.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 16 de março de 2012

Papo sério

Um dos requisitos pra trabalhar nos organismos internacionais é ter disposição pra atuar num ambiente multicultural, saber conviver com gente de outras origens, religiões, crenças, etnias e orientações sexuais. A gente sempre pensa que isto é muito importante para os jovens profissionais brasileiros, que quando entram precisam se integrar a um ambiente de diversidade e tolerância.

Então chegou a jovem profissional belga. Naquela disposição típica de quem acredita que vai contribuir decisivamente para elevar os índices de desenvolvimento. E aquela já vinha meio enturmada, pois estava morando com seu namorido, um legítimo representante das profundezas do Triângulo Mineiro. Estava aprendendo português na cama, um lugar com óbvias vantagens para o dia a dia, mas meio complicado para os ambientes oficiais. Já tínhamos tido algumas amostras de que o aprendizado ia por caminhos tortuosos.

Íamos para uma reunião com um senador das antigas, um daqueles senhores idosos de nobre estirpe paulistana. No táxi, eu rezava pra que nada de grave acontecesse, pois precisávamos muito do aval e da parceria do senador pra um grande evento que estávamos organizando em São Paulo. A moça belga, que de burra não tinha nada, me perguntou como deveria tratá-lo.

Dei aquela orientação básica e certeira: chame-o de senhor, cumprimente com cerimônia, mas não precisa muita reverência, ele é bastante informal. Aliás, trate sempre as pessoas por “senhor” e “senhora” no primeiro contato, isso evita muitos problemas. Use as palavras que você conhece, pois é o caminho mais seguro, e as pessoas aqui sempre ajudam. E ela com aquela cara concentrada, levando muito a sério as instruções.

A reunião correu bem. Eu expliquei o que queríamos, ele foi muito amável e receptivo, deu-nos algumas dicas valiosas e instruções sobre como resolver diversos nós institucionais. Lá pelas tantas, perguntou a ela, que até então estivera calada, quem eram as pessoas que estávamos convidando, que tipo de público esperávamos.

Ela, muito compenetrada, respondeu que eram mulheres dos movimentos sociais, líderes feministas, sindicalistas, representantes de organizações de base e das grandes redes nacionais e regionais. Respirei aliviada. E ela emendou: “vomos convidarr tombém umas muié bem fodidas, que vem lá do cu do mundo, nunca forram a Sompaulo”.

Silêncio. Ele sorria, estático. Nem tentei ajeitar nada. Em segundos, nos despedimos, agarrei-a pelo braço e saímos disparadas pelos corredores do Senado, enquanto eu mentalmente desancava todos os namorados jecas da face da terra.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR.

12 comentários:

Anônimo disse...

Adoro essa história! Escrita, então, ficou mais engraçada ainda. Obrigada pela risada pra começar o dia.
Joana

leila disse...

Chorando de rir! Cena infame, melhor do que qualquer piada !!!

Ricardo Sangiovanni disse...

Demais essa, Júnia... um abraço!

Anônimo disse...

Essa foi demaisss!!!! A maneira cmo você descreve a situação embaraçosa, a graça que você põe num momento quase cerimonioso fazem a gente rir mesmo. Ka!ká!ká!!!!!

Anônimo disse...

Sério ... nunca tinha me contado essa -) Abraço, Flo

Unknown disse...

Demais!!!!! Amazinf!! Adore ler voce!!!
Beijos Helena ( UNICEF)

Elezer Jr. disse...

Junia, muito bem narrada a história, e tão engraçada quanto combustível para reflexão. Faz-me lembrar uma outra história que a gente deve ter ouvido apenas umas zil, menentas e sufenta e fix vezes, sobre o comentário de um distinto missionário estrangeiro a respeito de uma senhora que tinha uma "cozinha tão limpinha"...

Nadine disse...

Uy! que cosa mas divertida...seguro nos pasa a todas las que no hablamos como debe de ser!!!! inolvidable

Marina Ribeiro disse...

Realmente, essa experiência foi DEMAIS! kkkkkk, Beijos, Marina.

Norma disse...

ja, ja, muy buena la historia Junia!! Esa mezcla de humor y sarcasmo tan personal. me gustó mucho!

Anônimo disse...

Ri muito, querida! Que história ótima! Muitos beijos pra você.
Marcia

Anônimo disse...

Engraçado como coisas desse tipo só acontece quando você está por perto, querida!!!
Rolou o envento, então...
Saudades angelíticas!

Postar um comentário

Ofensas e a falta de identificação do leitor serão excluídos.

Web Analytics