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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Realidade paralela

por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

E cá estou eu de novo, desviando-me da tão apreciada desocupação, mas é por uma boa causa. Rapidamente constatei que retomar o batidão da vida do escritório pode ser bem menos natural do que parece, apesar das décadas pregressas. O tempo faz o seu trabalho, bem caladinho, e nem precisa de plano estratégico corporativo.

Voltei a ter sobrenome institucional. O “sou de mim mesma”, que adotei quando encerrei essa carreira, em resposta à infalível pergunta “a senhora é de onde?”, que busca definir (e classificar) os seres humanos frequentadores desses ambientes, foi para um rápido intervalo no freezer.

Ressuscitado o crachá, começou a ciranda de reuniões. Logo na primeira, num alto gabinete da república, me senti numa realidade paralela, como se de repente eu entrasse num enredo que não era o meu, num cenário absurdo. Apesar da intensidade saariana do sol de agosto em Brasília, a parede de vidro aonde se encaixam grandes janelas basculantes estava tapada, de cima a baixo, por largas persianas verticais do tipo blackout. Com o sistema de ar condicionado a toda, começou a reunião de pessoas meio azuladas pela iluminação fluorescente, em torno de uma grande mesa, devidamente hierarquizada.

Ouvidos e neurônios destreinados bem que tentaram decifrar o grego falado ali. Em vão. Quando muito, consegui acompanhar o que disseram e anotar o que me soou relevante, pra depois repassar com quem está em dia com o dialeto, aí incluído o emaranhado de siglas, conexões e níveis de responsabilidade. Quando comecei a sentir o que esta breve reencarnação exigirá de mim, fui salva da danação eterna pela voz de Gilberto Gil soprando ao meu ouvido uma triste melodia, que parecia um prelúdio bachiano, um frevo pernambucano, um choro do Pixinguinha.

Inspiradíssima e curiosa canção(*), relato de um sonho em que o autor falava à plateia de um congresso mundial de economia. Enquanto ele, empoderado e convicto, argumentava em favor de mais trabalho, mais esforço, mais controle, apresentando estatísticas e gráficos que demonstravam os maléficos efeitos da teoria do lazer, do descanso e da poesia, um velho levantou-se da cadeira e saiu porta a fora assoviando e levando atrás de si a plateia inteira, até esvaziar o salão e deixar o preletor sozinho com seu portentoso powerpoint. O sonhador acordou assustado, se levantou e foi pra calçada ver o céu azul. Os estudantes e operários que passavam riam e gritavam: viva o índio do Xingu!

Conversando sobre tudo isto, inclusive a minha sensação de realidade paralela, alguém lembrou das promessas que nos fizeram algumas décadas atrás, de que a vida no trabalho se simplificaria muito com a tecnologia digital e as facilidades de comunicação em rede, dando lugar à possibilidade de instalação de uma cultura de ócio criativo, em que todos teríamos tempo para gastar com aquilo que fosse importante para cada um. A realidade - real ou virtual, à escolha do freguês - é bem outra.

(*) “Um sonho” - Gilberto Gil

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 Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

2 comentários:

Cecilia Cordeiro disse...

Muito bom!!!!! É exatamente como me senti, há pouco tempo, quando retomei esse cotidiano de trabalho! Só que nem tanto! Morando agora fora de Brasília, numa cidade praiana, as relações profissionais têm se apresentado muito mais humanas e calorosas!

Anônimo disse...

Basta de papéis, programas, relatórios ,reuniões infindáveis que levam a nada.A verdade é bem clara, evidente. Já devia ter sido vista pelos proclamadores de itens e mais itens ,de formas de comportamento , de minutos contados para execução de cada tarefa: basta de escravização ao senhor computador . Como diz o ditado : Na prática a realidade é outra".
Fico com a prática. Bjs da Mummy Dircim

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