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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

# Fofoqueiros

Acho muita graça quando leio que a paixão é um processo químico. A química de um bate com a química de outro e, no trancão de moléculas, aparecem juras de amor, fantasias confessáveis, bilhetes suicidas. Assim como acho curioso o uso generalizado do termo DNA. Fulano tem o DNA do desenho. Sicrana tem a ambição no DNA. O DNA do tango é argentino.

Claro está que isso são usos da linguagem. Aproximações. Pois a paixão está mais no terreno da poesia e da loucura do que no da transformação da matéria. A descoberta da dupla hélice do DNA, feita em 1953, tem tudo a ver com a ciência médica e quase nada com desenhar, ganhar dinheiro, bailar el tango.

Mas tem uma manifestação – não sei se química, física ou filosófica – capaz de dar um ou mais choquinhos de excitação. Ela sucede quando alguém nos conta que contará algo picante ou secreto sobre um outro alguém. Esse frisson tem o nome de fofoca. Palavra de origem banta, tendo como sinônimos: bisbilhotice, fuá, futrica, fuxico, intriga, mexerico, disse-me-disse.

O assunto é tão denso que a fofoca tem modalidades. Pode ser pessoal, política, intelectual, acadêmica, futebolística, televisiva, interneteira. Tem calibre: pequeno, médio ou grande. Pode ser popular, uma história cabeluda; ou de elite, uma versão. Ela também tem velocidade, se espalha como rastilho de pólvora. Quando a fofoca é muito boa, ninguém dá bola para confirmação da fonte ou de onde saiu. Basta um dizem por aí.

É certo que a fofoca tem ibope baixo no ranking dos sentimentos nobres. É feio ser fucento. É feito ser fofoqueiro. Não se deve colar o ouvido à porta ou enfiar o olho na fresta para ouvir ou ver o alheio. Bonito é ser um túmulo! Ver fulaninho sair do motel com fulaninha e não passar a informação para frente, mesmo que o fulaninho seja noivo de uma conhecida e a fulaninha, adepta da Opus Dei. O correto é beber água para aplacar a cosquinha na língua. Mas calar uma boa fofoca é igual a manter a dieta na frente de uma bandeja de brigadeiros.

A boa notícia são as redes sociais. Facebook, Orkut, Linkedin, Twitter. Magníficas janelas onde a gente pode xeretar perfis, preferências, habilidades, fotografias, ideias, currículos, gostos sem passar por mexeriqueiros. Nelas, ficamos sabendo quem segue e é seguido, quem é amigo de quem sem nenhum temor ao ditado fundamentalista: diga-me com quem andas e te direi quem és. Em suma, as redes sociais inauguram um novo paradigma, sacodem o mundo. E, pode espalhar por aí, são o nirvana da fofoca.

Fernanda Pompeu, redatora freelancer, colunista do NR e da ONGPi, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto. Leia todos os textos da autora.

Um comentário:

julio disse...

O problema agora é que se eu comentar, estarei FOFOCANDO ,,,, gostei .

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