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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A "ditabranda" da Folha de S.Paulo

A Folha de S. Paulo deu uma tremenda escorregada ao publicar editorial no dia 17 de fevereiro usando o termo "ditabranda" sobre o período mais triste da história brasileira. O editorial cujo título é "Limites a Chavez" diz o seguinte no trecho de maior irresponsabilidade: "Mas, se as chamadas "ditabrandas" - caso do Brasil entre 1964 e 1985 - partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça -, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente." Ao escrever isso a FSP parece ignorar as torturas, assassinatos e todas as barbaridades do período. Como assim "ditabranda"? É um insulto àqueles que vivenciaram o período, que foram perseguidos e que até hoje carregam as marcas da luta armada ou não. Ivan Seixas, que foi torturado e teve o pai assassinado, não teve sua carta publicada na FSP. O jornal não se dignou nem a pedir desculpas ou pelo ombudsman dizer algo. Veja aqui a carta de Ivan: " Senhor editor. Vejo na página editorial da Folha loas ao bom comportamento dos ditadores brasileiros, que teriam sido até brandos com os inimigos. Vocês chegam até a cunhar o neologismo DITABRANDA para designar aquele período que todos os democratas definem como DITADURA. Hoje vi a redação insultar o professor Fábio Comparato e a Professora Maria Vitória Benevides de CÍNICOS E MENTIROSOS. A DITABRANDA de vocês me prendeu junto com meu pai, quando eu tinha 16 anos. Nos torturaram juntos e o assassinaram no dia seguinte a noite. Naquela mesma manhã, uma nota oficial foi publicada dando conta de sua morte ao resistir à prisão, quando ele ainda estava vivo. Minha casa foi saqueada, minha mãe e irmãs foram presas e ficaram 1 ano e meio presas, sem acusação sequer. Uma dessas irmãs sofreu uma violência sexual por parte dos agentes da DITABRANDA de vocês. Eu fiquei preso por longos 6 anos. Diante disso, convém perguntar: O que mais vocês gostariam que fizessem conosco? Saudações democráticas. Ivan."

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Memórias de um menino-soldado


Escrevo aqui sobre um dos livros mais estarrecedores que já li na vida. "Muito longe de casa. Memórias de um menino-soldado", editora Ediouro. Ishmael Beah, de Serra Leoa, autor do livro, é um ano mais velho que eu, de 1980. Quando perdeu sua família assassinada por rebeldes, tinha 13 anos de idade. Na mesma época eu estava feliz com a Copa do Mundo de 1994. Nem tinha idéia do que se passava no mundo. Mas se passava muita coisa. O que Ishmael conta no livro é tão triste, cruel, sem sentido, que a medida que as páginas corriam eu levantava pra lavar o rosto. A leitura dói. Não vou citar trechos, porque sugiro que leiam e tirem suas próprias conclusões. Da orelha, um panorama bem sutil do que são as memórias de Beah: "Das cerca de trezentas mil crianças-soldado que atualmente participam de conflitos pelo mundo inteiro, uma delas conseguiu escapar da morte, dos entorpecentes, da lavagem cerebral e dos abusos cometidos pelos senhores da guerra, para contar sua história. Ao escapar, por acaso, aos doze anos, de um ataque de rebeldes, Ishmael Beah perambulou pelo inteiror de Serra Leoa, acompanhando a progressão dos conflitos da guerra civil de seu país. Fã de hip-hop e de boa literatura, conhecido por recitar Shakespeare em sua aldeia natal, Beah é aliciado pelo exército do governo, e, além de vítima, torna-se algoz. Jogado na roda-viva da guerra, passa parte da infância e da adolescência matando sob o comando de adultos e fugindo da morte. Mesmo depois de reabilitado pelo Unicef, seguiu fugindo da matança e de seus muitos fantasmas - traumas profundos que leva para sua escrita. Aos vinte e cinco anos, Beah relata, aqui, uma experiência mais rica do que qualquer ficção jamais conseguiria recriar. E o faz com verdadeira força literária."

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Jogando no quintal


Sábado fui pela primeira vez no espetáculo Jogando no Quintal, um grupo de palhaços que apresenta o espetáculo com inspiração num jogo de futebol em que o que vale é a improvisação. Confesso que fazia tempo que não me divertia tanto. Como explica o site oficial do jogando no quintal o "jogo é disputado por dois times de três palhaços-atletas cada, acompanhado por um árbitro e por uma banda de música que cria ao vivo sons e melodias." Sai de lá feliz e todo mundo deveria ter a oportunidade de assistir. Voltarei outras vezes, já que o espetáculo nunca se repete. A capacidade de improvisação é genial, o jeito, as falas, as brincadeiras, impossível não rir e não entrar na onda da palhaçada. Muitos deles são integrantes dos Doutores da Alegria e o grupo começou em 2001.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Vinicius de Moraes

O site oficial do poetinha, o inesquecível Vinicius de Moraes é uma maravilha. Tem quase toda sua obra disponível, de criticas de cinema a sua poesia única. Fui ver o que achava sobre o carnaval para postar aqui e eis o que apareceu:

Soneto de carnaval

Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Tango eletrônico


Aqui vai um pitaco cultural, digamos. Conheci há pouco um grupo de tango eletrônico e gostei muito. O nome do grupo é Gotan Project. Gotan é a inversão das sílabas de Tango. O som é bom, une dub, hip-hop, picapes, bandoneon, piano e violino harmoniosamente. Gardel e Piazzolla ficariam contentes com a mistura. Nesse link dá pra ouvir várias em Mp3. Fica a dica.

Mais salário mínimo

Um pouco atrasado, mas vale tocar no assunto salário mínimo, ao menos para deixar registrado. Dia 1º de fevereiro ele passou de R$ 415,00 para R$ 465,00. Desde o início do governo Lula (janeiro de 2003) até agora houve um aumento real de 44,65%. O reajuste, segundo o DIEESE, vai beneficiar cerca de 43,4 milhões de pessoas. Além disso, o aumento vai permitir a entrada na economia brasileira, de aproximadamente R$ 27,8 bilhões ao longo do ano, e incrementar a arrecadação tributária em R$6,8 bilhões. Que a política de valorização do salário mínimo continue. É o que queremos todos nós, trabalhadores.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A Venezuela festeja

Me surpreende os jornalistões da grande mídia brasileira com seu discurso hipócrita sobre a vitória do "sim" na Venezuela que permite a reeleição indefinida para cargos executivos. Morrer de amor ou não por Hugo Chávez é opinião de cada um. O fato é que o comparecimento às urnas foi de mais de 70%, alto num país onde o voto não é obrigatório. Também é prova de que o "ditador", como propagam, tem muita aceitação e respeito em sua proposta na revolução bolivariana. Se é golpe? Não é. Quem sofreu um golpe foi o próprio Chávez, anos atrás, com apoio estadunidense. A vitória de ontem do "sim" foi com diferença de mais de 1 milhão de votos. Me alegra ver um evento democrático sobre o futuro de um país da América Latina. Com o resultado deste domingo, os partidários de Chávez somam 14 vitórias nos 15 processos eleitorais (presidenciais, parlamentares, regionais e referendos) realizados nos dez anos desde a vitória do presidente bolivariano. Apenas no referendo da reforma constitucional, em dezembro de 2007, a corrente bolivariana não obteve a maioria, perdendo por 1,6% dos votos. O povo venezuelano saudou com buzinaços, fogos de artifício, música e dança nas ruas a vitória.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Jean Charles de Menezes


Como citei no post da manhã, "Violações", os policiais britânicos que mataram a tiros o brasileiro Jean Charles de Menezes há quase três anos na estação de metrô Stockwell, em Londres, não serão submetidos a julgamento por crime. Jean Charles foi "confundido" com um terrorista, em 22 de julho de 2005. Segundo a decisão, a morte (assassinato, certo?) não poderia ser descrita como "morte legal e justificada". A família quer tentar pedir uma nova revisão da decisão. Na foto de 19 de janeiro, feita pelo amigo jornalista Paulo Ranieri e disponibilizada com exclusividade para esse blog, um londrino observa santuário na estação Stockwell, feito em homenagem ao brasileiro.

Violações

Vendo o noticiário da manhã de sábado, internet e tv, quatro casos de violação dos Direitos Humanos. A brasileira na Suíça supostamente vítima de xenofobia. O caso Jean Charles com mais um episódio, os policiais britânicos que o mataram a tiros há quase três anos numa estação de metrô de Londres que não serão submetidos a julgamento por crime. Um sequestro de um comerciante do Brás que estava amarrado a uma cadeira, vendado e torturado todos os dias, com filmagens dos atos para chantagear a família. E policias militares da zona sul, que matavam as vítimas arrancando os dedos dos pés e mãos, além de decepar a cabeça para dificultar a investigação.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

22 mil escravos em cinco anos

Foram 21.850 casos de trabalho escravo no Brasil entre 2003 e 2007. O estudo é da Unodc (Escritório das Nacões Unidas sobre Drogas e Crimes). O relatório aponta dados de 155 países. Do total, 2007 foi o ano em que mais ocorrências foram descobertas: 5.975. Vale ressaltar que o maior número de casos é consequência da maior fiscalização do Ministério do Trabalho, com a força do jornalismo social da Repórter Brasil, que mantém uma "lista suja" desse tipo de situação no país. Vale conhecer o trabalho da Ong coordenada por Leonardo Sakamoto. O estudo revela ainda que de 2004 até fevereiro de 2008, 41 pessoas foram condenadas por tráfico humano no Brasil.

1 bilhão com fome

São 963 milhões de pessoas as que passam fome todos os dias no mundo, segundo dados de 2008 da FAO, um aumento de 40 milhões em relação a 2007, e que transformaram a meta do milênio, fixada pelas Nações Unidas para reduzir a desnutrição e a pobreza extrema à metade para 2015, em uma verdadeira ilusão.

Chiclete pra quê?

Uma amiga, Paula Sacchetta, esteve em Cuba recentemente. No aniversário da revolução. De lá trouxe o que ninguém acredita, boas novas de um povo solar. Na bagagem, muitas imagens. Aqui indico o ensaio fotográfico com um texto sobre essa experiência: "Cuba de la Revolución: Chiclete pra quê?"

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O que vocês acham?

Meus caros, estou fazendo uma pesquisa de nome. Na verdade, quero saber qual a impressão que passa o nome JOVELINA, qual a sensação? O que te lembra? Quem puder responder vou agradecer muito, gracias.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Tarde de caos #3

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Imagens da janela de casa. Reparem o túnel ao fundo gorfando água suja. E os trabalhadores, muitos informais que trabalham na região, voltando com seus pertences pra se refugiar da chuva.

Tarde de caos #2

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Bueiro a ponto de explodir. Na sequência a árvore que caiu com o vento. Fiz os vídeos com segurança, porque meia hora antes impossível sair na rua.

Tarde de caos #1

Eis que a Lapa-de-baixo, zona oeste de São Paulo, ficou isolada na chuva absurda que caiu no meio da tarde de hoje. Reparem no vídeo, isso que vocês vêem são trabalhadores tentando voltar pra casa, pulando o muro que separa a rua da linha do trem, já que o túnel que dá passagem ao centro comercial do bairro e a estação, shopping, mercado, está simplesmente submerso. Uma árvore caiu e deixou sem luz a região por três horas. Minha casa, ao lado, entrou na onda e começou a alagar. A sorte é que a chuva parou na hora certa. Pouco antes, tive que parar a moto na ponte da Lapa, pois o vento era tão forte que se formou uma cortina d'água, pior que neblina e um vento que me empurrava. O posto próximo ficou destelhado. Tarde de caos, literalmente.

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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Curtas de rodapé #1


Caso Battisti

O grupo Tortura Nunca Mais, movimento formado por ex-presos políticos ao fim da ditadura entrou no caso Battisti. Em carta manifestaram seu apoio a Battisti, dizendo que os “anos de chumbo” na Itália tem semelhanças com o Brasil e que "Battisti é um desses opositores políticos que, como todos os demais militantes daquele período, vem sendo caçado como um animal apresentado como feroz e violento", afirma o texto. Elogiam Tarso Genro por te dado refúgio ao militante e pede o arquivamento do processo de extradição no STF, além de dar uma cutucada na cobertura da imprensa.

Abertura dos arquivos
Em março será lançado um site do governo que reunirá documentos produzidos durante a ditadura militar (1964-1985). O portal do Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil - 1964/1985 vai incluir os arquivos do SNI (Serviço Nacional de Informações, extinto em 1990), entre outros órgãos. Os documentos estão em processo de digitalização pelo Arquivo Nacional, com sede no Rio de Janeiro e responsável por criar o site, e só poderão ser acessados pela internet. Uma parte deles poderá ser consultada livremente. Mas fichas pessoais de 308 mil pessoas investigadas pelo SNI não estarão disponíveis, serão só mencionadas.

Almodóvar e Penélope
O espanhol Pedro Almodóvar encerrou, no último final de semana, a filmagem do filme Los abrazos rotos, que terá mais uma vez Penélope Cruz como protagonista. O filme deve entrar no circuito ainda nesse primeiro semestre de 2009. É o filme mais caro e longo que Almodóvar já fez. O longa é uma "história de amor louco" que engloba vários estilos cinematográficos, centrando-se no cine negro dos anos 50. A história se passa em dois tempos distintos, na década de 90 e na atualidade.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Aprendendo a alegrar quem precisa


Minha amiga Mariana Santos me enviou essa boa dica de Workshop de Clown, no centro de São Paulo. Veja os detalhes: "Formando palhaços de Hospital. O curso visa a transmitir os conceitos básicos da figura clownesca e o comportamento adequado dentro de um hospital.
Os instrutores serão Inaiá Correia e Arthur Moraes (doutores-palhaços do Grupo Esparatrapo). Acontecerá em 14 e 15 de fevereiro das 9h às 18h. As inscrições devem ser realizadas por meio do site do grupo: www.esparatrapo.com.br (preencha a ficha de inscrição e envie para informe@esparatrapo.com.br). Valor de 95 reais."


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Pelo colarinho

Enfim, terminei o livro do Pedro Juan, O insaciável Homem Aranha. Aqui compartilho mais alguns trechos. Esse autor cubano é um dos melhores. Altamente recomendável. Para quem tiver interesse, sugiro que começem pelo livro Trilogia Suja de Havana, depois leiam o Rei de Havana ou Animal Tropical. Ele tem um site na internet, http://www.pedrojuangutierrez.com

"Passaram-se vinte anos. Daqui olho aquela etapa da minha vida e me assombro de ver como é fácil alcançar e manter um altíssimo nível de estupidez. Não tenho mais remédio: agora sou um punhado de dúvidas e incertezas de todo tipo. Às vezes, acumulam-se tantas que chego à perplexidade absoluta." pg. 130

"Eu gostava de me sobressair. Gostava de pegar os leitores pelo colarinho e obrigá-los a laer até o final. Alguns liam minhas reportagens duas ou três vezes e depois escreviam cartas muito elogiosas para a redação. Diziam que eu era um tremendo jornalista, e meus colegas espumavam pela boca e engoliam o próprio fígado. Alguns me odiavam tanto que não conseguiam esconder isso. Eu aproveitava muito. Os bons jornalistas sempre foram grandes filhos-da-puta." pg. 139

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Um bom time


Eu tinha trinta anos. Era um sujeito idealista e romântico, cheio de boas intenções, convencido de que toda a humanidade se dividia em dois bandos: os bons e os maus. Eu era da turma dos bons, heróicos, fiéis e abnegados. Enfim, me sentia muito bem trabalhando como jornalista. Tínhamos todos várias coisas em comum: éramos machinhos satisfeitos, com o pênis sempre ereto, bons bebedores, mulherengos, defensores da verdade, da justiça e de tudo isso, respeitadores da ordem estabelecida. Tão tempestuosos que nem sequer sabíamos que existia uma ordem estabelecida. Nós a tínhamos dentro do sangue, como um vírus, e não sabíamos disso. Formávamos um bom time.

Pedro Juan Gutiérrez, pg. 130, Insaciável Homem Aranha, Cia. das Letras

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Vende-se ‘alguma honestidade’ por 100 reais

Esse texto é um relato in loco de uma situação de escárnio que é tradição brasileira: a pequena corrupção.

Até aí, sem novidades.

Segunda-feira, 2, quatro horas da manhã, rodovia Ayrton Senna. Um carro é parado para averiguação numa blitz. O documento de licenciamento do veículo está vencido. O policial rodoviário diz:

- Vou checar no sistema e se não estiver regularizado o carro vai ser apreendido, tudo bem?

Perplexos com o vacilo do documento e no trecho próximo a Guararema, distantes 50 km de São Paulo não havia outra resposta:

- Ok, pode verificar.

Nos entreolhamos. Tremendo balde de água fria. Enquanto aguardávamos, outro carro parado. Era um tipo de Van grande em comboio com outros três carros menores. Parecia ser um grupo familiar voltando de viagem.

O guarda nos retorna com a má notícia:

- Tem alguém para buscar vocês? O documento está irregular. Vou ter que apreender o carro. Correto?

Não há o que fazer. O policial parece cumprir o seu papel. Tiramos as bagagens do carro. Ao pé do ouvido uma mulher conversa com outro guarda sobre o caso da Van. A mulher vai e vem. Parece levar e trazer recados. Sacamos a situação. Ninguém se propõe santo numa história assim. O transtorno era enorme. Decidimos arcar e não propor suborno. Era uma situação inédita para todos. A decisão foi rápida. Ingenuidade? Não, apenas uma escolha, uma decisão de grupo.

- Estamos errados. Mais vale a consciência tranqüila, brincamos.

O guarda volta:

- Vou deixar aqui na garagem até meio dia, assim dá tempo de vocês trazerem a documentação, não precisam arcar com o guincho e o pátio. Correto?

Agradecemos, afinal não agíamos de má fé. Além de 5 pontos na carteira uma multa de 125 reais. Se o carro fosse guinchado o valor subiria ainda mais.

Como ir embora no meio da madrugada? Vamos até a Van para pedir uma carona. Nos apresentamos ao motorista que está conversando com a mulher que falou com o policial. A suspeita se confirma.

- dá cem “cruzeiros” pra ele que vocês são liberados. Meu documento tá com problema, foi azar.

- Mas como é? É só chegar e falar, como você fez?

- Ah, tem que ser sutil. Cem “cruzeiros” e eles liberam vocês.

A mulher parece não gostar do assunto e repreende o motorista. Ela quer discrição. Está visivelmente incomodada. Nos despedimos sem carona e com a certeza do suborno. A noite estava fria. Teríamos que esperar três horas até algum ônibus aparecer. Não há tempo, já que o prazo é meio dia.

- Por favor, vocês tem algum telefone de rádio-táxi?, pergunto ao policial já dentro do posto de controle.

Três policias que estão a toa caem na gargalhada. Olho para eles e disfarçam. Fico puto, mas seguro minha indignação. Numa hora dessas é bom ter sangue frio. Entendo a risada sarcástica na seqüência. O rodoviário fala com desenvoltura com o serviço de rádio-táxi, parecem ser velhos conhecidos.

- Vou passar você para o cidadão que precisa do serviço. Combine com ele.

170 reais é a corrida para um trecho de pouco mais de 60 km. A gargalhada do grande filho-da-puta volta a minha mente. Nós tivemos escolha. Ou assumimos nosso erro e gastamos o dinheiro da “nossa responsabilidade” ou agimos com a típica desonestidade do “jeitinho brasileiro” e pagamos a “caixinha” do guarda.

- Ok. Pode nos buscar. Em quanto tempo você chega?
- Em 30 minutos estou aí.
- Tudo bem. Você sabe onde é?
- Sim, sei.

Não foi a primeira corrida e nem será a última. O motorista não revela nada. Fica a suspeita. Não existirá um esquema de porcentagem entre a empresa de rádio-táxi e os guardas em situações como essa? É só uma pergunta, nenhuma acusação.

Fim da madrugada. Caímos na estrada. Horas depois descobrimos que o carro havia sido guinchado para o pátio após a nossa saída. Porque raios o policial fingiu ser solícito dizendo que deixaria o veículo até o meio dia no posto policial?

Já em casa busco uma edição especial de Caros Amigos da qual participei em setembro de 2005. O título sugestivo diz: “Corrupção – somos todos desonestos?” No editorial do jornalista Sérgio de Souza a reflexão:

“Sabemos, desde nossa infância rica ou pobre, que a desonestidade faz parte do cotidiano dessa sociedade que, hoje, parece horrorizada ao olhar-se no espelho a partir de casos envolvendo políticos e seus partidos. (...) Como se todos não soubéssemos que tanto pequenos quanto grandes empresários fazem manobras ilícitas para recolher menos impostos do que os devidos. Como se a maioria das classes rica e média não aceitasse de bom grado a instituída proposta do “com nota ou sem nota?”. (...) Como se não estivesse consagrada a corrupção miúda, da “caixinha” para conseguir aprovação no exame de motorista, ou do pequeno suborno para não ser multado por infração em ruas ou estradas, só para falar do trânsito. Todos sabemos viver num país que deixa proliferar especialistas em driblar o Fisco, e onde se ministram cursos de lobby, essa atividade-mãe do suborno que funciona legalmente e que livremente percorre corredores e gabinetes do poder político, utilizando desde propina até lindas garotas de programa para alcançar seus objetivos. (...) A corrupção é um cenário que pode ser projetado para todo o corpo nacional, e a partir dele, idealmente, o país resolvesse caminhar para uma fase de reflexão sobre o presente e o passado, de forma a conseguir responder à pergunta que Noel Rosa já fazia em 1933 numa de suas músicas: Onde Está a Honestidade?”

São 8h horas da manhã, tento dormir. Penso no editorial. “Não nos enquadramos dessa vez”. Lembro do policial. São mais de 10 mil policiais rodoviários (estaduais e federais) em todo país. Enfim durmo... pensando na pergunta de Noel.

Do celular #1


Imagem de celular. Avenida Paulista, às 5 horas da manhã, após uma viagem tumultuada na volta de Ilhabela-São Paulo. Mais tarde o texto sobre a situação que deixo no ar "Somos todos corruptos?".
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