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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quinta-feira, 11 de julho de 2013
“Sinceramente,
por Ana Mendes Ilustração Ligia Morresi*
não sei o que fazem com o dinheiro. A gente dá comida, leite, frango e casa. Vive lá com a mulher e o filho naquele lugar lindo.
Ganham o dinheiro limpinho. Não pode trabalhar de noite, não pode emprestar o filho pra um serviço e outro, não pode.
A gente não tem como controlar o horário de trabalho deles, é impossível. E esse negócio de fundo de garantia? Complicou muito, muitíssimo. Os recibos todos assinados, tá tudo certinho, o advogado falou. Mas empregado tem sempre razão. Eu mandei a fulana embora dia 6, tudo em dia, mas ela queria mais!
Férias, fundo, aviso-prévio. E o país nessa crise que está. Eu fico apavorada quando vejo as pessoas comprando 1 tomate, 1 cebola! Tá tudo caro, aí tu quer uma faxineira e não dá. Mas também, essa gente não quer trabalhar. Estão cobrando 100 reais por uma faxina. Ganham bem. Se matam trabalhando, nada! Trabalho não mata.
Olha aqui ó, as faxineiras exploram as pessoas, elas são inteligentes. Só querem trabalhar na casa de gente solteira, onde tudo é organizado. Tá certo, né? Espertas. Eu também quero ser faxineira assim: escolhendo trabalho. Ainda mais hoje em dia que os produtos de limpeza fazem tudo por ti. Os vidros são a coisa mais fácil. O assoalho, então? Uma enceradeira e plim. Tá fácil. Mas o mundo tá mudando, não vê? Todo mundo lutando por seus direitos, é bonito isso. É bom pro país, pra colocar ordem na casa. Cada macaco no seu galho. Eu também quero meus direitos, não sou uma empresa, sou uma pessoa, trato as empregadas como se fossem da família.
Elas brincam com as crianças, comem junto com a gente. Mas e agora? Com esse monte de regra aí ficou até constrangedor, sabe? Agora tenho que dizer pra fulana, ó, fica aí no pátio uma hora sentada esperando o almoço passar. Senão depois tu vai me processar. Fica aí. É horrível."
*Ana Mendes, gaúcha de nascimento, é fotógrafa e cineasta documental formada em Ciências Sociais. Mantém a coluna Faço Foto. Ligia Morresi, designer e ilustradora, especial para o texto

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sexta-feira, 12 de abril de 2013
Ínfimo glossário contemporâneo 2
por Júnia Puglia Ilustração Fernando Vianna
Aborto – interrupção voluntária da gestação involuntária; é proibido, mas não adianta proibir, é feito assim mesmo, colocando em risco a vida de uma quantidade absurda de mulheres pobres; entendeu?
Bafômetro – engenhoca que mede, pelo bafo, a quantidade de álcool que habita o corpo da pessoa, mesmo que a própria não tenha bebido nada alcoólico, tadinha
Casamento civil – sociedade matrimonial cuja reputação andava em baixa, mas foi salva pelo movimento LGBT
CPI do Cachoeira – exuberante e copiosa cascata
Coreia do Norte – país asiático dirigido por uns sujeitos com cara de Playmobil que estão chamando os americanos para uma guerrinha nuclear; não tem a menor graça
Crossdressing – algo como “vestimenta contrária”, adotada por algumas pessoas que decidem concretizar a imagem de si mesmas que veem no espelho (ver “Laerte” abaixo); sacode neurônios até de quem os tem em mínima quantidade
Daniella Mercury – popstar baiana que dá show de coragem e integridade e ainda puxa o tapete de quem se ocupa da vida alheia
Dilma Bolada – minha Presidenta linda, chique, inteligente e competente
Elen Oléria – um sol brasiliense
Email – modalidade de comunicação digital em vias de extinção, por incrível que pareça a quem datilografava cartas com quatro cópias carbonadas há escassos 25 anos
Empregada doméstica – figura remanescente da escravidão, que foi extinta em 1888, pero no mucho (ver “madame” abaixo); definidora da sociedade brasileira como ela é; finalmente adquire o status de trabalhadora plena (!!!); o país tem com ela uma dívida incalculável
Família – papai-mamãe-filhinhos, papai-papai-filhinhos, mamãe-mamãe-filhinhos etc. etc. que se amem e se cuidem
Feliciano – furacão de estupidez, ignorância e grosseria que se situou no balcão de negócios da Câmara dos Deputados e não para de produzir catástrofes
Imunidade tributária – absurdo e abjeto privilégio de igrejas e instituições religiosas; por que elas e não você ou eu?
Lado a lado – um surto na teledramaturgia nacional; novela situada na década de 1900, mostrou as relações entre brancos e negros como elas são, com honestidade, clareza e sensibilidade; não podia ser mais atual; tudo que é bom dura pouco
Laerte – apenas o máximo
Madame – espécie em desespero com a possibilidade de ter que lavar as próprias calcinhas e assim detonar as unhas, entre outras terríveis ameaças que pairam no ar dos ambientes livres de escravas domésticas
Margaret Thatcher – amigona de Reagan e Pinochet; agora formam o Trio Parada Dura do sétimo inferno
Mimimi – mimimi mimimi mimimi
Nelson Mandela – meu grande e único herói
Relação homoafetiva – politicamente correto e muito pedante
Tomate – falsa leguminosa originária do México, essencial na culinária de muitos países; recentemente promovida a caviar no Brasil
TopBlog 2012 – prêmio brasileiro para blogs supermega duca
Yoani Sanchez – quem?
*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.
Leia também: Ínfimo glossário contemporâneo 1
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