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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Letras douradas


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

 De saída para mais uma de suas frequentes viagens a São Paulo, ouvi meu pai dizer à minha mãe: o Antenor me pediu que lhe compre uma harpa. Uma harpa! Era a coisa mais maravilhosa que eu ouvia em muito tempo. O instrumento dos anjos dos sermões do meu pai e dos discos de hinos de Natal.

Como seria uma harpa de verdade? Ela tocaria na nossa banda destrambelhada, cheia de metais, sanfonas e repiques? Isto transformaria a obrigação de ir à igreja num prazer que eu nem conseguia imaginar. Passei a sonhar o tempo todo com como soaria o dedilhar da harpa ali, diante dos meus olhos e ouvidos, e pensei que nada mais importaria. Estaríamos definitivamente salvos da dureza da vida e, com sorte, eu me livraria dos olhos que me seguiam por toda parte, verificando onde punha os pés, que fazia com as mãos, em que se fixava o meu olhar.

Depois de pensar muito, não consegui atinar em quem a tocaria. Estava certa de que os agricultores, pedreiros e encanadores da nossa banda jamais teriam a necessária elevação, a delicadeza nos dedos, o ar enlevado que certamente acompanhava qualquer pessoa que tivesse a suprema felicidade de tocar uma harpa. Mas não importava. Quando ela chegasse, tudo se solucionaria.

Quando, finalmente, meu pai voltou, e eu já estava quase explodindo de ansiedade, corri até ele e perguntei: trouxe a harpa? Trouxe, já a entreguei ao Antenor. Com uma cara de quem não entendia como eu sabia da encomenda, nem que importância poderia ter.

Então era verdade mesmo! Saí voada, aos pulos atravessei o quarteirão que nos separava da igreja, driblei um monte de gente que já transitava por ali esperando a hora do culto, perguntei aqui e ali se alguém havia visto o Antenor. Disseram que ele estava de papo na casa da zeladora, fui até lá com o coração na boca, entrei e gritei: Antenor, cadê a harpa?

Está aqui. Onde? Aqui, menina. Mas eu não via nada. Ninguém parecia se dar conta que havia chegado uma harpa! Já meio ressabiada, mas não querendo acreditar, cheguei mais perto do livro que ele estendia em minha direção. Quando olhei, estava cheio de notas musicais, e sobre a lombada de couro preto, em góticas letras douradas, li: Harpa Cristã. O hinário completo, com partituras. Uma beleza, por certo.

* * * * * *

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

8 comentários:

Carlos Augusto Medeiros disse...

KKKKKKK.....

Anônimo disse...

Pois vamos descobrir alguma apresentação de harpa, instrumento de louvor e adoração. Fica o convite para levar a mummy para matar a saudade de um tempo que..............passouuuuuu.....não volta mais.
Bjs da Mummy Dircim

Anônimo disse...

Me acabei de rir com a memória da banda destrambelhada. Ela era fantasticamente destrambelhada!!! Márcia Ester

disse...

Ju, ri muito de seu infortúnio, mas me solidarizo c/ vc na sua frustração! Também AMO harpa!

disse...

Ju, ri muito de seu infortúnio, mas me solidarizo c/ vc na sua frustração! Também AMO harpa!

disse...

Ju, ri muito de seu infortúnio, mas me solidarizo c/ vc na sua frustração! Também AMO harpa!

Montanhas, mares e culturas disse...

Muito boa a descrição. Fiquei imaginando a Junia criança (será que já usava batom vermelho? - risos) correndo para a casa do Antenor e com uma carinha de admiração quando vê um instrumento musical que inspira qualquer alma. Beijos, Marina.

Anônimo disse...

Sabe que fui com vc à casa do Antenor, atrås da harpa, que eu adoro tb?Que decepção" tivemos"!Mas a crônica é puro deleite!!!
Terê


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