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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Rio Pinheiros segue sujo e um gato de duas caras

Imagine a turbulência mental ao ler detalhadamente todas as notícias mais “importantes” do dia veiculadas no jornal do dia seguinte. S.A.T.U.R.A.Ç.Ã.O é o que penso sempre que pego o jornal, qualquer deles. “Não quero saber, mas preciso. Preciso mesmo?”. Liquidificador da informação é um apanhado. Nada mais. Aqui, somente, apenas, a informação menor. O que batemos o olho. De ontem, pode não te importar hoje. Respire e vá de um fôlego.

30 DE SETEMBRO

O Rio Pinheiros em SP: 160 milhões investidos e dez anos depois o Governo do Estado desistiu de limpar o rio pelo sistema de flotação – método em que a sujeira vira lodo na superfície.

A notícia é velha, mas o detalhe importante. O único ministro contrário à criação da legenda do PSD de Kassab foi Marco Aurélio Mello, que não aceitou a apresentação das certidões de nascimentos emitidas por cartórios eleitorais como comprovante da autenticidade das assinaturas de apoio. Cartório Eleitoral emite certidão de Nascimento?

E Belo Monte, a mega obra no Xingu, está proibida por liminar da 9ª Vara Ambiental da Justiça Federal do Pará. A ação foi proposta pela Associação dos Criadores e exportadores de Peixes Ornamentais de Altamira.

E o Malufão virou réu no STF por lavagem de dinheiro. Será que agora vai? Praticamente toda a família está no processo: mulher, filhos e genros.

No México o casamento poderá ter data de validade. Um contrato de união civil renovável a cada dois anos. Se a moda pegar por aqui... O Jornal da Tarde diz que o Kléber – Gladiador – do Palmeiras, pode ir para o Corinthians em 2012. Será?

Ontem, um rapaz armado tentou invadir o palácio do Planalto. Queria entregar um documento a Dilma. A família diz que ele tem problemas mentais.

Em Araçatuba, três bandidos assaltaram um casal e a arma era uma seringa com um líquido avermelhado que diziam ser sangue com HIV. E na imagem acima, um gato com duas caras que entrou pro livro dos recordes e tem tudo dobrado, inclusive os nomes.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Gisele e a lingerie da Hope

Imagine a turbulência mental ao ler detalhadamente todas as notícias mais “importantes” do dia veiculadas no jornal do dia seguinte. S.A.T.U.R.A.Ç.Ã.O é o que penso sempre que pego o jornal, qualquer deles. “Não quero saber, mas preciso. Preciso mesmo?”. Liquidificador da informação é um apanhado. Nada mais. Aqui, somente, apenas, a informação menor. O que batemos o olho. De ontem, pode não te importar hoje. Respire e vá de um fôlego.

29 DE SETEMBRO

Secretaria de Política para as Mulheres pede que a propaganda das ligeries Hope com Gisele Bundchen saia do ar. “A propaganda promove o reforço do esteriótipo equivocado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora os grande avanços que temos alcançado para desconstruir práticas e pensamentos sexistas. Também apresenta conteúdo discriminatório contra a mulher”, afirmou em nota.

Skinhead é condenado a 31 anos de prisão. Seu nome: Vinicius Paziratto, vulgo Capeta. Pra quem não lembra ele obrigou dois rapazes a pular de um trem em movimento. Um morreu e outro perdeu um braço. Mas ele cumprirá a pena em liberdade por conta de habeas corpus concedido pelo STF. Crime foi cometido em Mogi das Cruzes (SP), em 2003.

E ele, sempre ele, Valdemar Costa Neto, sortudo ou tem santo (s) forte (s)? Por 16 votos a favor teve processo contra ele arquivado pela Câmara por conta de um esquema que derrubou o ministro dos Transportes não faz muito tempo.

E numa estação da CPTM em SP o deficiente visual que confiar no piso tátil dará com a cara numa coluna de cimento. A foto ao lado é autoexplicativa. Disseram que vão corrigir o problema.

Em Osasco, Rota mata um rapaz de 26 anos e vizinhança protesta. Foi no Jardim Elvira e se trata da velha história do “ele atirou e nós revidamos”.

Corintianos: a namorada do jogador Adriano disse que ele cozinha para ela. E dia 20 ela vai ganhar um anel de diamante e afirmou que ele faz dieta rigorosa.

Cláudio Luiz Silva de Oliveira, chefe do batalhão de São Gonçalo, é suspeito de mandar matar a juíza Patrícia Aciol no Rio de Janeiro. 

Rapidinhas: Center Norte tenta acordo para não fechar. Cuba autoriza comércio de veículos. Shakira compra ilha nas Bahamas por R$ 29 milhões. Médicos são condenados no Bahrein por participação em protestos. Banco Central eleva de 5,8% para 6,4% projeção de inflação oficial este ano.

Mortas & Famosas

A escritora espanhola Elvira Lindo, em uma de suas crônicas, publicadas semanalmente no jornal El Pais, fez uma exaustiva lista de irmãos que entraram para a história. Entre eles, os irmãos Lumière, os Karamazov, os Marx, os Kennedy, os Rocco, os Cohen, os Jackson Five, os Mann, os Grimm, e, é claro, Caim e Abel.

Acrescento alguns brazucas à lista de Elvira. Começando pela contribuição consanguínea da música sertaneja: Tonico e Tinoco, Chitãozinho e Chororó, Leandro e Leonardo, Zé Camargo e Luciano, Sandy e Júnior. Temos também os irmãos Sarney, os Buarques de Holanda, os Marinhos, os Frias, os Mesquitas e, é claro, Pedro e Fernando Collor. Esses dois últimos, uma versão tupiniquim de Caim e Abel.

Sampa fica bem na fita. Mais contemporâneo escrever, bem no Facebook. Mesmo que muita gente não se dê conta, moramos, trabalhamos ou caminhamos sobre algumas irmãs. Irmãs que deram o nome a vilas. Como o caso da Ida, Beatriz e Madalena. O pai, seu Gonçalo, imigrante português, fatiou uma imensa gleba e decidiu homenagear as filhotas.

Cada uma delas, mesmo depois de findas, ganharam coloridos de personalidade. Beatriz mantém o ar da origem campestre, ainda é possível ouvir o galo cantar nos quintais de suas casas. Ida, a mais séria, sedia a Paróquia Nossa Senhora Rainha da Paz, orgulhosamente construída pelos moradores. Diga-se como ilustração, as três vilas se formaram, na primeira metade do XX, pelas mãos de motorneiros, padeiros, sapateiros, pedreiros, costureiras, doceiras e funcionários públicos.

Madalena roubou a cena das irmãs. Fez isso com a ajuda da proximidade de Pinheiros, da especulação imobiliária, da estação de metrô, das dezenas de bares, restaurantes, ateliês e lojas charmosas. O pessoal do entorno diz apenas Vila e todo mundo sabe que é a Madá. "Lá na Vila". "O metrô da Vila". "A feira da Vila". "A livraria da Vila".

Na região central da cidade, há o caso de três irmãs, não em sangue, mas em títulos de nobreza. Filhas de barões, duas viraram ruas e uma, avenida. Maria Antônia, Veridiana e Angélica se tornariam conhecidas por 92% dos paulistanos. Cada uma, depois de mortas, e a sua maneira, fariam história na Paulicéia.

Dona Veridiana, a caridosa. Os que procuravam a Santa Casa da Misericórdia para se curar ou abandonar bebês na Roda dos Expostos passavam por ela. Dona Veridiana e a Santa Casa continuam lá, agora sem Roda dos Expostos, mas com muitos aflitos.

Maria Antônia se tornou referência histórica, quando em 1968, com a ditatura militar a pleno cassetete, eclodiu o conflito entre estudantes do Mackenzie e os da Faculdade de Filosofia da USP. O Mackenzie tinha grupos de direita e a Filosofia, é claro, abrigava gente de esquerda. A coisa esquentou com ovos, pedras, paus, coquetéis Molotov. Essa passagem ficou conhecida como "A batalha da Maria Antônia".

Por fim, a mais importante delas, Angélica. Em um século, a avenida teve várias caras. Abrigou casarões de barões do café, prédios de apartamento com estilo. Entre eles, um de Oscar Niemeyer. Uma praça maravilhosa, a Buenos Aires. Hoje, a inquieta Angélica segue mudando com construções de mau gosto e grana muito alta.

Fernanda Pompeu, escritora e reatora freelancer, colunista do NR e do Estúdio Saci, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Uma reflexão e uma proposta (espero) polêmica

Passou o Dia Mundial Sem Carro. Claro que a maioria das pessoas, desacostumadas a ficar sem seu carro, foram cumprir seus afazeres de carro, ainda que estivessem dando o maior apoio moral pro movimento.

O Dia Sem Carro foi coberto por vários veículos de comunicação e amplamente comemorado. É o tipo de ação que quase ninguém se opõe. Mas ontem um amigo me chamou a atenção: em seguida das notícia sobre o dia sem carro, quase todas as propagandas eram de carro.

Lembrando de um post recente no excelente blog do Sakamoto, é muita cara de pau vender um carro falando que ele vai a 300 km/h e tem um bilhão de cavalos de potência quando não há um pedaço de estrada no Brasil cuja velocidade máxima seja superior a 120 km/h.

Penso nisso quando vejo pessoas usando SUVs para se locomover até o mercado, a dez minutos, ou para ir na academia (!!!!) usando um carro enorme, super poluente e super caro. Penso nisso quando as pessoas parecem cada vez mais preocupadas em “consumir de maneira mais consciente”, o que se traduz em consumir mais, na verdade.

Seria bem melhor para o “verde” se as pessoas, em vez de consumir mais carros, mais poderosos, mais poluentes, mais espaçosos, de empresas que gastam uma triliardária verba publicitária para mostrarem como estão tão preocupados com o meio ambiente, levantassem a bundinha do banco do carro e andassem até a academia ou a padaria. Ou fossem de bicicleta, metrô, ônibus, bonde, teleférico...

Tenho perfeita noção do tamanho do fetiche que é o carro no mundo de hoje. O valor de um carro, é muito claro isso, não se resume ao seu valor de uso, ou seja, não basta um carro levar de um lugar pro outro. Para o consumidor médio, o carro é muito mais que isso. Por isso mesmo quero deixar aqui uma proposta que vai de encontro a isso e que pode, de fato, impactar esse mercado e os hábitos das pessoas:

- E se só fosse permitida a venda de carros com, no máximo, 1000 cilindradas?

- E que viessem com todos os itens de segurança, como air bag e freios ABS, de fábrica (isso já foi aprovado e entra em vigor em 2014 – hoje, esses itens são opcionais).

- E se todos os carros viessem com um sistema que restringe a velocidade máxima que ele atinge a 120 km/h?

- Estariam excluídos disso os carros de polícia, bombeiro e ambulâncias, claro. Além dos carros de corrida, etc.

Não seria mais efetivo que as elitistas e sempre presentes propostas de tirar os carros "mais poluentes" (leia-se velhos, de pobre), além de mais democrático?

Claro que as pessoas, com o dinheiro que têm, devem comprar o que bem entenderem. Mas quando falamos de um carro, falamos de algo que não diz respeito só à pessoa, mas também a todo mundo à sua volta que respira o ar, que tem que conviver com carros em alta velocidade ameaçando se descontrolarem e sendo projetados para pontos de ônibus, matando, mutilando, com o trânsito absurdo de milhares de carros, cada um com uma pessoa dentro, entre outros problemas... Nada contra quem gasta milhões com jóias, relógios, seja lá o que for.

Rodrigo Mendes de Almeida é jornalista e colunista do NR

Lula é Dr. Honoris Causa. Saudita é condenada

Imagine a turbulência mental ao ler detalhadamente todas as notícias mais “importantes” do dia veiculadas no jornal do dia seguinte. S.A.T.U.R.A.Ç.Ã.O é o que penso sempre que pego o jornal, qualquer deles. “Não quero saber, mas preciso. Preciso mesmo?”. Liquidificador da informação é um apanhado. Nada mais. Aqui, somente, apenas, a informação menor. O que batemos o olho. De ontem, pode não te importar hoje. Respire e vá de um fôlego.

28 DE SETEMBRO
“Nem direita, nem esquerda e nem centro.” PSD de Kassab é aprovado pela justiça e 50 deputados federais estão na legenda. O Shopping Center Norte, em SP, terá de fechar até sexta-feira por risco de explosão. Está sob um lixão o que gera gás metano. E quem lembra do jingle “Center Norteeeee, alegria, SEGURANÇA e companhia e conforto pra comprar”?

Ali na França, o Instituto de Ciência Políticas de Paris agraciou o ex-presidente Lula com o título de Doutor Honoris Causa. Enquanto isso, Bancários e Correios estão em greve. E o serviço de Motoboy deve estar bombando.

Em Franca, no interior de SP, um leilão de túmulos arrecadou mais de 300 mil reais – 14 foram vendidos. No mesma cidade, vereadores tentam aumentar seus salários.

Sem noção: um Jornal de Vitória, colocou na 1º página uma foto de Hebe Camargo e escreveu: “Carequinha da Silva. Linda como o Gianecchini”.

O jornalista Jorge Kajuru filiou-se ontem ao PPS paulistano – o mesmo da Soninha Francine – e deve disputar uma vaga na Câmara Municipal no ano que vem.

Marcelo Freixo, no Facebook: "Eduardo Paes continua licitando as vans através das cooperativas, as milícias agradecem. A CPI das milícias propôs licitação individual." Hoje tem o jogo Brasil versus Argentina, pela Copa Rocca, homenagem a um exterminador de índios (saiba mais). 

Nota triste: na Arábia Saudita as mulheres não podem dirigir. Uma que se atreveu e postou o vídeo no Youtube acaba de ser condenada a 10 chibatadas. Exatos dois dias após o rei (ditador?) Abdullah bin Abdulaziz al-Saud garantir às mulheres o direito de votar e de se candidatar nas eleições municipais de 2015.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Haiti, reportagem especial na Pública

Pessoal, a Pública - Agência de Jornalismo Investigativo, está com uma reportagem especial sobre o quase sempre esquecido Haiti. Vale a pena conferir, pois tem um série de informações que, infelizmente, não costumam sair na nossa imprensa tupiniquim.

Às vésperas de mais uma renovação da permanência da missão de paz, manifestantes pedem a saída das tropas da ONU comandadas pelo Brasil; documentos do Wikileaks confirmam rumores sobre golpe contra Aristide. Por Natalia Viana e Marina Amaral. Imagens de Eliza Capai.

Parte 1 - “Aba Minustah”
Parte 2 - O papel do Brasil é “impor a paz”
Parte 3 - Mais abusos, menos punições
Parte 4 - No horizonte, a retirada das tropas…
Ensaio fotográfico - Porto Príncipe (por Eliza Capai)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Ode à literatura

A primeira vez que eu ouvi falar de José Saramago foi num programa de televisão (a cabo) apresentado por Antonio Skármeta. Nele, o escritor chileno falava sobre livros. Comentava brevemente as obras e trechos delas eram encenados por atores.

Lembro-me claramente da cena de Ensaio sobre a Cegueira. Sentado no banco do automóvel, o rapaz espera impacientemente que o semáforo fique verde até que, de repente, é acometido de uma cegueira branca.

Eu deveria ter uns 18 anos quando vi aquele programa e fiquei tão impressionado que anotei o nome do tal escritor português e fui atrás do tal ensaio. Pode ser que tenha sido o primeiro livro que comprei (com o dinheiro da mesada) na minha vida. E foi um dos primeiros que li por vontade própria.

O primeiro foi Agosto, de Rubem Fonseca, e quem me emprestou foi o Júlio, professor de História do Brasil. Na minha formatura do colégio, meus pais foram agradecê-lo por ter “conseguido” me fazer ler um livro que não era de leitura obrigatória da escola.

O que meus pais não perceberam, porque também não tiveram, é que não era a preguiça que me impedia de ler, era a falta de estímulo. Na minha casa, aos fins de semana havia jornal e revista.

Música nunca faltou (e de ótima qualidade), mas livros, como romances, poesia e afins, isso nunca existiu – nem na minha casa nem na de ninguém que eu conhecia, fossem familiares ou amigos de infância.

Se na cidade do interior onde eu cresci havia biblioteca nós nunca fomos apresentados. Só fui conhecer uma quando fui fazer faculdade. Sem muitos amigos e com péssimas aulas (quando havia), encontrei nos livros a melhor companhia. Comecei a escolhe-los sem muito critério, mas aos poucos fui descobrindo o que me interessava. Um autor puxava outro, que puxava outro…

Comecei a fazer essa reflexão há algumas semanas, quando vi uns videozinhos de pouco mais de um minuto que a Televisa (televisão mexicana que não tem como forte a qualidade de sua programação) fez.

O formato é parecido com o do programa de Skármeta, mas mais curto, e ao invés de atores, são animações – muito bem feitas. Servem para despertar a vontade de ler, escutar uma música ou ver uma pintura. Quem tiver curiosidade, aqui está a página do projeto da TV mexicana, batizado de Imaginantes.

Onde quero chegar com tudo isso? Na importância do incentivo para que alguém descubra o universo da literatura. Na semana passada, a Tatiana Mendonça, colega do Purgatório, declarou seu amor aos livros e citou uma frase linda de Bartolomeu Campos de Queirós: “Ler é meu único sonho viável”.

Pois para que alguém comece a ler – e assim sonhar – é preciso que outro lhe abra a primeira porta para esse outro mundo. Basta um empurrãozinho. É viável, eu e Tatiana somos prova disso.

Ricardo Viel, jornalista, colunista do NR e do Purgatório.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Os "indignados" sob o olhar desconfiado de Franco

Os "Indignados" espanhóis querem melhores condições de vida. E desde maio tomam as cidades do país em protesto. Nosso colunista, Ricardo Viel, esteve com eles em Salamanca e conta o que viu na praça principal da cidade.

Dezenas de objetos dos mais diversos tipos, entre eles uma TV, estão expostos no chão, sobre uma lona, mas é por um par de chuteiras um tanto quanto batidas que brilham os olhos já cansados de um senhor.

Ele pergunta ao garoto que cuida dos “produtos” o preço e não entende muito bem quando escuta que eles não estão à venda: “É um mercado de troca, se lhe interessa alguma coisa, traga algo que considere justo e troque pelo calçado”.

15-M: apartidários, desejam despertar a consciência do povo
O senhor retira da cabeça a boina e pergunta se estaria bem a troca. Deixa a Plaza Mayor feliz da vida com as chuteiras debaixo do braço. “Imagino que vai dar de presente ao neto, porque já não deve mais jogar, deve ter mais de 70 anos”, se diverte David Ramos, de 24 anos, um dos acampados na praça central de Salamanca, noroeste da Espanha.

O estudante faz parte do movimento que tomou as ruas de Madri e depois do país todo no mês de maio. Os indignados, como ficaram conhecidos, se levantaram no dia 15 de maio de forma espontânea e pacífica. Depois da capital espanhola, o movimento se espalhou por todo o país e, por fim, ultrapassou as fronteiras.

O 15-M se diz apartidário e tem por objetivo despertar a consciência da população para os desmandos que a corrupção e o mau uso do dinheiro público vêm acarretando – a crise, para ser mais claro.

Os cartazes espalhados pela praça dão ideia do futuro que os indignados esperam. “Todos somos Islândia”, “O presente é de luta, o futuro nós o faremos”, “Nossos sonhos não cabem nas urnas”.

O mercado de troca faz parte das atividades que o 15-M vai desenvolver em Salamanca até domingo, quando levantam acampamento. Na quarta-feira, dia 21, o debate noturno foi sobre a reforma constitucional que colocará o pagamento da dívida como prioridade para a Espanha e impedirá “todas as administrações” de gastar mais do que arrecada.

Trata-se de uma imposição, que veio em forma de conselho, que França e Alemanha (os primos ricos da União Europeia) fizeram a todos os países do bloco. Os congressistas espanhóis foram os primeiros a aprovar a lei. Oposição e governo chegaram a um consenso de que a aprovação da reforma era o único modo de acalmar o mercado (parece que não funcionou muito).

Agora o 15-M tenta mobilizar a sociedade a forçar os políticos a aprovarem um referendo que colocaria nas mãos da população aprovar ou recusar a mudança, que deve representar um corte grande nos gastos sociais.

Os debates na praça seguem uma lógica simples, basta pedir a palavra e falar. As intervenções duram poucos minutos e há de tudo, inclusive quem agarra o microfone e se esquece do que pretendia dizer. A falta de trabalho (o desemprego chega a 20% da população e passa de 40% para os que tentam encontrar um primeiro trabalho), a corrupção e o temor de que o “milagre espanhol” se transforme em um pesadelo são os principais assuntos debatidos.

Mercado: um senhor entrega sua boina em troca de chuteiras
Oito cadeiras vagas, no meio da praça, representam os quatro deputados e quatro senadores da comunidade de Castilla y León que foram convidados a debater (por e-mail e carta, frisa o movimento), mas não compareceram.

Todas as intervenções terminam em aplauso, que varia de intensidade não só pelas palavras ditas, mas também, e principalmente, pela forma como é terminado o discurso.

Gonzalo Martin Pes, de 76 anos, precisa de poucos segundos para ser ovacionado. Sua fala é breve e teatral. “Um dia, um comediante conhecido da maioria de vocês, o genial Cantinflas, me disse: ´Gonzalo, venha, se não tiver comida para você, passaremos fome juntos´. Eu não sou tão fatalista, espero que ninguém passe fome, mas que tenha comida para todos”.

Em privado, Gonzalo me confessa que nunca conheceu Cantinflas e que a frase atribuída ao mexicano foi inventada. De qualquer maneira, o espetáculo na Plaza Mayor é bonito. Atraía muita gente, é respeitoso e democrático. A maioria dos que tomam o microfone são jovens que fazem parte do movimento, mas há de tudo, até os que se colocam contrários (e também são aplaudidos).

O debate termina sem uma conclusão, sem que se tirem propostas concretas. Esse é uma das críticas que se faz ao movimento. É fato, ninguém sabe ao certo até onde (e para onde) o 15-M irá.

“Eu não sou adivinho, não sei onde isso vai parar, mas digo que já fizeram muito”, me diz Gonzalo. Miguel Espigado, de 30 anos, membro do 15-M e um dos mais participativos no debate, está de acordo: “Não sabemos onde vai parar, mas dia 15 de outubro há uma marcha mundial até Bruxelas, para pressionar os governantes da União Europeia. Conseguimos levar mais de 100 mil pessoas a Madri, estaremos em Bruxelas, isso era impensável há poucos meses”.

Os descrentes criticam e dizem que o movimento não chegará a nenhum lugar. Os românticos confiam que a indignação dessa gente pode, sim, fazer uma grande mudança. Mas só o jornal La Gaceta, porta-voz da prefeitura, conseguiu ver o acampamento como um espetáculo que enfeia a cidade.

Minto, há mais alguém na praça que está contrariado com tudo aquilo. É Francisco Franco, que ao lado de figuras como Cervantes e os reis da Espanha, tem sua cara em uma das medalhas colocadas nos arcos da Plaza Mayor. Salamanca foi uma das primeiras cidades a cair na Guerra Civil e foi uma espécie de centro do franquismo durante o conflito.

Diferentemente das demais figuras, a do “general” encontra-se apagada de tanta limpeza. É que vez ou outra alguém resolve por jogar tinta na cara do ditador. Com a presença dos acampados, o risco de receber uma pintura só aumenta. Franco está contrariado com os indignados.

Ricardo Viel, jornalista, colunista do Nota de Rodapé, atualmente em Salamanca, Espanha.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

# Fofoqueiros

Acho muita graça quando leio que a paixão é um processo químico. A química de um bate com a química de outro e, no trancão de moléculas, aparecem juras de amor, fantasias confessáveis, bilhetes suicidas. Assim como acho curioso o uso generalizado do termo DNA. Fulano tem o DNA do desenho. Sicrana tem a ambição no DNA. O DNA do tango é argentino.

Claro está que isso são usos da linguagem. Aproximações. Pois a paixão está mais no terreno da poesia e da loucura do que no da transformação da matéria. A descoberta da dupla hélice do DNA, feita em 1953, tem tudo a ver com a ciência médica e quase nada com desenhar, ganhar dinheiro, bailar el tango.

Mas tem uma manifestação – não sei se química, física ou filosófica – capaz de dar um ou mais choquinhos de excitação. Ela sucede quando alguém nos conta que contará algo picante ou secreto sobre um outro alguém. Esse frisson tem o nome de fofoca. Palavra de origem banta, tendo como sinônimos: bisbilhotice, fuá, futrica, fuxico, intriga, mexerico, disse-me-disse.

O assunto é tão denso que a fofoca tem modalidades. Pode ser pessoal, política, intelectual, acadêmica, futebolística, televisiva, interneteira. Tem calibre: pequeno, médio ou grande. Pode ser popular, uma história cabeluda; ou de elite, uma versão. Ela também tem velocidade, se espalha como rastilho de pólvora. Quando a fofoca é muito boa, ninguém dá bola para confirmação da fonte ou de onde saiu. Basta um dizem por aí.

É certo que a fofoca tem ibope baixo no ranking dos sentimentos nobres. É feio ser fucento. É feito ser fofoqueiro. Não se deve colar o ouvido à porta ou enfiar o olho na fresta para ouvir ou ver o alheio. Bonito é ser um túmulo! Ver fulaninho sair do motel com fulaninha e não passar a informação para frente, mesmo que o fulaninho seja noivo de uma conhecida e a fulaninha, adepta da Opus Dei. O correto é beber água para aplacar a cosquinha na língua. Mas calar uma boa fofoca é igual a manter a dieta na frente de uma bandeja de brigadeiros.

A boa notícia são as redes sociais. Facebook, Orkut, Linkedin, Twitter. Magníficas janelas onde a gente pode xeretar perfis, preferências, habilidades, fotografias, ideias, currículos, gostos sem passar por mexeriqueiros. Nelas, ficamos sabendo quem segue e é seguido, quem é amigo de quem sem nenhum temor ao ditado fundamentalista: diga-me com quem andas e te direi quem és. Em suma, as redes sociais inauguram um novo paradigma, sacodem o mundo. E, pode espalhar por aí, são o nirvana da fofoca.

Fernanda Pompeu, redatora freelancer, colunista do NR e da ONGPi, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto. Leia todos os textos da autora.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Conceitos contraditórios

Uma mobilização que impede, veta, desaconselha ou vê com maus olhos a participação de partidos políticos – e falo não só dos partidos reconhecidos pela lei, mas de todos os grupos organizados em torno de um projeto de sociedade – tem um fator antidemocrático brutal

Algo entre 20 e 40 mil pessoas, variando bastante dependendo do jornal que noticiou, foram às ruas protestar contra a corrupção na capital da República, durante o feriado maldido – por cair numa quarta-feira – no último 7 de setembro.

Marcha realizada em 7 de setembro em Brasília
De primeira digo “bravô”, melhor sair de casa e ir dar um rolê no sol escaldante do deserto em uma mobilização do que ficar xingando a televisão a cada escândalo “bravamente desvelado” pelo Jornal Nacional ou similar.

Os organizadores da “Marcha contra a corrupção” tentaram dar um cunho antipartidário ao evento, como aconteceu diversas vezes: por exemplo, no movimento “Cansei”. E movimentos “antipartidários” surgem sempre, em todo lugar.

A lógica é que sendo uma marcha “contra” algo, não se pode colocar propostas “partidárias”, senão as pessoas não vão participar. Mas segundo o blog Conexão Brasília Maranhão, do caro Rogério Tomaz Jr., “o convite para a Marcha defende uma 'reforma prisional' porque 'somente no Brasil existe tanto benefício para quem está preso'”.

Eis uma contradição aí. E era de se esperar. Não se pode ser um agente político sem política, certo? Que o diga o prefeito Gilberto Kassab, cujo partido, segundo o próprio, não é nem de direita, nem de esquerda nem de centro. Aí, o máximo que dá para ser é um agente da politicagem. Mas política é uma palavra importante e nobre demais para se limitar a significar “as jogatinas, barganhas e negociatas que ocorrem nas mais altas instâncias do poder de um país”.

Proponho então aqui uma definição de partido: um grupo de pessoas que atuam, de maneira coordenada, em prol de um projeto de sociedade. Ora, um partido não é qualquer grupinho com um “P” na frente do nome. São pessoas, de qualquer tamanho, que militam em torno de um projeto de mundo. Nesse sentido, qualquer bandinho de skinheads neonazistas é mais “partido” que o PSD de Kassab (ou que praticamente todos os partidos que estão aí, ou alguém vê diferença de projeto de sociedade entre os diversos partidos da Câmara, por exemplo?).

E as pessoas terem a liberdade de se juntarem em torno de um projeto de sociedade é princípio fundamental de qualquer democracia e, mais ainda, as pessoas se juntarem em torno de ideias é pilar de sustentação de qualquer mobilização democrática. Senão a coisa fica monolítica, vira o pensamento único. E sempre que alguém se propõe a representar o pensamento “apartidário”, que quer “o bem de todos, sem esse jogo de interesse dos partidos”, está impondo seu próprio pensamento de maneira monolítica. Onde não se pode ter pluralidade de pensamento impera, consequentemente, o pensamento único.

Uma mobilização que impede, veta, desaconselha ou vê com maus olhos a participação de partidos políticos – e falo não só dos partidos reconhecidos pela lei, mas de todos os grupos organizados em torno de um projeto de sociedade – tem um fator antidemocrático brutal.

Imagem desvalorizada

Ainda assim, considero que a culpa dessa visão política problemática é, em grande parte, dos próprios partidos. É fato que a maioria das pessoas tem na cabeça a ideia de que partido são os “P-qualquercoisa” que participam das eleições. E claro, nem tem como se pensar muito diferente disso, quando os próprios partidos reforçam essa ideia e fazem, em 99,9% das vezes, cagada atrás de cagada. O próprio PT, que queria participar da tal marcha de alguma forma, foi um dos principais protagonistas de um dos eventos que levou a Marcha da Corrupção a ser um sucesso de público: a absolvição da deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF).

Dos votos contrários à cassação de Jaqueline, uma boa parte veio do PT. Pois a defesa de Jaqueline usou o mesmo argumento de um monte de réus do chamado Mensalão que foram absolvidos, a de que ela fez merda sim, mas antes de ser deputada, então ela não pode ser julgada agora, mesmo que os fatos só tenham vindo a público depois de sua posse.

A grande maioria dos deputados sabia que, se Jaqueline fosse cassada, estaria aberto o precedente para que todo mundo que tem alguma sujeira de antes das eleições e, ao ter conquistado uma cadeira de parlamentar tenha conseguido se livrar, estaria de novo com o pescoço na guilhotina. Ou seja, a esmagadora maioria dos votos a favor da ainda deputada federal veio de deputados que votaram levando em conta exclusivamente seus interesses pessoais.

Jaqueline com o pai Joaquim: ele pode voltar a cena política
Pois outros dois dos principais partidos do país, o maior da oposição, PSDB, e o grande aliado do governo, o PMDB – que parece não conseguir UM NOMEZINHO mais limpinho para completar sua cota de ministérios – também ajudam a reforçar essa imagem sobre os partidos. Pois PMDB e PSDB, entre outros, como o PTB, travam outra disputa: querem Joaquim Roriz, ex-governador quatro vezes do DF e pai de Jaqueline, em seu partido.

A ideia é Roriz voltar ao seu berço político, se lançando candidato à Prefeitura de Luziânia, cidade goiana onde Joaquim começou sua carreira na política. Cheio da grana, Roriz parece ser poderadicto, pois só isso explica um cara com quase 80 anos não querer largar o osso do poder de jeito nenhum. Mas os chacais em sua volta pensam no cálculo de quanto ganham, em dinheiro e em capital político, com mais uma prefeitura.
Roriz e o PMDB do DF hoje são inimigos mortais.

Mas com o PMDB de GO, tudo bem. Vê-se logo que o PMDB é um partido, de fato, com um projeto claro e coeso de sociedade. Os tucanos do DF não querem Roriz em seu partido, pois a disputa interna por espaço já é uma briga de foice de proporções gigantescas. Mas parece que seus dirigentes preferem transformar Roriz no Michael Douglas do filme “Tudo por uma Prefeitura”.

O anúncio da candidatura de Roriz seria essa semana, mas teve de ser adiado: ainda não se sabe qual estúdio vai patrocinar a mais nova sequência da saga do Poderoso Chefão. Ele tem até 3 de outubro para mudar seu domicílio eleitoral e se filiar ao novo partido. Alguns ainda apostam que Roriz desista da empreitada, incentivado por sua família, que se preocupa com a saúde do velho coronel que, segundo o Correio Braziliense, hoje em dia, é obrigado a fazer diálise três vezes por semana e teria que fazer grandes sacrifícios para estar à frente de uma campanha eleitoral.

Por essas e outras, de PT, PMDB, PSDB, que a população tem na sua cabeça, de maneira generalizada, o conceito de partido político lá embaixo, na lama.

Rodrigo Mendes de Almeida, jornalista e editor de política, especial para o Nota de Rodapé

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A mobilização via rede em Wall Street

Alguns sites e blogs dizem que foram centenas. Outros falam de cinco mil. Em síntese, a história é a seguinte: manifestantes nos Estados Unidos, denominados Adbusters (movimento anarquista sediado nos EUA) acamparam desde a noite de sábado, 17, nas imediações da Bolsa de Valores de Wall Street, em Nova Iorque, para protestar contra a corrupção no sistema financeiro e os cortes orçamentários propostos pelo governo de Barack Obama. A manifestação começou pela internet e foi batizada de Ocupar Wall Street (em tradução livre).

#OCCUPYWALLSTREET é hashtag do
grupo Adbusters no twitter.
Uma das justificativas da mobilização se traduz em declarações de um dos manifestantes e organizadores. “A resposta é simples. Wall Street tem cativa a classe política deste país. O setor financeiro tem cerca de três mil lobistas em Washington, cinco por congressista, que asseguram que seus interesses sejam resguardados”, diz Martin Newton.

Na mídia
No geral, a mídia internacional divulgou – sempre em reduzido espaço – que cerca de 700 manifestantes passaram, no sábado, a primeira noite acampados em Trinity Place, a 300 metros de Wall Street, e permaneceram ali até a tarde de domingo. Os manifestantes portavam cartazes onde se podia ler "Basta de corrupção" e "Freiem os cortes”, em clara mensagem à administração de Obama e ao centro financeiro.
Até a noite desta segunda, 19, a intenção dos Adbusters era permanecer no local até que o governo ouça todas as demandas do movimento. Entre as organizações que se juntaram à manifestação está o Anonymous, a comunidade mundial de hacktivismo.

A mídia corporativa brasileira seguiu os passos dos veículos internacionais conservadores. Poucas linhas em um ou outro portal e quase nada na TV, rádios e impressos. Sem surpresa. Afinal, as manifestações no Oriente lutam contra ditaduras “visíveis” aos olhos das grandes corporações, mas os protestos em solo estadunidense, no templo maior do sistema financeiro mundial, abriga um tipo de “regime ditatorial” que sustenta muitas das produções jornalísticas planeta afora.

Presos na “América”
Na manhã de ontem, barreiras de segurança cercavam a Bolsa de Nova York. A polícia da cidade informou que prendeu pelo menos sete pessoas que protestavam no local. Segundo informações da Bloomberg, duas foram presas por tentarem entrar no prédio ocupado pelo Bank of América e outra por ultrapassar a barreira policial. Outros quatro foram detidos por usarem máscaras, infringindo a lei estadunidense que proíbe uso por dois ou mais participantes de uma manifestação.

O esforço da polícia novaiorquina ocorreu num evidente empenho para evitar que a mobilização crescesse e chegasse com força à mídia. A maioria dos acessos à Bolsa de Valores foi fechada com o intuito de encurralar os manifestantes e diminuir o tamanho do ato.

Eixo
Em 6 de outubro foram programadas novas manifestações
O movimento, declaradamente, se inspirou na Primavera Árabe, ocorrida em vários países do Oriente neste ano, e na Porta do Sol, mobilização promovida pelos jovens “indignados” da Espanha, entre maio e junho passados. Em comum, a organização via rede, sem contar com o apoio da repercussão midiática tradicional, e a direção contra crises (políticas e econômicas) geradas por sistemas políticos corruptos e excessos do capitalismo.

Claro que o Ocupar Wall Street não teve a dimensão física do que ocorreu nas nações árabes ou mesmo em Madri, mas, consideradas as condições sócio-históricas dos EUA, o ato mereceria muito mais do que a cobertura discreta que lhe foi feita.

Agora, os manifestantes prometem voltar à carga em 6 de outubro próximo, com manifestações programadas para a capital do poder político estadunidense, Washington. Por enquanto, pode-se acompanhar as ações pelas redes sociais por meio da hashtag #OcuppyWallStreet ou pelo canal da rede http://www.livestream.com/globalrevolution

Moriti Neto é jornalista e colunista do Nota de Rodapé

Com informações da Telesur.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Os algorítmos são os novos editores?

Para Eli Pariser (ex-programador de computadores e atual ativista e cientista político), nesta palestra durante o TED, "a internet nos mostra aquilo que ela pensa que queremos ver, mas não necessariamente o que precisamos ver".

Ele se refere aos algorítimos usados nos resultados de pesquisa do Google, Facebook e afins. Um mesmo tema, de acordo com a relevância, aparece de diferentes formas (personalizadas) para os usuários da rede.

Cita dois amigos que digitaram Egito no Google. Para um deles, nenhuma informação sobre as revoltas na praça Tahir e para o outro, várias informações.

Critica, nesse sentido, a "relevância" como principal mecanimos de captação de informações e pede que os fazedores de algorítimos levem em conta outros fatores que ampliem nossa visão de mundo.

Já que do jeito que está, temos uma internet "editada" de modo a não sermos expostos a ideias e opiniões diferentes das nossas.

A apresentação do TED diz o seguinte: "a medida em que empresas da Web se esforçam para fornecer serviços sob medida para nossos gostos pessoais (incluindo notícias e resultados de pesquisa), acontece uma perigosa e não intencional consequência: Caímos na cilada dos "filtros-bolha" e não somos expostos à informações que poderiam desafiar ou ampliar nossa visão de mundo. Eli Pariser argumenta vigorosamente que isto, definitivamente, mostrar-se-á ruim para nós e para a democracia."

Meio confuso? Veja o vídeo abaixo.

O tempo da delicadeza

A cidade se transformava com a chegada do Anúncio. Primeiro eram os pássaros que se punham a cantar, em coro, todos eles, a mesma melodia; logo um vento vindo do Sul varria as calçadas e fazia tocar o sino da
igreja.

As visitas de Anúncio eram um acontecimento em minha vida. Eu, que jamais saíra daquela aldeia, via no profeta uma ligação, a única, com o resto do mundo.

Aquele homem era um enigma. Às vezes chegava ao povoado descalço, barba e cabelo enormes e roupas em frangalhos – era quando ele se parecia a um ancião (alguns juravam que ele tinha mais de cem anos).

Passados alguns meses ele voltava com um chapéu na cabeça, calça e camisa branca impecáveis, e era um garoto de 18 anos com seu violão na mão.

Ele se sentava na praça e esperava que nos reuníssemos a seu redor para começar a falar. Contava sobre o que havia para lá da ponte, falava sobre os mares que tinha cruzado, sobre a neve, os vulcões e terremotos que tinha visto. E nós viajávamos junto com ele.

Então eu ou (alguém) lhe pedia: “Anúncio, toque uma canção, por favor”, e aquela figura seca, dos dedos longos se punha a dedilhar naquele violão surrado músicas lindas. Cantava em idiomas que nós jamais soubemos quais eram e emocionava até os cachorros. A cidade parava para ouvi-lo.

Então eu (ou alguém) lhe pedia: “Anúncio, nos diga uma poesia, por favor”, e ele se colocava de pé sobre o banco da praça e disparava uma centena de palavras lindas, que faziam até o padre desabar em choro.

Trazíamos comida e oferecíamos nossas casas, mas Anúncio nunca aceitava; se banhava no rio, sempre nu, e se secava ao ar livre – sob o olhar curioso de todos nós. Ele nunca sentia frio e dormia embaixo de qualquer árvore.

Anúncio demorava meses para passar pelo povoado, mas ficava apenas alguns poucos dias conosco. Antes de ir embora, dizia sempre o mesmo.

- É chegado o tempo, meus irmãos. O tempo da delicadeza! É chegado!

- E como será isso? -, nós perguntávamos.

Com aqueles olhos da cor do infinito, que nos hipnotizava, ele explicava:

- De repente, o dia vai voltar-se noite. Nuvens negras cobrirão o céu de ponta a ponta. Uma chuva de pingos que romperão os telhados começará a cair. Mas antes de chegar ao chão, as gotas vão se transformar em pétalas de flor, que hão de colorir toda a cidade. E o ruído dos trovões se transformará em uma melodia que fará com que todos, sem saber por que, saiam de suas casas e se ponham a dançar
pelas ruas. Chorando, as pessoas irão se abraçar e dançarão por toda a noite, esperançosas de que aquela chuva e aquela música nunca acabem. Dos muros brotarão poesias escritas com sangue dos que já se foram, e as mulheres, sem estarem grávidas, começarão a parir a nova geração…

O semblante de Anúncio mudava depois da fala e entendíamos que ele já não diria mais nada. Eu o acompanhava até a ponte, curioso para saber mais sobre a nova era, mas ele sempre ia embora calado.

E teve um tempo em que Anúncio não voltou. O novo padre nos trouxe a notícia de que ele fora morto em uma emboscada não muito distante de nosso povoado. O homem que o atacou foi encontrado desarvorado próximo ao corpo do profeta e contou ao delegado que confundiu o Anúncio com o violador de sua filha. Na primeira estocada de canivete, da barriga de Anúncio voaram pássaros e surgiu uma luz tão forte que deixou o justiceiro cego para sempre.

Hoje, na cadeia, esse homem conta que, desde aquele dia, sente uma dor que lhe queima o peito. Diz que sonha todas as noites com o profeta e promete que quando sair livre correrá o mundo anunciando a chegada da nova era, o tempo da delicadeza.

Ricardo Viel escreve às segundas no NR e no Purgatório.

domingo, 18 de setembro de 2011

Ganhadores do livro Jornal Movimento

Os ganhadores do livro Jornal Movimento, uma reportagem, de Carlos Azevedo com reportagens de Marina Amaral e Natalia Viana foram escolhidos pelos colaboradores do NR.

Entre os que votaram nas respostas mais interessantes estão Ricardo Viel, Natalia Mendes, Fernando Evangelista, Fernanda Pompeu, Izaías Almada, Andrea Dip, Fabiana Cardoso e Moriti Neto.

As respostas dos ganhadores a pergunta:
"Por que a imprensa independente é cada vez mais importante nos dias atuais?"


Porque a verdade não é absoluta, portanto diversidade de pontos de vista e democracia para emitir e receber informação é essencial para obtermos a verdadeira liberdade que tanto se fala em comerciais de TV e pouco se vê na prática em nosso país.
Wender Milani Viegas Carbonari

A imprensa independente é tão importante no processo democrático, porque ela é a única oposição que pode haver. E isso não quer dizer que precisa ser sempre do contra, mas questionadora, articulando as informações, de maneira que o cidadão possa se conscientizar e selecionar razoavelmente seus representantes. Afinal, os grupos políticos, seja de qual partido fizerem parte, estão em sintonia, visando primeiramente o poder, trabalhando nos bastidores, sem o mínimo de transparência.
Jussara Leite

Quando os grandes grupos midiáticos deixam de publicar o que é de interesse público, é o momento de uma outra imprensa, comprometida com a sociedade, se organizar.
Mirna Tonus

sábado, 17 de setembro de 2011

Cansei...















Cansei.

Cansei dos hipócritas, dos falsos moralistas, dos “espertos”.

Cansei dos que entendem de tudo,

Dos que dão palpites sobre tudo,

Dos que não concluem nada.

Cansei da direita burra

E dos esquerdistas de ocasião.

Dos que não pensam o futuro.

Dos que cultuam o passado.

Cansei da liberdade de opinião

Que esconde a opinião contra a liberdade.

Cansei do fingimento, das mentiras da imprensa,

Dos analistas de fundo de quintal.

Dos que combatem a corrupção nas ruas

E a praticam em casa ou nos escritórios.

Cansei da religião mercantilizada,

Da fé a serviço do dinheiro.

Cansei dos “machões” da Avenida Paulista,

Das feministas da boca para fora,

Dos líderes do mundo ocidental e cristão,

Das celebridades de televisão.

Cansei do “glamour” dos idiotas,

Da sociedade de classes e seus defensores sem classe,

De certos acadêmicos,

Do Salgueiro ou das universidades.

Cansei do culto à boçalidade,

Da falsa ciência,

Da falsa antropologia,

Da falsa filosofia,

E do falso saber.

Cansei dos economistas de botequim,

Dos especialistas em coisa nenhuma...

Cansei dos pênaltis não marcados

Dos resultados arranjados

Dos crimes organizados

Dos telejornais ensebados

Dos âncoras bem maquiados

Dos galãs embolorados

Dos modernismos forçados

Do charlatanismo rebuscado.

Dos supremos tribunais

E seus ínclitos togados

Acima do bem e do mal.

Cansei do Congresso

E de muitos congressistas

Verdadeiros malabaristas,

Equilibristas e ilusionistas

Do tesouro nacional.

Cansei dos juros bancários,

Indecentes, extraordinários,

Dos impostos sonegados,

Dos dinheiros lavados.

Cansei dos ‘reality shows’

Da miséria cultural

Vestida com arrogância

Vendendo gato por lebre

Transformando o cidadão

Num idiota normal

Inoculando o medíocre

Como coisa natural.

Cansei das ‘famiglias’,

Dos lobbies dos bancos,

Dos lamentos inúteis.

Cansei, sobretudo,

Da turma do CANSEI!

Izaías Almada é dramaturgo, escritor e colunista do NR

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Em quadrinhos, uma história da guerra ao terror

A reportagem abaixo é primeira publicada da parceria do blog Desenho da Notícia com o NR. 

"É curioso que o jornalismo faça tão pouco uso das histórias em quadrinhos. Filhos do casamento da imagem e do texto, estes dois gêneros têm um potencial enorme para construir juntos uma linguagem própria, possivelmente mais dinâmica e comunicativa. Com esta proposta nasce o Desenho da Notícia, um blog criado para explorar o casamento destas duas linguagens e oferecer ao leitor reportagens sobre os mais diversos temas do cotidiano por meio da narrativa sequencial", escreveram os autores Carolina Lopes e o desenhista Ricardo Morelatto.

Para dar mais leitura, clique na imagem. E deixe sua opinião.

Ree feed

Carolina Lopes é jornalista editora do site www.jornalismoeducativo.com.br. Produz reportagens em quadrinhos para o blog www.desenhodanoticia.com.br com o desenhista Ricardo Morelatto, criador do blog www.fosseisimaginarios.com.br

Igualdade racial é pra valer

Campanhas assim ainda são necessárias até que não sejam mais necessárias.

"Com o tema: Igualdade racial é pra valer, a campanha propõe uma mobilização por um País sem racismo, onde todas as pessoas tenham os mesmo direitos.

Um país onde mulheres e homens, independentemente da sua cor, possam crescer e exercer sua cidadania de forma plena, desfrutando igualmente dos direitos econômicos, culturais, sociais, civis e políticos, sem distinção. Um grande movimento para unir o Brasil de ponta a ponta, como uma grande nação.

Abrace essa causa.

Todos podem e devem participar. Empresas públicas e privadas, agente financeiros, clubes esportivos, indústrias, comércio, movimentos sociais, associações comunitárias e, sobretudo, todos os brasileiros. O importante é mobilizar o país, promover ações em todas as camadas sociais, conversar abertamente sobre o assunto, buscar soluções e dar um passo à frente nos caminhos pelo fim do racismo."

Acesse e participe: www.igualdadepravaler.com.br

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A boa é a do vizinho

Egípcios, chineses, maias, gregos, romanos? Sabe-se lá quem inventou as piscinas. Mas a ideia de um tanque cheio de água para a gente se deleitar, mais ou menos pelados, sempre fascinou. A palavra vem do latim e, é logico, tem a ver com peixes. Apesar de nas piscinas atuais ter de tudo, exceto peixes. Em Roma e em Jerusalém, volta e meia, operários vão escavar e pumba! dão de cara com os restos arqueológicos de uma piscina.


Ao que parece, essas piscinas eram públicas, ou então coletivas antecipando as piscinas de clubes. Quem tem mais de 30 anos e mora em Sampa deve se recordar do Bidezão de Pinheiros, um clube-piscina. O Google sopra que a primeira piscina aquecida nasceu na Roma Antiga, patrocinada por Gaius Maecenas, protetor das artes e dos prazeres. Por causa desse cara surgiu a palavra mecenas.

Cultura de almanaque à parte, foi o cinema do século XX, mais propriamente Hollywood, quem glamurizou as piscinas. Pôs nas nossas cabecinhas a associação entre piscina e sensualidade. Homens e mulheres, chiques no último, começavam e terminavam tórridos relacionamentos dentro ou à beira do tanque azul. Às vezes perdiam até a vida. É só lembrar do desastrado roteirista morto à bala na piscina do filme O Crepúsculo dos Deuses.

Brasília também deu sua contribuição à épica das piscinas. Avisou que não é só glamour, é poder também. Basta observar a cidade quando o avião se aproxima da pista do Juscelino Kubitschek. Com perdão do trocadilho: é um mar de piscinas. Dá para ver os tanques de água nas avantajadas residências de funcionários graúdos, senadores, empresários, lobistas, arrivistas.

Seja porque seja, nós - os da arraia-miúda - também embarcamos no desejo das piscinas privadas. Tudo bem. Não precisa ser grande, pode ser 2 por 3 metros. Não precisa ser de azulejo, pode ser de plástico, vinil, fibra de vidro. Não precisa ser construída, pode ser pré-fabricada. Pode ser molha-bunda, banha-tornozelo. Mas é uma piscina. O drama é que se você não dispuser de empregados, criadagem, esses tanquinhos de água dão um trabalhão. Se deixar para lá e não limpar, os Aedes Aegyti fazem a dengue.

Falo por experiência. Aluguei uma casa com piscininha no quintal. Confesso que nos primeiros dias exultei: "Subi na vida." Então veio a virada. A água está sempre gelada. O piscineiro toca a campainha duas vezes por semana e recebe 120 reais todo dia vinte. Foi aí que outro dia um taxista, aqui da vila Madalena, sintetizou a coisa: "Piscina boa é a do vizinho. Aquele vizinho legal que convida a gente para um churrasquinho, uma cervejinha e uns mergulhinhos. Na piscina dele, é claro."

Fernanda Pompeu, redatora freelancer, colunista do NR e da ONGPi, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Na capa: uma retrospectiva da guerra ao terror

Uma retrospectiva. O Pointer.org, fez um troço interessante. Copilou primeiras páginas de jornais de 2001 até 2011 - do ataque a WTC até o assassinato de Bin Laden - década da chamada “guerra ao terror”.

Uma história desses 10 anos por meio das páginas de jornais de todo o mundo. Vale a visita

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Sobre ser Horácio ou Maga II

(continuando…)

Horácio vive na constante busca por algo que, pela falta de melhor definição, estipulou-se chamar de felicidade. E vê num universo totalmente diferente do seu a possibilidade de alcançar esse paraíso. A atração dele por Maga é também o encanto pelo que, para ele, é inexplicável: o “mundo-Maga”.

O mergulho nesse cosmos caótico cheio de encanto termina por deixá-lo só e louco. Há, inclusive, quem jure que Horácio cometeu suicídio – hipótese que Cortázar rechaça.

Mas era preciso mergulhar tão fundo? Dentro de todo Horácio também não mora (ou deveria morar) um adormecido lado Maga?

Gregorovius, um dos amigos do casal imortalizado por Cortázar, parece crer nessa hipótese: “A sensação é que Horácio carrega no bolso aquilo que está procurando”.

Mas como, então, usar esse outro lado? Como sair do quadro para vê-lo de fora? E como voltar para dentro dele?

Em Rayuela, Cortázar nos faz enxergar a existência de mais de uma realidade. O livro pode ser lido de várias maneiras. A história que existe são várias e o leitor é instigado a ajudar a contá-las.

Múltiplas realidades; múltiplos desfechos; histórias que podem ser contadas de várias formas, sem começo nem fim. Se é assim, por que não ser Horácio nesta semana e Maga na semana que vem?

Transitar entre o lado de lá e o lado de cá do quadro… Utopia?

Ricardo Viel escreve às segundas no NR e no Purgatório.

sábado, 10 de setembro de 2011

Canto de um Povo de um Lugar (Caetano Veloso)




Canto de um Povo de um Lugar
(Caetano Veloso)

Todo dia o sol levanta
E a gente canta
Ao sol de todo dia

Fim da tarde a terra cora
E a gente chora
Porque finda a tarde

Quando a noite a lua mansa
E a gente dança
Venerando a noite

Madrugada, céu de estrelas
E a gente dorme
sonhando com elas.

Caco Bressane, arquiteto e ilustrador, colaborador do NR  

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Marchemos por liberdade e não por mais controle

Será que manifestação popular é sempre democrática, não importa se reivindicando controle ou liberdade? Tudo bem, manifestação popular é sempre popular. Mas será o uso que se faz, dela, democrático?

O que está atrás da cortina é que me preocupa. Não se percebe ao primeiro perfume, mas demanda por controle sempre exala um fedor autoritário na última nota da fragrância.

Por isso, se me convidam para marchar por mais liberdade, contem comigo. Se for para marchar por mais regras, para apontar o dedo no nariz alheio, estou fora! Tendo sempre mais ao bom selvagem do Rousseau do que ao lobo do homem, de Locke!


Lembro até hoje de um episódio que me ocorreu em sala de aula na PUC-SP, lá pelos idos dos noventa, quando cursava a faculdade de jornalismo. O professor - de disciplina que não me recordo agora - convidara o representante de um obscuro instituto de imprensa para debater os perigos da Internet com seus alunos.

O homem clamava à regulamentação o tráfego de conteúdo na Internet, bradando então por maior fiscalização, legislação e punição dos criminosos - indignado que estava com a pedofilia que assolava a rede, ameaçando cidadãos de bem.

Queria filtrar todo o tráfego, ignorando por completo a revolução que a nova forma de comunicação, um tanto anárquica, viria a realizar (a Internet e não a pedofilia, que fique bem claro!)

O dito queria saber das regras e somente delas, a qualquer custo! “É crime e ponto!”, ralhou comigo, quando cheio de audácia – mas tímido estudante, ainda - reagi à ideia de controle argumentando que o mesmo seria também usado para vigiar cidadãos de bem.

De nada me adiantou invocar os Foucault, Arendt, Orwell e Huxley na ocasião, tentando elevar o nível do debate. Sem separar joio de trigo, me imputara simpático ao crime, sepultando de vez a discussão na classe.

Não é preciso dizer que ninguém mais ousou se manifestar em contrário após discurso tão apelativo crivado dos ad-hominem que a pobre retórica dos moralistas sempre nos impõe. Aliás, semelhante em tanto aos arroubos de Afanásios, Al Borguetti e demais histéricos defensores da família, da moral e dos bons costumes. Só assim para calar qualquer questionamento sobre o mérito e qualidade de qualquer exigência por mais regras.

O que escapa a este argumento é que ninguém, em sã consciência, é a favor de crimes quaisquer a princípio - dos “contra a pessoa”, sobretudo! (Excluindo-se aqui, propositadamente, os “contra o patrimônio” - que, na maioria, já nascem das desigualdades sócio-econômicas – mas, mesmo para estes há punição suficientemente preconizada nos códigos penal e processual - para além dos direitos e deveres previstos na Constituição.

O que se debate é a necessidade ou não de mais e maiores controles - e as aberrações que podem daí surgir. Vale lembrar que à época, falava-se muito sobre um tal mecanismo echelon que registraria ideias e hábitos de todos os navegantes, com o objetivo militar de filtrar e identificar possíveis subversões, atividades terroristas ou hacktivismo; baseando-se em palavras-chave.

Aliás, não muito diferente do que se tornou a principal ferramenta de marketing do google: os cookies, que armazenam pesquisas pra te oferecer as deliciosas propagandas personalizadas, relacionadas às suas buscas.

Enfim, o tempo passou e a repulsa ao projeto da “Lei Azeredo” - também batizado de “AI-5 digital” pelos contrários à tipificação da lei como tal -, demonstra que a discussão não podia mesmo chafurdar em lama tão rasa. Com o aparente objetivo de prevenir pedofilia, fraudes bancárias, phishing scans e outros crimes cibernéticos, propõe-se o cerceamento de liberdade e do “anonimato” de todos os internautas.

Imagine um regime que propõe a quebra dos sigilos bancário, eleitoral e telefônico de todos os cidadãos do país compulsoriamente - tenham cometido crimes ou não, pelo simples prevencionismo, como no filme Minority Report!

Semelhante, em muito, à perfilação lombrosiana de potenciais psicopatas – técnica forense que identificava previamente possíveis riscos para a sociedade baseando-se em características morfológicas do crânio dos “voluntários”. Pois bem, era o que eu tentava argumentar àquele tempo com o diretor do tal instituto.

Contra a corrupção,
contra o comunismo, cansei!

O atual levante contra a corrupção, que a pendente aprovação da lei Ficha Limpa vem provocando, evoca páginas não menos curiosas de nossa história - todas travestidas de vestais da moralidade, mas, desta vez, consequentistas -: a UDN, a Marcha da Família com Deus pela liberdade e, mais recentemente, o movimento mauricinho batizado de “Cansei”.

Todos têm em comum, certa indignação contra o imponderável, contra o vento, diga-se. Lutando ora contra a “corrupção” ora contra o “perigo comunista”, mais tarde contra o “caos aéreo” e contra “as balas perdidas”.

O último traz à tona a inutilidade aparente dessas bandeiras. Querer mais controle, aqui, se torna equivalente a apelar a marginais que andem na linha. Ora! Se existe linha, quem anda à margem está fora e sujeito às barras da lei! Pra quê outra norma seria necessária? A punição já é descrita, tipificada, normatizada e regulamentada, resta aplicar a letra. Qual o sentido em se vindicar mais leis aqui?

Acho que o sentido mora em acreditar que só uma intervenção salva! Seja paternal, divina ou de Estado.

Em todo caso, não discuto tais sedes de vingança ou prevencionismos. Condenação prévia e demais leviandades que linchamento e shariahs moralistas desconsideram, não me interessa debater. Pra quem cruzou a linha, resta a lei.

Quero saber é onde se pode levantar esta linha e não onde desenhar novas. Estamos cometendo injustiça por conta dos excessos do riscado? Aí sim, o debate importa. Saber se a risca legal ou moral está passando por cima de gente não tão perigosa, por exemplo – condenando maconheiros ou gays, respectivamente. Para o bom convívio social, alguém tem que pensar na demanda por mais liberdade.

O resto fede a oportunismo, golpismo ou mero aparelhamento da despolitização juvenil. Claro que fiscalização de dinheiro público é importante. Mas já temos instituições saudáveis o suficiente para combater a podridão!

Corrupção é exceção da regra de um tabuleiro democrático, mas ainda assim condição sine qua non do capitalismo; onde a corrida pelo ouro é feroz e os fins justificam quaisquer meios para se obtê-lo. Deixemos de lado a mania de cagar mais regras, porque elas já existem! Indignação pelo que já está controlado não leva a lugar algum!

Marchemos pois, por mais liberdade onde se fizer necessário e deixemos a demanda por controle para quem compete, para não correr o risco de esvaziar nossa luta combatendo o vento!

André Bertolucci, jornalista, especial para o Nota de Rodapé

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Deus ex machina

Meu coração cambalhota como biruta de aeroporto quando atravesso a rua na frente de um desses 4x4 que mais parecem tanques de guerra de butique. Parrudos, possantes, velozes, cariríssimos. Suas rodas são enormes, quase de tratores. Seus para-choques estão mais para para-pedestres.

Projetados para subir por trilhas montanhosas, andar por caminhos com cascalhos e ralis de deserto. Feitos para cruzar pontes de madeira podre sobre rios selvagens ou voar pelas estradinhas de terra que levam ao churrasco com cerveja e piadas com uísque. Em suma, novos conquistadores de territórios já conquistados.

Mas na falta dessas oportunidades, eles - os carrões - rodam mesmo pelas ruas asfaltadas das cidades. Forçam passagem por vias estreitas e malconservadas. Na maior parte dos momentos, perdem a majestade de aventureiros para se tornarem elefantes em loja de louça. Tudo bem se a loja não fosse a esquina da minha rua e a louça não fosse eu.

Para gasolinar a nóia, invariavelmente esses carrões escodem seu proprietários-guerreiros atrás de isofilmes muito escuros. Ficamos sem ver se o motorista é uma velhinha, um pirata, uma louca ou um padre. Se não vejo a cara do condutor, como adivinhar se ele vai me deixar passar ou acelerar? Como saber se ele ao menos me viu? E se me viu, simpatizou ou odiou?

Esses automóveis são sobretudo indicadores de status. Não simplesmente status de poder aquisitivo, mas de virilidade e poder. Marqueteiros e publicitários do Tucson-Hyundai, SX4-Suzuki, CRV-Honda, Frontier-Nissan, Ford Explorer e congêneres capricham nas imagens de máquinas que tiram qualquer coisa - lama, pedra, troncos de árvores, insetos, duendes - do caminho.

Com seus haras no motor e carcaças robustas pulverizam obstáculos que atrasem a chegada ao seu destino. Por que não passariam por cima de mim, pedestre importuna? Pois sabemos que todo herói tem seus inimigos. Não há protagonista sem antagonista. Não há vitoriosos sem perdedores, nem valentes sem bravatas.

Não sou tão ingênua para pensar que Brasílias amarelas ou verdes, fuscas e kombis remanescentes e todos os 1.0 não atropelem transeuntes. Seres atrás de volantes podem mudar de personalidade. Conheço pessoas absolutamente gentis - das que não matam uma mosca - que se tornam furiosas quando dirigem.

Mas é fato que, também no trânsito, o meio é a mensagem. Land Rover, BMW, Porsche e a toda a família 4X$ soltam pelo escapamento CO2 e gases de arrogância. Não são os donos do mundo, mas a maioria acredita que tem prioridade sobre cruzamentos, lombadas, esquinas e pés-rapados a pé.

Fernanda Pompeu, redatora freelancer, colunista do NR e da ONGPi, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Mapa curioso do Brasil

O jornalista e colaborador deste NR, Flávio de Carvalho Serpa, postou no seu facebook um infográfico muito interessante produzido pela britânica The Economist.

É o mapa do Brasil, segundo a revista, "na vanguarda dos países emergentes", em que os PIBs de nossos estados são comparados com países do mundo que tenham os PIBs equivalentes. Por exemplo, o PIB per capita de Alagoas equivale, pasmem, ao da China.

Não faz muito tempo, postei aqui outro infográfico da The Economist no mesmo estilo. Só que era o mapa dos EUA

Confira abaixo. É só correr o cursor do mouse de acordo com sua curiosidade. Em inglês.

Nossa água nas mãos das grandes corporações

De Rondônia ao Rio Grande do Sul, passando pelo interior de São Paulo, setor privado mostra voracidade para obter monopólio de recursos estratégicos

Agosto de 2011. Somente um mês após a privatização do abastecimento de água e esgoto, os moradores de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, se surpreenderam. A maioria das contas sofreu aumento, contrariando as promessas de redução da tarifa, feitas pela prefeitura e a empresa Foz do Brasil, concessionária que assumiu os serviços. As reclamações dos usuários foram parar na imprensa local. Houve caso de morador que gastou apenas um metro cúbico de água e teve que pagar R$ 33.

Antes, no mês de fevereiro, Santa Gertrudes, cidade do interior de São Paulo, passou por situação semelhante. O reajuste aplicado nas contas de água após a privatização do serviço causou protestos entre os moradores. Há casos em que o aumento chegou a 700%. Além dos aumentos abusivos nos preços, outra coincidência: a empresa concessionária também é a Foz do Brasil, braço do Grupo Odebrecht.

Mercadoria 

Com a crescente busca pela privatização no setor de água, o consumidor pode ter mesmo pela frente contas mais altas. A avaliação é de organizações sociais nacionais e internacionais que participaram, em julho, de seminário que debateu como a população pode se organizar para impedir a venda das empresas.
De acordo com representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) 90% da rede de distribuição de água no país são controlados por empresas públicas, com uma cobertura de quase 100% das grandes e médias cidades.

Para o MAB, um negócio que não requer grandes investimentos (já que conta com estruturas prontas, criadas com dinheiro público) e movimenta anualmente cerca de R$ 120 bilhões – mais que todo o setor elétrico – desperta o interesse da iniciativa privada.

A elevação dos custos ocorreria pela própria lógica do sistema privado, que adota um modelo de reajuste estabelecido em preços internacionais. Representantes das organizações preveem um aumento imediato nos preços, além de uma diminuição dos investimentos no setor.

Os participantes do seminário denunciaram práticas ilícitas em alguns estados do país. Em Rondônia, na região norte, representantes do Sindicato dos Trabalhadores das Empresas de Água e Energia afirmam que empresários assediam vereadores.

A entidade também denuncia que, em alguns municípios, as prefeituras têm desconsiderado processos legais, como a licitação para a concessão do sistema de abastecimento, exemplo ocorrido na cidade de Ariquemes. Contra a privatização, os sindicalistas avaliam que as empresas privadas investirão menos na ampliação da rede e, principalmente, em saneamento.

Guaratinguetá:
inspiração para Atibaia


Em maio deste ano informações dão conta de que o Saneamento Ambiental de Atibaia (SAAE) começou a debater internamente uma proposta de mudança no modelo de gestão do saneamento básico.

Tomando como exemplo o padrão adotado na cidade de Guaratinguetá (SP) o poder público atibaiense busca a iniciativa privada para angariar recursos financeiros ao setor. A justificativa é que, sozinho, não conseguirá alcançar metas de saneamento básico previstas em lei federal (lei 1.445 de 2007) que diz, por exemplo, que os serviços devem ser universalizados.

Na proposta, a Prefeitura tenta que a Câmara de Atibaia aprove projeto de alteração de regime jurídico do SAAE (de autarquia para empresa pública) o que possibilitaria, como em Guará, a contratação de uma Parceria Público Privada (PPP).

O esforço da Prefeitura é tamanho que, em meados de julho, antes de qualquer chamado para audiências públicas e com atropelamento do tempo que deveria ser direcionado a estudos minuciosos e debates amplos, o vice-prefeito em exercício, Ricardo dos Santos Antonio (PT) solicitou sessão extraordinária no Legislativo, em pleno recesso parlamentar, para votar a proposta.

A sessão foi recusada pelo presidente da Câmara, vereador Emil Ono. No entanto, na próxima segunda-feira, 5, é provável que o projeto seja votado pelos vereadores sem que algumas repostas consistentes e definitivas.

No caso da alteração de regime, embora a direção da empresa afirme que nada vai mudar para quem fez carreira no SAAE, a modificação coloca condições diferentes nas relações de trabalho, ameaçando empregos e direitos adquiridos, o que preocupa funcionários e consumidores. Por exemplo, existe a súmula 390, do Tribunal Superior do Trabalho (TST) que prevê a perda da estabilidade dos funcionários concursados se houver a mudança para regime de empresa pública.

Sobre as relações de consumo, se deixar de ser uma autarquia, a empresa perderá a isenção de diversos impostos, como PIS e Cofins, ligados à seguridade social. Essa diferença será ou não repassada para as tarifas cobradas da população? Não se sabe até o momento.

Guará: primeiro o esgoto;
depois a água 


A Companhia de Serviço de Água, Esgoto e Resíduos de Guaratinguetá (SAEG) é apontada pela atual administração atibaiense como exemplo de solução para atingir metas da lei federal de saneamento, bem como um instrumento capaz de sanar finanças.

Em Guará, o argumento para a mudança e a entrada do setor privado na gestão de saneamento era que o poder público não teria condições econômico-financeiras de manter a instituição após a sanção da lei federal em 2007.

Já em 2008, o Serviço Autônomo de Água, Esgoto e Resíduos de Guaratinguetá (SAAEG) mudou o regime jurídico – de autarquia para empresa de economia mista – tornou-se SAEG e instalou uma PPP.

O Grupo Queiroz Galvão, detentor da Companhia de Águas do Brasil (CAB Ambiental) em tese, seria a solução dos problemas da antiga autarquia de Guará. Não é o que se vê.

No último dia 1 de junho, o prefeito de Guaratinguetá, Junior Filippo (DEM) encaminhou à Câmara Municipal do município um projeto de lei solicitando autorização legislativa para a concessão da água na cidade. Trocando em miúdos, fazer da água uma mercadoria a ser vendida à população sob a tutela da iniciativa privada.

A alegação era de que a capacidade de investimento de Guará é baixa, por isso a decisão de estreitar relações com o setor privado. No dia 30 de junho, em sessão ordinária, os vereadores votaram e aprovaram o texto “em regime de urgência”, por oito votos a três.

A propósito, a CAB Ambiental é o elo das propostas de Atibaia e Guaratinguetá. Além de já estar presente no saneamento da SAEG de Guará, ela é quem fez o projeto de PPP para o SAAE de Atibaia.

Justiça rescinde
contrato da CAB no Paraná


A Justiça de Paranaguá, no Paraná, determinou a rescisão do contrato entre as empresas CAB Águas de Paranaguá S/A, sub-concessionária que administra o serviço de abastecimento e saneamento na cidade, a Companhia de Água e Esgotos de Paranaguá (CAGEPAR) e o município.

A decisão, de caráter liminar, atende ação civil pública apresentada em maio deste ano, pelo Ministério Público do Paraná. A Promotoria de Justiça da comarca sustenta que a empresa deixou de cumprir diversas obrigações contratuais, resultando em grave prejuízo financeiro aos cofres públicos, sem contar a má-qualidade do serviço que é oferecido à população e o desrespeito à legislação.

O juiz que acatou os argumentos do MP impôs prazo de oito meses para que a administração municipal volte a assumir o serviço hoje prestado pelas empresas. Em caso de descumprimento, a prefeitura deverá pagar multa diária de R$ 10 mil.

Os promotores de Justiça apontaram diversas ilegalidades, como o não pagamento de encargos aos cofres municipais e o descumprimento recorrente de várias cláusulas contratuais, que implicaram na não realização de investimentos em melhoria do serviço e, consequentemente, prejuízo direto para a população.

Na decisão, o juiz chega a transcrever trecho da medida do MP-PR, que resume a situação: “Aproximadamente 45 anos após a assinatura do contrato de concessão de exploração dos serviços de água e esgoto e, após 14 anos da assinatura do contrato de subconcessão destes serviços, nem a Cagepar e nem a Águas do Paraná executaram satisfatoriamente, nem o Município exigiu tal implemento”.

O juiz também destaca: “Frise-se, após 14 anos do contrato de sub-concessão, não há sequer 5% de rede reparadora de esgoto no município de Paranaguá”. Por contrato, a empresa deveria ter implantado 85% do sistema de atendimento de esgoto até 2003.

Além disso, a Águas de Paranaguá havia se comprometido a construir reservatórios com capacidade de 17mil m3 até 2001, sendo que, até 2005, instalou apenas um reservatório, com capacidade de 1 mil m3.
Em virtude disso e de outras situações, em março deste ano, quando houve uma enchente na região, os moradores da cidade ficaram sem abastecimento de água por vários dias. “As fortes chuvas do início do ano nos deram a prova material de que o sistema era de fato frágil e que a população corria risco”, afirmam os promotores de Justiça autores da ação.

Eles estimam que, no total, o descumprimento de cláusulas contratuais que implicavam em investimentos na rede de água e esgoto e o não pagamento de encargos resultaram em um rombo de cerca de R$ 60 milhões aos cofres públicos.

Em comum com Atibaia e Guaratinguetá, a cidade de Paranaguá tem a mesma empresa como a parte privada – já instalada ou pretendida – dos serviços de água e esgoto: a CAB Águas de Paranaguá, empresa que a Justiça determinou a rescisão de contrato no Paraná, é um dos muitos braços da CAB Ambiental e do Grupo Galvão estendidos Brasil afora.

Como se vê, Foz do Brasil e CAB Ambiental, tentáculos de grandes corporações, vão expandindo as atividades na área de água e esgoto pelo país. Poucas empresas com interesses privados controlando recursos de tamanha importância estratégica e futura, colocam o Brasil, nesse setor, caminhando na contramão mesmo quando se fala de países ferrenhos defensores das privatizações.

Na Europa, experiência
negativa e volta atrás


O doutorando da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Juscelino Eudâmidas diz que, de acordo com pesquisas internacionais, até 2015, cerca de 60% da capacidade de abastecimento da América Latina estará privatizada. Contudo, ele destaca que, nos países ricos, onde a ideia da privatização surgiu, os governos estão voltando atrás.

"O Estado francês, onde surgiram as primeiras experiências de concessão do sistema de distribuição de água, está reestatizando todo o serviço. Eles viram que a qualidade do serviço e da água caíram, os preços subiram exorbitantemente e o serviço não foi universalizado", diz Eudâmidas.

Representantes do Movimento dos Atingidos Pelas Barragens destacam que a Itália, por meio de referendo, decidiu, em junho passado, que o sistema de água deve ser gerido por empresas públicas.

Onde está a
participação popular? 


Se na Itália a população do país foi consultada para votar o modelo de gerenciamento da água, em Atibaia não houve sequer uma audiência pública chamada para debater a mudança de regime jurídico do SAAE e a contratação da PPP. A ação de convocar os contribuintes seria um sinal de respeito à democracia, principalmente pelo papel fundamental da empresa na história da cidade.

Até mesmo na polemica envolvendo a cidade de Santa Gertrudes, no interior de São Paulo, aqui narrada, o prefeito João Vitte disse que é praticamente impossível cancelar o contrato de concessão, já que ele foi amplamente discutido com a população por meio de audiências públicas. Além disso, o edital de licitação ficou um ano sob análise do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e foi elaborado conforme as regras do órgão.

Flagrante contradição

Evento curioso – e não menos contraditório e incoerente – ocorreu esta semana. O site oficial da Prefeitura de Atibaia exibia nota convocando para terça-feira, 6 de setembro, às 18h, no Fórum Cidadania, audiência pública para discutir a implantação do loteamento “Reserva de Atibaia”, na estrada dos Pires, bairro rio Abaixo.

O texto destaca que a “reunião é aberta” e que “audiências públicas são instrumentos que buscam colher subsídios para o processo de tomada de decisões do Poder Executivo. Elas também permitem aos cidadãos a oportunidade de encaminhar pleitos, sugestões e opiniões, além de darem publicidade a assuntos de interesse público”.

Enfim, uma incoerência, pois se audiências públicas existe para tratar de interesse público, porque o SAAE não as merece? Fica difícil compreender a noção de democracia se água e esgoto, temas de reflexos gigantescos para a saúde humana e ao meio ambiente, não são brindados com a possibilidade do debate franco e amplo.

Moriti Neto, jornalista, colunista do NR

Sobre ser Horácio ou Maga

“Você é como uma testemunha, é quem vai ao museu e olha os quadros. Quero dizer que os quadros estão lá e você no museu, perto e longe ao mesmo tempo. Eu sou o quadro (…), esta peça é um quadro. Você acha que está nesta peça, mas não está. Você olha a peça, não está na peça."

Não se trata de uma crítica. Lúcia, a Maga, não diz com cólera e nem para ferir Horácio. Faz, do seu modo, uma constatação sobre a personalidade do seu amor.

Tanto é assim que ela o inveja. Inveja sua erudição, sua facilidade de enxergar o quadro e teorizar sobre ele. Fato: quem está de fora vê o quadro todo, tem perfeita ideia do seu tamanho, das cores, proporções etc. Só que para alcançar isso é preciso não ser. E Horácio inveja a Maga justamente por ela ser/estar no quadro.

“Para que você quer usar óculos se você não precisa?”, diz Horácio – ele, que se retirar os óculos não enxerga nada.

Sem óculos, a Maga fecha os olhos e acerta perfeitamente o alvo. Mas isso só acontece porque ela não tem a menor ideia de que existe uma técnica, um complexo sistema para se atingir o centro – coisa que fascina e ao mesmo tempo frustra Horácio (que conhece a técnica, mas nunca dá no meio do objeto).

A história de amor entre eles (contada por Julio Cortázar em Rayuela) se alimenta por essa “dialética da bola e da parede”, como explica Horácio. Atração e repulsa; admiração e inveja; amor e desprezo. Seria esse o combustível do amor? Maga + Horácio é uma boa fórmula/receita?

Antes de acrescentar reticências neste texto – que terá desfecho na próxima segunda – deixo aqui mais um punhado de perguntas. Você, leitor(a), está dentro do quadro ou o observa (talvez por tê-lo pintado)? Você é um Horácio ou uma Maga? E se pudesse escolher, o que seria?

* Pode ser útil: Cortázar define a Maga da seguinte forma: “daquelas pessoas que derrubam pontes com o simples gesto de cruzá-las”. Horácio, sem dúvida, é um construtor (mais bem um projetor) de pontes.

(continua…)  

Ricardo Viel, jornalista, colunista do NR e do Purgatório. Escreve às segundas. 
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