.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
Mostrando postagens com marcador reflexão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador reflexão. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Direito ao esquecimento

por Thiago Domenici*

A revista Retrato do Brasil publicou em agosto matéria de minha autoria "Esquecer ou não, eis a questão" sobre um tema dos mais espinhosos: o chamado “direito ao esquecimento” na internet. A Justiça da União Europeia decidiu que usuários têm esse direito nos buscadores de internet como, por exemplo, o Google, Yahoo e Bing!.

Na matéria explico que também fora da rede o tema gera grande debate ao envolver questões como liberdade de expressão e de imprensa. O que motivou a decisão judicial na Europa foi um ação do espanhol Mario Costeja González. Em 1998, o diário espanhol La Vanguardia publicou, em sua versão impressa, anúncio relativo a um leilão de um imóvel de 90 metros quadrados localizado na cidade de Barcelona. O texto detalhava uma dívida dos donos do imóvel – no caso, Mario e sua ex-mulher – com a seguridade social. A divida acabou quitada antes da realização do leilão, mas a informação que revelava o nome dos ex-devedores, tornou-se um problema quando o mesmo jornal disponibilizou seu acervo digital na internet. Desde então, quem pesquisasse o nome deles no Google, por exemplo, seria remetido ao link da página do periódico com a informação desabonadora.

Com a decisão favorável ao espanhol validada em maio desse ano, válida, vale esclarecer, somente para os mecanismo de buscas, o Google criou um formulário on-line para esses pedidos. Segundo matéria mais recente do El País já foram mais de 90 mil “solicitações de esquecimento.” Na matéria que fechei em meados de julho, eram 70 mil pedidos. A seguir nessa toada, o Google vai se afogar em pedidos de esquecimento. Mas tem um grande problema nessa decisão: a sentença obriga o Google a fazer julgamentos difíceis sobre o direito do indivíduo a ser esquecido e o direito público à informação. Tanto é que o buscador já removeu links e depois teve que voltar atrás na decisão.

Além disso, o assunto esquentou no Brasil como mostra uma matéria do site Consultor Jurídico. Nela, detalha-se uma decisão judicial que negou pedido similar num processo movido por um juiz do Espírito Santo, que exige a remoção de uma matéria envolvendo seu nome das buscas do Google. Para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), a versão brasileira do Google não é obrigada a excluir links em resultados de pesquisa a pedido de um usuário. Como se percebe, um entendimento contrário ao do Tribunal de Justiça da União Européia.

Confesso a vocês que formar um entendimento a respeito desse assunto é coisa complexa. Daí que vou sugerir a reflexão de todos que chegaram até aqui a partir de um texto da Eliane Brum. Lá pelas tantas, ela diz: “Há várias implicações nessa decisão do tribunal europeu. Sem contar o debate complexo que tem oposto os direitos à informação e à liberdade de expressão ao direito à privacidade. Mas há uma, subjacente, que me interessa mais: a construção da memória depois da internet. Ou, sendo mais específica, não apenas se é possível ser esquecido, mas um pouco mais: é possível morrer?”

* * * * * *

Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Medo e culpa na prática de exercício


por Alexandre Luzzi   ilustração Marcelo Martins Ferreira*

É comum ouvirmos das pessoas que há uma relação de causalidade entre a prática de exercícios físicos e o conceito de saúde. É um posicionamento com raízes no consenso encabeçado, principalmente, pela comunidade médica e científica.

O certo e o errado, as relações de funcionalidade, os processos de intervenção em nosso próprio corpo, em nossas vidas, o que fazemos, o quanto fazemos, são mediados pelos manuais da ciência. Quando alguém quer fundamentar um argumento como “a verdade” diz que “os estudos científicos comprovam”.

Agora, se mudarmos essa perspectiva do sentido e do significado sobre o que entendemos como saúde a relação de causalidade é colocada em “xeque”. A maioria de nós assume que praticar exercícios é bom para a saúde e determinante para o pleno desenvolvimento em outros âmbitos de nossas vidas.

Pergunto: quais são as razões de tanta dificuldade em aderir a uma prática e uma rotina de exercícios? Ausência de tempo, muito trabalho, filhos, falta de locais adequados, inadequação em relação aos ambientes oferecidos, pouca oferta de modalidades interessantes, incompetência profissional na prestação de serviço, cansaço, desinteresse, enfim... a lista é grande.

Observo diariamente pessoas que tentam iniciar uma prática corporal e desistem nas primeiras semanas. Tenho consciência que as barreiras citadas acima podem se tornar intransponíveis. No entanto, pouco iluminada pelos holofotes da nossa razão é a injunção exercício físico e saúde, essa, sim, a maior de todas as barreiras.

Sugiro ao leitor um pequeno exercício para melhor compreensão. Pegue um pedaço de papel e, em poucas linhas, escreva o que significa para você a palavra saúde. Em linhas gerais, perceberá que são as condições negativas que fazem a saúde existir. Ou seja, a saúde só pode ter sentido quando relacionada à doença. Logo, o principal elemento utilizado, de forma deliberada, para motivá-lo a praticar exercícios é uma emoção chamada medo.

Caso optem ao sedentarismo, o convencimento à prática de exercícios virá da alimentação do medo de doenças e a contrapartida dessa engrenagem gera um outro sentimento que conhecemos como culpa. Eis uma dupla quase imbatível para te convencer a praticar exercícios. E se você não praticar e adoecer: "a culpa é sua!"

Quando o sujeito se propõe a uma prática corporal, o caminho mais curto é a ressignificação, ou seja, essa adesão se situa na possibilidade de criação de um novo sentido que surge a partir da qualidade do encontro consigo mesmo e com o outro.

O medo e o sentimento de culpa puxam nossa percepção para o nível onde os imperativos ideológicos sobre atividade física e saúde são operados e reduzem toda a possibilidade de resignificação de sentido. Preso a essa rede de sentido, o sujeito sucumbi à demanda de esforço para sustentação de qualquer prática corporal, já que todo sentido que o mobiliza é externo a ele mesmo.

Concorda comigo o Professor de Educação Física Flávio Soares Alves ao afirmar que: “Quando se dobra a atenção sobre uma prática corporal e se força a incuti-la como exercício regular de cuidado, tal movimento pode ser estimulado pela força imperativa dos ideais vigentes na esfera pública, ou por um movimento original de cuidado que não abre mão de si mesmo frente à presença insondável do ideológico.” Para ele, “enquanto no primeiro caso a prática não passa pelos crivos da adesão, no segundo o sujeito realmente se apropria da prática que realiza e faz deste movimento um exercício de cuidado consigo e com o outro.”

A educação para uma ciência positivista predomina na cultura moderna e a Educação Física parece ser afetada por isso, situação na qual predomina uma visão extremamente tecnicista e biológica do corpo humano, esvaziando de suas práticas um sentido maior para o movimento que não seja a prevenção de doenças, a estética e o desempenho motor em níveis máximos, excluindo do trabalho com o corpo uma percepção maior do mesmo – o que sentimos ao movimentá-lo, as relações desse corpo com a cultura, com o outro e com a natureza.

No próximo texto vou mostrar ao leitor como uma modalidade como o Pilates, se bem conduzida, pode coincidir com essa nova proposta.

* * * * * * * *

*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo. Marcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

terça-feira, 8 de abril de 2014

Ser jornalista é massa sim, pessoal

por Luiza Bodenmüller*

Um monte de gente comemorando o dia do jornalista (ontem, 7 de abril), que é meu também.

Jornalista é como gremlin: você conhece um e vai conhecendo outro, outro, outro... e quando percebe, boa parte dos seus melhores amigos e seus vínculos mais profundos, são do mesmo círculo. Esse povo que insiste em querer saber de (quase) tudo; em maior ou menor grau, "mulheres de malandro", que passam a semana reclamando das agruras da profissão e, lá pelas tantas, pelas linhas de um texto qualquer, fala sozinho "que puta texto" e se empolga de novo e de novo e esquece de toda a birra, toda a decepção.

Ser jornalista é massa sim, pessoal. Acho que são poucas as profissões que permitem o contato com tanto assunto, tantas histórias, tanta gente: jornalista entende (temporariamente) de mecânica de aviões num dia e dos efeitos do princípio ativo da maconha no outro. Entende ou finge que entende. Se interessa ou finge que se interessa. Porque, convenhamos, nem tudo são flores.

Então, colegas, pergunto: tá todo mundo ganhando bem? (Não "o que merece", mas o que é justo). Tá todo mundo sendo respeitado no local de trabalho? (Não tô falando de bajulação, tô falando de respeito mesmo, o bom e velho). Tá todo mundo indo pras manifestações com equipamento de proteção? (Não tô falando de máscara cirúrgica, tô falando do mínimo de condição de trabalho em situação de risco). Tá todo mundo apurando direitinho? (Não tô falando do nome do entrevistado soletrado corretamente, tô falando de precisão na informação, de cuidado, de responsabilidade). Tá todo mundo trabalhando com aquilo que gosta dentro do jornalismo? (Não tô falando de escolha, tô falando de acomodação, do "não posso ir além, então tá bom"). Tá todo mundo tendo folga, tempo livre e férias? (Não tô falando daquela cerveja acidental numa segunda-feira, tô falando de descanso, de contato humano, de aconchego, de gastar o tempo do jeito que você quiser, sem o celular vibrar com algo pretensamente urgente). Tá todo mundo saudável? (Não tô falando daquele almoço-salada porque o tempo não deixa comer mais que isso, tô falando de colesterol, horas de sono, check-ups, estômago sem gastrite por causa de estresse-café-cerveja).

Ser jornalista é massa sim, pessoal. Mas deixemos, só por hoje, os eufemismos de lado: não somos super-heróis (ainda que muitos cultivem essa pretensão), somos peões.

Muita gente diz que jornalismo é cachaça. Concordo. E o meu desejo pra hoje é que ninguém se entregue de cabeça ao vício.

* * * * * * *

Luiza Bodenmüller, jornalista, editora online da Pública - Agência de Jornalismo Investigativo

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Culpados


por Fernanda Pompeu

A figura do bode expiatório é tão antiga quanto a prática de encontrar um culpado - tenha ele culpa ou não - para um desgoverno, uma calamidade, ou mesmo para um desfortúnio pessoal. Culpar alguém fora de nós pode aliviar a dor, mas não resolve o problema. Digo que também há acidentes sem culpados, as fatalidades. Escorregar numa folha seca, bater com a cabeça no meio-fio e morrer. Nesse caso, de quem é a responsabilidade? Da folha? Do meio-fio? Do acidentado?

Mas voltando à expiação. Dependendo do momento político-econômico, os culpados viram sujeitos coletivos. Os judeus foram perseguidos em épocas diferentes da história. Idem os árabes que, neste começo de século, são os bodes do ocidente. Imigrantes também levam a culpa quando o desemprego aumenta. Quando tudo vai bem, são bem-vindos. Basta o barco fazer água para muita gente querer afogá-los.

No Brasil de 2014, a Copa do Mundo é candidata preferencial a bode expiatório pelas nossas (velhas) maldades. A educação vai de cinco a zero? Culpa da Copa. A saúde pública é uma doença generalizada? Culpa da Copa. Meu amor não me ama mais? Culpa da Copa! Os políticos também viraram culpados coletivos. Mais fácil jogá-los na vala comum da corrupção, do que diferenciá-los. Mais simplório se esconder atrás de uma máscara do que pôr conteúdo nos protestos.

Pois diferenciar, matizar, organizar dão trabalho. Nos obrigam a mexer com os neurônios, a buscar referências, a estudar a História do Brasil. Quantos se dispõem à reflexão? Menos trabalhoso meter a boca na Copa do Mundo, xingar a todos. Mais confortável dizer ninguém me representa. Assim como na vida pessoal, preferimos acreditar que a relação amorosa não deu certo porque o outro teve a culpa.

Se levássemos em conta que todos temos responsabilidades e que essas responsabilidades se entrecruzam, talvez não precisássemos eleger bodes expiatórios. Políticos ruins são reeleitos por eleitores ruins. Programas de baixarias na TV são mantidos por espectadores que gostam de baixarias. Então vale perguntar: como eu colaboro com a violência e a humilhação? Como eu colaboro para nossa tremenda desigualdade?

Respondendo a essas questões, posso chegar a outras perguntas: O que eu posso fazer pela não violência? Como contribuir para um Brasil educado? De que forma votarei melhor? Que habilidade posso oferecer à sociedade? Qual a taxa de densidade do meu grãozinho de areia na praia do mundo?

* * * * * * * 

fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis sobre "O acusador" de Adèle Vergé.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Macho do tipo "casca grossa"


por Alexandre Luzzi*

O que significa ser homem? Será que nascemos homem? Como alguém se transforma em um sujeito de gênero? A relevância dessas perguntas se torna óbvia, na medida que todo preconceito relacionado às questões de gênero se fundamenta na concepção de que as características biológicas são suficientes para definirmos se é “menino” ou “menina”. Ou seja, qualquer opção de identidade de gênero que não se identifique com as características biológicas do sexo é considerada, portanto, um desvio da norma.

A filósofa Simone de Beauvoir afirmou, por exemplo, que “ninguém nasce mulher: torna-se uma”. A estória de Sísifo pode nos ajudar a pensar a questão.
“Sísifo desce correndo as escadas de sua casa, passa pela sala onde encontra seu pai dormindo no sofá, vai até a rua e observa uma cena espantosa: uma mulher dando pedras de alimento para um cachorro cego, desses bem agressivos da raça Pitbull. O rosto da mulher era familiar, no entanto, não lembrava exatamente de onde a conhecia”.
De repente sua mãe entra no quarto, como quem entra na alma de alguém sem pedir licença. Sísifo acorda de seu sonho com uma estranha sensação: uma mistura de medo com dor na “boca do estômago”.

O rapaz de vinte e nove anos sempre teve a impressão de carregar as pessoas internamente, nos seus órgãos corporais, e esse sonho, recorrente, deixava isso cada vez mais claro. Talvez não há a possibilidade de pensarmos a questão da identidade sem situá-la no espaço “entre-dois” de uma intensa relação afetiva. Nosso “Eu” constrói-se ao mesmo tempo que se esparrama pelo mundo, assim como os outros “Eus”, significativos para cada um de nós, são interiorizados e se instalam em nosso corpo.

Sísifo era um professor de artes marciais e toda sua vida foi marcada pelos imperativos do movimento e da luta. Com anos de prática construiu um corpo forte e musculoso. A imagem adequada ao seu ideal de masculinidade.

No ambiente das artes marciais os pontos de sustentação da masculinidade são facilmente reconhecidos. Mais homem é aquele que sabe lidar com as dores físicas. É o mais corajoso e agressivo, aquele que não tem medo da luta. Mesmo em uma derrota, os lutadores que suportam os piores castigos sem desistir eram considerados grandes guerreiros. Já aqueles que não conseguiam passar por cima da própria dor e superar seus medos são considerados “frouxos” [expressão utilizada com frequência].

Para se enquadrar nesse padrão, Sísifo suportava todo tipo de carga nos seus treinamentos. Sua força física externava sua própria fraqueza na inabilidade de lidar com suas emoções. A apatia e a falta de movimento em seu mundo emocional eram simbolizadas no excesso de movimento corporal. Assim, Sísifo não conseguia parar de lutar. Na luta sempre teve um desafio maior do que os seus oponentes: aprender a lidar e canalizar a raiva, outra emoção que afetava de forma indelével seu corpo.

Em sua personalidade e mesmo na aparência física, poucas coisas lembravam seu pai, um sujeito muitas vezes considerado por Sísifo como um ilustre desconhecido. As influências dos homens por parte da família de sua mãe eram mais visíveis, em especial uma: seu padrinho Paulo Honório.

Paulo Honório tinha como matriz de sua subjetividade masculina todo o peso do século XIX mesmo vivendo no século atual. O domínio sobre a mulher e o poder absoluto do proprietário sobre suas “posses” materiais e humanas sustentavam sua masculinidade.

E Sísifo cresceu ouvindo a mitologia dos feitos de seu padrinho como as brigas nos campos de futebol, as conquistas e romances com inúmeras mulheres, seu empreendedorismo e sua força de fazer valer o seu desejo. Para um garoto que aprendeu a se reconhecer no espelho do olhar da mãe como o eleito, um ser completamente especial, a identificação com os feitos de seu padrinho eram muito mais atrativas do que a personalidade mais calma e serena do pai.

Assim Sísifo foi construindo-se como sujeito (subjectum, assujeitado), na identificação com mestres de luta onde a expressão da força e da destreza físicas eram símbolos de uma masculinidade ideal. Assim como na identificação com Paulo Honório: um homem que transformava a arte da convivência em um ato violento, pelo seu desejo implacável de moldar o outro.

Mas entre o ideal e o real há sempre um abismo onde a descida é dolorosa e assustadora. Para evitá-la, Sísifo recorria à utilização de drogas, estimulantes e anabolizantes, transformando seu corpo em uma "casca grossa", afastando-se cada vez mais de seu mundo emocional e recusando-se a encarar a luta de lidar com tudo que está aquém do ideal, no caso, o peso da angústia de existir.

Sem consciência do fardo que carrega, como um cachorro cego que cheira carniça e sente-se diante de um banquete, há poucas chances do herói absurdo reconstruir sua subjetividade e se tornar protagonista de sua própria história.

Ao anoitecer, depois de mais um dia com uma carga excessiva e extenuante de treino Sísifo adormece. No meio da noite acorda assustado com uma sensação de medo tomando seu corpo e se instalando novamente no estômago. Quando a consciência vai assumindo seu lugar, Sísifo se lembra do seguinte sonho: 
“Dentro de um tribunal, um juiz com dimensões enormes e com um aspecto de um Deus mitológico, condena-o para um trabalho forçado. Sísifo fora condenado por um crime que ele não tinha consciência se havia cometido ou não. Sua sentença: carregar uma rocha enorme e pesada até o cume de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso, um trabalho inútil e sem fim.”

* * * * * * * *

Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A esfinge, a mídia, e o rio


texto e ilustração por Ana Beatriz Rosa*

É difícil falar das violências simbólicas, dessas assim... estapafúrdias. Parece mesmo difícil falar das violências corriqueiras, normatizadas e naturalizadas no nosso convívio social. Falar sobre a violência do nosso cotidiano já parece tarefa árdua demais para um certo puritanismo-pacífico-opressor das grandes mídias – inibem as línguas e os corpos para fazer valer seu próprio conceito-notícia quando o assunto é a violência. Neste processo, uma ardilosa política dos “cidadãos de bem” parece ganhar corpo desde que as manifestações de junho iniciaram o seu work in progress. Entoar hinos de louvor em defesa de patrimônios e capitais e esquecer de pessoas – essas, de carne e osso – parece ter ganhado ares de normalidade.

De um lado parte da cobertura midiática parece entoar louvores aos bons modos durante as manifestações, de outro, para complementar, ecoam gritos condenando os possíveis “vândalos” que habitam entre nós. Sempre que penso sobre isso me vem um trecho do poema “Nossa truculência”, da Clarice Lispector que diz:
“(...)é preciso não esquecer/ E respeitar a violência que temos. (…) A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue/ e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical/ E quantos morrem com sangue/ É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida/ A truculência é amor também”. 
Parece mais fácil apontar vândalos entre nós que observar o vandalismo em nós, na maneira como nos relacionamos uns com os outros.

Querendo brincar de separar o joio do trigo, as linhas editoriais das empresas que monopolizam a comunicação no Brasil (seis famílias controlam 70% da imprensa no país) parecem não se preocupar que algumas raízes possam estar entrelaçadas a ponto de dificultarem os cortes.

Não seria mais útil criar manuais? Vejamos... "Cartilha para o bom manifestante", ou quem sabe, "manifeste-se bem, para manifestar sempre". Talvez com as cartilhas os manifestantes possam melhor entender como servir bem para servir sempre. Um conjunto inteiro de cartilhas de etiqueta para protestos! Parece boa a ideia, não? E pode vender! Como manda o figurino.

Estou chegando à conclusão de que é mesmo difícil falar da violência. Parece ser difícil reconhecer violência em atos não “materiais”, estes que não estão ao alcance das mãos mas ainda assim perpassam os corpos. Como, em uma sociedade onde tudo se toca e dá valor (feito moeda de troca), perceber e condenar violências que não atacam bens, produtos e coisas, mas pessoas? Como fazer com que pautas como essas tornem-se fundamentais, para além das obviedades? Afinal, o que é mais violento? Quebrar paredes ou quebrar gente? A comparação parece esdrúxula? Também imaginei que sim, não fosse muita vidraça valer mais do que muita gente por aí.

Vai ser difícil ouvir em noticiários que o senhor que mora na minha calçada é violentado todos os dias. Que no corpo a corpo da pirâmide social todos nós nos violentamos enquanto sustentamos a paz e a boa vida dos 'inocentes do Leblon' como já poetizou Drummond. Que a moça que é estuprada é vítima, e sempre vítima de uma violência física e simbólica mergulhada no machismo nosso de cada dia. Que o Amarildo foi violentado, brutalmente violentado, e que tantos outros como ele também são. Que o diferente e estranho aos padrões de conduta da nossa moral 'partilhada' é violentado na sociedade dos iguais. Que o que escapa à heteronormatividade, ao patriarcado, que não é branco nem puritano, vai ser violentado mais dia menos dia. Que aquela criança que não precisa de gênero para se entender vai ser violentada pela limitação dos que mal se entendem...

Como é difícil ouvir alguém falar da violência urbana cotidiana, da violência do capital, da violência econômica, das segregações sociais, do preconceito, da violência do medo nas cidades.

O discurso de grande parte da nossa imprensa é violento quando desrespeita a comunicação como lugar de conhecimento e transformação do mundo, quando desrespeita grande parte população que raramente se sente representada. Tenho a impressão de que estes discursos produzidos também compõem a própria locomotiva da violência social, da violência do capital, da violência nas ruas, afinal.

Falar sobre a violência não é fazer apologia a ela. Ignorar que a violência existe todos os dias é. Fazer um recorte das manifestações priorizando os tais atos de “vandalismo” também. Talvez seja mais importante reconhecer primeiro a violência do Estado, do descaso dos poderes públicos, da ganância de muitos, da indiferença de tanta gente sobre as milhares de vidas condenadas à (sobre)viver todos os dias. É importante falar dos que morrem de fome e dos que sobrevivem com salários de fome também, porque viver está caro.

É importante, por fim, saber respeitar o rio quando as margens o oprimem demais, trata-se de respeitar uma sociedade que, como pode, está dizendo que como está não dá mais para continuar. Bertold Brecht tem uma frase muito bonita que já foi usada por muita gente de olhares atentos: “Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem” – pois já está na hora de começar a chamar. Por menos vidraças nos noticiários! “Decifra-me ou devoro-te”, é o que eu escuto das ruas.

* * * * * * * * 

*Ana Beatriz Rosa, especial para o NR. É jornalista nômade e poeta praticante. Tem os sentidos voltados para experimentos artísticos e poéticas urbanas. Nas horas nem tão vagas garimpa olhares, palavras e ideias para o Café com Pitanga - um o espaço de comunicação antropofágica. Mora no Rio de Janeiro.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Essa tal de rede



por Júnia Puglia      ilustração Fernando Vianna*

 Fico atordoada quando penso nela. Eu aqui, batucando num teclado macio e silencioso, tento colocar na tela pensamentos e frases que façam sentido para quem vier a ler, e também para mim, que tenho muita dificuldade com o que não me faz sentido. Quando acho que consegui alinhavar algo com começo, meio e fim, e que reflita o que estou querendo transmitir, me dou por satisfeita, faço uma boa faxina e declaro o texto pronto. Depois de receber uma ilustração saída dos neurônios e sentimentos de outra pessoa, será enviado ao editor e publicado na próxima sexta-feira. A partir daí, perco o rastro do que fiz. No máximo, consigo monitorar quantas pessoas se sentiram estimuladas a “curtir” ou comentar determinada crônica, na própria página digital ou por mensagens de correio eletrônico.

Para mim, essa tal rede é um mistério, tão grave e profundo quanto o da origem de todas as coisas. Juro. Um maravilhoso mistério. Tudo o que eu quiser saber, sobre qualquer assunto, pergunto a ela. Às vezes, a resposta é um tanto estranha, enviesada, mas sempre me dá dicas sobre como procurar melhor. Aliás, desconfio que as respostas esquisitas são muito mais um produto de perguntas imprecisas do que da capacidade de resposta. Ou vice-versa, se partirmos da perspectiva de que a precisão é um produto da inteligência, e não o contrário. É que, apesar da impressão de inteligência que nos causa, a rede não pensa. Nadinha. Ela só executa o que lhe comandam. E comando pode vir de tudo que é cabeça, né não? Por isso inventaram a hierarquia.

Impossível para mim captar as dimensões do que acontece. Não basta pensar no meu próprio país, com esse mundo de gente dentro, acessando milhões de computadores – e ainda longe de chegar a todos os lugares. As contas andam na casa dos bilhões de seres humanos fuçando o espaço digital, cada um buscando atender seus interesses e sua curiosidade. Muitos já participam de redes dentro da rede, compartilhando interesses comuns e retransmitindo exaustivamente todo tipo de conteúdo.

Daí a ocupar o lugar do contato pessoal e do olho no olho, é um passo. Basta um descuido ou uma acomodação à cadeira e ao teclado. A conexão wi-fi disponível em lugares públicos está aí para isso mesmo. Acho que cheguei aonde queria quando comecei este texto. Não consigo pensar na vida sem ver, sentir, tocar e falar com gente de carne e osso. Passear pelas redes sociais, visitar a Muralha da China e as pirâmides egípcias, comprar bugigangas, ler notícias, artigos, livros, ouvir música, assistir a vídeos sobre tudo quanto há, conversar com amigos distantes, vale tudo. Mas o calor e a emoção de lidar com pessoas e coisas concretas ainda vale muito mais.

* * * * * *

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

terça-feira, 30 de julho de 2013

O espelho de Tereza

 por Alexandre Luzzi  ilustração Marcelo Martins Ferreira* 

A grande insatisfação que muitas pessoas possuem em relação ao próprio corpo ao se olharem no espelho é fruto de uma imagem que perambula no território do nosso inconsciente?

Milan Kundera e seu clássico “A insustentável leveza do Ser” nos ajuda a pensar sobre isso. Na obra a personagem Tereza tem o hábito de ficar se olhando horas no espelho, numa atitude com nuances de proibição. Dentro da convivência familiar de Tereza toda forma de privacidade é reprimida e satirizada. “Como um campo de concentração”, sugere ela sobre a convivência com a mãe e o padrasto. Mas a atitude tem uma peculiaridade: não era a vaidade que a atraía para o espelho, mas o espanto de se descobrir nele.

A contrariava encontrar em seu rosto traços da mãe, nem tanto pela similaridade física e mais pelo fato de sua vida ser um prolongamento da vida da progenitora. Tereza se incomodava com regiões do corpo, como os seios, os quais desaprovava o tamanho e as aréolas grandes e escuras demais.

Pensava sobre como ficaria se o nariz crescesse um milímetro por dia. Nessas contemplações angustiantes imaginava: “E se cada parte de meu corpo começasse a crescer ou a diminuir a ponto de me fazer perder toda semelhança comigo mesma? Eu existiria ainda, mesmo assim? Qual a relação entre 'eu', Tereza, e meu corpo?”

Existem motivos para tamanha insatisfação e recusa? Será que temos uma percepção direta e real de nosso próprio corpo? Ou será que entre a imagem projetada e o que sentimos existiria um filtro de fantasias e sentimentos infantis?

Talvez a imagem  refletida no espelho toda vez que nos colocamos diante dele não seja a mesma inscrita na superfície virtual do nosso inconsciente. O psicanalista Juan David Nasio sugere essa hipótese.
“sempre que sentimos o nosso corpo, o vemos ou julgamos, estejamos certos, forjamos dele uma imagem deformada, inteiramente afetiva e resolutamente falsa. Para resumir, nunca percebemos nosso corpo tal como é, mas tal como o imaginamos; o percebemos como fantasia, isto é, mergulhado nas brumas de nossos sentimentos, reavivado na memória, submetido ao julgamento do Outro interiorizado..."
O conflito de Tereza parece confirmar o dizer de Nasio. Do fundo de sua alma surgia a representação inconsciente de um corpo marcado por uma relação familiar em que tonalidade afetiva era o ódio e a culpa. Tal situação se traduz pela cena protagonizada por sua mãe ao ver a filha trancar a porta do banheiro ao reparar que seu marido sempre entrava quando ela estava nua no banho. “Por que você se trancou? Quem você pensa que é? Ele não vai arrancar pedaços de sua beleza!”, esbraveja a mãe.

Um certo ódio da mãe pela filha era mais forte que o ciúme que o marido lhe inspirava. Em contrapartida, a culpa de Tereza era infinita se martirizando até pelas infidelidades do padrasto.

Kundera e seu romance nos coloca diante da experiência enigmática do efeitos da imagem que se reflete do espelho. Seja em maior ou menor grau, jamais encontrei na minha vida profissional alguém totalmente satisfeito com o próprio corpo. A transformação estética do corpo, dentro dos padrões valorizados pela cultura e o olhar do outro parece não resolver um sentimento de maior valorização de si mesmo. Para o estímulo à reflexão, deixo o leitor com uma pergunta final, de autoria do grupo musical Capela – "Será que o espelho irá me mostrar alguém que não eu?"


*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzicoordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a CorpoMarcelo Martins Ferreira, ilustrador, design e músico, especial para o texto

quinta-feira, 11 de julho de 2013

“Sinceramente,


por Ana Mendes  Ilustração Ligia Morresi*

não sei o que fazem com o dinheiro. A gente dá comida, leite, frango e casa. Vive lá com a mulher e o filho naquele lugar lindo.

Ganham o dinheiro limpinho. Não pode trabalhar de noite, não pode emprestar o filho pra um serviço e outro, não pode.

A gente não tem como controlar o horário de trabalho deles, é impossível. E esse negócio de fundo de garantia? Complicou muito, muitíssimo. Os recibos todos assinados, tá tudo certinho, o advogado falou. Mas empregado tem sempre razão. Eu mandei a fulana embora dia 6, tudo em dia, mas ela queria mais!

Férias, fundo, aviso-prévio. E o país nessa crise que está. Eu fico apavorada quando vejo as pessoas comprando 1 tomate, 1 cebola! Tá tudo caro, aí tu quer uma faxineira e não dá. Mas também, essa gente não quer trabalhar. Estão cobrando 100 reais por uma faxina. Ganham bem. Se matam trabalhando, nada! Trabalho não mata.

Olha aqui ó, as faxineiras exploram as pessoas, elas são inteligentes. Só querem trabalhar na casa de gente solteira, onde tudo é organizado. Tá certo, né? Espertas. Eu também quero ser faxineira assim: escolhendo trabalho. Ainda mais hoje em dia que os produtos de limpeza fazem tudo por ti. Os vidros são a coisa mais fácil. O assoalho, então? Uma enceradeira e plim. Tá fácil. Mas o mundo tá mudando, não vê? Todo mundo lutando por seus direitos, é bonito isso. É bom pro país, pra colocar ordem na casa. Cada macaco no seu galho. Eu também quero meus direitos, não sou uma empresa, sou uma pessoa, trato as empregadas como se fossem da família.

Elas brincam com as crianças, comem junto com a gente. Mas e agora? Com esse monte de regra aí ficou até constrangedor, sabe? Agora tenho que dizer pra fulana, ó, fica aí no pátio uma hora sentada esperando o almoço passar. Senão depois tu vai me processar. Fica aí. É horrível."

*Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna Faço Foto. Ligia Morresi, designer e ilustradora, especial para o texto

domingo, 23 de junho de 2013

De um a dez sobre os protestos



por Ricardo Sangiovanni*

Já chegou segunda e ainda não tenho nada concreto pensado a lhes dizer sobre o único assunto da semana digno dessa crônica.

Mas se não tenho nada concreto pensado sobre o que anda se passando, é menos por dificuldade de organizar o pensamento, e mais por dificuldade de entender com a devida precisão o que anda se passando.

Não será contudo por isso que deixarei o blog em branco – não é hora de deixar o blog em branco. Irei portanto enumerando alguns temas e alguma reflexão inicial sobre eles, convidando a todos de antemão ao debate, que é o único instrumento capaz de nos levar ao melhor entendimento, à melhor opinião, à melhor expressão do que cada um de nós leva no espírito.

1. De que protestos falamos? Parece que as manifestações de rua chegam ao final desta semana já são bem diferentes daquelas que começaram há duas semanas atrás. Protestar claramente contra o aumento do preço da passagem do transporte público – primeiro em São Paulo, em seguida em outras praças, mas sempre em torno da mesma demanda imediata (redução do preço já), da mesma agenda (vamos debater o modelo de transporte público), da mesma ideologia (o estado deve ser antetudo agente de pressão do empresariado a prestar serviços de qualidade que atendam às demandas dos cidadãos, e não o contrário) – me pareceu algo digno do maior apoio. Já protestar difusamente contra todo e qualquer problema, real ou irreal, visível ou invisível, palpável ou impalpável, de imediato ou de prolongado remédio, direcionando todas essas demandas, ainda que justas, a uma raiva desmedida da política em si, do Estado em si, tem-me parecido coisa difícil de apoiar.

2. A quem esse tipo de protesto interessa? Não tenho como afirmar que a maior parte das pessoas que estão na rua esteja protestando desse jeito amorfo e difuso. Tampouco afirmaria que, ainda que amorfas e difusas, as demandas de qualquer pessoa que esteja na rua sejam infundadas ou injustificadas – viver no Brasil é difícil mesmo, cada um sabe de si. Entretanto, a soma de protestos inconscientes de sua natureza mais profunda – de sua natureza ideológica – é que me parece a coisa perigosa. Perigosa porque basta que alguém, pessoa ou grupo, consiga pilotar a indignação popular, para que as demandas originais – a ideologia original – seja subvertida. De maneira que ir às ruas “para dizer que sou brasileiro”, convocar as pessoas para “mudar o Brasil”, animar-se porque “o gigante acordou”, dizer-se revoltado “contra isso tudo que está aí” significa menos ajudar a obter a universalização da cidadania no país (esse nosso mais grave problema) e mais abrir espaço para projetos de apropriação das instituições para finalidades completamente opostas a essa – já volto a essa questão.

3. É demais imaginar que possa estar-se desenhando um golpe? Infelizmente, acho que não. Porque à medida em que cresce o movimento de descredibilização da política, dos partidos, do governo em si – descredibilização essa embasada no simples fato de que a política, os partidos, o governo existem – cresce o risco de que as manifestações se traduzam em caos social incontrolável aos olhos de quem detém as armas, a força, o porrete. Ou seja: mesmo que não haja um golpe milimetricamente arquitetado em curso, criar um clima de ódio da política pode servir muito bem a quem deseje a supressão da agitação popular por um golpe mais duro de força, um golpe que, por um suposto bem da paz nas ruas, poderia atentar contra a institucionalidade democrática – coisa que o Brasil levou tanto tempo e tanta porrada para conquistar. Afinal, se nossa democracia tem problemas, esses talvez sejam menos decorrência do sistema, e mais da expressão da luta de classes que se faz através dele. Me parece difícil acreditar simplesmente que, se o modelo institucional fosse outro, e os atores esses mesmos, teríamos as transformações severas de que o Brasil precisa.

4. É hora de sair das ruas? Questão complicada. A princípio responderia que não, porque é sempre possível disputar na própria rua a escolha que cada pessoa fará do direcionamento a ser dado à sua indignação. E também por acreditar que a maioria das pessoas que está protestando estaria sim propensa a direcionar sua indignação a demandas claras de democratização acelerada da condição cidadã – como era, por exemplo, a dos 0,20 do Passe Livre, um rótulo excelente para aglutinar pessoas e pautar uma discussão mais ampla, de um novo modelo de transporte público. Mas interponho a esse meu entusiasmo um problema: será que essa disputa pode ser de fato ganha nas ruas na atual circunstância, tendo em vista a quantidade de atores/grupos sociais que já entrou na concorrência pelo direcionamento e pelos resultados de uma mesma revolta popular? Será que, dado o atual grau de agitação, o chamado a se batalhar por coisas claras (algo que demanda pesquisa, conversa, entendimento, coisas que levam tempo e requerem um investimento que muita gente não sabe ou não quer fazer) tem condições de enfrentar o facilismo da argumentação “pelo Brasil”, “contra os políticos”, “contra o governo”, “contra tudo que está aí”? Gostaria de crer que sim, mas não creio. Talvez, entre sair ou ficar nas ruas, a alternativa seja continuar a se reunir gente na rua, porém começando a tentar formar, ainda que na própria rua, grupos com nome e cara, a separar de forma mais evidente quem é quem nos protestos, a procurar saber ao lado de quem está se protestando, pelo que se está protestando, onde se está protestando, quais são as ideias que se somam de fato ao que se tem como alvo de protesto.

5. A repressão policial. Apenas para repisar que segue vergonhosa. Porque não consegue distinguir protesto de verdade de vandalismo picareta, e quase sempre massacra mais quem se manifesta por alguma razão justa. Porque, afinal, essas são as pessoas mais frágeis, seus inimigos mais antigos: a gente pobre comum, historicamente massacrada.

6. Sobre as redes sociais. Muita gente tem falado que as redes sociais são a grande diferença dessas manifestações, já vi “especialista” por aí dizendo que “chegou a hora do pessoal que ficava debatendo e se manifestando virtualmente ir se manifestar na rua”. O problema é que não consigo ver nas redes todo esse debate. Pela rede se consegue sim agendar atos públicos, se consegue aglutinar quem pensa de forma parecida, mas a regra até agora não tem sido o debate de fato, a polêmica, o amadurecimento de ideias. Nas redes sociais me parecem ainda ser predominantes os desaguadouros de posicionamentos que não precisam necessariamente de debate, porque, quando encontram as portas fechadas em um grupo, correm para outro onde sejam mais amplamente aceitos. Outro cuidado que temos que ter é de não misturar a horizontalidade do movimento Passe Livre – uma forma convencionada entre os integrantes do movimento, uma decisão coletiva e política – com a suposta horizontalidade de toda e qualquer manifestação marcada pelas redes. Rede social não é sinônimo de horizontalidade e falta de liderança. Quem marca cada protesto? Os perfis são todos verdadeiros? Dizer/escrever o que pensa significa pensar com a própria cabeça? São perguntas que me faço.

7. A mídia nessa história. Retomando o ponto 2, um dos grupos a quem interessa pilotar essa onda de manifestações que sou capaz de individualizar é certamente a mídia. A mídia quer dizer os quatro ou cinco grandes grupos familiares de comunicação do país e, com nuances, seus sucedâneos nos Estados a fora. Grupos que, por sua vez, representam, diretamente ou por solidariedade ideológica, a classe empresarial (ou a parte dela) preocupada em manter a atual repartição do bolo nacional de privilégios. De maneira que me parece muito estranho que a reação raivosa da mídia contra as manifestações pela redução da passagem, semana passada, tenham se tornado tão rapidamente apoio entusiasmado – até incitação, em alguns casos – à continuidade dos protestos “contra os governos”. Tudo se torna muito esquisito quanto William Bonner aparece dando dicas de como se diferenciar dos “vândalos” nas manifestações, dicas as quais ele teria visto circulando por aí, nas redes sociais. Mais estranho ainda quando a Globonews encerra seus noticiários com o hino nacional, homenageando as manifestações. Quando os grandes veículos de comunicação brasileiros se viram diretamente implicados como alvos da revolta popular – após seus editoriais contrários às manifestações, defendendo a repressão policial há duas semanas – , tiveram a sacada magistral e oportunista de passarem rapidamente a se posicionar a favor dos manifestos. Desse modo, a mídia conseguiu retornar ao papel que lhe é mais conveniente ocupar aos olhos do espectador: o de suposta “refletidora” e “debatedora” do que está se passando no mundo, nas ruas, como se não estivesse ela mesma implicada nesse cenário e no que leva as pessoas a se manifestarem. E assim, excluindo-se do contexto social, a mídia exclui também (por solidariedade de classe, já sabemos) toda a classe empresarial brasileira do tabuleiro dos manifestos. Como se o que estivesse em jogo fosse uma revolta do povo apenas contra os governos, contra os partidos, contra os políticos. Como se esses governos, políticos e partidos fossem corruptos sozinhos, como se não houvesse uma classe empresarial corrupta/corruptora por detrás deles, pressionando-os a continuarem a ser corruptos, a continuarem a utilizar o poder que recebem do povo para manter privilégios. De maneira que não adiantará muito pressionar os governos, mudar ou depor os governos, recomeçar a democracia no Brasil, sem questionar o papel do alto empresariado – do capital, me perdoe quem não gosta dessa terminologia – numa suposta reconstrução desse sistema. No fundo, esses grupos – entre os quais a mídia – sabem que, qualquer que seja o resultado de uma rebelião popular sem consciência da velha luta de classes em questão, toda reconstrução que advir daí não prescindirá deles.

8. Do preço do ônibus ao fora Dilma. Tento há dias recuperar a conexão lógica entre essas duas pontas. Não consigo. Vá lá que a postura de Haddad em São Paulo tenha sido vexatória no episódio do preço das passagens. Mas a velocidade com que se virou o leme das manifestações é tremenda. E, infelizmente, não me parece que seja resultado da luta de esquerda contra os erros do PT e do governo Dilma. Na falta de argumento que me convença do contrário, entendo que os protestos chegaram ao ponto em que chegaram porque alguns setores descontentes com o governo viram neles uma oportunidade de tirar proveito da situação. Lembremos que Dilma, apesar de toda crítica que possamos (e devamos) fazer a seu governo, mexeu recentemente com os bancos, reduzindo as taxas de juros; mexeu com as energéticas, baixando as contas de luz; mexeu com o PMDB, ao pressionar que 100% dos royalties do petróleo vão para a educação; enfrenta resistência na MP dos Portos; enfrenta uma campanha pela volta da inflação, o que ressuscitaria o PSDB para as eleições de 2014. Enfim: se os que estão à esquerda do governo não estão contentes, os que estão à direita estão menos contentes ainda. E as alternativas que eles oferecem não são nada animadoras.

9. Por falar em inflação, vou aproveitar para contar um caso, e já encerro este bolodório. Estive nesta semana na Ceasa de Campinas, um dos maiores centros de distribuição de alimentos do país. Me parou um senhorzinho, que há décadas vende tomates na feira. Falou assim: p"or que é que, quando tem pouco tomate para vender e sai na televisão que o preço do tomate disparou, chove gente aqui para fazer reportagem de que o tomate está caro; e agora, quando sobra tomate e o preço vai lá para baixo, não aparece ninguém para fazer matéria?” Me disse isso na frente de pilhas e pilhas de caixas de tomates não vendidos.

10. Em qualquer desses pontos, por favor me corrija quem tiver informação ou reflexão de melhor qualidade.


*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Apenas nós



por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

 Dizem que os telefones celulares mais inteligentes disponíveis hoje no mercado podem armazenar mais informação que os computadores da Nasa que, em 1969 (há menos de quarenta e cinco anos), foram essenciais para colocar os primeiros seres humanos na Lua. Mesmo que seja apenas mais uma das tantas frases de efeito que circulam nas redes sociais, deve conter alguma verdade. A evolução absurda dos sistemas de processamento e armazenagem de dados das últimas décadas é um fato.

Séculos antes de os astronautas americanos terem pisado na Lua, navegadores de diversas partes do mundo empreenderam bem sucedidas viagens ao desconhecido, apoiados em instrumentos que hoje parecem saídos de filmes de ficção científica ao contrário. Nos dois casos, o que determinou o resultado dos empreendimentos foi a capacidade intelectual humana – um patrimônio absolutamente extraordinário para nós, terráqueos – aliada a uma inquieta e aparentemente inesgotável curiosidade sobre o que está além daquilo que já conhecemos.

Nossos limites coincidem com as possibilidades do planeta que se nos oferece e da vida como a conhecemos. Mas já nos demos conta de que há tantos mundos além do nosso, que em algum deles haverá inteligências equivalentes ou, como gostamos de acreditar, superiores. E quanto mais esticamos as fronteiras do universo conhecido, com voos tripulados, sondas e telescópios, maior ele se apresenta. Inclusive, li há pouco tempo que os primeiros humanos a migrar para outro planeta farão a viagem só de ida, porque seu tempo de vida não comportará a volta. Assustador, não é? (Mas concretiza o sonho da passagem “só de ida” que gostaríamos de presentear ao nosso mala preferido.)

Em suma, é tudo muito vasto e desconhecido e, na escala astronômica, nosso planeta, com tudo dentro, não passa de uma poeirinha cósmica. Aqui nos toca viver. Se fomos capazes de encontrar continentes desconhecidos navegando em cascas de nozes, desembarcar na Lua com o apoio de computadores que hoje são peças de museu, produzir alimentos em quantidade suficiente para todos, encontrar a cura para inúmeras doenças e os meios para melhorar consideravelmente nossas condições de vida, certamente temos capacidade para dividir melhor o que pode estar sobrando para alguns (para uns poucos, sobra muito mesmo, né?), compartilhar o conhecimento de maneira a beneficiar o maior número de pessoas possível e entender e conviver melhor com as diferenças entre nós. Afinal, não temos outro planeta para onde fugir. E não há nós e eles, apenas nós mesmos.


*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Na falta do fato


por Ricardo Sangiovanni*

Juro que saí na segunda-feira à noite para comprar um terno bonito – meu primeiro, pago ademais de meu próprio bolso, sublinhe-se – para ir à formatura da turma de Comunicação da Ufba, os primeiros alunos deste inverossímil professor, que acharam ainda de honrar-me com a homenagem de “Amigo da Turma 2012.2 de Jornalismo”.

Juro, amigos, que comprei o terno. Teria que comprá-lo mesmo, daqui a uns meses, porque em setembro se casa minha prima, e eu serei padrinho; então, juntando isso com a formatura, julguei chegada a hora de finalmente ter meu terno próprio, para não mais ter que passar as raras noites de gala que me acontecem na vida sentindo o perfume de defunto habitual dos trajes alugados.

Provei o terno em casa, meus amigos, e juro que estava animado para exibir em vossa festa o corte italiano do fato (guardem essa, é como se diz terno em Portugal) e a gravata (que existe e é vermelha e branca, garanto).

Ocorre porém que, faltando dois dias para a festa, hesitei – hesitei como no passado não costumava, mas passam os anos e o homem começa a hesitar, é uma coisa – e achei de telefonar para certa pessoa que também participaria da festa, perguntando se a essas coisas se vai mesmo de terno, a qual me garantiu que não, que de terno não precisava não, que era demais, que deixasse aquilo para os pais dos formandos, porque, em anos de experiência em formaturas na Reitoria da Ufba, essa fonte (cujo nome preservarei, como bom jornalista) não se recordava de ter dividido mesa com gente assim enfatiotada.

De sorte que, chegado o dia da festa, do terno tomei apenas a calça, vesti a camisa de manga comprida, arrumei (assim creio) o desgrenho dos cabelos, entrei no carro e – crendo-me a salvo da gafe terrível de ser o único de terno na cerimônia – fui.

Juro, amigos, que levei o paletó e a gravata no banco de trás do carro. Juro, meus amigos, que perguntei às moças do cerimonial, antes de entrar no salão nobre, se era preciso vestir terno, que se fosse o caso eu corria no carro e pegava o bendito do terno. Ao que elas contestaram, cheias de decepcionada cordialidade, “o senhor fique à vontade”. E eu, só de camisa social e calça, apostei mais na cordialidade que na decepção e respondi que estava muito à vontade assim, obrigado. E elas me deixaram passar.

Não deviam, amigos – por que essa gente de cerimonial prefere ser polida a dizer a verdade? Porque, entrando, cumprimentei o funcionário homenageado – de terno. E chegou o paraninfo – de terno. E o vice-coordenador do Colegiado – de terno. (Este último aliás reparou, mas me tranquilizou dizendo que “tem problema não, amigo da turma pode ser assim mesmo, mais despojado”.) Confesso que nessa hora, amigos, quase saio correndo para ir buscar o diabo do paletó no carro, mas pensei que não, qual nada, afinal que tipo de homem pareceria que sou, que não sabe que a esse tipo de coisa não se vai sem um bom terno – exceto no caso de estar muito seguro e consciente de estar cometendo, deliberadamente, a grandissíssima iconoclastisse de transgredir o protocolo.

O duro foi quando chamaram meu nome para compor a mesa de honra da solenidade – então caí em mim de que não havia mais jeito: teria que passar a cerimônia toda ali, em pé, entregando os diplomas, o único desarrumado ladeando todo aquele pessoal empertigado, meus colegas de terno.

Não foi de propósito, amigos, nem para quebrar o protocolo. Ademais porque protocolo só se quebra uma vez, de maneira que, se não tivesse gastado meu tiro com o paletó faltante, talvez tivesse quebrado o protocolo pedindo o microfone para fazer-lhes um breve discurso (pois, atenção você que não entende nada de cerimonial de formatura: amigo da turma não fala, o que fala é o paraninfo), um discurso bonito e natural, como os que costumava fazer há uns anos, quando era presidente do grêmio estudantil e ainda não hesitava na vida.

Vocês não se incomodem porque teria sido coisa breve, meus amigos. Teria-lhes lembrado apenas uma crônica de João do Rio, uma em que o eu-lírico (quer dizer, ele) conta como um dia chegara do interior, inocente, puro e besta, cheio de auspícios para viver vida de Redação, e fora recebido por um veterano jornalista, o qual tratou logo de tentar dissuadi-lo (de salvá-lo), contando do insalubre que era aquela profissão – conselhos aos quais ele, moço jovem, evidentemente não dera ouvidos. E então, vendo que o rapaz era mesmo caso perdido, passou o referido veterano a ensinar-lhe o que sabia, tendo o moço do interior vindo a tornar-se um grande jornalista – que, anos e anos depois, encontrar-se-ia na Redação do jornal, acolhendo agora, ele próprio, outro jovem vindo do interior, inocente puro e besta, ao qual tentaria, sem êxito, dissuadir… Isso para lhes dizer do quanto, antes do tempo e sem nem bem ter deixado de ser o moço do interior, do quanto me sinto um tanto como aquele veterano toda vez que cometo essa heresia ótima que é dar aula para vocês.

E quando toda essa conversa parecesse muito aziaga a vocês e a seus pais, meus amigos, aí mudaria de assunto, e lembrar-lhes-ia, como nos discursos bons, duas ou três frases de algum tomo da Antiguidade – talvez algum recorte da Retórica de Aristóteles, ou talvez, melhor, algum trecho escolhido da Amizade de Cícero, talvez aquele que diz que a grande vantagem da amizade é “conceber belas esperanças, para tudo que possa sobrevir, e não deixar que desfaleçam ou se acovardem os ânimos. Porque o verdadeiro amigo vê o outro como a uma imagem de si mesmo”, alguém “com quem se pode falar como se estivesse falando a si mesmo”. E – já terminando – diria que eu, como Cícero, prefiro ante ao poder, às honras, aos prazeres e até à saúde, que eu prefiro a amizade, e que se há algum proveito nessa nossa profissão de jornalista é justamente o de conhecer gentes e fazer grandes amigos – porque sossego afinal não se tem, tampouco dinheiro se ganha.

Enfim: se não fiz discurso nenhum, meus amigos, terá certamente sido porque, na falta do terno, hesitei. Vocês então por favor aceitem, no lugar de alguma fala inspirada, esta crônica humilde deste vosso humilde amigo. E aos pais de vocês, por favor não contem a verdade sobre o terno – eles se preocuparão ao saber que vocês tiveram por professor alguém que não sabe nem a roupa justa para ir a um evento importante. Não os deixem, contudo, pensando mal de nossa profissão, pensando que com ela não se ganha nem o que chegue para comprar um terno – digam-lhes, em vez disso, que, se aquele professor mais à esquerda não usou paletó e gravata, foi de caso pensado, porque afinal um verdadeiro jornalista não se dobra ao que mandam os cerimoniais, não abaixa a cabeça aos protocolos. Porque um verdadeiro jornalista é, na alma, um informal.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O único que eu tinha



por Ricardo Viel, de Lisboa*

Arruinou minha primavera, desapareceu com o meu verão e me encerrou nesse inverno eterno.

E não bastasse esse vazio terrível, vens até mim e decretas uma daquelas frases de sabedoria emprestada:

“Por morrer uma andorinha não acaba a primavera”.

Recitas essa sentença tola, vira as costas, e vais aproveitar a primavera cheia de andorinhas que é a tua vida. E ainda que ficastes, não serias capaz de entender algo tão simples: a andorinha era o único que eu tinha nessa vida. O único. E foi justamente por isso que nela depositei o meu futuro.

E num dia qualquer, sem aviso prévio, vem a Morte e ... Assim, sem mais, contrariando a lógica do nascer, crescer, se reproduzir e só depois, só depois (ouviu bem!), SÓ DEPOIS, desaparecer.

Nem chegou à maturidade. Foi flor de um dia. Morreu nas minhas mãos sem que eu pudesse fazer nada. O coraçãozinho a bater cada vez mais devagar, seu corpinho a se fechar e depois endurecer feito pedra. Nas minhas mãos. Ainda sinto entre os dedos o toque daquelas penas, os pezinhos delicados a fazer-me cocegas, o diminuto bico a massagear meu coração...

“Há muitas andorinhas no mundo. E muitas primaveras por acontecer”.

Pois para mim, não. Já não haverá mais primavera, nem andorinhas, só esse frio que me comprime a alma e esse vento interminável que há muito tempo levou a Esperança, sem que ela tivesse o direito de viver uma única primavera inteira.

*Ricardo Viel, jornalista, atualmente em Lisboa, Portugal, é colunista do NR

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Solilóquio sobre a monotonia



por Alexandre Luzzi*

A oportunidade da escrita tem transformado a forma como vivencio o mundo. Tenho prestado mais atenção nas coisas que me cercam, incluindo meu mundo interior. Aliás, sempre tive dúvidas quanto a essa separação entre exterior e interior, afinal, emoções e sentimentos também são feitos de carne, ossos e mundo.

As motivações para o texto de hoje são duas: a primeira diz respeito a um sonho que tive  certa noite. Eu era observador em uma partida de futebol vibrante e disputada, em que dois times se digladiavam sem definição. Enquanto isso, os torcedores cantavam de forma penetrante das arquibancadas: “jogamos o jogo com a bravura de estar fora de alcance”.

Identifiquei a música, das minhas preferidas, que é do álbum In the flesh (na carne) de Roger Waters. O que teria motivado tal material onírico? Qual o significado dessa canção dentro desse sonho? Alguém conhece algum psicanalista por aí?

Confesso que fiquei inquieto com o assunto e fiz uma investigação partindo dos pensamentos conscientes que mais me importunaram nos últimos dias. Fiz a seguinte associação: sentado em meu sofá, dias atrás, em uma manhã de domingo meio nublada, enquanto via um desses programas esportivos espetaculares pensei:

– Como anda monótona e ordinária essa minha vida perto das aventuras que vivem esses esportistas e jornalistas que arriscam tudo por uma sensação “extra-ordinária”.

Maratonas exaustivas em lugares exóticos, escaladas em montanhas com alto grau de risco, ondas gigantes surfadas no fio da navalha, mega-rampas de skate que desafiam a gravidade, lutas agressivas que fazem qualquer filme de gladiadores virar desenho animado.

Mais perguntas tomaram de assalto meus pensamentos. Que tipo de experiência estão buscando essas pessoas? Que corpo é esse que hoje suporta todo tipo de provação esportiva? Onde estão ancorados nossos ideais de felicidade e bem-estar? Em que medida a cultura modula tudo isso? Além de todas essas perguntas, o que mais me intrigava era entender a relação desses pensamentos com o sonho. Será que nossa mente inconsciente é capaz de apresentar respostas simbólicas para anseios e angustias reais?

O fato era que realmente me senti insatisfeito com minha própria vida diante de tanta exuberância sensorial espetacular mostrada naquele programa. No mesmo instante outro pensamento colocou-me um contraponto:

– Rechear a vida com êxtase sensorial significa ser mais feliz?

Sem respostas fui atrás de alguma literatura que desse uma luz sobre o assunto. Encontrei algumas coisas muito interessantes que gostaria de dividir (a segunda razão do texto de hoje).

Diz o psicanalista Jurandir Freire Costa, por exemplo, que a atualidade é marcada pelo peso dado ao desempenho sensorial do corpo na construção dos ideais de felicidade. Nossa cultura associa, cada vez mais, êxtase sensorial com felicidade, é a cultura da “adrenalina”, diz ele.

Valorizamos atualmente objetos e imagens que excitam os sentidos despertando o corpo para uma nova prontidão prazerosa. O problema é que essa estrutura é similar ao arranjo bioquímico do vício, ou seja, depois de um certo limiar a pessoa não consegue parar de aumentar a dose.

Segundo o mesmo autor, êxtase é um ponto de intensidade que, uma vez atingido, decai rapidamente, e ao se tornar familiar, perde o atrativo. E além de cessar com o fim da excitação, raramente o indivíduo reproduz o gozo na forma original. Desse ponto de vista a felicidade erguida sobre o êxtase sensorial é precária, vacilante e passiva.

E temos o extremo oposto dessa engrenagem: dor, sofrimento, angústia e perdas, que são sensações a serem exterminadas pelo primeiro pastor, médico, curandeiro ou, até mesmo, educador físico que aparecer. Quanto mais falamos em minimizar o sofrimento e otimizar o prazer, mais nos privamos de prazer e mais nos atormentamos com os sofrimentos que não podemos evitar.

A busca da felicidade é um horizonte perseguido pela maioria das pessoas, no entanto, poucos se dão conta da dependência desse conceito com pressupostos culturais.

Dependendo do sentido e dos ideais que nos mobilizam nessa busca, corremos o risco de como na torcida do meu sonho, “jogar o jogo com a bravura de estar fora de alcance”.

O que quero dizer é que damos muito valor a realidade e pouco valor a imaginação – sorte dos poetas e escritores que se refugiam da monotonia da existência criando um mundo novo a cada escrita. Talvez, mais importante do que ser feliz é ser criativo. A compulsão pela felicidade sensorial é a ação criativa em seu mais baixo grau de expressão. Já o seu mais alto grau, é coisa que só Fernando Pessoa sabe expressar:
“Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha. O caçador de leões não tem aventura para além do terceiro leão. Para o meu cozinheiro monótono uma cena de bofetadas na rua tem sempre qualquer coisa de apocalipse modesto.”
*Professor de Educação Física, capoeirista, Alexandre Luzzi coordena o espaço Tai Ken e mantém a coluna mensal Corpo a Corpo.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!


por Cidinha da Silva*

Escrever textos opinativos sobre novelas ou aspectos delas, é um grande aprendizado. É vespeiro de abelhas bravas e vingativas. Você passa pelo inferno do desprezo, ora intelectualóide, ora esquerdizante e vai até outro inferno, do pessoal que compra a ideologia da novela e a assisti (ou diz que não assisti) sem laivo de criticidade. É um risco para a reputação da cronista, porque de uma ponta a outra há um corredor polonês inclemente, preparado para bater.

Mesmo a crítica mais participativa, aquela localizada no entremeio dos infernos, confunde papeis. São ditas coisas como “Muito bom o texto! Faça-o chegar à autora da novela!” Ora, faça-o você, se acha que vale o trabalho de movimentar-se nessa direção. A escritora escreve, põe o texto no mundo e ele anda com as próprias pernas. E quem quiser que o carregue, promova, critique, execre-o, com argumentos, por favor, principalmente no caso dos textos opinativos. Assim a autora se sentirá motivada a debater.

Ainda outra dimensão negativa, é que o texto sobre novelas publicado na Web é lido de maneira imediatista e grudada no tema abordado. É um texto sem asas, em que pese o fato de muitos leitores não aceitarem convites para ampliar o real. Parece que o peso da superfície livro é que continua a possibilitar vôos mais satisfatórios.

Pelo lado mais positivo, este tipo de crítica também encerra a percepção de que autora não consagrada joga nas onze. Ou seja, escreve, corrige, edita, escolhe ilustração, publica, divulga e deve fazer o texto chegar às mãos dos possíveis interessados.

A resposta aos textos novelísticos é também campo fértil para a manifestação dos donos da verdade. Gente que tem coisas prontas a dizer e que, pretensamente, pairam sobre a abordagem chinfrim da cronista, bem como sobre a percepção insignificante dos demais mortais. Um exemplo significativo, que não se refere à novela, propriamente, mas se adéqua de maneira perfeita ao perfil de dono da verdade exercido na Web, é a afirmação de que o espaço midiático e a repercussão conseguidas pela declaração de amor de Daniela Mercury à companheira, Malu Verçosa, é “um pouco exagerado demais.”

É de dar nó em pingo d’água! A coisa é “um pouco exagerada demais!” Diria que o sujeito inventou um pleonasmo torto precedido (contradito) por um quantificador de leveza linguística (a função inventada para o advérbio “pouco”, na frase). Tudo disfarce cínico da heteronormatividade para desqualificar a atitude da cantora, perfeitamente afinada com o respeito aos direitos humanos das pessoas LGBT no Brasil.

Existe uma versão ainda mais tosca dos donos da verdade, os fatalistas: "É a Rede Globo”! O que esperavam? O que assusta é vocês ainda esperarem alguma coisa das novelas.” Ou ainda, “É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!” As variações são muitas, tem o cara que diz: “Se eu não gosto, desligo a TV, não fico revoltadinho e abro mil assuntos no Face.”

Tem também outro tipo, metido a descolado: “Eu queria entender porque a autora ainda se da ao desfrute de assistir a um programa de uma emissora notoriamente racista. Se por questões de análise social ou se por entretenimento, no meu caso nem um nem outro”. A escritora avisa que não há uma resposta precisa para essa neurose. De um modo geral, cronista é gente à toa, mete-se onde não é chamada e vive procurando assunto. Essa é a verdade singela que não dá para ocultar desde os tempos de Machado e Lima Barreto.

É candidato a rei também, o arauto da esquerda: “O povo ainda não entendeu que uma mídia corporativa burguesa não pensa no povo e cultura como seres humanos, só pensam no lucro... o pior é que o povo ainda dá audiência.” É dureza receber essas mensagens, ainda mais para a autora que não é noveleira. Ela apenas lê a telenovela quando a assiste.

Tem os comentários impossíveis de decodificar, seja por pretenderem uma ironia (fracassada), seja por serem vagos ao afirmarem uma coisa, ao mesmo tempo em que contrariam o que disseram antes. É confuso mesmo. Você lê, relê e não consegue perceber se a concordância (ou discordância) é com a afirmação da autora ou com a crítica a ela.

Outros comentários mostram porque a novela emplaca, explicitam o tipo de pensamento representado por ela, expresso na voz do público. Note-se um vernizinho intelectual, estratégia da comentarista para tentar se diferenciar da massa ignara, quando emite juízo de valor sobre a crônica a respeito do núcleo de moradores de favela da telenovela Salve Jorge: “A novela não é grande coisa mesmo, mas é ficção e não documentário. E quem acha que novela vai fazer pensar? A maioria dos jovens de favela e periferias não querem nada mesmo: vejo aqui, na região de Venda Nova, em Belo Horizonte, rapazes soltando pipas, fazendo rachas com motos... moças que não trabalham, só querem namoro, e olha que não se vestem mal, não... não sei onde acham dinheiro pra comprar; é cabelo chapado, shortinhos curtos, funk em volume ensurdecedor, etc, etc...”

Felizmente, predominam os comentários inteligentes, lúcidos, mas a gente que lê o mundo, destaca sempre o que precisa ser reconstruído, por isso a ênfase naqueles que deixam escapar visões de mundo que interessam muito à ideologia da novela.

Bom exemplo de comentário positivo é o que segue. “Desligar a TV é uma boa mesmo, mas não resolve o que se discute aqui: invenções e reforços dos estigmas racistas! Por favor, a idéia é questionar e combater violências, não fechar os olhos, as portas, as janelas, a TV, os ouvidos... Detesto novela, não as assisto, mas estou com quem questiona o que elas veiculam.”


*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum
Web Analytics