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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 22 de maio de 2014

As gêmeas e o ditador

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar. Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 8)


por Fernanda Pompeu  ilustração Fernando Carvall

Ana Maria e Maria Ana tinham oito anos. Elas estudavam na Escola Galinho Carijó, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. Eram chamadas, conhecidas, referidas como as gêmeas. Tal insensibilidade dos adultos causava danos no coração das irmãs. Cada uma sentia sua individualidade roubada. Não bastasse a chatice da mãe vesti-las iguaizinhas e do pai sempre falar com elas no plural.

O fato é que a professora Eulália havia escolhido Ana Maria e Maria Ana para entregarem dois buquês de flores ao presidente da República. Ele viria inaugurar um centro de reabilitação física para crianças carentes, ligado ao Galinho Carijó. Tratava-se de evento importantíssimo, pois quantas escolas viviam o privilégio da visita do homem mais poderoso do país? Quase nenhuma.

O presidente de turno era Emílio Garrastazu Médici. Maria Ana detestou o nome Garrastazu, por difícil de pronunciar. Já Ana Maria não gostou nada da cara do senhor. Olhando o retrato do sujeito com a faixa presidencial pendurada no peito, ela lembrou (melhor, associou) com o seu Antonino da quitanda. Este havia passado a mão no corpo da menina, num abuso que ela não teve coragem de relatar para os pais.

Ou seja, se para os adultos o momento era de júbilo, para as gêmeas era constrangedor. Dona Eulália resolveu ensaiar a entrega dos buquês. Insistiu que as meninas dessem passos suaves e ritmados, "pois a suavidade e o ritmo fazem parte do feminino", ela pontuou. Depois de muito adestrar, Ana Maria e Maria Ana conseguiram.

Na véspera da visita, em casa, o tio das gêmeas resolveu contar para as sobrinhas quem era o Emílio Garrastazu Médici. Disse ele: "Trata-se de um general do Exército, estilo linha dura. Ele acoberta as torturas contra presos políticos. Sabe muito bem de mortes e desaparecimentos de opositores. Seu lado simpático é gostar de futebol e de canções nacionalistas: Eu te amo, meu Brasil, eu te amo. Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil."

No dia seguinte, estava tudo preparado para a festa. A escola colorida, as gêmeas segurando cada uma seu buquê. Mas um compromisso de última hora impediu a presença do general no Galinho Carijó. Foi triste para os professores e as mães. Mas Ana Maria e Maria Ana suspiraram de alívio. Veja só como o mundo pode ser um lugar feliz.

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

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