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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Hippie de BR

por Carlos Conte   ilustração Marcelo Martins Ferreira

Nas últimas férias, dei carona para um sujeito chamado Gnomo. Gnomo é seu nome de estrada. Três anos na estrada, pegando carona e caminhando pelas BRs com sua pequena mochila e seu mostruário hippie feito de pano e canos de PVC.

– Valeu pela carona, brother! – tirou do próprio pulso uma pulseira de linha de bordado adornada com uma pedra azul e me deu. – Presentinho do Gnomo pra lembrar do brother da estrada!

Agradeci, amarrei no pulso e acelerei rumo ao sul. Saímos de Salvador com o sol nascendo. Nosso destino: Vitória.

– Vou terminar um Filtro dos Sonhos antes de chegar em Vitória. Peguei umas penas de arara no zoológico de Recife. O guardinha não queria deixar. Mas eu voltei lá depois quando ele não tava olhando. Vou fazer um Filtro dos Sonhos pra você com essas penas de arara. Curte?

Mesmo sem saber o que era um Filtro dos Sonhos, aceitei. Era a maneira de me retribuir, já que estava completamente liso. Penas de arara colhidas do chão não afetaram minha consciência ecológica a ponto de recusar. “Se ele tivesse arrancado da arara, recusaria”, pensei. Mas Gnomo era um sujeito pacífico. Sua matéria-prima vem da coleta. Na primeira parada, enquanto eu abastecia o carro e tomava um café, ele se ocupou catando coisas no mato atrás do posto de gasolina. Voltou com uma sacola cheia de materiais:

– Olha só, brother, achei umas coisinhas legais: pedra, semente, corda, arame, cipó... Seu Filtro dos Sonhos vai ficar massa: vai ser de galho de chorão! As pessoas jogam muita coisa boa no lixo. O que eles jogam fora eu uso na minha arte – orgulhou-se.

Encontrar Gnomo me fez lembrar de uma andarilha que pedia carona na viagem de ida. Fiquei mal por não ter dado carona pra ela. A mais de 100km/h, não deu tempo. Pedir carona exige estratégia e ela estava no lugar errado! Gnomo me explicou detalhadamente: tem que escolher um trecho de velocidade reduzida, de preferência trevo ou ponto de lombadas, e é preciso que o acostamento seja largo e longo, na verdade um recuo é o ideal para o carro conseguir desviar-se da pista sem provocar acidente.

– Você foi um anjo no meu caminho, Carlão! Carona de 2 dias não é toda hora que aparece!

Fiz questão de dar carona para ele porque, de certo modo, me sentia em débito. Quando vi a menina, já tinha passado por ela e logo atrás de mim vinham carros e carretas a toda velocidade... Acostamento estreito. Não teve jeito. Segui viagem. Agora era a vez de Gnomo e eu precisava dar essa carona, como se minha viagem ganhasse muito mais sentido com um estradeiro de verdade ao meu lado. Faz tempo que sou fascinado pela vida na estrada: desde que li On the Road pela primeira vez, Dean e Sal cruzando os Estados Unidos com uma mochila nas costas, ou o relato zen de Os Vagabundos Iluminados; desde que ouvi falar dos sadhus, monges andarilhos indianos que vivem de doações, de sol e de água; ou o relato de Che Guevara pela América Latina explorada e miserável; desde então, a viagem me fascina e não me canso de ir atrás de outros relatos de viagem: a desobediência civil de Thoureau, as andanças de Rousseau pelos bosques suburbanos, as perambulações opiáceas de De Quincey pela Inglaterra. E Gnomo, de certa forma, era a realização desse modo de vida (pelo menos no que diz respeito à simplicidade e ao nomadismo). Gnomo, meu copiloto. Mais de mil quilômetros ao lado do Vagabundo Solitário Gnomo, que sempre que encontrava oportunidade exaltava as qualidades de sua arte. “Arte hippie”, ele dizia.

Mas o encantamento durou pouco. Romantismo. Idealização. Os livros também falam do “lado B” da vida andarilha. Os beats nunca esconderam isso. A vida na estrada é dura, como se pode imaginar, e Gnomo estava definitivamente na pior. Em vários sentidos. Pra começar, estava duro. Convidei-o para almoçar: ele fez um prato gigantesco – “vai saber quando vou almoçar de novo?”. Contou-me seus infortúnios: a ex-mulher voltou para o Chile e levou o cachorro; a única filha está em Pernambuco sendo sustentada pelos avós; as vendas andam mal... Em Salvador, vendeu pouco e bebeu muito. “É a fase...”, lamentou-se. Agora precisava encontrar uns amigos em Belo Horizonte: fixar-se por um tempo, trabalhar bastante, juntar mercadoria e só então seguir viagem de novo. Por ora, seu mostruário hippie tinha pouco a oferecer aos fregueses, algumas pulseiras e brincos... Era preciso fazer uma parada estratégica até a temporada de fim de ano, quando as praias se enchem de gringos e paulistas. Mas enquanto dezembro não vem, trabalhar, esperar... Gnomo não escondia sua aflição. Ele sabia que estava na pior.

Em Teixeira de Freitas, pequena cidade perto da divisa com o Espírito Santo, paramos para dormir. Gnomo já havia anunciado que deixaria suas coisas no carro e iria se ajeitar na rodoviária, o lugar mais iluminado e seguro da cidade. Para ele, numa boa. Já estava acostumado a fazer isso. Mas eu não conseguiria dormir tranquilo pensando em Gnomo na rodoviária. Afinal de contas, éramos parceiros de viagem e aquilo não estava certo. Paguei 20 reais pelo pernoite dele, assim como paguei a carne de sol do jantar e a cerveja. Gnomo se encostava em mim sem nenhum grilo, resignado. Se não fosse em mim, seria em outro. Se não fosse em ninguém, seria pedindo, como um sadhu indiano. Mendigando. Virei umas pingas e fui me deitar, pensando em Gnomo. Pensava também como seria fazer como ele: escapar de tudo e viver na estrada, dormindo ao relento, conhecendo lugares novos, vivendo da natureza e da bondade dos outros. Mas havia as dificuldades, os “perreios”... E cheguei à conclusão de que Gnomo vivia num “perreio” eterno, embora ele não se importasse muito com isso. Talvez ele se importasse um pouco. Não sei... talvez eu me importasse muito mais do que ele.

Dia seguinte, cruzamos a fronteira de estados, Gnomo foi dormindo quase todo o caminho embalado pelo som de Gil: “O sonho acabou/quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou”.

O tempo na estrada vai rápido. 100km ficam cada vez mais curtos. “É logo ali...”, dizem os caminhoneiros, “É logo ali, só mais uns 100km...”. Para falar com caminhoneiro, é preciso se referir a grandes distâncias. Sempre que falava que tinha saído de São Paulo dias atrás, percebia que me olhavam com alguma consideração, porque sabem que essas BRs são sofridas pra cacete, ainda mais pra um carro de passeio. O lema dos carreteiros é “Veículo leve que saia da frente!”. Se não estiver alerta, eles passam por cima mesmo.

Entramos em Vitória quando anoitecia. Parei em frente à praia e anunciei a ele o fim da carona.

– Agora vou pra catedral, onde os brothers se juntam pra vender. Valeu pela carona, Carlão! Foi foda! Te agradeço de coração...

Antes de ir, me pediu umas moedas para o ônibus, pegou suas coisas e seguiu adiante, enquanto fiquei encostado no carro olhando para aquela imagem pequena, cheia de dreads que foi ficando cada vez mais escura e pequena até desaparecer no meio do tráfego. Dia seguinte, tentaria entrar clandestinamente no trem que vai pra Belo Horizonte. Mais um dia de viagem, nessa viagem tão incerta e fugidia que era o seu próprio modo de vida. Fiquei triste e admirado vendo Gnomo partir. Só mais tarde me dei conta de que sua sacola de “materiais” de coleta tinha ficado no banco traseiro. E o Filtro dos Sonhos prometido, feito de galho de chorão e penas de arara, vai ficar para a próxima.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Valparaíso não merece


por Júnia Puglia      ilustração Fernando Vianna*

A ideia era passar dois ou três dias em Pucón por minha própria conta, mas acabei desistindo devido à chuva incessante que cai no sul do Chile. Decidi, então, conhecer Vaparaíso e Viña del Mar, onde, apesar das várias visitas anteriores ao país, ainda não havia chegado. É que eu vinha sempre a trabalho, na correria. Agora chego como uma turista à toa, tão à toa que decido entrar num tour de um dia, a bordo de uma van. (Desnecessário mencionar que sete dos dez passageiros são brasileños, incluindo o casal “japonês”.)

Valparaíso é o porto marítimo mais importante do Chile. Já teve seus dias de maior glória, pelo salitre, pelo cobre e por ter sido escala obrigatória dos navios que saíam de Nova York e outros portos espalhados pelo mundo, levando todo tipo de aventureiro para a corrida do ouro na Califórnia. Imagine que, para ir da costa leste à costa oeste dos Estados Unidos, a pessoa tinha que fazer a volta do continente americano, passando do Atlântico ao Pacífico pelas águas turbulentas do Cabo Horn, e parar no porto chileno para descansar e reabastecer o navio. Veio gente do mundo inteiro, no ritmo do frisson global retratado em muitos livros e filmes. A inauguração do Canal do Panamá, em 1914, acabou com o intenso tráfego de passageiros, mas, felizmente, as marcas dessa gente toda que passou por aqui já estavam impressas na cidade.

Nada pesquisado no Google, mas relatado pelo nosso compenetrado guia, à medida que nos aproximávamos da cidade. Num estalo, lembrei-me de já ter lido sobre isto, há muito tempo, num livro de Isabel Allende, “Retrato em sépia”, ambientado nessa Valparaíso da corrida do ouro, e que estava perdido no sétimo cérebro. É bom sentir que a memória ainda é minha amiga. Instantaneamente, voltou-me o clima do porto coalhado de desconhecidos mal encarados, hotéis sórdidos, bordéis, contrabandistas, pintores, poetas, escritores, bêbados, estivadores, falsários e piratas. O que vi hoje é ladeado por autopistas modernas e abriga uns navios grandões, sobre os quais se encaixam gruas, como num jogo de Lego em tamanho gigante.

Um emaranhado de ruas, ruelas, planos inclinados, praças, edifícios e casas de todo jeito acompanha o sobe e desce das dezenas de morros que compõem a cidade, misturando estilos e épocas até não poder mais, vigiados pela bruma estacionada sobre o Pacífico. Fiquei com uma vontade danada de me enfiar por aqueles labirintos, onde, tenho certeza, encontraria coisas do arco da velha. Já aprendi que muitas cidades são senhoras discretas, só revelam seus segredos a quem os procura. Mas essa vida de turista programada não permite improvisar, então me submeto aos desígnios do tour, volto para a van e vou ver o relógio de flores e o moai de Viña del Mar.

Diga-se de passagem, em momento algum avistamos qualquer vestígio do terrível incêndio que há poucas semanas consumiu mais de três mil casas aqui. Dizem que foi num ponto voltado para outro lado, aonde a nossa correria não permite chegar.

Dá para notar rapidinho que Viña está para Valparaíso como a Barra para o Rio, ou seja, é um lugar construído para acolher os ricos que não queriam mais conviver com o furdunço ao lado, só que em escala bem menor, e o mesmo espírito de Miami.

Você não merece esta visita ridícula, Valparaíso. Prometo voltar e te fazer justiça.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O lugar que não existe


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

 Onde a civilização indígena se encontra intensamente com a latinidade, ao som dos trompetes onipresentes e das vozes onduladas de dezenas de grupos de mariachis. Um mar de barquinhos de madeira em cores berrantes, todos com nome de mulher. Lupitas, Carmelitas e Brendas em profusão, causando um engarrafamento dos mais divertidos, onde passam cozinhas flutuantes vendendo moles, tacos, quesadillas e salsas picantes à escolha do freguês. Mais brega impossível. Teimando em desafiar o inverno mexicano, o sol aquece ainda mais os nossos corações nesse incrível Xochimilco (pronuncia-se "Sotchimilco"), um lugar que não existe. Domingão que festejamos sem pudor, fascinados com as festas de aniversário, famílias com crianças e velhos, e até mesmo um grupo de judeus sisudos de cabeça coberta e senhoras comportadas, todos falando ao celular no meio daquele furdunço.

‏Outro ponto obrigatório é o mercado de San Angel, não só pela riqueza e sofisticação do artesanato, mas também pelo lindo bairro onde funciona, todos os sábados do ano. Quem sabe mais quemos mexicanos sobre as cores e seus poderes? Onde mais poderíamos encontrar máscaras de super heróis para adultos, com variedade e qualidade únicas? Sem falar nas caveiras, de todos os materiais, tamanhos e cores - e muito mais.

‏Mas uma megalópole de verdade tem seus infernos. Um que nos salta aos olhos e aos ouvidos aqui é o tráfego. Numa só palavra, insuportável. Mesmo assim, chama-nos a atenção a quantidade de mexicanos circulando nos locais de turismo, como quem diz "podem vir, amigos, entrem, visitem, aproveitem, a casa é nossa e nos orgulhamos muito dela".

‏Este detalhe surge na conversa que rola à mesa do jantar, sortudos que somos de estar, mais do que hospedados, acolhidos numa casa mexicana. Nossa adorável hospedeira nos situa, então, brevemente, na história do seu país, principalmente naqueles aspectos que mais orgulho lhe dão: o da identidade nacional tão apreciada por eles mesmos e o da calidez, da abertura para receber gente de todos os lugares, principalmente os perseguidos, os indesejáveis, os banidos.

‏Alguém ainda duvida de que depois da segunda garrafa de vinho as pessoas ficam mais inteligentes, espirituosas e conversadeiras? Corações e mentes amolecidos, somos conduzidos numa fascinante visita aos tantos episódios em que os mexicanos abriram espaço para acolher Alexandra Kollontai (feminista russa de cem anos atrás), Leon Trotsky, Gabriel García Marquez, Chavela Vargas, Juan Gelman e muitos outros. Como não se orgulhar? Um terceiro brinde, por favor. Viva o México!

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Viajar leve


por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Viajar virou uma febre. O que até poucas décadas atrás era privilégio dos “happy few”, dos privilegiados que podiam bancar as altas contas de passagens e hospedagem, tornou-se amplamente acessível à classe média e menos média. O resultado é muita gente viajando e lotando os lugares que antes eram reservados para os poucos escolhidos pela fortuna.

Quem ainda acha que o ato de viajar implica conforto e glamour está precisando desembarcar no aeroporto de Lisboa ou de Miami às seis horas da manhã. Ali, parece que o fim do mundo é uma questão de minutos para aqueles que como nós, brasileiros, ostentam passaportes da base da hierarquia viajeira, apesar de estarmos generosamente irrigando economias do topo, para lá de combalidas. Dinheiro não é tudo, repetem convenientemente os que nasceram do lado de cima do mundo quando questionados sobre as agruras enfrentadas por quem vai lhes fazer o favor de comprar diárias de hotel e fartas bugigangas.

A bagagem é todo um tema. Para algumas pessoas, viajar significa quase só a oportunidade de comprar, e muito, para juntar com o outro muito que já trazem nas malas. Carregam bagagens inacreditáveis, como se o avião fosse seu e não houvesse a necessidade de acomodar a tralha de todos. Já presenciei cenas de franca selvageria por parte de passageiros e tripulantes de voos em que era impossível chegar aos assentos do fundo devido ao caos provocado pelo entulhamento de volumes por todos os milímetros cúbicos possíveis e impossíveis. Estas experiências, somadas a outras de viajar por terra em transporte público, estão me impondo um exercício disciplinar dos mais interessantes.

Não preciso andar carregada, não quero mais andar carregada. É trabalhoso e muito chato. Posso muito bem ir e voltar sem comprar absolutamente nada no lugar de destino, se não cruzar com algo realmente especial, que simbolize aquela viagem - e que tenha formato e dimensões fáceis de lidar. Buscando atentamente nos armários, encontro roupas, sapatos e acessórios em quantidade mínima, que se conjuminem o suficiente para uma semana, seja a viagem de dez ou trinta dias. Estou treinando, e gostando muito.

Viajar leve é levar-se a si mesma a andar por aí, sem precisar arrastar um guarda-roupa sobre rodinhas e acumular mais cinco camisetas, três perfumes e quatro pares de tênis porque estão muito baratos. É olhar para os lados atentamente, nas feiras livres, nos parques, nas praças e praias e ruas onde estão as pessoas do lugar. Provar suas comidas, sentir seus cheiros, ouvir sua língua e sua música, observar como constroem suas casas, como organizam a vida e levar consigo a bagagem do que lhe chamou a atenção nas cores, paisagens, sabores e sensações, misturando com o que trouxe de casa. Dessa misturança a gente vai tirando um mundo maior aqui dentro e fora também, que cada vez mais aguce nosso interesse e admiração, em sua inesgotável capacidade de nos surpreender e impressionar. Quero treinar muito mais.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Finalmente, Itália!


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Quando comento ser esta a minha primeira visita à Itália, minha amiga e hospedeira em Milão pergunta: você vai ao seu lugar de origem? Digo que não, e ela fica visivelmente decepcionada. Como assim? Qual o nome do lugar? Onde fica? Consultando minhas anotações, encontro o nome, que me foi passado por meu irmão há poucos dias. Fica bem longe daqui, muito mais ao sul. E o meu desapego aos detalhes da história familiar pode ser chocante mesmo.

Uma grande família com nome tipicamente italiano, passional e dramática como deve ser. Desembarcados em Santos no final do século 19, fixaram-se no interior de São Paulo urbano e, misteriosamente, se tornaram protestantes. A memória ancestral, incluindo referências básicas, perdeu-se rapidamente entre imigrantes rudes, que precisavam garantir a sobrevivência. Os relatos orais, tão importantes para a manutenção da memória familiar, foram poucos e inespecíficos, até onde consigo me lembrar.

Mas lembro dos sábados na casa de Franca, cheia de gente que falava alto, brigava e chorava à toa, e onde as mulheres passavam o dia todo na cozinha, preparando montes de comida, que era consumida imediatamente, à medida que as travessas iam sendo colocadas sobre a grande mesa de madeira. Comilanças intermináveis, com cheiros e sabores para mim sempre deliciosos.

A escassez de informações tem a vantagem de abrir espaço para a fantasia. Não sei dizer como começou, mas a partir de um certo momento, passei a imaginar alguém batendo à porta, ou chamando por telefone, para comunicar que eu era herdeira de uma fortuna em dinheiro e bens, e que precisava viajar à Itália para tomar posse do que me havia sido legado por algum parente que tivesse conseguido escapar da pobreza. Para ser uma fantasia completa, eu seria a única herdeira. Ou que algum mafioso tivesse se compadecido de ter eliminado a família toda que sobrou por lá e decidira procurar no Brasil alguma descendente que gostasse de viajar e escrever, para lhe deixar uma boa parte da grana dos cassinos e bingos, ou talvez alguma funerária de fachada. Até hoje, nada. Mas, se non è vero, seria ben trovato.

Desde que cheguei aqui, não me sai da cabeça uma canção gravada por Gigliola Cinquetti, que foi um hit quando eu tinha uns doze anos, “Non ho l’età”, “não tenho idade para te amar, para sair sozinha com você...”, do filme “Dio, comme ti amo!”, esta também uma canção que fez um enorme sucesso à época em que a música italiana tocava muito no rádio. O filme contava a eterna história da mocinha pobre e ingênua, apaixonada pelo filho playboy do patrão milionário. Açucarou-me alguma tarde de domingo encantada. Mas, pelo que vejo in loco, não faltam galãs de cinema entre os taxistas, garçons e carabinieri.

Decidi ver apenas pequenas amostras desta vez. Cinco dias entre Milão e Verona, sem coragem de encarar Veneza sozinha. Na primeira, fiquei tão impactada com passeios a pé pelo miolo da cidade e com as visitas a uma pinacoteca, um museu e duas igrejas, que gastei nisto todo o tempo que tinha ali. Perguntei-me muitas vezes o que teria sido da arte ocidental sem o catolicismo, e vice-versa.

Em Verona, bela cidade totalmente entregue ao magnetismo do mito de Romeu e Julieta, a lua cheia sobre a arena romana só confirma que o amor é lindo mesmo, apesar das hordas de chineses, russos e brasileiros que ocupam todo o espaço.

A visita às raízes propriamente ditas não foi dessa vez, mas promete. Exige preparo emocional, disposição e dedicação. Ou nada disso. Desembarcar lá e pronto. Veremos.

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*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Outro mundo


por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

O trem cata-jeca suíço desliza entre cidadezinhas impecáveis, lagos, montanhas, túneis e vacas. A cada três ou cinco minutos, uma rápida parada, para deixar e pegar passageiros das comunidades rurais. Enquanto isso, minhas impressões sobre esse outro mundo vão se organizando. Passamos por muitos pequenos milharais espalhados, que eu não esperava encontrar aqui, tão longe da América Latina. Aliás, nem as plantações de girassóis, onde se pode comprar as majestosas florzonas colhendo-as pessoalmente e deixando o dinheiro num recipiente, pois não tem ninguém para atender.

Embora o lugar esteja completamente vazio, a mesa redonda que escolhemos num café não está disponível. Daqui a poucos minutos, os trabalhadores das obras próximas (há construções por todo lado) vão chegar para o trago da tarde, e aquele é o canto deles, nos avisa o proprietário, muito compenetrado. Somos trasladadas a outra mesa, com copos, bebidas e duas crianças pequenas.

O passeio nos arredores do grande lago cercado de mata nativa no auge do verde, tão apreciado nesta bela tarde de fim de verão, inclui a passagem por churrasqueiras públicas, onde se ouve música de tudo quanto é lugar, enquanto famílias assam linguiças e espetinhos de carne. A Europa multi-cultural é um fato, apesar dos muitos narizes torcidos. À beira da água, patos e cisnes vêm dar um dedo de prosa com os humanos e encantar as crianças. No meio do mato, um banheiro público numa cabana de madeira dá uma impressão de rusticidade que se desfaz rapidamente. Por dentro, é ultra-moderno, confortável e imaculado.

Subimos a um restaurante panorâmico onde a vista dos lagos e seus ancoradouros lotados, montanhas verdes e pequenos núcleos urbanos dá um susto bom, acompanhado da sensação de ordem estética, como numa pintura acadêmica. Afinal, estamos na Suíça. O grande salão envidraçado está lotado de gente e do ruído das conversas animadas em grandes grupos de velhos, famílias com crianças e amigos, celebrando a tarde ensolarada e o verão, que se despede.

Para esta brasileira convicta, isto aqui parece mesmo um outro mundo, com seu silêncio, sua rigidez e sua competência organizativa, um lugar onde sempre se espera que tudo funcione, com um propósito definido, regularidade e horário. Será que eles realmente acreditam que a vida pode ser assim controlada? Tenho a impressão de que um acontecimento espontâneo pode desconcertá-los de tal forma, que é melhor não. Mas tem seus lugares cheios e barulhentos, felizmente.

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*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Desvio lusitano



por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Depois de vários dias de viagem, tudo o que eu queria era voltar pra casa, mas no meu caminho havia uma greve de controladores de voo. Nenhum avião circulava pelo espaço aéreo da Bélgica durante a greve, que inicialmente não tinha duração prevista, mas acabou sendo de apenas oito horas. Só que naquele momento ninguém sabia disso.

A empresa aérea decidiu, então, nos mandar de ônibus para o aeroporto francês mais próximo, e de lá para o nosso destino, Lisboa, de avião. Essa operação demorou muito mais do que o tempo do voo cancelado, e eu perdi minha conexão de Lisboa para Brasília. Raiva, frustração e o estresse de um dia que parecia não ter fim. Até que, noite bem entrada, cheguei a um hotel designado pela companhia. Só poderia seguir viagem na noite seguinte.

Ao acordar, de manhã, e olhar pela janela, perdi o fôlego. Estava num andar muito alto, de frente para o Tejo, com uma ampla vista da cidade. Era inevitável pensar no “inevitável” e na opção de relaxar e gozar. Fui nessa.

Peguei um táxi rumo à Praça do Comércio, que, na minha memória de mais de dez anos atrás, era enorme e muito linda. O sol e o céu estavam indecentes, e se completavam com uma temperatura perfeita de início de outono. Fiquei pensando na inquietação e na ousadia que fizeram com que, há mais de quinhentos anos, uns malucos lusitanos se lançassem dali pelo mar em busca do resto do mundo, e cheguei à conclusão de que não há feito humano que se compare aos descobrimentos daqueles tempos, para mal e para bem, incluindo a exploração do espaço sideral.

Perambulei pela Rua Augusta, pelas lojas lotadas de turistas, quase todos brasileiros ou russos, cheguei à Praça da Figueira, almocei sardinhas assadas divinas numa tasca mais que popular, observando e sentindo ao máximo o lugar e a adorável gente portuguesa.

Barriga cheia, subi a Rua da Madalena. Lá no alto, virei à esquerda e me enfiei pelo labirinto da Alfama. Quando mais eu andava, mais beleza encontrava. Não sei se por viver numa cidade caçula do mundo, muito plana e onde tudo tem menos de cinquenta anos, os ângulos e a perspectiva proporcionados pelas ladeiras e pelos belos edifícios centenários me enchiam os olhos de tal forma, que transbordava. Ali, tudo era puro prazer.

Passei por restaurantes supersofisticados, ateliês de arte, muitos edifícios protegidos pelo patrimônio histórico, e fui andando. De repente, uma placa indicando “Museu Teatro Romano”. Incrédula, visitei escavações que vão aos poucos revelando um teatro completo, datado do final do primeiro século da era cristã. Lá dentro, além do nó na garganta pelo que encontrei, fui assaltada pela mais deslumbrante vista do rio e da parte baixa da cidade.

Consegui voltar à rua e subir mais um pouco, até o Largo de São Martinho, onde tomei um café e um tempo para digerir o que tinha acabado de ver e sentir.

Caminhei mais um tanto pelos becos e ruelas do bairro, até que tive que tomar um táxi de volta ao hotel, e dali para o aeroporto. Decolei de Lisboa leve, feliz e emocionada com a visita inesperada e tão profundamente prazerosa. Bendita greve! Não sabia a quem agradecer. Provavelmente, a algum líder sindical belga briguento e mal humorado.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

O que me comove?


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

Este valente arbusto, que todo mês de maio reveste-se inteiro com um véu de delicadas flores brancas. O surto de grávidas ao meu redor, cada qual com uma expressão mais luminosa que a outra. Pernas e braços enroscados, nós dois ocupando metade do espaço da cama, e o silêncio. Os oitenta anos da minha mãe, feliz como uma debutante.

“Janela da alma”, do João Jardim, que chega a doer de tão bonito. Afeto gratuito e espontâneo. O senhor centenário ao meu lado na grande mesa de almoço, há poucos dias, me chamando de menina e me contando que toma duas doses diárias de uísque e vive pensando no futuro. Um diálogo inesperado e profundo, via computador, com gente querida que não vejo há muito tempo. Caminhar sem destino por lugares que me surpreendem. Pensar na minha própria velhice.

Cantar o Hino Nacional num grande auditório cheio. O documentário “Questão de gênero” sobre transexuais. “Amor e seu tempo”, do Drummond, e “Casamento”, da Adélia Prado. Lembrar da infância nos tórridos verões de Lins. Pensar que tudo já me foi tão mais doloroso. Ir à casa da minha filha. Ter visitado Praga com o meu filho. Uma certa história sobre Higienópolis contada pela Cidinha da Silva. O vídeo “Me gritaron negra”, com Victoria Santa Cruz, em preto e branco.

“Noite sobre Alcântara”, de Josué Montello. Quase tudo, na voz de Maria Bethânia. Pessoas queridas que morrem. Ter assunto com gente muito mais jovem que eu. Fotos dos sobrinhos-netos branquelos. O sol iluminando as orquídeas no meio da exuberância verde do sítio das amigas em Pirenópolis. A luta da comadre contra a maldita depressão. Hospedar pessoas amadas. A curva do mar no Arpoador.

Pensar que você me lê, numa tela iluminada, em algum lugar por aí. O que te comove?

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Quelconque



por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

Passados os cinquenta e cinco anos, a pessoa já poderia ter assunto para uma biografia, principalmente se acreditasse que “minha vida daria um livro”. Não sei se a minha daria para mais que umas crônicas, embora eu tenha vivido algumas peripécias, viajado um pouco por esse mundão, conhecido um bocado de gente, casado, parido e criado dois filhos, igual a quase todo mundo. Bem pouco para encher um livro, quanto mais uma bi-o-gra-fi-a, coisa de gente grande.

Nos últimos tempos, me meti a publicar umas mal-traçadas linhas em formato digital, aquele que existe, mas não muito, porque a gente não consegue pegar o texto, nem cheirar, rabiscar ou guardar numa gaveta ou estante. Mas existe, em algum lugar – ou será aqui neste computador? – e chega a algumas pessoas, não sei quantas. Uma tremenda ousadia da minha parte, num território ocupado por muitas feras, cuja lista nem começo a desfiar, para não me sentir ainda mais atrevida. Algumas delas rugem aqui neste mesmo blog, e eu me encolho toda.

Para fazer jus a uma biografia, a pessoa tem que preencher alguns requisitos básicos: cumprir uma longa carreira política, de preferência combinada com a autoria de livros, não necessariamente úteis ou relevantes, tanto a carreira quanto os livros; realizar façanhas incríveis como navegador, astronauta, tenista, geneticista ou alpinista; ganhar muito dinheiro como executiva ou empreendedora, e fingir que revela seus métodos de enriquecimento; ou fazer qualquer outra coisa que a torne uma celebridade, termo amplo e generoso, onde cabe de um tudo, para mal e para bem.

Porém, celebridade alguma merecerá ser biografada se não puder relatar, revirando os olhinhos, como foi sua primeira vez... em Paris. Ainda mais nos últimos anos, em que temos viajado tanto por aí, que já tem colunista com medo de encontrar o porteiro do seu prédio dando um rolé no Champs-Elysées. Désolée.

Na adolescência, quando conhecer a língua e um tiquinho que fosse da cultura francesa era sinal de inteligência e finesse, estudei meu bocadinho de francês. Não só porque o estudo de idiomas sempre me interessou, mas também porque éramos uma turma de alunos muito divertida e animada, que se tornou, para mim, o principal atrativo do curso. Paris, em todo o seu glamour, era um grande assunto entre nós, e rendia muitas fantasias e gargalhadas, pois éramos todos pobres de marré, sem qualquer possibilidade de pisar no Marais.

E, até o momento, tenho falhado neste quesito. Entra ano, sai ano, e nada. Várias pessoas já se prontificaram a me servir de cicerone, sugeriram roteiros; ouvi incontáveis relatos, encantei-me com a cidade em muitos filmes e livros, mas ir lá e verificar tudo pessoalmente, isto ainda não aconteceu. Portanto, continuo sendo quelconque, uma joana-ninguém.

Então, ficamos assim: como não conheço Paris e estou muito longe de ser uma celebridade, não serei biografada. Posso dispensar o advogado e dormir em paz.


*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Pragueações breves

Nas minhas andanças por aí, já passei alguns sufocos típicos de estar em viagem. Como pedir informação onde se deve, e receber desinformação. Já me aconteceu várias vezes, inclusive em lugares com fama de sérios, competentes e precisos, onde não se espera este tipo de falha. Sempre me faz lembrar que gente é gente em qualquer lugar, até naqueles onde se acha que as pessoas alcançaram uma condição “mais adiantada”. Lembrar disso é muito bom.
Depois de saber que o belo cemitério que vejo da janela do meu quarto de hotel abriga os restos mortais de Franz Kafka, fui até lá “tomar a bênção”
 Meu analfabetismo também me choca. Explico: desde a primeira vez que estive num país onde meu limitado conhecimento de idiomas era inútil, constatei a miséria que é não conseguir ler instruções, placas, cardápios, nada. Cada vez que isto me acontece, como agora, aqui em Praga, penso em como a leitura e, mais que isso, a capacidade de entender e interpretar o que se lê, é essencial. Conclusão nada original: deixar de investir pesado na educação é uma escolha perversa, mas parece que os governantes leem isto e não entendem...

Ontem pude conversar um bom tempo com uma senhora daqui, em espanhol. Considerando minha notável ignorância sobre esses lados do mundo, ouvir um pouco sobre esta cidade encantadora e seu povo foi um luxo. Tendo ela vivido todo o período do regime comunista e presenciado a divisão da Tchecoslováquia em dois países, perguntei-lhe qual tinha sido a melhor coisa do socialismo. No seu jeito suave e direto, ela respondeu: “A melhor coisa é que eu era jovem. Mas, falando sério, duas coisas eram muito boas: a inexistência de desigualdades de renda e acesso à educação, e o fato de que todos trabalhavam muito menos do que atualmente. Isto era considerado um absurdo por alguns, mas a verdade é que esta vida que se leva hoje, de trabalhar doze, catorze horas por dia e jamais ter tempo para outras coisas, é horrível. Os jovens de hoje não vivem, só trabalham.”

Depois de saber que o belo cemitério que vejo da janela do meu quarto de hotel abriga os restos mortais de Franz Kafka, fui até lá “tomar a bênção”. E depois de ver um pouco desta cidade tão linda, que transpira arte, cultura e humanismo em cada detalhe, vou dormir pensando na necessidade urgente de reabrirmos o espaço do ócio e da contemplação da beleza.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Desarraigo

"Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam"
 José Saramago em A Viagem do Elefante 

Acabo de me mudar, de novo. Lisboa é minha oitava cidade diferente. Tentei pensar na quantidade de casas em que morei, mas desisti. Com certeza são mais de vinte. Outra vez fazer as malas, outra vez jogar fora o que não serve (e às vezes nunca serviu), outra vez fazer com que a vida se reduza a 50 kg de peso.

Para mim, mudar é, também, fazer um balanço da vida. Pensar no que se deixa e no que se espera encontrar. Na grande maioria das vezes, me mudei porque quis, o que fez com que, creio eu, minhas despedidas fossem menos traumáticas e minhas chegadas cheias de esperanças e expectativas.

Gosto de mudar, e a sensação de descobrir uma nova morada, de pouco a pouco sentir que passei de turista a local – enfim, fazer parte da paisagem –, me faz sentir vivo. Mas talvez fosse o momento de me perguntar o motivo de tantas idas e vindas. Há quem passe a vida toda morando no mesmo bairro, alguns na mesma casa, enquanto há quem, como eu, sente verdadeiro comichão quando completa o segundo ano de vida em um lugar.

Em espanhol há uma palavra que exprime essa inexistência de raízes que atam alguém a algo. É o desarraigo, e fala-se em um sentimento ou sensação que impossibilita com que uma pessoa se sinta de certa parte, crie laços com seu entorno. Esse é, hoje em dia, meu pesadelo: sentir-me sempre um estranho, um forasteiro que passará a vida tentando encontrar sua casa.

Prefiro pensar que não é assim, que minha casa são muitas e que vou deixando algo por cada lugar que passei; e que quando chegar a hora, sem esforço e sem pressa, me fixarei numa terra e poderei, por fim, dizer: fico por aqui.

Ricardo Viel, jornalista, escreve às segundas agora de Lisboa, Portugal. Leia + do autor.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Pouco aqui, pouco aí

Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa
(Chico Buarque de Hollanda)

Cartas a los Jonquières tornou pública uma centena de correspondências que Julio Cortázar enviou de Paris, durante mais de três décadas (entre 51 e 83), para um amigo de Buenos Aires. O livro (publicado em 2009) é delicioso, porque além do conteúdo literário interessantíssimo – comentários sobre contos e novelas que estava escrevendo -, mostra a pouco conhecida vida privada de Cortázar. Chama atenção a dificuldade para manter-se a par do que acontecia na Argentina e obter notícias de
familiares e amigos.

Naquela época, uma chamada internacional telefônica custava caríssimo e exigia um complexo sistema. As cartas normalmente iam por barco – ainda que se podia, mediante uma boa quantia de francos, enviá-las por avião. Normalmente eram semanas de espera por notícias.

A solução para os latino-americanos era folhear o Le Monde nos cafés de Paris em busca de alguma informação sobre suas terras. Foi dessa forma que García Márquez soube que o jornal para o qual trabalhava (El Espectador) havia sido fechado pela ditadura de Rojas Pinilla.

O Nobel colombiano conta que certa manhã foi despertado por um grito: “Se caió el hombre”. América Latina era um continente dominado por ditadores e todos os latinos da pensão foram para a rua pensando que o ditador deposto era o do seu país. O grito era do poeta cubano Nicolas Guillén e o “homem” era Fulgencio Batista.

“Partir é morrer um pouco”, costumavam repetir residentes na Europa naquela época. Deixar o país significava realmente distanciar-se, ser obrigado a ignorar a sorte de seres queridos e da nação.

Hoje em dia, partir é morrer bem menos.

Daqui da Espanha, sei, em tempo real, de tudo o que acontece no Brasil. Converso com família e amigos na hora que quero e sem custo. Sinto como se estivesse com um pé aqui e outro aí.

O lado ruim disso é a sensação de que acabo por receber uma quantidade imensa de informações que não têm qualquer serventia, a não ser ocupar meu cérebro e impedir que eu retenha dados realmente relevantes (tenho para mim que somos como um computador, que tem um limite de dados que pode armazenar).

Manter-se conectado com o Brasil (visitar portais de notícias, olhar Twitter e Facebook , checar e-mails) ao final significa (também) manter-se ao dia sobre fofocas de famosos, o surgimento de celebridades instantâneas e outras amenidades que nem sequer me serviriam para um papo de elevador, tendo em vista que no meu prédio eles não existem e que meus vizinhos não falam português.

O pior de tudo é que vivendo aqui, acabo também por receber esse tipo de informação inútil do que acontece por estes lados. Ou seja, armazeno em dobro o que não deveria guardar.

Queixas à parte, é de grande valia poder manter essa proximidade com a terra brasilis, ainda que vez ou outra bate aquela inveja do isolamento forçado de Córtazar e Gabo em Paris e a possibilidade de ocupar a cabeça de maneira mais saudável.

Ricardo Viel, jornalista, colunista do Purgatório e do NR, escreve às segundas, direto de Salamanca, Espanha.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Um rolê em Amsterdã

Para uns, Amsterdã é a cidade da maconha. Para muitos outros também, e de fato poder fumar ou comprar sem problemas é um dos atrativos utilizados para atrair turistas. Todavia, é também singular por n motivos que fazem por merecer uma visita.

Muito arborizada e entrecortada por canais, é gostoso passear por suas ruas – se o clima ajudar, claro. A parte central, mais próxima do mar, tem muitas lojas, a maioria dos coffe shops, o red light district. Um pouco distante vê-se apenas residências, casas muito boas, como nos entornos do Vondelpark, o maior da cidade, ótimo para um piquenique ou apreciar as holandesas no banho de sol.

No meio do parque há uma grade circular utilizada como achados e perdidos do local. Quando alguém encontra um objeto, o pendura e ali ele fica até o dono pegar. Fiquei intrigado ao ver um tênis (só um pé)...

Achei o clima local um misto de liberdade com um quê de pesado – Amsterdã respira sexo e drogas. Em qualquer birosca encontra-se biscoitos, sementes, pasta dental, camisinha e tudo que puder ser feito de maconha. Numa delas, na qual minha amiga queria comprar um guarda-chuva, o vendedor nos ofereceu um doce ótimo e totalmente seguro. Achei prudente não confiar nele.

O famoso red light district não passa de algumas vielas nas quais prostitutas ficam em vitrines a espera de seus clientes. Há todas as idades e etnias, e acho que 80% dos que lá vão são atraídos pela curiosidade, não pelos serviços.

Ao contrário do Brasil, lá acontece tudo acontece à luz do dia e de forma legalizada. No entanto, é impactante assistir a uma mulher exposta vendendo a si mesma.

Os coffe shops são um capítulo a parte. Pensava que encontraria vários locais bacanas, esperando clientes para relaxar. Ledo engano, a maioria deles é apertado, meio capenga e com uns três chapados encostados num canto. Ficaria decepcionado, mas a sorridente garçonete do restaurante do Amsterdan Museum deu-me uma boa sugestão de onde ir, indicando o Dampkring – isto após trazer minha almôndega tradicional holandesa com mostarda especial. Descobri ser uma almôndega comum num pão de trigo e um sache de mostarda, mas valeu.

Voltando ao coffe shop, o Dampkring serviu de locação para o remake de “11 homens e um segredo”. Há fotos de George Clooney e Brad Pitt na parede, além de cenas do filme. O atendente conta que, durante as gravações, Clooney apenas visitou o lugar, enquanto Pitt provou algumas de suas especialidades.

O cardápio tem uma dúzia de opções, todas com descrições de o que provocam e preços entre 8 e 20 ou 25 euros o grama. E também os famigerados space-cakes, bolinhos de maconha.

Outra experiência que só Amsterdã pode proporcionar diz respeito ao hostel. Quando chegamos não havia ninguém, após uns 20 minutos aparece um cara jovem, de óculos way-farer com uns desenhos que lembravam o metrô londrino e cara de chapado. Pergunta, com uma voz lenta “are you the brazilians, Yes?”.

Figura, nem havia como ficar brabo com ele, nem mesmo após ser acordado às três da manhã por um casal que teoricamente ocuparia o quarto aonde estou. O gerente obviamente sumiu, e ninguém sabe o que acontece. Uma ligeira mudança e três mochilas depois estou num quarto novo – apenas pela sorte que minhas amigas não foram a nenhuma balada, senão provavelmente eu teria dormido com eles.


A capital holandesa é relativamente pequena, fácil de andar. Bicicletas são vistas por todo canto, é o principal meio de transporte – embora os bondes sejam também bastante úteis. Tanto neles quanto nos metrôs ou trens não há catraca, porém ser pego sem bilhete implica em pagar 50 euros no ato. O problema é que, até eu descobrir isto, dei umas voltas na boa vontade do condutor.

Ao deixar a cidade o motorista do ônibus “lembra” aos passageiros que na Inglaterra portar quaisquer substâncias como marijuana, cocaína, êxtase é terminantemente proibido, que as autoridades aduaneiras são severas, têm cães farejadores; e encerra “aconselhando” os passageiros que porventura esqueceram alguma coisa no bolso a irem no banheiro despejar o conteúdo. Aos esquecidos, nada mais apropriado.

Pedro Mox, fotógrafo, especial para o NR

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Notas sobre Praga


No avião meu pensamento era “Praga é indescritível”. Por n razões, acho que é mesmo. Aterrissamos no aeroporto Ruzyne por volta das 10h da manhã. Ao chegar a República Tcheca o primeiro estranhamento é sua moeda, a Coroa (ou Koruna, em tcheco).


O bilhete do aeroporto ao centro custava 32, saquei então 300 para toda a viagem. Engano ao qual percebi quando passei pela casa de câmbio: uma Libra equivale a 30 coroas. Ou seja, o dinheiro não vale nada, e passei toda a viagem fazendo cálculos difíceis (para minha cabeça de jornalista) a fim de descobrir quando as coisas realmente custavam.

O bilhete incluía ônibus e metrô até a estação aonde deveríamos descer. Nenhum dos dois tem catraca, como alguns outros países por aqui, apenas um pequeno poste para validar o tíquete.

Durante o percurso via ônibus vejo o orvalho pela grama e grades, mas minha esperança de ver neve não se confirmou. Nosso destino, Staromestská, no coração da cidade, de onde passamos pelo café Kafka até a praça central – ali estão a igreja de Nossa Senhora de Tyn e o relógio astronômico. Este está instalado numa torre de onde vê-se toda a cidade, e tive a sorte de subi-la num momento mágico de luz.

Outro ponto famoso é o castelo de Praga, numa encosta de onde é possível admirar a cidade e o rio Vltava. Meus pés quase congelaram com -1oC, todavia faria novamente todo o trajeto. Na verdade tal temperatura não é tão insuportável, apenas no dia seguinte troquei o casaco de dentro por um mais quente, coloquei duas meias e minha bermuda de dormir por baixo da calça.

A hospitalidade dos habitantes locais é inversamente proporcional às belezas da cidade. Aprendi três palavras para ser cordial, ahoj (oi), dekuji (obrigado) e prosím (por favor), que a recepcionista do hostel nos ensinou sem muita vontade.

Mesmo assim o atendimento não muda muito – em quaisquer estabelecimentos fui tratado como se estivesse pedindo um favor dificílimo de ser feito. Mesmo que quisesse apenas comprar um refrigerante. Não há supermercados, mas pequenos mercadinho estilo “de bairro”.

Ao comprar uma bolacha e verificar que me devolveram 100 coroas a menos, tentei polidamente requerer o montante. A mulher não somente olhou dentro da minha carteira para ver se não tinha dado a quantia certa como ao me entregar resmungou algo tipo “cai fora daqui”. Já a garçonete do café no castelo, questionada sobre quando custava um chocolate quente, respondeu-nos em tcheco, falou meia dúzia de coisas, trouxe a conta, disse mais um monte de palavras que não faço ideia e apenas compreendi “pay, pay, pay”.

Dois figuras no entanto foram muito gente-fina. Um, Richard, um angolano que entregava flyers de um restaurante e nos ajudou a encontrar o hostel. Ficou feliz ao ver que retornamos à noite ao seu restaurante para jantar; casado com uma tcheca e com dois filhos (cuja foto nos mostra no celular), fala um pouco de sua vida na República Tcheca.

O outro, Jan, encontramos no bistrô mánes (fiz uma foto em homenagem à manezada da ilha). Ele deve ter uns 60 anos, trabalha ali e em um restaurante, dois empregos numa cidade a qual considera cara. No mapa nos mostra um bom caminho para passear, além de sua casa.

Pergunto sobre um drinque local, ele sugere Becherovka. Seu inglês não é muito bom, entretanto se esforça para nos entender. Pelo que percebo, a bebida é feita com algum arbusto cultivado ao leste da República Tcheca. Saborosa.

Os Tchecos adoram vinho quente – algo muito similar ao nosso quentão. A propósito, a feira da praça central é praticamente uma festa junina, várias barraquinhas, palco, comilanças. Eles fazem um doce que lembra uma massa de croissant enrolada num cilindro metálico que fica assando na brasa, o ceske trdlo.
Também lombo suíno e uma espécie de nhoque sem molho, feito na chapa com cebola e bacon. Bem sem graça. A cerveja é Pilsner Urquell, bastante encorpada e saborosa. Impressionou-me também a quantidade de luvas perdidas pela rua, se juntasse todas teria uns quatro pares.

Dormi confortavelmente no aeroporto esperando o vôo das cinco da matina. E vi as duas policiais mais bonitas da minha vida, tentei tirar uma foto com ambas, sem sucesso. Realmente, Praga é inesquecível.

Pedro Mox, fotógrafo, especial para o NR

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Cansa e dói, mas é bom

A parte mais chata de uma viagem é você caminhar à procura do hotel ou da estação de trem com uma mochila nas costas, um mapa numa das mãos e na outra uma sacola de roupas e sapatos que não couberam onde deveriam caber. É chato quando você coloca, sem saber, o mapa de ponta a cabeça e cai na rua errada, no desvio errado, no fim do mundo errado.
É chato entrar no trem e ir esbarrando com a mochila na cara dos nativos em pânico e ouvir aquele rosnar tipicamente italiano. É chato sair da estação à procura de um ônibus que não está lá e, quando está, descobrir que ele não vai para o hotel que você fez a reserva. É chato quando você, viajante, auto-intitulado experiente, é obrigado a se render a um taxista, que acha que todo o turista é igual e que serve para, no fim das contas e da corrida, ser explorado.
Itália: Ferrara, há 3 horas de Roma
Mas tem a parte boa também, claro. E a parte boa da viagem é chegar ao destino desejado e perceber que o lugar é cercado de verde, de árvore, de campo. Um lugar com muitas livrarias e poucos postos de gasolina, com muitas praças e poucos estacionamentos, com muitas sorveterias e poucas academias de ginástica. É preciso prestar atenção num lugar em que existem mais ônibus do que carros e mais bicicletas do que motos.
Viajar é se surpreender.
A parte boa é perceber que no seu destino, naquela cidade que você escolheu, as mulheres não usam batom rosa, as crianças não têm celular, as atendentes não te chamam de querido com aquele sorriso forçado de orelha a orelha e, mais importante de tudo, os restaurantes não têm televisão. Nessa cidade, de muitas casas e poucos prédios, os homens tiram os chapéus de aba larga para cumprimentar as senhoras que passam.
Viajar, às vezes, é voltar no tempo.
É bom chegar ao hotel e descobrir que ele parece uma casa – e realmente é – e que na casa tem um labrador no quintal, de focinho branco, desajeitado e brincalhão, e que a dona desse hotel-casa é uma senhora atenciosa e simpática, como uma tia Siciliana, como aquela que se vê nos filmes. A parte boa é que o quarto é amplo, com duas grandes janelas para um campo de verde infinito, que o banheiro é maior do que todos os que você já viu na Europa e que a cama é confortável, daquelas que uma noite vale por uma dezena.
Viajar é ver o que nunca se viu antes.
O interessante da viagem é tomar um banho, descansar e sair pedalando pela cidade, parar num restaurante típico e pedir um prato típico e ficar tipicamente boquiaberto com o sabor, com aquela dorzinha no lado da boca, a dorzinha de quem não acredita no que experimenta, de tão bom. Aqui, em Ferrara, cidade a três horas de trem de Roma, você pode ir ao Il Mandolino, na avenida Carlo Mayer (homenagem a Karl May, autor de Winnetou?) e experimentar o antipasto chamado pinzini com salumi nostrani e verdure sott’olio. Em seguida, você pode pedir como primeiro prato um cappellaci di zucca con ragu. O segundo prato, típico da cidade, é salama do sugo com purê que, como nos explicou a garçonete, é a comida servida no natal na cidade... “há mais de mil anos”. A sobremesa, talvez servida há menos tempo, mas igualmente tradicional e inesquecível, é a torta teberina al cioccolato. Se você é daqueles que gosta de comparar, poderia dizer que essa é uma torta parecida com nega-maluca, só que mil anos mais gostosa.
Então, depois disso, você volta para o hotel, escreve um texto contando as suas impressões para nunca mais esquecer. E aí, escrevendo e revivendo, percebe que chegou no lugar certo e que, apesar do cansaço e das costas doídas, viajar ainda é a melhor coisa que existe.

Fernando Evangelista é jornalista, co-diretor do recém lançado documentário Impasse, sobre o transporte coletivo em Florianópolis.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Caraíva, no sul da Bahia, é destino perfeito para quem quer sossego e paraíso

Carros são proibidos de entrar nas ruas
Daqui, desta rede de balanço, vislumbra-se paradisíaco o cenário. São coqueiros aos montes, sempre bem acompanhados de diversas outras plantas. O mar, não se vê: ouve-se. Aqui, como em qualquer parte do vilarejo, constante, a estourar uma onda a cada par de segundos.
Este vilarejo de Caraíva, mais antigo do Brasil em criação, não se orgulha de ser primeiro, mas único: em beleza. A uns poucos passos desta rede está o mar, este que se ouve, e dali adiante se vê, verde, seguido por uma imensa praia, de quilômetros a se perder de vista, mas não de conta, que são doze os necessários para chegar à outra ponta, onde se aninha outro povo, o de Corumbau, igualmente belo. Pelo caminho, antes e depois de passar pela comunidade pataxó, há piscinas naturais, de verdes ainda mais verdes, e infindáveis coqueiros, além do ligeiro Paraçuaí, de 9 anos, rápido no criar coisas para vender e ainda mais rápido no criar os preços das coisas que vende.
Para a outra ponta, essa aqui colada, encontram-se o rio e o mar, amando-se o tempo todo, como costuma ocorrer em todas partes, que ao que se sabe as águas não são de ter preconceitos entre si. Há, para além do rio, um bocado de outras praias no caminho a Trancoso, Arraial d'Ajuda, Porto Seguro, enfim, a Costa do Descobrimento. Há, por exemplo, a Praia do Satu, que tem esse nome por conta de seu habitante, Satu, hoje não mais sozinho: tem a companhia de umas cinco ou dez pessoas.
De volta à rede – sendo aqui mais comum a de balanço; a de computadores praticamente ausente – tem-se aqui do lado uma rua de areia, com muitas árvores, como de areias e de árvores são todas as cinco ou seis ruas deste vilarejo que não deve guardar mais que cinco ou seis mil humanos – aqui ainda não se perdeu a humanidade, logo não é exagero chamá-los humanos. Como os carros são proibidos, brincam as crianças tranquilas nas ruas, e como brincam. E quantas são (?): aqui, como não foram recolhidas aos lares engradados, vê-se que são muitas, parece que mais que em outras partes.
Praias, um deslumbre de beleza e tranquilidade
Sendo proibidos os carros, e sendo difícil o acesso, por estrada de terra, ficam um pouco mais caros os produtos que aqui chegam. Mas não vá o leitor Cosmopolita-Rouba-mas-faz imaginar que isso constitui motivo para construir estradas, viadutos, pontes majestosas: Caraíva está assim, assim quer ficar. O único que tem direito a tapar o sol nesta praia é o chapéu-de-sol, por graça do nome, e apenas quando finda a tarde, pois quem tinha de aproveitar, aproveitou.
Acendem-se então as luzes, que faz pouco que a energia elétrica chegou a Caraíva, mas se acendem poucas e com discrição, que é pra não quebrar o clima. E para não atrapalhar a lua, que nem mesmo mil lâmpadas poderiam substituí-la em magnitude e em beleza na hora de alumiar o mar, o mesmo que se ouve de toda parte. Só não ouvem aqueles que decidiram fazer uma música na beira do rio. Porque novela, com essa lua, com essa vista, com essa companhia acolhedora, não dá audiência. Melhor ficar na rede. Daqui se ouve o mar. E só o mar.

João Peres é jornalista. Viajou a Caraíva a convite da Associação do Jornalismo de Estresse Pré-eleitoral.
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