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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Uma reflexão e uma proposta (espero) polêmica

Passou o Dia Mundial Sem Carro. Claro que a maioria das pessoas, desacostumadas a ficar sem seu carro, foram cumprir seus afazeres de carro, ainda que estivessem dando o maior apoio moral pro movimento.

O Dia Sem Carro foi coberto por vários veículos de comunicação e amplamente comemorado. É o tipo de ação que quase ninguém se opõe. Mas ontem um amigo me chamou a atenção: em seguida das notícia sobre o dia sem carro, quase todas as propagandas eram de carro.

Lembrando de um post recente no excelente blog do Sakamoto, é muita cara de pau vender um carro falando que ele vai a 300 km/h e tem um bilhão de cavalos de potência quando não há um pedaço de estrada no Brasil cuja velocidade máxima seja superior a 120 km/h.

Penso nisso quando vejo pessoas usando SUVs para se locomover até o mercado, a dez minutos, ou para ir na academia (!!!!) usando um carro enorme, super poluente e super caro. Penso nisso quando as pessoas parecem cada vez mais preocupadas em “consumir de maneira mais consciente”, o que se traduz em consumir mais, na verdade.

Seria bem melhor para o “verde” se as pessoas, em vez de consumir mais carros, mais poderosos, mais poluentes, mais espaçosos, de empresas que gastam uma triliardária verba publicitária para mostrarem como estão tão preocupados com o meio ambiente, levantassem a bundinha do banco do carro e andassem até a academia ou a padaria. Ou fossem de bicicleta, metrô, ônibus, bonde, teleférico...

Tenho perfeita noção do tamanho do fetiche que é o carro no mundo de hoje. O valor de um carro, é muito claro isso, não se resume ao seu valor de uso, ou seja, não basta um carro levar de um lugar pro outro. Para o consumidor médio, o carro é muito mais que isso. Por isso mesmo quero deixar aqui uma proposta que vai de encontro a isso e que pode, de fato, impactar esse mercado e os hábitos das pessoas:

- E se só fosse permitida a venda de carros com, no máximo, 1000 cilindradas?

- E que viessem com todos os itens de segurança, como air bag e freios ABS, de fábrica (isso já foi aprovado e entra em vigor em 2014 – hoje, esses itens são opcionais).

- E se todos os carros viessem com um sistema que restringe a velocidade máxima que ele atinge a 120 km/h?

- Estariam excluídos disso os carros de polícia, bombeiro e ambulâncias, claro. Além dos carros de corrida, etc.

Não seria mais efetivo que as elitistas e sempre presentes propostas de tirar os carros "mais poluentes" (leia-se velhos, de pobre), além de mais democrático?

Claro que as pessoas, com o dinheiro que têm, devem comprar o que bem entenderem. Mas quando falamos de um carro, falamos de algo que não diz respeito só à pessoa, mas também a todo mundo à sua volta que respira o ar, que tem que conviver com carros em alta velocidade ameaçando se descontrolarem e sendo projetados para pontos de ônibus, matando, mutilando, com o trânsito absurdo de milhares de carros, cada um com uma pessoa dentro, entre outros problemas... Nada contra quem gasta milhões com jóias, relógios, seja lá o que for.

Rodrigo Mendes de Almeida é jornalista e colunista do NR

3 comentários:

Fábio Bispo disse...

O individualismo da massa passa pelo fetiche do consumo, mas passa também pela necessidade frenética de batalhar pelo ganha pão diário, e logo comprar um carro maior e mais potente também. Em NY os magnatas usam pouco o carro, em Floripa não, PQ? Porque não temos um transporte decente, andar de ônibus é quase mais caro que lotar um carro com cinco pessoas para ir do continente até a UFSC. Leia-se ai que nosso direito de ir e vir passa ou pela dificuldade de pegar um busão lotado, caro e com poucos horários, ou trabalhar igual um condenado para pagar a prestação de um seminovo.
As pessoas pensam pouco nos outros, mas o poder político pensa muito menos. Transporte gratuito de qualidade já!!!

Busu em Aracaju disse...

Pois é. Se transporte público funcionasse como deveria, acredito que coisas do tipo "Vá de ônibus e deixe seu carro em casa" seriam aceitáveis. Mas não são. Moro em Aracaju e o transporte público aqui, como na maior parte do Brasil, é extremamente ineficiente. Podem olhar meu blog.

Me preocupo com o "verde" e faço parte dos que acreditam que carro individual não é a solução. No entanto, depois de ficar quase 3h todo dia dentro de um ônibus, em pé, com minha coluna latejando, sendo assaltado, sem lugar nem para se moviemntar dentro do õnibus, no meu primeiro salário, compro um carro. Olhem meu blog e vejam a realidade do transporte público em Aracaju.

maíra disse...

Rodrigo, de fato assunto assim é polemico... mas é sempre bom refletir sobre isso. Na minha opinião quando o assunto é o carro individual, marca registrada de uma sociedade consumista e individualista, nos deparamos com as questões: a comodidade e a ineficiência do Estado.
Mas é claro que também falamos de carros 'inapropriados' para a nossa realidade (falo dos que andam (correm) a 300 Km/h) é uma cultura esquizofrenica...

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