoras e senhores. Não vou sair por aí defendendo ou atacando o atual governo. Vejo nele virtudes e pecados, que são para conversas em casa ou com amigos. É o meu jeito. Mas dizer que já somos uma Venezuela, me dá vontade de rir. O que sei sobre o vizinho bolivariano do norte é o que nos chega através da imprensa, que sempre deve ser tomado com cautela, mas me parece que passa beeem longe da nossa realidade, atual ou futura.

Já a situação da Argentina, sinto no coração. Enquanto seus craques avançam na Copa, com uma torcida tão apaixonada quanto a nossa, os hermanos tentam com unhas e dentes renegociar partes da dívida contraída com os tais fundos “abutres”, que, como diz o lindo nome, não estão aí para fazer graça, mas para se fartar da carniça de países encalacrados. Se não conseguirem, vai ser uma quebradeira de verdade. Sem entrar nos detalhes, alheios à minha competência, constato, mais uma vez, que os mecanismos de empréstimos internacionais, especialmente os de origem nos fundos privados, são feitos para destruir seus credores, jamais para construir.

Como os agiotas que atuam nas periferias das grandes cidades. Cada grupo de oito ou dez famílias tem o seu, geralmente o dono ou dona do lote onde moram, que lhes empresta folhas de cheque ou o cartão de crédito para compras de roupas, eletrodomésticos, ou algum outro gasto maior, e cobra juros indecentes de vizinhos que vivem na corda bamba. Qualquer semelhança com os fundos abutres é mais do que mera coincidência.

Aguentei firme a cara de paisagem. Felizmente, chegou a minha vez, passei as compras e me livrei das matracas que já vivem na Venezuela lá delas.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O futebol e seus mistérios

por Celso Vicenzi*

Sim, há muitas explicações. Nenhuma delas suficiente, tampouco convincente. Darão boa ou má literatura, inesgotável assunto para mesas de bar e mesas-redondas de futebol na TV. Páginas e páginas serão escritas, milhões de comentários nas redes sociais. Os mais exaltados xingarão o técnico, os jogadores, o país onde vivem. Haverá oportunistas, como sempre. E também mal-educados. Não faltarão os que sempre irão se curvar diante da “superioridade europeia”, resquícios de um passado de nação colonizada que, gradativamente, parece perder sua força. Mas é possível identificar também muitos brasileiros sensatos, que amam seu país, capazes de separar vida e jogo, política e esporte, virtudes e defeitos de uma nação.

Nelson Rodrigues, o escritor que melhor traduziu o que pode acontecer dentro de um campo de futebol, criou o personagem Sobrenatural de Almeida, um fantasma que seria responsável por gols improváveis, normalmente contra o seu adorado Fluminense. É dele também a crítica aos “idiotas da objetividade”, aqueles que tentam explicar pela razão o que pertence ao imponderável.

Os gregos sabiam que há no mundo lugar para a tragédia. Haveria algo que estaria acima da vontade dos seres humanos, porque dependeria dos humores dos deuses. Nelson Rodrigues, não por acaso um dramaturgo, expressou muito bem: “O que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a compaixão. A bola é um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe.”

Há os que se agarram às explicações esportivas. Se o treinador fosse outro, se o esquema tático fosse diferente, se houvesse mais treinos, se a escalação fosse mais prudente, se outros jogadores estivessem entre os convocados, se o Neymar e o Thiago Silva pudessem jogar, se houvesse menos oba-oba, se, se, se...

Há outros que preferem adentrar searas mais “científicas”, uma espécie de “sociologia do futebol”. Perdemos porque não somos um país decente, porque há corrupção, porque somos desorganizados, porque preferimos a improvisação e a malandragem ao estudo, à disciplina, à qualificação, porque falta educação, falta saúde, falta um país...

Tudo simples. Mas não explicam como, sendo tudo isso que nós somos – e queremos ser melhores! –, somos os maiores vencedores, com cinco títulos mundiais em 20 disputados ao longo de 84 anos.

Não explicam por que a toda poderosa Alemanha, que ganhou de fáceis 7 a 1 do pentacampeão Brasil, havia empatado com Gana e penado para ganhar da Argélia na prorrogação.

Sim, nosso time atual parece não ser dos melhores, ou não teve a sorte que bafeja os campeões. Mas o que dizer, então, de potências como Itália, Espanha, Portugal e Inglaterra, que saíram logo na primeira fase? A Bélgica iria ser a sensação dessa Copa. Não foi. Houve candidatos que surpreenderam, mas ficaram todos pelo caminho. Já fomos campeões do mundo com um time apenas razoável, em 1994. Já perdemos Copas com timaços, em 1950 e 1982.

Talvez, seja justamente isso que faz do futebol um esporte fascinante, uma paixão. Porque não cabe nos manuais. Nem esportivos, muito menos “sociológicos”. Ou a organizada Alemanha teria mais títulos do que o Brasil. E campeões mundiais como França e Espanha não passariam pelo vexame de cair fora já na primeira fase, logo depois de conquistarem a primeira Copa, como aconteceu em 2002 e 2014, respectivamente. Há pequenas e grandes tragédias esportivas, para todos os gostos. O mundo, apesar dos esforços de cientistas, filósofos e teólogos, é cheio de mistérios. O futebol, às vezes, é só mais um deles.

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Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Lágrimas de homem abalam o machismo no futebol. E o racismo? Voa impávido em céu de brigadeiro

por Cidinha da Silva*

As lágrimas dos jogadores brasileiros pressionados pelo terror de serem eliminados da Copa das Copas ainda nas oitavas de final incomodaram muita gente. A fragilidade dos homens, quando exposta de formas convencionadas como algo característico das mulheres, neste caso, o choro copioso em situação de tensão e desespero, mexe com as estruturas enrijecidas de muita gente. Para o bem e para o mal.

Há os que se sentem incomodados porque, em síntese, acreditam que homens são machos e não devem chorar, dentre outros motivos, porque o choro denota fraqueza e os jogadores (de futebol) estão em campo como soldados para guerrear. Outros (bem poucos) defendem o choro como expressão válida de sentimentos, como válvula de escape legítima ao alcance dos canais lacrimais de todo ser humano, inclusive dos homens, humanos também. Afinal, ninguém quer passar à História com as marcas da derrota e do fracasso.

A mídia esportiva, os atletas e o espírito de novo-rico da maioria, amadurecerão muito se mergulharem profundamente na potencialidade curativa do choro. Lágrima é palavra abafada que escapa quando a maré dos olhos vaza e derrama pela face proteínas, sais minerais e gordura que lubrificam e limpam os olhos, retiram véus, diminuem a acidez e, na situação desses homens-atletas, resgata a humanidade do filme da vida vivida antes de chegar à riqueza e à fama, que pesa sobre os ombros.

O choro da Seleção Canarinho balança os pilares do machismo mais evidente, tal qual o canto do pássaro pode tocar os corações mais duros. Entretanto, a dor, a humilhação e a angústia deflagrados nas pessoas-alvo do racismo estão longe de comover os corações daqueles brasileiros que se consideram macacos, transbordantes de orgulho e “amor” nos versos cantados na arquibancada.

O capitão da Colômbia foi vaiado ostensivamente depois de ler discurso da FIFA instando todos os fãs de futebol a combaterem a discriminação racial nos campos e fora deles. Em meio aos emissores da vaia não há número significativo de negros e quando a elite branca predominante no estádio é adjetivada, a elite branca de fora (da mídia hegemônica, da indústria das celebridades e do entretenimento, das rodas intelectuais, dos blogues descolados) sente-se incomodada e vai a campo em defesa própria. Não, não somos racistas! Racismo é coisa dos Estados Unidos que os colonizados negros brasileiros querem importar. Quanto às crianças brancas que entram de mãos dadas aos jogadores em todos os jogos da Copa das Copas, é lógico que não temos culpa de serem todas brancas. Aliás, não vemos problema nisso, como não existe problema também de serem brancos os torcedores que enchem os estádios desde a Copa das Confederações.

Por outro lado, a crescente presença de jogadores negros nas seleções da França, Bélgica e Holanda, fortalece a velha máxima de que “o negro é bom de bola” e por isso está quase superando os brancos em seleções tradicionais europeias. Do lado de cá, atentamos para os nomes e sobrenomes desses jogadores, nascidos nas colônias em África e Caribe ou filhos de migrantes africanos e caribenhos e, por contingência, devido a essa contingência gerados nos países brancos. Pobres, majoritariamente, que, como os outros negros diaspóricos e africanos têm no futebol, ao qual dedicam a vida desde crianças, rara possibilidade de ascensão social. Assim se manifesta e se perpetua a versão mais palatável do racismo.

A versão mais dura, tão cotidiana quanto a primeira, manifestou-se após a agressão de Juan Camilo Zúñiga, lateral-direito da Colômbia, ao brasileiro Neymar, levando-o a fraturar uma vértebra. Atitude totalmente condenável e passível de grave punição por prática antidesportiva, num jogo em que o Brasil também bateu muito e o árbitro foi conivente com as agressões que correram a solto pelos dois lados. Em sua defesa, Zúñiga argumentou que o lance infeliz não passou de uma jogada normal e sem intencionalidade de machucar. Sim, “normal” no escopo da violência reinante no jogo, mas não na prática do futebol.

A crítica, a ira e a revolta dos torcedores tupiniquins foram deslocadas da violência praticada por Zúñiga para sua condição de homem negro. Insultos racistas e ameaças de morte foram dirigidos a ele e à mãe nas redes sociais. Xingamentos de ordem sexual foram impingidos à mãe e à filha de dois ou três anos, ameaçada também de estupro. Um show de horror racista, feminicida e pedófilo.

De todo o episódio salvam-se as atitudes exemplares de David Luíz. Alguém disse que ele é bom atleta e bom samaritano. É verdade. Ele está na contramão do evangelho do marketing pessoal. Pratica valores como a humildade, a integridade, o respeito, a compaixão, do modo ensinado pela tradição africana, a pedagogia do exemplo. Em um contexto de negação de aproximações com África, David Luíz reafirma a origem da cabeleira crespa de um homem socialmente branco. Em entrevista à TV colombiana, junto com James Rodriguez, adversário derrotado e amparado por ele, o menino dos cachinhos crespos de ouro, em bom portunhol, explicou que a garotada tem como modelo o cabelo dos jogadores famosos, mas isso não deve bastar aos musos que, por sua vez, devem também procurar se mostrar como homens grandiosos para inspirar os garotos pelos bons exemplos e firmeza de caráter.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

As últimas batalhas da Copa

por Pedro Mox*

Passadas algumas semanas do início da Copa do Mundo, o mundo já sabe quais são as quatro melhores seleções da atualidade. Restam agora duas partidas para Brasil, Argentina, Alemanha e Holanda tentarem mostrar/provar quem manda. Toda a pompa de Copa das Copas justificou-se com inúmeros bons jogos, lances exuberantes, estádios cheios e nem de perto o caos anunciado por alguns às vésperas do evento.

A despeito das boas surpresas e revelações de 2014, às semifinais chegam quatro gigantes do futebol: dentre eles apenas a Holanda não sabe o que é erguer um mundial –fato que pode ser abrandado se levarmos em conta a revolução nos gramados por eles praticada em 1974. A laranja mecânica é atual vice-campeã (sofreu 1-0 da Espanha na prorrogação em 2010) e ocupa 15a posição no ranking da Fifa. Dos onze que iniciaram a partida contra a Costa Rica, o quarteto Kuyt, Sneijder, Robben e Van Persie estiveram na África do Sul. De 1990 para cá os holandeses só não jogaram o mundial de 2002; nessas edições só chegaram à semifinais (além do vice-campeonato de quatro anos atrás) em 1998, quando perderam a decisão do 3o lugar para Croácia por 3-1. Autora de 12 gols, quase metade marcados contra a Espanha (1-5), foi vazada em quatro oportunidades. Só não marcou no 0-0 diante da Costa Rica. Será o quinto embate entre as equipes em mundiais: duas vitórias européias, uma sul-americana e um empate. No jogo mais importante, porém, melhor para os latinos: vitória por 3-1 na decisão de 78.

Seu adversário na semi teve vida mais fácil nas quartas de final. Enquanto Robben e Cia jogaram 120 minutos, mais a tensão das penalidades, a Argentina eliminou a Bélgica com um gol de Higuaín no tempo regulamentar. Mais da metade dos titulares na última partida estavam no mundial de 2010, quando os hermanos foram eliminados nas quartas pela Alemanha com sonoros 4-0. Terão grande desfalque com a lesão de Angel Di Maria, além da provável ausência de Kun Agüero. Entretanto, Messi chegou ao Brasil disposto a mudar a imagem deixada nas outras Copas – e todos sabem do que o atacante criado nas canteras Barcelona é capaz. Atual 7a colocada no ranking da Fifa, somam oito tentos na competição, sofreram três e passaram pelos dois mata-matas com vitórias simples. Na última vez que alcançaram a semifinal, em 1990, ficaram com o vice campeonato – a Alemanha venceu por 1-0. Na última vez que ergueram o caneco, em 1986, Messi tinha um ano de idade, e não deve lembrar dos feitos heróicos de Don Diego. O primeiro veio quando jogaram em casa, 1978, no qual o Brasil foi embora invicto após o fatídico 6-0 dos argentinos contra o Peru.

Algozes dos argentinos na Itália, a Alemanha tem uma boa mescla de juventude e experiência. Dos onze titulares contra a França, apenas dois não estiveram na última Copa do mundo, Hummels e Höwedes. Chegou ao país atrás apenas da Espanha no ranking de seleções. Também protagonizou uma goleada histórica na primeira fase, 4-0 ante Portugal. Marcou 10 gols e sofreu três em solo brasileiro. Klose, com 15 gols, pode ultrapassar Ronaldo e se isolar como maior artilheiro em mundiais. Em 17 participações, carimbaram vaga na semi final 12 vezes – é a equipe que mais jogou esta fase. Nos títulos conquistados, bateu a poderosa Hungria em 54 e a incrível Holanda em 74, além de 90. Nas últimas três edições, perdeu a final para o Brasil na Coréia/Japão em 2002, e foi 3a em 2006 e 2010 – jogando em casa há oito anos, derrotou Portugal por 3-1, com grande festa da torcida.

Sede do mundial, 4o colocado no ranking da Fifa, o Brasil chega à semi com uma campanha irregular. Titubeou em alguns momentos, passou por uma disputa de pênaltis e fez um jogo satisfatório contra a Colômbia. Com uma seleção que majoritariamente brilha em grandes times, campeões por vários clubes europeus, em Copas a experiência é pequena – apenas seis dos 23 convocados sabem o que é disputar uma. Única seleção presente em todas os mundiais realizados, mais vezes campeã, tem a bênção e o fardo de conquistar o hexa em casa. Dos quatro semifinalistas, é o que levantou a taça Fifa a menos tempo: bateu a Alemanha por 2-0 na Copa do Oriente. Sob a batuta do mesmo Felipão, à época com bigodes menos esbranquiçados; que apostou num esquema com três zagueiros, em Ronaldo e Rivaldo vindo de lesão, e bancou a ausência de Romário. Este, inclusive, foi o único encontro entre as duas nações acostumadas a jogarem o mundial. Nossa campanha tem 10 gols marcados e quatro sofridos; uma sofrida disputa de penalidades contra o Chile e um 2-1 contra a Colômbia nas quartas. Para enfrentar a Alemanha, nem estrela do time, nem o capitão: Neymar está fora após sofrer dura falta de Zuñiga e Tiago Silva recebeu o segundo amarelo. Entretanto, o esquete canarinho tem bons suplentes, e um treinador que costuma tirar o melhor de seus homens em situações adversas. Se ainda não convenceu, é uma equipe que tem toda condição de chegar ao Maracanã dia 13.

Com todo respeito às demais seleções, que os deuses do futebol conspirem em nosso favor e, depois de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, que 2014 possa ser o ano em que costuraremos mais uma estrela no peito.

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*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Menos é mais


por Júnia Puglia       ilustração Fernando Vianna*

Ter uma Copa do Mundo no nosso quintal significa, entre muitas outras coisas, que durante a sua realização o tempo de trabalho diminui um bocado. Tirando os dias de feriado, dedicados a ver o Brasil jogar, e aqueles com expediente reduzido, nas cidades onde ocorrem os jogos, as pessoas que gostam de futebol dão um jeito de acompanhar o que está rolando nos estádios, mesmo durante as horas de trabalho. Acho justo, pois a Copa só acontece a cada quatro anos e, vamos combinar, assistir os jogos – qualquer um deles – é muito divertido. Eu mesma não pensei que fosse tanto, mas me confesso contaminada pelo vírus desse esporte emocionante e sedutor. Poderia ser mais, se não tivessem alongado tanto os calções dos jogadores, que viraram bermudas, praticamente emendadas com os meiões, mas pelo menos alguns times estão jogando com camisetas bem agarradinhas.

É de se notar que ainda não tenha aparecido nenhum economista, financista ou administrador com cara de fuinha para calcular quanto o país perde nas horas gastas na frente da televisão. Talvez porque se sintam compensados com os muitos dólares ou euros que a turistada vai deixando por onde passa.

Em outros tempos, e honrando minha ascendência protestante puritana, eu ficava impressionada com essas contas dos feriados, mais ainda dos feriadões, que sempre pioravam bastante o notório mau humor dessa turma. A sexta-feira emendada vai custar ao país milhões de dinheiros pelas horas de folga não planejadas. A segunda-feira enforcada significou uma perda de muitos milhares de dinheiros para a produção. No mês passado, tivemos apenas quinze dias úteis. Até o dia que me veio a pergunta: por que não trabalhar é sempre visto como prejuízo? O ócio é sempre maligno? Descansar, fazer nada, afeta negativamente a tal produtividade? Assim acreditam os formuladores das teorias sobre como encher mais rápido o bolso alheio, ou como transformar a vida dos seus empregados ou subalternos num inferno de pressão e metas desumanas. O mundo do trabalho está enredado na armadilha do fazer muito e exigir ainda mais, para alimentar as engrenagens que inventamos, de moer gente.

Pois eu acredito que estamos precisando trabalhar menos e gastar mais tempo com o que der na telha, inclusive nada. Aposto que a tal produtividade ganharia, e muito, com pessoas mais relaxadas, mais conectadas com as coisas que lhes dão prazer e lhes desafiam a mente de maneira positiva, e não com essa doideira de matar um leão por dia, muitas vezes de forma mecânica, enfadonha e profundamente opressiva. O risco seria a gente querer trabalhar sempre menos. Será?

A melhor chefe que tive na vida era a primeira a sair do escritório no fim da tarde e insistir para que todos saíssemos com ela. Aliás, ela guardava na sua sala um equipamento completo para dormir depois do almoço: colchonete, lençol, máscara para os olhos e travesseiro. E ficava muito contrariada quando era acordada antes de terminar a sua sesta. Éramos uma equipe enxuta, mas muito respeitada, pela capacidade de responder a desafios consideráveis, sempre de cara boa e zero preocupação com os detalhes da matriz de resultados.

Inesquecível é também a história que li, nas memórias de Jorge Amado, sobre o cara que fabricava móveis artesanais em algum lugarejo por aí. Alguém chegou e perguntou quanto custava determinada cadeira. Ele deu o preço e a pessoa então quis saber quanto ele cobraria para fabricar oito cadeiras iguais. Ele deu uma quantia que era bem maior que a soma dos valores unitários. A pessoa argumentou, indignada: mas isto é mais do que o preço das oito somadas, quando deveria ser menos. Ao que ele retrucou: menos? De jeito nenhum. Fazer oito iguais é aborrecido bem muito.

Em tempo: essa Copa do Mundo está boa demais. Podia ter todo ano, né?

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Não é todo dia que se vê um jogo de Copa do Mundo

por Pedro Mox*

O horário da partida era uma da tarde, mas às nove eu estava pronto. Não é todo dia que se vê – e porque não, sente – um jogo de Copa do Mundo. O estádio Governador Magalhães Pinto, popular Mineirão, receberia o último confronto do grupo D; o temido grupo formado por Itália, Uruguai, Inglaterra e Costa Rica. Àquela altura, entretanto, o “grupo da morte” mostrava-se letal apenas aos campeões mundiais: os caribenhos jogavam por um empate, que lhes asseguraria a primeira colocação. Itália e Uruguai digladiariam pela segunda vaga, aos ingleses restava tentar não realizar a pior campanha do país na história em mundiais.

O trajeto até o estádio mostrava-se descomplicado até a metade do caminho, quando filas intrínsecas a eventos de tal magnitude acabam aparecendo. Nas proximidades do estádio, diversas placas apontavam o caminho de estacionamentos e entradas para pedestres. Estaciono sem problemas e faltando pouco para o meio-dia avisto o imponente estádio de capacidade para 62 mil torcedores. Seu entorno tem chão acimentado, na cor do estádio, que por fora não me parece muito diferente do “velho” Minera. Uma gigantesca faixa com grafismos do evento exibe a frase “Bem vindos a/welcome to Belo Horizonte”. Todas as placas, bem como informações vindas pelos alto-falantes do estádio são em inglês e português.

Ao contrário do que imaginei, em nenhum momento foi-me solicitado o ingresso nos arrabaldes do Mineirão. Bem verdade que era um “amistoso”, mas o clima de alegria e descontração era geral – como imagino ser também nos outros. Fantasiados, caras pintadas, perucas, todos os tipos mais excêntricos que aparecem na TV estavam lá. Dezenas de camisas de clubes e seleções também conviviam harmonicamente: Brasil, México, Argentina; Cruzeiro e Galo; times de outros estados... Um mar de cores que, tal qual o vento em um deserto, formava e destruía belos mosaicos a cada instante.

A primeira entrada é um raio-x, para bolsas e pessoas – idêntico aos de aeroportos. A fila é organizada e não leva mais de 10 minutos. Não é permitido entrar com nenhum alimento, o que me fez pensar o desperdício de milhares de barrinhas de cereal ou biscoitos tipo social club. Acharia ótimo se, em vez de um lixeiro, houvesse um cesto de doação que pudesse aproveitá-los. Já mais próximo, mas ainda fora do estádio, está a entrada de fato, na qual uma voluntária passa meu ingresso num leitor óptico e deseja “boa partida” – sem catracas ou barreiras. Não sei se tal logística permanecerá nos jogos do brasileirão.

Dentro há mesinhas e lixeiras, com separação do que é reciclável. No momento que fui, os banheiros estavam limpos, mas metade das pias não tinha água. Os bares oferecem sanduíche natural, hambúrguer, salgadinhos. Fiquei feliz ao ver que o famoso tropeiro do Mineirão continua lá, ao preço de 15 reais, vendido numa quentinha de isopor. E continua saboroso. Para beber, Budweiser, cerveja oficial da copa, R$ 13; e Brahma, patrocinadora nacional do evento, R$ 10, ambas 473ml (equivalente a um pint estadunidense). Coca cola, num copo que traz também o jogo do dia. Aí está uma grande cretinice da FIFA, na minha opinião: o bar só aceita cartões Visa, patrocinadora do evento. Se o torcedor tem 10 em dinheiro e cartão Master, é obrigado a ir ao caixa eletrônico do estádio para sacar em espécie.

Compro minha cerveja – ou melhor, compro um copo e ganho a cerveja – e sigo para meu lugar: anel superior, cadeira em frente ao círculo central. O melhor lugar para se assistir a partida. Se por fora não mudou muito, internamente é um novo estádio, não lembra em nada o antigo Mineirão. O locutor pede aos presentes que se levantem para os hinos nacionais, e ambas torcidas os cantam alto. No anel inferior, à minha esquerda, a maioria inglesa; à direita costarriquenhos. A torcida brasileira torcia em massa para os latinos, e porventura eu fosse um dos poucos brasileiros torcendo pela terra da rainha – inclusive com a bela camisa vermelha de 66. Os telões alternam a exibição do jogo, com placar e tempo, com torcedores que vez ou outra produzem vaias ou aplausos.

Sem muitas pretensões por parte das equipes, futebolisticamente o jogo é fraco. Mas as torcidas dão show, com grito de “chicos” e “go england”. Fico lá sentado, literalmente apenas assistindo. Mas, esse modo “padrão fifa” é muito chato para mim. No intervalo, rumo ao setor britânico; já no acesso me sinto num território gringo, só ingleses falando alto e tomando Brahma como se fosse Carling. Na arquibancada, em meio a muitas bandeiras da Inglaterra, arrumo um lugar na reta da bandeira de escanteio, na verdade quase no corredor. Ali não tem assento marcado e todos vêem o jogo de pé. Muitos tem os três leões da FA (a CBF inglesa) tatuados; apesar de o jogo não valer nada eles cantam e incentivam o time como se a vitória valesse algo mais que uma despedida honrosa.

As entradas de Gerrard e Rooney dão novo ânimo, Sturridge e Sterling até executam boas jogadas. Braços erguidos, os “pais do futebol” cantam “shall we sing a song for you”, a melodia de “Hey Jude” dizendo “En-gland”. Não há como não acompanhar. Já nos acréscimos o fair play dá lugar às provocações naturais do futebol: torcida grita “olé”, “eliminados”, e vejo alguns copos voando da parte superior em nossa direção. Os ingleses mostram o dedo do meio e continuam cantando; foi o único momento no qual ponderei que algum incidente poderia acontecer – eu não vi, mas li que a tropa de choque cercou os eliminados mais exaltados para evitar qualquer confusão, que de fato não houve.

Apesar de um segundo tempo de muita garra, o placar permaneceu zerado. O que não mudou em nada o reconhecimento daqueles que cruzaram o oceano para acompanhar sua seleção. Após a partida jogadores e técnico se aproximam para agradecer, alguns jogaram camisas, e ali ficaram alguns minutos, admirando a enorme festa feita na arquibancada.

Na saída a fila é muito maior que na chegada, algo que não chega a surpreender dado o público de quase 58 mil pessoas. Todos vão-se com calma, tiram fotos. Uns agora iriam para casa, outros continuam na copa. Se o futebol não encantou, Inglaterra x Costa Rica proporcionou uma inesquecível partida.

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*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Unidade latino-americana sem negros não serve


por Cidinha da Silva*

Por que você me chutou? Pergunta Evra, lateral do Manchester United. Porque você é negro! Responde Luís Suarez, jogador do time adversário, o Liverpool, em partida do campeonato inglês, logo depois da Copa de 2010. A conversa prossegue ríspida e Evra ameaça agredir Suárez, caso ele continue chamando-o de negro. Suárez conclui irônico: eu não falo com negros!

A atitude racista do jogador uruguaio está detalhadamente registrada em 115 páginas de processo da Federação Inglesa de Futebol, nas quais ele alegou que chamou Evra de negro de maneira amigável e conciliatória. Como não se tratava de contexto latino-americano onde o racismo é tolerado e relativizado, onde a palavra racismo é eliminada do discurso, ao tempo em que se fortalecem e reinventam as práticas racistas, não colou. Suárez foi banido do futebol por oito jogos, multado em 40 mil euros, proibido de pronunciar a palavra negro no futuro.

Perdoem-me Mujica, Beatriz Ramirez, Elizabeth Soares, Romero Rodrigues, Mizangas, Mundo Afro, mas não há ufanismo latino-americano que desvie meu olhar de um jogador racista, mesmo que a imprensa queira imputar-lhe contornos épicos como artilheiro da brava Seleção Uruguaia. Aliás, como sabemos todos, a decantada unidade latino-americana pouco ou nada inclui os negros, seja nas obras dos grandes pensadores de América Latina, seja na atuação de ativistas políticos sensíveis ao genocídio indígena nas Américas, mas blindados quanto ao genocídio negro, de ontem e de hoje.

Luís Suarez é um racista desprezível, não posso vê-lo de outra forma. Por isso, entre e a Itália racista e o Uruguai de Suárez, sou Barwuah, o filho de migrantes ganenses que se fez Balotelli na terra de Mussolini.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Quem somos, afinal?


por Celso Vicenzi*

“Dilma, vai tomar no cu.” Assim, sem eufemismos ou asteriscos. É preciso que a gente leia, com todas as letras, o xingamento. Triste país que confunde protesto com falta de educação e grosseria. Democracia com intolerância e falta de civilidade. O mais alto xingamento público já feito a uma autoridade no exercício do cargo foi endereçado a uma mulher que sofreu torturas e suplícios na ditadura. De onde vem tanto ódio?  Dilma não estava na delegação de políticos que vibrou com o anúncio da Fifa ao escolher o Brasil para sediar a Copa 2014. Mas lá estavam, felizes, Lula, Aécio Neves, Eduardo Campos, José Serra, Sergio Cabral e tantos outros. Também estavam felizes e brigaram para sediar os jogos governadores, senadores, deputados e prefeitos de vários estados brasileiros. Marina Silva queria uma sede no Acre. Todos sumiram quando a mídia, com exageros e manipulações, insuflou o ódio contra a Copa. Um único jornal, às vésperas da abertura do evento, admitiu que os gastos com estádios – mesmo superfaturados – correspondiam a apenas uma semana do que se investe em um único setor: o da educação. Por tão pouco, comparado ao tamanho do orçamento do país, por que não poderíamos sediar uma Copa, sabendo que outros benefícios, na mobilidade urbana, aeroportos, segurança e turismo permanecerão? Isso sem falar em ganhos simbólicos, não menos importantes.

Oportunistas e covardes, nenhum dos políticos que estavam em Zurique, em 2007, assumiu, no Itaquerão, a paternidade da Copa. Deixaram, emblematicamente, com uma mulher, toda a responsabilidade. Critica-se o atraso nas obras e o superfaturamento, fatos que acontecem, infelizmente, desde sempre, por todo o país. Por que o espanto, se constatamos, no cotidiano de nossas cidades e estados, empreiteiros envolvidos em superfaturamento de obras? A elite brasileira, ao criticar a corrupção, disfarça, mas cospe no prato em que come. Afinal, quem são os destinatários finais de boa parte da corrupção do país, senão empresários, políticos, parlamentares, e a elite do serviço público nos três poderes?

“Dilma, vai tomar no cu”, diz muito sobre o povo que somos. Não deveríamos estranhar tanto. Apenas vivemos uma era de maior transparência, graças, também, às novas tecnologias. Quem frequenta o Facebook não estranha o nível.

Finalmente, o Brasil se vê no espelho. E não deve estar feliz com o que vê. Mas não dá mais para esconder que vivemos num país racista, machista, homofóbico, violento, desigual, mal-educado e preconceituoso. E não é somente o “outro”, como gostamos de nos defender, o responsável por séculos de sujeira varrida para debaixo do tapete. Poderíamos aproveitar que estamos “deitados eternamente em berço esplêndido”, como diz o hino, e convocar Freud e seus discípulos para uma grande terapia sobre o que se esconde no fundo da alma brasileira. Um povo alegre e hospitaleiro, mas também cruel e violento.

Somos racistas. Fomos a última nação do planeta a acabar com a escravidão. O Brasil foi o país que mais recebeu escravos no mundo – entre três milhões e quatro milhões. Sem contar os mais de 600 mil que morreram nos navios negreiros, antes de pisar em solo brasileiro. Mão de obra que enriqueceu donos de latifúndios e até hoje ajuda a desenvolver o país. Mas que nunca foi indenizada. E ainda tem brasileiro que acha “injusto” assegurar políticas afirmativas (cotas) para que uns poucos consigam escapar do destino de miséria a que são submetidos desde o início da colonização do Brasil.

Segundo pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social, “70,8% das pessoas que se encontram na situação de extrema pobreza no Brasil são negras ou pardas, sendo que esse percentual atinge 77% na região Norte e 75,1% no Nordeste”.

Somos desiguais. O Brasil é o 12º país mais desigual do planeta (já fomos pior, antes dos governos Lula e Dilma). É justamente essa crônica e cruel desigualdade que também nos diferencia nas prisões, ocupadas basicamente por negros (53%) e pobres (41,5% não completaram o ensino fundamental e 69% estão presos por tráfico de entorpecentes e crimes contra o patrimônio). Já os ladrões do dinheiro público, os ladrões de colarinho branco, responsáveis em boa parte por se apropriar de recursos que poderiam melhorar a vida das camadas mais pobres, esses continuam livres, leves e soltos.

Somos homofóbicos. Pesquisa do Grupo Gay da Bahia registrou o assassinato de 312 gays, lésbicas e travestis brasileiros em 2013. Nos últimos quatro anos, o número cresceu 14,7%. Segundo o estudo, o Brasil é campeão mundial em homicídios de homossexuais. De cada cinco gays ou transgêneros assassinados no mundo, quatro são brasileiros.

Somos machistas. Na propaganda, nos estereótipos, na política, em todos os setores da atividade humana. Vale a regra, não as exceções. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) informa que 58,5% dos entrevistados concordam com a ideia de que, se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros. Num país que não fosse tão machista, certamente as mulheres teriam mais oportunidades na política. No entanto, apesar de termos uma presidenta, nos 5.570 municípios brasileiros, segundo o IBGE, apenas 12% elegeram prefeitas. Somente 13,3% são vereadoras. Estudo da União Interparlamentar (IPU), com sede na Suíça, entre 190 países, classificou o Brasil em 158º lugar, com 8,6% de mulheres no Parlamento.

Somos violentos. Na distribuição de renda, na segregação, na discriminação, no preconceito. E tudo isso se reflete nos índices de roubos e assassinatos. Foram cerca de 50 mil assassinatos em 2012, número superior a muitas guerras no planeta. Somos o 7º país mais violento. E tentar resolver somente pela repressão não resolve. Já somos o 4º país com a maior população carcerária.

Somos preconceituosos. O preconceito está presente na linguagem, no ideal de beleza para as mulheres, na ridicularização e desrespeito aos homossexuais, na maneira como lidamos com pobres, negros e nordestinos. Estudo com as classes A e B mostrou que metade desses jovens prefere frequentar locais com pessoas do mesmo nível social. Para 17% deles, pessoas mal vestidas deveriam ser barradas nos shoppings. Eles também gostariam de elevadores separados e produtos para “ricos e pobres”. São os mesmos que não querem que metrôs passem por bairros de classe alta. E, no entanto, 70% das mulheres das classes A e B admitem já ter comprado produto falsificado (pirata), contra 50% das mulheres da classe C.

Mas somos, também, um país alegre e solidário, que empreendeu nos últimos anos a maior ascensão social do planeta. De 2005 a 2011, mais de 40 milhões de brasileiros saíram da pobreza e ascenderam à classe C. Segundo o Banco Mundial, junto com o Chile, somos o país com maior mobilidade social na América Latina. O Brasil é apontado como um dos países mais empreendedores do mundo, ocupando a quarta posição entre 54 nações analisadas (Global Entrepreneurship Monitor 2011).

O país possui um dos melhores sistemas bancários do planeta, é a quarta maior democracia do mundo e está na vanguarda em matéria de sistemas eletrônicos de votação, com resultados de eleições nacionais saindo em menos de 24 horas. Apesar das deficiências, possui o maior sistema público de saúde do mundo, é líder na realização de transplantes gratuitos e tem o melhor programa de combate à Aids, reconhecido pela ONU. O SUS, mesmo sem os recursos necessários, realiza gratuitamente, por ano, mais de 1 bilhão de procedimentos de atenção básica e 85% de todos os procedimentos de alta complexidade, entre tomografias, sessões de hemodiálise, quimioterapia etc. A ONU cita o Bolsa Família como exemplo de política pública na área de assistência social. Não faltam, portanto, exemplos positivos.

Talvez não precisemos mesmo recorrer a Freud ou deitar em divã de psicanalista. A melhor explicação para quem somos é também de um brasileiro, apaixonado por seu país, o antropólogo, educador, escritor e político Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro: “Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles negros e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da maldade destilada e instilada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria. A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista.”

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 Celso Vicenzi, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, com atuação em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia. Autor de “Gol é Orgasmo”, com ilustrações de Paulo Caruso, editora Unisul. Escreve humor no tuíter @celso_vicenzi. “Tantos anos como autodidata me transformaram nisso que hoje sou: um autoignorante!”. Mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Dilma e Joaquim: uma mulher e um homem negro no poder


por Cidinha da Silva*

Dilma é mulher e por isso, mesmo na condição de chefe de estado, foi alvo de xingamentos de ordem sexual durante a abertura da Copa do Mundo no Brasil, oriundos da ala VIP, onde se empoleiram os endinheirados beneficiados por ingressos gratuitos, simplesmente porque sua presença enobrece os eventos.

Passados os xingamentos orquestrados pela elite econômica e cultural branca presente ao estádio, a Presidenta foi defendida por mulheres (nenhuma surpresa) e parcos homens que o fizeram mais por respeito a uma senhora (símbolo da mãe, da mulher de família), do que por compreenderem de maneira profunda o teor destrutivo das representações sexistas que estão na base da alastrada e duradoura violência contra a mulher e do feminicídio, recurso vil empregado por aqueles que não atribuem qualquer valor às mulheres e à sua vida, justamente por serem mulheres e por isso, matam-nas ao mínimo sopro contrário à vontade do macho soberano.

Joaquim é um homem negro, dirigente da mais alta corte de justiça do país, achincalhado por uma entidade de classe porque um advogadozinho, membro da entidade, em busca dos holofotes destinados aos factoides políticos, desrespeita o Presidente do STF, ameaça “pegá-lo” na rua, grita dentro do Tribunal, não aquiesce ao chamamento ao equilíbrio, ao respeito às pessoas, às regras de boa conduta e à casa. Joaquim é um homem negro íntegro que reage, faz valer sua autoridade como Presidente do STF, não capitula diante do status quo que tenta acuá-lo na camisa de força de um dito temperamento irascível.

Pedagógico é observar como até a masculinidade de Joaquim é subalternizada por seus detratores, pois, de que outro homem, senão de um homem negro, se esperaria a recepção passiva a um homem (branco) que lhe pusesse o dedo no nariz e o ameaçasse em seu próprio posto de comando? Ademais, soube-se mais tarde, pelo depoimento dos seguranças que interceptaram a ação midiática do advogado, que ele estava visivelmente alcoolizado e que, se estivesse armado, “atiraria na cara do Presidente”. Mas, ainda assim, a entidade de classe conseguiu igualar a reação correta, altiva e preventiva de Joaquim Barbosa a práticas da ditadura civil-militar, porque, aos olhos deles, o homem de masculinidade subalternizada é quem deveria aquiescer diante um sujeito qualquer.

Dilma e Joaquim têm em comum a ocupação de um lugar inusitado de poder e o desconserto generalizado causado pela presença de ambos nesse lugar. A escória elitista não os engole porque são exemplo positivo para a raia miúda, porque as meninas hoje brincam de ser Presidenta, vestem as bonecas como Dilma e as bonecas presidem. Porque Joaquim Barbosa inspira milhões de mulheres e homens negros. Porque ele representa a possibilidade real de que pessoas negras ocupem postos de comando e promovam transformações simbólicas e concretas na vida material e na expectativa de uma vida melhor para os seus.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Passadas de pano padrão FIFA


por Tomás Chiaverini*

As coisas nunca saem exatamente como o planejado. Fato. E às vezes a diferença entre sonho e realidade é brutal. Ou, como dizem os americanos, shit happens. Aparentemente foi esse o caso da abertura da copa do mundo. Uma grande cagada coletiva, com o perdão do termo.

Um fiasco. Felizmente, foi um fiasco parcial, não total. E é copa, é Brasil, é futebol, todo mundo já estava na terceira latinha de Itaipava, a seleção levou de virada então bola pra frente, literalmente, e vamos ver aonde vai dar essa maluquice toda.

Mas, antes de irmos adiante, seria muito interessante ver alguém assumido a bronca. Levantando a mão, admitindo o erro e simplesmente pedindo desculpas. Nenhum cristão foi capaz, por exemplo de dizer que a abertura não funcionou, sei lá, porque a cenógrafa teve um piriri em cima da hora. E pra completar o avião dos bailarinos e cantores atrasou e tiveram de improvisar com fita-crepe, tinta spray e três cantores que estavam por aqui só pra assistir o mundial. Por isso saiu aquele espetáculo mambembe, com cara de teatro de quinta série. Acontece, foi muita pressão, assumimos o erro, mas vamos tentar fazer melhor na próxima... Nada, não houve erro, foi tudo lindo, era pra ser aquela porcaria mesmo.

E nosso brilhante neurocientista Miguel Nicolelis, o santo milagreiro das sinapses rompidas? Em vez de dizer que tudo deu certo, não seria o caso de vir a público explicar que a coisa é infinitamente mais complexa do que até ele podia imaginar? Que foi um erro prometer que um paraplégico ia levantar da cadeira de rodas, andar vinte e cinco metros por conta própria e sapecar um pimba na gorduchinha biônico à lá Tony Stark? Infelizmente não conseguimos deixar tudo pronto, a coisa não funcionou, o pobre homem ficou ali pendurado num cabide humano... Nada de novo. Pra ele também não houve erro. Só da Fifa e da Globo, que não deram mais tempo pro fiasco.

E o pênalti? Fred, Felipão, vamos parar de lero-lero. Vamos sair a público, respirar fundo e admitir que foi isso mesmo. Desesperamos e apelamos pro jeitinho brasileiro. Enganar o juiz faz parte do jogo. Não é bonito, não é ético mas assim fomos forjados, e foi o jeito que encontramos pra nos mantermos ali, na luta, carregando duzentos milhões de brasileiros na ponta das chuteiras. Só nos resta, portanto, pedir as mais sinceras desculpas...

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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha.

domingo, 27 de abril de 2014

Futebol brasileiro e ética

por Cidinha da Silva*

O futebol, que me distrai tanto, anda afastado de meu campo de interesses e possibilidades. Tempos de muito trabalho interno, externo e literário. Restam-me as orelhadas na crônica esportiva, os pitacos dos amigos, principalmente os feridos pela derrota dos times do coração.

É assim na Bahia, onde Mandingo engole, silencioso e recluso, a vitória do combalido Bahia (por ele apelidado de Jahia) sobre o todo-poderoso Vitória. Nome que perdeu o sentido no campeonato estadual, se é que vocês me entendem.

Também em Minas, onde o triste Galo, pela milésima vez perdeu o título para o Cruzeiro. Dizem que com pênalti não dado, portanto, roubado, mas perdeu, é o resultado final. Situação similar ao time campeão carioca, marcado por glórias mil, mas também por um goleiro assassino, homicida da ex-parceira sexual. Agora o time conta com outro goleiro “polêmico” que diante da nota oficial da associação de juízes do estado, dando conta de que seu companheiro de time estava impedido no gol do título, afirma, lampeiro e impune, que, “roubado é mais gostoso”.

Haja escola, professor comprometido, educação em casa, paciência, força ética e moral para combater o contra-exemplo oferecido por um ídolo popular de que roubar, enganar, ludibriar, obter vantagem ilícita é mais saboroso que ser honesto, leal e ético. Saudade da irritação de Seedorf com o cai-cai dos jogadores brasileiros e a tentativa de ludibriar os juízes, bem como de sua certeza de que o respeito às regras do jogo é mais importante do que o gol.

Em casa soube que o Santa Cruz perdeu para o Sport e vi pela TV que o salário mensal de Leandro Damião, do Santos, é maior do que a folha de pagamentos inteira do Ituano, campeão paulista vindo do interior. Esse é o irônico mundo do futebol brasileiro!

Damião, jogador discriminado e em muitos momentos ridicularizado por ser originário da várzea gaúcha, por não ter passado por anos de escolinha de futebol em grandes clubes, quando criança e adolescente, e por não ter a experiência das categorias de base, tornou-se sucesso improvável pelo empenho no trabalho, boas atuações no Internacional e, principalmente na Seleção Brasileira. Seu passe foi valorizado, transformou-se em jogador de elite e hoje, seu salário é maior do que a folha de pagamentos integral do time campeão do certame paulista que, além de derrotar o Santos, venceu os outros três grandes durante a competição, Palmeiras, Corinthians e São Paulo, nessa ordem. Não por mero detalhe, Damião segue sendo um homem simples, pouco afetado pelo glamour de boleiro bem sucedido.

É bom saber que além da validade do que o juiz não vê, enaltecida por Felipe, do Flamengo, o mundo dá voltas e também produz exemplos extremamente positivos, como o de superação, protagonizado por Damião, honrando, assim, a inspiração máxima que estes dois jogadores de futebol representam para a meninada brasileira de mesma origem racial e social.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Então assim: trabalhar não basta para ser feliz


por Thiago Domenici  ilustração Kelvin Koubik (Kino)*

É preciso um ano – 365 dias – para que a terra complete a sua rotação em volta do sol. Durante esse tempo a lua descreve doze rotações em torno da terra. O mês corresponde, aproximadamente, à duração de cada uma dessas rotações. Por isso, o nosso calendário foi estabelecido levando-se em conta os movimentos da lua em torno da terra, da terra em torno do sol e em torno dela mesma. Então, o ano tem 12 meses, o mês tem 30 dias, a semana sete dias e cada dia tem 24 horas – tempo em que a terra dá uma volta em torno dela mesma.

Mas o povo trabalhador "temos" direito a trinta dias por ano de férias remuneradas, finais de semana – que não são todos que têm direito – e os feriados. Com a Copa do Mundo vamos ganhar, ao menos nos jogos da primeira fase da competição em que a canarinha for jogar, três dias de folga. Além disso, cinco feriados – repito, cinco! – cairão no final de semana. Num país que conta oficialmente com oito feriados nacionais, disciplinados pela Lei Federal 10.607/02, é uma sacanagem com o trabalhador.

Lá em 2009, conversei com o então deputado federal Milton Monti (PR-SP) que propôs um projeto de lei (2756/2003) para alterar feriados que caiam entre terças e sextas-feiras. Para ele, seria bom antecipar para as segundas-feiras os feriados que caíssem nesses dias para evitar a "semana morta". Quer dizer, pela proposta, se o calendário diz que o feriado é quarta, ele seria usufruído na segunda anterior. Mas feriados no sábado e domingo não teriam a mesma regalia.

Imaginei algumas ideias livres para um possível projeto de lei de iniciativa popular. Quem anima? A primeira sugestão é coisa simples e você já deve ter pensado nisso. Não seria o caso de alongar o final de semana para três dias seguidos ou alternados? Por exemplo: sábado, domingo e segunda ou então: sexta, sábado e domingo. A minha preferência é sábado, domingo e quarta-feira pois tente mais ao equilíbrio. Você descansa dois, trabalha dois, descansa um e trabalha dois.

Outro cenário abrange períodos maiores de tempo. Imagine: o sujeito trabalha o ano todo e tem abolido os feriados (não se pode abusar!) mas tem mantido os finais de semana (período inegociável). O que você ganharia com isso? Que tal um ano inteiro de férias com remuneração? Trabalha um ano, folga outro. Seria possível implantar uma espécie de rodízio e um certo grau de critérios para ter uma parcela da população ativa e outra não. Exagerado?

Outra boa seria, pelo menos, férias de trinta dias a cada seis meses, tal como usufruem estudantes, parlamentares e juízes. Ou então a cada quatro anos trabalhados um ano sabático remunerado pelo estado por meio de um imposto pago pelas empresas e estendido ao trabalhador informal, frilas e afins. Na minha cabeça tudo isso é possível.

É verdade que o trabalho dignifica, mas a liberdade de viver períodos sem trabalhar é fundamental. E saber usar o tempo livre para o que bem entendermos nos traria uma vida menos doente, mais produtiva e feliz. Produção, sim, mas com mais prazer, mais descanso e menos estresse, eis o ideal para mim.

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Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Mais uma chance…


por Pedro Mox*

Lembro-me de, inúmeras vezes nos últimos anos, em conversas com familiares ou mesas de bar, argumentar que frequentar estádios no nosso país era algo seguro. Aquele passado dos anos noventa, no qual brigas em clássicos eram quase obrigatórias, havia ficado para trás, e era possível ir e voltar de um jogo sem grandes perigos.

Pois bem, hoje seria obrigado a rever minha posição. A invasão de alguns torcedores ao Centro de Treinamento do Corinthians fez-me repensar em que plano está a segurança do futebol brasileiro. Em pleno ano da Copa do Mundo na nossa casa, o Brasil parece ter regredido várias casinhas no quesito segurança em praças de jogo. Cenas as quais ninguém quer ver – espancamentos, correrias, torcedores “comuns” desesperados – tornaram-se novamente corriqueiras, envergonhando a pátria de chuteiras.

Claro, seria muita ingenuidade pensar que houve um hiato nos casos de violência ligados à torcidas, ou que durante esse tempo ir ao campo era 100% seguro. Entretanto tais conflitos aconteciam, geralmente combinados, no caminho para os estádios, estações de metrô. O interior das arenas reservava-se aos cantos e alegorias.

Todavia, em 2013 esta não foi a tônica. O maior exemplo, não poderia deixar de ser, aconteceu em Santa Catarina, na última rodada do Brasileirão. A partida entre Atlético-PR e Vasco da Gama ficou marcada pela batalha campal entre membros da torcida Os Fanáticos contra Ira e Força Jovem. Partida paralisada por incontáveis minutos, jogadores atônitos em campo, helicóptero para resgatar feridos. Barbárie em estado bruto.

Foi o caso mais emblemático, conquanto houve outros. Na mesma rodada integrantes de duas facções cruzeirenses (Máfia Azul e Pavilhão Independente) brigaram em plena festa de comemoração ao tricampeonato celeste. O estádio Mané Garrincha, em Brasília, viveu tumultos tanto na parte interna, no Vasco x Corinthians, como na entrada, no duelo entre São Paulo e Flamengo. Rodrigo Mattos, do UOL, apurou em seu blog que a edição 2013 do nacional registrou torcidas de 17 times envolvidas em algum tipo de confusão.

Tais fatos nos remetem a outra pergunta: porque atos desse naipe continuam acontecendo? Leniência do Estado, incompetência de autoridades, apatia dos que comandam o futebol, “culpa” das organizadas? Uma mistura disso tudo, porventura. Contudo o principal motivo não é, e pelo jeito mais uma vez, não será atacado: punição a quem comete crimes.

No Brasil todo e qualquer caso ligado a futebol é simplesmente desconexo do mundo real – está inalcançável e inimputável. Experimente discutir com um colega de trabalho e “cair na porrada”. Ou, invadir qualquer estabelecimento privado. Duvido que nada aconteça. Porém, acontecendo em um ambiente futebolístico, há permissão para tudo, como se o motivo justificasse a ação. Dos envolvidos no incidente da Arena Joinville, não há mais nenhum detido – e ficará por isso mesmo, como todos os outros casos aqui citados ou não.

Em reunião no dezembro último, diversas autoridades discutiram o que poderia ser feito em 2014 para que acontecimentos desse tipo não voltassem a ocorrer. Dentre elas Aldo Rebello, ministro do esporte, José Eduardo Cardozo, ministro da justiça, Flávio Sveiter, presidente do STJD e Weber Magalhães, vice-presidente da CBF.

Infelizmente, nenhuma novidade nas conclusões do grupo. Medidas usualmente sugeridas já mostraram-se ineficientes; não adianta acabar com organizadas – que tem sim belo papel nas festas da arquibancada e tem importante papel nos jogos – criar juizados especiais, realizar partidas com portões fechados, entupir estádios com câmeras...

A simples aplicação da lei, a mesma que qualquer cidadão está submetido em seu cotidiano é o maior passo que o estado brasileiro pode dar. Aos envolvidos em brigas, as mesmas penas que sofreria qualquer um pelo mesmo ato efetuado em outras circunstâncias. Talvez assim consigamos avançar alguns passos e, quiçá, chegarmos a estádios sem divisão entre campo e arquibancada.

Que não precisemos de uma tragédia de Heysel para que realmente algo seja feito.

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*Pedro Mox, jornalista e fotógrafo, especial para o NR
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