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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Retrato do Brasil pós-racial


por Cidinha da Silva*

Estranho país era aquele! Havia um rei eleito pelo esporte mais popular do reino que não defendia seu povo. Ao contrário, quando um membro do povo era atacado, estranhamente, ele argumentava com olhos marejados, que ataques deveriam ser ignorados. Falar dos problemas e exigir justiça não traria nada de bom, apenas amplificaria os problemas e os tornaria mais insuportáveis. Bom mesmo era silenciar e seguir como burro de cabeça baixa e olhos vendados.

Naquele país, técnico de futebol chamava a não-aceitação do racismo institucional nas arquibancadas dos jogos de “esparrela” e "armação" do jogador agredido. Denunciante virava algoz e era perseguido pela imprensa. Denunciada tornava-se celebridade com direito a participação em programas de auditório com cabelo repaginado, acolhimento dos profissionais do entretenimento televisivo e bastante tempo para explicar e justificar seu crime, além de conquistar simpatia e cumplicidade do público ávido para inocentá-la e para deixar as coisas como sempre foram. Estudava-se um convite para que a jovem denunciada por atos racistas colaborasse no roteiro de novos episódios da série televisiva “As negras como as vemos.”

Naquelas terras de pretos, durante o passado escravista, uns poucos brancos protegiam os negros rebelados, algumas vezes por compromisso com o humano, noutras por interesses econômicos. Agora os tempos eram outros. Os negros herdeiros dos negreiros, posicionados em universidades e outros lugares sociais de destaque miravam os fatos midiáticos com o objetivo de projetar seus negócios, de enraizá-los no seio da elite, de fazer reverberar a marca da comercialização do ensino em corações e mentes.

Assim, na contramão da história escrita pelos vencidos, os herdeiros do imaginário negreiro aliavam-se aos herdeiros dos vencedores do passado, cuidando da retaguarda enquanto os generais se recompunham e se armavam. Triste país, aquele.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum. Ilustração: Djanira da Mota e Silva, sem título, 1959. Óleo/tela. Foto: Pedro Oswaldo Cruz

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Lágrimas de homem abalam o machismo no futebol. E o racismo? Voa impávido em céu de brigadeiro

por Cidinha da Silva*

As lágrimas dos jogadores brasileiros pressionados pelo terror de serem eliminados da Copa das Copas ainda nas oitavas de final incomodaram muita gente. A fragilidade dos homens, quando exposta de formas convencionadas como algo característico das mulheres, neste caso, o choro copioso em situação de tensão e desespero, mexe com as estruturas enrijecidas de muita gente. Para o bem e para o mal.

Há os que se sentem incomodados porque, em síntese, acreditam que homens são machos e não devem chorar, dentre outros motivos, porque o choro denota fraqueza e os jogadores (de futebol) estão em campo como soldados para guerrear. Outros (bem poucos) defendem o choro como expressão válida de sentimentos, como válvula de escape legítima ao alcance dos canais lacrimais de todo ser humano, inclusive dos homens, humanos também. Afinal, ninguém quer passar à História com as marcas da derrota e do fracasso.

A mídia esportiva, os atletas e o espírito de novo-rico da maioria, amadurecerão muito se mergulharem profundamente na potencialidade curativa do choro. Lágrima é palavra abafada que escapa quando a maré dos olhos vaza e derrama pela face proteínas, sais minerais e gordura que lubrificam e limpam os olhos, retiram véus, diminuem a acidez e, na situação desses homens-atletas, resgata a humanidade do filme da vida vivida antes de chegar à riqueza e à fama, que pesa sobre os ombros.

O choro da Seleção Canarinho balança os pilares do machismo mais evidente, tal qual o canto do pássaro pode tocar os corações mais duros. Entretanto, a dor, a humilhação e a angústia deflagrados nas pessoas-alvo do racismo estão longe de comover os corações daqueles brasileiros que se consideram macacos, transbordantes de orgulho e “amor” nos versos cantados na arquibancada.

O capitão da Colômbia foi vaiado ostensivamente depois de ler discurso da FIFA instando todos os fãs de futebol a combaterem a discriminação racial nos campos e fora deles. Em meio aos emissores da vaia não há número significativo de negros e quando a elite branca predominante no estádio é adjetivada, a elite branca de fora (da mídia hegemônica, da indústria das celebridades e do entretenimento, das rodas intelectuais, dos blogues descolados) sente-se incomodada e vai a campo em defesa própria. Não, não somos racistas! Racismo é coisa dos Estados Unidos que os colonizados negros brasileiros querem importar. Quanto às crianças brancas que entram de mãos dadas aos jogadores em todos os jogos da Copa das Copas, é lógico que não temos culpa de serem todas brancas. Aliás, não vemos problema nisso, como não existe problema também de serem brancos os torcedores que enchem os estádios desde a Copa das Confederações.

Por outro lado, a crescente presença de jogadores negros nas seleções da França, Bélgica e Holanda, fortalece a velha máxima de que “o negro é bom de bola” e por isso está quase superando os brancos em seleções tradicionais europeias. Do lado de cá, atentamos para os nomes e sobrenomes desses jogadores, nascidos nas colônias em África e Caribe ou filhos de migrantes africanos e caribenhos e, por contingência, devido a essa contingência gerados nos países brancos. Pobres, majoritariamente, que, como os outros negros diaspóricos e africanos têm no futebol, ao qual dedicam a vida desde crianças, rara possibilidade de ascensão social. Assim se manifesta e se perpetua a versão mais palatável do racismo.

A versão mais dura, tão cotidiana quanto a primeira, manifestou-se após a agressão de Juan Camilo Zúñiga, lateral-direito da Colômbia, ao brasileiro Neymar, levando-o a fraturar uma vértebra. Atitude totalmente condenável e passível de grave punição por prática antidesportiva, num jogo em que o Brasil também bateu muito e o árbitro foi conivente com as agressões que correram a solto pelos dois lados. Em sua defesa, Zúñiga argumentou que o lance infeliz não passou de uma jogada normal e sem intencionalidade de machucar. Sim, “normal” no escopo da violência reinante no jogo, mas não na prática do futebol.

A crítica, a ira e a revolta dos torcedores tupiniquins foram deslocadas da violência praticada por Zúñiga para sua condição de homem negro. Insultos racistas e ameaças de morte foram dirigidos a ele e à mãe nas redes sociais. Xingamentos de ordem sexual foram impingidos à mãe e à filha de dois ou três anos, ameaçada também de estupro. Um show de horror racista, feminicida e pedófilo.

De todo o episódio salvam-se as atitudes exemplares de David Luíz. Alguém disse que ele é bom atleta e bom samaritano. É verdade. Ele está na contramão do evangelho do marketing pessoal. Pratica valores como a humildade, a integridade, o respeito, a compaixão, do modo ensinado pela tradição africana, a pedagogia do exemplo. Em um contexto de negação de aproximações com África, David Luíz reafirma a origem da cabeleira crespa de um homem socialmente branco. Em entrevista à TV colombiana, junto com James Rodriguez, adversário derrotado e amparado por ele, o menino dos cachinhos crespos de ouro, em bom portunhol, explicou que a garotada tem como modelo o cabelo dos jogadores famosos, mas isso não deve bastar aos musos que, por sua vez, devem também procurar se mostrar como homens grandiosos para inspirar os garotos pelos bons exemplos e firmeza de caráter.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Unidade latino-americana sem negros não serve


por Cidinha da Silva*

Por que você me chutou? Pergunta Evra, lateral do Manchester United. Porque você é negro! Responde Luís Suarez, jogador do time adversário, o Liverpool, em partida do campeonato inglês, logo depois da Copa de 2010. A conversa prossegue ríspida e Evra ameaça agredir Suárez, caso ele continue chamando-o de negro. Suárez conclui irônico: eu não falo com negros!

A atitude racista do jogador uruguaio está detalhadamente registrada em 115 páginas de processo da Federação Inglesa de Futebol, nas quais ele alegou que chamou Evra de negro de maneira amigável e conciliatória. Como não se tratava de contexto latino-americano onde o racismo é tolerado e relativizado, onde a palavra racismo é eliminada do discurso, ao tempo em que se fortalecem e reinventam as práticas racistas, não colou. Suárez foi banido do futebol por oito jogos, multado em 40 mil euros, proibido de pronunciar a palavra negro no futuro.

Perdoem-me Mujica, Beatriz Ramirez, Elizabeth Soares, Romero Rodrigues, Mizangas, Mundo Afro, mas não há ufanismo latino-americano que desvie meu olhar de um jogador racista, mesmo que a imprensa queira imputar-lhe contornos épicos como artilheiro da brava Seleção Uruguaia. Aliás, como sabemos todos, a decantada unidade latino-americana pouco ou nada inclui os negros, seja nas obras dos grandes pensadores de América Latina, seja na atuação de ativistas políticos sensíveis ao genocídio indígena nas Américas, mas blindados quanto ao genocídio negro, de ontem e de hoje.

Luís Suarez é um racista desprezível, não posso vê-lo de outra forma. Por isso, entre e a Itália racista e o Uruguai de Suárez, sou Barwuah, o filho de migrantes ganenses que se fez Balotelli na terra de Mussolini.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Dilma e Joaquim: uma mulher e um homem negro no poder


por Cidinha da Silva*

Dilma é mulher e por isso, mesmo na condição de chefe de estado, foi alvo de xingamentos de ordem sexual durante a abertura da Copa do Mundo no Brasil, oriundos da ala VIP, onde se empoleiram os endinheirados beneficiados por ingressos gratuitos, simplesmente porque sua presença enobrece os eventos.

Passados os xingamentos orquestrados pela elite econômica e cultural branca presente ao estádio, a Presidenta foi defendida por mulheres (nenhuma surpresa) e parcos homens que o fizeram mais por respeito a uma senhora (símbolo da mãe, da mulher de família), do que por compreenderem de maneira profunda o teor destrutivo das representações sexistas que estão na base da alastrada e duradoura violência contra a mulher e do feminicídio, recurso vil empregado por aqueles que não atribuem qualquer valor às mulheres e à sua vida, justamente por serem mulheres e por isso, matam-nas ao mínimo sopro contrário à vontade do macho soberano.

Joaquim é um homem negro, dirigente da mais alta corte de justiça do país, achincalhado por uma entidade de classe porque um advogadozinho, membro da entidade, em busca dos holofotes destinados aos factoides políticos, desrespeita o Presidente do STF, ameaça “pegá-lo” na rua, grita dentro do Tribunal, não aquiesce ao chamamento ao equilíbrio, ao respeito às pessoas, às regras de boa conduta e à casa. Joaquim é um homem negro íntegro que reage, faz valer sua autoridade como Presidente do STF, não capitula diante do status quo que tenta acuá-lo na camisa de força de um dito temperamento irascível.

Pedagógico é observar como até a masculinidade de Joaquim é subalternizada por seus detratores, pois, de que outro homem, senão de um homem negro, se esperaria a recepção passiva a um homem (branco) que lhe pusesse o dedo no nariz e o ameaçasse em seu próprio posto de comando? Ademais, soube-se mais tarde, pelo depoimento dos seguranças que interceptaram a ação midiática do advogado, que ele estava visivelmente alcoolizado e que, se estivesse armado, “atiraria na cara do Presidente”. Mas, ainda assim, a entidade de classe conseguiu igualar a reação correta, altiva e preventiva de Joaquim Barbosa a práticas da ditadura civil-militar, porque, aos olhos deles, o homem de masculinidade subalternizada é quem deveria aquiescer diante um sujeito qualquer.

Dilma e Joaquim têm em comum a ocupação de um lugar inusitado de poder e o desconserto generalizado causado pela presença de ambos nesse lugar. A escória elitista não os engole porque são exemplo positivo para a raia miúda, porque as meninas hoje brincam de ser Presidenta, vestem as bonecas como Dilma e as bonecas presidem. Porque Joaquim Barbosa inspira milhões de mulheres e homens negros. Porque ele representa a possibilidade real de que pessoas negras ocupem postos de comando e promovam transformações simbólicas e concretas na vida material e na expectativa de uma vida melhor para os seus.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Racismo às avessas

por Júlio Cruz Neto*

Miséria, carência, deslumbre, sentimento de inferioridade social e racial, deve ter um pouco disso tudo. Mas pedir cadeau (presente, em francês) é sem dúvida uma marca cultural. Não fosse assim, funcionários de hotéis chiques de Dakar não reivindicariam também suas lembrancinhas junto a hóspedes que tomam sol na piscina. Isso vale para hóspedes brancos, queridinhos e tratados a pão de ló. Porque se for negro, talvez nem possa ser hóspede.

Para o jornalista senegalês Khalifa Ndiaye, acompanhar o Rally Paris-Dakar é um teste de paciência mais duro do que para qualquer outro repórter. Mais do que perrengue, saudade de casa ou qualquer outro sintoma tradicional, ele convive com rejeição e preconceito. Basta descer a escada do avião de imprensa para ser abordado por militares (negros) com uma truculência que faz os PMs de São Paulo ou Rio parecerem lordes, e constrangido a explicar o que está fazendo ali e como conseguiu uma credencial.

Com o argumento de que ele a roubou ou encontrou no chão, querem sempre tirá-lo do meio dos brancos e levá-lo sabe-se lá para onde. Os colegas com mais anos de Saara e mais fluência no francês intimam os milicos. Khalifa, acostumado a essa situação corriqueira, pede calma. Está no meio do deserto, longe do Senegal, em lugares onde igualdade de direitos não existe sequer como conceito teórico, quanto mais na prática. Sem levantar o dedo para ninguém, acaba sempre se virando. Depois, dá o troco com o cérebro, escrevendo o artigo “Racismo às Avessas” para o jornal Le Soleil.

Dakar, 17 de janeiro de 1999. Quando a caravana do Granada-Dakar finalmente chega ao fim, Khalifa respira aliviado. Está em sua cidade-natal, protegido, longe dessas pessoas neuróticas e racistas que o tratam com desrespeito, desprezo e violência, negros que agem como os brancos que tomaram de assalto a África e a dignidade de sua gente. Pelo menos é o que pensamos.

Saio do quarto e, enquanto caminho pelo extenso corredor do oitavo andar do hotel até o elevador, encontro o amigo. Ambos com a sensação duplamente boa de missão cumprida e encerrada, de olhar para trás e ver uma cobertura inesquecível e impagável, de olhar para frente e ver uma cama para dormir, um restaurante para comer, o lar para voltar, pessoas queridas para rever.

Descemos de elevador, ele e eu, encontramos outros repórteres que também estão indo acompanhar a premiação e por pouco não damos uma surra bem dada no gerente do hotel, senhor branco e francês que, pensando ser um sinhozinho dos tempos do império colonial, começa a gritar com Khalifa, querendo que deixe o hotel. Mas desta vez ele está em casa e desconta todo o rancor acumulado durante dias de humilhação. Não perde a classe, não agride, mas responde à altura e deixa claro que aquilo não é nenhum navio negreiro. Bizarro!

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(Este é um trecho inédito do livro Caranguejo do Saara, do jornalista Julio Cruz Neto, que cobriu duas vezes o Rally Dakar, quando ainda era disputado na África, e agora resolveu fazer uma crônica sobre os bastidores da competição. Para poder editar e publicar o livro, ele entrou num crowdfunding, uma espécie de “vaquinha” virtual em que as pessoas compram cotas para ajudar o projeto, mas com a vantagem de receber recompensas em troca, como exemplares do livro, itens originais do Dakar autografados por pilotos brasileiros e outras. Apoie você também clicando em http://www.ecodobem.com.br/caranguejodosaara.)

terça-feira, 29 de abril de 2014

Santo deus das bananas olhai por eles!


por Cidinha da Silva*

Olhai pelos tolos seguidores dos idiotas, senhor deus das bananas. Porque eles são ingênuos, não sabem o que fazem. Mas, aos imbecis, portadores de mau caráter, aproveitadores de todos os matizes, racistas quatrocentões e também os de primeira geração, aplicai a dureza da lei.

Racismo é crime. Sem açúcar e sem afeto, ao contrário do que pensam os adoradores da banana. É preciso investigar e punir para coibir manifestações futuras. Assim fez o Villarreal, time responsável pela torcida que atirou a campo uma banana, devorada pelo jogador Daniel Alves. O clube identificou o torcedor responsável pela atitude racista durante partida entre a equipe e o Barcelona, pelo Campeonato Espanhol, punindo-o com a suspensão do carnê de sócio e o banimento do estádio El Madrigal pelo resto da vida.

O clube não agiu sozinho, partilhou o sucesso da ação com os responsáveis pela segurança no estádio, bem como a torcida, todos imbuídos em identificar o autor da discriminação racial, para impedir, inclusive, uma possível punição desportiva à agremiação. Ou seja, ao investigar, encontrar o racista e puní-lo, o Villarreal apresenta à sociedade espanhola e ao mundo, o compromisso inequívoco de respeito aos direitos humanos, ao direito de trabalhar em condições dignas.

À presença de espírito de Daniel Alves ao comer a banana, ao transgredir e ter uma atitude inusitada diante da clássica discriminação racial que associa pessoas negras a macacos, com o objetivo de desumanizá-las, seguiu-se uma campanha marqueteira de quinta categoria nas redes sociais, evocando o macaco que as teorias evolucionistas guardaram dentro dos seres humanos.

O senhor está perplexo, senhor deus das bananas? Nós estamos, pois, ao cabo, se somos todos macacos, não existem mais racistas.

Merece algumas linhas adicionais, senhor deus das bananas, a atitude de Daniel Alves, sertanejo brioso que não teme a ingestão de veneno. Porque o senhor sabe, aquela banana era tóxica, continha uma quantidade secular de energia radioativa. E Daniel, no ímpeto de reagir (talvez de marquetear) comeu-a inteira. Mesmo um primata não faria isso. Os animais sabem reconhecer as plantas venenosas e o perigo de morte. Só nós, humanos, subvertemos a lógica da natureza e achamos que comendo a banana produziremos anticorpos que destruirão os racistas.

Ensina o manual de faxina étnica, senhor deus das bananas, que, sua eficácia está diretamente relacionada à desumanização do grupo que se quer exterminar e/ou explorar. Os nazistas comparavam os judeus a ratos e baratas. À colonização europeia, por sua vez, a associação de africanos a macacos é intrínseca.

A opressão racial é tão vil e eficiente no Brasil que consegue fazer com que um jovem destacado de sua comunidade de origem, o jogador Neymar, visivelmente, notadamente, escancaradamente afrodescendente (sem a opção do escapismo moreno), nomine-se como macaco, mas não se reconheça preto.

E, se é verdade que "todos somos macacos" (nós - os negros, os "brancos" como Neymar, e os brancos como Luciano Huck), Dani Alves e o companheiro midiático estão absolvidos do estigma do racismo que lhes é tão oneroso (a nós também) porque não é algo humano, porque não é mesmo suportável.

Mas, a diferença entre uns humanos e outros, senhor deus das bananas, é que os primeiros não têm alternativa de sobrevivência, senão, enfrentar o racismo, por isso se afirmam negros, ao tempo em que mandam os macacos-humanos plantar bananeira no asfalto quente para divertir os brancos. Quanto aos racistas, o grupo de primitivos humanóides negros manda-os para a cadeia.

O segundo grupo de humanos negros, aquele composto por pessoas descoladas que se auto-elogiam como macacas, mas não suportam o aniquilamento provocado pelo racismo, a despeito dos cartões de entrada vip para o jogo da vida (fama, dinheiro, prestígio social), optam por enfatizar, como o fez Dani Alves, que brasileiros têm samba no pé e alegria de viver. Por conseguinte, conclui-se, driblam o racismo com irreverência e criatividade.

Seguindo esse raciocínio, são capazes de entortar os adversários (e os pares) ao propor uma campanha contra o racismo tão racista quanto o ato deflagrador. Assim, eles demonstram orgulho por serem macacos, mas negam que sejam pretos. Santa lobotomia, senhor deus das bananas! Triste fim da humanidade!

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Reposta ligeira (rápida e insuficiente) à pergunta de Hermano Vianna


por Cidinha da Silva*

Hermano, meu caro,

É impossível responder à sua pergunta de perplexidade face ao assassinato do jovem negro Douglas Rafael, o DG, um dos 200 negros assassinados a cada 100 mil há pelo menos duas décadas (menção feita por você quase num suspiro), como se todos nós fizéssemos parte de um coletivo harmônico e festeiro que quer o bem do Brasil. E já aviso que não se trata do papo simplista de cidade partida entre morro e asfalto, falamos de negros e brancos, mano Hermano. De racismo de Estado e da polícia em especial. Falamos de genocídio da juventude negra no Brasil! Você já ouviu falar disso?

Outro aviso importante, ninguém aqui é tolo de responsabilizar a “Família Esquenta” por esse estado de coisas, não se trata disso, seria leviano. Mas penso que haja respostas distintas para o que vocês, a “Família”, podem fazer dentro da rede Globo, pela juventude negra e favelada e o que nós, que não vivemos no mundo de faz-de-conta do PROJAC podemos fazer (e fazemos). O que está sendo feito por quem legitima o direito de assassinar negros não é segredo. Deixemos de ser brancos ou color blind e sejamos francos.

O que a sociedade civil organizada tem feito quanto ao genocídio da juventude negra? Tem denunciado o genocídio, há décadas. Tem instado pesquisadores a produzir dados sobre esse tema, também há décadas. É por isso, por essa denúncia, pela escuta às organizações do Movimento Negro (a “Família Esquenta” sabe que existem organizações políticas negras no Brasil?) é que pesquisadoras seríssimas como Silvia Ramos, dão a necessária atenção à variável racial na análise da violência que prende, mata, e obsta a vida plena do setor sobrevivente desta juventude.

Aliás, tenho a triste certeza de que certas informações são ouvidas e creditadas porque são ditas pelos aliados brancos. Se forem produzidas pelos negros serão sempre minimizadas. A escuta ao Átila Roque é apenas uma exceção que confirma a regra.

Tem uma moçada na Bahia que vocês precisavam conhecer, ouvir, um movimento que se chama “Reaja ou será morto! Reaja ou será morta.” São assim, eles! Diretos. Contundentes. Sem pulinhos de alegria dentro do PROJAC, por estar no PROJAC. Sem pílula de faz-de-conta. São reflexo da chapa quente do mundo real que ferve do lado de cá.

Para esse mundo não existe a novidade da guerra, como não existiu para o “famoso” DG, nem para o anônimo Edilson Silva dos Santos, morto no mesmo dia, no mesmo Pavão-Pavãozinho. Em essência, trata-se de dois jovens negros expostos ao genocídio da juventude preta, mais nada.

Nós contamos nossos mortos há tempos quase imemoriais, Hermano. São inúmeros os DGs do nosso convívio. Sabe, Hermano, em São Paulo, para a gente ter uma ideia aproximada do número de mortos na onda de assassinatos de jovens negros em 2012/2013, a gente conversava com o pessoal dos cemitérios de bairro. Sabe por quê? Porque a imprensa noticiava que haviam morrido cinco ou seis jovens numa determinada noite, mas quem era da quebrada contava muitos mais caixões. O número de velórios, de famílias desesperadas era muito maior. Então descobrimos que é seguro multiplicar por cinco, o número de mortos noticiado, assim nos aproximamos da cifra total de cada noite. Foi o que os coveiros nos ensinaram.

Não creio que esteja contando qualquer novidade à “Família Esquenta”, mas, o que vocês fazem é camuflar esses números, essa realidade, por meio de uma frágil fruição humana de pessoas negras moradoras de favela, felizes por aparecerem na tevê, de maneira supostamente valorizada, por fazerem parte do mundo do entretenimento. Sim!!! As pessoas negras querem leveza, diversão, alegria, remuneração por sua arte, como a que recebia o dançarino DG, roubado em 800 reais depois de assassinado e sabe-se lá em quanto foi extorquido quando vivo. Porque as coisas são assim na racializada sociedade brasileira, não é? O negrinho que ascende e continua no morro, se não é executado pelo tráfico, por recusar-se ao aliciamento, paga pedágio à polícia. O problema é a crença de que essa solução individual ou endereçada a pequenos grupos de negros artistas (por mais que a “Família Esquenta” empregue e remunere dignamente) responde ao problema racial no Brasil. E se vocês acham que nós estamos enganados e que a “Família Esquenta” nem vê esse problema, não trata disso, estamos certos.

Na real, a proposta de programa feita por vocês é um sossega-leão para o problema racial que o Brasil vive e nega, cuja explicitação acontece quando algum negro fantástico, talentosíssimo, excelente profissional, com o qual convivemos, é assassinado por ser negro (ser preto “da Globo" não livra a cara de ninguém), como o são os outros 199 jovens negros mortos a cada 100 mil.

A “Família Esquenta” por meio de seu sociologuês da diversidade, forma pseudo-intelectualizada de coroar a “mistura” defendida com princípio do programa “Esquenta” e apresentada de forma simbólica como solução social harmoniosa para o Brasil, contribui para perpetuar a ideia de miscigenação subordinada. Ocorre que a tal “mistura” (batismo contemporâneo da miscigenação) até hoje não conseguiu provar sua efetividade para os pretos, tampouco diminuiu os privilégios dos brancos. E essa é a centralidade do tema. É disso que falamos.

Acredito, Hermano, nas intenções boas e sinceras da “Família Esquenta”, mas o que vocês fazem (e talvez só consigam fazer mesmo isso) dentro dos limites de uma rede de tevê extremamente reacionária e comprometida com o establishment, com a manutenção de privilégios para os que sempre mandaram e sempre detiveram poderio econômico e político, não altera a questão de fundo, não mexe com ela. E que questão é essa? O racismo estrutural que justifica a perda da vida de jovens negros como se eles fossem pulgas, ratos ou baratas. O racismo institucional que executa esse pressuposto por meio da polícia, o braço armado do Estado.

Imagino que a “Família Esquenta” esteja sob forte emoção, comoção, mas os termos da mensagem da Regina Casé, os seus termos, Hermano, são muito brandos para tratar uma situação que é de absoluta barbárie. Não existe nada mais perigoso no Brasil do que ser um jovem negro! Em torno de 70% dos homens mortos por homicídio no país são negros, mais da metade, jovens (dados de 2011).

Existem também algumas ações e políticas governamentais em curso, no sentido de resguardar a vida da juventude negra, mas não é minha proposta neste texto discuti-las. Prefiro me ater ao poderoso instrumento de intervenção que pode representar a “Família Esquenta” e à escuta qualificada que ela precisa fazer das organizações políticas negras, das pesquisadoras e pesquisadores negros, para além da proposição inócua de um grande pacto social pela vida, que não discuta profunda e amplamente o sentido e o significado das vidas que o racismo descarta como nada.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

terça-feira, 22 de abril de 2014

O recado dos linchamentos


por Cidinha da Silva*

Assustava o mundo sensível a onda de linchamentos de pessoas negras executada por justiceiros que escolhiam pretos anônimos, desamparados pela lei, como exemplos para coibir as conquistas políticas e sociais dos negros “protegidos” pela lei de forma mínima. Ou seja, havia um recado para os pretos ascendentes: “recolham-se ao lugar estipulado ou serão vocês o próximo alvo.”

O propósito era acuar os pretos no micro-espaço, aterrorizar as comunidades negras da região onde ocorria o linchamento. A favor dos humanos negros só a vulgarização tecnológica. Pessoas indignadas registravam e divulgavam os atos bárbaros com celulares no afã de não esquecê-los, de impedir que fossem ocultados, de forçar investigação, julgamento dos linchadores e punição. Por fim, que o resultado final do registro fosse acordar a população da letargia ignorante de tais atos e cercear já no campo da intenção, o próximo linchamento.

Mas, como justiça não havia, o pânico se instaurava. O pavor de ser o próximo alvo intimidava tanto, que, não raro, as pessoas negras fugiam do tema. Enquanto em uma cidade o filho do mega-milionário atropelava, matava, era julgado rapidamente e pagava a sentença com trabalhos de re-socialização, em outra, um playboy bêbado atropelava ciclista trabalhador, arrancava-lhe o braço e atravessava bairros com o membro agarrado ao retrovisor. Em dado momento o meliante percebe a marca do crime, pára o carro, abrupto, e joga o braço do ciclista no esgoto, impune. Numa terceira cidade, uma patricinha, estudante de Medicina, atropelou e matou um gari, arrancou o carro sem prestar socorro, enquanto lamentava a sujeira de sangue na lataria. Não por coincidência, eram todos brancos, criminosos de fato e protegidos pela lei do mundo do faz-de-conta.

No mundo real, entretanto, eram sempre negros os alvos dos linchamentos. Qualquer motivo, qualquer suspeita, qualquer vacilo diante das regras do stablisment, justificava a eliminação física do suspeito. Mas aqueles não eram os alvos reais. O objetivo final era intimidar os negros insurgentes que tinham pelo menos uma noção vaga de direitos, os cotistas de universidades públicas, artistas, estudantes matriculados e uniformizados, negros intelectualizados, aspirantes a profissionais bem sucedidos, todas as pessoas portadoras de identidade negra em expansão.

Restava saber se os pretos se recolheriam aos lugares pré-definidos, iludidos pela mentira de não serem o próximo alvo. No Brasil, os negros estavam por sua própria conta desde o momento da gestação e os linchadores sabiam disso.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum. Desenho: Latuff

segunda-feira, 24 de março de 2014

As duas vidas de um menino negro

por Cidinha da Silva*

A primeira vida é de um rapaz de família, trabalhador, pacato, cercado de amigos negros e brancos. Um homem jovem, para quem, ser negro, talvez vá pouco além da alegria e do orgulho de uma bela coroa Black Power.

A segunda vida é a do sujeito descrito, mas, tratado como um negro qualquer pela polícia. Toda singularidade se esvai como bolha de sabão colorida diante da perseguição dos estereótipos.

Por um lance simples de sorte e provável proteção espiritual, Vinícius Romão de Souza não foi abatido como Cláudia da Silva Ferreira. Em comum, a negritude de ambos, o pertencimento à mesma comunidade de destino.

O racismo é o que menos se evidencia nas histórias de Cláudia e Vinícius. A mulher trabalhadora, mãe zelosa de filhos e sobrinhos, sucumbe à condição de “a arrastada”. A mídia não se dá ao trabalho sequer, de dizer seu primeiro nome, Cláudia! De Vinícius exploram a juventude, os sonhos, a família forte que supera os sofrimentos das perdas precoces, a cabeleira Black Power, atributos que o individualizam, emprestam-lhe uma história particular que não é respeitada, por isso, ele é “o injustiçado”. Contudo, o que pegou mesmo, quer para a prisão de Vinícius, quer para o assassinato de Cláudia, foi o fato de serem negros desprotegidos, expostos à sanha racista e ao humor sórdido de policiais, que, para os que não querem entender, prendem e matam as pessoas negras a esmo, como insetos ou vermes.

Depois de sair da prisão, em busca de recuperar a primeira vida, Vinícius afirma que nunca fora vítima de racismo, sempre foi respeitado. Vítima, não. Isso é certo. Vinícius é alvo de uma sociedade que, estrategicamente, refuta a existência do racismo dirigido aos negros, para garantir os privilégios dos brancos; que enlouquece os que atestam sua virulência, pois querem provar a eles que o que julgam ser racismo é apenas a vida inexorável do negro (não por acaso conveniente para manter intactos os louros da branquitude).

Vinícius terá se sentido respeitado todas as vezes que levou baculejo da polícia? Ao voltar da universidade, do colégio, talvez até da escola primária com uniforme escolar. Porque é assim que homens e meninos negros são tratados! Ou não? Terá se sentido respeitado a cada vez que uma mulher protege a bolsa ao sentir sua aproximação? Ou nas inúmeras vezes em que foi ridicularizado por sua compleição física de descendente de africanos?

Para infelicidade dos negros, a história individual não tem evitado sua morte, seja física, seja simbólica. Mas, Vinícius, como a maioria dos seus, foi levado a dormir dentro dessa casca de ovo, até que a segunda vida a quebre e surja de dentro um cheiro insuportável de coisa podre que toma conta de todo o ambiente. Então, mesmo não havendo como fugir, disfarçar, negar o óbvio, a primeira vida será evocada outra vez, na ilusão de que possa proteger as pessoas- alvo da voracidade do racismo.

E a trilha viciosa se repetirá até que as duas vidas se encontrem e se fundam. Até que se compreenda que todas as vezes que um negro sofre discriminação porque é negro, trata-se de uma agressão coletiva. Desse modo, não existe um negro que nunca tenha sido discriminado.

A repetição ocorrerá até que se entenda a alteridade como direito que não exime a população negra do pertencimento à mesma comunidade de destino. Os “negros especiais” não existem, apenas negros que contaram com mais sorte ou acessos ao longo da vida. O povo negro será tratado como negro, descendente de escravizados as vezes sem conta em que o poder branco se sinta ameaçado. É a regra do jogo da opressão racial.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Quando a palavra seca

por Cidinha da Silva

Tudo perde o sentido quando uma mulher negra, moradora de favela, baleada no pescoço, pende de um porta-malas e tem o corpo arrastado pelas ruas do centro do Rio. Transeuntes e motoristas buzinam, gritam, acenam, se desesperam, choram, lamentam, porém, os policiais que dirigem o carro não ouvem, não vêem, não param. Não param. Não param.

As palavras humanidade, respeito, dignidade, cidadania, vida, direitos, sonhos, justiça, perdem o sentido. A gente perde as forças, a palavra, e míngua, como o texto seca diante de mais um caso de horror racista que não comoverá o mundo e ainda terá a dimensão racial esvaziada.

Perde-se o sono e não se sabe a fórmula do conforto para reencontrá-lo. Tudo perde o sentido. A vida perde a poesia. A condição humana é rebaixada a cada ação policial.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Domenico De Masi e o Brasil cordial, modelo de vida para a sociedade desorientada


por Cidinha da Silva 

A chamada de abertura da entrevista do sociólogo italiano Domenico de Masi ao semanário Época, afirma, de maneira pretensamente ingênua, “que os brasileiros, de um tempo para cá, passaram a ver sociologia em tudo, até no rolezinho dos adolescentes”.

O texto prossegue e apresenta De Masi como um profundo conhecedor do Brasil, que mergulhou nas obras de autores fundamentais para a compreensão do país, tais como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro, embora destes três, o autor mencione apenas Darcy Ribeiro como destaque na formação de seu pensamento sobre o país. Outro intelectual brasileiro que merece citação particular do italiano é Oscar Niemayer. Segundo De Masi, “ambos deram contribuição criativa inestimável para impor ao mundo a excelência original do modelo brasileiro”.

É provável que ao longo do livro “O futuro chegou – modelos de vida para uma sociedade desorientada”, De Masi mencione Freyre e Buarque de Holanda como leituras importantes a informar sua análise. Um tanto conservadora, pois ele parece não ter chegado sequer à geração de sociólogos uspianos da década de 50, responsável por atualizar os estudos sobre relações raciais no Brasil, haja vista os clichês sobre a cordialidade do brasileiro propagados por De Masi, dos quais trataremos um pouco à frente. Mas, é notório que o jornalista quis enfatizar os autores dos nos 30, com os quais deve ser afinado.

Ao descrever a riqueza do Brasil para construir um novo modo de vida, De Masi faz afirmações controversas, no mínimo. Diz ele: “penso na copiosa mistura de raças aliada ao baixo índice de racismo, no sincretismo cultural, no amor pelo corpo, na sensualidade, na cordialidade, na musicalidade, na propensão do brasileiro a assimilar as contribuições dos estrangeiros, na hospitalidade, na alegria, na espontaneidade, na abertura ao novo e ao diferente, na tendência a encarar a realidade com um pensamento positivo, na capacidade de considerar fluidas as fronteiras entre o sagrado e o profano, o formal e o informal, o público e o privado, o emocional e o racional.”

Minha dúvida é se realmente De Masi caracteriza o Brasil em que milhões de brasileiros negros e pobres vivem ou faz uma abstração sociológica com o fim generalista de construir um modelo interpretativo, a partir de teorias e teóricos que optaram por não aprofundar as desigualdades que aqui imperam e suas raízes.

Comecemos pela copiosa mistura de raças... Ela tem servido para nos apresentar ao mundo como nação do futuro, multiétnica, misturada, mas, no frigir dos ovos, a tal mistura produz ganhos reais ou mesmo simbólicos para quem está na base da pirâmide socioeconômica? Essas pessoas são aquelas fenoticamente mais próximas dos ingredientes africanos e indígenas no caldeirão tupiniquim das raças. Cabe perguntar, então, a quem serve e para que serve a “copiosa mistura de raças”.

A propalada sensualidade brasileira também é uma faca de muitos gumes. Por exemplo, é certo que não vemos nas ruas dos EUA ou de países da Europa, beijos cinematográficos ou mesmo o carinho ostensivo vistos nas ruas do Brasil à luz do sol, entre pessoas comuns. E parece que gostamos disso ou consideramos coisa normal, desde que, seja entre casais heterossexuais considerados belos e padrão. Se for um casal de negros, uma parcela significativa da população considerará o ato sensual e carinhoso como atentado ao pudor, porque o stablisment animaliza as expressões de amor e a sensualidade quando vêm dos negros.

Se forem gays, lésbicas ou transexuais, os casais correrão o risco de ser assassinados enquanto fecham os olhos. Se forem pessoas LGBT negras, além do risco de vida que todos os casais homoafetivos correm ao vivenciar seu afeto nas ruas, serão seguramente alvos de piadas racistas que também as matarão, de maneira lenta e gradual. Dessa forma, me pergunto sobre qual sensualidade maravilhosa ou sobre a sensualidade de quais brasileiros De Masi se gaba? A quem essa generalização contempla e quem fica fora dela?

Outra suposta característica positiva do país é a abertura ao novo e ao diferente! Abertura para quem? De qual diferente falamos? Quem tem direito pleno ao gozo de identidade sólida e alteridade respeitada no Brasil?

Como são tratados, por exemplo, os jogadores de futebol negro-brasileiros que, depois de poucos meses jogando na Europa e na Ex-URSS voltam cheios de amor próprio e identidade, com os cabelos crespos grandes, eriçados, trançados, com dreads? Quem os deixa ser diferentes, na verdade, quem os deixa ser parecidos com os seus que reinam altivos pelo mundo ou mesmo aqueles sobreviventes que conseguem escapar do achatamento dos crespos e da mesmice imposta à estética capilar dos homens negros brasileiros? Qual é o programa esportivo que os deixa se diferenciar da média dos boleiros negros em paz? Se a maioria da população representada por esses negros em ascensão não tem direito sequer a usar o penteado desejado sem que se torne alvo de piadas racistas, das mais simplórias às sofisticadas, de que país aberto ao novo e ao diferente De Masi trata?

Considerar uma vantagem a vigência de fronteiras fluidas entre o emocional e o racional, o formal e o informal, o sagrado e o profano, vá lá, são questões subjetivas, mas a fluidez entre o público e o privado não creio que seja uma coisa boa, não.

A urbe mal administrada por gestores que consideram a cidade um bem privado, expulsa as pessoas comuns do centro, evita as aglomerações de gente em shows de música abertos, sob justificativas incompreensíveis de proteção ao patrimônio público. Impede a freqüência aos espaços públicos como praças, ruas e avenidas em dias e horários de pouco movimento. Cerceia o direito de ir e vir das pessoas e, quando permite o movimento, cerca-as mesmo, com cercos de ferro, ora móveis, ora fixos, de um modo geral fornecidos por empresas de políticos e/ou parentes ou coligados deles, aos quais se exime de licitação.

Em Belo Horizonte, teve início em 2010 o movimento Praia da Estação, uma reação a um decreto da Prefeitura Municipal que proibia a realização de eventos de qualquer natureza na Praça da Estação, um dos pontos turísticos mais antigos da capital mineira. A moçada traja roupas de banho, óculos de sol, protetor solar e em finais de semana previamente acordados, ocupa a praça, se refresca no chafariz, bate-papo e resiste à lei autoritária.

Em búzios, praias públicas, como deveriam ser todas as praias, são quintais privatizados das mansões dos ricaços. Ai do cidadão comum que pisar naquelas areias, arrisca-se a levar tiros dos fuzis da polícia privada (muitas vezes composta por policiais militares) que toma conta da área pública privatizada.

Por fim, a inexistência de fronteiras entre o público e o privado impulsiona a corrupção, faz com que a máquina pública seja regida por princípios de economia doméstica e/ou práticas de beneficiamento de empresas privadas.

Como é possível a um sociólogo estrangeiro concluir que o Brasil tem “baixo índice de racismo” quando a imprensa sensacionalista esfrega na cara dele a crescente exposição de homens negros ao suplício público – acorrentados a postes por correntes de metal, cordas e trancas de bicicleta, torturados e amarrados nus com os braços presos para trás, rosto e genitais colados ao asfalto escaldante -, punidos exemplarmente por delitos ou supostos delitos, como forma de recuperar na memória de todos os negros contemporâneos, a escravidão a que seus ancestrais foram submetidos e o que pode acontecer a eles, que assistem às cenas de tortura solidários e enojados, caso não rezem direitinho pela cartilha dos brancos?

Não é aceitável que alguém pleno de capacidades mentais argumente que o Brasil é um país de “baixo índice de racismo”? Uma afirmação como esta me leva a duvidar da seriedade do livro e do pesquisador.

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Entrevista: o dinamismo de Cidinha da Silva

por Júnia Puglia    foto André Frutuôso 

Em seu novo livro, “Racismo no Brasil e afetos correlatos” (Conversê Edições), Cidinha da Silva solta o verbo e os adjetivos em observações e análises diretas, profundas e contundentes sobre o que rola na nossa “casa grande e senzala” de todos os dias, aquela que alguns se esforçam para eliminar, enquanto muitos preferem alimentar. Com sua lupa voltada para os meios de comunicação, faz uma varredura completa. Oferecemos um aperitivo.

NR – É possível afirmar que há hoje mais sinceridade e transparência no que os meios de comunicação mostram sobre as relações raciais no Brasil do que, digamos, dez anos atrás?

Cidinha da Silva: Penso que “sinceridade e transparência” são expressões muito generosas e muito abrangentes. Há exceções que se enquadrariam nessa definição, mas, de um modo geral, vejo dois outros movimentos simultâneos. O primeiro é pautado por algumas mudanças positivas (presença temática e de sujeitos negros, em certos casos como protagonistas) e o segundo é uma reação conservadora, principalmente da televisão, orientada pelo que se discute na blogosfera e redes sociais. O caso recente da apresentadora Fernanda Lima/FIFA é elucidativo. Vejamos: 1 – aventaram-se os nomes de Camila Pitanga e Lázaro Ramos (atores negros) para apresentarem o sorteio dos grupos da Copa. 2 – Vazou a informação de que a FIFA os teria preterido em favor do casal de modelos brancos Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert. 3 – Houve reações generalizadas na Web acusando a FIFA de racismo. 4 – A FIFA responde às acusações por meio de nota que justificava a escolha dos modelos, embasada em experiência internacional e trabalho anterior para a instituição. 5 – A justificativa não cola e então Fernanda Lima vai a campo, questiona a reação do povo na web, defendendo-se como cidadã que paga impostos e “branquinha” perseguida que “não tem nada a ver com o racismo”. 6 – Não contente, ela usa o programa de televisão do qual é apresentadora para responder a um debate que ocorreu em blogues e nas redes sociais. Uma reação típica de modernização conservadora, que considera uma discussão de ponta, de criticidade apurada, como subsídio para produção de mais uma peça de escárnio aos negros brasileiros na TV. Fernanda Lima se veste de colonizadora, canta e dança “cada macaco no seu galho” esvaziando o sentido político da letra: “esse negócio da mãe preta ser leiteira / já encheu sua mamadeira / vá mamar noutro lugar”! A apresentadora ridiculariza o posicionamento que problematizava a escolha da FIFA, transforma o conflito racial em piada e reforça a crença de que o racismo é um problema dos racistas e dos discriminados, não dela, uma “simples pessoa do bem”.

NR – O Emmy dado à telenovela “Lado a lado” atropelou a campeã de audiência “Avenida Brasil”. É um sinal dos tempos?

Cidinha da Silva: Não creio. Penso que seja um sinal alvissareiro, um recado vindo de fora sobre o que deveria ser valorizado e reconhecido aqui dentro, mas não chega a ser um sinal dos tempos. Tecnicamente são dois produtos televisivos excelentes, com interpretações memoráveis de grandes atrizes e atores, entretanto, Lado a lado tem o requinte do tema e da abordagem inovadora das relações raciais e de gênero neste tipo de produto, para ater-me a apenas duas qualidades da novela. Mas não creio que chegue a ser um sinal dos tempos.

NR – Remar, remar, remar e chegar no concurso para eleger a nova Globeleza. Por que a televisão insiste no retrocesso? O público aprecia mesmo?

Cidinha da Silva: Porque a televisão se autocompreende, se projeta e se perpetua como máquina de produção de bobos, de gente acrítica que mantém o status quo, principalmente no que concerne às assimetrias raciais. O papel que a Globo atribuiu a Sheron Mennezes (e ela aceitou) nesta edição da Globeleza é muito triste. Assim o descrevi em crônica recente, intitulada “A roda gigante e o motor da casa grande”: “Em uma das salas da casa grande, outra atriz negra da novela Lado a Lado surpreende a gente altiva ao apresentar-se como pregoeira de um conjunto de bundas e pernas negras naturais (hiper malhadas) ou siliconadas: glúteos, vasto lateral, bíceps da coxa, trato iliotibial. Acém. Cupim. Músculo. Coxão duro. Paleta. E não se sabe que parte da imagem é mais triste e deprimente, a carne de segunda e seu corte de costas ou o filé mignon disfarçado, maquiado, bem vestido, de sorriso angelical e dengoso a serviço do leilão de mulheres no mercado dos corpos.”

NR – Você é bem jovem ainda e já tem uma obra considerável publicada, tanto em livros quanto na internet – sem falar no teatro. Como é lidar com os vários meios e linguagens ao mesmo tempo?

Cidinha da Silva: Obrigada pelo “bem jovem ainda”, Júnia. Eu gosto do dinamismo, ele me alimenta muito e é uma necessidade. Eu comecei a publicar literatura tarde, então tenho muitos projetos acumulados e não tenho mais tanto tempo para desenvolvê-los, porque não comecei aos vinte, comecei aos 39. Por isso trabalho muito e disciplinadamente no pouco tempo deixado pelo trabalho que garante a sobrevivência econômica para dedicação à literatura. A dramaturgia era um sonho que ora realizo com Capulanas Cia de Arte Negra e Cia Os Crespos, grupos de teatro negro de São Paulo. Tem coisas lindas sendo ensaiadas para 2014, tão lindas quanto “Sangoma” e “Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas”, as duas peças deste 2013.

NR – Como você consegue manter a contundência do texto num ritmo tão intenso? Fartura de material nesse nosso Brasil complicado?

Cidinha da Silva: O amigo e bailarino Rui Moreira diz que minha caneta é de Ogum, deve ser por isso. Mas minha meta é ser cada vez mais água, busco a beleza, a alegria, a poesia na escrita. Quero estetoscópios para descobrir a vida que escapa do cotidiano endurecido (e enfurecido). Quero uma espada banhada em mel na mão esquerda e uma caneta de Oxum na outra para traçar o caminho.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Descosido


por Júnia Puglia*

Tem uma caixa de retalhos aqui dentro, todos querendo entrar nesta breve crônica. Vou tentar.

Há poucos dias, uma notícia me deu calafrios. Em algumas cidades suíças, os governos locais estão implementando normas de convivência que vetam o acesso de estrangeiros candidatos à condição de asilados (quase todos oriundos de países pobres) a certos lugares, como escolas e clubes. Tais normas são referendadas pela população, como determina a lei. O nome disto é “apartheid”, que significa “separação” em africâner, língua falada pelos brancos na África do Sul, país onde o regime segregacionista foi banido em 1994.

Muitos são os que acreditam na legitimidade da separação, e a desejam. Conviver com a diferença chega a ser uma ofensa para aqueles que se sentem mais gente que os outros. Não me esqueço de um pastor evangélico brasileiro branco, que conheci no final dos anos setenta, e que voltava de trabalhar por dois anos na África do Sul como missionário. Justificava o apartheid com toda convicção, pois “aqueles negros não sabem nem usar a privada; pra eles, um coqueiro serve muito bem”. Eu estava dando os primeiros passos no mundo adulto. Foi um choque e tanto.

O tempo passou, e a vida me deu um marido carioca, filho de pai baiano, por sua vez filho da querida Vó Izabel, baiana negra e miúda, que conheci já passada dos noventa anos. Filha de escravos, nasceu livre no papel, mas não conheceu outra vida senão a do trabalho e da dureza, como empregada doméstica e lavadeira desde sempre.

Nosso filho andava pelos nove anos. Um menino que gostava de conversar e de pensar, e que bem cedo revelava o historiador que viria a ser. Numa aula de História do Brasil, o tema da escravidão levou-o a uma conexão perturbadora, que culminou na pergunta: mãe, você acha que a família da Vó Izabel pode ter sido escrava nas terras dos nossos antepassados paulistas? Respondi que não, porque viveram muito distantes geograficamente. Ele ficou aliviado, mas pouco.

Lembrei-me disto quando vi uma série de fotos de escravos brasileiros rodando na internet, um raro registro visual daquela gente que não era considerada bem gente. São algumas dezenas de imagens, mas não consegui passar da décima, tamanho o incômodo que senti com as expressões, principalmente das mulheres, por mais belas que fossem, por mais enfeitadas que estivessem.

Com essas coisas rodando na cabeça, meu alento foi um artigo de jornal sobre os pescadores da italiana Lampedusa. Todos os dias, eles arrancam das garras do Mediterrâneo náufragos malis, líbios e eritreus, que se jogam ao mar em barcos caquéticos, tentando desesperadamente escapar da fome e da miséria e encontrar um futuro decente na tal de Europa. Aquela mesma onde o fermento da xenofobia e do ódio racial tem inflado na mesma medida do encurtamento do dinheiro e dos postos de trabalho. Não importa, dizem os pescadores, não podemos deixá-los morrer.

Mal costurado? É que os retalhos não se deixaram manusear o suficiente.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Philippe Loubat

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Será a volta do monstro?



por Cidinha da Silva*

Parece que o vento virou, à direita, e os de sempre têm o leme nas mãos.

Mãos sujas de sangue por tantos séculos, tantas gerações.

Gerações de sesmeiros, exploradores de minas e escravizadores de gente, cafeicultores, donos do cartel do transporte público.

Transporte público que foi e é luta de vanguarda, pelo direito a viver na cidade, a desfrutar da cidade.

Cidade que nos expulsa, que não nos cabe, não nos dá amor.

Amor que se vê na Brasilândia, no Campo Limpo, no Morro do Alemão que desce para o asfalto e exige o fim do extermínio da juventude negra, favelada, periférica. Amor que se respira na Revolta dos Turbantes.

Turbantes que protegem e molduram cabeças e cabeleiras de potentes mulheres negras.

Negras mulheres que mais uma vez tingem as ruas e a noite com cores de alegria e força da transformação, com espadas banhadas em mel.

Mel que nos dá Oxum com chá de canela bem quente para que despertas, acompanhemos o desenrolar dos fatos novos, tão velhos e conhecidos.

Conhecidos como o são todos os expedientes da direita que não podem nos surpreender, tampouco nos apequenar.


*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum

quarta-feira, 24 de abril de 2013

É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!


por Cidinha da Silva*

Escrever textos opinativos sobre novelas ou aspectos delas, é um grande aprendizado. É vespeiro de abelhas bravas e vingativas. Você passa pelo inferno do desprezo, ora intelectualóide, ora esquerdizante e vai até outro inferno, do pessoal que compra a ideologia da novela e a assisti (ou diz que não assisti) sem laivo de criticidade. É um risco para a reputação da cronista, porque de uma ponta a outra há um corredor polonês inclemente, preparado para bater.

Mesmo a crítica mais participativa, aquela localizada no entremeio dos infernos, confunde papeis. São ditas coisas como “Muito bom o texto! Faça-o chegar à autora da novela!” Ora, faça-o você, se acha que vale o trabalho de movimentar-se nessa direção. A escritora escreve, põe o texto no mundo e ele anda com as próprias pernas. E quem quiser que o carregue, promova, critique, execre-o, com argumentos, por favor, principalmente no caso dos textos opinativos. Assim a autora se sentirá motivada a debater.

Ainda outra dimensão negativa, é que o texto sobre novelas publicado na Web é lido de maneira imediatista e grudada no tema abordado. É um texto sem asas, em que pese o fato de muitos leitores não aceitarem convites para ampliar o real. Parece que o peso da superfície livro é que continua a possibilitar vôos mais satisfatórios.

Pelo lado mais positivo, este tipo de crítica também encerra a percepção de que autora não consagrada joga nas onze. Ou seja, escreve, corrige, edita, escolhe ilustração, publica, divulga e deve fazer o texto chegar às mãos dos possíveis interessados.

A resposta aos textos novelísticos é também campo fértil para a manifestação dos donos da verdade. Gente que tem coisas prontas a dizer e que, pretensamente, pairam sobre a abordagem chinfrim da cronista, bem como sobre a percepção insignificante dos demais mortais. Um exemplo significativo, que não se refere à novela, propriamente, mas se adéqua de maneira perfeita ao perfil de dono da verdade exercido na Web, é a afirmação de que o espaço midiático e a repercussão conseguidas pela declaração de amor de Daniela Mercury à companheira, Malu Verçosa, é “um pouco exagerado demais.”

É de dar nó em pingo d’água! A coisa é “um pouco exagerada demais!” Diria que o sujeito inventou um pleonasmo torto precedido (contradito) por um quantificador de leveza linguística (a função inventada para o advérbio “pouco”, na frase). Tudo disfarce cínico da heteronormatividade para desqualificar a atitude da cantora, perfeitamente afinada com o respeito aos direitos humanos das pessoas LGBT no Brasil.

Existe uma versão ainda mais tosca dos donos da verdade, os fatalistas: "É a Rede Globo”! O que esperavam? O que assusta é vocês ainda esperarem alguma coisa das novelas.” Ou ainda, “É novela, quer o quê? Pára de chiar e muda de canal!” As variações são muitas, tem o cara que diz: “Se eu não gosto, desligo a TV, não fico revoltadinho e abro mil assuntos no Face.”

Tem também outro tipo, metido a descolado: “Eu queria entender porque a autora ainda se da ao desfrute de assistir a um programa de uma emissora notoriamente racista. Se por questões de análise social ou se por entretenimento, no meu caso nem um nem outro”. A escritora avisa que não há uma resposta precisa para essa neurose. De um modo geral, cronista é gente à toa, mete-se onde não é chamada e vive procurando assunto. Essa é a verdade singela que não dá para ocultar desde os tempos de Machado e Lima Barreto.

É candidato a rei também, o arauto da esquerda: “O povo ainda não entendeu que uma mídia corporativa burguesa não pensa no povo e cultura como seres humanos, só pensam no lucro... o pior é que o povo ainda dá audiência.” É dureza receber essas mensagens, ainda mais para a autora que não é noveleira. Ela apenas lê a telenovela quando a assiste.

Tem os comentários impossíveis de decodificar, seja por pretenderem uma ironia (fracassada), seja por serem vagos ao afirmarem uma coisa, ao mesmo tempo em que contrariam o que disseram antes. É confuso mesmo. Você lê, relê e não consegue perceber se a concordância (ou discordância) é com a afirmação da autora ou com a crítica a ela.

Outros comentários mostram porque a novela emplaca, explicitam o tipo de pensamento representado por ela, expresso na voz do público. Note-se um vernizinho intelectual, estratégia da comentarista para tentar se diferenciar da massa ignara, quando emite juízo de valor sobre a crônica a respeito do núcleo de moradores de favela da telenovela Salve Jorge: “A novela não é grande coisa mesmo, mas é ficção e não documentário. E quem acha que novela vai fazer pensar? A maioria dos jovens de favela e periferias não querem nada mesmo: vejo aqui, na região de Venda Nova, em Belo Horizonte, rapazes soltando pipas, fazendo rachas com motos... moças que não trabalham, só querem namoro, e olha que não se vestem mal, não... não sei onde acham dinheiro pra comprar; é cabelo chapado, shortinhos curtos, funk em volume ensurdecedor, etc, etc...”

Felizmente, predominam os comentários inteligentes, lúcidos, mas a gente que lê o mundo, destaca sempre o que precisa ser reconstruído, por isso a ênfase naqueles que deixam escapar visões de mundo que interessam muito à ideologia da novela.

Bom exemplo de comentário positivo é o que segue. “Desligar a TV é uma boa mesmo, mas não resolve o que se discute aqui: invenções e reforços dos estigmas racistas! Por favor, a idéia é questionar e combater violências, não fechar os olhos, as portas, as janelas, a TV, os ouvidos... Detesto novela, não as assisto, mas estou com quem questiona o que elas veiculam.”


*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Nota sobre Feliciano como presidente da CDHC


por Cidinha da Silva*

O tempo e a movimentação da notícia na Internet são vorazes e dilacerantes. E ninguém quer ser engolido. Todos os que navegam pelo cyberespaço tentam emitir uma opinião original, autoral, sobre o tema da página de rosto naquele minuto, naquele segundo. Na pressão de dizer qualquer coisa, muita gente se perde e transforma coisas de fundo em questões pontuais e vice-versa.

Face à avalanche de notícias sobre Marco Feliciano, deputado sabidamente racista, homofóbico e misógino, eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados (CDHC), apareceram pessoas dizendo que o movimento Fora Feliciano transformou um quase nada em pop star. Típica compreensão de quem troca uma questão de fundo por algo superficial, de quem tem necessidade de oferecer uma opinião divergente com o objetivo de conquistar algum espaço ou seguidores.

Uma coisa é a percepção de que o mar da Web tem ondas e tem um pessoal que só se movimenta na crista. Se quem está no topo das demonstrações homofóbicas é Cláudia Leite, com o filho que não será gay porque será bem educado, vamos a ela. Se é Joelma afirmando que os gays podem ser recuperados tal qual os dependentes químicos, a ela. Se é Feliciano com seu vasto leque de imbecilidades perigosíssimas, a ele. Faz-se muita espuma e pronto. Com as denúncias de racismo, de violência contra a mulher e outras, também ocorre o mesmo. Mas mesmo esse movimento sazonal tem valor, é bom considerar, pois é sinal de que alguma movimentação acontece na terra, para além do burburinho do mundo da fofoca e das celebridades.

Outra coisa é compreender os movimentos internos do mar provocadores das ondas, aquilo que acontece antes da produção da espuma. Os níveis profundos da água que mantêm-se intactos à ação de um tsunami.

O movimento pela queda de Feliciano abriga questões de fundo, a saber:

1 – Escancara os acordos espúrios dos partidos políticos em busca de poder no Congresso e as estratégias condenáveis para sustentá-lo a qualquer custo (partidos de esquerda preferiram comissões mais importantes e relegaram a de direitos humanos ao PSC, que, por sua vez, indicou Feliciano para presidi-la).

2 – Traz a público para muita gente boa que vive no país de Alice, a crueza, a tacanhice e o perigo do processo de lobotomia e especulação financeira, dentre outros males, que gente como Feliciano realiza com pessoas que a gente boa considera desprezíveis e descartáveis na sociedade de consumidores, celebridades e gente “pensante”.

3 – Coloca nas primeiras páginas dos jornais o projeto político em curso de teocratização do Estado e exploração da fragilidade humana por meio da construção de uma fé que alicia pessoas pouco críticas e muito desesperadas, desesperançadas.

4 – Possibilita o debate agregado de temas como homofobia, racismo, misoginia, laicidade do Estado, mostrando sua operacionalidade conjunta em detrimento de direitos humanos e de cidadania, e em benefício da perpetuação do escárnio virulento à diversidade humana.

5 – Abre espaço para que os setores progressistas e pró-diversidade do segmento evangélico manifestem-se com um não rotundo ao atraso e à canalhice representados por Feliciano.

6 – Abre o debate público sobre a atuação da bancada evangélica, a mais ausente, inexpressiva e processada. Todos (a transparência Brasil disse TODOS) os deputados que a compõem respondem a processos judiciais. 95% deles figuram na lista dos mais faltosos às sessões de trabalho. Registre-se que na última década não houve um só projeto de expressão, ou capaz de mudar a realidade do país, encabeçado por um parlamentar evangélico.

7 – Um deputado que pede a um fiel de sua igreja a senha do cartão eletrônico para debitar diretamente o dízimo, para quem não existe necessidade de uma lei punitiva para as práticas homofóbicas, pois, nesse diapasão, precisaríamos também de leis para punir a discriminação ao “caolho” e ao “banguelo” (expressões usadas por ele), não pode presidir uma pasta de direitos humanos, porque sua prática e discurso contradizem a essência mesma do que sejam direitos humanos. É um acinte aos direitos humanos admitir que o presidente da comissão parlamentar dedicada ao tema ignore um assassinato de pessoa LGBT a cada 26 horas no Brasil.

É em nome disso e muito mais que a sociedade civil se levantou contra esse sujeito. Contra tudo de autoritário, retrógado e desumano encarnado por sua figura rastaquera. Portanto, não se trata de promover um Zé ninguém a pop star, como os marinheiros de primária viagem têm dito por aí.

O movimento Fora Feliciano (composto por diversas motivações e personalidades, como todo movimento social) é uma reação libertadora, autoral e saudável ao risco nefasto de sucumbirmos como seres humanos ao aceitar, calados e impassíveis, a presença dessa besta do atraso na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, como simples sub-produto de um jogo político sujo.


*escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Corporalidade Negra em Lado a Lado



por Cidinha da Silva*

Perdoem-me os fãs da Capoeira, mas quero falar sobre futebol na novela Lado a lado. Chico (César Mello) protagonizou cena histórica vivida no início real do século XX por Carlos Alberto, jogador negro que, migrando do singelo América para o aristocrático Fluminense, temeu a rejeição da torcida e, desejando evitá-la, passou pó-de-arroz no corpo, antes da partida.

O problema é que a mistura química do pó-de-arroz com o suor, à medida em que o jogador se movimentava no campo,  transformou-o em uma papa. Resultado trágico de uma válvula de escape do racismo que não funcionou. Talvez seja possível à leitora imaginar o desespero de Carlos Alberto ao buscar uma alternativa de proteção tão ridícula e fadada ao fracasso.

O jogador da telenovela imitou o jogador da vida real com o mesmo objetivo do primeiro, ou seja, encontrar um caminho para ser aceito no mundo branco. Chico é chamado para jogar no time dos brancos (todos os times eram de brancos, naquela época), porque é bom de bola. O perigo é defini-lo como bom de bola porque é negro.

Nenhum negro é bom de bola porque nasceu negro, não está no sangue. Determinismo sanguíneo é quando o negro tem muitas hemácias saudáveis, isso pode oxigenar bastante o cérebro e potencializá-lo como corredor. Esse seria o verdadeiro sangue bom. Mas o talento de Chico não vem daí. É nato na proporção apenas em que todo e qualquer talento pode ser considerado nato, não o é para os negros de maneira restrita.

Chico joga bem porque tem ginga, tem o corpo flexível, corre muito e não se cansa. Tem habilidade para correr e dominar a bola ao mesmo tempo. A ginga, Chico adquiriu na vida, não só na capoeira. O corpo precisa aprender muito de flexibilidade ao carregar numerosas sacas pesadas no porto, de maneira tal que a coluna vertebral se mantenha inteira para carregar outras tantas sacas no dia seguinte e no próximo, no próximo... E depois de carregar peso o dia inteiro, é preciso ter pernas fortes para subir o morro e disposição para ajudar um vizinho a refazer o telhado do barraco levado pelo vento. E depois de comer o feijão com farinha oferecido a toda gente, tomar um banho frio e amar a amada até o primeiro galo cantar lembrando que o porto o espera novamente.

Essa corrida insana pela sobrevivência inscreve no corpo negro um requebro, uma destreza, uma polissemia que entorta os janotas e o povo, erradamente, chama de característica negra. Certo seria entender que é a vida do negro que acaba por obrigá-lo a adquirir essa maleabilidade. E como não somos de ferro, subvertemos  a ordem da opressão, da exploração, em favor nosso. Enganamos tão bem, que passam a achar que somos bons de bola porque somos negros.

* escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Coisas que nem Deus mais duvida!

por Cidinha da Silva*

A senhora brandia os braços, inflava bochechas e olhos, tremia a boca pequena. Era Madame Mim em performance para leitura do poema.

Coisa boa não viria dali. A colega já havia feito caras e bocas de incredulidade quando apresentei meus livros no sarau. Reparei que não aplaudiu, assim como as outras pessoas fizeram com a convidada para lançar livro naquela noite.

Houve um preâmbulo antes do poema, a autora dizia: “no meu tempo, como vocês podem ver, eu sou velha, a gente chamava os pretos que a gente gostava de negão, quando era homem, neguinha, quando era mulher. Era carinhoso. Hoje, se a gente não for politicamente correto, pode até ser preso”. Nessa hora, seus olhinhos de Madame Mim encontraram os meus e, de pronto, tratei de exuzilhá-los, fechei meu corpo com a mão direita e com a esquerda levantei meu Tridente.

A chuva apertou e N’Zila rodou, me levou para fora das paredes de vidro da biblioteca, para o local exato onde havia feito minha saudação de chegada. Era uma encruza da Henrique Schaumann com Cardeal, 777, era o número da casa. N’Zila dançou para mim, apontou o céu, logo cortado por um raio de Kaiongo. Eu saudei N’Zila e o raio, agradeci. Quando um deles ilumina meu caminho é sinal de anunciação.

De volta ao sarau, de olhos abertos, aqueles versos mal feitos e ressentidos machucavam meu coração. A mulher velha desprovida de sabedoria destilava mágoa e saudade dos tempos da escravidão. Dizia num poema torto que solução para o racismo é que os pretos se pintem de branco e se tornem cinza e os brancos se pintem de preto, obtendo o mesmo resultado. Se ela fosse um pouco mais inteligente e criativa, honesta também, seu verso expressaria o desejo de que os negros virassem cinzas.

Terminada a performance ouviram-se uns fracos aplausos constrangidos, outros, consternados, afinal, tratava-se de uma idosa e muita gente acha que a idade justifica tudo. Duas ou três pessoas, além de mim, não descruzaram os braços. Um rapaz muito sério, que se eu encontrasse andando pela rua, julgaria mestiço, levantou-se negro e mandou uma letra de rap aguda sobre a hipocrisia das relações raciais no Brasil. Tinha uns palavrões cabeludos e o menino de tridente nos dentes colocou os tridentes nos devidos lugares.

Eu reuni meus livros e trocados, olhei a chuva intermitente e vi Kaiongo a minha espera, absoluta e bela, próxima ao cemitério. Guardei a distância respeitosa da natureza que não se afina com a casa dos mortos, Kaiongo veio sorridente, me abraçou generosa, só amor. Eu entreguei o que era dela: “toma, Senhora dos Raios, leva daqui essa carcaça, esse egum da mentalidade colonial e racista que inda sibila entre os vivos.” Kaiongo sorriu outra vez, cúmplice, e desapareceu soberana na noite sem lua.


* escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A Copa de Nações Africanas e a crônica esportiva tupiniquim



por Cidinha da Silva*

Começa o jogo e recomeçam os comentários batidos sobre a força e os músculos proeminentes dos jogadores africanos. Se o narrador acrescentasse o fato de que a maioria deles jogou futebol amador por tempo considerável, que compatibilizou trabalho braçal, em muitos casos desde a infância, com o sonho de serem astros do futebol, talvez o telespectador pudesse contextualizar tanta explosão muscular e baixo percentual de comida, ops, de gordura.

O narrador da final inédita entre Nigéria e Burkina Faso é negro. É provável que sua escalação tenha sido um espasmo politicamente correto da emissora, assim como fazem na cobertura estatal do carnaval baiano, ao desenterrar jornalistas negros ou mais melanizados de todos os lugares possíveis, para dar a impressão de que foram visíveis desde sempre. É um profissional negro, daqueles negros que inoculam diariamente a diluição da negrura na própria corrente sanguínea, na aflição de serem engolidos pelo racismo cordial. Ficam tão viciados na poção mágica que, entorpecidos frente ao poder de comunicação direta com a massa, querem passar como brancos. Brancos não são, mas é como se negros não fossem.

Podia ter caprichado na pesquisa irmão, como vocês fazem quando se trata de um país desconhecido do Leste europeu. É tanta informação que depois da transmissão esportiva a gente sai expert em História, geopolítica, economia e cultura do país focalizado. É justo, muito justo, é justíssimo! Mas os países africanos também merecem carinho.  Ah, mas quem faz a pesquisa é a produção... Em que pese o microfone estar em sua mão, não é mano?

Seria de bom alvitre que os telespectadores tivessem elementos para compreender porque os africanos são tão coloridos, como vocês gostam de dizer. O amarelo, o verde, o preto e o vermelho, presentes em várias bandeiras de países africanos (e nas roupas da torcida) são as cores do pan-africanismo, da crença na unidade política de África frente ao colonizador branco-europeu. Ideário de luta de Du Bois, Marcus Garvey, Abdias Nascimento e Bob Marley na Diáspora Africana, Kwame Nkrumah, em África. One people! One Love! Broda!

O cinema, sim, o cinema tem grande importância cultural e econômica na vida de Nigéria e Burkina Faso, países da África do Oeste, finalistas da Copa de Nações Africanas. Ouagadougou, capital de Burkina, abriga um importante festival de cinema, o FESPACO, no qual cresce a participação de cineastas afro-brasileiros a cada edição. Na Nigéria, a produção cinematográfica anual supera a de Hollywood, cujo nome serviu de inspiração para o pólo africano (Nollywood), a exemplo do Bollywood indiano. A ordem mundial de produtores de cinema é a seguinte, só para firmar: Índia em primeiro (Bollywood), EUA em segundo (Hollywood) e Nigéria em terceiro (Nollywood).

Simples, não, produção? Vocês poderiam ainda esmiuçar o tema e mostrar que a indústria cinematográfica da Nigéria desenvolveu-se como alternativa à falta de salas de cinema. É um mercado predominante de vídeos para serem assistidos em casa, passíveis de aquisição nos mais diversos pontos comerciais das cidades e lugarejos. Pode ser também que isso esteja em alguma medida relacionado com o resultado das guerras que tanto destaque merecem nas transmissões de vocês, cabe a pesquisa.
Participantes do III Encontro de Cineastas da África
e da Diáspora.
Burkina Faso (Foto: Joel Zito Araújo)

Ah... ainda sobre a Nigéria, é de lá que vem uma cultura enraizada no Brasil chamada I-o-ru-bá? Já ouviram falar, não é? Aquela tradição presente nos rituais de candomblé ridicularizados pela mídia em geral, pelos programas humorísticos etc. Da Nigéria foram retirados milhares de pessoas, escravizadas no Brasil e aqui reinventaram a cultura iorubana possível.

Quando se trata de Portugal e Brasil em competições esportivas, vocês gostam de chamá-los de países co-irmãos. Nos casos de Nigéria, Angola, Moçambique, Benin, podem chamar de mãe e filho que não será exagero. Captou produção?

Produção, agora, uma curiosidade sobre o camelo, animal muito utilizado no transporte de pessoas e coisas, ainda hoje, em Burkina. Embora já existisse no Egito antigo, o camelo passou a ser usado para a circulação de pessoas e mercadorias no deserto, a partir do século IV da nossa era, dinamizando a economia. Este simpático animal, que dizem se alimentar até de pedras, dada sua resistência, foi grande impulsor da vitalidade do comércio de curta, média e longa distância dentro do continente africano. Esse comércio permitia que os grupos humanos tivessem acesso a coisas que não produziam diretamente, bem como a novas idéias e comportamentos.

Existem outros animais em África além das zebras, girafas, crocodilos e hipopótamos fetichizados por vocês. Existe, por exemplo, o utilíssimo camelo, grande protagonista na comunicação entre a floresta e o deserto, as populações costeiras e ribeirinhas e as savanas. Sacou produção?


* escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum. Imagem: dancarinos se apresentam durante a cerimonia realizada antes da final da Copa das Nações.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Racismo no Brasil e afetos correlatos

por Cidinha da Silva*

Pilar, a vilã e Pitanga, a mocinha negra
Na novela Lado a lado três personagens femininas são centrais para pensar o tema do racismo. Laura (Marjorie Estiano), mocinha branca, filha da vilã, professora idealista e mulher divorciada, melhor amiga da mocinha negra. Constância (Patrícia Pillar), baronesa cruel, saudosa dos tempos escravistas e Isabel (Camila Pitanga), mocinha negra, arrojada, bela, libertária e pertencente a uma comunidade negra. Três excelentes atrizes potencializadas por belos papeis. Patrícia e Camila conseguem ser magistrais e ratificam o lugar de seguidoras de grandes atrizes como Fernanda Montenegro, demonstrado nas múltiplas e surpreendentes personagens que ambas vêm interpretando com competência ao longo da carreira.

Constância é protótipo da elite escravista decadente que manteve o poderio econômico, a mentalidade de subjugo aos negros e que consegue se reinventar na política, da corte imperial a família migra para o Senado.

Laura faz oposição à mãe: é humana, honesta, respeita as outras pessoas, acredita em uma sociedade igualitária e empenha-se para construí-la nas mínimas atitudes. Isabel é a rainha negra, a mulher que vence pelo trabalho artístico e emprega o dinheiro economizado durante seis anos no exterior para comprar uma casa, um teatro e construir uma escola para as crianças do Morro, do qual também é originária.

Marjorie (à dir): filha da vilã
e amiga da mocinha negra
Isabel tem um filho, fruto de relação acidental com o filho da vilã. O recém-nascido é raptado no momento do parto e trocado por um bebê morto entregue à parturiente enfraquecida pelo clorofórmio. Tudo isso planejado por Constância e executado por suas comparsas, a saber, a empregada branca e pobre que, por sua vez, contrata um homem branco que compra o corpo de um bebê para trocar pelo nascido vivo; uma parteira, também branca, reconhecida pela “habilidade” de matar crianças indesejadas no momento do nascimento e outra mulher (branca) que ajuda a parteira ao fugir com o bebê de Isabel.

Talvez o leitor ou a leitora tenha sentido certo desconforto na reiteração da branquitude das personagens da novela Lado a lado, escrita por Cláudia Lage e João Ximenes Braga. Paciência! Mas considerem que pela primeira vez há mocinhas e vilãs negras e brancas, portanto, é necessário distingui-las.

Os autores, de maneira inaugural na teledramaturgia tupiniquim rasgam, dilaceram, escancaram os privilégios dos brancos brasileiros alicerçados na exploração reiterada e arraigada dos negros ao longo de séculos. Eu não queria estar no lugar dos brancos, deve ser desconfortável mesmo. Digo isso porque outro dia, em uma dessas listas de comentários sobre o texto de alguém, li um rapaz branco reclamando do absurdo de pretenderem “culpar os brancos de hoje pelo que os de ontem fizeram, foram outros tempos e agora é bola para frente, sem olhar para o passado.” Quanto a isso, não dá para ter paciência.

Há também os que jogam no time de Laura e transformam o desconforto em atitude de mudança, em desconstrução dos privilégios da branquitude. Para estes, como para os autores da novela, flores, em que pese o tema dos afetos que ainda obsta entendimento pleno da questão.

Qual é o laivo de humanidade de Constância? O declínio da decisão de matar o neto, resolvendo entregá-lo a uma mulher (irmã da vilã negra) que pudesse criá-lo, financiada por sua generosidade. Aqui começa o problema do afeto e sua convivência harmônica com o racismo no Brasil. Constância tem pena de matar o neto mestiço (existe sentimento maternal difuso por ele), mas não titubeia em roubá-lo da mãe negra, mero ventre parideiro sem qualquer valor humano, como o ventre das mulheres outrora escravizadas por ela. E como um filho de mulher escravizada, real ou simbolicamente, também o é, Constância rouba o bebê da mãe negra, singelo capricho de senhora branca escravizadora.

ERA assim lá, naqueles tempos, e permanece assim cá, nos tempos de hoje. A discriminação racial é relativizada pelo afeto do branco pelo negro, é o carinho do senhor pelo escravo

Elias (Afonso Nascimento Neto) recebe da avó-megera quinhões mensais de atenção: dinheiro suficiente para garantir a sobrevivência de uma mulher adulta, dois adolescentes e uma criança, além de propina para a tia Berenice (Sheron Mennezes), intermediadora do negócio – cabe aqui a observação de que não deve ser muito dinheiro, é que pretos, naquela época e ainda hoje, vivem com muito pouco.

Elias recebe também olhares carinhosos. Ele é tão bonito, um tanto escurinho, é verdade, mas uma graça de menino. Às vezes até, o garotinho mestiço tem o beneplácito de aproximar-se daquela beleza radiante da avó e trocar duas ou três palavras com ela. Certa feita recebe um doce como presente e é fulminado pelo olhar de nojo da tia-avó Carlota (Christiana Guinle), também presente à cena.

Era assim lá, naqueles tempos, e permanece assim cá, nos tempos de hoje. A discriminação racial é relativizada pelo afeto do branco pelo negro, é o carinho do senhor pelo escravo, como disse tia Jurema (Zezé Barbosa). Ou você vê alguma diferença entre a postura de Constância e das patroas (sabidamente brancas) que tratam as empregadas domésticas (negras majoritariamente, não porque eu queira, mas porque assim atestam as estatísticas) como seres a quem fazem o favor de pagar salário irrisório, negam direitos trabalhistas e como compensação, doam roupas velhas e retalhos de carne para levar à casa nos finais de semana? Afora as humilhações, os palavrões, toda sorte de maus tratos e a possível iniciação sexual dos filhos ou assédio dos decrépitos maridos!

Outro aspecto importante para compreender a dinâmica do afeto como reforço da assimetria nas relações raciais, principalmente no Brasil, é a postura de Laura que, mesmo sabendo o quanto a mãe é peçonhenta, tenta relativizar o processo preparatório do veneno junto à Isabel, principal alvo da crueldade materna. Laura ouve as justificativas e explicações da mãe e surpreendentemente, tomada por amor filial, dá crédito a elas e tenta amainar o coração da amiga em relação à genitora. Isabel não aceita sequer ouvir, não tem paciência (como eu), mas Laura prossegue, é a representação da mulher branca não-racista que não compreende a ignomínia do racismo e por isso rejeita o fato de que uma igual, a mãe, a quem ela percebe como um ser humano ruim, mas humano, possa ser tão racista.

E, se Laura continuar assim, com a visão ingenuamente obliterada pelo afeto, não caminhará a humanidade, pois haverá, sempre, o carinho do escravizador pelo escravizado.


* escritora, Cidinha da Silva estreia hoje sua coluna mensal Dublê de Ogum.
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