.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Vende-se ‘alguma honestidade’ por 100 reais

Esse texto é um relato in loco de uma situação de escárnio que é tradição brasileira: a pequena corrupção.

Até aí, sem novidades.

Segunda-feira, 2, quatro horas da manhã, rodovia Ayrton Senna. Um carro é parado para averiguação numa blitz. O documento de licenciamento do veículo está vencido. O policial rodoviário diz:

- Vou checar no sistema e se não estiver regularizado o carro vai ser apreendido, tudo bem?

Perplexos com o vacilo do documento e no trecho próximo a Guararema, distantes 50 km de São Paulo não havia outra resposta:

- Ok, pode verificar.

Nos entreolhamos. Tremendo balde de água fria. Enquanto aguardávamos, outro carro parado. Era um tipo de Van grande em comboio com outros três carros menores. Parecia ser um grupo familiar voltando de viagem.

O guarda nos retorna com a má notícia:

- Tem alguém para buscar vocês? O documento está irregular. Vou ter que apreender o carro. Correto?

Não há o que fazer. O policial parece cumprir o seu papel. Tiramos as bagagens do carro. Ao pé do ouvido uma mulher conversa com outro guarda sobre o caso da Van. A mulher vai e vem. Parece levar e trazer recados. Sacamos a situação. Ninguém se propõe santo numa história assim. O transtorno era enorme. Decidimos arcar e não propor suborno. Era uma situação inédita para todos. A decisão foi rápida. Ingenuidade? Não, apenas uma escolha, uma decisão de grupo.

- Estamos errados. Mais vale a consciência tranqüila, brincamos.

O guarda volta:

- Vou deixar aqui na garagem até meio dia, assim dá tempo de vocês trazerem a documentação, não precisam arcar com o guincho e o pátio. Correto?

Agradecemos, afinal não agíamos de má fé. Além de 5 pontos na carteira uma multa de 125 reais. Se o carro fosse guinchado o valor subiria ainda mais.

Como ir embora no meio da madrugada? Vamos até a Van para pedir uma carona. Nos apresentamos ao motorista que está conversando com a mulher que falou com o policial. A suspeita se confirma.

- dá cem “cruzeiros” pra ele que vocês são liberados. Meu documento tá com problema, foi azar.

- Mas como é? É só chegar e falar, como você fez?

- Ah, tem que ser sutil. Cem “cruzeiros” e eles liberam vocês.

A mulher parece não gostar do assunto e repreende o motorista. Ela quer discrição. Está visivelmente incomodada. Nos despedimos sem carona e com a certeza do suborno. A noite estava fria. Teríamos que esperar três horas até algum ônibus aparecer. Não há tempo, já que o prazo é meio dia.

- Por favor, vocês tem algum telefone de rádio-táxi?, pergunto ao policial já dentro do posto de controle.

Três policias que estão a toa caem na gargalhada. Olho para eles e disfarçam. Fico puto, mas seguro minha indignação. Numa hora dessas é bom ter sangue frio. Entendo a risada sarcástica na seqüência. O rodoviário fala com desenvoltura com o serviço de rádio-táxi, parecem ser velhos conhecidos.

- Vou passar você para o cidadão que precisa do serviço. Combine com ele.

170 reais é a corrida para um trecho de pouco mais de 60 km. A gargalhada do grande filho-da-puta volta a minha mente. Nós tivemos escolha. Ou assumimos nosso erro e gastamos o dinheiro da “nossa responsabilidade” ou agimos com a típica desonestidade do “jeitinho brasileiro” e pagamos a “caixinha” do guarda.

- Ok. Pode nos buscar. Em quanto tempo você chega?
- Em 30 minutos estou aí.
- Tudo bem. Você sabe onde é?
- Sim, sei.

Não foi a primeira corrida e nem será a última. O motorista não revela nada. Fica a suspeita. Não existirá um esquema de porcentagem entre a empresa de rádio-táxi e os guardas em situações como essa? É só uma pergunta, nenhuma acusação.

Fim da madrugada. Caímos na estrada. Horas depois descobrimos que o carro havia sido guinchado para o pátio após a nossa saída. Porque raios o policial fingiu ser solícito dizendo que deixaria o veículo até o meio dia no posto policial?

Já em casa busco uma edição especial de Caros Amigos da qual participei em setembro de 2005. O título sugestivo diz: “Corrupção – somos todos desonestos?” No editorial do jornalista Sérgio de Souza a reflexão:

“Sabemos, desde nossa infância rica ou pobre, que a desonestidade faz parte do cotidiano dessa sociedade que, hoje, parece horrorizada ao olhar-se no espelho a partir de casos envolvendo políticos e seus partidos. (...) Como se todos não soubéssemos que tanto pequenos quanto grandes empresários fazem manobras ilícitas para recolher menos impostos do que os devidos. Como se a maioria das classes rica e média não aceitasse de bom grado a instituída proposta do “com nota ou sem nota?”. (...) Como se não estivesse consagrada a corrupção miúda, da “caixinha” para conseguir aprovação no exame de motorista, ou do pequeno suborno para não ser multado por infração em ruas ou estradas, só para falar do trânsito. Todos sabemos viver num país que deixa proliferar especialistas em driblar o Fisco, e onde se ministram cursos de lobby, essa atividade-mãe do suborno que funciona legalmente e que livremente percorre corredores e gabinetes do poder político, utilizando desde propina até lindas garotas de programa para alcançar seus objetivos. (...) A corrupção é um cenário que pode ser projetado para todo o corpo nacional, e a partir dele, idealmente, o país resolvesse caminhar para uma fase de reflexão sobre o presente e o passado, de forma a conseguir responder à pergunta que Noel Rosa já fazia em 1933 numa de suas músicas: Onde Está a Honestidade?”

São 8h horas da manhã, tento dormir. Penso no editorial. “Não nos enquadramos dessa vez”. Lembro do policial. São mais de 10 mil policiais rodoviários (estaduais e federais) em todo país. Enfim durmo... pensando na pergunta de Noel.

10 comentários:

Jucielle Leal disse...

Ei, Thiago,

já passei por uma experiência parecida na minha cidade (e olha que moro no interior, município de apenas 67 mil habitantes). Era por volta das 23 horas de uma sexta-feira (não me lembro de qual mês). Saía da casa de uma amiga em sentido ao Centro de Formiga. Por um vacilo, virei em uma rua que era contramão (na época, o Departamento Municipal de Trânsito havia mudado o sentido da via). Para a minha falta de sorte, um carro da polícia militar estava na rua e logo veio atrás, com sirene ligada. Havia dois policiais no veículo. Um deles acenou para eu parar e estacionar o uninho 97 do meu pai. O mesmo desceu, pediu os documentos do veículo e minha carteira de motorista. Antes de ele falar qualquer coisa, eu pedi desculpas pelo erro e disse que foi um vacilo, que tinha me esquecido que a tal rua havia mudado de sentido. Fiquei nervosa na hora, tremendo de medo (afinal, o carro era do meu pai. Se ocorresse alguma coisa, o clima iria engrossar na minha casa). O policial então ficou me olhando e foi logo afirmando: "Eu te conheço. O seu pai tem uma loja no Centro?" Eu disse: "não". O policial continuou: "Mas você parece ser filha de um empresário daqui. Você trabalha onde?". Eu respondi: "Não sou filha de empresário não. Meu pai é tratorista. Trabalho no jornal 'O Pergaminho'". Ele me entregou os documentos e falou: "Pode ir embora." Eu ainda perguntei: "Tem certeza?." Ele finalizou: "Sim"

Cara, fui embora pensando: então quer dizer que o fato de eu trabalhar em um jornal me isenta de ser responsabilizada por alguma coisa? Quer dizer que se eu fosse filha de "papai", de qualquer empresário medíocre de Formiga eu teria me safado de alguma penalização? Apesar de estar errada e me sentir até envergonhada da situação, contei a história para os meus amigos e meus irmãos (só meu pai que ainda não sabe. Não disse nada a ele para evitar a fadiga). Porém, contei para os outros para eles saberem o quanto a polícia da nossa cidade é estúpida. Fui embora chamando o policial de "filho da puta" e revoltada por ter me safado da situação por ser jornalista e não por ser filha de um tratorista, desconhecido da sociedade formiguense. No entanto, se eu fosse jornalista ou não, filha de empresário ou não, merecia mesmo era uma punição pelo vacilo.

inté!

Anônimo disse...

eu li e adorei pode perrece mentira uma menina da minha idade se enteresa nesse tipo de coisa e mesmo mais quando comesei le adorei sao assuntos muito conplesos mais eu adorei lei se pode

Mari disse...

Ser honesto está cada vez mais difícil, tudo conspira contra. Quando você mostra que é, riem na sua cara. Nessas horas é que dá vontade mesmo de cometer um ato desvairado de honestidade, só de raiva.
Ótimo texto, Thi.

Nê. disse...

o dia burocrático ainda durou até mais ou menos 16h, 17h. a grana que tive que gastar não foi pouca coisa. assim como o desgaste, mais pilantragem, etc... fora que perdi a noite de sono, o dia de trabalho, a fome e a paciência. cheguei em casa pensando que o filho da puta dormiu tranquilo, sem peso na consciência, enquanto eu rodava por estradas e avenidas tentando fazer milagre.
e quer saber? não me arrependo. também dormi tranquila depois, isso é o que importa.
e o serjão... sem comentários.

Meire disse...

Oi Thiago!
Ser honesto hoje em dia até parece defeito, o pior é que muitas vezes as pessoas não acham que estão sendo desonestas nos pequenos gestos, como falsificar carteira de estudante, comprar CDs piratas, por exemplo. Desde que comecei a refletir mais sobre esses pequenos delitos, me dei conta de que só mesmo com o nosso exemplo podemos provar que é possível mudar e de alguma forma atingir o todo. Desde então não compro mais CDs piratas. Recentemente roubaram um óculos de sol de dentro do meu carro em um estacionamento na Vila Madalena. Paguei o estacionamento para ser roubada! Até agora fico pensando se deveria ter tomado alguma atitude, sei lá, ligar no estacionamento e reclamar? A pergunta que fica no ar não é o que estamos fazendo de errado, mas sim o que estamos deixando de fazer de bom para reverter a situação?
Adorei o texto!
Um abraço.

Thiago Domenici disse...

Meire e Jucielle, o relato de vocês é muito bom. No meu caso, sem ter o que fazer, veio a idéia de escrever o texto. Foi o jeito que tive para denunciar, mesmo sem poder provar. Acho que todos devem, de algum jeito, do seu jeito, arrumar uma forma de tentar ser correto e denunciar, reclamar o que achar errado, o que não é justo. Acho que a pergunta da Meire é importante: "a pergunta que fica no ar não é o que estamos fazendo de errado, mas sim o que estamos deixando de fazer de bom para reverter a situação?"

Anônimo disse...

Cabaço...
...deveria ter pago!
E devem ter achado engraçado o tamanho da sua cabeça totalmente desproporcional em relação ao seu corpo e pensado: "- Este deve vestir as camisetas por baixo, igual calça!"
Bjo...

Thiago Domenici disse...

Murilo, sua primeira visita ao blog, obrigado pelo comentário gentil, meu amigo. Um beijo pra você também.

Meire disse...

Gafe...

Oi Thiago!
Tenho uma correção importantíssima a fazer sobre meu comentário anterior. Nesta semana meu pai encontrou meu óculos de sol! (Estava perdido dentro do carro...)Putz, que merda! Fiz um pré-julgamento ao acusar os manobristas do estacionamento. E já que o tema é honestidade, deixo aqui minhas desculpas. Isso me fez refletir sobre o cuidado que nós, como jornalistas, devemos ter antes de publicar qualquer informação. Que estréia maluca a minha no seu blog hein! rsrs
Continuo lendo seus textos. Muito bom! Parabéns. bjs

Thiago Domenici disse...

Oi Meire, o bom é que vc achou e que os manobristas estão isentos. Sua estréia no blog é prova de boa conduta, parabéns pra você por se retratar. Importatíssimo. Acompanhe o blog sim, comente sempre que puder. Obrigado. Thiago

Postar um comentário

Ofensas e a falta de identificação do leitor serão excluídos.

Web Analytics