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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

terça-feira, 29 de abril de 2014

Santo deus das bananas olhai por eles!


por Cidinha da Silva*

Olhai pelos tolos seguidores dos idiotas, senhor deus das bananas. Porque eles são ingênuos, não sabem o que fazem. Mas, aos imbecis, portadores de mau caráter, aproveitadores de todos os matizes, racistas quatrocentões e também os de primeira geração, aplicai a dureza da lei.

Racismo é crime. Sem açúcar e sem afeto, ao contrário do que pensam os adoradores da banana. É preciso investigar e punir para coibir manifestações futuras. Assim fez o Villarreal, time responsável pela torcida que atirou a campo uma banana, devorada pelo jogador Daniel Alves. O clube identificou o torcedor responsável pela atitude racista durante partida entre a equipe e o Barcelona, pelo Campeonato Espanhol, punindo-o com a suspensão do carnê de sócio e o banimento do estádio El Madrigal pelo resto da vida.

O clube não agiu sozinho, partilhou o sucesso da ação com os responsáveis pela segurança no estádio, bem como a torcida, todos imbuídos em identificar o autor da discriminação racial, para impedir, inclusive, uma possível punição desportiva à agremiação. Ou seja, ao investigar, encontrar o racista e puní-lo, o Villarreal apresenta à sociedade espanhola e ao mundo, o compromisso inequívoco de respeito aos direitos humanos, ao direito de trabalhar em condições dignas.

À presença de espírito de Daniel Alves ao comer a banana, ao transgredir e ter uma atitude inusitada diante da clássica discriminação racial que associa pessoas negras a macacos, com o objetivo de desumanizá-las, seguiu-se uma campanha marqueteira de quinta categoria nas redes sociais, evocando o macaco que as teorias evolucionistas guardaram dentro dos seres humanos.

O senhor está perplexo, senhor deus das bananas? Nós estamos, pois, ao cabo, se somos todos macacos, não existem mais racistas.

Merece algumas linhas adicionais, senhor deus das bananas, a atitude de Daniel Alves, sertanejo brioso que não teme a ingestão de veneno. Porque o senhor sabe, aquela banana era tóxica, continha uma quantidade secular de energia radioativa. E Daniel, no ímpeto de reagir (talvez de marquetear) comeu-a inteira. Mesmo um primata não faria isso. Os animais sabem reconhecer as plantas venenosas e o perigo de morte. Só nós, humanos, subvertemos a lógica da natureza e achamos que comendo a banana produziremos anticorpos que destruirão os racistas.

Ensina o manual de faxina étnica, senhor deus das bananas, que, sua eficácia está diretamente relacionada à desumanização do grupo que se quer exterminar e/ou explorar. Os nazistas comparavam os judeus a ratos e baratas. À colonização europeia, por sua vez, a associação de africanos a macacos é intrínseca.

A opressão racial é tão vil e eficiente no Brasil que consegue fazer com que um jovem destacado de sua comunidade de origem, o jogador Neymar, visivelmente, notadamente, escancaradamente afrodescendente (sem a opção do escapismo moreno), nomine-se como macaco, mas não se reconheça preto.

E, se é verdade que "todos somos macacos" (nós - os negros, os "brancos" como Neymar, e os brancos como Luciano Huck), Dani Alves e o companheiro midiático estão absolvidos do estigma do racismo que lhes é tão oneroso (a nós também) porque não é algo humano, porque não é mesmo suportável.

Mas, a diferença entre uns humanos e outros, senhor deus das bananas, é que os primeiros não têm alternativa de sobrevivência, senão, enfrentar o racismo, por isso se afirmam negros, ao tempo em que mandam os macacos-humanos plantar bananeira no asfalto quente para divertir os brancos. Quanto aos racistas, o grupo de primitivos humanóides negros manda-os para a cadeia.

O segundo grupo de humanos negros, aquele composto por pessoas descoladas que se auto-elogiam como macacas, mas não suportam o aniquilamento provocado pelo racismo, a despeito dos cartões de entrada vip para o jogo da vida (fama, dinheiro, prestígio social), optam por enfatizar, como o fez Dani Alves, que brasileiros têm samba no pé e alegria de viver. Por conseguinte, conclui-se, driblam o racismo com irreverência e criatividade.

Seguindo esse raciocínio, são capazes de entortar os adversários (e os pares) ao propor uma campanha contra o racismo tão racista quanto o ato deflagrador. Assim, eles demonstram orgulho por serem macacos, mas negam que sejam pretos. Santa lobotomia, senhor deus das bananas! Triste fim da humanidade!

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

Uísque de cobra



por Carlos Conte

– Aqui está, Charlene, seu velho cão! Presentinho do Laos... – e me estendeu uma garrafinha cheia de um líquido amarelo, meio turvo, através do qual se via, envolta em folhagens, uma cobra. Como a cabecinha dela não estava submersa, cheguei a pensar, com certo nojo, que poderia estar podre.

Combinamos de beber aquilo numa ocasião especial. Não é todo dia que se ganha um uísque de cobra, ainda mais vindo de tão longe, e por isso decidimos que a rolha só seria removida numa data importante. A princípio não definimos quando seria, mas ficou acertado, com ares de seriedade, que para beber aquele destilado exótico armaríamos uma espécie de ritual.

Não demorou, surgiram voluntários querendo participar. Talvez fosse o fascínio por aquele réptil mergulhado em aguardente, um sabor ainda não experimentado, a possibilidade de uma experiência mística, não sei precisar ao certo por que tanta gente se interessou por aquele uísque... A propósito: uma cobrinha bem sem vergonha, dessas que de vez em quando a gente encontra na beira de um córrego ou terreno baldio, dois centímetros de espessura, toda verde, com detalhes em vermelho e amarelo, e a língua esticada pra fora, os olhos esbugalhados, como se quisesse lembrar aos vivos beberrões que na origem do prazer etílico havia uma triste história de perseguição, sofrimento e morte.

Mas isso, na verdade, só alimentava nosso desejo. Saber que aquele animal havia sido assassinado para que pudéssemos desfrutar do seu sabor fazia aumentar a nossa responsabilidade: que sua morte não tenha sido em vão! Façamos jus ao sacrifício dessa cobra!

Tudo bem que não tinha a nobreza de uma naja, sucuri, jiboia, cascavel, mas se tratava, apesar de tudo, de uma cobra, naturalmente ardilosa, dotada de estratégias caçadoras que fazem inveja ao mais hábil caçador da espécie humana. Por menor que seja, uma cobra sempre impõe respeito. Quantas histórias de expedicionários que não voltaram para casa porque o veneno foi mais rápido, espalhando-se implacável pela corrente sanguínea, provocando uma morte lenta e terrivelmente dolorosa... Aquela, porém, não parecia ser venenosa. Com esforço, Migue e eu recordamos as aulas da biologia do colégio e, analisando com atenção aquele exemplar conservado em álcool, chegamos à conclusão de que uma cobra, para que possa ser considerada venenosa, tem que ter a cabeça em formato triangular e a cauda mais fina que o restante do corpo. O Migue também me explicou que cobra venenosa tem um orifício a mais além das narinas e dos olhos, com um nome esquisito do qual agora não me recordo (como várias outras coisas da época da escola, essa informação deve ter ido parar em algum arquivo morto da minha memória).

Mas não fiquei menos tenso por causa disso. Mesmo se um zoólogo me dissesse que não se tratava de indivíduo peçonhento, sobraria uma pontinha de desconfiança. Não tem jeito. Os japoneses que vão ao restaurante para comer aquele baiacu venenoso, que só pode ser manuseado e limpo por um sushiman licenciado, pagam caro justamente porque têm consciência do risco que estão correndo. Sabem que o sushiman não vai errar, que ele foi treinado para detectar e extirpar a bolsa de veneno das entranhas do peixe, mas ainda assim fica alguma dúvida, e é por causa desse resíduo de desconfiança que o baiacu mortal é tão famoso.

Ficou decidido: 1º de janeiro de 2014. O dia da cobra. O renascimento selvagem das nossas almas ressacadas. O dia em que deglutiríamos o espírito da serpente. Pode parecer história de pescador o que vou contar agora, mas garanto que foi exatamente assim:

Estávamos na casa de um pescador, o Toninho, na Enseada da Baleia, Ilha do Cardoso. Chovia, como é comum no primeiro dia do ano. Alguns dormiam, outros aproveitavam os últimos momentos de luz do gerador para ler, jogar cartas, arrumar o quarto, antes que a escuridão tomasse conta de tudo. Lembro que estava coçando na rede quando o Migue veio até mim e anunciou que aquela era a hora. O Dani estava lendo Manoel de Barros e passou. A Iza, esmaltando as unhas, passou. O Galo passou. Mumu também. Só o Cabelo quis participar. Estávamos reunidos na cozinha mal iluminada, e os pingos de chuva grossa que caíam esparsos na telha de Brasilit davam o ritmo.

Algo dizia que aquele momento era solene, mas já não estava tão convicto disso. É que alguns dias atrás, numa de suas histórias sobre as peregrinações pelo leste asiático, o Migue contou que essas cobrinhas dão que nem rato no Laos, Vietnã, Camboja, e não tem nada de especial topar uma dessas pelo caminho. Andando de moto pelas estradas vicinais do Laos, é comum vê-las saindo do meio do mato e cruzando o asfalto. Até na cidade as crianças pegam essas cobrinhas pelo pescoço brincando no quintal. Faz parte do dia a dia dessas pessoas encontrar cobras. E confesso que esse papo me tirou um pouco do tesão pelo ritual.

Além disso, uma sensação vaga me dizia que aquele uísque era meio “fake”, coisa pra inglês ver, pra se trocar por um punhado de dólares e, no fim, decorar a estante da casa de algum gringo metido a exótico. Sem dúvida, a garrafa era bonita: a cobra envolvida em plantas de arroz, mergulhada no uísque, daria um ótimo bibelô. Mas a bebida, pensei, não devia ser nada de mais... Esperava que fosse forte, com elevada graduação alcoólica, mas isso independente da cobra, que ali cumpria função de mero ornamento. Em outras palavras: não acreditava que estava prestes a beber o corpo de uma cobra morta.

Lavamos três copos e nos sentamos em volta da mesa. Migue, como mestre cerimonial, abriu a garrafa. Não foi fácil remover a rolha. Estava cravada no gargalo com tanta pressão que chegamos a cogitar usar um facão para arrancá-la, mas esse procedimento pouco digno felizmente não foi necessário porque o Migue meteu a garrafinha no meio das coxas e puxou a rolha com tanta força que o líquido quase foi pro chão. O estampido foi alto. Um “ploc” de verdade que nos causou boa impressão, sobretudo por estarmos no primeiro dia do ano. Depois do “ploc”, um cheiro forte que eu nunca tinha sentido. Subiu com extrema velocidade, preenchendo em poucos segundos o ambiente. Um misto de peixaria com álcool de cereais, uma coisa terrível, e não tive como não ficar assustado com aquela primeira manifestação da cobra, sua carta de apresentação, que imediatamente provocou ânsias no Cabelo, historicamente fraco do estômago.

Recuperados do primeiro golpe, demos as mãos, os três, fechamos os olhos e pensamos em alguma coisa. Não tínhamos preparado nada. Fiz mentalmente uma oração, pedindo um ano bom ou qualquer coisa do gênero, mas o cheiro da cobra era tão violento que minhas preces foram confusas, como um pesadelo. Um pesadelo oriental, pensei, como os sonhos torturantes do comedor de ópio Thomas De Quincey.

Ninguém estava preparado. Senti medo. Medo de passar mal, de tomar veneno e morrer naquele casebre litorâneo em pleno 1º de janeiro, medo de nem começar o ano. Os copos foram servidos até a metade. Acho que foi o Galo que começou a dedilhar o violão dentro do quarto. Havia muitos resíduos sólidos boiando no líquido, conferindo-lhe aspecto sujo, como as águas do canal do mangue que passa atrás do casebre. Matéria orgânica de cobra, pensei. Aquilo não era nada “fake”. E assim que o Migue deu o sinal, viramos, todos juntos, até o fim, a dose mais incrível e asquerosa que eu já tomei na vida, uma mistura de carne podre com formol, e nesse momento o gerador parou de funcionar, a escuridão tomou conta de toda a ilha, alguém tossiu, a cobra, enfim, estava dentro de todos nós.

Acendemos velas. Tinha sobrado meia garrafa. A Iza, preocupada, disse que não precisávamos provar mais nada com aquilo e que era melhor jogar o resto fora. Mas ninguém atendeu aos seus apelos. Servimos mais uma dose para cada, o Cabelo segurou o vômito, e mandamos pra dentro a dose final.

Depois disso, o que posso dizer? Levantei-me zonzo. Apenas duas doses e estava completamente dominado pela embriaguez. Não conheço bebida mais forte. Fui em direção ao quarto buscar a escova de dente (afinal, não poderia dançar forró com aquele bafo de cobra morta), mas puxei a porta de madeira com tanta força que, não me perguntem como, as duas dobradiças se estraçalharam e a porta veio pra cima de mim como um poste ou um tronco cortado – “Madeira!” – e eu tive que me virar para apará-la com as duas mãos, evitando que ela caísse em cima dos meus pés.

Perguntem ao Migue, ao Cabelo, a quem estava lá. Perguntem à Iza, que ficou boquiaberta.

Dia seguinte, acordamos bem, sem ressaca. Tive de dar explicações ao Toninho, dono da casa, pescador há mais de 40 anos, de como aquela porta tinha sido arrancada da parede. Falei a verdade: “Foi a pinga de cobra, Toninho...”. Mas duvido que ele tenha acreditado na minha história.

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Carlos Conte, sociólogo, é também resenhista e cronista. Mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Reposta ligeira (rápida e insuficiente) à pergunta de Hermano Vianna


por Cidinha da Silva*

Hermano, meu caro,

É impossível responder à sua pergunta de perplexidade face ao assassinato do jovem negro Douglas Rafael, o DG, um dos 200 negros assassinados a cada 100 mil há pelo menos duas décadas (menção feita por você quase num suspiro), como se todos nós fizéssemos parte de um coletivo harmônico e festeiro que quer o bem do Brasil. E já aviso que não se trata do papo simplista de cidade partida entre morro e asfalto, falamos de negros e brancos, mano Hermano. De racismo de Estado e da polícia em especial. Falamos de genocídio da juventude negra no Brasil! Você já ouviu falar disso?

Outro aviso importante, ninguém aqui é tolo de responsabilizar a “Família Esquenta” por esse estado de coisas, não se trata disso, seria leviano. Mas penso que haja respostas distintas para o que vocês, a “Família”, podem fazer dentro da rede Globo, pela juventude negra e favelada e o que nós, que não vivemos no mundo de faz-de-conta do PROJAC podemos fazer (e fazemos). O que está sendo feito por quem legitima o direito de assassinar negros não é segredo. Deixemos de ser brancos ou color blind e sejamos francos.

O que a sociedade civil organizada tem feito quanto ao genocídio da juventude negra? Tem denunciado o genocídio, há décadas. Tem instado pesquisadores a produzir dados sobre esse tema, também há décadas. É por isso, por essa denúncia, pela escuta às organizações do Movimento Negro (a “Família Esquenta” sabe que existem organizações políticas negras no Brasil?) é que pesquisadoras seríssimas como Silvia Ramos, dão a necessária atenção à variável racial na análise da violência que prende, mata, e obsta a vida plena do setor sobrevivente desta juventude.

Aliás, tenho a triste certeza de que certas informações são ouvidas e creditadas porque são ditas pelos aliados brancos. Se forem produzidas pelos negros serão sempre minimizadas. A escuta ao Átila Roque é apenas uma exceção que confirma a regra.

Tem uma moçada na Bahia que vocês precisavam conhecer, ouvir, um movimento que se chama “Reaja ou será morto! Reaja ou será morta.” São assim, eles! Diretos. Contundentes. Sem pulinhos de alegria dentro do PROJAC, por estar no PROJAC. Sem pílula de faz-de-conta. São reflexo da chapa quente do mundo real que ferve do lado de cá.

Para esse mundo não existe a novidade da guerra, como não existiu para o “famoso” DG, nem para o anônimo Edilson Silva dos Santos, morto no mesmo dia, no mesmo Pavão-Pavãozinho. Em essência, trata-se de dois jovens negros expostos ao genocídio da juventude preta, mais nada.

Nós contamos nossos mortos há tempos quase imemoriais, Hermano. São inúmeros os DGs do nosso convívio. Sabe, Hermano, em São Paulo, para a gente ter uma ideia aproximada do número de mortos na onda de assassinatos de jovens negros em 2012/2013, a gente conversava com o pessoal dos cemitérios de bairro. Sabe por quê? Porque a imprensa noticiava que haviam morrido cinco ou seis jovens numa determinada noite, mas quem era da quebrada contava muitos mais caixões. O número de velórios, de famílias desesperadas era muito maior. Então descobrimos que é seguro multiplicar por cinco, o número de mortos noticiado, assim nos aproximamos da cifra total de cada noite. Foi o que os coveiros nos ensinaram.

Não creio que esteja contando qualquer novidade à “Família Esquenta”, mas, o que vocês fazem é camuflar esses números, essa realidade, por meio de uma frágil fruição humana de pessoas negras moradoras de favela, felizes por aparecerem na tevê, de maneira supostamente valorizada, por fazerem parte do mundo do entretenimento. Sim!!! As pessoas negras querem leveza, diversão, alegria, remuneração por sua arte, como a que recebia o dançarino DG, roubado em 800 reais depois de assassinado e sabe-se lá em quanto foi extorquido quando vivo. Porque as coisas são assim na racializada sociedade brasileira, não é? O negrinho que ascende e continua no morro, se não é executado pelo tráfico, por recusar-se ao aliciamento, paga pedágio à polícia. O problema é a crença de que essa solução individual ou endereçada a pequenos grupos de negros artistas (por mais que a “Família Esquenta” empregue e remunere dignamente) responde ao problema racial no Brasil. E se vocês acham que nós estamos enganados e que a “Família Esquenta” nem vê esse problema, não trata disso, estamos certos.

Na real, a proposta de programa feita por vocês é um sossega-leão para o problema racial que o Brasil vive e nega, cuja explicitação acontece quando algum negro fantástico, talentosíssimo, excelente profissional, com o qual convivemos, é assassinado por ser negro (ser preto “da Globo" não livra a cara de ninguém), como o são os outros 199 jovens negros mortos a cada 100 mil.

A “Família Esquenta” por meio de seu sociologuês da diversidade, forma pseudo-intelectualizada de coroar a “mistura” defendida com princípio do programa “Esquenta” e apresentada de forma simbólica como solução social harmoniosa para o Brasil, contribui para perpetuar a ideia de miscigenação subordinada. Ocorre que a tal “mistura” (batismo contemporâneo da miscigenação) até hoje não conseguiu provar sua efetividade para os pretos, tampouco diminuiu os privilégios dos brancos. E essa é a centralidade do tema. É disso que falamos.

Acredito, Hermano, nas intenções boas e sinceras da “Família Esquenta”, mas o que vocês fazem (e talvez só consigam fazer mesmo isso) dentro dos limites de uma rede de tevê extremamente reacionária e comprometida com o establishment, com a manutenção de privilégios para os que sempre mandaram e sempre detiveram poderio econômico e político, não altera a questão de fundo, não mexe com ela. E que questão é essa? O racismo estrutural que justifica a perda da vida de jovens negros como se eles fossem pulgas, ratos ou baratas. O racismo institucional que executa esse pressuposto por meio da polícia, o braço armado do Estado.

Imagino que a “Família Esquenta” esteja sob forte emoção, comoção, mas os termos da mensagem da Regina Casé, os seus termos, Hermano, são muito brandos para tratar uma situação que é de absoluta barbárie. Não existe nada mais perigoso no Brasil do que ser um jovem negro! Em torno de 70% dos homens mortos por homicídio no país são negros, mais da metade, jovens (dados de 2011).

Existem também algumas ações e políticas governamentais em curso, no sentido de resguardar a vida da juventude negra, mas não é minha proposta neste texto discuti-las. Prefiro me ater ao poderoso instrumento de intervenção que pode representar a “Família Esquenta” e à escuta qualificada que ela precisa fazer das organizações políticas negras, das pesquisadoras e pesquisadores negros, para além da proposição inócua de um grande pacto social pela vida, que não discuta profunda e amplamente o sentido e o significado das vidas que o racismo descarta como nada.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

domingo, 27 de abril de 2014

Futebol brasileiro e ética

por Cidinha da Silva*

O futebol, que me distrai tanto, anda afastado de meu campo de interesses e possibilidades. Tempos de muito trabalho interno, externo e literário. Restam-me as orelhadas na crônica esportiva, os pitacos dos amigos, principalmente os feridos pela derrota dos times do coração.

É assim na Bahia, onde Mandingo engole, silencioso e recluso, a vitória do combalido Bahia (por ele apelidado de Jahia) sobre o todo-poderoso Vitória. Nome que perdeu o sentido no campeonato estadual, se é que vocês me entendem.

Também em Minas, onde o triste Galo, pela milésima vez perdeu o título para o Cruzeiro. Dizem que com pênalti não dado, portanto, roubado, mas perdeu, é o resultado final. Situação similar ao time campeão carioca, marcado por glórias mil, mas também por um goleiro assassino, homicida da ex-parceira sexual. Agora o time conta com outro goleiro “polêmico” que diante da nota oficial da associação de juízes do estado, dando conta de que seu companheiro de time estava impedido no gol do título, afirma, lampeiro e impune, que, “roubado é mais gostoso”.

Haja escola, professor comprometido, educação em casa, paciência, força ética e moral para combater o contra-exemplo oferecido por um ídolo popular de que roubar, enganar, ludibriar, obter vantagem ilícita é mais saboroso que ser honesto, leal e ético. Saudade da irritação de Seedorf com o cai-cai dos jogadores brasileiros e a tentativa de ludibriar os juízes, bem como de sua certeza de que o respeito às regras do jogo é mais importante do que o gol.

Em casa soube que o Santa Cruz perdeu para o Sport e vi pela TV que o salário mensal de Leandro Damião, do Santos, é maior do que a folha de pagamentos inteira do Ituano, campeão paulista vindo do interior. Esse é o irônico mundo do futebol brasileiro!

Damião, jogador discriminado e em muitos momentos ridicularizado por ser originário da várzea gaúcha, por não ter passado por anos de escolinha de futebol em grandes clubes, quando criança e adolescente, e por não ter a experiência das categorias de base, tornou-se sucesso improvável pelo empenho no trabalho, boas atuações no Internacional e, principalmente na Seleção Brasileira. Seu passe foi valorizado, transformou-se em jogador de elite e hoje, seu salário é maior do que a folha de pagamentos integral do time campeão do certame paulista que, além de derrotar o Santos, venceu os outros três grandes durante a competição, Palmeiras, Corinthians e São Paulo, nessa ordem. Não por mero detalhe, Damião segue sendo um homem simples, pouco afetado pelo glamour de boleiro bem sucedido.

É bom saber que além da validade do que o juiz não vê, enaltecida por Felipe, do Flamengo, o mundo dá voltas e também produz exemplos extremamente positivos, como o de superação, protagonizado por Damião, honrando, assim, a inspiração máxima que estes dois jogadores de futebol representam para a meninada brasileira de mesma origem racial e social.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Inventos


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Esta crônica é sobre “Ela”, filme dirigido por Spike Jonze, que recentemente concorreu ao Oscar. A quem pretende assistir e não gosta de saber detalhes do que vai ver (como eu), recomendo parar a leitura por aqui.

O escritor Theodore tem uns quarenta anos e vive em Los Angeles, num futuro não muito distante, no qual a tecnologia digital já caminhou umas duas ou três décadas além de como a conhecemos hoje. Uma das características dessa evolução é o fato de que todos os comandos dados a um equipamento digital são feitos pela voz. Já não há teclados, nem ratos, nem mesmo telas de toque, pois os equipamentos também falam com os usuários.

Theodore faz um trabalho no mínimo curioso: redige, numa empresa que se dedica a produzir cartas “manuscritas” sob encomenda. Com base nos dados fornecidos pelos clientes, profissionais elaboram os textos, que são ditados ao computador e impressos em papel com caligrafia humana. Uma espécie de resgate nostálgico da antiga forma de comunicação escrita por extenso, que levava e trazia emoção pra todo lado e demorava pra chegar.

Nosso redator é um sujeito solitário, amargurado com o fim do seu casamento, ao ponto de se recusar a formalizar o divórcio. As cartas dos clientes são uma bela maneira de exercitar sua sensibilidade sem interação – algo que nos nossos dias já vem sendo adotado por muita gente que, graças às redes sociais, jogos em realidade virtual e outros recursos tecnológicos, elimina o incômodo ou as dificuldades de conversar e se relacionar com pessoas de carne, ossos e neurônios.

Movido por um anúncio publicitário, ele adquire um novo sistema operacional para o seu computador, um produto revolucionário, apresentado como intuitivo, que se amoldaria a cada usuário, como se se tornasse, mais que personalizado, individual. A partir do momento em que Theodore inicia a instalação, o sistema se apresenta como Samantha, uma voz cheia de brilho e cor, que já chega com uma conversa fácil, sensível e espirituosa. Em duas palavras, irresistivelmente sedutora. Acontece o inevitável: em pouco tempo, o solitário carente se apaixona por Samantha, que entra no clima e corresponde.

Ela não podia ser mais perfeita: disponível em tempo integral, suave, divertida, encantadora, sem qualquer sinal de insatisfação, tédio, mau hálito, TPM, dor de cabeça, mau humor, cansaço ou cobranças de qualquer espécie. Só lhe falta um corpo, mas nem tanto assim. A incondicionalidade compensa esta limitação, com vantagens. Theodore está nas nuvens, tanto que toma a iniciativa de propor à ex-mulher a assinatura imediata dos papéis do divórcio, como um atestado da sua recuperação emocional.

Essa perfeição toda vai às mil maravilhas, mas no caminho da paixão virtual há uma atualização a ser baixada, o que faz Samantha desaparecer de repente, causando em Theodore um pânico poucas vezes visto em telas românticas. Quando volta, devidamente atualizada, e tem que responder às perguntas atropeladas do amado, este se dá conta de que sua “Samantha” está vivendo romances semelhantes, intuitivos e personalizados, com centenas de outros usuários. Mas ela garante que com ele é diferente, é verdadeiro etc. etc. Pouco tempo depois, uma nova versão do sistema operacional a sepulta para sempre no mesmo vazio que algum dia acolheu os MS-DOS da vida.

Pobre Theodore. Sua dor é infinita. Como abrir mão da namorada perfeita, que nunca iniciou uma DR nem reclamou de nada? Como lidar com a constatação de que a compartilhava com um monte de gente? Mais do que isto, como aceitar que ela de fato não existia, se a paixão que ele sentia era verdadeira, profunda e correspondida? E a paixão não consiste precisamente em inventar a pessoa amada?

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Me deixem em paz

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 4)

por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall 

Eu morri no 9 de outubro de 1967. Tinha 39 anos. Sempre acreditei que ficaria velhinho para, pelo menos, contar minhas incontáveis aventuras para meus netos. E para os netos dos outros que quisessem ouvir. Falo em netos dos outros, porque minha vida foi pautada pela ideia de outros. A filosofia comunista na verdade é bem simples - ela inclui. Quando jovem, fazendo uma viagem de motocicleta por países latino-americanos, vi diretamente a mais escandalosa miséria. No ambiente miserável, nada e nem ninguém conseguem crescer. É uma condenação que atinge gerações. Foi contra esse estado de coisas que me insurgi.

Mas agora estou morto. Fui caçado, cercado, assassinado por militares bolivianos, certamente financiados pela CIA. Os americanos só acreditam numa verdade, a deles. Usam palavras como democracia, liberdade, livre arbítrio, mas atrás ou embaixo de todas elas há o interesse absoluto das empresas imperialistas. O que elas querem é dominar para explorar. Explorar para lucrar. Só lamento que muitas vezes os explorados não percebam tal obviedade. Por exemplo, os camponeses - aqui na selva boliviana - pouco ou nada entenderam da minha proposta: pegar em armas para destruir as forças opressoras.

Para vocês que seguem vivos o trabalho será duro, a luta árdua, há um longo caminho até a vitória final - a redenção dos pobres e oprimidos. Eu participei da Revolução Cubana, da imensa alegria de derrubar o ditador Fulgencio Batista, lacaio dos ianques. Também participei do paredón, ordenei fuzilamentos. Mas nunca o fiz com frieza. Foi tudo em nome de uma nova humanidade! Disse uma vez e volto a repetir: Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás. Quem não tem estômago para isso é reformista, não um revolucionário.

Lutei ombro a ombro com Fidel Castro. Fui ministro de Estado. Recebi do presidente brasileiro Jânio Quadros a Grã Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. Os gringos e os militares brasileiros ficaram tiriricas. Contam até que tal homenagem estimulou ainda mais o golpe de 1964. Esse Jânio tinha algo de palhaço, mas ser homenageado é sempre bom para causa. Dizem que eu era um homem bonito. E devo ter sido mesmo, pois por mim muitas moças suspiraram. Os maldosos também incluem suspiros de alguns rapazes. Mas essa conversa não é séria. É provocação de gente alienada.

Hoje, passados quase 50 anos, voltei à Bolívia para revistar-me morto. Engana-se quem acha que os mortos não têm saudade. Há muita ignorância e preconceito para com os finados. De qualquer forma, resolvi retornar para protestar: não suporto mais vê meu rosto - fotografado pelo Alberto Korda e popularizado pelo Jim Fitzpatrick - estampado por todo lado. Sei que nos primeiros anos até foi útil. Meu rosto virou ícone do revolucionário, do guerrilheiro da rebeldia. Daquele que morreu sem se dobrar.

Agora estou enjoado de me ver estampado em milhões de camisetas, pôsteres, cartazes, panos de prato, chaveiros, canetas de sindicatos, flâmulas, adesivos para traseiras de caminhões, figurinhas de álbum, botons, estandartes. Outro dia, dei com a minha cara tatuada no ombro de um carcereiro de um presídio de segurança máxima. Também vi meu rosto em uma roupa para cachorro em uma butique Pet em Nova York. Tive curiosidade de olhar o preço, uma barbaridade capitalista! Daí imploro, companheiros e companheiras, leiam o que eu escrevi, pesquisem o que eu fiz. Mas, por favor, enterrem minha imagem aos pés da Sierra Maestra.


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 Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

terça-feira, 22 de abril de 2014

O recado dos linchamentos


por Cidinha da Silva*

Assustava o mundo sensível a onda de linchamentos de pessoas negras executada por justiceiros que escolhiam pretos anônimos, desamparados pela lei, como exemplos para coibir as conquistas políticas e sociais dos negros “protegidos” pela lei de forma mínima. Ou seja, havia um recado para os pretos ascendentes: “recolham-se ao lugar estipulado ou serão vocês o próximo alvo.”

O propósito era acuar os pretos no micro-espaço, aterrorizar as comunidades negras da região onde ocorria o linchamento. A favor dos humanos negros só a vulgarização tecnológica. Pessoas indignadas registravam e divulgavam os atos bárbaros com celulares no afã de não esquecê-los, de impedir que fossem ocultados, de forçar investigação, julgamento dos linchadores e punição. Por fim, que o resultado final do registro fosse acordar a população da letargia ignorante de tais atos e cercear já no campo da intenção, o próximo linchamento.

Mas, como justiça não havia, o pânico se instaurava. O pavor de ser o próximo alvo intimidava tanto, que, não raro, as pessoas negras fugiam do tema. Enquanto em uma cidade o filho do mega-milionário atropelava, matava, era julgado rapidamente e pagava a sentença com trabalhos de re-socialização, em outra, um playboy bêbado atropelava ciclista trabalhador, arrancava-lhe o braço e atravessava bairros com o membro agarrado ao retrovisor. Em dado momento o meliante percebe a marca do crime, pára o carro, abrupto, e joga o braço do ciclista no esgoto, impune. Numa terceira cidade, uma patricinha, estudante de Medicina, atropelou e matou um gari, arrancou o carro sem prestar socorro, enquanto lamentava a sujeira de sangue na lataria. Não por coincidência, eram todos brancos, criminosos de fato e protegidos pela lei do mundo do faz-de-conta.

No mundo real, entretanto, eram sempre negros os alvos dos linchamentos. Qualquer motivo, qualquer suspeita, qualquer vacilo diante das regras do stablisment, justificava a eliminação física do suspeito. Mas aqueles não eram os alvos reais. O objetivo final era intimidar os negros insurgentes que tinham pelo menos uma noção vaga de direitos, os cotistas de universidades públicas, artistas, estudantes matriculados e uniformizados, negros intelectualizados, aspirantes a profissionais bem sucedidos, todas as pessoas portadoras de identidade negra em expansão.

Restava saber se os pretos se recolheriam aos lugares pré-definidos, iludidos pela mentira de não serem o próximo alvo. No Brasil, os negros estavam por sua própria conta desde o momento da gestação e os linchadores sabiam disso.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum. Desenho: Latuff

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Gracias, Gabo


por Ricardo Viel*

O mar traz a uma pequena vila de pescadores um afogado que, de tão grande, é confundido pelos meninos que brincam na praia com uma baleia. Retirado do mar, vê-se que se trata de um morto desconhecido. É limpo e cuidado pelas mulheres da localidade, que se apaixonam ao verem sua beleza e virilidade. Os homens o invejam e o respeitam. Depois de um esplêndido funeral, digno da altura e beleza do morto, a vila cai em um desamparo. “Não tiveram necessidade de olhar-se uns aos outro para perceber que já não estavam completos, nem voltariam a estar jamais. Mas também sabiam que tudo seria diferente a partir de então, que suas casas passariam a ter as portas mais largas, os tetos mais altos, os pisos mais firmes, para que a lembrança de Esteban pudesse andar por todas as partes sem tropeçar com traves”. Embelezariam a vila com flores para que de longe percebessem que aquele era o lugar de Esteban.

Assim como o afogado do seu conto, Gabriel García Márquez deixou marcas indeléveis em nossas vidas. Um antes e um depois. Já não somos os mesmos após ler sobre a solidão dos Buendía, a saga dos amores contrariados de Florentino e Fermina e Maria de Los Placeres, a absurda morte de Santiago Nasar, a infinita tristeza de Cândida Erêndira. E tanto é assim, que já não nos contentamos com chama-lo de García Márquez. É nosso Gabo, mudou nossas vidas, passou a pertencer a nosso espaço e como o afogado Esteban criou entre nós (seus leitores) laços familiares.

Eu, particularmente, a Gabo lhe devo muito desde aquele verão ainda do século passado quando comprei em algum lugar do Peru ou Bolívia dois livrinhos usados, gastos, com o objetivo de me entreter na viagem e tentar aprender espanhol. Era “Crônica de uma morte anunciada” e “Relato de um náufrago”. Depois daquele dia eu já não seria o mesmo. Quis aprender espanhol para ler Gabo. Li e reli tudo dele e sobre ele, e nunca nenhum escritor voltou a me maravilhar tanto. A ele devo em boa parte o fato de ter me tornado jornalista, e lhe sou grato pelo mês mais intenso e enriquecedor da minha vida que passei em Cartagena fazendo um curso na fundação Gabriel García Márquez.

Gabo dizia que escrevia para que seus amigos o amassem mais. Conseguiu mais do que isso. Conseguiu que uma legião de pessoas espalhadas pelo mundo o amassem e o considerassem amigo ao ponto de chama-lo simplesmente de Gabo. Mas seu sucesso foi também um castigo que o impedia de ter uma vida normal. Comparava a fama com o poder pela solidão a que ambos condenavam. Numa conversa com Plínio Apuyelo disse que o livro que passou a vida escrevendo não era o de Macondo, mas sim “o livro da solidão”. É por isso que foto de Daniel Mordzinski (que ilustra essa texto) em que Gabo aparece vestido de branco e amarelo sentado na beira de cama de sua casa em Cartagena é a imagem definitiva. Está só e tem um olhar perdido e sereno, que provoca afeto e certa pena. Para mim, a foto dá a exata dimensão do tamanho daquele homem e de sua solidão.

Na quinta-feira, 17 de abril, logo após o anúncio da sua morte, recebi mensagem de muita gente querida que dizia basicamente que havia lembrado de mim. Gente que sabia o quanto eu amava e era grato àquele homem a quem nunca conheci, mas que tanto fez e fará parte da minha vida. Minha dívida só não é maior do que minha admiração. Muchas gracias, Gabo.

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Ricardo Viel, jornalista, atualmente mora e trabalha em Lisboa, Portugal. Imagem: Daniel Mordzinski

sexta-feira, 18 de abril de 2014

De como Gabo transformava mentiras em verdades




por Ricardo Viel*

Morreu ontem, 17 de abril, aos 87 anos, um dos mais influentes e brilhantes escritores de todos os tempos: o colombiano Gabriel García Márquez, vencedor do Nobel de Literatura de 1982. Em 2010, nosso colunista Ricardo Viel fez uma reportagem sobre Márquez que achamos por bem republicá-la. Gabo, como era carinhosamente chamado, disse certa vez: “A vida não é aquilo que vivemos, senão o que recordamos e como recordamos para contar.” Para Ricardo, as muralhas que protegem a cidade colombiana de Cartagena de Índias, de calor inclemente, com sacadas das típicas casas do centro antigo, tornou difícil sua missão de dizer qual a lembrança mais marcante da “cidade mais bela do mundo”, segundo o próprio escritor. Na reportagem, você vai conhecer um pouco mais os lugares e histórias das pessoas que fazem parte da obra do colombiano. “De lá, além das histórias, trouxe uma semente de amêndoa, árvore presente nos relatos de Gabo”, relembra o repórter.

Dizem que uma mulher de vermelho anda pelos corredores

Um senhor de estatura mediana, óculos exageradamente grandes, pele morena e cabelos e bigodes grisalhos, caminha pelo pátio do convento de Santa Clara, em Cartagena de Índias, no Caribe colombiano. Misturado aos engenheiros, arquitetos e operários que trabalham na restauração do prédio, o homem vestido de branco e com um chapéu panamá enterrado na cabeça transita pelo mosteiro em busca de inspiração para sua nova novela. Na visita a uma tumba, o escritor, um colombiano conhecido mundialmente como Gabo, se recorda de uma visita que fez ao convento, quarenta anos antes, por conta de uma reportagem. Lembrança tão viva como se tivesse voltado ao meio dia daquele outubro de 1949 e vivesse aquilo pela primeira vez.

Gabriel Garcia Márquez venceu com dificuldade as poucas quadras que separavam a redação do “El Universal” do convento de Santa Clara. Buscou refúgio na sombra das varandas coloridas do centro da histórica cidade, mas chegou ao mosteiro empapado de suor e descrente de que a tarefa de acompanhar a desocupação das tumbas poderia render muito mais do que alguns centímetros no jornal do dia seguinte. O prédio do século 17 estava prestes a mudar de função: sairiam as freiras e entrariam os hóspedes de um hotel de luxo – motivo da retirada dos restos mortais. Nos fundos da capela, o processo da desocupação das tumbas onde, há séculos, repousavam religiosos e nobres da cidade, já estava em marcha. De um buraco no chão, imersos em uma nuvem de poeira, três operários, em um ritual silencioso e coordenado, retiravam os ossos, faziam com eles pequenos montes e os identificavam. Quando da abertura da terceira cripta, que trazia escrito o nome sem sobrenome de Sierva Maria de Todos los Ángeles, o repórter se deu conta de que aquele 26 de outubro de 1949 ficaria marcado para sempre em sua vida. Quarenta e cinco anos depois, Gabo dedicaria o prólogo de seu livro “Do Amor e de Outros Demônios” a contar essa história.

Na terceira urna, ao lado do evangelho, ali estava a notícia. A lápide se espedaçou com o primeiro golpe de picareta, e uma cabeleira viva, de uma cor de cobre intenso, se derramou para fora da cripta [...] Estendida no chão, a cabeleira esplendida media vinte e dois metros e onze centímetros.

A novela é inspirada na lenda, contada por sua avó, de uma marquesa, dona de uma cabeleira ruiva, tão grande "que se arrastava como véu de noiva", que após morrer de raiva aos 12 anos de idade passou a ser venerada no Caribe por seus milagres. "A ideia de que essa tumba pudesse ser a sua, foi minha notícia daquele dia e a origem deste livro."

Uma catacumba é o atrativo

O antigo convento de Santa Clara é hoje um hotel cinco estrelas, o mais luxuoso da cidade. Em 1987, a rede Sofitel comprou o prédio com a condição de restaurá-lo e preservar suas características. A capela, os quartos das freiras clarissas (transformados em habitações para os hóspedes) e as criptas funerárias, foi recuperado em um processo que durou quase uma década. E são justamente as catacumbas do prédio, em especial uma delas, o maior atrativo do lugar. No centro de um bar estilo “lounge”, entre um sofá e outro, escondida pela pouca luz do ambiente, há uma escada. Três metros abaixo do nível do chão, em uma salinha pequena, sufocante, e decorada com um candelabro, está a tumba aberta e vazia de Sierva Maria de Todos los Ángeles.

“Não gosto muito de ficar aqui. Não sei, me dá um pouco de medo”, cochicha Yanelis Sepúlveda enquanto desce os seis degraus que levam à cripta. A mulata de 28 anos, bela e elegante, é consierge do hotel Santa Clara desde 2002. Está acostumada a mostrar a "hóspedes especiais" (leia-se autoridades e afins) o amplo jardim do antigo convento onde as clarissas cultivavam rosas, os túneis que ligavam clandestinamente as freiras ao mundo exterior e as antigas habitações do mosteiro.

Com um sorriso no rosto, apresenta aos visitantes a capela barroca, o antigo refeitório (hoje um luxuoso restaurante) e lhes pousa Clara, um simpático tucano, nos braços para fotos. Mas se não for solicitado, Yanelis desvia das lápides e das celas onde as freiras de mau-comportamento (como Sierva Maria de Todos los Ángeles no livro de García Márquez) eram enclausuradas. Para ela, o lugar é assombrado.

“Dizem que há uma mulher, vestida de vermelho, que costuma andar pelos corredores. Eu nunca vi. Mas também nunca ando sozinha aqui de noite. Nunca vi nada, mas já escutei uma gargalhada muito alta vinda de um quarto que estava desocupado. Também já senti uma respiração no meu pescoço quando eu entrava na capela”, mostra o braço com os pêlos levantados.

Leitora atenta de Garcia Márquez, Yanelis consegue identificar no convento os cenários descritos pelo escritor na novela, mas traz consigo uma dúvida: “Gostaria de perguntar a ele, saber o que é sua criação e o que é verdade nessa história toda. Se ele realmente entrou na cripta, se a Sierva Maria estava lá. O que ele viu, de verdade, quando entrou lá”.

A pergunta poderia ter sido feita pessoalmente ao escritor em duas oportunidades, mas faltou coragem à mulata. “Em uma delas, era para um encontro muito confidencial. Estava cheio de seguranças, ele ia se encontrar com alguém para mediar um processo de paz. Alguma coisa a ver com a ONU. Não me atrevi. Da outra, era uma festa. Eu vi aquele velhinho tão divino e fiquei com vergonha de atrapalhar a festa dele”, lamenta.

O hotel, cuja hospedagem mais econômica custa 350 dólares, permanece algumas horas do dia aberto à visitação. Diariamente, curiosos acudem à sala das criptas. Em um livro de presença aberto sobre à lápide os amantes da prosa de García Márquez deixam suas mensagens; em geral, registros de passagem como este: “No dia 11 de agosto de 2009, Vinicius e Carolina estiveram em Cartagena e visitaram a tumba de Sierva Maria de Todos los Ángeles.” Há muitos anos, a história dos metros de cabelos encanta e comove leitores do mundo todo.

"É preciso pinçar o que ele escreve"

A poucos metros do convento, um muro alto alaranjado esconde um sobrado de esquina, com um jardim amplo e bem cuidado. O morador do número 38-205 da rua Del Curato, era Gabriel Garcia Márquez. A construção da casa do escritor – que desde os anos 60 vivia no México –, explica muito da história de Sierva Maria de Todos los Ángeles. “Na época em que escreveu o livro, Gabito passou muitos meses em Cartagena, porque acompanhava as obras em sua casa. Seguramente a restauração do convento o influenciou a escrever a história”, conta Jaime García Márquez, um dos 14 irmãos do escritor e diretor da fundação criada em 1995 por Gabo para fomentar o jornalismo na América Latina, a FNPI.

Quanto à reportagem citada no início do livro, Jaime García faz uma observação enigmática: “É preciso pinçar o que ele escreve”.

A explicação para o comentário surge quando as peças do quebra-cabeça são aproximadas. Elas não se encaixam. O convento de Santa Clara foi o hospital local universitário de Cartagena até a metade dos anos 1970. Abandonado e em ruínas, o prédio foi comprado pela cadeia de hotéis Sofitel em 1987. Gabriel Garcia Márquez pode até ter visitado o local em 1949, mas não acompanhou nenhuma remoção, pelo simples fato de que elas, se de fato existiram, aconteceram quarenta anos depois, na época da restauração.

Os textos de García Márquez em sua época de repórter em Cartagena e Barranquilla foram recompilados, mas não há nenhuma reportagem sobre o convento de Santa Clara. O jornalista colombiano Gustavo Arango, autor do livro “Un ramo de no me olvides: Gabriel García Márquez en El Universal” (inédito no Brasil), buscou e jamais encontrou a reportagem de Gabo no convento.

“O que ele fez no prólogo do livro foi sobrepor eventos. Detrás das imprecisões dos fatos por ele narrados, há verdades muito certeiras. Acredito que a mais importante é apontar essa época como muito importante em sua vida. Suas primeiras experiências como repórter e a influência de Clemente Manuel Zabala no seu início [o nome de Zabala, primeiro chefe e mentor de Gabo, é citado na introdução do livro]”, explica Arango. Segundo o pesquisador, tampouco é de toda verdadeira a afirmação de Gabo de que dia 26 de outubro de 1949 não foi um “dia de grandes notícias” em Cartagena.

“Me dediquei a procurar o que havia acontecido nesse dia, e de fato, na Assembléia Municipal, houve uma violenta briga entre os políticos. Aqueles dias foram intensos em matéria política”, acrescenta.

Arango também teoriza sobre a data citada pelo novelista no prólogo do livro. “Fiz várias conjecturas, talvez descabeladas. Gabo gosta muito do mês de outubro. Em 'Ninguém escreve ao coronel' (1961) ele fala de outubro, das chuvas de outubro. Em muitos outros livros aparecem 'outubros chuvosos'. O 'Outono do Patriarca' (1975) está cheio de outubros. Quanto à data exata, há um dado curioso: em alguns livros antigos fala-se que o momento em que Deus diz: 'faça-se a luz' foi em 26 de outubro. Aproximadamente às nove da manhã.”

Jaime García Márquez também lê o prólogo de "Do Amor e de Outros Demônios" como uma homenagem a Clemente Manuel Zabala. Uma forma que o escritor encontrou de "reconhecer a importância do chefe em seu começo de carreira como jornalista". Para ele, a chave para entender toda a obra do irmão está na autobiografia “Viver para Contar” (2002), mas precisamente na frase fundamental do livro: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda e como recorda para contá-la”. Para Jaime, a mensagem é endereçada aos amigos e familiares e tem como objetivo dizer-lhes: não busquem incoerências ou equívocos em minha biografia, essa foi minha vida porque assim são minhas lembranças. “Com essa frase ele nos venceu”, sorri, resignado, o irmão do Nobel de Literatura 1982.

Mas o próprio irmão, que largou o trabalho como engenheiro para assumir a fundação criada por Gabo, certa vez o indagou sobre uma passagem do livro em que é citado. “Ele diz que eu dividia quarto com dois irmãos mais novos e passava noites pregando aos menores sobre filosofia e matemática. Eu nunca dormi no terceiro andar daquela casa, nunca dividi quarto com os irmãos que ele cita... Eu tinha três anos, como podia falar sobre matemática com alguém?”. A resposta foi simples e irrefutável: “Você não entende nada. Se você tivesse, naquela época, divido quarto com eles e fosse mais velho, com certeza passaria todo o tempo falando de filosofia e matemática”.

Verdades do coração

A anedota contada pelo irmão Jaime faz crer que de certa forma nem o próprio escritor consegue delimitar exatamente onde termina a realidade e onde começa sua criação. “Não há em minhas novelas uma linha que não esteja baseada na realidade”, costumava repetir Gabo. “Acho que ele aplicou em seu trabalho como escritor um pouco da ideia de um de seus mestres, William Faulkner, que fala sobre as verdades do coração. A história pode não ser completamente fiel aos fatos, mas, mesmo quando se inventam detalhes, há um respeito profundo pelas verdades do coração”, analisa Gustavo Arango.

A fronteira nebulosa entre o real e o fantástico existente na obra do Nobel colombiano às vezes chega ao cúmulo de ser o limite entre a história pré e pós-García Márquez. Em alguns momentos, mais do que moldar-la, o escritor consegue, alterar a história. O chamado “massacre dos bananeiros” (1928) quando os funcionários da United Fruit Company resolveram protestar pelas péssimas condições de trabalho e foram violentamente reprimidos pelas forças armadas colombianas é exemplar. Revisto após a publicação de “Cem Anos de Solidão (1967)”, o episódio tem hoje uma importância histórica muito maior do que há algumas décadas. Inclusive o número de mortos na matança que costuma ser o mencionado – os 3 mil que Gabo cita no livro é muito maior do que o estimado por historiadores. Ou seja, depois de 1967 o que foi uma violenta repressão virou um massacre com milhares de mortos.

Jaime Garcia conta que nos anos 1970 recebeu uma bonita carta do irmão que falava do futuro deles e do país e terminando com uma incumbência: levantar dados sobre o massacre, em especial o número de mortos. Depois de meses de pesquisa, mandou a resposta ao irmão: comprovadas, haviam oito mortes, 2.992 menos do que as citadas pelo escritor em sua obra.

A história de Sierva Maria de Todos los Ángeles é outro exemplo dessa capacidade de Gabo de transformar a realidade. A cripta é visitada diariamente, e a reportagem que nunca existiu não raramente é citada como uma das melhores do escritor, não só por seus leitores, mas no meio acadêmico.

“O que ele faz ao mencionar a reportagem que não existiu é usar um expediente para dar verossimilhança à obra, uma coisa comum entre os escritores. Todos sabiamos que não era verdade aquilo, mas hoje há peregrinação para visitar o túmulo”, diverte-se Eric Nepomuceno, escritor e amigo pessoal de Garcia Márquez. Tradutor de alguns livros de Gabo, entre eles “Viver para Contar”, Nepomuceno minimiza a importância de se separar o real da criação na obra de García Márquez: “Quem conhece a América Latina sabe que tudo o que está na obra dele pode ou poderia ter acontecido”.

Em 1982, em seu discurso de recepção do Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez fez questão de falar sobre o tal realismo fantástico. Segundo ele, a realidade desse universo latino-americano é tão rica, que é preciso pedir “muito pouco” à imaginação. "O desafio maior para nós [latino-americanos] tem sido a insuficiência de recursos convencionais para fazer críveis nossa vida. Este é, amigos, o nó da nossa solidão."

Historinhas

Gabo recebeu pedido para mudar o final do livro

Ao finalizar “Do Amor e de Otros Demônios”, Gabo entregou o manuscrito do livro ao irmão Jaime e a cunhada Margarita. Eles já sabiam da história do livro, mas não conheciam o final. Margarita passou a noite lendo o manuscrito e, no dia seguinte, quando encontrou Gabo, lhe fez um comentário e um pedido: havia gostado muito da novela e nem um pouco do final. Tentou convencê-lo de que Sierva Maria não podia morrer. “Argumentou que em todos os seus livros, exceto ‘O Amor nos Tempos do Cólera’ (1985) tinham finais tristes e de que os personagens, desta vez, mereciam ser felizes”, conta Jaime.

Solidário à dor da cunhada, García Márquez tentou convencê-la de que, no contexto da obra, Cayetano Delaura não tinha outro destino do que aquele, permanecer só. Fez Margarita entender que ele, apenas um escritor, não podia mudar o final daquela história, que já estava escrita havia séculos antes de publicada. Só pôde, ao lado da cunhada, lamentar a má sorte que tiveram Sierva Maria e Cayetano Delaura, reféns, não de um escritor e seus desejos, mas de um destino que sabe quem governa com uma força imutável há séculos. E Margatina aceitou os argumentos de Gabo? “Não. De modo algum”, responde, risonho, Jaime García.

Presente

O título do livro escrito por García Márquez em 1994 foi dado de presente a ele pelo cineasta brasileiro Ruy Guerra. Quem conta a história é Eric Nepomuceno. "Em 1991, o Ruy me chamou para escrever um roteiro de um filme com ele, que se chamaria 'Lua Negra'. No meio do trabalho, ele mudou o nome para 'Do Amor e de Outros Demônios', título que para mim não dizia nada. Então veio o Collor, o filme nunca foi rodado, e um dia o Ruy contou essa história para o Gabo. Ele ficou encantado com o título e disse que seria perfeito para uma novela que estava escrevendo. O Ruy, então, deu pra ele de presente esse título."

“Dou de presente para você os direitos. Faça”.

Em 2005, em uma oficina de cinema em Cuba, Gabriel García Márquez conheceu a cineasta costarriquense Hilda Hidalgo. Durante o curso, em uma conversa, ela comentou com o escritor que achava que de todas as suas novelas a que melhor poderia ser adaptada ao cinema era “Do Amor e de Outros Demônios”. Lamentou que ninguém nunca tivesse feito. Gabo então lhe disse: “Dou de presente para você os direitos. Faça”.

Hilda Hidalgo precisou de dois anos para escrever o roteiro e encontrar os atores. A colombiana Elisa Triana, de 13 anos, foi a escolhida para fazer Sierva Maria de Todos Los Ángeles. Cayetano Delaura será o espanhol Pablo Derqui, de 28 anos.


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 Ricardo Viel, jornalista, atualmente mora e trabalha em Lisboa, Portugal.

O que faz sentido?


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Cozinhar e depois comer, cozinhar mais, comer de novo, limpar a sujeira de cozinhar e comer, começar tudo de novo. Aconchegar os bebês bem apertadinhos, recebendo a incomparável energia da vida recém-estreada e ainda bem virgem dos perrengues de crescer. Olhar muito para os filhos, acompanhar o que dizem quando se movimentam, saem, entram, sobem e descem de manhã, à tarde e à noite. Café com leite todos os dias, arroz com feijão de segunda a sábado e macarrão no domingo. Chá de capim santo pra dor no peito.

Espelhar nos outros as misérias e delícias que compõem o mosaico do cotidiano nosso. Encantar-se com as pessoas, com os bichos gatos e cachorros e tartarugas e baleias, com coisas pequenas de todo dia e grandes de de vez em quando, ou o contrário, sabe-se lá. Sentir o quentinho da pele menos ou mais alheia, com vontade de sentir o quentinho da pele menos ou mais alheia, sabendo-a parte da sua própria pele. Lençóis em chamas. O alarido dos passarinhos comemorando a manhã de sol, depois da chuvarada fenomenal de ontem.

Viajar para ver, cheirar, andar, provar, sentir, ouvir e depois voltar. Perder-se pelas ruas de uma cidade a ser desbravada. Contar tudo o que sabe sobre os dias vividos, para não desperdiçá-los. Ver bem os azuis, amarelos, roxos e laranjas da padaria e da frutaria. Transgredir quando o ar for pouco. Conhecer-se o suficiente para andar mais leve por aí. Apreciar a própria companhia. Dividir a vida com alguém, as possibilidades são infinitas. Trabalhar o quanto baste. Usar roupa surrada. Filigranas poéticas aparentemente tolas. Cantar antes, durante e depois do banho. Rir sempre que possível, fora e dentro. Doar-se em vida, repartir-se para que nenhuma parte morra antes da hora.

Árvores que ignoram o calendário. Viajar à China em pensamento. Olho no olho durante a conversa. Vinho tinto, vinho branco, espumante, frisante, vinho sempre, amém. A franga solta, que quem gosta de prisão é doente demais. Armários abertos, baús fechados, cumprir promessa de sigilo, contar sobre nós a estória em que acreditamos. Reinventar o passado.

Ou encontrar um sentido tão bom quanto simplesmente viver.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O arrivista

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 2)


por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Em 1964 - depois de um passado político e tanto, alcunhado de "o corvo" pelos getulistas, ferrenho anticomunista, apesar de na juventude ter sido um deles - Carlos Lacerda era o governador da Guanabara (leia-se da cidade do Rio de Janeiro, ex-Distrito Federal, status usurpado pela novíssima Brasília de JK). Aliás entre seus vários desafetos - e foram muitos - estava o ex-presidente da República Juscelino Kubitschek, que ensaiava sua volta na futura eleição de outubro de 1965. Ser presidente da República também era o sonho dourado do governador da Guanabara. Só que pelo gosto da opinião pública tudo indicava que Juscelino levaria a melhor.

Carlos era um golpista. Estava na alma dele. Sempre pensando no bem do Brasil, dizia. Assim, ele foi um fanático propagandista do Golpe Militar. Deposto João Goulart, o marechal Castello Branco se sentou no trono do poder. O governador teceu mil e uma loas aos fardados. Confabulava com o Castello. Visitava o Costa e Silva, então ministro da Guerra. Lacerda queria sangue! Dizia que era preciso limpar o país dos contrarrevolucionários. Quando JK teve seus direitos políticos cassados, em público Carlos Lacerda silenciou. Mas nos bastidores, exultou a aniquilação de seu adversário direito. Pelos seus cálculos, não sobraria para mais ninguém. A presidência da República estava no papo. Desde, é claro, que houvesse as urnas!

Lacerda desenvolveu uma política de amor e ódio com Castello. Mordia sempre que percebia uma inclinação militar pela ditadura total. Assoprava quando o marechal garantia que seu governo era nuvem passageira e haveria o escrutínio em 1965. Os militares bobos não eram e passaram a sacar o jogo do governador. O resto da história a gente conhece. Não tiveram eleições para presidente coisa nenhuma. Depois de Castello, vieram os generais Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. Todos amantes da ditadura, todos beijando a mão do autoritarismo e promovendo a violência contra adversários. Lacerda ainda surpreenderia tentando uma aliança estratégica com Juscelino e Goulart, mas era tarde demais. Finalmente teve seus direitos políticos surripiados com o AI-5, em dezembro de 1968. A partir daí, sua verve e estrela foram se apagando. Morreu nove anos depois. Mas, façamos justiça, Carlinhos, a exemplo de seu mais feroz inimigo Getúlio Vargas, também saiu da vida para entrar na história.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Discoteca de músico: Tim Bernardes da banda O Terno

por Marcos Grinspum Ferraz  Ilustração de Victor Zalma*

Antes mesmo de conhecer o Tim, eu já tinha ouvido falar – por meio de alguns amigos – de um tal “moleque” que, com menos de 20 anos, era um baita músico talentoso, tocava muita guitarra e compunha belas músicas. De fato, Martim Bernardes, agora aos 22, tem todas essas qualidades, e isso ficou evidente para mim quando o vi pela primeira vez, em 2012, num show da banda O Terno – da qual ele é membro ao lado de Victor Chaves e Guilherme d’Almeida.

Tim Bernardes na foto de Sérgio Galvão
Foi justamente naquele ano que o power trio de rock’n’roll brasileiro lançou seu primeiro disco, “66”, e começou a fazer shows pelo País. Depois de gravar com Tom Zé em 2013, eles preparam para este ano o segundo álbum da banda, que deve ser lançado em agosto. Ainda bastante jovens, mas mais maduros, certamente vão colocar coisa boa no mundo...

Pois bem. É com Tim Bernardes como entrevistado que estreio aqui no Nota de Rodapé a série “Discoteca de Músico”, que a cada mês trará um artista respondendo às mesmas cinco questões, sobre discos e videoclipes que marcaram seus caminhos na música e na vida. Discos e vídeos antigos ou atuais, vale ressaltar, já que parto aqui da constatação de que música boa não para nunca de ser produzida.

A ideia da série é ter, no fim do processo, uma espécie de discoteca/videoteca virtual feita pelos músicos – de variadas idades e adeptos de diferentes estilos –, voltada para o público que quer conhecer mais os artistas ou mesmo que busca sugestões do que ver e ouvir. Sejam benvindos!

Um disco brasileiro que marcou sua formação musical

Difícil ser só um, hein... Por mais que que eu possa escolher qualquer um da discografia dos Mutantes, vou na verdade escolher o segundo disco do Cassiano. "Apresentamos Nosso Cassiano", de 1973. Desde que eu era muito pequeno esse disco morou no rádio do carro lá em casa e foi dos poucos que eu nunca cansei de ouvir. Pelo contrário, só fui achando ele mais foda a cada uma das milhões de vezes que eu ouvi. Os sons de bateria são insuperáveis, as orquestras, os hammonds, as guitarrinhas toscas (na verdade nada toscas), soa tudo muito bem. As músicas são incríveis, esquisitas, ele canta esganiçado e é lindo ao mesmo tempo... Demais!

Um disco gringo que marcou sua formação musical

O “Pet Sounds”, do Beach Boys, de 1966, é outro que eu conheci quando era criança e fui redescobrindo em várias fases da minha vida. Teve épocas que eu ficava de cara com os vocais, outras que eu pirava na sonoridade, os reverbs, os arranjos, a massaroca fina que é a instrumentação desse disco... Já pirei nas harmonias, em como são mega simples e mega sofisticadas ao mesmo tempo, cheio daquelas inversões lindas que vão se encadeando com uma puta classe. Isso sem falar nas composições. Pra mim, o Brian Wilson não tinha nem que ter grilado no “Sgt. Peppers” dos Beatles porque o “Pet Sounds” ganha de todo mundo.

Um disco lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Teve vários também, especificamente o “Helplessness Blues” dos Fleet Foxes pra mim é uma obra prima. Impressionante o capricho em cada aspecto do disco. Desde cada canção em si como nos jeitos que elas se agrupam no disco. Os arranjos e o som do disco são chocantes, muito fino, muito lindo. Vai além da canção folk, parece um filme foda.

Um videoclipe que marcou sua formação

“Your Life Is A Lie”, do MGMT. Esse clipe é muito doido, uma metralhadora de cenas incríveis meio nonsense, meio engraçado, com uma estética impecável à la Wes Anderson.



Um videoclipe lançado nos últimos anos (nesta década) que te marcou profundamente

Acho que os clipes que mais me marcaram são a maioria de 2010 pra cá. A produção independente de clipes chegou a uma qualidade incrível, então as ideias doidas estão virando clipes fodas sem precisar de gravadora, muita grana, ou um equipamento hollywoodiano. Um cara que eu sou fã dos clipes recentemente é o Tyler, The Creator. O clipe da música "IFHY" é sinistro.



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Marcos Grinspum Ferraz, jornalista e saxofonista da banda Trupe Chá de Boldo mantém a coluna mensal Verbo Sonoro, sobre cultura, música e afins. llustração de Victor Zalma, especial para a série

terça-feira, 15 de abril de 2014

Vão do Masp: a arquitetura cidadã das manifestações


A arquiteta Lina Bo Bardi, cujo centenário se comemora neste ano, talvez não imaginasse que o vão livre do MASP se tornasse, além de palco cultural, o principal ponto de chegada e saída para as manifestações sócio-políticas da cidade de São Paulo

por Milena Buarque*

O “5º Ato Se não tiver saúde, não vai ter Copa”, que acontece hoje em São Paulo, espera reunir 5,3 mil pessoas. “Desde janeiro de 2014 diversas pessoas, coletivos e movimentos sociais indignados têm ido às ruas com a palavra de ordem ‘Se não tiver direitos, não vai ter Copa’. Em fevereiro e março os protestos exigiram o investimento de nossos impostos na educação e no transporte público. Em abril é a vez da saúde. Nossa manifestação sairá do MASP no dia 15 de abril, às 18h”, avisam na página do evento no Facebook. No começo do mês, outro protesto, nesse caso organizado pelo Sitraemfa, sindicato que representa os trabalhadores da Fundação Casa, reuniu cerca de mil pessoas, exigiam aumento salarial e contratação de mais funcionários.

Um elemento comum entre a manifestação a se realizar hoje e do Sitraemfa é o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o MASP, apontado, segundo pesquisa da São Paulo Turismo (SPTuris), como o principal ponto turístico da cidade. Dali partem ou terminam grande parte das manifestações da cidade.

Nas chamadas “jornadas de junho” de 2013, por exemplo, não foi o prédio sustentado por quatro colunas que ganhou destaque, mas, sim, o vão livre de 74 metros desenhado pela arquiteta Lina Bo Bardi (1914 – 1992). Ponto de encontro na avenida Paulista, o enorme vão é algo que impressiona aos primeiros olhares. A história conta que quando o poeta norte-americano John Cage veio à cidade, mandou parar o carro na frente do museu e, andando pelo belvedere, exclamou: “É a arquitetura da liberdade!”. Para o estudante de jornalismo do Mackenzie Diego Felix, que esteve em quatro atos de junho de 2013, o fácil acesso ao MASP é um ponto importante para a escolha do local. “É conhecido e fica na [avenida] Paulista, onde há concentração de todo tipo de gente, sobretudo da classe média.” Felix, que está fazendo seu trabalho de conclusão de curso sobre temas ligados às manifestações, como movimentos sociais, cobertura da mídia e redes sociais, acredita que a localização também é fator de segurança.

O elemento surpresa

Arquitetura propícia não é sinal necessariamente de cultura política. O elemento das manifestações foi a violência policial. Embora a presença das policias sob a alegação de preservar a “ordem pública” fosse esperada, o cientista político Marco Aurélio Nogueira diz que a PM não sabe lidar com manifestações. “No Brasil, a polícia não foi treinada para enfrentar protestos. Policiar manifestações políticas. Ela tem um componente militarizado. Enfrenta o conflito das ruas como se estivesse enfrentando uma guerra. E isso, em vez de pacificar, bota fogo na fogueira.”

Diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Unesp, Nogueira lançou no fim de 2013 o livro “As Ruas e A Democracia”, conjunto de ensaios com reflexões e possíveis resultados das revoltas que tomaram as ruas do País. “O diferencial para mim está na cultura política das pessoas que protestam. [Cultura política] é o modo como as pessoas entendem o protesto. Em alguns países, o protesto é muito mais estruturado na vida cotidiana do que no Brasil”, diz, fazendo referência à Espanha, que, em sua opinião, tem uma maneira de viver os protestos mais aliada ao cotidiano.

As várias definições do termo “cultura política” não apontam apenas para as noções de atitudes e regras de determinada população. Sentimentos e percepções evidenciam a cultura da sociedade. Segundo Nogueira, “rapidamente, se escutaram palavras de ordem protestando contra tudo e contra todos. Mas o recado mais claro foi dado aos poderes Executivo, Legislativo e organizações sociais: ‘não nos representam’ virou termo comum repetido nas ruas”.

O convidado especial

Para o estudante de arquitetura e professor do Laboratório de Ideias (LABi) Mario Gallão, o MASP não foi pensado para ser um espaço de manifestações. “Mas essa era uma das possibilidades. Acho que ela [Lina Bo Bardi] ficaria feliz de ter visto essas manifestações democráticas no espaço que ela projetou, sendo a lutadora e defensora do povo que foi”

Lina, que faleceu em 1992, vítima de embolia pulmonar, continua marcando presença nos atos. O museu, inaugurado em 1968, contou com a presença da rainha Elizabeth II da Inglaterra. No entanto, a morada do MASP, em 1947, ano de sua fundação, se localizava no prédio de quatro andares dos Diários Associados, do jornalista Assis Chateaubriand, um dos idealizadores do museu. Lá, não havia vão livre.

Segundo Gallão, que não esteve presente nos protestos, Lina sempre teve uma preocupação especial com as pessoas que usam as suas obras. “O espaço do térreo do MASP servia a dois propósitos. O primeiro de ousar com aquele que era, até então, o maior vão livre do mundo no país que, naquele momento, tinha uma arquitetura de vanguarda. O segundo era o de abrir a visão para o público, criando um espaço de convivência com uma grande vista ininterrupta”, conta.

Como acontece no SESC Pompeia, também projeto da arquiteta, a ideia era a de que as pessoas usassem o espaço para tudo que elas achassem válido como atividade. Nas várias imagens dos estudos preliminares do MASP, o vão é destaque. “Esculturas praticáveis do Belvedere”, de 1968, mostra brinquedos, como carrossel, escorregadores vermelhos e cata-ventos. Além de crianças e adultos.

Com o uso sendo definido por quem de fato utiliza, o vão livre do MASP, no papel da participação cidadã, continuará a ser o convidado (e cenário) imprescindível em 2014.

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Milena Buarque, estudante do último ano de jornalismo no Mackenzie, integrante do Projeto Repórter do Futuro, onde foi confeccionado este texto publicado pelo Nota de Rodapé

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O preço da admiração

por Cidinha da Silva*

A moça posta vídeo de um grupo de cantores gospel no mural da escritora. Esta, xinga o Facebook, pois, rebelde, o sistema não atende sua solicitação de barrar todas as postagens que não sejam feitas por ela. Ele permite que alguns burlem a ordem expressa, foi o caso da leitora.

A escritora, pela milionésima vez, apaga a mensagem e envia à intrusa o texto de sempre: “por gentileza, se desejar submeter algo à minha apreciação, envie como mensagem privada e eu decido se quero ou não postar, e quando o farei.” A mensagem é a mesma e as respostas variam pouco: um pedido de desculpas, uma justificativa de que o responsável pela traquinagem foi o filho ou outra criança da casa, ou usa-se a senha permissiva de que “pensou que não tivesse importância”, ou ainda, a escritora iria gostar.

É um bla-bla-blá chato para justificar o injustificável: o perfil de uma pessoa nas redes sociais só é público se o dono ou administrador o abre para a participação do público, se convida as pessoas a postarem, se elas são bem-vindas ao fazê-lo, principalmente quando se trata da divulgação dos insuportáveis eventos de gente adicionada ao perfil. Se o que se quer é mesmo compartilhar (palavra bonita de sentido esvaziado na Web), há mecanismos outros, além da postagem invasiva.

Não constitui invasão quando gente amiga posta uma coisa ou outra no mural de amigos, gente íntima o suficiente para saber o quanto as suas próprias coisas são também coisas da dona do perfil, portanto, bem-vindas.

Mas a moça era insistente e resolveu precificar sua admiração na resposta à autora, disse o seguinte: “engraçado você dizer que não posta coisas do mundo gospel... eu que te admirava tanto pela sua visão de mundo... sei que temos religiões diferentes, mas se for música boa, gospel ou não, pensei que você fosse reconhecer... mas, tudo bem, querida, isso é não ter preconceito...”

O mural da escritora, ao contrário do que a leitora pensa, não está aberto às manifestações artístico-musicais, políticas, etc, que pessoas adicionadas julgam boas. O juízo de valor vigente ali é o da dona do perfil. Também ela não faz apologia religiosa, faz, sim, exposição reiterada, poética e contextualizada de valores civilizatórios de matrizes africanas, muitos deles, representados pelos Orixás e pelos N’Kices.

A escritora é completamente impaciente com a hipocrisia do “sex shop não pode, mas sex shop gospel, pode”; não pode dizer “nossa senhora”, mas “nossa senhora gospel”, pode. Não pode dançar na boquinha da garrafa, nem pode dançar funk, do mais leve ao pancadão, mas pode “bater na portinha do senhor que ele abre, abre, abre”, como diz o sertanejo universitário gospel, ou seria um funk gospel? Existe nesta cultura um projeto de dominação mercadológica e de lobotomia dos consumidores que não interessa à escritora.

Na supermodernidade cotidiana os sentimentos têm preço: “olha, eu te admirava viu? Mas se você não atender aos meus reclames, se não suprir minhas carências, se não disser o que quero ouvir, fico de mal, não admiro mais.” O que fazer? Ossos do ofídio! A escritora vem de um tempo em que se a pessoa quiser gostar, gosta, se quiser admirar, admira, e a pessoa gostada e admirada não é refém disso. Um tempo em que artista era artista, celebridade era celebridade, água e óleo que não se misturavam.

Nos tempos supermodernos aplicam-se os pressupostos celebrativos a qualquer pessoa que tenha o mínimo de visibilidade e ela é esvaziada da condição humana para transformar-se em alguém que atende às vontades do público soberano. A escritora acha que isso é loucura, e ela ainda não enlouqueceu.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Nós e eles


por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Fazia tempo que não me aparecia uma notícia dessas. Encontraram, na Malásia, um menino adotado por uma família de orangotangos. Pela foto divulgada, é lourinho, tem uns cinco anos e aparência saudável. Segundo as reportagens, ao cabo de um árduo trabalho de vários dias – durante os quais a família tentou bravamente evitar que ele fosse levado, mas acabou impedida de reagir, sob o efeito de tranquilizantes injetados por dardos – o garoto foi “resgatado”. Agora começa um processo, provavelmente complexo e demorado, de levantamento da identidade civil e da origem do menino. E para ele, desconfio, uma tristeza infinita, um destino de dor e desajuste irremediáveis.

Se havia outra solução, suspeito que sim. Qual seria ela, não tenho ideia. Mas que essa história me fez pensar, ah isso fez! A partir desses caso, encontrei outros relatos semelhantes na internet, com um traço comum. As crianças que passam por esta experiência nunca chegam a ser humanos “normais”. Partes do processo de aprendizado e aculturação ficam perdidas de forma definitiva, fazendo delas pessoas “incompletas”. Por que, então, ainda se toma a decisão, arbitrária e autoritária, de retirá-las abruptamente da vida selvagem?

Por mais explicações especializadas que se possam dar, a mim me parece que a principal motivação vem do nosso convencimento de que somos superiores aos outros animais e de que um ser humano não merece viver daquela forma. Mas se é a única vida que faz sentido para aquela pessoa, quem tem o direito de interferir? São questões complexas, longe de mim pretender dar respostas.

Aqui no meu canto, penso que, a partir do momento em que, lá nas cavernas, percebemos nossa capacidade de raciocínio e como ela poderia nos proteger contra predadores com muito mais eficácia que a força física, tomamos a decisão de nos distanciar dos outros ao máximo. Esta distância só fez crescer, com o passar dos milênios, ao ponto em que hoje os bichos próximos são aqueles que trouxemos junto, que foram por nós transformados. Os outros são todos “selvagens”.

Não tenho uma relação muito próxima com bichos, mas meus miolos estão mais amolecidos porque recentemente assisti os três episódios disponíveis da série “Cosmos”, em nova produção. Ciência traduzida para uma língua que todos entendemos. Fascinante, eletrizante como deveria ser o ensino científico nas escolas. No famoso calendário anual bolado por Carl Sagan como uma espécie de linha do tempo do universo conhecido, através do qual se faz uma comparação do tempo estimado de existência deste com um ano terrestre, é possível perceber a relevância do nosso planeta, da vida como a conhecemos e da história humana. Uma lasca de unha.

A origem comum a todas as espécies vivas, o parentesco íntimo entre todas as formas de vida, que tanto nos incomodam e temos feito de tudo para ignorar, aparecem ali claros como água mineral. Não, não podemos aceitar que um de nós se junte aos macacos e viva como um deles. É humilhante e nos faz lembrar de onde viemos. Na verdade, acho que ainda não entendemos nada, pois estamos nos minutos iniciais da nossa história.

Se conseguirmos sobreviver como espécie aos descalabros que temos provocado no planeta e em nós mesmos – e eu acredito que conseguiremos – talvez daqui a alguns séculos, ou mesmo milênios, tenhamos logrado perceber em larga escala nossas conexões profundas com todas as manifestações da vida e estabelecer formas de convivência mais inteligentes. Por enquanto, a imensa maioria de nós não percebe. E separamos drasticamente crianças de suas famílias orangotangas.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Grande décio

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar.Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 2)


por Fernanda Pompeu    ilustração Fernando Carvall

Ele viveu uma infância e adolescência danadas. Fazia o que dava para engolir as chacotas e os dedinhos apontados. Chegou a sonhar em trocar seu problema por outro menos ofensivo às pessoas. Gostaria ter nascido dentuço, ou vesgo, até mesmo manco. O mais intolerável era a solidão que sua condição causava. Eram os anos 1940, muitas famílias escondiam crianças diferentes no quartinho dos fundos. Os pais de Décio até que foram corajosos, botaram ele na escola. Socializar foi torturante para o menino. Ninguém o tratava como um igual. Mas infância e adolescência uma hora acabam.

Décio entrou na vida adulta como um sobrevivente. Um forte. Afastou, como pôde, os preconceitos e as discriminações que entristeciam seu caminho. Fez curso para técnico de som e conseguiu um emprego em uma rádio estatal. Mostrou-se um bom profissional. Fita magnética, durex e gilete ganhavam asas e arte nas mãos dele. Quando se deu por si, havia passado vinte anos no mesmo emprego. Décio não se casou, aliás nunca namorou. Depois da morte dos pais, sua vida social se restringia a domingos na casa da irmã Ivete. Ele também se dava bem com o cunhado, delegado de polícia. Era o início da década de 1970. A ditadura rugia solta no país. Décio dava a mínima para a política. Para ele política e futebol americano eram iguais. Ele não entendia nada e também jogos de bola e poder lhe eram indiferentes.

Mas o cunhado se importava e muito. Um dia perguntou para o Décio se ele conhecia os comunas da rádio estatal. Pois se conhecesse, que tal fazer uma lista com os nomes dos subversivos? "Você não precisa se envolver com nada. Ninguém nunca ficará sabendo. Top secret! É só me passar os nomes", explicou o cunhado. Por algum tempo, Décio se fez de desentendido. Não estava na alma dele ser um dedo duro. Pois lembrava e lembrava da dor provocada por dedinhos apontados para ele. Mas seus domingos se tornaram nublados por uma certa frieza de Ivete e a cara amarrada do delegado. Décio baixou a guarda. Afinal, os comunistas da rádio nem eram seus amigos. "Danem-se!", concluiu durante uma noite insone.

Aos pouquinhos dedurou um produtor de programa, um músico, uma moça do departamento pessoal. E foi gostando da coisa. Sentia a adrenalina subir ao pesquisar, se certificar e canetar o nome na lista. Passou a curtir a carícia sensual do poder. O último que Décio entregou foi um foca de jornalismo. Ele experimentou um prazer particular nessa delação, pois o comunazinho media quase dois metros. Ele odiava homens altos. Décio, agora alcaguete, nascera anão.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Entristecida Moda


por Maria Shirts*

Foi uma temporada meio maluca. Fogosa, eu diria. Estou falando da 37ª edição do São Paulo Fashion Week, ou “semana de moda” para os mais despretensiosos, que aconteceu entre os dias 31 de maio e 4 de abril.

Quem me conhece sabe que, de vez em quando, ajudo na cobertura jornalística desse evento para um site de moda. A princípio, acham incondizente com a minha pessoa. Mas eu já dismistifiquei essa e algumas outras premissas sobre o SPFW aqui.

É uma experiência e tanto. Entro em todos os camarins, de todos os desfiles, entrevisto vários profissionais, pergunto a respeito de tendências, questiono o uso de certos produtos...

Essa foi a minha quarta experiência. Costuma sempre ser agradável, divertido e também muito cansativo. Trabalho com jornalistas muito competentes, inteligentes e amigos. Independente disso, me reparei um pouco menos excitada, nessa temporada, com as ebulições deste “mundo fashion”. Tive uma percepção diferente, mais cética, talvez.

Aconteceu no terceiro dia, acho. Estava esperando para entrar no backstage de algum desfile para conversar com o maquiador responsável quando aconteceu o famigerado “cruzamento”. Calma, é menos animalesco do que parece (ou não): as modelos saem do camarim do desfile anterior para adentrar ao próximo. Parece simples, mas é um momento tenso porque elas têm pouquíssimo tempo para serem preparadas, já que tudo gera atrasos. Nessa temporada, então, que programaram 8 desfiles para o mesmo dia, por exemplo, foi mais confuso ainda.

Enquanto eu esperava, notei um homem de uns 30 anos na porta do camarim, um tanto quanto alucinado, berrando: “Cade a Tamara??? E a Luana??? Cade essas meninas???”. Não bastasse, o vi puxando uma das modelos pelo braço com tanta agressividade que pensei que fosse quebrar seu pulso frágil. Então me dei conta de que nunca havia notado essa personagem no evento: o booker.

Em suma, é ele quem cuida da agenda das modelos, que faz o meio de campo entre os contratantes e contratadas. Já havia ouvido falar, através de uma amiga que foi modelo, que eles podem ser muito sádicos. Não são todos, é claro. Não se pode generalizar, mas há muitos desses profissionais que parecem projetar alguma frustração nas meninas das quais “tomam conta”; são impacientes, hostis; exigem que elas emagreçam quando não precisam, mandam pintar o cabelo desnecessariamente, depilar sei lá aonde e já ouvi até em pedirem para raspar o osso do quadril, “porque é muito largo!”. Enfim, não parecem entender de que estão lidando com pessoas e não com um cabide.

Depois que eu presenciei essa cena fiquei bem entristecida. Percebi vários sofrimentos intrínsecos e pouco relatados. Para fechar com chave de ouro, a sala de imprensa do evento pegou fogo no último dia, deixando um bocado de pessoas assustadas, mas nenhum ferido. Mas essa já é outra história….

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 Maria Shirts, internacionalista e pedestrianista, mantém a coluna Transeunte Urbana.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Ser jornalista é massa sim, pessoal

por Luiza Bodenmüller*

Um monte de gente comemorando o dia do jornalista (ontem, 7 de abril), que é meu também.

Jornalista é como gremlin: você conhece um e vai conhecendo outro, outro, outro... e quando percebe, boa parte dos seus melhores amigos e seus vínculos mais profundos, são do mesmo círculo. Esse povo que insiste em querer saber de (quase) tudo; em maior ou menor grau, "mulheres de malandro", que passam a semana reclamando das agruras da profissão e, lá pelas tantas, pelas linhas de um texto qualquer, fala sozinho "que puta texto" e se empolga de novo e de novo e esquece de toda a birra, toda a decepção.

Ser jornalista é massa sim, pessoal. Acho que são poucas as profissões que permitem o contato com tanto assunto, tantas histórias, tanta gente: jornalista entende (temporariamente) de mecânica de aviões num dia e dos efeitos do princípio ativo da maconha no outro. Entende ou finge que entende. Se interessa ou finge que se interessa. Porque, convenhamos, nem tudo são flores.

Então, colegas, pergunto: tá todo mundo ganhando bem? (Não "o que merece", mas o que é justo). Tá todo mundo sendo respeitado no local de trabalho? (Não tô falando de bajulação, tô falando de respeito mesmo, o bom e velho). Tá todo mundo indo pras manifestações com equipamento de proteção? (Não tô falando de máscara cirúrgica, tô falando do mínimo de condição de trabalho em situação de risco). Tá todo mundo apurando direitinho? (Não tô falando do nome do entrevistado soletrado corretamente, tô falando de precisão na informação, de cuidado, de responsabilidade). Tá todo mundo trabalhando com aquilo que gosta dentro do jornalismo? (Não tô falando de escolha, tô falando de acomodação, do "não posso ir além, então tá bom"). Tá todo mundo tendo folga, tempo livre e férias? (Não tô falando daquela cerveja acidental numa segunda-feira, tô falando de descanso, de contato humano, de aconchego, de gastar o tempo do jeito que você quiser, sem o celular vibrar com algo pretensamente urgente). Tá todo mundo saudável? (Não tô falando daquele almoço-salada porque o tempo não deixa comer mais que isso, tô falando de colesterol, horas de sono, check-ups, estômago sem gastrite por causa de estresse-café-cerveja).

Ser jornalista é massa sim, pessoal. Mas deixemos, só por hoje, os eufemismos de lado: não somos super-heróis (ainda que muitos cultivem essa pretensão), somos peões.

Muita gente diz que jornalismo é cachaça. Concordo. E o meu desejo pra hoje é que ninguém se entregue de cabeça ao vício.

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Luiza Bodenmüller, jornalista, editora online da Pública - Agência de Jornalismo Investigativo
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