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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A luz do céu


por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

 Sou uma pessoa da luz, no sentido de que prefiro o dia à noite e o céu azul ensolarado ao cinza nublado. A posição e intensidade da luz orientam minhas decisões sobre onde vou me situar num ambiente, por exemplo. Se a iluminação artificial é indispensável, detesto aquela que agride, quando lançada em excesso, tanto quanto o tom esverdeado produzido pelas abomináveis lâmpadas fluorescentes, que são muito úteis, porém tristes. Notívagos e baladeiros são para mim criaturas insondáveis, tanto quanto as corujas e muitos outros seres que preferem a noite.

Adoro acordar de manhã e, num instante, varrer a escuridão do quarto com a luz do dia, quase sempre exuberante em Brasília. Viajando um pouco por aí, já constatei que somos privilegiados neste quesito, e que essa história de viver em lugares onde a presença do senhor sol é um raro favor definitivamente não me serve.

Tenho pensado muito nisto desde que fui ver um filme de animação recém-lançado, Os Croods. Eles são uma família neandertal, cujo relato se situa no período em que uma gigantesca movimentação sísmica produziu a separação dos continentes e a formação dos oceanos como algo próximo do que são hoje.

A família vive aterrorizada pelas ameaças permanentes à sua sobrevivência. Nunca se separam, e passam quase o tempo todo numa caverna, fechada por uma grande pedra, de onde só saem tempo suficiente para encontrar o alimento que os manterá vivos. O pai comanda o grupo de cinco pessoas, usando estratégias de defesa e proteção tão eficientes quanto sua limitada capacidade lhe permite. Para ele, compreensivelmente, a caverna é o único lugar seguro, e sair é sempre um risco terrível.

O sol é sua única fonte conhecida de luz e calor, mas dele aproveitam muito pouco, apenas durante o tempo que passam fora da caverna. A filha, uma adolescente inconformada com aquela vidinha bem mais ou menos de sair, conseguir comida e voltar correndo para o escuro da caverna, sonha com a possibilidade de reter a luz e o calor com as mãos. Quando conhece o fogo, que interpreta como “filho do sol”, fica obcecada e passa a desejá-lo com todas as forças.

Ao coincidir com os abalos sísmicos, que destroem a caverna e forçam a família a se jogar no mundo, a busca da luz vem acompanhada de peripécias variadas, que culminam no encontro daqueles seres deliciosamente brutos com a praia e o mar, onde o sol domina o dia em toda a sua plenitude. Uma bela e vibrante alegoria da superação das trevas impulsionada pela vontade de encontrar e reter a luz.

“Abre bem as portas do teu coração e deixa a luz do céu entrar”, canta o refrão de um hino religioso muito popular. Nunca me havia feito tanto sentido. Esta mesma que chega aqui à mesa onde batuco no teclado do computador, e que todos os dias banha as árvores e a grama ali tão próximas, onde pássaros, calangos, cachorros e gatos se refestelam todos os dias, que ela invada e derreta as geleiras que nos impedem de usufruí-la, assim, oferecida e facinha como só ela sabe ser.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto

6 comentários:

Anônimo disse...

JÚNIA, que delícia ler seu comentário de hoje. Fantástico !!! Se todos deixassem a luz do céu entrar ,aliviando a escuridão e o peso dos problemas que a vida traz por si mesma, o mundo seria claro como o sol da janela desenhada pelo Fernando. "Haja luz e houve luz",determinou o Criador. Parabéns !!!
Mummy Dircim

Anônimo disse...

Delícia ensolarada!!
Abraço!
Carol

Anônimo disse...

Ju,eu também sou bicho do sol, da luz.
Seu texto me alegrou, me aqueceu e me motivou a assistir ao filme.
Abração!
Terê

Carlos Augusto Medeiros disse...

Há comprovadamente um aumento na incidência de doenças modernas onde ocorre falta de luz. Adoro a noite, mas não mais do que o dia. A noite tem seu encanto; tem o par dialético do sol com as infindáveis pequenas e brilhantes fontes de energia. Contudo, nada se compara à fúria do sol que não respeita dias. Adorei o texto.
Obrigado, Carlos.

Montanhas, mares e culturas disse...

Quantos não têm medo de sair de sua própria caverna e, até mesmo, de encontrar uma luz tão intensa que nem sabem se são capazes de suportar? Até eu, as vezes! Bem, as vezes mesmo! Risos

Anônimo disse...

Junia,
Há dias, quando abria minha caixas de mensagens - o que tenho feito somente para verificar as mensagens dos professores sobre as tarefas do curso que estou fazendo que chegam por ali - e vejo o título "Deixa a luz do céu entrar", ficava curiosíssima para saber do que se tratava, tendo em vista tudo o que conversamos sobre religião, o título da música, etc. Hoje, ao acessar o link para ler o texto, fiquei muito feliz de só agora tê-lo feito, pois na sexta à tarde levei o Enzo para assistir "Os Croods", que adorei! Como um bom bicho diurno que sou, que se acorda feliz com os primeiros raios do sol, amei o texto e me identifiquei muito com as suas sensações a respeito da luz!!! Beijão e obrigada! FF

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