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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Novos rumos do Nota de Rodapé

Querid@s leit@res:

Sempre foi uma tarefa bem complicada, mas sempre empolgante e satisfatória tocar o NR, projeto do qual tanto me orgulho, sobretudo por ter o apoio de todos vocês, que sempre foram fantásticos em manter a roda girando. Já faz uns dois anos, desde que ganhamos o prêmio TopBlog, que o espaço se mantém estável, sem grandes inovações.

Além disso, sozinho como editor, sempre foi complicado ter braço para inovar e tocar ideias mais robustas, como o “NR conversa”, que ficou só no programa piloto.

Contudo sempre é hora de mudar e arriscar. E fazendo um balanço percebemos (já explico o “emos”) que apostar no NR pode ser uma saída para as nossas vidas como profissionais do jornalismo.

Tudo isso é pra dizer que é um desejo antigo fazer do NR um projeto maior. E, para isso, resolvemos transformar a plataforma de publicação do atual Blogger do Google (mais engessado, com um texto seguido do outro) para um site dinâmico com tecnologia Wordpress. Isso está em andamento desde o início do ano. E a equipe responsável pelo layout novo e programação é o Estúdio Saci, do nosso também colaborador Fernando Carvall.

Como um site, o NR será mais dinâmico e vai proporcionar, além das tradicionais colunas (crônicas e artigos), informação, por meio de entrevistas, matérias, serviços, reportagens, vídeos... Pensando grande: seremos um coletivo de jornalistas, ilustradores, escritores e outros profissionais ainda mais forte e que, mesmo sem nenhum tipo de remuneração momentânea, seguirá na missão de produzir e difundir conteúdo de qualidade pautado pelo interesse público, com foco reflexivo nos assuntos e notícias do cotidiano do país.

Até o final de outubro (se tudo correr bem) o NR será relançado. E passará a ter quatro editores e coordenadores. Além de mim, João Peres, Moriti Neto e Fernando Evangelista. Todos jornalistas da mais alta competência que, por essas coincidências da vida, estão no mesmo barco do “o que vamos fazer da vida?”. Pensamos: “vamos unir forças e arriscar um projeto que possa, num futuro não tão distante, ser ampliado e, por que não, ser sustentável financeiramente”.

Não temos uma fórmula mágica. Vamos garimpar projetos que se encaixem no guarda-chuva do NR. Seguimos debatendo os meios para esse objetivo. E ideias são muito bem-vindas. No relançamento vamos soltar um espécie de "carta de princípios", algo que nos norteie em relação aos trabalhos que iremos realizar.

O que posso garantir a vocês, se desejarem continuar nessa jornada conosco, é que vamos trabalhar duro para qualificar o debate democrático e o resgate do papel do jornalismo como ferramenta social que ajuda a esclarecer os fatos e a refletir sobre os acontecimentos.

Então é isso, voltamos em outubro, que tá logo aí. Até já.

* * * * * *

Thiago Domenici, editor e coordenador do Nota de Rodapé

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O dia em que fizemos nevar na cabeça do governador (Parte Final)


por Fernando Evangelista*

... E como ia dizendo, essa história de recolher giz, triturar tudo e espalhar pelas pás do ventilador de teto da nossa sala de aula, bem no dia da visita do governador do Estado, tinha tudo para dar errado.

Luciano teve a ideia e procurou dois cúmplices, Cristiano e eu. O plano foi traçado na escadaria do colégio, numa segunda-feira de novembro de 1988.

– Vai ser divertido.

– Acho arriscado.

– Que nada, é moleza.

Naquele ano, estudantes do colégio foram campeões brasileiros de xadrez e fizeram bonito na Olimpíada de matemática, conquistando uma medalha de ouro e outra de bronze.

Três dos integrantes da equipe de xadrez eram da nossa turma e por isso o governador passou na nossa sala, antes do evento oficial, para uma “saudação mais informal”.

A trupe oficial chegou, a regente deu as boas-vindas, o governador deu os parabéns para os “pequenos gênios do xadrez”, falou ainda sobre o trabalho em equipe, lealdade, honra e outras coisas bonitas e todo mundo bateu palmas e tudo bem ia bem até que alguém reclamou do calor.

– Liga o ventilador – ordenou a regente.

A partir daí, na minha memória, tudo acontece como se eu estivesse assistindo a um filme, daqueles da Sessão de Gala, quando existia Sessão de Gala, um típico filme B, exagerado nos closes e nas emoções.

Neste filme, o ventilador de teto aparece em primeiro plano, espalhando pó para todos os lados, lentamente. Corta. Closes em sequência dos olhos arregalados da madre superiora, da regente, dos alunos, das alunas e também da professora, que ainda não tinha aparecido nessa história. O governador permanece impassível, quase indiferente.

A câmera foca os alunos, de frente. Eu sou aquele lá no fundo da sala, à esquerda, pertinho da porta. Tenho medo desses homens engravatados, tenho medo da madre superiora, medo da regente e da neve falsa que continua a cair, devagar e sempre.

As meninas estão vestidas de saia bordô, camiseta bordô, casaquinho bordô, meias bordô e sapatos bordô. Os meninos estão também, de cima a baixo, de bordô - e tudo isso vai ficando branco, inclusive o hábito preto da madre, o cabelo da regente, os ternos dos assistentes do governador e o próprio governador parece, agora, bastante branco.

Não há trilha, só alguns gritinhos de espantos e tosses. Muitas tosses.

Luciano, mentor de tudo aquilo, está encolhido, quase desaparecendo, na pontinha da cadeira, queixo encostado à mesa. Cristiano, de cabeça baixa, parece petrificado. Me vejo outra vez: pálido, sem ar, arrependido. Por que me meti nisso?

Por respeito ao Luciano, provavelmente. O cara é o craque do time e, como todo craque, há meninas querendo namorar com ele. No fundo, todas as estripulias que a gente fazia se resumiam a três objetivos: chamar a atenção dos pais, afrontar professores e impressionar as meninas, principalmente impressionar as meninas. Aí a gente cresce, amadurece e... continua com os mesmos objetivos.

A neve continua a cair. Os homens do governador estão perfilados em frente à turma. Percebo que um deles me olha fixamente. É um olhar de acusação, de cão farejador, olhar de ameaça. Como ele poderia saber? Tento disfarçar, olho para os lados, mas me imagino com uma placa luminosa grudada na testa, dessas que piscam em vermelho à beira da estrada, em frente a hotéis sem categoria: Culpado!

Aquele homem sabia. Como ele poderia saber?

– Não imaginava que fosse ver neve hoje – disse o governador, quebrando o gelo, fingindo descontração.

Mas o governador é um homem sério, os homens do governador são sérios, a regente é séria e a madre superiora seriíssima. A turma, batizada-catequisada-quase-crismada, 100% católica, amedrontada por pecados e punições, também é séria.

Aquilo é sério pra cacete. É o suficiente para um processo de expulsão, no caso uma tripla expulsão.

– Senhores, foi um prazer – disse o governador, seguindo em direção à porta. Seus homens o acompanham, em fila.

Sentado na minha cadeira, lá no fundo, perto da porta, observo a marcha oficial e torço para que aquele homem-cão-farejador passe logo por mim e desapareça. Ele, porém, mantem o olhar e caminha na minha direção. Finalmente, ficamos frente a frente.

É muito mais alto do que imaginava. Ele me olha de cima a baixo e, sem mudar a expressão, sem levantar a voz, aperta o indicador de sua mão direita contra o meu peito magricelo e diz, marcando bem as quatro sílabas:

– De-sa-ca-to.

Que diabo significa aquilo?

O homem segue, cabeça erguida, mas a palavra gruda em mim. Ainda hoje, nas situações mais banais, a cena me vem à memória: o homem, o dedo, a acusação: “de-sa-ca-to”.

Apesar das investigações, pressões e centenas de ameaças, nunca ninguém descobriu quem tinha feito aquilo. E sabe por quê? Por uma razão bem simples e já citada: para impressionar as meninas, os mancebos (era assim que nos chamavam!) começarama reivindicar a autoria da ação.

Em menos de meia-hora, havia uns 40 culpados que, de peito aberto, contavam orgulhosos como tinha feito nevar na cabeça do governador, tudo nos mínimos detalhes.

Vendo aquela mentirada correndo solta, Luciano e Cristiano ficaram quietos. Eu, não, não gosto de mentira. E aí, para quem quisesse ouvir, confessei minha participação naquele ato subversivo. Eu, sim, eu mesmo, eu, mancebo desengonçado e rebelde, era um dos autores daquele feito.

Ninguém acreditou em mim.

* * * * * *

Fernando Evangelista é jornalista, mantém a coluna semanal Desacato.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

O dia em que fizemos nevar na cabeça do governador (Parte 1)

por Fernando Evangelista*

A ideia foi do Luciano:

– Vamos pegar giz e triturar.

– Giz? Pra quê?

Ele explicou. Cristiano achou a coisa muito arriscada, eu também achei, mas a gente topou, a gente sempre topava as maluquices do Luciano. Ele tinha moral, era o artilheiro do nosso time.

Na escola, com aquele esquema de notas e competições, se aprende que para ser respeitado é preciso ser “o mais” em alguma coisa: ou o mais inteligente ou o mais valente ou o mais bonito ou o mais cdf ou o mais engraçado e, num colégio de freiras, também vale ser o mais católico. Luciano era o mais habilidoso – fazia gols em todas as partidas e de todos os jeitos.

Estávamos na escadaria do colégio. Era uma segunda-feira de novembro de 1988, por volta do meio-dia. O plano seria executado ainda naquela semana e coincidiria com a visita, em carne e osso, do excelentíssimo governador do Estado.

–  Combinado?

Sim, claro, vamos nessa. E foi cada um para a sua casa, cabeça erguida e olhar atento, imitando a pose destemida dos fora da lei que a gente via no cinema.

Naquele ano, a equipe de xadrez do colégio sagrou-se campeã nacional nos jogos de Pernambuco, título inédito, que rendeu prêmios e viagens para os vencedores. Três desses jogadores estudavam na nossa sala; três nerds inteligentes e antipáticos que andavam sempre juntos e não falavam com mais ninguém. E, pela primeira vez, a Olimpíada Brasileira de Matemática fora conquistada por uma catarinense, ela também estudante do colégio, só que do período vespertino.

Como prova de reconhecimento oficial do Estado, o governador iria cumprimentar, pessoalmente, os gênios do xadrez e a menina prodígio da matemática. As homenagens ficaram agendadas para a sexta-feira, no período da manhã, no ginásio principal da escola.

Antes, porém, a pedido do próprio governador, ele passaria na nossa sala para uma saudação informal. O plano foi pensado para aquela sexta, mas começaria na manhã de quarta, bem cedo, antes do sinal.

Corredores ainda vazios, com duas sacolas de feira, nós três recolhemos giz em todas as salas do primeiro andar, em todas as salas do segundo e em todas as salas do terceiro. Exceto o encontro inesperado com a Irmã Veronice, na curva do corredor, correu tudo bem.

– O que é isso? – ela quis saber, olhando para as nossas sacolas.

– Maçãs – respondi. – A senhora quer uma?

Ela não quis.

Fomos embora antes das aulas começarem. Passamos a manhã triturando giz no quarto do Cristiano, num edifício rosa de três andares, pertinho do colégio. Era giz que não acabava mais e aquilo desencadeou em nós espirros em série. Achamos engraçado, a gente achava tudo engraçado naquela época.

Na quinta-feira, colocamos o pó dentro de sacolas plásticas de supermercado e essas a gente socou dentro das nossas mochilas, que ficaram redondas e pesadas. O plano foi concluído no fim da manhã, ao meio-dia.

Luciano improvisou uma escada, com mesa e duas cadeiras, no meio da nossa sala de aula. Cristiano subiu e foi colocando montanhas de giz triturado nas hélices do ventilador. Eu fiquei na porta, à espreita de algum inimigo. Não apareceu ninguém, nem a Irmã Veronice.

No dia D, sexta-feira, depois de duas aulas seguidas de matemática, a Madre Superiora e a regente apareceram para dar a notícia:

–  O governador chegou.

Descobri naquele instante que governador nunca anda sozinho, está sempre rodeado de assistentes – um segura a pasta, outro segura o discurso, um controla o tempo, outro controla a multidão, quando há multidão, e assim por diante. Os homens do governador, de terno-gravata-e-sapatos-encerados, entraram porta adentro – e de repente a sala ficou apinhada de sobrenomes importantes.

Com fama de autoritário e antipático, o governador chegou feliz, distribuindo cumprimentos e sorrisos, como nos bons tempos da campanha eleitoral. – Fiz questão de vir aqui, pessoalmente, para dar os parabéns à equipe de xadrez, vencedora do prêmio nacional.

Aplausos orgulhosos da turma. Os três alunos se levantaram e, orientados pela Madre Superiora, agradeceram. Mais aplausos. O governador, ex-aluno do colégio, falou rapidamente sobre honra e outras coisas bonitas. E já estava quase indo embora, quando alguém reclamou do calor.

– Liga o ventilador – ordenou a regente.

Nunca, até então, eu tinha ficado paralisado de medo. E quando digo paralisado não é força de expressão, não. Fui dominado por uma terrível sensação de arrependimento. Luciano escorregou a bunda pela cadeira, tentando sumir ou se desintegrar. Cristiano permaneceu de cabeça baixa, fingindo ler alguma coisa no caderno.

“Vai dar merda”, foi a única coisa que pensei. E deu.

(Continua na terça-feira que vem).

* * * * * *

Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Só por hoje

por Celso Vicenzi*

“Só por hoje” é um princípio seguido à risca por alcoólicos anônimos, com resultados comprovados. Mas pode ser um mantra, também, contra qualquer tipo de vício. A ideia, simples, é dar um passo de cada vez. A cada 24 horas, uma batalha vencida. Os movimentos conhecidos por AAA – Associação dos Alcoólicos Anônimos –, surgidos na década de 30, nos Estados Unidos, e que se espalharam pelo mundo, praticam o lema ainda nos dias atuais, com bons resultados.

Sem abdicar dos antigos, novos vícios têm sido incorporados à sociedade, como a compulsão pelo uso de aparelhos celulares. Há outros igualmente perniciosos: o vício por consumir informação de péssima qualidade, inclusive nas redes sociais, e o vício de entreter-se com programas de rádio e tevê que atrofiam a inteligência e a capacidade de análise. Incluem-se nesse rol comentaristas famosos de diferentes mídias.

Talvez, justamente por isso, as redes sociais estejam entulhadas de diálogos e debates de baixíssimo nível, em que os xingamentos e a desinformação sejam moeda corrente. E que, não raro, descambam para um superávit de ódio e um déficit de solidariedade. Graças às redes sociais, descobrimos que aquele cidadão (vale também para o sexo feminino) que parece tão fino e educado, cheio de gentilezas e que aparenta ser adepto de causas nobres, na verdade esconde um troglodita, machista, reacionário, egoísta, homofóbico, desinformado e mal-educado. Não necessariamente nessa ordem.

Por isso, para pôr um pouco de água na fervura e, quem sabe, serenar os ânimos, pensei em resgatar o lema que tem mantido longe do vício tantas pessoas que, no passado, estiveram às portas do inferno. Se não nos levar ao céu, pelo menos poderemos viver e dialogar mais civilizadamente.

Então...

Só por hoje não direi que a política e todos os políticos não prestam e procurarei estudar um pouco mais, sobretudo ciência política, história e sociologia, para tentar entender as engrenagens do poder e, quem sabe, a partir daí, contribuir decisivamente para a criação de políticas públicas que visem ao bem comum, ao bem-estar coletivo.

Só por hoje não xingarei, não usarei palavrões, nem tentarei ganhar no grito um debate que só tem sentido quando houver argumentos e informações fidedignas e sensatas sobre aquilo que se procura demonstrar. Ou seja, vale a pena fazer um esforço para diversificar as fontes e informar-se melhor sobre o que acontece no país e no mundo.

Só por hoje não direi que “é tudo culpa da Dilma”, seja lá o que aconteça no país. Afinal, vivemos numa República Federativa e as principais instâncias de poder são o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, que, por sua vez, operam nas esferas federal, estadual e municipal. Farei um esforço para lembrar que a responsabilidade precisa ser dividida no mínimo com mais 27 governadores, 5.570 prefeitos, 81 senadores, 513 deputados federais, 1.059 deputados estaduais, cerca de 60 mil vereadores e 20 mil juízes espalhados por todo o país. Sem falar em milhares de importantes entidades representativas dos mais diversos setores da sociedade.

Só por hoje não direi que esquerda e direita são “tudo a mesma coisa”. Para esclarecer melhor tudo aquilo que não compreendo muito bem, melhor começar por ler o livro clássico de Norberto Bobbio sobre o tema. Há outros igualmente bons, é só procurar.

Só por hoje não direi que a política e todos os políticos não prestam e procurarei estudar um pouco mais, sobretudo ciência política, história e sociologia, para tentar entender as engrenagens do poder e, quem sabe, a partir daí, contribuir decisivamente para a criação de políticas públicas que visem o bem comum, o bem-estar coletivo.

Só por hoje não direi que a política de cotas (políticas afirmativas) é uma injustiça e vai prejudicar a qualidade do ensino. Primeiro, comprometo-me a ler com mais atenção a história dos negros no Brasil e, na sequência, divulgarei as pesquisas que demonstram que a maioria daqueles que entraram por cotas nas universidades brasileiras tem um desempenho igual ou superior aos que acessaram o ensino superior por outros meios. Só por hoje não vou converter-me à ideia de que problemas de segurança pública devem ser resolvidos à bala. Consultarei a vasta bibliografia sobre o assunto que desmente, categoricamente, a ideia de que a ênfase na repressão e a criação e manutenção de um sistema de segurança baseado na discriminação possam pôr um fim à violência.

Só por hoje evitarei o uso de falas e comportamentos machistas, para que a relação entre duas ou mais pessoas seja sempre baseada na igualdade, na dignidade e no respeito às diferenças. Igualmente repudiarei os estereótipos machistas da publicidade e me posicionarei contra atitudes cotidianas que reforçam esses hábitos.

Só por hoje não reclamarei do engarrafamento no trânsito se estiver sentado em um automóvel. Afinal, concluirei, é a minha presença ali, juntamente com milhares de outros condutores de automóveis, a razão de um trânsito que não anda. Aproveitarei o tráfego parado para refletir sobre a importância de apoiar a construção de ciclovias e dar prioridade ao transporte público de qualidade.

Só por hoje não vou ridicularizar e hostilizar pessoas com preferências sexuais diferentes da minha. Tentarei compreender que o desejo sexual independe de gênero e que não há nada errado nisso, ao contrário da homofobia. Se persistirem os sintomas homofóbicos, procurarei ajuda. Talvez Freud explique.

Só por hoje buscarei novas formas de me manter informado, diferente das fontes habituais, para que não me torne refém de interesses particulares, não raro economicistas, que favorecem grupos minoritários, e que, no entanto, se apresentam como porta-vozes de interesses justos e igualitários.

Só por hoje não acreditarei que recentes investigações sobre ilícitos sejam parâmetro para afirmar que “nunca houve tanta corrupção no país”, sem questionar primeiro por que antes essas investigações eram tão raras e por que, ainda hoje, o mesmo dinheiro que foi distribuído aos principais partidos, por diferentes setores empresariais, é considerado ilegal para uns e absolutamente honesto e sem problema para outros?

Só por hoje entenderei que, num estado laico, como é o caso do Brasil, política e religião não se misturam e credos particulares não podem ser aceitos como objeto de leis e normas para o conjunto da sociedade.

Só por hoje, cada vez que começar uma reclamação contra os altos impostos cobrados pelo governo federal, tentarei lembrar-me de que alguns dos principais impostos que me afetam diretamente, como o ICMS, o IPVA e o ISS são impostos estaduais e que o IPTU é um imposto municipal. E decidirei reclamar, com a mesma intensidade, da sonegação de impostos, que desvia bilhões de reais que fazem falta às políticas públicas do país. De bônus, investigarei por que as camadas mais ricas pagam, proporcionalmente, tão poucos impostos no país, ao contrário do que acontece em nações sempre citadas como exemplo de sociedades desenvolvidas.

Só por hoje evitarei falar e publicar nas redes sociais a primeira ideia que me vem à cabeça, sem refletir, inicialmente, se não estou reproduzindo aquilo que me foi incutido por veículos de comunicação e instituições da sociedade com interesses muito particulares, tendo como resultado um pensamento que não é necessariamente meu, mas orientado para reproduzir conceitos que interessam a outros, sem que eu nunca tenha me dado conta, ainda, disso. Como antídoto, buscarei bons livros e boas fontes de informação e conhecimento, na tentativa de me “deseducar” um pouco e compreender que o mundo e as relações podem ser muito diferentes do que hoje são e que mudar isso não é uma impossibilidade.

Só por hoje, não repetirei ideias-clichês do tipo “no Brasil não tem racismo”, “só é pobre quem não trabalha”, “direitos humanos só servem para proteger marginais”, “na ditadura era tudo melhor, não tinha corrupção”, “negros também têm preconceito contra os brancos”, “o mensalão é o maior escândalo de corrupção da história do país”, “político é tudo ladrão”, “tudo que é público não funciona”, “o mercado regula”, “o mundo está cada vez pior”, “no Brasil nada dá certo”, “bandido bom é bandido morto” etc. etc. Se quero compreender os fenômenos sociais, prometo, vou estudar e ler – ler muito –, para não dizer bobagens inconsistentes.

Só por hoje.

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Celso Vicenzi, jornalista, mantém no NR a coluna Letras e Caracteres.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Realidade paralela

por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

E cá estou eu de novo, desviando-me da tão apreciada desocupação, mas é por uma boa causa. Rapidamente constatei que retomar o batidão da vida do escritório pode ser bem menos natural do que parece, apesar das décadas pregressas. O tempo faz o seu trabalho, bem caladinho, e nem precisa de plano estratégico corporativo.

Voltei a ter sobrenome institucional. O “sou de mim mesma”, que adotei quando encerrei essa carreira, em resposta à infalível pergunta “a senhora é de onde?”, que busca definir (e classificar) os seres humanos frequentadores desses ambientes, foi para um rápido intervalo no freezer.

Ressuscitado o crachá, começou a ciranda de reuniões. Logo na primeira, num alto gabinete da república, me senti numa realidade paralela, como se de repente eu entrasse num enredo que não era o meu, num cenário absurdo. Apesar da intensidade saariana do sol de agosto em Brasília, a parede de vidro aonde se encaixam grandes janelas basculantes estava tapada, de cima a baixo, por largas persianas verticais do tipo blackout. Com o sistema de ar condicionado a toda, começou a reunião de pessoas meio azuladas pela iluminação fluorescente, em torno de uma grande mesa, devidamente hierarquizada.

Ouvidos e neurônios destreinados bem que tentaram decifrar o grego falado ali. Em vão. Quando muito, consegui acompanhar o que disseram e anotar o que me soou relevante, pra depois repassar com quem está em dia com o dialeto, aí incluído o emaranhado de siglas, conexões e níveis de responsabilidade. Quando comecei a sentir o que esta breve reencarnação exigirá de mim, fui salva da danação eterna pela voz de Gilberto Gil soprando ao meu ouvido uma triste melodia, que parecia um prelúdio bachiano, um frevo pernambucano, um choro do Pixinguinha.

Inspiradíssima e curiosa canção(*), relato de um sonho em que o autor falava à plateia de um congresso mundial de economia. Enquanto ele, empoderado e convicto, argumentava em favor de mais trabalho, mais esforço, mais controle, apresentando estatísticas e gráficos que demonstravam os maléficos efeitos da teoria do lazer, do descanso e da poesia, um velho levantou-se da cadeira e saiu porta a fora assoviando e levando atrás de si a plateia inteira, até esvaziar o salão e deixar o preletor sozinho com seu portentoso powerpoint. O sonhador acordou assustado, se levantou e foi pra calçada ver o céu azul. Os estudantes e operários que passavam riam e gritavam: viva o índio do Xingu!

Conversando sobre tudo isto, inclusive a minha sensação de realidade paralela, alguém lembrou das promessas que nos fizeram algumas décadas atrás, de que a vida no trabalho se simplificaria muito com a tecnologia digital e as facilidades de comunicação em rede, dando lugar à possibilidade de instalação de uma cultura de ócio criativo, em que todos teríamos tempo para gastar com aquilo que fosse importante para cada um. A realidade - real ou virtual, à escolha do freguês - é bem outra.

(*) “Um sonho” - Gilberto Gil

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 Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A urgência da América Central: violenta, violentada e paranoica

Por Aleksander Aguilar*

Después de ver como se mueven las guerras y las guerrillas tu crees que le voy a tener miedo a tu pandilla? (Adentro – Calle 13)

Tomei um ônibus em El Salvador para uma longa viagem até a Costa Rica, atravessando quase todo o istmo centro-americano, na madrugada deste último 28 de julho. Durante todo o trajeto de 20 horas, interrompido pelas descidas obrigatórias fronteiriças, pensava nas impressões das duas últimas semanas que passei no “pulgarcito de América”, logo de sete anos sem visitar a terra paterna, e na necessidade de escrever sobre a sensação de paranoia que testemunhei entre os conterrâneos.

Pequenos, e significativos, exemplos do cotidiano: andar armado no país resulta quase óbvio, e em qualquer estabelecimento comercial, qualquer mesmo, desde uma farmácia até uma sorveteria, haverá dois seguranças com o armamento bem visível no intento de intimidar. Durante um café, numa reunião acadêmica, no jantar familiar com pupusas, os tópicos de conversa, naturais e quase banalizados, são constantes: o perigo, o medo, a morte. Jornalistas, poetas, professores do país escrevem sobre assassinados e decapitados. O sangue está nas artes, nas mentes e no ar salvadorenho. E nesse estado em que se encontra o país de Roque Dalton, a mobilidade é uma questão-chave. Se você não tiver carro, você está sob um risco ainda maior do que se o tivesse. Todos temem parar num semáforo em qualquer hora do dia e mover-se a pé, mesmo em curtas distâncias, também vai seguido por constante sensação de insegurança, ao ponto de as pessoas terem receio de parar para dar informação para quem simplesmente pergunta por uma localização. A desconfiança é generalizada.

Temem-se, porém, ainda mais ônibus. Precária, para não dizer patética latas-velha, a frota de ônibus do país, controlada por consórcios de empresários infiltrados e sequestrados pelo crime organizado, são alvos diários de assaltos aos passageiros e de extorsões aos motoristas. A verdade é que El Salvador funciona sob um toque de recolher tácito. Na própria região metropolitana, a maioria das linhas desses cacos ambulantes que chamam de transporte público tem suas últimas viagens às 19h! Ainda se encontram algumas rotas até pouco passado das 20h, e muito raramente às 21h, horário em que apenas os mais bravos, e/ou sem outra alternativa, atrevem-se a subir.

Pais mais zelosos literalmente proíbem os filhos de fazerem suas atividades do dia-a-dia em ônibus, preferindo sempre pagar caro por um táxi. Saídas de lazer e entretenimento, tão corriqueiras como ir ao cinema, são absolutamente estritas a um detalhado planejamento sujeito a boas companhias e esquemas de mobilidade, que significa dispor de um taxista de confiança com horário da corrida previamente arranjado, porque nem o taxista vai a qualquer lugar nem a qualquer hora por uma corrida, nem o passageiro aborda qualquer táxi que cruza pelas ruas. Ninguém confia em ninguém, salvo pelos fortes laços familiares e de amizade, duramente cultivados e celebrados. A sociedade salvadorenha vive encarcerada em si mesma.

Enquanto reflito sobre tudo isso – que é uma conjuntura piorada mas semelhante à que vivi morando em El Salvador, em 2008 – mais um choque de uma realidade em curto-circuito: no mesmo do dia em que viajei, o país amanheceu com a notícia, que é sintoma não de um processo mental paranoico e sim de uma realidade quase surreal, da proibição da circulação do transporte público por ordem dos líderes das forças do crime organizado (as chamadas “maras”, forma coloquial para o espanhol pandillas) Barrio 18, Mara Salvatrucha, e a mais recente, 18 Revolucionários – um racha da primeira e que já se consolidou com a terceira força criminosa do país.

A paranoia fundamentada

Não foi a primeira vez que as pandillas desestabilizaram El Salvador. Em setembro de 2010 ameaçaram com chamadas telefônicas, agressões nas paradas de ônibus e folhetos aterrorizantes entregues de mão em mão. Dessa vez, os mareros não apenas ameaçaram, mas executaram logo de saída nove motoristas, e os empresários e os funcionários suspenderam completamente o serviço. O país parou. Até 31 de julho, o boicote e/ou a sabotagem resultaram em nove motoristas assassinados, centenas de unidades de transporte paralisadas e várias incendiadas, serviços hospitalares comprometidos e aulas canceladas, milhares de salvadorenhos amontoados em precários veículos clandestinos e viajando sob custódia policial e militar. Imediatamente à ação das maras, o governo salvadorenho colocou 600 efetivos militares nas unidades de transporte do país para somar-se aos já 7.500 soldados que estão diariamente nas ruas em atividades de segurança pública, como parte da verdadeira atitude de guerra que existe hoje no país entre o governo e as pandillas.

Logo de cinco dias de estado de emergência no país, 90% das rotas de ônibus havia voltado às atividades, mas o ministro de Segurança, Benito Lara, manteve o estado de emergência e a militarização do cotidiano. O emprego das Forças Armadas na segurança pública já é uma praxe na América Central, e excede em muito, e cada vez mais, sua implementação como uma política pública dita necessária. Esta “semana del paro” em El Salvador que o diga. Os números, porém, são de guerra não apenas no território cuzcatleco: em Honduras, 2.000 soldados das tropas do exército estão nas ruas; na Guatemala, são 4.500 soldados e, em El Salvador, além dos mais de 7 mil soldados no cotidiano, e outros 600 convocados pela emergência do transporte, foram suspensas as licenças da Polícia Nacional e o efetivo total chamado chega a 23 mil agentes.

A realidade institucional de El Salvador hoje é de extrema polarização entre as mesmas forças políticas que há 30 anos também se enfrentavam, mas sob hostilidade bélica: a ARENA, Alianza Republicana Nacionalista, reduto da uma direita conservadora e reacionária, e a FMLN, a ex-guerrilha Frente Farabundo Marti de Liberación Nacional, convertida em partido político como parte dos Acordos de Paz alcançados para barrar a sangrenta guerra civil que durou de 1980 a 1992. Além da “paz”, a diferença é que logo de 20 anos ininterruptos de ARENA no governo, hoje é a FMLN quem dirige o país. Isso leva a muita especulação sobre a possibilidade de que as pandillas tenham sido partidariamente instrumentalizadas para causar desgaste político.

O poder pandillero

Atuando praticamente como uma terceira grande força política no país, as pandillas já obtiveram capacidade de articulação conjunta, apesar da mortal rivalidade entre elas, como na “trégua”, até hoje não reconhecida pelo governo salvadorenho, pactuada com o Poder Executivo entre 2012 e 2015, e que resultou num período de inegável diminuição dos homicídios na pequena nação assolada pela cultura da violência. Portanto, o ocorrido nessa semana em El Salvador, histórica desde várias formas de análise, é uma potente demonstração de força dessas gangues, e uma forma de buscar ser ouvidos, num contexto sem precedente de repressão contra elas.

Os governos da ARENA implementaram, e foram muito criticados por isso, os planos Mano Dura e Super Mano Dura, para combater as pandillas. Não conseguiram barrar sua expansão e serviram para sua evolução. A estratégia atual do governo é de impor ainda maior peso repressivo. Parece que as gangues quiseram demonstrar que, mesmo com todo o atual investimento em operações militares policiais, sua capacidade para desestabilizar a sociedade se mantém, e assim o fizeram.

O prestigioso periódico digital salvadorenho El Faro cita os dados oficiais sobre o atual tamanho do fenômeno em El Salvador: 60 mil membros, que junto com seu entorno social (colaboradores, simpatizantes, família), chegam a meio milhão de salvadorenhos, ou 8% da população do país. O caminho único da repressão dá mostras de ser inviável, pois as pandillas têm suas origens no agoniante processo social desigualdade-migrações-deportações-violência que configura a própria sociedade salvadorenha. Em muitas comunidades e bairros do país, a figura do pandillero é uma referência de sucesso que faz com que cada vez mais jovens, com famílias desagregadas pela migração, em condição de pobreza, sem perspectivas e profunda precariedade estrutural diante da ausência do Estado, queiram incorporar-se.

A atualidade da tragédia salvadorenha é particular pelo absurdo que a situação dessa semana representou, mas análoga pelo menos nesses países do chamado Triângulo Norte da região centro-americana: El Salvador, Guatemala e Honduras. Enquanto assistimos ao recrudescimento das grandes tensões geopolíticas de âmbito global, representado, entre outros, pelas guerras na Ucrânia, pelas reações do radicalismo islâmico no Ocidente e pela desintegração da experiência europeia a partir da humilhação grega, há no nosso próprio continente uma longa e arrastada crise que se visualiza num dramático mosaico de conflitos sociopolíticos – entre as causas mais recentes, destaca-se a violenta espoliação promovida pelo capitalismo neoliberal na região – que atentam contra a própria dignidade humana e flertam com o caos no “invisível” espaço centro-americano. Nem quando toma proporções de grotesco, como nesse momento, o tema é abordado pela mídia corporativa tradicional em nível internacional, e no Brasil em particular, ainda tão alheio à América Latina em geral.

A Organização das Nações Unidas considera o Triângulo Norte como a região mais violenta do mundo há vários anos. Mas a violência na América Central não é apenas um problema social, senão um desastre político que consome todos os dias e ininterruptamente a carne, o espírito e a sobriedade mental dos centro-americanos, talvez com densa particularidade em El Salvador, epicentro da organização das pandillas que ocuparam quase todo o istmo e com representações organizativas e laços de origem na Europa e na América do Norte. Como assinala o jornalista basco Unai Aranzadi, citado por Andres Ramirez no site brasileiro especializado em América Central, O Istmo, “analisando a realidade a partir do território, e de uma perspectiva histórica, quiçá seria mais justo qualificar esta sociedade de violentada. Desde o genocídio do mal-chamado 'descobrimento', até o estabelecimento do neoliberalismo, a América Central tem sofrido terrivelmente, e não é coincidência que fenômenos ultraviolentos aparentemente únicos e desprovidos de ideologias, como, por exemplo, as maras tenham surgido nesse espaço e nesse tempo”.

Há paranoia, particularmente, em El Salvador, mas quem poderá dizer que sem fundamento? Não é raro, e se fez ainda mais comum durante esses dias, ouvir que o país voltou ao estado de guerra de 30 anos atrás, com dinâmicas sociais típicas daquele período. Mas as novas gerações não conhecem apenas dois grupos em conflito, senão um medo generalizado e permanente atravessado em várias esferas do cotidiano. E retroalimentado constantemente pelos meios de comunicação. As capas dos principais jornais do país diária e sistematicamente apresentam manchetes e fotos sobre crimes e conflitos realizados pelas gangues.

No passado recente, a luta armada foi entendida por certos setores da sociedade como a única forma de serem ouvidos diante do fechamento de espaços políticos. Hoje as pandillas são protagonistas de uma guerra social e através da força cada vez mais se fazem atores políticos que exigem que os governos as escutem. Como consequência, a epígrafe utilizada na abertura desse texto, uma frase de uma canção da dupla porto-riquenha Calle 13, ao tempo que é um estímulo a resistência, tem cada vez menos ressonância na realidade salvadorenha. O povo salvadorenho conhece como poucos todos os comportamentos, as dores, e os arrasos de uma longa hostilidade bélica entre grupos confrontados, mas hoje está cada vez mais sufocado, temeroso e refém da sua realidade gerada pelo próprio pós-guerra.

Aleksander Aguilar é jornalista, linguista e doutorando em Ciência Política. Coordena a plataforma-rede O ISTMO (www.oistmo.com)

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A pessoa certa

por Fernando Evangelista*

Quando entrei, as duas já estavam no elevador. Cumprimentei a senhora, cumprimentei a adolescente, e me pus no canto, fingindo interesse na luz que pulava de botão em botão: 7º andar, 6º, 5º, 4º... de repente o elevador tremeu, ficou escuro e parou.  

– Droga – eu disse. 

A adolescente resmungou alguma coisa indecifrável e apertou o botão da emergência, o único iluminado. Como não houve resposta, insistiu e ficou nisso por alguns segundos. 
         
Uma voz mal-humorada ecoou pelo interfone. Devia ser o porteiro. 

– Que é?   

– Estamos trancados no elevador – eu disse.   

– Outra vez? Que porcaria. Espera aí, vou ver o que posso fazer.

A luz interna voltou, mas bem fraquinha. Olhei a adolescente – era alta, magra, morena, com dois piercings espetados na sobrancelha esquerda. A senhora, de cabelos brancos, vestida toda de preto, devia ter uns 80 anos.  

Foi nesse tempo, à espera de ajuda, que a neta fez a pergunta, como se as duas estivessem sozinhas:

– Vó, como a gente reconhece a pessoa certa?  

Vasculhei meus bolsos à procura de alguma bala ou chiclete. Achei só o celular, sem serviço e quase sem bateria. “Pessoa certa? Isso lá é pergunta que se faça, menina? ” 

No elevador, até onde sei, quando vizinhos ou colegas de trabalho se encontram, são bem-vindos cumprimentos formais, frases curtas sobre a chuva da véspera e a previsão do tempo para o fim de semana. Comentários sobre futebol, desde que sem polêmicas ou agressões, também são aceitos. E mesmo entre familiares, não cabem assuntos graves, como esses dilemas amorosos.  
  
Talvez a avó tenha pensado a mesma coisa porque rebateu a questão.  

– Pessoa certa pra que, minha filha? 

– Pra namorar. 

Olhei para o chão, para os botões do painel e outra vez para o celular sem sinal. 

– Só conheço um jeito – disse a senhora.

– E qual é? 

A resposta da velha me surpreendeu: 

– Experimentando. 

Pronto, o papo poderia parar por aí. A neta, porém, queria mais.
– Como a vó soube que o vô Luís era o par ideal, a alma gêmea, o grande amor?

Tinha algo de irreal aquela situação.  

– Isso é complicado, minha filha – disse a mulher.    

As duas ficaram em silêncio por um tempo. Depois a adolescente voltou a perguntar.    


– Como a vó soube que ele era a pessoa certa?

A mulher entendeu que se não desse uma reposta, a neta ficaria insistindo até o fim dos tempos. Então, pensou um pouco e falou: 

– Eu soube que o teu avô era o homem da minha vida porque, desde o começo, ele despertou sentimentos bons em mim. Ele me inspirava, me respeitava, me fazia rir à toa.

O elevador, finalmente, voltou a funcionar e chegamos sãos e salvos ao térreo. Agradeci ao porteiro, plantado em frente à porta, com cara de tédio e de poucos amigos. Avó e neta foram para um lado, eu fui para outro.   

Parei na padaria da esquina, pedi papel, caneta e escrevi: “Ele me inspirava, me respeitava, me fazia rir à toa”. 

Escrevi porque a frase poderia render uma crônica. Escrevi também, e principalmente, para não me esquecer. 

Para nunca mais me esquecer.  


Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato

domingo, 9 de agosto de 2015

Lava Jato: Brahma ist kein Kaiser!

por Vinicius B. Vicenzi*

Não percam, não percam! "Buemba! Buemba!", como diria um certo colunista. Cenas do próximo capítulo da novela Lava Jato acabam de vazar para a imprensa! Como se sabe, depois de 17 capítulos e mais de um ano em cartaz, a novela se aproxima de seus lances finais. Os jovens redatores paranaenses só não estão ainda certos do título desse último capítulo. Há ainda muita divergência entre eles, conforme nos confirmam fontes "seguras" de delatores. Há os latinistas, e entre eles os que preferem um título simples: "Brahma apprehendi" (Brahma é preso). Mas há também os mais "espiritualizados", mais "devotos de Deus" que não estão muito certos que língua usar para falar com Deus, mas que, por ora, gostariam de batizar a fase de "Brahma se torna Shiva" (a Criação se torna Destruição), "Brahma siva bana jata hai" no original hindi. Há também entre eles os germanistas que querem preservar as raízes germânicas de Curitiba e que, assim, querem um título como "Brahma ist kein Kaiser" ((Brahma não é Kaiser - ou Imperador, caso não queiram o trocadilho). Há até os americanistas que, seguindo a preferência do redator-chefe, numa certa bajulação, batizariam: "Nine is not ten". Certo mesmo é que, seja qual for a corrente vencedora, até mesmo se, numa reviravolta improvável de brasilianismo, batizarem de "camarão que dorme a onda leva", o desfecho final é o mesmo: o preconceito da elite (seja qual corrente vença) levará Lula à prisão.

Não é ainda completamente certo também que o capítulo será exibido no formato que desejam redatores e as empresas de mídia detentoras da exclusividade da transmissão. Talvez nem sequer seja exibido. O que é certo, por enquanto, é que, como num thriller, mais importante que o gran finale é o suspense que antecede essa cena.

E nesse quesito, não podemos deixar de elogiar, o roteiro tem sido "campeão" de audiência. Um passo após o outro, toda "coerência" dramática tem levado certinho o público na direção que os redatores almejam. As paixões despertadas pelas ações dos personagens são de uma fidelidade à estrutura dramática digna dos melhores roteiristas de suspenses. Nem nos melhores sonhos e imaginações alguém poderia pensar, há alguns meses, que estaríamos próximos dessa cena. Presidente com a maior aprovação ao sair do governo, em poucos anos se torna o grande vilão dos problemas do país! Tchananan! A composição desse personagem realmente recebeu retoques de maquiagem das melhores empresas de showbiz americanas. Mas o melhor de tudo: parece tudo 100% nacional, 100% verde e amarelo.

Bom, se a história que nos contam é verdadeira ou não jamais saberemos. Com tamanha desenvoltura entre ficção e realidade a Lava Jato é uma dessas obras inclassificáveis. Mas também não há que esperar por "verdade", já que o que conta numa Poética, da qual a Lava Jato é apenas mais um exemplar, é a verossimilhança, que a história seja crível, que o público acredite na história. E nesse quesito a dramaturgia tem sido muito bem amarrada desde o início.

Alguns achavam (talvez ainda achem) que os redatores paranaenses não estariam dispostos a ir tão longe no thriller, na exibição das cenas. Talvez tenham acreditado, como uma certa Senhora e um de seus justos auxiliares, que valores "republicanos" imperassem nas transmissões. Tudo isso desapareceu, como vimos, nos eletrizantes últimos capítulos da novela, em que alguns dos maiores empresários do país foram presos e, agora, em que o mítico José Dirceu foi parar atrás das grades, novamente. Quem desafia o dinheiro desafia uma biografia. Desafia até a própria narrativa, que muda o enredo no meio da novela, de um "cartel de empreiteiras para financiar partidos políticos", agora sabemos que se trata de um "Mensalão II". Bom, quem se importa com esses detalhes, não é mesmo? Melhor repetir um grande sucesso de audiência do que emplacar algo original, não é? Como toda novela, o que importa é o último capítulo e, nesse sentido temos certeza de que teremos boas imagens, e também belas fotos para a revista de fofocas que muitos confundem com jornalismo. O sucesso, os aplausos, são garantidos, não tenho dúvida.

É verdade que ainda não sabemos quando os redatores pretendem colocar no ar, mas tudo indica que não demorará muito. Afinal, como num bom suspense, o encadeamento do tempo é a grande chave da trama.

Quem viver, verá! Certamente será um espetáculo daqueles em que ninguém sairá imune. À direita ou à esquerda da trama.

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Vinicius B. Vicenzi, Doutorando em Filosofia na Universidade do Porto (Portugal), especial para o Nota de Rodapé

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

As duas mortes

Passados os 50 anos do golpe militar a coluna 1964+50 segue firme em 2015, mas agora com novo título: VIVOS. Afinal, mortos e desaparecidos estão vivos na nossa memória e na nossa história.


por Fernanda Pompeu    ilustração Fernando Carvall*

Antonio Benetazzo
Nascimento: 1 de novembro de 1941
Cidade natal: Verona - Itália
Morte: 30 de outubro de 1972
Local final: São Paulo - SP
Motivo da morte: assassinato

Antonio Benetazzo, o Benê, saiu dos quadros das artes plásticas para os quadros da resistência armada contra a ditadura militar. Tornou-se dirigente do Molipo - Movimento de Libertação Popular. Preso pela turma do Doi-Codi - SP imediatamente entrou na lista dos mortos programados.

Encapuzado, Benê levou um golpe na cabeça. Caído no chão, passaram com a roda de um Fusca em cima do seu crânio. Serviço feito! Vamos tomar umas Brahmas. Depois a gente leva o corpo para o Brás e faz o teatrinho do atropelamento.

Mas, às vezes, as coisas saem errado. Benê acordou vivinho da silva! Atordoado e com dor perguntou aos algozes: O que aconteceu? O que vocês estão fazendo comigo? O jeito de resolver foi definitivo: a pedradas esmagaram a cachola do pintor e militante.

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Fernanda Pompeu é a mulher do texto Fernando Carvall é o homem da arte

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Corumbiara: massacre ou batalha?


Ocorrido há vinte anos, o conflito agrário entre sem-terra e policiais em Corumbiara, que resultou em 12 mortos, abriu a disputa entre grupos de reforma agrária pelo significado dos fatos

por João Peres*

A joia da coroa está em disputa. Os anéis, as mãos, os dedos: tudo foi colocado sobre a mesa. E não há vencedor. Ocorrido há 20 anos, o chamado “massacre de Corumbiara” é uma história em aberto. A luta pelo significado das 12 mortes registradas na tentativa de reintegração de posse da fazenda Santa Elina, no sul de Rondônia, em 9 de agosto de 1995, parece não ter data para chegar ao final.

Sem o apoio de grupos institucionalizados de reforma agrária, centenas de famílias ocuparam, em 14 de julho daquele ano, a gigantesca área de 18 mil hectares, uma de muitas criadas durante a ditadura por meio de editais de concessões de terras. Os líderes da articulação estavam rompidos com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), mas tinham credibilidade por vitórias obtidas na região, que tem um dos solos mais férteis do estado. Muitos se sentiram atraídos pela possibilidade – 2,3 mil pessoas, no cálculo dos posseiros. E os fazendeiros decidiram que não podiam sofrer nova derrota.

Os fatos que seguem são simples de entender. O Judiciário determinou a reintegração de posse imediata. O comandante do 3º Batalhão da Polícia Militar, José Ventura Pereira, postergou o cumprimento do mandado, ciente de que poderia haver uma tragédia. Contudo, entre a madrugada e a manhã de 9 de agosto, pressionado, deu início à dramática operação.

Imagem: Gerardo Lazzari 
Antenor Duarte do Valle, vizinho da área ocupada, é o personagem mais intrigante da história. Beneficiário de 43 mil hectares doados pelo regime autoritário, multiplicou fortuna e poder ao mostrar que, também na democracia, poderia manter sob seu comando Judiciário, Legislativo e Executivo. Contra ele há denúncias acumuladas de exploração de trabalho escravo desde 1986 e, entre 2004 e 2009, figurou na chamada “lista suja” de empregadores flagrados nessa condição pelo Ministério do Trabalho. Construiu fortuna à sombra, sem pretensão de aparecer nas colunas sociais, e não lutou pela narrativa pública do que ocorreu na Santa Elina.

De maneira diferente atuaram os líderes da ocupação, que se empolgaram nas semanas seguintes aos fatos. Apesar do desfecho trágico, agora estavam animados por despertar a atenção de instituições distintas ideologicamente. Num primeiro momento, orbitaram em torno de grupos reformistas, em especial da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Ainda em 1995, foram seduzidos pela Liga Operária, uma organização de atuação urbana baseada em Belo Horizonte (MG).

Após o trágico episódio, fundaram o Movimento Camponês Corumbiara (MCC) e passaram a ter como foco principal o assentamento criado em Theobroma, no centro de Rondônia, onde seria colocada parte das famílias expulsas da Santa Elina. Com mais dinheiro e poder em mãos, os líderes viram a coesão se esvair, no entanto. Cícero Pereira Leite Neto acusou Adelino Ramos de se apropriar de uma serraria que deveria gerar receitas para o movimento. Acabou expulso. Adelino deixou o MCC na sequência e, em 1999, foi a vez de seu filho, Claudemir Ramos. A essa altura, os cabeças da ocupação da Santa Elina estavam rompidos com a Liga Operária, que, em 2000, anunciou a criação de seu braço rural, a Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia (LCP). A Polícia Militar, como corporação, não teve interesse em interceder na discussão dos acontecimentos. Com isso, LCP e MCC passaram a rivalizar os debates. A briga inicial em torno da versão dos fatos foi semântica: a LCP passou a advogar que o que ocorreu foi uma batalha, ou um combate, e não um massacre. A nomenclatura figurava também na boca de policiais e promotores, mas não com o sentido almejado pela organização, que sempre ressaltou um suposto papel heroico, de resistência. Uma versão que criou complicações para os líderes da ocupação, que advogaram que não houve enfrentamento, mas um massacre.

As linhas gerais da acusação formal pelo Ministério Público (MP) são simples. Na visão da promotoria, é preciso separar os fatos de 9 de agosto em dois momentos. No primeiro, sem-terra e policiais se enfrentam. No segundo, policiais descontrolados, tendo o acampamento já dominado, cometem abusos, torturas e execuções. Os líderes dos posseiros, diz a denúncia, não permitiram que os acampantes fugissem do local e assumiram o risco da tragédia ao partir para o confronto.

O MP alegou que líderes do acampamento e oficiais militares deveriam responder pelos fatos, tese parcialmente rejeitada pelo Judiciário. Além desses dois grupos, a intenção do MP era levar a julgamento Valle e seu capataz, José de Paula Monteiro, uma vez que o proprietário de áreas vizinhas à Santa Elina havia comandado um grupo de pistoleiros que assassinou ao menos um posseiro. Além disso, teria contratado policiais para que atuassem na espionagem dos ocupantes e ido até Porto Velho pressionar o governador Valdir Raupp (PMDB) a promover a reintegração. Ao final, Valle safou-se e foram a julgamento dois líderes dos posseiros e 12 policiais militares.

O júri foi marcado pela pressão para absolver os agentes públicos. Apenas os policiais militares Airton Ramos de Morais e Daniel Furtado e o então capitão Vitório Régis Mena Mendes foram condenados. Entre os sem-terra, Cícero e Claudemir foram considerados culpados.

Cícero havia se afastado dos movimentos de reforma agrária e, embora contrariado, estava preparado para cumprir a pena de seis anos e dois meses, o que só ocorreria a partir de 2007. Claudemir, rompido com a LCP e inconformado com a pena de oito anos e meio de prisão, deu início a uma trajetória de fuga ainda não concluída. Sem ele, coube ao pai, Adelino, representar o MCC nos primeiros anos deste século. Tido como centralizador por amigos e autoritário por inimigos, Adelino perdeu força e passou a promover ocupações cada vez mais próximas a Porto Velho, onde o solo é pobre.

Imagem: Gerardo Lazzari 
A LCP alimenta relação contraditória com os líderes da Santa Elina. Diz-se revolucionária e se notabiliza pelo “corte” (divisão da terra em lotes para fins de assentamento) popular, feito à revelia do “Estado burguês e hipócrita”, expressão que costuma utilizar em seus manifestos. Defende o direito de a classe trabalhadora formar unidades de autodefesa e vê no fim do latifúndio o único caminho para libertar as forças produtivas. O caso de Corumbiara é entendido como “uma ruptura entre as lideranças oportunistas que defendem a reforma agrária do governo e as lideranças combativas que romperam as ilusões com o processo eleitoral e defendem a revolução agrária”.

Em 2007, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) retomou os estudos para a desapropriação da Santa Elina. Sem conseguir comprovar o baixo grau de produtividade da área, o Incra agiu baseado nos índices de desmatamento. Fechou acordo com os herdeiros da fazenda, que receberam 52,7 milhões de reais por 14 mil hectares. A LCP foi o primeiro movimento a reocupar as terras.

A resposta veio em seguida. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Corumbiara, próximo ao PT, pressionou o Incra, que adotou decisão salomônica: metade para cada lado. Os “reformistas” ficaram com a área que inclui o ponto onde ocorreu o conflito. Aos “revolucionários” coube a sede da fazenda.

Enquanto isso, o MCC foi empurrado para fora do estado. Adelino, isolado, não teve muita força para mobilizar famílias dispostas a ocupar uma área insalubre, o Projeto de Assentamento Florestal Curuquetê, em Lábrea, no sul do Amazonas, na nova fronteira do desmatamento. Em maio de 2011, foi morto em Vista Alegre, distrito de Porto Velho, perto de onde morava. Osias Vicente, ligado a madeireiros, foi apontado como autor dos tiros. Daí por diante, o roteiro clássico: libertado no final daquele ano, Osias foi morto um mês depois e os dois casos acabaram arquivados sem chegar aos mandantes.

O MCC praticamente acabou depois disso. Claudemir saboreia o amargor da solidão. Foragido, não tem como representar o movimento e se opor aos antigos amigos. Se mantidas as regras penais atuais, os crimes pelos quais foi condenado prescrevem em 2020. “Quero voltar, inclusive quero ir lá dentro do assentamento do pai e reativar a luta. De uma forma estratégica, com cautela, mas sem burocracia”, conta, esgueirando-se para não ser apanhado. A joia da coroa segue em disputa.

* * * * * *

* João Peres, jornalista, editor do Nota de Rodapé e sócio-diretor da Agência Página Três, é autor do livro Corumbiara, caso enterrado, lançado em julho pela Editora Elefante. Este texto foi publicado originalmente na edição de agosto da revista mensal Retrato do Brasil.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Baiano voador


por Fernando Evangelista*

A conversa era daquelas banais.

– Moto é um troço perigoso – ele disse.

– E divertido – acrescentei.

Estávamos no meu carro. Eu dirigia, cruzando as avenidas do centro da cidade, e o pai, no banco do carona, relembrava a mobilete que havia me dado muitos anos antes.

– Aquele presente foi uma irresponsabilidade.

Foi aí que aconteceu. Lembro-me do pai gritando:

– Cuidado!

Tarde demais. Uma moto, dessas populares, furou o sinal vermelho e atingiu nosso carro. Para-choque e capô serviram de catapulta para lançar o motoqueiro pelos ares. Só que ele, por susto ou por reflexo, provavelmente pelos dois, não largou o guidão da moto. E isso fez com que ambos, o homem e sua moto, saíssem voando unidos pela avenida – ele plantando bananeira no ar, um salto de Cirque du Solei.

– Jesus! – eu disse.

O motoqueiro desabou sobre o capô de outro veículo que vinha ao nosso lado, destruindo o para-brisa. O som do vidro quebrando me tirou do choque e eu murmurei, talvez tenha só pensado:

– Morreu.

Saí do carro e fui até o motoqueiro, estatelado no asfalto:

– Tudo bem?

Pergunta cretina, mas eu queria saber se o homem estava vivo. Juntou um mundaréu de curiosos. E já havia gente, com celular em punho, batendo foto dos dois carros, da moto e do motoqueiro.

– Tudo bem? - insisti.

Ele tirou o capacete, coisa que não se deve fazer em caso de acidente e, quase com um sorriso de alívio, respondeu:

– Tudo em paz, meu rei.

Não havia dúvida, o motoqueiro voador era baiano. Pareceu-me muito simpático, apesar da circunstância e do jeitão que ele ficou no asfalto, deitado de banda, assim meio de lado, com uma perna esticada e outra flexionada, como um corredor de maratona visto de perfil. Negro, 20 e poucos anos, o homem tinha um quê de Lázaro Ramos.

A partir daí aconteceram coisas que, suponho, sejam possíveis só no Brasil: Uma senhora, gordinha e disposta, queria levantar o motoqueiro pelos braços para reposicioná-lo porque “assim deve estar muito desconfortável”. Alguém explicou que isso não se pode fazer, é preciso chamar os socorristas. Uma estudante, com saia e coque de antigamente, entregou um santinho de são Judas Tadeu para o homem deitado no meio da rua:

 – Este é o santo das causas impossíveis – ela disse. Tenha fé.

Foi juntando mais gente. Apareceu um que esbravejou contra a prefeitura, que não sinaliza direito os cruzamentos, outro falou que a prefeitura não tinha culpa no cartório, a culpa era dos motoqueiros irresponsáveis, que só fazem “trapalhada no trânsito”.

Um homem, aparentemente embriagado, argumentou que isso só iria melhorar quando fossem todos presos – políticos e motoqueiros, opinião que causou divergência entre o público. O bêbado queria colocar uma vela ao lado baiano. Eu o impedi:

– Vela para quê? O homem tá vivo!

A polícia chegou antes da ambulância – três policiais, em três motos diferentes. Meu pai explicou o que aconteceu, com muitos detalhes e alguns floreios. Sempre achei isso impressionante: ele não consegue – seja contar a história de um acidente de trânsito ou descascar uma vergamota – sem altas voltagens de entusiasmo.

Só então veio a ambulância.

– Eles estão chegando! – gritou uma mulher no ouvido do motoqueiro, como se ele fosse surdo. – Fica tranquilo. Não precisa entrar em pânico – mais gritos no ouvido.

Acionei o serviço de um guincho porque o meu carro não pegava. Antes da ambulância partir, o baiano me chamou, pediu meu telefone e entregou o seu cartão. Nome: Rodnei da Silva Santos. Profissão: Acrobata. E em letras bem grandes, na parte de baixo e de cima do cartão, o nome do circo: Grand Circo di Vitória da Conquista.

Parecia piada. O motoqueiro voador é um baiano acrobata. Conversamos um pouco e nos despedimos como dois velhos conhecidos.

Quando o guincho chegou, já sem plateia, pai e eu recolhemos os objetos que estavam no meu carro. Entre papeis de bala e extratos de banco, achei discos do Caetano, do Gil e um dos primeiros do João Gilberto, um livro de crônicas do João Ubaldo Ribeiro e outro do Ricardo Sangiovanni, um documentário, em DVD, sobre Glauber Rocha e, por último, um livro de memórias do meu tio Emanuel, irmão mais novo do meu pai.

Todos eles são baianos, com exceção do meu tio, que nasceu em Florianópolis, mas mora em Salvador e tem alma de baiano. O Glauber, para completar a coincidência – e isso só lembrei depois - nasceu em Vitória da Conquista, terra do motoqueiro voador.

Naquele instante, sem saber bem o motivo, fiquei feliz de conhecer a Bahia e de entender um pouquinho da sua grandeza.

 – Tudo bem? – perguntou-me o condutor do guincho.

Olhei para ele, sorri e respondi com aquela inconfundível musicalidade:

– Tudo em paz, meu rei.

* * * * * *

Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Presidente


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna

 A Izilda era uma menina alegre, faladeira e debochada, agitava o recreio com suas tiradas engraçadas e comentários mordazes do tipo metralhadora giratória. O nome da santa criança, então muito popular no interior paulista, felizmente não a impedia de imitar os professores pra nos fazer rir e animar a torcida em qualquer jogo. Queria cursar administração e trabalhar na grande fábrica de meias que era o orgulho da cidade.

Estudamos juntas uns três anos, e daí cada uma tomou o seu rumo. Tempos depois, numa tarde nublada, eu a vi num ponto de ônibus, com a barriga enorme e a expressão de desamparo, os olhos opacos, dos quais desciam lágrimas teimosas, que ela secava com as mãos. Trazia uma aliança no anelar esquerdo. Ainda não tínhamos chegado aos dezessete anos. Não me aproximei, ela nem me olhou, nunca mais nos vimos.

Para matricular os filhos na escola, era preciso declarar a profissão do pai. A da mãe era automaticamente preenchida como "do lar", sem mais. Mas a nossa mãe era professora, precisávamos retificar sempre. A profissão feminina mais disseminada, depois de empregada doméstica, junto com enfermeira e cabeleireira. Tudo o que as mulheres faziam para "ajudar o marido", ou mesmo para sustentar os filhos sozinhas, era desimportante e entrava na conta da obrigação, na base do quebra-galho. Cresci cercada de mulheres que davam um duro danado, submetidas e desvalorizadas, sem perspectiva de crescimento pessoal ou carreira. Menos ainda em plena ditadura militar, quando qualquer comportamento ou aspiração fora da caixinha era um baita risco, você não faz ideia.

Aos seis anos, a Leila curte ler livros de bichos e aventuras, visitar os avós e primos na Espanha e brincar com a irmã menor. Leva uma vida boa, de ir à escola e ter tempo livre. Adoro ver seu jeito leve e solto de criança cujo futuro se fará a seu tempo, sem muita pressão e ansiedade, filha de pais que escolheram descomplicar. No aniversário em que nos encontramos, há poucos dias, sua mãe nos contou da recente conversa da Leila: quer ser presidente da república. E o que você vai fazer como presidente? Dar todo o dinheiro do governo aos pobres, reciclar o lixo e limpar o planeta. Acordes iniciais da promissora, tanto quanto imprevisível, sinfonia da Leila.

* * * * * *

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

terça-feira, 28 de julho de 2015

A orquestra e o país

por Fernando Evangelista*

Meu nome é Wesley, com y, tenho 29 anos e trabalhava, até sexta-feira passada, numa ONG dedicada a ensinar música erudita para jovens da periferia. Tudo ia bem, como nas propagandas de margarina, até que um patrocinador faliu, outro morreu, veio a crise e eu acabei metendo o nariz onde não devia.  

A ONG, criada por um maestro e dois irmãos, começou pequena, oferecendo aulas gratuitas de piano e violino. Com apoio do município e de um patrocinador privado, além de doações ocasionais, ela cresceu, ampliou os cursos e formou uma orquestra

Eu não entendo nada de música, mas aquela orquestra era coisa fina. As apresentações, concorridíssimas, lotavam praças, teatros e ginásios. Dava gosto de ver. Ano retrasado, a orquestra ganhou um prêmio do Ministério da Cultura e apareceu numa reportagem em rede nacional. Foi um sucesso.

Minha função na ONG estava escrita numa placa de madeira sobre a mesa: telefonista. Eu mesmo comprei a placa numa feira de artesanato. Diariamente, recebia uma porção de telefonemas e atendia cada um com atenção e gentiliza. Modéstia à parte, sempre fui bom de papo. Tinha especial simpatia pela Dona Dalva, que ligava quase todos os dias, por volta das cinco da tarde, para falar de um gato siamês recém-adotado.   

Mas aí começou o drama: o patrocinador da orquestra faliu. E como notícia ruim nunca vem sozinha, o prefeito bateu as botas, abotoou o paletó, e assumiu o vice, que não gostava do maestro, nem de música, e decidiu cancelar o apoio. O dinheiro acabou. 

Convocou-se uma reunião de emergência. Foi chamado o Conselho consultivo, o Conselho deliberativo e Conselho financeiro, cada qual munido de calculadora, tabela e planilha. Na sala de ensaios, umas 30 pessoas espremidas e abatidas ouviram o maestro, que vinha a ser também o diretor e fundador da ONG, anunciar: 

– Ou encontramos uma saída ou teremos que fechar. 

Aquele homem, sempre tão otimista, parecia a sinfonia da desesperança. O vice-diretor também estava arrasado. O maestro passou a palavra ao grupo. Ninguém falou nada. Então, meio sem pensar, levantei timidamente o braço, o coração deu aquela disparada, devo ter ficado vermelho.  

– Fale, Wesley – autorizou o maestro. 

Confesso que sou atropelado pela vaidade quando ouço o meu nome dito assim, com certa formalidade. Cá entre nós, é um nome de presença. Wesley, com y. Um dia vou ser deputado. 

– Por que não vendemos alguns instrumentos? – sugeri.  

As pessoas me olharam de um jeito estranho. Não gosto que me olhem assim. Alguém perguntou há quanto tempo eu trabalhava como telefonista. Respondi. 

Os representantes do Conselho consultivo, do Conselho deliberativo e Conselho financeiro, canetas suspensas sobre as folhas rabiscadas de cálculos e dívidas, não disseram nada. Quem disse foi o maestro. 

– Pode ser uma saída. 

E assim foi feito. Primeiro foram vendidos os carrilhões, xilofones, vibrafones, marimbas, pratos, triângulos e castanholas. Quando os alunos de percussão chegaram à escola, deram de cara com o recado pregado na porta de entrada. Foi de cortar o coração.   

Era, porém, por uma boa causa. Como se diz por aí, é “melhor perder alguns anéis do que perder o dedo”. Entrou dinheiro, as coisas estavam saindo como planejado. “Boa, Wesley”, disse para mim mesmo, orgulhoso. Um dia vou ser deputado. 

A alegria durou pouco. Logo se constatou que o valor arrecadado era insuficiente. Aí foi a vez de vender as flautas, clarinetes, saxofones, oboés, trompas, trombones e trompetes. Os alunos de sopro se surpreenderam com o aviso pregado na porta de entrada. Outra comoção. 

Alguns dias depois, os Conselhos administrativo, deliberativo e financeiro constataram que a conta ainda não fechava. E, por unanimidade, decidiu-se seguir com as vendas. E lá se foram os violinos, violas, violoncelos, contrabaixos e o piano de cauda. Falei para um dos alunos, o mais abatido de todos, aquele ditado dos anéis e dos dedos. Ele me mandou à merda.  

Outra vez reunidos, os Conselhos decidiram seguir com as vendas. Mas vender o quê? 

Já não havia mais nenhum instrumento para vender. 

Vou dizer uma coisa: orquestra sem instrumento é um troço feio pra burro, feio e triste como um rio seco. Parece cemitério abandonado. Ouvi uma voz interna me dizendo: “Culpa tua, Wesley, culpa tua”. Eu nunca vou ser deputado. 

Para tristeza geral, nessa última sexta-feira, 24 de julho de 2015, a ONG fechou as portas definitivamente. Quando eu estava saindo, depois de limpar minha mesa e guardar na mochila a plaquinha de madeira, ouvi o telefone tocar. Fiquei na dúvida, não sabia se atendia ou não. Atendi porque achei que fosse dona Dalva. Era engano.   

Cheguei em casa, liguei a televisão e vi o ministro da Economia, acompanhado de uma trupe de assessores - munidos de calculadoras, tabelas e planilhas -, explicando as razões do novo pacote econômico. Ele falou termos esquisitos como “austeridade” e “governabilidade”. E, coincidência estranha, falou também sobre perder alguns anéis para não perder os dedos. 

Apesar de eu não entender nada de economia, nem de anéis, a lógica da autoridade me pareceu semelhante à minha ideia infeliz de vender os instrumentos para salvar a orquestra. 

Pensei em escrever uma carta para o ministro, contando esta história. Mas acho que o ministro não tem tempo para ler essas coisas – ele está ocupado, com suas planilhas, calculadoras e tabelas, salvando o país

Tomara que consiga.

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Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Calendário

por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Em algum momento do passado remoto, nossos ancestrais começaram a juntar observações sobre mudanças na vegetação, chuvas, temperatura e comportamento dos outros animais com a repetição periódica dos eventos, e concluíram que vivíamos sob o efeito de um fenômeno chamado tempo. Depois inventaram o calendário, tornando possível programar a vida de acordo com os humores sazonais, semeaduras e colheitas. Mais recentemente, com o imposto de renda, a fatura do cartão de crédito e os aniversários. Dependendo do temperamento e da rotina individuais, um ano da nossa vida moderna pode transbordar de celebrações as mais variadas, religiosas, cívicas, sociais, familiares e pessoais.

A memória me traz um dos grandes romances da minha adolescência, “O tempo e o vento”, do gaúcho Érico Veríssimo, uma caudalosa saga dos começos do Rio Grande do Sul. Li os sete volumes de enfiada, como se perseguisse um seriado sobre as aventuras dos Terra-Cambará. Logo nas primeiras páginas, Ana Terra, moradora, com os pais e dois irmãos, de um campo perdido na conturbada fronteira das colônias disputadas por Espanha e Portugal, expressava seu profundo tédio pela rotina de trabalho incessante e isolamento, tal que não lhe permitia acompanhar a sequência dos dias da semana – que, afinal, não fazia nenhuma diferença, pois eram sempre iguais – ou saber exatamente em que ano estavam. Para a inquieta e curiosa leitora, ávida por finalmente completar os benditos dezoito anos, que nunca chegavam, uma inimaginável desconexão.

Fazemos com o tempo todo tipo de associações: “não lembro o ano, mas foi quando viajei de avião pela primeira vez”, ou “vi esse filme na época do impeachment do Collor”, ou ainda “quando isto aconteceu, eu estava grávida da segunda filha”. Isto porque, no fim das contas, o tempo fica marcado dentro da gente, os números são apenas uma referência, à qual nos ensinaram a dar demasiada importância.

E as datas comemorativas? Dá de um tudo, especialmente depois que a internet nos colocou nessas redes sociais. Com a minha enorme preguiça de celebrações obrigatórias, passo batida por todas elas. Até para aniversários me falta competência, o que às vezes me coloca numas tremendas saias justas.

Um dia desses, avisaram que era Dia do Amigo. Quem precisa dele? O encontro, a afinidade, a empatia, o prazer do contato e da companhia, a história compartilhada, o silêncio cúmplice, a conversa – fiada ou relevante – quando tudo isso se junta, com a assessoria de uma taça de vinho autorreabastecida, o tal Dia acontece. Beijinho no ombro pro calendário.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Matem o comunista

Passados os 50 anos do golpe militar a coluna 1964+50 segue firme em 2015, mas agora com novo título: VIVOS. Afinal, mortos e desaparecidos estão vivos na nossa memória e na nossa história.



por Fernanda Pompeu    ilustração Fernando Carvall

Hiram de Lima Pereira
Nascimento: 3 de outubro de 1913
Cidade natal: Caicó - RNbr
Desaparecido: 15 de janeiro de 1975
Cidade final: São Paulo - SP

Quem botou as mãos nele foi o pessoal da Casa da Vovó, apelido que os agentes de repressão davam ao Doi-Codi de São Paulo. O sequestro de Hiram de Lima Pereira fazia parte do plano de dizimar os dirigentes do PCB - Partido Comunista Brasileiro. Seu currículo político era impressionante: deputado federal pelo Rio Grande do Norte. Redator, em Recife, do Folha do Povo, jornal oficial do Partidão. Secretário de Administração na prefeitura de Miguel Arraes.

Com o Golpe de 1964, Hiram entrou na clandestinidade. Seguiu comunista, seguiu atuando. Como todo o PCB, nunca pegou em armas contra a ditadura militar. Acreditava no trabalho com as massas. Segundo Célia Pereira, companheira de Hiram, o marido estava fragilizado, quase cego por conta de catarata e glaucoma. Também sofria de problemas cardíacos. Os torturadores da Casa da Vovó levaram Hiram para o centro clandestino de tortura e morte em Itapevi. Depois, ninguém sabe, ninguém viu.

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Fernanda Pompeu é a mulher do texto
Fernando Carvall é o homem da arte

terça-feira, 21 de julho de 2015

Família Feliz

por Fernando Evangelista*

Saí do elevador, percorri o corredor mal iluminado e no instante em que toquei a campainha, li a plaqueta pendurada na porta do apartamento: “aqui vive uma família feliz”. 

Quase como um pressentimento, pensei em inventar uma desculpa, dar o fora e cancelar o jantar. Mas seria indelicado da minha parte e, além do mais, eu estava curioso. O casal feliz havia anunciado, por telefone e por e-mail, uma “grande novidade” e eu seria o primeiro a saber.  

A anfitriã me recebeu com um sorriso largo, contrastando com as olheiras fundas e o semblante cansado. Ouvi o marido gritar da cozinha um seja bem-vindo de megafone. Abraços daqui e dali, Caetano na vitrola, vinho em cima da mesa, cheirinho de tempero, clima gostoso. 

Os dois se conheceram na graduação, se casaram, tiveram dois filhos, os filhos já estavam crescidos e cursando a universidade. “Passa tão rápido”, murmurei, enquanto observava as fotos da família nos porta-retratos da sala. E pensei na plaquinha da entrada e na minha má vontade com essas afirmações de felicidade. Afirmações ou ostentações?  

“Felicidade”, dizia minha vó, “é uma sensação circunstancial e não deve ser usada para humilhar os outros”. Vó Rosa viveu 101 anos e acreditava nas alegrias degustadas em silêncio e com humildade. Para ela, “alegria em voz alta só no carnaval e nas partidas de futebol”, coisas, aliás, das quais nunca gostou. 

Há, porém, por toda parte, dentro e fora das redes sociais, um mundaréu de felizes fanáticos, seres barulhentos que gostam de exibir, a toda hora e a qualquer passo, suas magníficas vidas de propaganda de margarina. Vidas sem problemas nem angústias. 

Além de colocar plaquinhas na porta, notas nos jornais, fotos nas revistas e posts no facebook, esse pessoal gosta de decorar o carro com mensagens e confissões edificantes. Já vi um assim: “Sou feliz porque sou católico”. 

– Afinal, qual é a novidade? – eu perguntei, voltando a minha atenção ao jantar, enquanto minha amiga me servia o ravióli de mussarela com manjericão.    
       
– Decidimos dar um basta – ela disse. 

E me perguntou se eu lembrava a frase de Benjamin Disraeli que repetíamos na época de faculdade.

Frase? Não, eu não lembrava. Pedi, educadamente, que eles parassem de enrolar e contassem de uma vez a grande novidade. 

A novidade começa com uma tia solteirona, que vivia sozinha em Ribeirão Preto (não lembro se tia dela ou dele), e que bateu as botas, foi desta para uma melhor, descansou. E, além de descansar, deixou uma herança para o casal. “Nenhuma fortuna”, explicou o marido, “mas nada desprezível”. 

Chegara no momento certo, a herança. Ambos estavam de saco cheio da rotina e dos empregos, da cidade violenta e engarrafada, com discussões domésticas acumulando mágoas e desgastando a relação. 

– Vamos pegar esse dinheiro inesperado – ela contou – vender os dois carros, vender o apartamento e curtir a vida.  

– Sério? E vão fazer o quê? – perguntei, pensando outra vez na plaquinha da porta de entrada.

– Talvez a gente compre um barco e veleje por aí.  

Dois anos se passaram. 

Nessa última quinta-feira, fria e chuvosa aqui no Rio Tavares, recebi uma carta deles e algumas fotos das Ilhas Seychelles, no Oceano Índico. Fiquei impressionado, em primeiro lugar, por descobrir que as Ilhas Seychelles realmente existem e, em segundo, por ver aqueles dois numa boa. Pareciam, talvez sem querer parecer, felizes de verdade.  

Com letra bem desenhada, no cantinho esquerdo da carta, na vertical, estava a frase que repetíamos no tempo de faculdade e que eu não lembrei naquela noite: “a vida é muito curta para ser pequena”.  

No dia seguinte, com olheiras profundas e sem heranças, sem carro e sem um imóvel próprio, acordei cedo e fui ao centro. Comprei uma plaquinha de madeira, em estilo de guirlanda de natal – absolutamente horrível – com os dizeres: “Aqui vive uma família feliz”. E preguei na porta de entrada da minha casa. Talvez funcione para alguma coisa, nem que seja para irritar os outros. 

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Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Máscaras


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Às vezes, parece que a morte está atrasada com as encomendas, de tanto que atravessa os caminhos à nossa volta. Nos últimos tempos, está caprichando no serviço, tanto entre pessoas públicas da minha estima quanto no círculo próximo ao coração. Sem falar no cenário mais amplo, da mortandade desnecessária e banalizada na atuação das nossas polícias e de grupos criminosos, das guerras civis, conflitos internacionais e atentados terroristas. Mas acho que nesses casos a personagem principal nem é solicitada, pois a produção no atacado dispensa seus trabalhos. E se repete a velha história dos humanos que eliminam outros humanos, em nome de que mesmo? Nem se lembram mais, com tanto sangue nos olhos e no juízo.

Mas ela pode ser também sabida, esperada e serena. Meses atrás, uma querida amiga partiu do nosso convívio, cercada de afetos e cuidados, numa passagem tranquila e suave. É certo que lutou com fúria para que seu corpo vencesse os ataques de uma doença insidiosa, num embate de força e determinação de ambos os lados. Venceu o lado mais experiente, que conhece há muito mais tempo os segredos dessa guerra.

Durante a noite em que estive muito tempo tratando de acolher a notícia da sua partida, ela esteve viva como nunca. Entre outras situações, em Buenos Aires, uns dez anos atrás, quando ambas participávamos de uma longa reunião de trabalho. Surgiu um raro momento de folga, e saímos num pequeno grupo a andar por Caminito. Sob um céu de aquarela e a luz amarelada do outono no sul, perambulamos por uma feira de artesanato e bugigangas turísticas. De longe ela avistou lindas máscaras venezianas expostas em determinada banca. Provou várias e escolheu duas, em meio a muitos comentários divertidos e gargalhadas, jamais economizadas. (Máscaras que talvez tenham sido usadas no embate final, para tentar iludir o outro lado.)

As dezenas de pulseiras, adornos inseparáveis do seu braço esquerdo, suas echarpes, brincos, colares, anéis, sapatos número quarenta, casacos que a protegiam dos intensos frios do norte, outros agasalhos, cintos e sabe-se mais o que, foram organizados pela família e repartidos entre as pessoas queridas, convidadas para uma celebração da sua vida, seguida de festa na sua amada Casa Azul que, na verdade, era de todos nós.

Se eu tivesse estado lá, teria procurado e trazido comigo as máscaras de Caminito. Nas horas de desconsolo, vazio ou desamor, com uma delas me olharia no espelho e me veria mais forte e preparada para encontrar aqui dentro a saída. A outra me caberia com perfeição para aqueles momentos em que o espelho devesse me devolver em dobro a alegria e o transbordamento dos sentidos.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Um homem bom


por Fernando Evangelista*

Ditas de supetão, muitas vezes sem sentido e sem contexto, as frases eram lançadas no meio de uma conversa qualquer:

– Basta de experiências, beba Caxambu. 

E o pai ria sozinho. Ele mesmo falava e apenas ele entendia e eu ficava com cara de ponto de interrogação.

Dentro do carro, me levando à escola pela manhã, ele dizia sério, com voz de barítono:

– Toque outra vez, Sam.

– Quem é Sam? – eu queria saber, embora intuísse que ficaria sem resposta. 

– Prendam os suspeitos de sempre.

– Pai, para com isso!

– Sempre teremos Paris.

Ele se divertia às custas da minha ignorância.

Anos mais tarde, descobri que “basta de experiências, beba Caxambu”, era uma publicidade de água mineral. E quando vi o filme Casablanca pela primeira vez, reconheci, nos diálogos de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, as citações que meu pai repetia naquela época e que continua repetindo ainda hoje.

Incompleto, de mão única, engraçado para ele e frustrante para mim, esse diálogo marcava a lonjura de nossos mundos, tão distantes quão distintos.

Às vezes as frases eclodiam como ordens ou reprimendas:

– Alto lá, moleque, eu sou da época do elixir paregórico!

– Ah?

– Dura Lex Sed Lex, no cabelo só Gumex.

Meu pai nasceu nos anos 30, numa Florianópolis muito pequena, quase uma aldeia, e as pontes que o ligavam ao resto do mundo eram o rádio – com suas novelas inesquecíveis e intermináveis; o cinema – com faroestes americanos dominando as matinês dos finais de semana – e, finalmente, a literatura, com as histórias de Edgar Allan Poe, Emílio Salgari, Rafael Sabatini, Edgar Rice Burroughs no topo da lista.

Se o pai começou a ver filmes e a ler para acessar mundos desconhecidos, eu o fiz para penetrar no mundo dele, para entender suas frases e assim, “entendido”, manter um diálogo que fizesse sentido para mim e despertasse algum interesse nele.

Futebol seria um caminho mais simples e mais rápido, caso ele entendesse alguma coisa do riscado. Nunca entendeu e nutriu, ao longo da vida, uma recíproca relação de desconfiança com a bola - nas poucas ocasiões em que se arriscou a jogar, deixou um rastro de vidraças quebradas, canelas inchadas e gols contra.

De minha parte, nunca gostei de papos jurídicos, nem de vê-lo, madrugada adentro, trabalhando naqueles processos intermináveis, que ocupavam sua mesa e o seu tempo. Gostava, porém, de vê-lo com a toga preta, que lhe dava um ar de super-herói, uma mistura de Batman e Zorro.

Unidos pelo afeto, mas sem interesses comuns, seguimos tropeçando em diálogos incompletos. E então, no fim da minha adolescência, a literatura nos ofereceu um amor em comum. Foi paixão à primeira vista e à altura de Casablanca e viramos, ele e eu, leitores de Carlos Heitor Cony, escritor fascinado por balões de São João e pelo assassinato, jamais esclarecido, de uma milionária chamada Dana de Teffé.  

Devoramos todos os livros do Cony. Além dos romances, líamos e relíamos suas crônicas publicadas na imprensa e as melhores guardávamos numa pasta amarela. Essa pasta, mais do que um depósito de textos velhos, era o indício de uma aproximação, uma esperança de ponte entre nós.    

Outros autores e outros filmes foram sendo descobertos e compartilhados. Também virei fã de Casablanca, embora não seja capaz de reproduzir, como ele, os diálogos da primeira à última cena. Ele assistiu ao filme centenas de vezes e não para de rever, para desespero de minha mãe que, bem antigamente, se comoveu com aquela história, mas se cansou de tantas reprises e de tantas citações.

O pai não se cansou. Cada vez que revê Casablanca ou lê uma crônica do Cony – daquelas que mereceram abrigo na pasta amarela, – ele se emociona e volta aos “anos mais antigos do passado”, volta ao seu tempo de descobertas, quando era um guri magrelo, de bigodinho indecente, que fumava Hollywood sem filtro e fazia política estudantil, usando qualquer meio-fio ou para-choque de carro para inflamados discursos contra prefeitos e presidentes. Entre um e outro ato político, sonhava com o Rio de Janeiro e com as pernas da Marlene Dietrich.

Neste último final de semana, no apartamento dele e da mãe, durante a macarronada nostra di ogni domenica, lembrei-me daquela famosa mistura linguística, ouvida à exaustão na infância: “Dura Lex Sed Lex, no cabelo só Gumex”.

– É o slogan de um gel de cabelo – ele explicou. – A frase foi inventada numa transmissão radiofônica, durante um jogo de futebol. O locutor precisava anunciar o gel e, sem saber o que dizer, saiu-se com aquilo.

Ele me pergunta se eu sei quem era o locutor.

– Não faço ideia.

– Ary Barroso, autor de Aquarela do Brasil.
 
– É? E a frase do elixir paregórico?

Aí o pai empertigou-se, deitou cuidadosamente o garfo sobre o prato, ajeitou o guardanapo sobre o colo, pegou o copo de vinho, deu um gole e, sem disfarçar o orgulho, disse:

– Essa é minha! 

Ultimamente, descobrimos uma nova paixão em comum: as séries. A genial Família Soprano foi a primeira e, ano passado, assistimos à Breaking Bad, enredo capaz de causar dependência nos telespectadores. Ainda no domingo, quando nos despedíamos em frente à porta do elevador, ele disse, citando uma passagem famosa da série:

- Aprendi na reabilitação a aceitar quem eu realmente sou. Eu aceito quem eu sou.”.

        – E quem você é?, perguntei, dentro da brincadeira e já de dentro do elevador.  
– Eu sou o cara mau” ele respondeu.

Rimos enquanto a porta se fechava.

Saí satisfeito, as frases faziam sentido. Havia diálogo e interesses em comum. Havia cumplicidade e ela não estava, apenas, naquela pasta amarela.

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Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato
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